Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Algumas notas barbudas

26 de dezembro de 2012 0

1 – O primeiro motivo de alguma reflexão para este leitor de Barba Ensopada de Sangue, novo livro de Daniel Galera, foi o título. Um título, principalmente se escolhido pelo autor do livro, é um cartão de apresentação, quase um manifesto de intenções. E Barba Ensopada de Sangue é uma frase de sonoridade brutal, violenta, com ressonâncias grotescas que remetem a um thriller ou a um livro de horror. E embora Galera enverede pelo mistério neste seu novo romance, não é isso o que o livro oferece. O título pensado anteriormente para esta narrativa, já li em algum lugar, acho que na própria Granta, era Apneia (foi esse o nome dado a um dos capítulos iniciais do romance, publicado na seleção da revista americana com “os melhores escritores brasileiros sub-30 40″). A este leitor, é um título que se ajusta muito mais ao que se lê no livro, porque Galera trabalha o romance buscando no ritmo e no encadeamento da prosa e dos sucessos da narrativa uma cadência de respiração suspensa. Pouca coisa acontece de fato em boa parte da narrativa, e muito do que ocorre está comprimido nos últimos e acelerados capítulos – como se a narrativa segurasse o fôlego até o limite e então bracejasse sofregamente em busca de ar tentando encontrar a superfície atropelando o que estiver na frente (o que serve também para posicionar melhor no conjunto do enredo a explosão final de violência). Tudo isso combinaria bastante com a ideia de apneia, presente, além disso, em um bom número de páginas do romance (o avô do protagonista é citado como um homem com capacidade pulmonar sobre-humana. O jovem professor de educação física tenta imitar tal capacidade do avô e conclui que não a herdou – até que, em uma cena chave, é obrigado a provar a si mesmo e ao leitor que estava errado). Já Barba Ensopada de Sangue é uma frase colocada em uma das cenas do clímax – e parece ter sido inserida ali para justificar o título, e não o contrário. Não que isso seja assim tão importante, mas o título é uma apresentação, já mencionei, e neste livro, ao menos, a impressão que fica é análoga à que temos ao encontrar uma pessoa com um nome que não combina em nada com sua aparência – o que talvez seja mais importante do que se pensa em um livro no qual a discrepância entre nome e rosto está no centro da narrativa.

2 – Criar um personagem que se sustente por si só equivale a construir, mais do que uma persona, uma psique. E essa psique inclui elementos que devem ser moldados de forma cuidadosa se o que se pretende é uma representação adequada em um contexto realista – e, apesar da inclusão de algumas pajelanças que sugam o leitor do contexto realista para uma atmosfera em que o mágico se imiscui na rotina opressiva do personagem, o livro se estrutura na descrição o mais minuciosa e detalhista da realidade possível. Criar um personagem concreto em seus gestos e em sua formação intelectual e emocional também pressupõe uma certa honestidade com os propósitos da narrativa. Honestidade talvez soe pesado demais. Convergência, talvez fique melhor. E o fato é que, dentre as mais de 400 páginas do livro de Daniel Galera, um bom número delas é dedicado à construção da visão de mundo do personagem, e em certos momentos e diálogos, Galera praticamente tece um romance de ideias. E foi por isso que usei o termo “honestidade” tão pouco confortável. Porque calcar uma narrativa tão extensa na visão de mundo de alguém que não tem ou finge não ter os recursos intelectuais para discuti-la é um truque que permite ao autor esquivar-se dos pontos mais espinhosos do pensamento de seu personagem. Em um diálogo particularmente crucial, no fim do livro, o protagonista e a mulher que foi seu grande amor discutem a oposição determinismo x livre arbítrio. O debate é importante para este romance em particular porque, dependendo da posição que se adote, isso pode mudar o entendimento de um episódio crucial: a ex-namorada, o amor perdido do protagonista, hoje é casada com o irmão do personagem, motivo para uma relação cheia de arestas entre ambos e que contamina a família como um todo. A mulher insiste para que o protagonista perdoe seu irmão, uma vez que o próprio personagem já admitiu que, na hora do vamos ver, o poder de escolha da humanidade é menor do que se pensa, e tudo está vagamente interligado – o personagem tem até sonhos e visões premonitórias. Se o que vai acontecer é passível de ser previsto, isso diminuiria, pela lógica, a responsabilidade do agente individual, mas o personagem teima birrentamente em afirmar o contrário: 
Ninguém escolhe nada e mesmo assim a responsabilidade é nossa. É assim. Não sei explicar por quê“, diz ele à página 419. 
Pressionado pela insistência da ex-namorada, o sujeito não joga a toalha, mas invoca o fato de que não é um homem de leituras e não tem recursos para desenvolver o raciocínio e provar seu ponto de vista.
É esse um dos pontos em que Galera parece procurar a solução fácil: há um determinado número de ideias circulando no livro, mas como o personagem é meio burro ou se faz de, a incongruência da argumentação pode ser deixada de lado dentro da narrativa.

3 – Se na construção do universo mental do personagem Galera por vezes deixa a desejar pela anomia do sujeito, sua representação do universo físico é impecável. Muito se falou nos últimos anos sobre o quanto a literatura brasileira parecia ter renunciado, manietada pelo canto da sereia das teorias acadêmicas da crise de representação, à tarefa de colocar o país, um aspecto dele que seja, em suas páginas. Concordo apenas em parte, porque também para que um romance abarque um pouco que seja da realidade circundante, é necessário um talento e um trabalho pesado aparentemente além das possibilidades de muitos autores, que correm o risco de escorregar no didatismo ou comprometer a unidade da narrativa ao inserir trechos inteiros de “contextualização histórica e social” totalmente discrepantes do material narrativo propriamente dito. A maneira como Galera se desincumbe dessa missão tem algo de um drible de Garrincha: não tem nada de realmente novo, ele já fez antes e vai lá e faz de novo, e é bonito, funciona e encanta. O personagem principal sofre de uma doença que o impede de fixar o rosto de uma pessoa na memória, e portanto ele é minucioso em elencar os detalhes que possam ajudá-lo a lembrar da pessoa no futuro sem o rosto: peso, altura, gestos característicos, penteado, voz. Com esse recurso, Galera sente-se livre para recorrer às abundantes descrições do entorno e do ambiente que já estavam presentes lá atrás, em Mãos de Cavalo, um estilo de escrita tributário da prosa contemporânea em inglês, Ian McEwan, por exemplo, e, em especial, David Foster Wallace – há até o recurso às notas de rodapé para “dar voz” ao que escrevem outras personagens para o protagonista por meio de bilhetes, torpedos, e-mails. A forma como Galera retrata um balneário turístico fora de temporada como um lugar suspenso no tempo, sujeito a uma pesada melancolia, também casa muito bem com a busca central do personagem pela própria identidade (resolver o crime do avô é um pouco encontrar a si mesmo, uma vez que todos dizem que o protagonista é extremamente parecido com o parente assassinado).
Galera também se vale de um recurso que domina muito bem, o diálogo, para incluir na história temas candentes que cumprem a função desse “esboço de realidade brasileira”. É por meio dos diálogos que se fala da migração em massa de gaúchos para o litoral catarinense nos anos 1960; dos conflitos daí resultantes; do passado da localidade, atrelado à caça da baleia; do desaparecimento melancólico de um ofício ancestral, como o da pesca, cada vez mais ameaçada pela voracidade dos grandes pesqueiros e seus métodos industriais; da estagnação econômica de uma comunidade voltada para o turismo. São todos retratos absolutamente vívidos de um naco saboroso e ignorado da realidade nacional, dispostos de modo atraente e orgânico à narrativa, e saúdo Galera por isso, pela coragem de assumir uma visão precariamente totalizante em vez de enveredar pela tediosa circunvolução de seus próprios processos, como um cachorro correndo atrás do próprio rabo – é o que Elvira Vigna sugere que o autor deveria ter feito neste ensaio sobre o livro, e como é exatamente o que ela faz em seu maneirista Foi o que Deu para Fazer em Matéria de História de Amor, o conselho não me surpreende em nada.

4 – Uma nota pessoal: li o livro, coincidentemente, durante alguns dias de férias passados na Pinheira, bem ali próximo do cenário em que tudo ocorre, e foi de fato uma experiência de extrema e bela sinergia ver Galera descrevendo na ficção a região em que eu estava, também em um momento fora da alta temporada. É um toque de brilhantismo adicional o fato de que Galera cria a narrativa de um homem dedicado de forma maníaca a encontrar a sua própria identidade em um lugar que ele próprio padece da esquizofrenia inescapável do turismo sazonal: passada a alta temporada, o litoral catarinense se fecha em uma atmosfera provinciana que parece desconectada do que é no auge do verão. Mérito total de Galera. Dentre os livros que li recentemente, acho que só O Terceiro Reich, de Roberto Bolaño, retrata de modo mais acurado essa melancolia de um lugar turístico que se transforma em um vilarejo sombrio com o fim da estação.

5 – A trama, a essa altura, é bem conhecida, mas se pode recapitulá-la em duas linhas e não vai fazer mal: um personal trainer se muda para Garopaba, no litoral catarinense, buscando entender a fixação que sente pela trajetória do próprio avô, que viveu na comunidade décadas antes e que teria sido brutalmente assassinado durante um baile. Mais do que isso, faça o favor de ler a matéria do Caue Fonseca sobre o livro, aqui.

6 – A crítica que o jornalista de Veja Jerônimo Teixeira fez ao livro era deliberadamente irônica, ao falar da “atmosfera viril” do romance e encerrar a apreciação com um provocador “coisa de macho”. Li esse texto antes de ler o livro. Não sabia, portanto, se havia justiça ou não no tom algo debochado com que a resenha era tecida. O que me surpreendeu ao ler o livro, tendo em mente os trabalhos anteriores de Galera, foi que havia sim, uma certa justiça no irônico “coisa de macho”, mas não pelos motivos apontados por Jerônimo, e sim pelo retrato misógino, voluntariamente ou não, das personagens femininas na narrativa. A mãe do personagem é uma figura desagradável, dando provas de futilidade exasperantes. Jasmin, uma moça com quem o protagonista se envolve durante sua temporada na praia, é uma bela mulher, universitária, pesquisadora, ciente da história e da mentalidade dos balneários litorâneos catarinenses, mas que um belo dia surta, surta às ganhas, diante da evidência concreta de que um sonho premonitório supersticioso da cultura local possa ter validade. Não serei mais específico porque já estou entregando muita coisa. Outra jovem com quem o cara se envolve, uma garçonete, é uma mãe solteira mostrada como desmiolada e irresponsável perante o filho pequeno – felizmente nosso herói está lá para forjar com esse filho um laço genuíno e fornecer uma representação paterna que a narrativa parece entender necessária, ao menos é assim que ela se estrutura. Outra das mulheres da narrativa é uma prostituta alvo da ternura bêbada do protagonista, em uma representação bastante clichê de uma fantasia masculina de redenção da pobre mulher decaída. Mesmo a personagem que parece ter uma voz autônoma na narrativa, Viv, a ex, é uma pessoa de antemão estabelecida como indigna de confiança por haver trocado um irmão pelo outro, sendo desleal a dois paradigmas aparentemente sagrados: o da família e o da relação homem-mulher. Talvez não fosse essa a intenção do autor, não discuto, apenas elenco o quanto o acúmulo desse tipo de representação resulta em um romance que, mais do que masculino, o que em si não apresenta problema algum, resvala na caricatura machista.

7 – Li ou ouvi mais de uma pessoa manifestar cansaço pelo andamento vagaroso da narrativa ao abordar o cotidiano do personagem no balneário fora de temporada. Não concordo de modo algum. Em uma prova de segurança e domínio textual que desde já o confirmam como um dos poucos grandes autores de sua geração, Galera mantém o interesse (ao menos manteve o meu) durante toda a longa temporada na qual a estagnação do personagem afundado na própria melancolia – pelo descorno do abandono da ex, pela perda do pai, pela dificuldade das ligações estabelecidas por sua doença – vai corroendo sua sanidade. O que me incomodou foi exatamente o contrário. O quanto, ao movimentar o personagem no fim do livro, Galera parece mover o romance inteiro em direção ao seu fim com coincidências difíceis de engolir, todas elas orquestradas para uma explosão de violência catártica que parece estar ali apenas para que alguma coisa de fato aconteça. Enquanto o personagem tateia no inverno catarinense, sem saber muito bem o que vai fazer ou o que vai acontecer, a narrativa é um prazer. Quando ele se põe em movimento, em uma excursão decidida de última hora pelos morros da região debaixo de uma das piores chuvas já registradas em Santa Catarina, a coisa é de uma gratuidade tão estranha que o subsequente vaudeville de acontecimentos e coincidências assume uma aparência farsesca que de modo algum combina com o tom da narrativa, sempre solene, mirando no caráter mítico de uma epifania masculina de violência e perseverança que retoma como duplo o mito do avô que ele foi procurar na cidade.

Envie seu Comentário