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Novos dias de luta

11 de março de 2013 1

A Legião Urbana em Porto Alegre, em setembro de 1986. Foto: Dulce Helfer, Arquivo ZH

Dias de Luta, do jornalista Ricardo Alexandre, lançado há uma década, é, até hoje, a mais abrangente crônica da geração que ensinou o Brasil a fazer (e a gostar de) rock. O livro, esgotado há anos, será republicado neste semestre pela gaúcha Arquipélago Editorial. Para a reedição, com publicação prevista para o início de abril, Alexandre realizou revisões e incluiu uma novidade ao gosto do tempo: uma lista, no fim do livro, de 50 músicas representativas do chamado “BRock” oitentista.

— É um apêndice que tem mais a ver com o mundo de 2013 do que com o mundo de 2002. Talvez alguém reclame que falta uma ou outra música, mas vai fazer sentido com a leitura do livro — diz o autor.

Embora fale de experiências seminais do rock nacional dos anos 1970, como o Vímana, banda que reuniu no mesmo grupo Ritchie, Lulu Santos e Lobão, Dias de Luta concentra sua narrativa temporalmente ao longo da década de 1980. É em termos geográficos que o livro ganha amplitude, recuperando a explosão do rock em várias frentes. Estão lá a Brasília da Turma da Colina, cujo principal expoente foi a Legião Urbana; o Rio de Janeiro de uma geração que se reunia no Circo Voador, palco do primeiro show de sucesso dos Paralamas; a São Paulo de um rock experimental e intelectualizado, como o de Júlio Ribeiro e a Gang 90, ou de sua face mais contestadora e agressiva, representada por  Ira e Inocentes . E, claro, a Porto Alegre de Os Replicantes e da banda tida pelos seus próprios contemporâneos como seu exato oposto, o superpopular Engenheiros do Hawaii.

A primeira edição de Dias de Luta foi lançada no fim de 2002 pela editora DBA. Naquele momento, apenas se desenhava o cenário visto hoje, com o declínio das grandes gravadoras diante da prática dos compartilhamentos na rede. Hoje, o cenário mudou de tal modo que a relação de músicos, público e críticos é completamente outra.

– O Pepe Escobar (crítico musical) de hoje é um menino nerd que senta no fundão e tem um blog. Ainda há os formadores de opinião, mas não na imprensa tradicional – analisa o autor.

Leia abaixo a íntegra da entrevista:

Zero Hora – Para essa nova edição, houve alguma coisa alterada no primeiro livro, ou atualizada?
Ricardo Alexandre –
Sim, eu revisei o livro todo com um olhar da informação, ou seja, muita coisa a gente descobriu sobre aquele período depois de o livro ter sido publicado. Então, algumas informações foram atualizadas. E também alguma coisa do estilo, alguns retoques, é uma edição literalmente revista e atualizada, mas tentei ser fiel ao que o livro foi naquela época. Ele está revisado, mas não foi refeito. E ele tem um apêndice que é novo, que tem mais a ver com o mundo de 2013 do que com o mundo de 2002, que é uma playlist de 50 músicas que marcaram os anos 1980.

ZH – Na última década foram publicadas várias obras que enfocam personagens ou grupos específicos da geração roqueira dos anos 1980, como biografias de Lobão, Renato Russo, dos Titãs, mas seu livro ainda é o único a lançar um olhar de conjunto sobre aquele movimento. Em sua opinião, por que isso aconteceu?
Alexandre –
Eu estou muito presente dentro desse cenário para conseguir ter uma avaliação mais distanciada. O que eu acho é que o livro se distingue dessas outras obras todas porque eu sou um observador à distância. Eu não era sequer jornalista na época retratada pelo livro, então eu consigo ter um olhar de escala muito semelhante ao do leitor comum, pelo menos foi o que pretendi fazer, o que é diferente de todas as biografias e autobiografias publicadas depois do livro. Nesse sentido, ele preserva o interesse do leitor médio, do ouvinte comum, do fã ocasional do rock dos anos 1980. Por isso, acho  bom que esse livro esteja de volta

ZH – Na introdução do livro você confessava que nem era fã do rock anos 1980, e no período de lançamento da obra, há 10 anos, foi bastante cobrado por isso. Você foi mal interpretado ou se expressou mal?
Alexandre –
Eu acho que essa frase me colocava certos riscos que talvez eu não devesse ter corrido, entre eles o risco da má interpretação. Entretanto, se por um lado ela pode ter sido mal interpretada, por outro, em igual número e, espero, até em maior número de vezes, ela deve ter me aberto um campo de credibilidade para poder dizer que o que está lá não é fruto do trabalho de um fã, simplesmente. Agora, o que eu disse lá é que eu não era fã em especial dos anos 1980. O que eu quis dizer, embora talvez não tenha ficado claro, é que eu não quis fazer aquele livro porque era fã ou colecionador das bandas. A minha decisão de fazer o livro foi mais política do que pessoal.

ZH – Já quando o livro saiu, o rock não era mais uma forma hegemônica no cenário cultural, como em seu auge. Hoje, 10 anos depois, com a explosão e a multiplicidade dos gêneros, vê-se que alguns integrantes daquela geração compartilham até mesmo um discurso algo retrógrado de crítica e depreciação do que é feito na contemporaneidade. O rock Brasil envelheceu?
Alexandre –
Acho que aquela geração dos anos 1980, bem como público dos anos 1980 até meados dos anos 1990, ele acostumou-se com a música como uma grande comunidade que partilhava de  uma série de valores, de discursos, de ideias. Essa ideia de que a música pop poderia ser uma grande comunidade de centenas de milhares de pessoas, foi se esvaziando desde então. O que se tem hoje são pequeníssimas comunidades, muito específicas e que dificilmente se reúnem. Então a gente tem os fãs dos Los Hermanos, que são em número tão grande quanto o dos detratores dos Los Hermanos. E eu acho que essa dispersão é o que invialibiza, por exemplo, editar uma revista de música, que precisa de um certo número de leitores congregados com um mínimo de coesão para funcionar, o que não se tem mais. É daí que acredito que venha parte desse discurso desses artistas: “pô, legal era na minha época.” Sim, era legal na sua época porque você conseguia tocar toda noite, conseguia ir nas TVs abertas e vender centenas de milhares de discos. E é um cenário muito diferente.

ZH – E o que essa mudança representa em termos artísticos?
Alexandre –
Eu acho que a gente perdeu no ponto de vista de que essas microcomunidades tiram do artista um grande desafio que havia nos anos 1980: o artista era inquirido por públicos que não eram o seu, que não estavam dispostos a gostar do que ele faria. Quando o RPM ia tocar no Chacrinha, quando o Akira S. precisava tocar no Napalm ou os Replicantes tinham de se apresentar no 89, em São Paulo, eles eram obrigados a convencer um público que não tinha referências anteriores deles. Hoje é impossível você sair de casa sem ter pesquisado pelo menos no myspace ou no canal do YouTube da banda. Então quando você vai a um espetáculo, vai para avalizar aquilo que você gosta. O exercício de o artista convencer o público se perdeu, e perdendo isso, perde-se uma música mais comunicativa. Nesse sentido, isso representa um recuo do que se conquistou naquela época. Agora, por outro lado, a gente ganha em experimentação, em ousadia. Artisticamente, os valores são equivalentes, mas como oportunidade, como mercado, como cenário, não tenho dúvida de que os anos 1980 foram especiais.

ZH – Durante anos, houve um entendimento tácito e uma reclamação unânime dos artistas daquela geração de que as gravadoras lesavam os músicos, mas aquele era o único sistema disponível. Só que com a implosão da indústria musical, muitos daqueles artistas ainda parecem tatear em busca de um caminho neste momento em que as gravadoras não lucram e os ouvintes não pagam. É também a sua impressão?
Alexandre –
Acho que sim, e acho que a questão é mais grave. A ideia de que você possa vender seu talento para que um grande empresário pague seu salário é cada vez menos provável, não apenas para a música. A gente vê uma quantidade de caras que saíram da mídia, ou desse sistema, para usar a palavra que você empregou, para trilhar possibilidades de relação de negócios que tendem ao infinito. Acho que não é uma questão dos artistas, mas de todos os profissionais que trabalham com criação, comunicação e entretenimento, que são as áreas que eu de fato conheço, embora eu desconfie que esse fenômeno vá para outras áreas. Acho que a inadequação de alguns desses artistas vem do fato de que muitos deles têm mais de 50 anos. E têm a convicção, ainda que não admitam, de que o auge do seu fervor criativo já passou. Eu acho pouco provável que esses caras estejam interessados em desbravar tudo outra vez, de inventar uma nova maneira de trabalhar, de botar a música não sei onde para poder chegar no seu público para fazer show muito menores em termos de público. Acho que alguns tentam: o Lobão, o Leoni é um cara que tenta reinventar várias alternativas, mas são exceções, não dá para chamar de tendência. A tendência é de que seja como faz o Kid Abelha: se reune a cada seis anos, faz mais uma turnê comemorativa de data redonda, grava um disco ao vivo, um DVD, um especial para algum canal, lança duas músicas novas e se recolhe novamente.


Os Replicantes. Foto: Rochelle Costi, Divulgação, Arquivo ZH



Comentários (1)

  • Ricardo Alexandre e a música dos últimos 20 anos | Mundo Livro diz: 24 de janeiro de 2014

    [...] na última fase da revista Bizz, em meados dos anos 2000. É também reconhecido como autor de Dias de Luta, um dos melhores levantamentos jornalísticos sobre a música do Brasil, uma grande reportagem [...]

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