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Pelos caminhos do Quixote

24 de dezembro de 2012 0

O gaúcho Ernani Ssó é o escritor de uma pérola do humor produzida no Estado, o curto romance (alguns chamariam de novela) O Sempre Lembrado, de 1989. Não deixa de ser uma boa credencial para alguém que envereda pela tradução de um dos clássicos literários mais engraçados de todos os tempos. Ssó é o autor da nova versão do Dom Quixote em português, que está chegando agora às livrarias pela Companhia das Letras, em uma caixa reunindo os dois volumes, uma cada para parte do Quixote, a original e mais antiga, datada de 1605, e a segunda parte, de modo geral menos conhecida de quem só sabe o enredo da obra, publicada em 1615 – entre outros motivos, porque o Quixote se tornara tão popular que outros escritores já estavam dando continuidade às suas aventuras à revelia de seu criador. Nesta entrevista, publicada editada no Segundo Caderno desta segunda-feira e aqui reproduzida na íntegra, ele fala sobre os desafios de traduzir a obra de Miguel de Cervantes, considerada fundadora do romance moderno e ainda capaz de encantar leitores mundo afora mesmo 400 anos após sua publicação:

Zero Hora – Como o senhor embarcou na empreitada de traduzir o Dom Quixote?
Ernani Ssó
– É uma história antiga. Aos dezessete anos, depois de uma semana folheando um manual de espanhol, tentei ler o Quixote no original. Me desiludi no primeiro parágrafo. Então fui estudar e ler autores contemporâneos, como Borges e Cortázar. Anos depois, quando a editora Civilização Brasileira publicou a tradução portuguesa dos viscondes de Castilho e Azevedo, que é do século 19, tentei de novo ler o Quixote. Achei tudo muito chato, com toda razão, por sinal, porque aquilo não é Cervantes. Além de muitos erros, como expressões idiomáticas traduzidas literalmente, muitas vezes é num português mais arcaico que o espanhol do Cervantes, com frases espichadas e uma pontuação burocrática que acaba com o ritmo do texto. O humor se perdeu inteiramente. Aí começou minha birra, ver o Quixote num português ágil e legível. Nos anos 90, quer dizer, uns trinta anos depois da minha primeira tentativa, comecei a traduzir Cervantes meio na brincadeira, pra experimentar. Fiz umas duzentas páginas e comecei a oferecer pra editoras. Quem tinha interesse, não tinha dinheiro. Quem tinha dinheiro, não tinha interesse. Até que uns treze anos mais tarde ofereci pra Penguin-Companhia, que topou na hora.

ZH – O senhor conhece as quatro traduções brasileiras do Quixote?
Ernani Ssó -
Sim, pelo direito e pelo avesso. Seria muita arrogância de minha parte ignorar as traduções anteriores, ainda mais de um livro importante e difícil assim. A primeira, de Almir de Andrade e Milton Amado, me desagrada, porque copidesca ou é literal, sem nunca se decidir. Acho interessante o que Sérgio Molina e Carlos Nougué fizeram, um tremendo jogo com a linguagem antiga, mas me sinto mais próximo da proposta de Eugênio Amado, que tentou aproximar o Quixote do leitor moderno. O engraçado é que tantas traduções de um mesmo livro, de uma língua muito semelhante ao português, tenham mais diferenças que coincidências. E, note-se, grandes diferenças às vezes.

ZH – O escritor americano Paul Auster já escreveu que a permanência do Quixote, para além de qualquer consideração mais técnica, pode ser tributada à graça e ao prazer que sua leitura proporciona. Quais suas lembranças mais marcantes de leitor do Quixote?
Ssó –
Certamente esse prazer de que fala Auster é importante. Se um livro é muito chato, mesmo que seja uma maravilha tecnicamente, terá poucos leitores, não? Mas me parece que o buraco é mais embaixo. O Quixote continua com boa saúde hoje porque lida com um dos grandes tormentos humanos, o descompasso entre nossos desejos, nosso idealismo e a realidade quase sempre brutal ou prosaica. Todos fomos dom Quixote uma hora ou outra, ou temos saudade do dom Quixote que fomos na infância e adolescência, ou ainda somos em momentos de fantasia. O toque de gênio, em minha opinião, é que Cervantes conseguiu uma ambiguidade alucinante: nossa razão sabe por que o cavaleiro está sendo espancado, mas no fundo, bem no fundo, torcemos por ele. Daí que nosso riso tem um sabor salgado. O próprio Cervantes, lá pelo fim do livro, acaba identificado com seu personagem. Esses dois livros têm tantos momentos marcantes que nem sei por onde começar.

ZH – É mais difícil transpor o ritmo e o tom em uma tradução de uma obra com tanto humor? Uma tragédia talvez oferecesse uma qualidade diversa de desafios.
SSó -
O humor é um negócio muito, muito complicado. O humor depende de síntese e agilidade, mas, antes de mais nada, de um modo específico de dizer as coisas. Veja uma frase do Nelson Rodrigues: “Nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais“. Não interessa que esteja dizendo uma idiotice. Tecnicamente é perfeita. Não seria eficaz de forma direta: “Só as mulheres normais gostam de apanhar“. Pra complicar mais a coisa, Cervantes tem jogos de palavras e piadas que dependem do contexto cultural da época. Então, se o tradutor não tiver muita paciência pra buscar a forma certa, se não tiver astúcia suficiente pra recriar certas tiradas (e recriar na mesma atmosfera do original, senão o leitor vai perceber aquilo como interferência), vai acabar tendo de explicar piada em nota de rodapé, o que, cá pra nós, é o fim da picada. Enfim, não acho que o tradutor tenha de ser um humorista pra traduzir humor, mas é bom que tenha intimidade com o gênero. Uma tragédia, se o texto não tiver muitas firulas de linguagem, vai oferecer a dificuldade de qualquer tradução. O único perigo é que termos solenes ou neutros no original soem ridículos na língua da tradução. Os trechos dramáticos do Quixote foram bem mais fáceis do que os cômicos.

ZH – O senhor comenta em seu ensaio sobre a tradução que o tempo, no caso do Quixote, talvez seja o fator mais hostil ao trabalho do tradutor. Foi difícil encontrar um léxico que preservasse a fluência e não modernizasse muito o original?
SSó
_ Nesses quatrocentos anos, o espanhol e o português se modificaram muito. Mais: se distanciaram muito um do outro. O português do Brasil inclusive se distanciou do português de Portugal. Então, se eu traduzisse Cervantes para um português arcaico, apenas os especialistas poderiam curtir o texto como realmente se deve. Mas os especialistas não precisam de tradução pra ler Cervantes. Aí começou minha sinuca: como manter o ar antigo do Quixote sem que ele ficasse ilegível para o leitor mais comum, digamos. Como atualizar a linguagem sem soar moderninho? Optei por usar apenas palavras que tivessem entrado no português escrito antes de 1900. Mas nem todas, porque algumas, como “esperto“, uma palavra do século 13, tem um peso hoje que a torna atual demais aqui no Brasil. Exemplos de atualização: Cervantes usa “requebro” no sentido de fazer galanteios, ou “discreto” no sentido de sagaz. Eu uso galanteio, eu uso sagaz. Ele usa “acaçapar“, eu uso esconder, palavra tão antiga quanto, mas mais em forma, não? Não vou dizer que isso não deu trabalho, mas deu muito menos que o humor ou a simples fluência do texto.

ZH – Ainda sobre o fator tempo: o senhor topou com muitos elementos que, passados 400 anos da publicação, hoje parecem incompreensíveis ao leitor moderno? Como os resolveu?
SSó -
Um exemplo bem simples é “Quixote se armou“. Sem consultar o dicionário, a maioria de nós pensa que dom Quixote pegou a espada e a lança. Mas não. Ele vestiu a armadura. Esse caso foi fácil de resolver, mas houve situações cabeludas, como se diz. “Echar una tela”, por exemplo. É uma expressão que quer dizer, literalmente, tecer um pano. Só que significa também fazer amor. Depois de quebrar a cabeça por meses, descobri que temos uma expressão semelhante: pintar a manta. No tempo do meu avô qualquer pessoa sabia o que isso significava. Hoje, a maior parte dos leitores teria de consultar o dicionário. Daí eu preferi usar uma expressão corrente: pintar e bordar. Eu poderia dar dezenas de exemplos como este. O que interessa dizer é que se no original havia uma expressão, eu tratei de encontrar uma correspondente, em vez de traduzir apenas o sentido ou explicar em nota de rodapé.

ZH – É mais tranquilizador ou intimidador trabalhar com um texto sobre o que tanto já se escreveu?
Ssó -
Acho que a resposta certa é intimidador. Mas a verdade é que não me senti intimidado em momento algum. Me senti desafiado, isso sim. Traduzir, como escrever, é um jogo, um grande jogo, um jogo muito divertido. Quanto mais complicado, mais divertido, me entende? Outra coisa é que Cervantes não é nada solene. Na verdade é um tremendo gozador. Daí que me senti muito à vontade. Sabe como é, eu poderia ter tomado uns tragos com ele numa taberna e falado mal do Lope de Vega. Quando terminei, estava um bagaço. Pensei que se tivesse de começar tudo de novo, não teria coragem. Mas duas semanas depois me sentia prontinho pra outra.


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