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Posts de dezembro 2012

Feliz 2013

31 de dezembro de 2012 0

Feliz Ano-Novo

insidioso como uma cobra que fuma, lá vem ele
outra vez. por entre as frestas da fechadura dessa
casa sem porta ou parede, em seu conversível
copilotado por belas beldades, lá vem ele com seus
365 dedos de raro fulgor, com seu chapeuzinho de
índio turco, ele vem para alegrar seu dia plúmbeo,
para animar o seu velório
e apaziguar seu carnaval. lá vem ele dos confins do universo onde tudo se expande e se contrai. amig@s
muit@s: com vocês, para vocês, ele mesmo:
o AnÃo GiGaNtE!!!

Poema do grande nome da poesia marginal brasileira Chacal, incluído em seu livro mais recente, Murundum (Companhia das Letras, 2012). Fica aqui para todos os leitores do Mundo Livro.

Nos vemos no ano que vem.

O canto da sereia

28 de dezembro de 2012 0


"É no balanço da rede..." Foto: Estevam Avellar, Globo, Divulgação


Vamos acrescentar um tom pop a este fim de ano. Como sou um cara meio desligado, custei a saber que a Globo está para estrear uma minissérie chamada O Canto da Sereia, estrelada pela Ísis Valverde no papel da própria (o que nos dá a desculpa anual para publicar um post com foto de mulher gostosa neste blog. Não me xinguem, a experiência comprova que a audiência aumenta com esses artifícios, que eu repito muito pouco).

Mas eu falava de O Canto da Sereia. Quando finalmente vi a propaganda do programa, em uma recente estada em minha cidade natal, no Interior, reconheci, pelo título e pela trama básica que se podia depreender do comercial, que a obra é uma adaptação do romance homônimo de Nelson Motta lançado em 2002 – estreia do jornalista na ficção, a tentativa de construir uma espécie de policial clássico na tórrida Bahia. Na história, Motta cria um detetive baiano, Augustão, dedicado a solucionar o assassinato de uma popular cantora de axé music em pleno Carnaval de Salvador. Já na capa o livro se definia como um “noir baiano”, uma aparente contradição ao mesclar as enfumaçadas atmosferas do romance policial com a quente e ensolarada Bahia.  Como as coisas ficam mais pasteurizadas na TV, o Augustão do livro, descrito como um baiano corpulento-quase-gordo, será encarnado na telinha pelo galã Marcos Palmeira.

E como a estreia da série, no dia 8 de janeiro próximo, é um bom pretexto para um post, recupero aqui a entrevista que fiz com o autor do livro, Nelson Motta, por ocasião do lançamento do romance, e que foi publicada no Segundo Caderno em novembro de 2002 (“Jeez, it’s been 10 years!”):

Zero Hora – Por que estrear como romancista escrevendo um policial?
Nelson Motta
– Eu estava havia dois anos buscando uma idéia para um novo livro, já meio angustiado. Logo que voltei do Carnaval da Bahia este ano, fui almoçar com minha grande amiga Patricia Mello. Foi ela que me sugeriu um romance policial no meio do Carnaval baiano, que havia me impressionado tanto. Aí se fez a luz, terminou o almoço, eu fui para casa e já comecei a escrever, seguindo as dicas que ela, como craque do gênero, me passou: “Cadáver no primeiro capítulo e assassino no último”.

ZH – Quase toda a sua obra é jornalística. Foi difícil passar para a ficção em um gênero com regras tão demarcadas quanto o policial?
Motta –
Eu adoro literatura policial, mas é muito difícil de escrever. Penei porque tem de ser tudo muito preciso. Acho que a bem da verdade os grandes romances policiais são aqueles em que a descoberta do mistério não é o centro, é uma das coisas.

ZH – A Bahia foi um cenário inusitado.
Motta
– Minha ambição foi fazer um painel de personagens da Bahia contemporânea, que mistura os tambores, a religião, o Carnaval, algo primitivo misturado a um universo high-tech, de celulares, Internet, dinheiro rolando, modernidade, esse contraste que se harmoniza muito bem na Bahia.

ZH – Há um coronel baiano em seu livro, corpulento, poderoso, com muitas características de Antônio Carlos Magalhães, que também aparece de relance como ele próprio. O coronel é ACM disfarçado?
Motta
– O meu personagem se inspira nele, claro, eu o descrevo com aquilo que eu chamo de “dengo viril”, que o ACM tem, o Caymmi também. Mas o ACM é insuperável como personagem. É impossível criar um personagem de ficção mais rico que o próprio ACM, por isso tentei diferenciar dele. O coronel Jotabê do livro é um símbolo daquela Bahia arcaica que está se modernizando para permanecer viva.

ZH – O sr. sentiu alguma dificuldade, sendo um paulista criado no Rio, para escrever sobre a cultura baiana pela voz de um personagem que nasceu e cresceu nela?
Motta
– Não, porque eu sempre fui apaixonado pela Bahia. Tive minha iniciação literária por meio de Jorge Amado e tento mostrar isso no livro, recuperar os aspectos que ainda existem daquela Bahia retratada por ele, comentando o que não existe mais, o que mudou. Tanto que o escritório de Augustão fica na Baixa do Sapateiro dos livros de Jorge Amado, em um sobrado antigo mas com um MacIntosh conectado à Internet. Ao lado,tem um cinema pornô. À frente, uma igreja evangélica.

ZH – O sr. cria em O Canto da Sereia o personagem Augustão,um detetive baiano. É possível um detetive noir na Bahia, um local que parece ser antítese dos cenários sombriosdos livros do gênero?
Motta –
O livro toca em uma das minhas obsessões, digamos, a harmonia entre contrastes. A própria ideia de um detetive baiano provoca risos. “Fala sério”, me dizem meus amigos. É uma contradição em termos. Mas é um personagem que alia a atmosfera baiana à modernidade. Eu explorei nele a simpatia baiana, a preguiça, mas associada à inteligência. No livro, o Augustão não fica correndo atrás de bandido, ele coloca grampo em telefone, compra informação da polícia, põe outros para trabalhar para ele, tem um colaborador hacker, aquela coisa: ele usa a preguiça, o ócio criativo. O Domenico de Masi (sociólogo italiano) vai se apaixonar por ele.

Algumas notas barbudas

26 de dezembro de 2012 0

1 – O primeiro motivo de alguma reflexão para este leitor de Barba Ensopada de Sangue, novo livro de Daniel Galera, foi o título. Um título, principalmente se escolhido pelo autor do livro, é um cartão de apresentação, quase um manifesto de intenções. E Barba Ensopada de Sangue é uma frase de sonoridade brutal, violenta, com ressonâncias grotescas que remetem a um thriller ou a um livro de horror. E embora Galera enverede pelo mistério neste seu novo romance, não é isso o que o livro oferece. O título pensado anteriormente para esta narrativa, já li em algum lugar, acho que na própria Granta, era Apneia (foi esse o nome dado a um dos capítulos iniciais do romance, publicado na seleção da revista americana com “os melhores escritores brasileiros sub-30 40″). A este leitor, é um título que se ajusta muito mais ao que se lê no livro, porque Galera trabalha o romance buscando no ritmo e no encadeamento da prosa e dos sucessos da narrativa uma cadência de respiração suspensa. Pouca coisa acontece de fato em boa parte da narrativa, e muito do que ocorre está comprimido nos últimos e acelerados capítulos – como se a narrativa segurasse o fôlego até o limite e então bracejasse sofregamente em busca de ar tentando encontrar a superfície atropelando o que estiver na frente (o que serve também para posicionar melhor no conjunto do enredo a explosão final de violência). Tudo isso combinaria bastante com a ideia de apneia, presente, além disso, em um bom número de páginas do romance (o avô do protagonista é citado como um homem com capacidade pulmonar sobre-humana. O jovem professor de educação física tenta imitar tal capacidade do avô e conclui que não a herdou – até que, em uma cena chave, é obrigado a provar a si mesmo e ao leitor que estava errado). Já Barba Ensopada de Sangue é uma frase colocada em uma das cenas do clímax – e parece ter sido inserida ali para justificar o título, e não o contrário. Não que isso seja assim tão importante, mas o título é uma apresentação, já mencionei, e neste livro, ao menos, a impressão que fica é análoga à que temos ao encontrar uma pessoa com um nome que não combina em nada com sua aparência – o que talvez seja mais importante do que se pensa em um livro no qual a discrepância entre nome e rosto está no centro da narrativa.

2 – Criar um personagem que se sustente por si só equivale a construir, mais do que uma persona, uma psique. E essa psique inclui elementos que devem ser moldados de forma cuidadosa se o que se pretende é uma representação adequada em um contexto realista – e, apesar da inclusão de algumas pajelanças que sugam o leitor do contexto realista para uma atmosfera em que o mágico se imiscui na rotina opressiva do personagem, o livro se estrutura na descrição o mais minuciosa e detalhista da realidade possível. Criar um personagem concreto em seus gestos e em sua formação intelectual e emocional também pressupõe uma certa honestidade com os propósitos da narrativa. Honestidade talvez soe pesado demais. Convergência, talvez fique melhor. E o fato é que, dentre as mais de 400 páginas do livro de Daniel Galera, um bom número delas é dedicado à construção da visão de mundo do personagem, e em certos momentos e diálogos, Galera praticamente tece um romance de ideias. E foi por isso que usei o termo “honestidade” tão pouco confortável. Porque calcar uma narrativa tão extensa na visão de mundo de alguém que não tem ou finge não ter os recursos intelectuais para discuti-la é um truque que permite ao autor esquivar-se dos pontos mais espinhosos do pensamento de seu personagem. Em um diálogo particularmente crucial, no fim do livro, o protagonista e a mulher que foi seu grande amor discutem a oposição determinismo x livre arbítrio. O debate é importante para este romance em particular porque, dependendo da posição que se adote, isso pode mudar o entendimento de um episódio crucial: a ex-namorada, o amor perdido do protagonista, hoje é casada com o irmão do personagem, motivo para uma relação cheia de arestas entre ambos e que contamina a família como um todo. A mulher insiste para que o protagonista perdoe seu irmão, uma vez que o próprio personagem já admitiu que, na hora do vamos ver, o poder de escolha da humanidade é menor do que se pensa, e tudo está vagamente interligado – o personagem tem até sonhos e visões premonitórias. Se o que vai acontecer é passível de ser previsto, isso diminuiria, pela lógica, a responsabilidade do agente individual, mas o personagem teima birrentamente em afirmar o contrário: 
Ninguém escolhe nada e mesmo assim a responsabilidade é nossa. É assim. Não sei explicar por quê“, diz ele à página 419. 
Pressionado pela insistência da ex-namorada, o sujeito não joga a toalha, mas invoca o fato de que não é um homem de leituras e não tem recursos para desenvolver o raciocínio e provar seu ponto de vista.
É esse um dos pontos em que Galera parece procurar a solução fácil: há um determinado número de ideias circulando no livro, mas como o personagem é meio burro ou se faz de, a incongruência da argumentação pode ser deixada de lado dentro da narrativa.

3 – Se na construção do universo mental do personagem Galera por vezes deixa a desejar pela anomia do sujeito, sua representação do universo físico é impecável. Muito se falou nos últimos anos sobre o quanto a literatura brasileira parecia ter renunciado, manietada pelo canto da sereia das teorias acadêmicas da crise de representação, à tarefa de colocar o país, um aspecto dele que seja, em suas páginas. Concordo apenas em parte, porque também para que um romance abarque um pouco que seja da realidade circundante, é necessário um talento e um trabalho pesado aparentemente além das possibilidades de muitos autores, que correm o risco de escorregar no didatismo ou comprometer a unidade da narrativa ao inserir trechos inteiros de “contextualização histórica e social” totalmente discrepantes do material narrativo propriamente dito. A maneira como Galera se desincumbe dessa missão tem algo de um drible de Garrincha: não tem nada de realmente novo, ele já fez antes e vai lá e faz de novo, e é bonito, funciona e encanta. O personagem principal sofre de uma doença que o impede de fixar o rosto de uma pessoa na memória, e portanto ele é minucioso em elencar os detalhes que possam ajudá-lo a lembrar da pessoa no futuro sem o rosto: peso, altura, gestos característicos, penteado, voz. Com esse recurso, Galera sente-se livre para recorrer às abundantes descrições do entorno e do ambiente que já estavam presentes lá atrás, em Mãos de Cavalo, um estilo de escrita tributário da prosa contemporânea em inglês, Ian McEwan, por exemplo, e, em especial, David Foster Wallace – há até o recurso às notas de rodapé para “dar voz” ao que escrevem outras personagens para o protagonista por meio de bilhetes, torpedos, e-mails. A forma como Galera retrata um balneário turístico fora de temporada como um lugar suspenso no tempo, sujeito a uma pesada melancolia, também casa muito bem com a busca central do personagem pela própria identidade (resolver o crime do avô é um pouco encontrar a si mesmo, uma vez que todos dizem que o protagonista é extremamente parecido com o parente assassinado).
Galera também se vale de um recurso que domina muito bem, o diálogo, para incluir na história temas candentes que cumprem a função desse “esboço de realidade brasileira”. É por meio dos diálogos que se fala da migração em massa de gaúchos para o litoral catarinense nos anos 1960; dos conflitos daí resultantes; do passado da localidade, atrelado à caça da baleia; do desaparecimento melancólico de um ofício ancestral, como o da pesca, cada vez mais ameaçada pela voracidade dos grandes pesqueiros e seus métodos industriais; da estagnação econômica de uma comunidade voltada para o turismo. São todos retratos absolutamente vívidos de um naco saboroso e ignorado da realidade nacional, dispostos de modo atraente e orgânico à narrativa, e saúdo Galera por isso, pela coragem de assumir uma visão precariamente totalizante em vez de enveredar pela tediosa circunvolução de seus próprios processos, como um cachorro correndo atrás do próprio rabo – é o que Elvira Vigna sugere que o autor deveria ter feito neste ensaio sobre o livro, e como é exatamente o que ela faz em seu maneirista Foi o que Deu para Fazer em Matéria de História de Amor, o conselho não me surpreende em nada.

4 – Uma nota pessoal: li o livro, coincidentemente, durante alguns dias de férias passados na Pinheira, bem ali próximo do cenário em que tudo ocorre, e foi de fato uma experiência de extrema e bela sinergia ver Galera descrevendo na ficção a região em que eu estava, também em um momento fora da alta temporada. É um toque de brilhantismo adicional o fato de que Galera cria a narrativa de um homem dedicado de forma maníaca a encontrar a sua própria identidade em um lugar que ele próprio padece da esquizofrenia inescapável do turismo sazonal: passada a alta temporada, o litoral catarinense se fecha em uma atmosfera provinciana que parece desconectada do que é no auge do verão. Mérito total de Galera. Dentre os livros que li recentemente, acho que só O Terceiro Reich, de Roberto Bolaño, retrata de modo mais acurado essa melancolia de um lugar turístico que se transforma em um vilarejo sombrio com o fim da estação.

5 – A trama, a essa altura, é bem conhecida, mas se pode recapitulá-la em duas linhas e não vai fazer mal: um personal trainer se muda para Garopaba, no litoral catarinense, buscando entender a fixação que sente pela trajetória do próprio avô, que viveu na comunidade décadas antes e que teria sido brutalmente assassinado durante um baile. Mais do que isso, faça o favor de ler a matéria do Caue Fonseca sobre o livro, aqui.

6 – A crítica que o jornalista de Veja Jerônimo Teixeira fez ao livro era deliberadamente irônica, ao falar da “atmosfera viril” do romance e encerrar a apreciação com um provocador “coisa de macho”. Li esse texto antes de ler o livro. Não sabia, portanto, se havia justiça ou não no tom algo debochado com que a resenha era tecida. O que me surpreendeu ao ler o livro, tendo em mente os trabalhos anteriores de Galera, foi que havia sim, uma certa justiça no irônico “coisa de macho”, mas não pelos motivos apontados por Jerônimo, e sim pelo retrato misógino, voluntariamente ou não, das personagens femininas na narrativa. A mãe do personagem é uma figura desagradável, dando provas de futilidade exasperantes. Jasmin, uma moça com quem o protagonista se envolve durante sua temporada na praia, é uma bela mulher, universitária, pesquisadora, ciente da história e da mentalidade dos balneários litorâneos catarinenses, mas que um belo dia surta, surta às ganhas, diante da evidência concreta de que um sonho premonitório supersticioso da cultura local possa ter validade. Não serei mais específico porque já estou entregando muita coisa. Outra jovem com quem o cara se envolve, uma garçonete, é uma mãe solteira mostrada como desmiolada e irresponsável perante o filho pequeno – felizmente nosso herói está lá para forjar com esse filho um laço genuíno e fornecer uma representação paterna que a narrativa parece entender necessária, ao menos é assim que ela se estrutura. Outra das mulheres da narrativa é uma prostituta alvo da ternura bêbada do protagonista, em uma representação bastante clichê de uma fantasia masculina de redenção da pobre mulher decaída. Mesmo a personagem que parece ter uma voz autônoma na narrativa, Viv, a ex, é uma pessoa de antemão estabelecida como indigna de confiança por haver trocado um irmão pelo outro, sendo desleal a dois paradigmas aparentemente sagrados: o da família e o da relação homem-mulher. Talvez não fosse essa a intenção do autor, não discuto, apenas elenco o quanto o acúmulo desse tipo de representação resulta em um romance que, mais do que masculino, o que em si não apresenta problema algum, resvala na caricatura machista.

7 – Li ou ouvi mais de uma pessoa manifestar cansaço pelo andamento vagaroso da narrativa ao abordar o cotidiano do personagem no balneário fora de temporada. Não concordo de modo algum. Em uma prova de segurança e domínio textual que desde já o confirmam como um dos poucos grandes autores de sua geração, Galera mantém o interesse (ao menos manteve o meu) durante toda a longa temporada na qual a estagnação do personagem afundado na própria melancolia – pelo descorno do abandono da ex, pela perda do pai, pela dificuldade das ligações estabelecidas por sua doença – vai corroendo sua sanidade. O que me incomodou foi exatamente o contrário. O quanto, ao movimentar o personagem no fim do livro, Galera parece mover o romance inteiro em direção ao seu fim com coincidências difíceis de engolir, todas elas orquestradas para uma explosão de violência catártica que parece estar ali apenas para que alguma coisa de fato aconteça. Enquanto o personagem tateia no inverno catarinense, sem saber muito bem o que vai fazer ou o que vai acontecer, a narrativa é um prazer. Quando ele se põe em movimento, em uma excursão decidida de última hora pelos morros da região debaixo de uma das piores chuvas já registradas em Santa Catarina, a coisa é de uma gratuidade tão estranha que o subsequente vaudeville de acontecimentos e coincidências assume uma aparência farsesca que de modo algum combina com o tom da narrativa, sempre solene, mirando no caráter mítico de uma epifania masculina de violência e perseverança que retoma como duplo o mito do avô que ele foi procurar na cidade.

Pelos caminhos do Quixote

24 de dezembro de 2012 0

O gaúcho Ernani Ssó é o escritor de uma pérola do humor produzida no Estado, o curto romance (alguns chamariam de novela) O Sempre Lembrado, de 1989. Não deixa de ser uma boa credencial para alguém que envereda pela tradução de um dos clássicos literários mais engraçados de todos os tempos. Ssó é o autor da nova versão do Dom Quixote em português, que está chegando agora às livrarias pela Companhia das Letras, em uma caixa reunindo os dois volumes, uma cada para parte do Quixote, a original e mais antiga, datada de 1605, e a segunda parte, de modo geral menos conhecida de quem só sabe o enredo da obra, publicada em 1615 – entre outros motivos, porque o Quixote se tornara tão popular que outros escritores já estavam dando continuidade às suas aventuras à revelia de seu criador. Nesta entrevista, publicada editada no Segundo Caderno desta segunda-feira e aqui reproduzida na íntegra, ele fala sobre os desafios de traduzir a obra de Miguel de Cervantes, considerada fundadora do romance moderno e ainda capaz de encantar leitores mundo afora mesmo 400 anos após sua publicação:

Zero Hora – Como o senhor embarcou na empreitada de traduzir o Dom Quixote?
Ernani Ssó
– É uma história antiga. Aos dezessete anos, depois de uma semana folheando um manual de espanhol, tentei ler o Quixote no original. Me desiludi no primeiro parágrafo. Então fui estudar e ler autores contemporâneos, como Borges e Cortázar. Anos depois, quando a editora Civilização Brasileira publicou a tradução portuguesa dos viscondes de Castilho e Azevedo, que é do século 19, tentei de novo ler o Quixote. Achei tudo muito chato, com toda razão, por sinal, porque aquilo não é Cervantes. Além de muitos erros, como expressões idiomáticas traduzidas literalmente, muitas vezes é num português mais arcaico que o espanhol do Cervantes, com frases espichadas e uma pontuação burocrática que acaba com o ritmo do texto. O humor se perdeu inteiramente. Aí começou minha birra, ver o Quixote num português ágil e legível. Nos anos 90, quer dizer, uns trinta anos depois da minha primeira tentativa, comecei a traduzir Cervantes meio na brincadeira, pra experimentar. Fiz umas duzentas páginas e comecei a oferecer pra editoras. Quem tinha interesse, não tinha dinheiro. Quem tinha dinheiro, não tinha interesse. Até que uns treze anos mais tarde ofereci pra Penguin-Companhia, que topou na hora.

ZH – O senhor conhece as quatro traduções brasileiras do Quixote?
Ernani Ssó -
Sim, pelo direito e pelo avesso. Seria muita arrogância de minha parte ignorar as traduções anteriores, ainda mais de um livro importante e difícil assim. A primeira, de Almir de Andrade e Milton Amado, me desagrada, porque copidesca ou é literal, sem nunca se decidir. Acho interessante o que Sérgio Molina e Carlos Nougué fizeram, um tremendo jogo com a linguagem antiga, mas me sinto mais próximo da proposta de Eugênio Amado, que tentou aproximar o Quixote do leitor moderno. O engraçado é que tantas traduções de um mesmo livro, de uma língua muito semelhante ao português, tenham mais diferenças que coincidências. E, note-se, grandes diferenças às vezes.

ZH – O escritor americano Paul Auster já escreveu que a permanência do Quixote, para além de qualquer consideração mais técnica, pode ser tributada à graça e ao prazer que sua leitura proporciona. Quais suas lembranças mais marcantes de leitor do Quixote?
Ssó –
Certamente esse prazer de que fala Auster é importante. Se um livro é muito chato, mesmo que seja uma maravilha tecnicamente, terá poucos leitores, não? Mas me parece que o buraco é mais embaixo. O Quixote continua com boa saúde hoje porque lida com um dos grandes tormentos humanos, o descompasso entre nossos desejos, nosso idealismo e a realidade quase sempre brutal ou prosaica. Todos fomos dom Quixote uma hora ou outra, ou temos saudade do dom Quixote que fomos na infância e adolescência, ou ainda somos em momentos de fantasia. O toque de gênio, em minha opinião, é que Cervantes conseguiu uma ambiguidade alucinante: nossa razão sabe por que o cavaleiro está sendo espancado, mas no fundo, bem no fundo, torcemos por ele. Daí que nosso riso tem um sabor salgado. O próprio Cervantes, lá pelo fim do livro, acaba identificado com seu personagem. Esses dois livros têm tantos momentos marcantes que nem sei por onde começar.

ZH – É mais difícil transpor o ritmo e o tom em uma tradução de uma obra com tanto humor? Uma tragédia talvez oferecesse uma qualidade diversa de desafios.
SSó -
O humor é um negócio muito, muito complicado. O humor depende de síntese e agilidade, mas, antes de mais nada, de um modo específico de dizer as coisas. Veja uma frase do Nelson Rodrigues: “Nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais“. Não interessa que esteja dizendo uma idiotice. Tecnicamente é perfeita. Não seria eficaz de forma direta: “Só as mulheres normais gostam de apanhar“. Pra complicar mais a coisa, Cervantes tem jogos de palavras e piadas que dependem do contexto cultural da época. Então, se o tradutor não tiver muita paciência pra buscar a forma certa, se não tiver astúcia suficiente pra recriar certas tiradas (e recriar na mesma atmosfera do original, senão o leitor vai perceber aquilo como interferência), vai acabar tendo de explicar piada em nota de rodapé, o que, cá pra nós, é o fim da picada. Enfim, não acho que o tradutor tenha de ser um humorista pra traduzir humor, mas é bom que tenha intimidade com o gênero. Uma tragédia, se o texto não tiver muitas firulas de linguagem, vai oferecer a dificuldade de qualquer tradução. O único perigo é que termos solenes ou neutros no original soem ridículos na língua da tradução. Os trechos dramáticos do Quixote foram bem mais fáceis do que os cômicos.

ZH – O senhor comenta em seu ensaio sobre a tradução que o tempo, no caso do Quixote, talvez seja o fator mais hostil ao trabalho do tradutor. Foi difícil encontrar um léxico que preservasse a fluência e não modernizasse muito o original?
SSó
_ Nesses quatrocentos anos, o espanhol e o português se modificaram muito. Mais: se distanciaram muito um do outro. O português do Brasil inclusive se distanciou do português de Portugal. Então, se eu traduzisse Cervantes para um português arcaico, apenas os especialistas poderiam curtir o texto como realmente se deve. Mas os especialistas não precisam de tradução pra ler Cervantes. Aí começou minha sinuca: como manter o ar antigo do Quixote sem que ele ficasse ilegível para o leitor mais comum, digamos. Como atualizar a linguagem sem soar moderninho? Optei por usar apenas palavras que tivessem entrado no português escrito antes de 1900. Mas nem todas, porque algumas, como “esperto“, uma palavra do século 13, tem um peso hoje que a torna atual demais aqui no Brasil. Exemplos de atualização: Cervantes usa “requebro” no sentido de fazer galanteios, ou “discreto” no sentido de sagaz. Eu uso galanteio, eu uso sagaz. Ele usa “acaçapar“, eu uso esconder, palavra tão antiga quanto, mas mais em forma, não? Não vou dizer que isso não deu trabalho, mas deu muito menos que o humor ou a simples fluência do texto.

ZH – Ainda sobre o fator tempo: o senhor topou com muitos elementos que, passados 400 anos da publicação, hoje parecem incompreensíveis ao leitor moderno? Como os resolveu?
SSó -
Um exemplo bem simples é “Quixote se armou“. Sem consultar o dicionário, a maioria de nós pensa que dom Quixote pegou a espada e a lança. Mas não. Ele vestiu a armadura. Esse caso foi fácil de resolver, mas houve situações cabeludas, como se diz. “Echar una tela”, por exemplo. É uma expressão que quer dizer, literalmente, tecer um pano. Só que significa também fazer amor. Depois de quebrar a cabeça por meses, descobri que temos uma expressão semelhante: pintar a manta. No tempo do meu avô qualquer pessoa sabia o que isso significava. Hoje, a maior parte dos leitores teria de consultar o dicionário. Daí eu preferi usar uma expressão corrente: pintar e bordar. Eu poderia dar dezenas de exemplos como este. O que interessa dizer é que se no original havia uma expressão, eu tratei de encontrar uma correspondente, em vez de traduzir apenas o sentido ou explicar em nota de rodapé.

ZH – É mais tranquilizador ou intimidador trabalhar com um texto sobre o que tanto já se escreveu?
Ssó -
Acho que a resposta certa é intimidador. Mas a verdade é que não me senti intimidado em momento algum. Me senti desafiado, isso sim. Traduzir, como escrever, é um jogo, um grande jogo, um jogo muito divertido. Quanto mais complicado, mais divertido, me entende? Outra coisa é que Cervantes não é nada solene. Na verdade é um tremendo gozador. Daí que me senti muito à vontade. Sabe como é, eu poderia ter tomado uns tragos com ele numa taberna e falado mal do Lope de Vega. Quando terminei, estava um bagaço. Pensei que se tivesse de começar tudo de novo, não teria coragem. Mas duas semanas depois me sentia prontinho pra outra.


Meu primeiro e-book

14 de dezembro de 2012 0

O iPhone no qual nosso repórter leu 'Carcereiros', de Drauzio Varella. Foto: Carlos Moreira

Texto de Caue Fonseca

Aprecio a ideia de vida .zip. Objetos que tornam o cotidiano mais prático e o apartamento mais espaçoso se compactados ao menor volume possível. Isso vale para tudo: TVs, notebooks, celulares… menos para livros. Estes, faço questão de apreciar as capas, curtir o passar de páginas, marcá-las com sachês dos cafés que sediaram minhas leituras e, ao final, de colocá-los na prateleira. Muito me orgulha a estante ainda modesta, mas já com livros sobrepostos, caoticamente organizados pelo encaixe geométrico uns aos outros.

De modo que torço o nariz para as versões eletrônicas deles, os e-books. Ao contrário de ouvir um álbum, por exemplo, a ideia de ler um romance na tela do iPhone e depois vê-lo resumido a um ícone me entristece. Mas, motivado por uma reportagem sobre o assunto e pelo atraso de uma amiga a um compromisso, resolvi comprar meu primeiro livro eletrônico à mesa de um bar. Descrevo em tópicos o que me chamou a atenção ao longo das 627 páginas (calma, elas são menores no celular) vencidas no passar de dedos pelo touchscreen.

1. Facilidade
Com 3G em boas condições e nenhum conhecimento prévio, pesquisei títulos na iBook Store, instalado automaticamente na última atualização do iPhone, e optei por Carcereiros, uma espécie de apêndice de Estação Carandiru, livro que deu fama ao médico escritor Drauzio Varella (leia entrevista com o autor aqui). Paguei US$ 12 e o livro baixou em segundos. Na tela, ele fica disponível com capa e tudo, em uma simpática prateleirinha de madeira virtual. Essa facilidade para espantar o tédio a nem tão módicos R$ 25 assusta um pouco. Como ocorre com as músicas do iTunes, é preciso resistir à compra compulsiva que só pesará no fim do mês, na fatura do cartão de crédito.

2. Velocidade
Simultaneamente a Carcereiros, comecei a ler Segundos Fora, romance bem interessante de Martín Kohan, em versão impressa. Pois desde que o autor argentino começou a concorrer com Varella, o livro virtual levou larga vantagem. A título de comparação, Carcereiros tem 262 páginas na versão impressa. Venci elas na tela do celular em dias, enquanto Segundos Fora, aqui na mochila, está parado na página 72. São dois os motivos para isso, e nenhum deles é a qualidade das narrativas.
Todo bom leitor sabe o quão importante é ter um livro sempre à mão, para horas de ócio imprevisíveis, como uma fila inesperadamente comprida (o Carlos André, dono deste blog, por exemplo, era um goleiro que costumava ler trechos sob as traves enquanto o time apertava a defesa adversária). O celular, mais compacto do que um livro e sempre à mão, otimizou essa leitura incidental. Dependendo do número de velhinhos à frente, dá pra ler um capítulo na fila para pesar as frutas.
O segundo motivo, chuto eu, é o tipo de narrativa. Fiz questão de escolher um livro de não-ficção como primeiro e-book, pois é uma leitura mais propensa a ser abandonada e retomada o tempo todo. Fosse um romance como o de Kohan, cuja história se passa em três cenários e tempos diferentes, creio que seria mais difícil de mergulhar na história dos personagens – e até de apreciar a qualidade do texto – cada vez que a namorada se maquia.

3. Consumo
Eis uma vantagem do livro impresso. Ler no celular exige a tela ligada 100% do tempo de leitura, e isso consome uma bateria medonha. Desde que comecei a ler Carcereiros, não houve dia em que o iPhone não chegasse em casa pedindo penico. Em dias em que você passará muito tempo longe de uma tomada, é preciso cancelar leituras para não correr o risco de ficar incomunicável mais tarde. E-readers com o Kindle, da Amazon, ou o Kobo, da Livraria Cultura, não têm esse problema. Mas, por servirem só para ler, eles perdem esse fator incidental de ler no telefone. A chance de ter um Kindle na mochila ou na bolsa para distrair-se em uma fila qualquer é a mesma de ter um livro físico.

4. Conforto
É besteira a história de que ler em um meio digital cansa. No trabalho, a maioria de nós já passa o dia em frente ao computador. A não ser que o sujeito seja um leitor voraz, uns minutos a mais ou a menos olhando para a telinha não fazem a menor diferença. Em ambientes escuros, como uma viagem noturna, o celular é até mais confortável, pois tem luz própria. O passar de páginas com uma mão só (em um movimento patenteado pela Apple de tão bacaninha) e o tamanho das letras tampouco incomodam, já que o telefone pode ser aproximado “das vistas”, como diriam as nossas avós.

5. Falta de charme
É pura vaidade, mas eu gosto de ser visto lendo e também de ver pessoas lendo. Pessoas interessantes leem. Uma mulher lendo, então, não sendo Cinquenta Tons de Cinza, é a dona de qualquer lugar em que eu esteja. Por outro lado, qualquer babaca brinca no celular. E quando você está praticamente dentro do aparelho distraído com a leitura, não só não parece que está lendo, como projeta a imagem de que é um daqueles louquinhos que não sai do Facebook. A mesma falta de charme se estende à ausência do livro na estante após a leitura. Ler um e-book, portanto, é consolar-se com o ser interessante sem parecer interessante. E, poxa vida, isso faz toda a diferença.

* A equipe do blog agradece a Larissa Roso o empréstimo do celular com o qual foi tirada a foto que ilustra este post

Descongelando os subzeros - parte 3

13 de dezembro de 2012 0

Mesmo com todo o calor que andou fazendo nos últimos meses, ainda não havíamos concluído nossos planos de completar o “descongelamento” da Geração Subzero.

Ok, esta foi uma piada fraquinha para justificar nosso atraso em concluir esse projeto e continuar a vida normal do blog, como retomar a regularidade das seções O Que Você Está Lendo ou Bairrismo? Conta Outra. Peço paciência aos leitores e apresento apenas minhas humildes desculpas: estivemos numa desabalada carreira nos últimos tempos para fechar o Especial Erico Verissimo (você leu?) e aí, na sequência, foi divulgada a programação da Feira do Livro, depois veio a própria Feira, em si,  aí entrei em férias e então faltou tempo para completar a redação do terceiro e do quarto posts encerrando a série de resenhas conto a conto do livro Geração Subzero. Mas voltamos ao trabalho para garantir o fim do projeto. Vamos diretamente, então, ao livro:

O Preço de uma Escolha, de Ana Cristina Rodrigues
Este texto de Ana Cristina Rodrigues faz um bem bolado cruzamento entre dois gêneros bem demarcados: a ficção científica e o policial. Em um futuro não muito bem estabelecido, no qual “o Brasil havia deixado para trás a sua histórica corrupção e a transparência da vida pública era protegida a qualquer custo” (não é FC, é utopia, pensei ao chegar neste trecho), a população convive com mutantes, batizados de Neo-Humanos, que desenvolveram habilidades extraordinárias e superpoderes. Os NHs, como também são conhecidos, devem se registrar junto a um departamento específico do governo – levando ao próximo passo lógico da questão: os que não cumprem essa norma estão cometendo um crime, mas  perseguir criminosos com esse perfil e um elenco de habilidades super-humanas exige um novo tipo de polícia, e é esse o cenário da trama, protagonizada por um delegado chamado Marcos Batista, responsável pela caçada humana a um Neo-Humano extremamente poderoso, um fugitivo que outrora fora um respeitado policial, e com quem Batista já trabalhou. O conceito e o entorno desenvolvidos por Ana Cristina são muito interessantes – eu poderia ler um romance inteiro ambientado no universo fictício da autora, mas o desenvolvimento deste conto em particular me pareceu apressado. Ana Cristina cria um caso policial que, para um desdobramento mais natural, necessitaria de mais páginas e de uma investigação policial por parte do protagonista um pouco mais elaborada antes do confronto final. Há uma grande revelação no fim da história, mas ela também não comove porque a narrativa tem de dar conta de muita coisa no intervalo exíguo de um conto: apresentar o mundo futurístico criado pela autora, explicar o que mudou no mundo com o surgimento de mutantes, criar um passado coerente para o universo retratado e ainda estruturar a investigação policial e trabalhar a relação entre os personagens principais. Esse último elemento é falho no livro, o que impede que o leitor seja impactado pelo destino das criaturas ficcionais criadas por Ana Cristina.

Polaco, de Júlio Rocha
Não havia ainda lido nada de Júlio Rocha, mas, no tocante à simples forma, ao estilo, à maneira como uma palavra se segue à outra, ele é uma das boas descobertas deste volume. Um jovem empregado de uma loja em Cordeiro, no interior do Rio, é enviado para a capital do Estado para substituir um lojista de outra filial da empresa. Vai com a cabeça cheia de expectativas por um Rio que, para ele, significa “praias, garotas de topless, bailes funk e outras cenas vistas nas novelas desde menino“. Entusiasmado, chega ao Rio querendo descobrir “onde as coisas acontecem”. Ao se apresentar na filial da loja, no Cordovil, recebe de seu gerente a informação de que a empresa não precisará dele antes do dia seguinte, e portanto ele tem a tarde de folga. Ainda curioso pelo que pretende encontrar do seu Rio imaginado, ele resolve aproveitar a noite para tentar conhecer um baile funk. Pega o endereço com uma colega e, enquanto mofa numa parada em uma rua deserta à espera de um ônibus, é apresentado a outro clichê recorrente sobre o Rio contemporâneo: sua bandidagem. Homens em um Chevette passam pelo ponto de ônibus, confundem-no com um criminoso chamado Polaco e o raptam.
O ritmo da prosa é ágil, o que colabora para a boa estruturação do suspense engendrado pela narrativa a respeito do destino que terá o protagonista confrontado com homens que estão decididos a matá-lo tomando-o por um traficante em desacerto com outros criminosos:
Quando caiu no banco de trás do Chevette, Matias chorava. O careca pegou sua camisa e levantou até a cabeça, deixando seu rosto coberto. Alguns minutos depois, estava dentro de um barraco. Frente a frente como Balanagulha, o chefe da área segundo o careca.
Tal agilidade estilística torna o conto enxuto: é um dos mais curtos da antologia, e seus eventos se sucedem vertiginosamente, os acontecimentos se avolumando não página a página, mas quase parágrafo a parágrafo. A sacada de fazer um homem sedento pelo Rio de Janeiro estereotipado da televisão encontrar não o que foi buscar, mas o outro extremo desse estereótipo também é bem pensada. O senão fica por conta da resolução para uma história que soube prender o interesse: a conclusão decepciona ao lançar mão de um pouco crível deus ex-machina.

Para Sempre em um Dia, de Helena Gomes
Uma fantasia medieval na qual Urraca, uma adolescente portuguesa, é brutalizada e assassinada por um grupo de soldados cristãos provavelmente lutando para retomar parte da península Ibérica nas mãos do invasor mouro.  Só que Urraca não perece junto com os demais habitantes de sua aldeia destruída. Sem explicação, tanto para ela quanto para o leitor (o que é um ponto positivo do conto, uma vez que uma explicação diminuiria o impacto da narrativa), Urraca permanece consciente. Não sente fome, frio, e, depois de costurar o talho na garganta deixado pela lâmina de seus degoladores, também não sente cansaço, podendo caminhar longas distâncias. Um dia, ela encontra um nobre cavaleiro que se dedica a “caçar monstros”, ferido e com os olhos arrancados por uma versão medieval de uma vampira. Urraca ajuda o rapaz que, mordido pela sanguessuga que caçava, torna-se um vampiro. Como um caçador cego não pode se virar sozinho, ambos se tornam um casal de predadores, com a desmorta ajudando o vampiro cego a caçar vítimas de quem se alimentar. 
Não é, como já apontamos, o primeiro conto desta coletânea a transplantar o gênero do horror para um contexto narrativo antigo – o próprio Vianco, um dos autores mais conhecidos e populares dentre os selecionados, tentou fazer isso neste livro, sem muito sucesso. Helena Gomes cumpre bem o desafio ao ambientar na Idade Média o que é basicamente a história de amor de um vampiro com uma zumbi. Mesmo o andamento da prosa emula com dignidade o conto medieval, uma narrativa marcada, como Calvino já havia comentado e posto em prática, pelo olhar para a ação que sucede a outra ação, fazendo a trama avançar em ritmo musical:
“Eles vieram. Cercaram a floresta pelas bordas e, em investidas certeiras, começaram a caçar um a um os membros da família de Urraca. Ela desesperou-se com cada perda, traçou estratégias de ataque e defesa, ajudou a matar um e ouro caçador. Para sua surpresa, o rapaz não reagiu como deveria.”
A prosa, a propósito, apesar de repisar gêneros e ideias, demonstra um cuidado, uma atenção ao detalhe e à precisão da palavra que tem sido pouco vistos nesta coletânea até aqui.

Outra Vez na Escuridão, de Carolina Munhóz
Este é um conto particularmente longo no conjunto da coletânea. O problema é que a prosa é tão truncada que suas 24 páginas parecem dobrar de tamanho. A história parte de um amálgama promissor entre o conceito de musa – grego na origem, como sabemos todos – e o  da “fada-amante” do folclore gaélico, a Leanan Sídhe. Basicamente, a história é uma biografia disfarçada da cantora Amy Winehouse casada a um conto de fadas sombrio. A protagonista é uma cantora chamada Jade que, nascida com um peculiar e luminoso talento musical, passa a ser alvo da atenção de uma fada chamada Sophia, que a seduz sexual e afetivamente, inspira suas canções e seu trabalho e suga a alma da artista quanto mais famosa a jovem se torna. O fim é, como foi o fim de Amy, trágico. 
A história de Carolina carrega no DNA um mote que está na origem da própria literatura ocidental, está lá na Poética de Aristóteles: a queda, no ponto mais alto de sua trajetória, de um personagem coberto das mais gloriosas benesses da vida humana. A Virtude e o Poder, na tragédia grega antiga, transformadas em Juventude, Talento e Fama no mundo das celebridades e da indústria cultural contemporânea. Há também um toque faustiano bastante promissor, uma vez que a fada fornece aquilo que a jovem acha que quer, a chance de ter suas canções ouvidas, sem informar o preço que ela terá que pagar por isso – um agravamento da melancolia que sempre esteve latente na garota.
O problema está justamente na condução dessa ideia. Para começo de conversa, a mistura de conto de fada com o universo do rock consegue gerar apenas uma fábula complacente como muitas outras histórias já publicadas sobre rock’n’roll (a que me vem mais imediatamente à cabeça é a novela 27, do alemão Kim Frank). Quando retratada por escrito, a ambição e a queda de um artista de rock parece apenas o movimento de um espírito mimado que não consegue articular de modo satisfatório seu vazio essencial, o mesmo que o impulsiona a buscar o amor das multidões de fãs, quebrando a cara no processo. É o que acontece com a Jade do conto. Talvez por ficar demasiadamente atrelada ao modelo da vida real, a psicologia atormentada da garota, como descrita no conto, parece sempre aquém, pouco crível, perdida em meio a uma prosa ao mesmo tempo pomposa e insuficiente, que tropeça em juízos sentenciosos, redundâncias e metáforas de um sentimentalismo derramado. Vamos dar uma olhada apenas no primeiro parágrafo para ilustrar:
Muito antes de os humanos conviverem com internet, celulares e televisões, sábios pressentiam quando uma estrela nascia. Uma força diferente reinava sobre a Terra, indicando que alguém especial iniciava sua jornada. Não se importavam se os chamassem de bruxos, malfeitores ou criaturas negras. Para os sábios, a bênção de sentir o poder de uma nova estrela já parecia ser o suficiente. Mal sabiam que outras criaturas mágicas também sentiam a força pulsando no mundo, feito um coração selvagem no peito de uma mulher apaixonada. Seres poderosos, mas que usavam essas estrelas para brilhar em seu céu particular. Apenas em um céu. Ato egoísta para criaturas assim…”
Há mais casos em que a prosa não cumpre o objetivo de carregar adiante as ideias que deveria veicular:
“Afinal, se todos os humanos que tocassem algum instrumento fossem inspirados uma musa, não haveria metade da população viva. Todos teriam morrido sugados pelas Leanans. O irônico era que ninguém perceberia. Afinal, quem conseguiria notar um padrão em mortes como aquelas? Algumas das vítimas não aguentavam a pressão de perder a fada e se atiravam de enormes edifícios ou davam tiros certeiros na cabeça”.
Tiros “certeiros” na cabeça? Embora nem todo tiro na cabeça seja “fatal”, quão difícil é acertar um tiro na própria cabeça para que ele precise ser qualificado de “certeiro”?

A Sabedoria de Clementina, de Vera Carvalho Assumpção
Um texto enxuto no qual a autora conta uma história ambientada na São Paulo dos tempos da Marquesa de Santos, “ex-amante do Imperador” – ou seja, em algum momento do século XIX entre 1829, quando a marquesa e Dom Pedro I romperam, e 1867, quando a dama morreu. Faço essa conta apenas para fins de datação, porque a história em si não tem nada a ver com a marquesa. Aliás, essa seria uma falha a apontar no conto: mesmo tão enxuto que parece ter quase o tamanho exato e ponderado, seu primeiro parágrafo ainda é excessivamente didático, valendo-se da enumeração de fatos de época como em um artigo enciclopédico para construir o entorno da narrativa:
“Desde que se instalara a Academia de Ciências Sociais e Jurídicas do Largo de São Francisco, eram os resquícios das estripulias dos estudantes o que mais alvoroçava a conversa. Na pacata e garoenta São Paulo, os moços revolucionavam os costumes e renovavam as fantasias, entregando-se a orgias e excessos físicos de toda espécie. Da Europa vinham ecos da era vitoriana, em São Paulo reinava a Marquesa de Santos, ex-amante do Imperador, mantenedora da maior fortuna da cidade e senhora do melhor salão. Era ela a promover saraus onde autoridades e estudantes exibiam seus dons declamatórios”.
Descontado esse senão, contudo, a história funciona muito bem. Clementina, a lavadeira negra alforriada que dá título ao conto, testemunha em suspense, como toda a população da cidade, uma série de “milagres noturnos inexplicáveis” envolvendo uma grande cruz preta posicionada na Sé. Todas as noites, algum habitante da cidade vê a cruz se deslocando pelas ruas, como se animada de vida, até as casas de determinados nobres senhores. A suspeita é que a cruz indique locais em que morem donzelas virtuosas e exemplos de fé, filhas dos proprietários. Obcecada com a ideia de ser abençoada pela visita da cruz, Clementina certo dia monta guarda até testemunhar o milagre com seus próprios olhos e compreender sua noção mais profunda. 
É um bom conto, com uma história de razoável simplicidade mas que é conduzida de modo a cativar o leitor e empurrá-lo até o fim, porque, como eu disse ali em cima, o texto é conciso, do tamanho certo para provocar aquele impacto e aquela unidade de efeito essenciais dos bons contos. É, definitivamente, um dos textos que cumpre o que, em tese, a coletânea promete desde sua concepção: a de apresentar uma história interessante que faça o leitor querer saber seu final e não se decepcione com sua conclusão.

Ufa, ficou comprido. Em breve, vamos para o último bloco de resenhas da coletânea.

Veja aqui os demais blocos de resenhas sobre a coletânea Geração Subzero:

>>> Descongelando os Subzeros, parte 2

>>> Descongelando os Subzeros, parte 1

Os vencedores do Prêmio Açorianos 2012

11 de dezembro de 2012 0

A Coordenação do Livro e Literatura da Secretaria Municipal de Porto Alegre divulgou ontem, na Noite do Livro, a lista dos vencedores do Prêmio Açorianos de Literatura.  O Livro do Ano eleito pelo júri foi a coletânea de ensaios Afrontar Fronteiras, de Donaldo Schüler, que retoma em artigos algumas das discussões trazidas a Porto Alegre pelos convidados do projeto Fronteiras do Pensamento – do qual Donaldo Schüler é curador cultural.

O vencedor na categoria Criação Literária, que todo ano premia um original de algum gênero não publicado com um montante em dinheiro e com a edição da obra em livro, protagonizou uma nota curiosa. O prêmio este ano contemplava livros de poesia. O vencedor, entrechos ou valas do silêncio, de Guto Leite, também já havia vencido o concurso do IEL para ser editado pela Coleção Originais do Instituto, a mesma que lançou nove títulos recentemente de nomes como Nei Duclós ou Lourenço Cazarré. Nos exemplares da coleção, inclusive, ainda consta o nome do livro de Guto Leite como uma das obras ainda por publicar na série. De acordo com a diretora do IEL, a escritora Laís Chaffe, não havia nada nos editais da Coleção Originais que exigisse que os livros inscritos não pudessem ser apresentados a outros concursos semelhantes. Agora, o livro de Leite será publicado como vencedor no Açorianos, e não sairá mais pela coleção do Instituto.

Veja abaixo a lista dos vencedores do Açorianos 2012, com um link para resenhas de alguns deles quando já abordamos o livro aqui no blog:

LIVRO DO ANO
Afrontar Fronteiras, de Donaldo Schüler (Movimento).

NARRATIVA LONGA
Neptuno, de Leticia Wierzchowski (Record)

CONTO
Enquanto Água, de Altair Martins (Record)

CRÔNICA
Borralheiro: Minha Viagem pela Casa, de Fabricio Carpinejar (Bertrand Brasil)

POESIA
A Chama Azul, de Maria Carpi (AGE)

INFANTIL
Maria Teresa e o Javali, de Gustavo Finkler (Projeto)

INFANTOJUVENIL
Decifrando Ângelo, de Luís Dill (Scipione)

CAPA
Juliana Dischke por A Primeira Vez que Vi Meu Pai (Artes e Ofícios), de Márcia Leite.

PROJETO GRÁFICO
Joãocaré e Juliana Dischke, por A Primeira Vez que Vi Meu Pai (Artes e Ofícios), de Márcia Leite.

ENSAIO DE LITERATURA E HUMANIDADES
Afrontar Fronteiras, de Donaldo Schüler (Movimento).

ESPECIAL
O Tempo e o Rio Grande nas Imagens do Arquivo Histórico do RS, organização de Rejane Penna (IEL)

CRIAÇÃO LITERÁRIA – POESIA
entrechos ou valas do silêncio, de Guto Leite.


Cinquenta Clones Cinzas

10 de dezembro de 2012 1

Quem acompanha este blog com alguma assiduidade sabe que somos interessados em capas de livro como elementos valiosos da própria existência da obra, sejam elas desastres bregas sobre os quais é possível escrever série inteiras até coincidências curiosas entre duas capas diferentes que se parecem bastante.  A quem questiona a validade de se deter de vez em quando em uma capa de livro, é bom lembrar, sempre, que a capa de um livro é a apresentação da obra ao leitor, e muitas vezes a face “gráfica” de uma obra estará tão marcada na lembrança de um leitor quanto o conteúdo da obra (quem dentre vocês não guarda na memória até mesmo a capa de uma leitura particularmente especial ou formadora?)

E quem acompanha qualquer notícia sobre o mercado literário nos últimos meses ficou sabendo, até mesmo quem não estava muito interessado, que chegou às livrarias a trilogia Cinquenta Tons de Cinza, escrita por uma jornalista inglesa, E.L. James, e que foi logo apelidada pela mídia de “Crepúsculo para Mães”. Confesso que a primeira vez que eu li algo sobre isso, ainda quando o livro foi publicado lá fora, imaginei, confiando em um certo discernimento essencial do assim chamado “grande público”, que essa moda não ia emplacar, mas quebrei a cara, e não pela primeira vez (quando li as primeiras páginas da edição nacional da série Crepúsculo, enviadas pela editora ainda antes do filme e da febre toda, também imaginei que algo tão tosco não teria grande repercussão, e de novo me revelei um péssimo vidente).

Bueno, mas os Cinquenta Tons. Já falamos, assim como muitos outros já falaram, que o mercado editorial se orienta por um instinto de manada em busca de uma onda lucrativa. O sucesso de Harry Potter inundou as livrarias com fantasia mágica em séries novas e republicadas para pegar carona na onda, como Eragon, de Christopher Paolini, a Trilogia de Tinta, de Cornelia Funke, ou a série Percy Jackson, de Rick Riordan - esta, em particular, divide com o menino bruxo um bom número de similaridades estruturais, como já apontamos aqui. Essa primeira vaga tem contribuído para tirar o gênero do gueto a que era contido até os anos 1990. O Caçador de Pipas e O Livreiro de Cabul produziram uma infindável marola de publicações ao estilo “drama-verdade-denúncia-edificante” no Oriente Médio. Crepúsculo ditou a mais recente safra de literatura a aportar nas bancas: anódinas histórias românticas para adolescentes iludidas, temperadas com toques de horror e fantasia, como as séries Fallen, de Lauren Kate, Sussurro, de Becca Fitzpatrick ou Os Imortais, de Alyson Noël. Quem prestou alguma atenção às livrarias no último mês já deve ter percebido que começa a se ensaiar movimento semelhante com os clones da trilogia de E.L. James.

Mas o que começou com essa onda do Crepúsculo e parece se reproduzir com ainda mais veemência com a onda Cinquenta Tons… é a tentativa de direcionar o leitor incauto para “algo-parecido-com-aquela-outra-coisa-que-você-gostou” usando até mesmo um padrão gráfico e um estilo de capa muito similares aos dos fenômeno original. Senão vejamos: Cinquenta Tons de Cinza, a edição nacional da Intrínseca, aproveita as imagens de capa das edições americanas originais, todas marcadas por uma composição sóbria e um jogo de brilhos e sombras focado sobre detalhes de um elemento qualquer do jogo erótico protagonizado pelo casal principal (uma gravata, signo da masculinidade endinheirada do personagem Grey e venda em horas vagas; uma máscara de baile à fantasia e, finalmente, um par de algemas. Se bem que esta interpretação pode ser chute meu, eu não li o livro).

Pois não demorou muito para surgirem os candidatos ao “próximo Cinquenta Tons” – tentativas quase sempre infrutíferas, uma vez que esse tipo de movimento costuma abocanhar um ou outro leitor mas jamais iguala o original em termos de venda e ainda contribui para a saturação e o desgaste ainda mais rápido da “onda”. A primeira a se firmar, aparentemente, foi Toda Sua, de Sylvia Day, também uma série – o selo mais popularesco da Companhia, o Paralela, já lançou o segundo volume, Profundamente Sua (senhor…).  A emulação, aqui, é clara, trocando apenas o objeto, um sapato de salto, cor de fundo predominantemente cinza, as linhas do objeto em close, sombras e fulgores. O que realmente diferencia os dois é um uso maior do preto, algum dourado e uma chamada vagamente constrangedora na capa do livro de Sylvia Day:

O segundo volume segue o mesmo padrão, trocando o salto pelo que parece ser um bracelete cravejado de pedras coloridas. Também neste caso a capa da edição original aproveita uma imagem produzida para uma das edições lá de fora, provando que a moda do imitatio não é prerrogativa do mercado editorial brasileiro e sim uma tendência importada para as estantes locais. Outro livro lançado logo depois da chegada dos Cinquenta Tons ao Brasil que também vai na mesma linha foi Luxúria, de Eve Berlin, que apareceu por aqui em edição da Lua de Papel. Uma rápida pesquisa mostra que Eve Berlin é um pseudônimo usado por uma escritora de carreira já consolidada no mercado das histórias água-com-açúcar ao estilo Júlia-Sabrina-Bianca, o que explica porque as capas originais dos livros da autora lá fora (também é uma trilogia, a propósito, com o nome em inglês de Edge Trilogy) não só são bem diferentes da edição nacional como também poderiam concorrer a qualquer certame de capa brega. Aqui, preferiu-se uma alusão disfarçada ao mesmo padrão de capa: cinza e preto, detalhe de um objeto que remete ao jogo erótico (no caso, um corselete), além de uma chamada apelativa de efeito. A fonte do título também aposta em um itálico rebuscado que remete aos romances de banca de jornal:

Sobra espaço nessa ciranda até para que editoras com coisas vagamente semelhantes em seu catálogo queiram dar uma segunda chance a livros mais antigos que podem ser repaginados ao “estilo Cinquenta Tons“. A Record acabou de jogar nas livrarias Falsa Submissão, de Laura Reese, uma obra de apelo erótico cuja capa novamente remete ao padrão que já identificamos, um jogo entre cinza, preto, reflexos e brilhos de tom geral sóbrio (imagino que essa sobriedade toda seja para tentar passar a mensagem de que estes livros são sim sobre sexo, mas recusam a vulgaridade – o que, para mim enquanto leitor, significa que o sexo nessas obras não deve valer muito a pena – com trocadilho, por favor). Novamente, a composição é dominada por um objeto de dupla função, vestuário e fetiche, neste caso um cinto masculino.

O detalhe a levar em conta, contudo, é que Falsa Submissão é um romance de 1996, e já havia sido publicado no Brasil no fim dos anos 1990 pela mesmíssima editora, com uma capa que não tem nada a ver com a da nova edição a não ser por deixar o conteúdo erótico mais explícito ao se valer da imagem de um corpo feminino nu. O tema da “submissão” também ficava mais claro como gesto da mulher na capa, o de colocar as mãos para trás como se à espera de ser amarrada. Em tempos de “pornô para mamães”, o livro foi reembalado com o cinto fazendo as vezes de alusão bastante sutil ao tema:

Que fique bem claro que este pequeno levantamento (ops) não diz nada a respeito do conteúdo dos livros, e sim da forma como as editoras escolheram apresentá-los para o público, todos como similares uns aos outros em temperatura e tema. Provavelmente são obras bem diferentes entre sim, mas as editoras preferem, por questões mercadológicas, enviar para os leitores a mensagem, expressa já na primeira coisa à vista, a capa, de que são todos ramos da mesma árvore

Sonja, Sonya e o Abutre

05 de dezembro de 2012 0

Quem cresceu lendo quadrinhos nos anos 1980 no Brasil mais de uma vez deparou com a ruiva da imagem ao lado nas páginas da revista Heróis da TV – e mais tarde em histórias de A Espada Selvagem de Conan ou da revista Aventura e Ficção. Ela é Sonja (não sabíamos então que o nome deveria ser pronunciado “Sônia”, e dizíamos, os leitores, “SonJA”, declinando o “J” sem culpa), a guerreira, apresentada a nós, incautos ignorantes daquela época, como uma “personagem criada por Robert E. Howard”.

Howard, escritor americano nascido no Texas, tornou-se célebre como o criador de Conan, o Bárbaro, seu personagem mais conhecido, que já foi transplantado para cinema, TV e quadrinhos – quadrinhos que por vezes se inspiravam nos contos originais que o autor escreveu para revistas de fantasia e aventura dos anos 1930. Nos quadrinhos, Conan conhecia Sonja, guerreira hirkaniana, que jurou só “se entregar” (único eufemismo para sexo que se usava nos quadrinhos da época) ao homem que a vencesse em combate. Como ela era uma espadachim invencível mesmo com esse biquíni de placas metálicas altamente improvável para ser usado nos tempos antigos, ela continuava cumprindo seu juramento.

Só que no universo de Howard a coisa não era exatamente assim. Howard de fato criou uma Sonya (com Y), mas não necessariamente essa. A Sonja que se consolidou nos quadrinhos é mais resultado do trabalho do escritor americano Roy Thomas do que dos contos de Howard. Em 1973, Thomas era o roteirista regular da série de Conan para a Marvel. Buscando subsídios para os gibis em material original de Howard, fez uma devassa nos contos antigos, mesmo aqueles não protagonizados pelo bárbaro, e encontrou  A Sombra do Abutre – publicado na revista The Magic Carpet Magazine, em 1934, em que um dos personagens de destaque é uma ruiva de cabelos fulgurantes chamada Sonya Rubra (ou Ruiva, ou Vermelha) de Rogatino.

Diferentemente dos contos da Era Hiboriana protagonizados por Conan, nos quais Howard fazia uma salada de referências indiscriminadas para criar um mundo novo com elementos de diversas épocas e geografias, A Sombra do Abutre é um conto de aventura “histórica”, baseado em fatos e episódios até certo ponto verificáveis. Sonya, nesta narrativa, é uma guerreira russa do século XVI, hábil na espada, nas imprecações e no copo, que se junta a um guerreiro alemão e a outros aventureiros tentando furar um cerco imposto pelo imperador otomano Suleiman  a Viena. O cerco é um episódio histórico ocorrido em 1529, no qual Howard maneja personagens reais e fictícios. A Sonya descrita por ele é mais semelhante a uma rainha pirata do que propriamente a uma improvável guerreira seminua, como se pode ver na ilustração abaixo (de autoria de Michael Peters para um fanzine adaptando histórias de Howard):

Voltemos então a 1973: Roy Thomas pegou a trama básica de A Sombra do Abutre (que inclui ainda um assassino insidioso enviado para matar o protagonista, o guerreiro germânico Gottfried von Kalmbach), e reescreveu o bagulho transferindo-o do Século XVI para a era Hiboriana e usou a Sonya da história como modelo para a Sonja do gibi.  Também comparecem na personalidade e na história da Sonja dos quadrinhos elementos de outra guerreira criada por Howard, Agnes de Chastillon, também conhecida por Dark Agnes e Agnes de La Fere, também do século 16, mas francesa. O primeiro visual da Sonja dos quadrinhos, na história que manteve o nome A Sombra do Abutre, publicada em Conan The Barbarian nº 23, foi desenhado por Barry Windsor-Smith (mas na história original Sonja se vestia de modo mais apropriado para uma guerreira: cota de malha e calças de seda vermelha). A Sonja que se tornou célebre pelo seu impossível biquíni de metal foi criada pelo espanhol Estéban Maroto, e foi assim que a ruiva voltou à cena e mais tarde ganhou revista solo.

Como se vê, há a heroína dos quadrinhos, largamente conhecida, mas que só muito vagamente saiu das páginas do escritor, e há a guerreira do conto de Howard. É essa que pode ser conhecida agora na edição de A Sombra do Abutre publicada há algumas semanas pela editora Arte & Letra, de Curitiba, casa que vem publicando há algum tempo, também, uma revista de contos muito bacana chamada, justamente, Arte & Letra, cada edição identificada por letras em vez de números (leia aqui um texto sobre a edição “B”). A tradução é de Gabriel Oliva Brum (88 páginas, R$ 35), em uma série que inclui ainda O Cair da Noite, de Isaac Asimov. A Sombra do Abutre tem prefácio do escritor e editor Cesar Alcázar, um dos organizadores da Odisseia de Literatura Fantástica. É um bom exemplo do que é característico na prosa de Howard: uma imaginação vívida para a construção de cenários e circunstâncias, o encadeamento ágil de episódios vibrantes de pura aventura e diálogos rápidos que, por vezes, se excedem em sua função e são usados pelo autor como uma muleta para fazer a trama avançar ou apresentar informações que ele não conseguiu encaixar em blocos narrativos anteriores. Ainda assim, é uma das melhores histórias do autor.

Jornada (ao) interior

04 de dezembro de 2012 0

Carpinejar em aventuras pelo Interior. Foto: Adriana Franciosi, ZH

Durante o ano de 2011, o escritor, jornalista e poeta Fabrício Carpinejar dedicou-se a viajar pelo interior do Estado, levantando fatos pitorescos, inusitados, belos, poéticos e cômicos do que via nos municípios em que chegava. O resultado foi uma série de 52 semanas publicada em Zero Hora sob o título de Beleza Interior. A série, que rendeu fãs e desafetos ao autor gaúcho, sai agora em livro pela Arquipélago Editorial. Beleza Interior, a coletânea tem sessão de autógrafos marcada para esta quarta-feira, às 19h30min, na Livraria Cultura (Túlio de Rose, 80). Por e-mail, de São Paulo, Carpinejar concedeu a seguinte entrevista sobre os bastidores da série:

Zero Hora – Seu trajeto para a série não seguiu um traçado necessariamente geográfico, assemelhando-se mais a um ziguezague pelo Estado. Como era feita a escolha das cidades visitadas para a série? Você partiu de um plano com um número predeterminado e depois foi improvisando?
Fabrício Carpinejar
– Parti apenas de Caxias, minha cidade natal, e fui perseguindo histórias divertidas e personagens interessantes. Não havia um mapa traçado previamente. A série foi se fazendo semana a semana, a partir de sugestões de leitores e palpites de amigos. Houve o desejo de abraçar as regiões de modo igualitário. Vivi a adrenalina da aventura: de repente viajar e não achar nada de relevante. Corria o risco de errar. Era um jornalismo romântico, entrar nas cidades, conversar, descobrir se havia algo novo e peculiar, explorar os costumes e me infiltrar nos causos. A curiosidade foi minha bússola. se algo fugia do normal, me interessava. Como em Lagoa dos Três Cantos, uma padaria vendia 1, 6 mil cucas, o mesmo número dos habitantes da cidade?

ZH _ Qual a história da série que mais o marcou?
Carpinejar
– Felicidade, a última protagonista das reportagens, moradora de Livramento. Nunca imaginei que terminaria todo o longo roteiro com uma lavadeira que é pura alegria, de 106 anos, despachada, independente, morando sozinha. Ela é um tapa na cara da preguiça. Um exemplo de como superar as adversidades e não se acomodar na vitimização da velhice.

ZH _ Qual foi a descoberta mais surpreendente que você fez ao longo da série? Algo que não tinha a menor ideia e que encontrou durante as viagens?
Carpinejar
_ Os tipos humanos me comovem. O vendedor de rapadura de porta em porta que sustentou seis filhos na universidade, por exemplo, encarnando a teimosia generosa dos pequenos comerciantes. Tudo me fez crescer, me inspirou, errar o caminho significava desvendar novos pontos. Nossa coragem estava em fugir da cobertura tradicional do jornalismo, enfrentar o mistério e falar com locais que nunca saíram no jornal. Remontamos um On the Road pampiano. Viajei a Alecrim, mais de 400 km, sem saber o que tinha lá, somente pela sonoridade do nome. Localizei um inacreditável festival de canção de terceira idade, onde as pessoas envelhecem com gosto para poder subir ao palco. Fiquei com a impressão de que Beleza Interior nunca teria fim. De pergunta a pergunta, localizaria enredos fantásticos e sobrenaturais. O realismo mágico é monótono diante do Rio Grande do Sul.

ZH _ Em que cidade você viveu a situação mais estranha ou engraçada ao apurar o material?
Carpinejar
– Fui expulso de um salão de beleza em Alegrete, por tentar fazer as unhas. O Nauro Júnior (fotógrafo de Zero Hora) pode testemunhar a meu favor. A dona do espaço disse que não faria unha de homem, isso não cheirava bem. Eu respondi que iria cheirar igual a acetona. Ou quando uma moradora de Alpestre queria que eu depenasse uma galinha. Ou quando fiz concurso de estátua com o chefe da Polícia de Sério. Ou quando ganhei um coelho empalhado de presente de um dos entrevistados e terminei pego por uma blitz do exército contra tráfico de animais.

ZH _ Qual foi a cidade em que o trabalho foi mais difícil, que você demorou mais a encontrar o tom ou o aspecto que gostaria de retratar?
Carpinejar
– Nosso papel não era fazer turismo. Viajávamos – eu, o motorista e o fotógrafo da ZH – para resgatar um estado diferente do habitual, apresentar cidades fora de seus clichês. Evitamos os municípios que são conhecidos, como Gramado, Canela e Nova Petrópolis ou os muito próximos da capital como Canoas, Viamão e Alvorada. Enfrentei dificuldade ao desmistificar localidades, que esperavam o fácil elogio comercial e não entenderam a natureza literária do projeto.

ZH _ Neste mesmo ano você publicou uma coletânea em que convidada autores a escrever contos sobre cidades brasileiras de nomes sugestivos. Este projeto tem alguma relação ou inspiração com as viagens da série “Beleza Interior”?
Carpinejar
_ Houve uma convergência. A antologia Bem-Vindo (leia mais aqui), que reúne dez contistas abordando cidades de batismo poético, surgiu antes de Beleza Interior. Mas é um processo complementar. Mostrar o país a partir da imaginação de seus moradores.

ZH _ Há alguma cidade que, finda a série, você gostaria de ter ido mas não foi?
Carpinejar _
Nossa, haveria cancha para mais quatro séries, no mínimo. Escrevi sobre 52, mas fizemos vídeos de mais de 70 cidades. Uruguaiana é uma delas. Victor Graeff, outra. Bah, o mapa do estado está dobrado em minha mesa como se fosse minha camisa predileta.