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O canto da sereia

28 de dezembro de 2012 0


"É no balanço da rede..." Foto: Estevam Avellar, Globo, Divulgação


Vamos acrescentar um tom pop a este fim de ano. Como sou um cara meio desligado, custei a saber que a Globo está para estrear uma minissérie chamada O Canto da Sereia, estrelada pela Ísis Valverde no papel da própria (o que nos dá a desculpa anual para publicar um post com foto de mulher gostosa neste blog. Não me xinguem, a experiência comprova que a audiência aumenta com esses artifícios, que eu repito muito pouco).

Mas eu falava de O Canto da Sereia. Quando finalmente vi a propaganda do programa, em uma recente estada em minha cidade natal, no Interior, reconheci, pelo título e pela trama básica que se podia depreender do comercial, que a obra é uma adaptação do romance homônimo de Nelson Motta lançado em 2002 – estreia do jornalista na ficção, a tentativa de construir uma espécie de policial clássico na tórrida Bahia. Na história, Motta cria um detetive baiano, Augustão, dedicado a solucionar o assassinato de uma popular cantora de axé music em pleno Carnaval de Salvador. Já na capa o livro se definia como um “noir baiano”, uma aparente contradição ao mesclar as enfumaçadas atmosferas do romance policial com a quente e ensolarada Bahia.  Como as coisas ficam mais pasteurizadas na TV, o Augustão do livro, descrito como um baiano corpulento-quase-gordo, será encarnado na telinha pelo galã Marcos Palmeira.

E como a estreia da série, no dia 8 de janeiro próximo, é um bom pretexto para um post, recupero aqui a entrevista que fiz com o autor do livro, Nelson Motta, por ocasião do lançamento do romance, e que foi publicada no Segundo Caderno em novembro de 2002 (“Jeez, it’s been 10 years!”):

Zero Hora – Por que estrear como romancista escrevendo um policial?
Nelson Motta
– Eu estava havia dois anos buscando uma idéia para um novo livro, já meio angustiado. Logo que voltei do Carnaval da Bahia este ano, fui almoçar com minha grande amiga Patricia Mello. Foi ela que me sugeriu um romance policial no meio do Carnaval baiano, que havia me impressionado tanto. Aí se fez a luz, terminou o almoço, eu fui para casa e já comecei a escrever, seguindo as dicas que ela, como craque do gênero, me passou: “Cadáver no primeiro capítulo e assassino no último”.

ZH – Quase toda a sua obra é jornalística. Foi difícil passar para a ficção em um gênero com regras tão demarcadas quanto o policial?
Motta –
Eu adoro literatura policial, mas é muito difícil de escrever. Penei porque tem de ser tudo muito preciso. Acho que a bem da verdade os grandes romances policiais são aqueles em que a descoberta do mistério não é o centro, é uma das coisas.

ZH – A Bahia foi um cenário inusitado.
Motta
– Minha ambição foi fazer um painel de personagens da Bahia contemporânea, que mistura os tambores, a religião, o Carnaval, algo primitivo misturado a um universo high-tech, de celulares, Internet, dinheiro rolando, modernidade, esse contraste que se harmoniza muito bem na Bahia.

ZH – Há um coronel baiano em seu livro, corpulento, poderoso, com muitas características de Antônio Carlos Magalhães, que também aparece de relance como ele próprio. O coronel é ACM disfarçado?
Motta
– O meu personagem se inspira nele, claro, eu o descrevo com aquilo que eu chamo de “dengo viril”, que o ACM tem, o Caymmi também. Mas o ACM é insuperável como personagem. É impossível criar um personagem de ficção mais rico que o próprio ACM, por isso tentei diferenciar dele. O coronel Jotabê do livro é um símbolo daquela Bahia arcaica que está se modernizando para permanecer viva.

ZH – O sr. sentiu alguma dificuldade, sendo um paulista criado no Rio, para escrever sobre a cultura baiana pela voz de um personagem que nasceu e cresceu nela?
Motta
– Não, porque eu sempre fui apaixonado pela Bahia. Tive minha iniciação literária por meio de Jorge Amado e tento mostrar isso no livro, recuperar os aspectos que ainda existem daquela Bahia retratada por ele, comentando o que não existe mais, o que mudou. Tanto que o escritório de Augustão fica na Baixa do Sapateiro dos livros de Jorge Amado, em um sobrado antigo mas com um MacIntosh conectado à Internet. Ao lado,tem um cinema pornô. À frente, uma igreja evangélica.

ZH – O sr. cria em O Canto da Sereia o personagem Augustão,um detetive baiano. É possível um detetive noir na Bahia, um local que parece ser antítese dos cenários sombriosdos livros do gênero?
Motta –
O livro toca em uma das minhas obsessões, digamos, a harmonia entre contrastes. A própria ideia de um detetive baiano provoca risos. “Fala sério”, me dizem meus amigos. É uma contradição em termos. Mas é um personagem que alia a atmosfera baiana à modernidade. Eu explorei nele a simpatia baiana, a preguiça, mas associada à inteligência. No livro, o Augustão não fica correndo atrás de bandido, ele coloca grampo em telefone, compra informação da polícia, põe outros para trabalhar para ele, tem um colaborador hacker, aquela coisa: ele usa a preguiça, o ócio criativo. O Domenico de Masi (sociólogo italiano) vai se apaixonar por ele.

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