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Cinquenta Clones Cinzas

10 de dezembro de 2012 1

Quem acompanha este blog com alguma assiduidade sabe que somos interessados em capas de livro como elementos valiosos da própria existência da obra, sejam elas desastres bregas sobre os quais é possível escrever série inteiras até coincidências curiosas entre duas capas diferentes que se parecem bastante.  A quem questiona a validade de se deter de vez em quando em uma capa de livro, é bom lembrar, sempre, que a capa de um livro é a apresentação da obra ao leitor, e muitas vezes a face “gráfica” de uma obra estará tão marcada na lembrança de um leitor quanto o conteúdo da obra (quem dentre vocês não guarda na memória até mesmo a capa de uma leitura particularmente especial ou formadora?)

E quem acompanha qualquer notícia sobre o mercado literário nos últimos meses ficou sabendo, até mesmo quem não estava muito interessado, que chegou às livrarias a trilogia Cinquenta Tons de Cinza, escrita por uma jornalista inglesa, E.L. James, e que foi logo apelidada pela mídia de “Crepúsculo para Mães”. Confesso que a primeira vez que eu li algo sobre isso, ainda quando o livro foi publicado lá fora, imaginei, confiando em um certo discernimento essencial do assim chamado “grande público”, que essa moda não ia emplacar, mas quebrei a cara, e não pela primeira vez (quando li as primeiras páginas da edição nacional da série Crepúsculo, enviadas pela editora ainda antes do filme e da febre toda, também imaginei que algo tão tosco não teria grande repercussão, e de novo me revelei um péssimo vidente).

Bueno, mas os Cinquenta Tons. Já falamos, assim como muitos outros já falaram, que o mercado editorial se orienta por um instinto de manada em busca de uma onda lucrativa. O sucesso de Harry Potter inundou as livrarias com fantasia mágica em séries novas e republicadas para pegar carona na onda, como Eragon, de Christopher Paolini, a Trilogia de Tinta, de Cornelia Funke, ou a série Percy Jackson, de Rick Riordan - esta, em particular, divide com o menino bruxo um bom número de similaridades estruturais, como já apontamos aqui. Essa primeira vaga tem contribuído para tirar o gênero do gueto a que era contido até os anos 1990. O Caçador de Pipas e O Livreiro de Cabul produziram uma infindável marola de publicações ao estilo “drama-verdade-denúncia-edificante” no Oriente Médio. Crepúsculo ditou a mais recente safra de literatura a aportar nas bancas: anódinas histórias românticas para adolescentes iludidas, temperadas com toques de horror e fantasia, como as séries Fallen, de Lauren Kate, Sussurro, de Becca Fitzpatrick ou Os Imortais, de Alyson Noël. Quem prestou alguma atenção às livrarias no último mês já deve ter percebido que começa a se ensaiar movimento semelhante com os clones da trilogia de E.L. James.

Mas o que começou com essa onda do Crepúsculo e parece se reproduzir com ainda mais veemência com a onda Cinquenta Tons… é a tentativa de direcionar o leitor incauto para “algo-parecido-com-aquela-outra-coisa-que-você-gostou” usando até mesmo um padrão gráfico e um estilo de capa muito similares aos dos fenômeno original. Senão vejamos: Cinquenta Tons de Cinza, a edição nacional da Intrínseca, aproveita as imagens de capa das edições americanas originais, todas marcadas por uma composição sóbria e um jogo de brilhos e sombras focado sobre detalhes de um elemento qualquer do jogo erótico protagonizado pelo casal principal (uma gravata, signo da masculinidade endinheirada do personagem Grey e venda em horas vagas; uma máscara de baile à fantasia e, finalmente, um par de algemas. Se bem que esta interpretação pode ser chute meu, eu não li o livro).

Pois não demorou muito para surgirem os candidatos ao “próximo Cinquenta Tons” – tentativas quase sempre infrutíferas, uma vez que esse tipo de movimento costuma abocanhar um ou outro leitor mas jamais iguala o original em termos de venda e ainda contribui para a saturação e o desgaste ainda mais rápido da “onda”. A primeira a se firmar, aparentemente, foi Toda Sua, de Sylvia Day, também uma série – o selo mais popularesco da Companhia, o Paralela, já lançou o segundo volume, Profundamente Sua (senhor…).  A emulação, aqui, é clara, trocando apenas o objeto, um sapato de salto, cor de fundo predominantemente cinza, as linhas do objeto em close, sombras e fulgores. O que realmente diferencia os dois é um uso maior do preto, algum dourado e uma chamada vagamente constrangedora na capa do livro de Sylvia Day:

O segundo volume segue o mesmo padrão, trocando o salto pelo que parece ser um bracelete cravejado de pedras coloridas. Também neste caso a capa da edição original aproveita uma imagem produzida para uma das edições lá de fora, provando que a moda do imitatio não é prerrogativa do mercado editorial brasileiro e sim uma tendência importada para as estantes locais. Outro livro lançado logo depois da chegada dos Cinquenta Tons ao Brasil que também vai na mesma linha foi Luxúria, de Eve Berlin, que apareceu por aqui em edição da Lua de Papel. Uma rápida pesquisa mostra que Eve Berlin é um pseudônimo usado por uma escritora de carreira já consolidada no mercado das histórias água-com-açúcar ao estilo Júlia-Sabrina-Bianca, o que explica porque as capas originais dos livros da autora lá fora (também é uma trilogia, a propósito, com o nome em inglês de Edge Trilogy) não só são bem diferentes da edição nacional como também poderiam concorrer a qualquer certame de capa brega. Aqui, preferiu-se uma alusão disfarçada ao mesmo padrão de capa: cinza e preto, detalhe de um objeto que remete ao jogo erótico (no caso, um corselete), além de uma chamada apelativa de efeito. A fonte do título também aposta em um itálico rebuscado que remete aos romances de banca de jornal:

Sobra espaço nessa ciranda até para que editoras com coisas vagamente semelhantes em seu catálogo queiram dar uma segunda chance a livros mais antigos que podem ser repaginados ao “estilo Cinquenta Tons“. A Record acabou de jogar nas livrarias Falsa Submissão, de Laura Reese, uma obra de apelo erótico cuja capa novamente remete ao padrão que já identificamos, um jogo entre cinza, preto, reflexos e brilhos de tom geral sóbrio (imagino que essa sobriedade toda seja para tentar passar a mensagem de que estes livros são sim sobre sexo, mas recusam a vulgaridade – o que, para mim enquanto leitor, significa que o sexo nessas obras não deve valer muito a pena – com trocadilho, por favor). Novamente, a composição é dominada por um objeto de dupla função, vestuário e fetiche, neste caso um cinto masculino.

O detalhe a levar em conta, contudo, é que Falsa Submissão é um romance de 1996, e já havia sido publicado no Brasil no fim dos anos 1990 pela mesmíssima editora, com uma capa que não tem nada a ver com a da nova edição a não ser por deixar o conteúdo erótico mais explícito ao se valer da imagem de um corpo feminino nu. O tema da “submissão” também ficava mais claro como gesto da mulher na capa, o de colocar as mãos para trás como se à espera de ser amarrada. Em tempos de “pornô para mamães”, o livro foi reembalado com o cinto fazendo as vezes de alusão bastante sutil ao tema:

Que fique bem claro que este pequeno levantamento (ops) não diz nada a respeito do conteúdo dos livros, e sim da forma como as editoras escolheram apresentá-los para o público, todos como similares uns aos outros em temperatura e tema. Provavelmente são obras bem diferentes entre sim, mas as editoras preferem, por questões mercadológicas, enviar para os leitores a mensagem, expressa já na primeira coisa à vista, a capa, de que são todos ramos da mesma árvore

Comentários (1)

  • Carlos Ismael diz: 10 de dezembro de 2012

    Cinto, gravata, máscara, algema, sapato, baton, lenços… Preto e cinza, tudo o mesmo, mas estão acabando os acessórios…

    Na onda “Crespúsculo”, o imitômetro atingiu um nível que algumas capas parecem ter usado fotos da mesma modelo com maquiagem branco defunto.

    Ou ainda absurdos como este:
    Despertar (Kelley Armstrong) – http://migre.me/cjMjf
    Despertar (Amanda Hocking) – http://migre.me/cjMka

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