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Descongelando os subzeros - parte 3

13 de dezembro de 2012 0

Mesmo com todo o calor que andou fazendo nos últimos meses, ainda não havíamos concluído nossos planos de completar o “descongelamento” da Geração Subzero.

Ok, esta foi uma piada fraquinha para justificar nosso atraso em concluir esse projeto e continuar a vida normal do blog, como retomar a regularidade das seções O Que Você Está Lendo ou Bairrismo? Conta Outra. Peço paciência aos leitores e apresento apenas minhas humildes desculpas: estivemos numa desabalada carreira nos últimos tempos para fechar o Especial Erico Verissimo (você leu?) e aí, na sequência, foi divulgada a programação da Feira do Livro, depois veio a própria Feira, em si,  aí entrei em férias e então faltou tempo para completar a redação do terceiro e do quarto posts encerrando a série de resenhas conto a conto do livro Geração Subzero. Mas voltamos ao trabalho para garantir o fim do projeto. Vamos diretamente, então, ao livro:

O Preço de uma Escolha, de Ana Cristina Rodrigues
Este texto de Ana Cristina Rodrigues faz um bem bolado cruzamento entre dois gêneros bem demarcados: a ficção científica e o policial. Em um futuro não muito bem estabelecido, no qual “o Brasil havia deixado para trás a sua histórica corrupção e a transparência da vida pública era protegida a qualquer custo” (não é FC, é utopia, pensei ao chegar neste trecho), a população convive com mutantes, batizados de Neo-Humanos, que desenvolveram habilidades extraordinárias e superpoderes. Os NHs, como também são conhecidos, devem se registrar junto a um departamento específico do governo – levando ao próximo passo lógico da questão: os que não cumprem essa norma estão cometendo um crime, mas  perseguir criminosos com esse perfil e um elenco de habilidades super-humanas exige um novo tipo de polícia, e é esse o cenário da trama, protagonizada por um delegado chamado Marcos Batista, responsável pela caçada humana a um Neo-Humano extremamente poderoso, um fugitivo que outrora fora um respeitado policial, e com quem Batista já trabalhou. O conceito e o entorno desenvolvidos por Ana Cristina são muito interessantes – eu poderia ler um romance inteiro ambientado no universo fictício da autora, mas o desenvolvimento deste conto em particular me pareceu apressado. Ana Cristina cria um caso policial que, para um desdobramento mais natural, necessitaria de mais páginas e de uma investigação policial por parte do protagonista um pouco mais elaborada antes do confronto final. Há uma grande revelação no fim da história, mas ela também não comove porque a narrativa tem de dar conta de muita coisa no intervalo exíguo de um conto: apresentar o mundo futurístico criado pela autora, explicar o que mudou no mundo com o surgimento de mutantes, criar um passado coerente para o universo retratado e ainda estruturar a investigação policial e trabalhar a relação entre os personagens principais. Esse último elemento é falho no livro, o que impede que o leitor seja impactado pelo destino das criaturas ficcionais criadas por Ana Cristina.

Polaco, de Júlio Rocha
Não havia ainda lido nada de Júlio Rocha, mas, no tocante à simples forma, ao estilo, à maneira como uma palavra se segue à outra, ele é uma das boas descobertas deste volume. Um jovem empregado de uma loja em Cordeiro, no interior do Rio, é enviado para a capital do Estado para substituir um lojista de outra filial da empresa. Vai com a cabeça cheia de expectativas por um Rio que, para ele, significa “praias, garotas de topless, bailes funk e outras cenas vistas nas novelas desde menino“. Entusiasmado, chega ao Rio querendo descobrir “onde as coisas acontecem”. Ao se apresentar na filial da loja, no Cordovil, recebe de seu gerente a informação de que a empresa não precisará dele antes do dia seguinte, e portanto ele tem a tarde de folga. Ainda curioso pelo que pretende encontrar do seu Rio imaginado, ele resolve aproveitar a noite para tentar conhecer um baile funk. Pega o endereço com uma colega e, enquanto mofa numa parada em uma rua deserta à espera de um ônibus, é apresentado a outro clichê recorrente sobre o Rio contemporâneo: sua bandidagem. Homens em um Chevette passam pelo ponto de ônibus, confundem-no com um criminoso chamado Polaco e o raptam.
O ritmo da prosa é ágil, o que colabora para a boa estruturação do suspense engendrado pela narrativa a respeito do destino que terá o protagonista confrontado com homens que estão decididos a matá-lo tomando-o por um traficante em desacerto com outros criminosos:
Quando caiu no banco de trás do Chevette, Matias chorava. O careca pegou sua camisa e levantou até a cabeça, deixando seu rosto coberto. Alguns minutos depois, estava dentro de um barraco. Frente a frente como Balanagulha, o chefe da área segundo o careca.
Tal agilidade estilística torna o conto enxuto: é um dos mais curtos da antologia, e seus eventos se sucedem vertiginosamente, os acontecimentos se avolumando não página a página, mas quase parágrafo a parágrafo. A sacada de fazer um homem sedento pelo Rio de Janeiro estereotipado da televisão encontrar não o que foi buscar, mas o outro extremo desse estereótipo também é bem pensada. O senão fica por conta da resolução para uma história que soube prender o interesse: a conclusão decepciona ao lançar mão de um pouco crível deus ex-machina.

Para Sempre em um Dia, de Helena Gomes
Uma fantasia medieval na qual Urraca, uma adolescente portuguesa, é brutalizada e assassinada por um grupo de soldados cristãos provavelmente lutando para retomar parte da península Ibérica nas mãos do invasor mouro.  Só que Urraca não perece junto com os demais habitantes de sua aldeia destruída. Sem explicação, tanto para ela quanto para o leitor (o que é um ponto positivo do conto, uma vez que uma explicação diminuiria o impacto da narrativa), Urraca permanece consciente. Não sente fome, frio, e, depois de costurar o talho na garganta deixado pela lâmina de seus degoladores, também não sente cansaço, podendo caminhar longas distâncias. Um dia, ela encontra um nobre cavaleiro que se dedica a “caçar monstros”, ferido e com os olhos arrancados por uma versão medieval de uma vampira. Urraca ajuda o rapaz que, mordido pela sanguessuga que caçava, torna-se um vampiro. Como um caçador cego não pode se virar sozinho, ambos se tornam um casal de predadores, com a desmorta ajudando o vampiro cego a caçar vítimas de quem se alimentar. 
Não é, como já apontamos, o primeiro conto desta coletânea a transplantar o gênero do horror para um contexto narrativo antigo – o próprio Vianco, um dos autores mais conhecidos e populares dentre os selecionados, tentou fazer isso neste livro, sem muito sucesso. Helena Gomes cumpre bem o desafio ao ambientar na Idade Média o que é basicamente a história de amor de um vampiro com uma zumbi. Mesmo o andamento da prosa emula com dignidade o conto medieval, uma narrativa marcada, como Calvino já havia comentado e posto em prática, pelo olhar para a ação que sucede a outra ação, fazendo a trama avançar em ritmo musical:
“Eles vieram. Cercaram a floresta pelas bordas e, em investidas certeiras, começaram a caçar um a um os membros da família de Urraca. Ela desesperou-se com cada perda, traçou estratégias de ataque e defesa, ajudou a matar um e ouro caçador. Para sua surpresa, o rapaz não reagiu como deveria.”
A prosa, a propósito, apesar de repisar gêneros e ideias, demonstra um cuidado, uma atenção ao detalhe e à precisão da palavra que tem sido pouco vistos nesta coletânea até aqui.

Outra Vez na Escuridão, de Carolina Munhóz
Este é um conto particularmente longo no conjunto da coletânea. O problema é que a prosa é tão truncada que suas 24 páginas parecem dobrar de tamanho. A história parte de um amálgama promissor entre o conceito de musa – grego na origem, como sabemos todos – e o  da “fada-amante” do folclore gaélico, a Leanan Sídhe. Basicamente, a história é uma biografia disfarçada da cantora Amy Winehouse casada a um conto de fadas sombrio. A protagonista é uma cantora chamada Jade que, nascida com um peculiar e luminoso talento musical, passa a ser alvo da atenção de uma fada chamada Sophia, que a seduz sexual e afetivamente, inspira suas canções e seu trabalho e suga a alma da artista quanto mais famosa a jovem se torna. O fim é, como foi o fim de Amy, trágico. 
A história de Carolina carrega no DNA um mote que está na origem da própria literatura ocidental, está lá na Poética de Aristóteles: a queda, no ponto mais alto de sua trajetória, de um personagem coberto das mais gloriosas benesses da vida humana. A Virtude e o Poder, na tragédia grega antiga, transformadas em Juventude, Talento e Fama no mundo das celebridades e da indústria cultural contemporânea. Há também um toque faustiano bastante promissor, uma vez que a fada fornece aquilo que a jovem acha que quer, a chance de ter suas canções ouvidas, sem informar o preço que ela terá que pagar por isso – um agravamento da melancolia que sempre esteve latente na garota.
O problema está justamente na condução dessa ideia. Para começo de conversa, a mistura de conto de fada com o universo do rock consegue gerar apenas uma fábula complacente como muitas outras histórias já publicadas sobre rock’n’roll (a que me vem mais imediatamente à cabeça é a novela 27, do alemão Kim Frank). Quando retratada por escrito, a ambição e a queda de um artista de rock parece apenas o movimento de um espírito mimado que não consegue articular de modo satisfatório seu vazio essencial, o mesmo que o impulsiona a buscar o amor das multidões de fãs, quebrando a cara no processo. É o que acontece com a Jade do conto. Talvez por ficar demasiadamente atrelada ao modelo da vida real, a psicologia atormentada da garota, como descrita no conto, parece sempre aquém, pouco crível, perdida em meio a uma prosa ao mesmo tempo pomposa e insuficiente, que tropeça em juízos sentenciosos, redundâncias e metáforas de um sentimentalismo derramado. Vamos dar uma olhada apenas no primeiro parágrafo para ilustrar:
Muito antes de os humanos conviverem com internet, celulares e televisões, sábios pressentiam quando uma estrela nascia. Uma força diferente reinava sobre a Terra, indicando que alguém especial iniciava sua jornada. Não se importavam se os chamassem de bruxos, malfeitores ou criaturas negras. Para os sábios, a bênção de sentir o poder de uma nova estrela já parecia ser o suficiente. Mal sabiam que outras criaturas mágicas também sentiam a força pulsando no mundo, feito um coração selvagem no peito de uma mulher apaixonada. Seres poderosos, mas que usavam essas estrelas para brilhar em seu céu particular. Apenas em um céu. Ato egoísta para criaturas assim…”
Há mais casos em que a prosa não cumpre o objetivo de carregar adiante as ideias que deveria veicular:
“Afinal, se todos os humanos que tocassem algum instrumento fossem inspirados uma musa, não haveria metade da população viva. Todos teriam morrido sugados pelas Leanans. O irônico era que ninguém perceberia. Afinal, quem conseguiria notar um padrão em mortes como aquelas? Algumas das vítimas não aguentavam a pressão de perder a fada e se atiravam de enormes edifícios ou davam tiros certeiros na cabeça”.
Tiros “certeiros” na cabeça? Embora nem todo tiro na cabeça seja “fatal”, quão difícil é acertar um tiro na própria cabeça para que ele precise ser qualificado de “certeiro”?

A Sabedoria de Clementina, de Vera Carvalho Assumpção
Um texto enxuto no qual a autora conta uma história ambientada na São Paulo dos tempos da Marquesa de Santos, “ex-amante do Imperador” – ou seja, em algum momento do século XIX entre 1829, quando a marquesa e Dom Pedro I romperam, e 1867, quando a dama morreu. Faço essa conta apenas para fins de datação, porque a história em si não tem nada a ver com a marquesa. Aliás, essa seria uma falha a apontar no conto: mesmo tão enxuto que parece ter quase o tamanho exato e ponderado, seu primeiro parágrafo ainda é excessivamente didático, valendo-se da enumeração de fatos de época como em um artigo enciclopédico para construir o entorno da narrativa:
“Desde que se instalara a Academia de Ciências Sociais e Jurídicas do Largo de São Francisco, eram os resquícios das estripulias dos estudantes o que mais alvoroçava a conversa. Na pacata e garoenta São Paulo, os moços revolucionavam os costumes e renovavam as fantasias, entregando-se a orgias e excessos físicos de toda espécie. Da Europa vinham ecos da era vitoriana, em São Paulo reinava a Marquesa de Santos, ex-amante do Imperador, mantenedora da maior fortuna da cidade e senhora do melhor salão. Era ela a promover saraus onde autoridades e estudantes exibiam seus dons declamatórios”.
Descontado esse senão, contudo, a história funciona muito bem. Clementina, a lavadeira negra alforriada que dá título ao conto, testemunha em suspense, como toda a população da cidade, uma série de “milagres noturnos inexplicáveis” envolvendo uma grande cruz preta posicionada na Sé. Todas as noites, algum habitante da cidade vê a cruz se deslocando pelas ruas, como se animada de vida, até as casas de determinados nobres senhores. A suspeita é que a cruz indique locais em que morem donzelas virtuosas e exemplos de fé, filhas dos proprietários. Obcecada com a ideia de ser abençoada pela visita da cruz, Clementina certo dia monta guarda até testemunhar o milagre com seus próprios olhos e compreender sua noção mais profunda. 
É um bom conto, com uma história de razoável simplicidade mas que é conduzida de modo a cativar o leitor e empurrá-lo até o fim, porque, como eu disse ali em cima, o texto é conciso, do tamanho certo para provocar aquele impacto e aquela unidade de efeito essenciais dos bons contos. É, definitivamente, um dos textos que cumpre o que, em tese, a coletânea promete desde sua concepção: a de apresentar uma história interessante que faça o leitor querer saber seu final e não se decepcione com sua conclusão.

Ufa, ficou comprido. Em breve, vamos para o último bloco de resenhas da coletânea.

Veja aqui os demais blocos de resenhas sobre a coletânea Geração Subzero:

>>> Descongelando os Subzeros, parte 2

>>> Descongelando os Subzeros, parte 1

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