Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

O que você está lendo, Fernando Ramos?

20 de março de 2013 0

Fernando Ramos, organizador da Festipoa Literária. Foto: Mauro Vieira, ZH

Aqui estamos de novo, fazendo de tudo para não perder o pique e dar continuidade à série O Que Você Está Lendo?, que pergunta a escritores, professores, intelectuais e críticos que leitura estão curtindo e gostariam de partilhar conosco, fomos questionar Fernando Ramos, editor do jornal literário Vaia, publicação que existe há 12 anos. Fernando é também idealizador e organizador da Festa Literária de Porto Alegre, a FestiPoa (www.festipoaliteraria.blogspot.com), um dos eventos mais bacanas dedicados à cultura no primeiro semestre, na Capital. Não esqueça, a série vai ao ar às quartas-feiras

Então, Fernando Ramos, o que você anda lendo?

Estou relendo o segundo livro da Angélica Freitas, Um útero é do tamanho de um punho. A poesia da Angélica me agrada muito, seus poemas são do tipo que surgem da inquietação e perplexidade diante da condição humana. Dessa inquietação, naturalmente, brotam perguntas (“Quem manda, de fato, no corpo da mulher?”) que renderam os 35 poemas reunidos nesse livro que chega para abalar algumas falsas noções de gênero e comportamentos atuais.
A poesia é sempre uma aventura, uma experiência estética marcante, não se presta para teses ou discursos. Angélica sabe disso, consegue fazer do poema essa experiência e transmitir esse acontecimento ao leitor.
Para Angélica, o poema é uma espécie de arma, ou punho fechado a golpear com sarcasmo desestabilizador (
num útero cabem capelas/ cabem bancos hóstias crucifixos/ cabem padres de pau murcho/ cabem freiras de seios quietos/ cabem as senhoras católicas/ que não usam contraceptivos); com ironia afiadíssima (uma pessoa já coube num útero/ não cabe num punho/ quero dizer, cabe/ se a mão estiver aberta/ o que não implica gênero/ degeneração ou generosidade); e com auto-ironia, portanto sem se excluir do embate (não diz coisa com/ coisa nem escreve nada/ que preste/ não alivia as massas/ nem seduz as cobras/ se reduz a isso/ a palhaça/ toca fagote/ com a boca cheia/ de colgate).
Um útero é do tamanho de um punho é leitura divertida, capaz de provocar boas gargalhadas, embora os poemas sejam mais ásperos e densos que os de Rilke Shake, seu livro anterior. Há muita musicalidade, leveza e fluência nos versos, como se a linguagem ganhasse uma linha melódica aliciadora e fosse envolvendo nossa sensibilidade de leitor numa espécie de canção.
Embora correndo risco de deslizar para uma poesia discursiva e de protesto ao abordar as temáticas de gênero e identidade com tamanha virulência, o sarcasmo, o nonsense e, sobretudo, a força estética e o humor dos poemas fizeram com que os disparos fossem no alvo. Poesia direta e límpida. Angélica é poeta das maiores.


Envie seu Comentário