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Posts de março 2013

Um mundo em pedaços

22 de março de 2013 0

Chinua Achebe em 2009, na primeira volta à Nigéria em 10 anos.Foto: Abayomi Adeshida, AFP

Foi noticiada hoje a morte do autor nigeriano Chinua Achebe, para muitos o fundador da moderna literatura africana, e de quem a Companhia das Letras lançou, há menos de um mês, o romance A Paz Dura Pouco. Achebe foi um dos principais autores a lidarem com a contradição inerente à literatura dos países pós-coloniais: a apropriação do romance, arte burguesa e europeia, como veículo de questionamentos e indagações sobre a identidade dos cidadãos de países colonizados pela mesma Europa que produzia a literatura usada como referência e inspiração.

Achebe, portanto, fez de sua literatura não só um projeto artístico pessoal,  mas uma plataforma política, apresentando sua visão sobre a Nigéria colonial e pós-colonial. Uma visão crítica não apenas dos males do colonialismo europeu, mas da corrupção, violência e negligência dos governos do país já independente. Não por acaso, Achebe ficou 10 anos distante da Nigéria, morando em Boston, recusando honrarias e convites de retorno ao país por parte de governos dos quais discordava frontalmente. Para homenagear o autor, publico aqui o trecho inicial de seu livro de estreia e até hoje um de seus romances mais conhecidos e aclamados, O Mundo se Despedaça, escrito nos anos 1950. O livro retratada uma grande família pertencente ao povo Ibo, centrando foco na figura de Okonkwo, que luta para subir na sua comunidade e escapar do estigma imposto a seu pai, um artista desprezado pela tribo por ser considerado fraco e vadio:

Toda a gente conhecia Okonkwo nas nove aldeias e mesmo mais além. Sua fama assentava‑se em sólidos feitos pessoais. Aos dezoito anos, trouxera honra à sua aldeia ao vencer Amalinze, o Gato, um grande lutador, campeão invicto durante sete anos em toda a região de Umuófia a Mbaino. Amalinze recebera o apelido de o Gato porque suas costas jamais tocaram o solo. E foi ele quem Okonkwo derrotou, numa luta que, na opinião dos mais velhos, fora das mais renhidas desde a travada, durante sete dias e sete noites, entre o fundador da cidade e um espírito da floresta.
Os tambores rufavam. As flautas cantavam. Os espectadores prendiam a respiração. Amalinze tinha uma destreza manhosa, mas Okonkwo era tão escorregadio quanto um peixe dentro d’água. Todos os nervos e todos os músculos estufavam em seus braços, em suas costas e em suas coxas, e quase se podia ouvi‑los a se distenderem como se fossem arrebentar. Finalmente, Okonkwo derrubou o Gato.
Isso se passara havia muitos anos, vinte anos ou mais, e de lá para cá a fama de Okonkwo crescera qual incêndio na mata no tempo do harmatã. Era um homem alto, grandalhão, a quem as sobrancelhas espessas e o nariz largo davam um ar extremamente severo. Sua respiração era forte, pesada, e dizia‑se que, quando dormia, suas mulheres e filhos podiam ouvi‑lo ressonar, mesmo das casas ao lado. Ao caminhar, seus calcanhares quase não se apoiavam no solo — parecia andar sobre molas, como se estivesse prestes a saltar sobre alguém. E, na verdade, com frequência ele investia sobre as pessoas. Sofria de uma leve gagueira e, quando se zangava e não conseguia pronunciar as palavras que desejava com suficiente rapidez, costumava, em vez delas, usar os punhos. Não tinha paciência com os homens que falhavam. Não tinha paciência com o próprio pai.
Unoka — este o nome de seu pai — morrera havia dez anos. Fora sempre preguiçoso e imprevidente, incapaz de pensar no dia de amanhã. Se por acaso lhe vinha ter às mãos algum dinheiro, coisa que raramente acontecia, logo o gastava com cabaças de vinho de palma, e chamava os vizinhos para com ele se divertir. Costumava dizer que, sempre que olhava para a boca de um morto, percebia a loucura de não se comer o que se podia enquanto se estava vivo. Unoka era um permanente devedor: devia dinheiro a todos os vizinhos — desde apenas alguns cauris até quantias bastante elevadas.
Era um homem alto, porém muito magro e ligeiramente encurvado. Tinha uma expressão abatida e funérea, que só se alterava quando bebia ou tocava a sua flauta. Tocava flauta muito bem, e sua maior felicidade era quando, duas ou três luas após a colheita, os músicos da aldeia despenduravam os instrumentos da parede por cima do fogão. Unoka tocava com eles, o rosto iluminado de bem‑aventurança e paz. Algumas vezes, gente de outras aldeias convidava o grupo de Unoka e seu dançarino
egwugwu para irem lá passar uma temporada ensinando suas músicas. Unoka e seus amigos aceitavam esses convites, permanecendo junto aos hospedeiros durante três ou quatro mercados, a fazer música e a banquetear‑se. Unoka apreciava a boa vida e o bom companheirismo, e gostava daquela estação do ano em que as chuvas já haviam cessado e o sol nascia todas as manhãs com uma beleza estonteante. Não fazia então muito calor, porque o frio e seco harmatã soprava do norte. Certos anos, o harmatã era muito rigoroso, e uma densa névoa cobria a atmosfera. Então, velhos e crianças sentavam‑se ao redor das fogueiras acesas para aquecer os corpos. Unoka amava tudo isso, e amava também os primeiros gaviões a retornarem com a estação seca, e a meninada que os recebia com canções de boas‑vindas. Rememorava a própria infância, lembrava como tantas vezes perambulara pela aldeia procurando com os olhos uma dessas aves a singrar vagarosamente no céu azul. Tão logo a avistava, punha‑se a cantar com todo o seu ser, a dar‑lhe as boas‑vindas, após a longa, longa viagem, e a perguntar‑lhe se trouxera, de volta à casa, alguns metros de tecido1.
Mas disso — ele era então um garoto — tinham‑se passado muitos anos. O adulto Unoka era um derrotado. Pobre, sua mulher e filhos quase não tinham o que comer. As pessoas riam dele, porque era um vadio, e juravam nunca mais emprestar‑lhe dinheiro, porque não pagava o que devia. Unoka, porém, era tão jeitoso, que sempre conseguia mais dinheiro emprestado, e ia acumulando dívidas.
Certo dia, um vizinho chamado Okoye foi visitá‑lo. Unoka estava reclinado numa cama de barro, em sua choça, tocando flauta. Levantou‑se imediatamente para cumprimentar Okoye, que desenrolou a pele de bode que trazia sob o braço e nela se sentou. Unoka foi até o quarto interior2 e, de volta, trouxe um pequeno disco de madeira, com uma noz de cola, um pouco de pimenta e um pedaço de giz branco.
— Tenho cola — anunciou ele, sentando‑se e passando o disco ao visitante.
— Muito obrigado. Quem traz cola traz vida. Mas acho que você é quem deve parti‑la — retrucou Okoye, estendendo o disco de volta.
— Não, cabe a você parti‑la.
E discutiram durante alguns instantes, até que Unoka aceitou a honra de romper a noz de cola. Enquanto isso, Okoye, com o giz, desenhava algumas linhas no chão. Depois, pintou de branco o dedão do pé.
Ao mesmo tempo que partia a cola, Unoka rezava aos ancestrais, pedindolhes vida, saúde e proteção contra os inimigos. Depois de terem comido a noz, os dois homens conversaram sobre muitas coisas: as pesadas chuvas que alagavam os inhames, a próxima festa em honra aos antepassados, a iminente guerra contra a aldeia de Mbaino. Unoka sentia‑se sempre infeliz quando se mencionavam as guerras. Era um covarde e não suportava ver sangue. Mudou de assunto, e enquanto falava sobre música, seu rosto se iluminava. Com os ouvidos da mente, conseguia escutar os excitantes e intrincados ritmos do ekwe, o tambor falante, do
udu, a botija de barro de cuja boca, com um abano, se retira um som cavo, e do agogô, bem como sua própria flauta, a se entretecer com a percussão, enfeitando‑a com melodia plangente e colorida. O efeito geral era alegre e animado, mas, se se isolasse o som da flauta, que subia e descia, para depois romper‑se embreves intervalos, nele se poderia perceber tristeza e dor.
Okoye também era músico. Tocava o agogô. Mas não era um fracassado como Unoka. Possuía um amplo celeiro cheio de inhames e tinha três mulheres. Agora ia receber o título de Idemili, o terceiro mais elevado daquela terra. Era uma cerimônia dispendiosa, e ele estava procurando reunir todos os recursos de que dispunha. Essa era, na verdade, a razão pela qual viera visitar Unoka. Limpou a garganta e disse:
— Muito obrigado pela cola. Você deve ter ouvido falar do título que pretendo receber dentro em breve.
Até aquele momento, Okoye se expressara de maneira simples, mas a meia dúzia de frases seguintes tomou a forma de provérbios. Entre os ibos, a arte da conversação é tida em alto conceito, e os provérbios são o azeite de dendê com o qual as palavras são engolidas. Okoye era um grande conversador e falou durante muito tempo, dando voltas em torno do assunto até finalmente abordá‑lo. Em resumo, pedia a Unoka que lhe devolvesse os duzentos cauris que lhe emprestara havia mais de dois anos. Tão logo este percebeu aonde o amigo queria chegar, estourou em gargalhadas. Riu alto, durante muito tempo, de modo claro como o agogô, e tinha lágrimas nos olhos. O visitante, espantado, continuou sentado, sem fala. Afinal, Unoka conseguiu dar‑lhe uma resposta, entremeada de novas explosões de riso.
— Olhe para aquela parede — disse, apontando para o muro ao fundo de sua choça, que fora esfregado com terra vermelha até rebrilhar. — Olhe para aquelas marcas de giz.
Okoye viu vários grupos de traços curtos e perpendiculares, riscados a giz. Havia cinco grupos, e o menor tinha dez traços. Unoka, que possuía senso dramático, fez, então, uma pausa. Aproveitou para cheirar uma pitada de rapé e espirrar ruidosamente. E prosseguiu:
— Cada grupo daqueles representa uma de minhas dívidas com alguém, e cada traço corresponde a cem cauris. Veja você: eu devo àquele homem mil cauris. Mas ele não veio me acordar de manhã, pedindo seu dinheiro de volta. Pagarei o que lhe devo, Okoye, mas não hoje. Nossos mais velhos dizem que o sol brilhará sobre os que permanecem de pé, antes de brilhar sobre os que se ajoelham. Pagarei minhas dívidas maiores primeiro.
E cheirou outra pitada de rapé, como se aquilo fosse pagar as dívidas maiores primeiro. Okoye enrolou sua pele de bode e partiu.
Unoka morreu sem receber um só título e com dívidas pesadíssimas. É de admirar, portanto, que seu filho Okonkwo se envergonhasse dele?

1 –  O tecido simboliza a história do povo africano; certos tecidos têm significados especiais: na tradição peul, por exemplo, um tecido dobrado significa o passado. (N. T.)
2 –
Na habitação ibo, há duas divisões: o quarto da frente, ou exterior, e o de trás, ou interior. (N. T.)


O papel de um escritor

21 de março de 2013 0

Catarino Brum Pereira, o "Tio Cata": escritor por paixão. Foto: Mauro Vieira, ZH

O papeleiro Catarino Brum Pereira autografa seu primeiro livro de poemas na próxima terça-feira (26/3), das 17h às 18h, no Palácio do Ministério Público do Rio Grande do Sul (Praça Marechal Deodoro, 110, Centro). Morador de Gravataí, Pereira, conhecido como Tio Cata, foi convidado a promover a sessão de lançamento pela Academia Rio-Grandense de Letras (ARL), a partir de uma reportagem publicada em Zero Hora, em dezembro último (veja no fim deste post). O autor pagou parte da tiragem inicial de mil exemplares com seus próprios recursos, mas enfrenta dificuldades para quitar a dívida com a gráfica que imprimiu as cópias no início de 2012. Escritor e Papeleiro, com 29 poemas em 36 páginas, estará à venda no local por R$ 15.

– Vivo da reciclagem. Ao mesmo tempo, me alimento com sonho e poesia _ diz o escritor de 62 anos, natural de Uruguaiana, que estudou até o 4º ano do Ensino Fundamental.

Mais informações pelo telefone (51) 9808-3706 e pelos e-mails borja@pro.via-rs.com.br e sergioaugustopereiradeborja@gmail.com, com Sérgio Borja, presidente da ARL.

O que você está lendo, Fernando Ramos?

20 de março de 2013 0

Fernando Ramos, organizador da Festipoa Literária. Foto: Mauro Vieira, ZH

Aqui estamos de novo, fazendo de tudo para não perder o pique e dar continuidade à série O Que Você Está Lendo?, que pergunta a escritores, professores, intelectuais e críticos que leitura estão curtindo e gostariam de partilhar conosco, fomos questionar Fernando Ramos, editor do jornal literário Vaia, publicação que existe há 12 anos. Fernando é também idealizador e organizador da Festa Literária de Porto Alegre, a FestiPoa (www.festipoaliteraria.blogspot.com), um dos eventos mais bacanas dedicados à cultura no primeiro semestre, na Capital. Não esqueça, a série vai ao ar às quartas-feiras

Então, Fernando Ramos, o que você anda lendo?

Estou relendo o segundo livro da Angélica Freitas, Um útero é do tamanho de um punho. A poesia da Angélica me agrada muito, seus poemas são do tipo que surgem da inquietação e perplexidade diante da condição humana. Dessa inquietação, naturalmente, brotam perguntas (“Quem manda, de fato, no corpo da mulher?”) que renderam os 35 poemas reunidos nesse livro que chega para abalar algumas falsas noções de gênero e comportamentos atuais.
A poesia é sempre uma aventura, uma experiência estética marcante, não se presta para teses ou discursos. Angélica sabe disso, consegue fazer do poema essa experiência e transmitir esse acontecimento ao leitor.
Para Angélica, o poema é uma espécie de arma, ou punho fechado a golpear com sarcasmo desestabilizador (
num útero cabem capelas/ cabem bancos hóstias crucifixos/ cabem padres de pau murcho/ cabem freiras de seios quietos/ cabem as senhoras católicas/ que não usam contraceptivos); com ironia afiadíssima (uma pessoa já coube num útero/ não cabe num punho/ quero dizer, cabe/ se a mão estiver aberta/ o que não implica gênero/ degeneração ou generosidade); e com auto-ironia, portanto sem se excluir do embate (não diz coisa com/ coisa nem escreve nada/ que preste/ não alivia as massas/ nem seduz as cobras/ se reduz a isso/ a palhaça/ toca fagote/ com a boca cheia/ de colgate).
Um útero é do tamanho de um punho é leitura divertida, capaz de provocar boas gargalhadas, embora os poemas sejam mais ásperos e densos que os de Rilke Shake, seu livro anterior. Há muita musicalidade, leveza e fluência nos versos, como se a linguagem ganhasse uma linha melódica aliciadora e fosse envolvendo nossa sensibilidade de leitor numa espécie de canção.
Embora correndo risco de deslizar para uma poesia discursiva e de protesto ao abordar as temáticas de gênero e identidade com tamanha virulência, o sarcasmo, o nonsense e, sobretudo, a força estética e o humor dos poemas fizeram com que os disparos fossem no alvo. Poesia direta e límpida. Angélica é poeta das maiores.


Algumas notas sobre Philip Roth

19 de março de 2013 0

O escritor Philip Roth. Foto: Divulgação

Texto de Pedro Gonzaga

1 – “Não tenho mais a resistência física para suportar a frustração. Escrever é frustração – frustração diária, sem falar na humilhação. Não consigo mais encarar dias em que jogo fora as cinco páginas que escrevi. Não posso mais fazer isso.” Assim Philip Roth anunciou a sua retirada do cenário literário, no fim do ano passado, em matéria do New York Times, confirmando a declaração feita anteriormente para a revista francesa Les Inrockuptiples. No auge de uma carreira frutífera, um dos mais importantes escritores vivos decide levar a vida comum do octogenário que ele se torna hoje. Alguma coisa em nós, no entanto, não aceita sua decisão. A alegria revelada pelo escritor no resto do artigo nos soa quase ofensiva. Ouso dizer que para alguns de nós seu ato seguirá incompreendido, quem sabe uma jogada de marketing. Então lembramos da seriedade com que escreveu os 31 livros do que agora parece ser sua obra completa.

2 – Anos atrás, quando ainda era músico em tempo integral, lembro de ter lido em uma revista especializada em saxofone (os americanos sempre souberam o que era segmentação de mercado), uma reportagem com um grande artista do instrumento, que recentemente se aposentara. Em sua casa de campo, ele recuperava os pontos altos da carreira. A certa altura, o jornalista percebeu o estojo debaixo da cama e perguntou se ele ainda tocava, ao que veio a resposta: “Nunca mais”. Diante da surpresa do interlocutor, que o via ainda cheio de saúde, o músico acrescentou: “Quando tenho saudades, ouço uma de minhas tantas gravações. Não seria mais capaz de tocar daquela maneira, por um aspecto físico, mas também vital”.

3– Em um dos mais belos livros de amor à arte já escritos, Presenças Verdadeiras, de George Steiner, a certa altura lemos o seguinte: “O poema, a sonata, a pintura, poderiam muito bem não existir. Exceto na perspectiva trivial e contingente de uma comissão, de uma necessidade material, do uso da coerção física, o fenômeno estético, o ato de dar forma a alguma coisa, está em todos os tempos, em todos os lugares, livre para não se materializar”. O aspecto gratuito da arte, sua falta de função, sua liberdade de não ser. Por querermos tanto que ela seja, por queremos que ela exista, esquecemos do único elo da cadeia em que a criação é pura. Todo o resto, este artigo, os estudos acadêmicos, todos os satélites que orbitam em torno das obras artísticas dependem desse gesto criador, em parte sempre inexplicável, sempre inconcebível, sempre ameaçado por aniquilamento que é o abandono da escrita, da pintura, do instrumento.

4 – Não escrever, deixar de escrever quando se poderia seguir escrevendo. Movimento que nos faz pensar em primeiro lugar em desistência. Escrever é prazeroso, dizem certos manuais. A alegria da arte e outras fórmulas sofríveis que mascaram a complexa gênese daquilo que não precisaria existir. Não se pode negar que uma grande obra dará muito mais aos outros, aos leitores e espectadores, do que ao próprio artista. Por isso, somos nós os injustiçados quando um mestre desiste. Não têm eles o direito de nos privar do que ainda podem nos oferecer. Raros são os casos de um verdadeiro reconhecimento que possa compensar os criadores de alguma maneira enquanto estão vivos. Roth teve sorte de ser reconhecido desde meados da carreira como uma das mais importantes vozes a tratar dos dilemas da América contemporânea. Borges estava velho e cego quando descobriram que ali estava um dos grandes gênios do século 20. Kafka e Van Gogh, desesperançados, optaram pelo radicalismo.

5 – Bartleby e sua tentação, preferir não fazer as coisas, personagem de um conto de Melville, brilhantemente retomado pelo escritor espanhol Enrique Vila-Matas para representar os escritores que deixaram de escrever, em geral por motivos inaparentes. Para os aficionados da literatura, alguns casos clássicos de deserção logo virão à tona: Juan Rulfo, Raduan Nassar, Murilo Rubião, e agora Roth. De certo modo, no post-it afixado no monitor do autor de A Marca Humana há uma pista importante sobre o dilema que se passa do outro lado do balcão: “A guerra com a escrita acabou”.

6 – Nenhuma esperança, nenhuma necessidade. Ter ou não público nunca levou alguém a escrever mais ou menos. O sucesso comercial serve para os best-sellers. Parece haver na verdadeira arte apenas um motor, incorruptível: a integridade. Para atingir essa integridade é preciso mergulhar em terreno movediço durante meses, anos, décadas. Não há garantias. Acertar a mão em um livro, em um tela, em uma peça, em um disco, em um filme, não é garantia de nada.Ao contrário de outras atividades humanas, asseguradas pela uniformidade da burocracia, aqui não há estabilidade. Cada nova empreitada traz consigo a certeza de uma nova e encarniçada e longa guerra. No limite, dedicar-se a uma obra é pôr-se à prova de um modo físico e anímico (e me perdoem o último termo, mas mental seria excluir os sentimentos e aquela outra parte imponderável do fazer artístico).

7 – Sabe-se que por um grave problema na coluna, Philip Roth muitas vezes escreveu de pé seus livros. Flaubert levava horas e mais horas em um punhado de frases. Balzac estourou seu coração de tanto beber café, coagido por prazos impossíveis. Escrever é físico. Rimbaud terminou o que tinha a dizer antes ainda dos 20 anos, gastando o resto de sua energia em outros fronts. Depois do último livro, Nêmesis, de 2010, pela primeira vez Roth se viu sem ter o que escrever. Escrever é anímico. Parar é admitir que um ou outro dos vetores, ou mesmo os dois, já não estão presentes. Esfacelada quedará a integridade. Assim param os gigantes quando param ainda em vida.

8 – Pensando bem, o que talvez saibamos – e isso nos entristece – é que, com um gigante a menos, faltará um tanto mais de integridade ao mundo. Quando um grande artista para, de algum modo, somos devolvidos ao plano da integridade invisível do mundo que habitamos. Certo que muitos de nós se entregam às atividades da vida diária de corpo e alma, como se costuma dizer, mas tal entrega é invisível. Uma vez inserida na necessidade do mundo, na utilidade do mundo, nossa integridade se consome envolta em fenômenos perecíveis. Por estar fora e dentro do mundo ao mesmo tempo, somente a integridade que move a obra de arte (e que nela se preserva) pode servir de espelho para revelar e salvar da consumição a síntese daquilo que é o humano.

Para Zizek, menos é mais

15 de março de 2013 0

Hegel (1770 – 1831), em gravura de Lazarus Sichling (1812–1863)

Em sua famosa entrevista a Didier Eribon, De Perto e de Longe, o antropologo francês Claude Lévi-Strauss disse que, de seus estudos de filosofia alemã na juventude, reteve a noção de que a consciência humana tendia a “mentir para si mesma”. Com a elegância de estilo que caracteriza Lévi-Strauss, eis uma fórmula capaz de resumir um dos legados fundamentais do pensamento germânico, de Kant a Heidegger. Não estamos sozinhos no castelo do cogito, há algo na consciência que não é igual a ela mesma,“Eu é um outro” (Rimbaud) e “A verdade está lá fora” (Arquivo X) – mais do que uma noção, a filosofia alemã produziu um efeito de estranhamento no conhecimento e na cultura. O fato de esse efeito ser hoje inseparável da modernidade talvez seja sua maior realização.

Não é preciso ser leitor de filosofia para intuir que a obra de Sigmund Freud está profundamente alicerçada, desde o princípio, nessa tradição. Ainda que tenha realizado a parte principal de sua formação clínica e tido alguns de seus principais insights na França, a psicanálise não teria existido sem o efeito desestabilizador das ideias de consciência e de sujeito sistematizadas pelos alemães. Como nota, entre outros, Élisabeth Roudinesco, as resistências iniciais à doutrina de Freud na França devem-se a sua suposta “não-latinidade”. É curioso que, entre todos os sistemas de pensamento que procuraram explorar os múltiplos pontos de contato entre a moderna filosofia alemã e a psicanálise, nenhum tenha sido mais ousado e produtivo do que o do francês Jacques Lacan e sua imensa família de discípulos. Entre estes, um dos mais célebres, o esloveno Slavoj Zizek, tenta costurar esses dois legados em Menos que Nada – Hegel e a Sombra do Materialismo Dialético (Boitempo Editorial, 656 páginas, R$ 79).

Antes de se tornar talentoso escritor e persona pública, Zizek formou-se em psicanálise em Paris com Jacques-Alain Miller, genro de Lacan. Não lhe escapou o fato de que, em Lacan, o interesse por Freud correu paralelamente a uma curiosidade filosófica incomum, que o levou a conviver com especialistas como Alexandre Kojève e Alexandre Koyré. Lacan intuiu que os legados de Hegel e de Freud se voltavam para questões chave da filosofia do conhecimento, como consciência e sujeito. Dissecados por Hegel de um ponto de vista dialético, esses temas passam por Marx, Freud, estruturalistas e pós-estruturalistas e ecoam em todo o pensamento pós-moderno. É nesse ponto que são retomados por Zizek, como destroços recolhidos à beira de uma praia.

Zizek é um ensaísta profundamente intuitivo e empático. Ele define – ou antes indefine – seu livro como uma espécie de Hegel para Imbecis: “Hegel para aqueles cujo QI está mais próximo da temperatura corporal (em graus Celsius), como diz o insulto… não é?”. O autor lembra que a palavra imbecil provavelmente deriva do latim baculum (bastão, cajado, báculo). Imbecil é alguém que não tem um bastão no qual se amparar, e na filosofia, esse instrumento corriqueiro de apoio, orientação e exploração não pode ser outra coisa senão a linguagem. Para Zizek, o horizonte filosófico-ideológico contemporâneo é um quadrilátero de forças delimitado por quatro pontos: do lado do materialismo, o naturalismo científico (neurociência, darwinismo) e o historicismo discursivo (Foucault, desconstrucionismo); e do lado do espiritualismo, o “budismo ocidental” e o pensamento da finitude transcendental. Sua tese é de que o “núcleo da subjetividade moderna” não está no interior desse campo de futebol, mas fora dele, e constitui aquilo que Freud denomina pulsão, relacionada à falta e ao desejo e preexistente à linguagem.

Buscar uma definição de real por meio do entrecruzamento das noções de falta, pulsão e desejo é um procedimento familiar na teoria psicanalítica – entre outros, o brasileiro Marco Antonio Coutinho Jorge já enveredou por esse caminho em Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan. A ideia de reconciliação entre Lacan e a filosofia tampouco é inédita, como mostra a obra do francês Alain Badiou, por sinal um dos interlocutores de Zizek. O que o escritor esloveno tenta fazer, com a ajuda do politicamente conservador Hegel, é uma leitura transgressora do politicamente conservador Lacan, apontando para a possibilidade de uma transgressão da ordem que não acabe por provocar apenas uma recomposição da dominação. Partindo da máxima de Lacan de que “não existe Grande Outro” (vale dizer, a linguagem, o signo ou a ordem simbólica não é o reflexo de um real imperativo, mas o produto decantado de processos de subjetivação), Zizek critica aqueles que, ainda assim, estacam diante da presença ameaçadora desse mesmo Outro e mergulham em distintas formas de passividade, seja teórica ou política. Se Hegel está certo ao sugerir que não se pode conhecer o futuro e Lacan tem razão em afirmar que a linguagem é a prisão do sujeito, a tarefa de Zizek é explorar as possibilidades de uma ética da revolta ancorada nesses dois pensadores.

O caudaloso livro de Zizek – são 656 páginas na edição brasileira, pela Boitempo – pode assustar os não iniciados, mas não constitui, de forma alguma, leitura monótona. Afinal, qual outro autor seria capaz de comentar Hegel com base em exemplos extraídos de Guerra nas Estrelas, de citar Veludo Azul, de David Lynch, a propósito de Derrida ou transitar da filosofia do conhecimento a uma piada judaica no mesmo parágrafo sem passar por superficial? Para os leitores menos vorazes, é do próprio Zizek a ideia de que talvez não seja necessário ler a obra do princípio ao fim para entendê-la.“Por exemplo, muitos ensaios sobre Ulisses, de Joyce – e com frequência os melhores – foram escritos por estudiosos que não leram o livro inteiro; e o mesmo vale para Kant ou Hegel, pois um conhecimento extremamente minucioso só produz uma entediante exegese especializada, em vez de nos fornecer insights”, sustenta. Ele mesmo parece ter levado essa ideia ao paroxismo ao admitir, em 2011, que escrevera sobre o filme Avatar antes de tê-lo assistido. Menos é mais.

O que você está lendo, Caio Riter?

13 de março de 2013 0

Caio Riter na sessão de autógrafos de seu livro "Eu e o Silêncio de Meu Pai". Arquivo Pessoal

Desde o ano passado que havíamos interrompido a série O Que Você Está Lendo?, que faz a pergunta título a escritores, professores, intelectuais e críticos. Devido a uma série de contratempos do editor deste blog, o fluxo da publicação, que deveria ser sempre às quartas-feiras, foi interrompido e não tivemos muito tempo para retomar. Agora, finalmente, estamos de volta com as dicas pedidas a colaboradores especiais. Na postagem de hoje, fomos colher uma dica com o escritor Caio Riter, um dos grandes nomes da literatura voltada para jovens no Estado. Riter é autor de mais de 40 livros, dirigidos para crianças, adolescentes e algumas incursões em volumes de contos para adultos. Entre seus trabalhos, incluem-se: Debaixo de Mau Tempo (Artes e Ofícios, 2005), O Rapaz que não era de Liverpool (Edições SM, 2006), Viagem ao redor de Felipe (Projeto, 2009) e Eu e o silêncio de meu pai (Biruta, 2011). Sua obra mais recente publicada é o volume de contos Vento Sobre a Terra Vermelha (8INVERSO, 2012)

Então, diga lá, o que você está lendo, Caio Riter?

Ando em tempos de me envolver com várias leituras, ando meio infiel. Dos tantos com que ando envolvido, acabo de ler dois romances. O primeiro de Paul Auster, Noite do Oráculo, em que o autor, mais uma vez, problematiza os limites entre verdade e invenção ao instaurar uma arquitetura narrativa em três camadas: em primeira pessoa, narra a história de Sidney, um escritor que retoma a escrita após um colapso e que inventa a história de um editor, Bowen, o qual – ao escapar de um acidente que poderia tê-lo matado – resolve abandonar a vida que leva e parte em busca de uma nova ordem. Todavia, leva consigo o romance de uma escritora falecida. Romance que lê, lê e relê. Auster vai, aos poucos, “descascando as camadas da cebola” e apontando para uma concepção de escrita que remete aos vates. Escrever é futurar. O segundo romance é Caim, de José Saramago, livro em que o autor português retoma o Antigo Testamento, discutindo a beatitude de Deus e o mau-caratismo do primeiro assassino bíblico. Caim é homem marcado pela tragédia; homem que, ao receber o castigo divino, irá estar presente nos momentos mais marcantes da relação de Deus com a humanidade, desde Adão e Eva até Noé. O romance, no entanto, parece-me apenas motivo para que Saramago questione a fé cristã, visto que os personagens carecem de maior composição íntima. Caim, assim como é títere nas mãos de Deus, é joguete do narrador que o quer como elemento questionador e problematizador do poder divino.


Coetzee e a censura

12 de março de 2013 0

J.M. Coetzee na Flip, em 2007. Foto: Walter Craveiro, divulgação

Um dos maiores escritores vivos estará em Porto Alegre no próximo mês. J. M. Coetzee, autor sul-africano hoje residente na Austrália, agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2003, virá à Capital para uma conferência sobre censura.

A palestra de Coetzee em Porto Alegre está marcada para o dia 18 de abril, às 19h, no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). As inscrições custarão R$ 25 para estudantes e R$ 50 para o público em geral e poderão ser feitas, de acordo com a organização, tanto na Difusão Cultural da universidade quanto por meio eletrônico, mas os detalhes ainda não foram definidos. O serviço completo de inscrições será informado no blog oficial do evento, Lendo Coetzee, que está no ar a partir de hoje (em www.lendocoetzee.com).

O sul-africano vem a Porto Alegre devido ao contato com o escritor desenvolvido nos últimos anos pela professora da UFRGS Kathrin Rosenfield. Em 2010, Kathrin organizou, no Núcleo Filosofia-Arte-Literatura, o seminário O Mal Estar na Cultura, que partia de uma leitura de Diário de um Ano Ruim, lançado no Brasil em 2008, para fazer uma aproximação com a obra de Freud O Mal-Estar na Civilização. O Núcleo contou com o apoio Difusão Cultural da UFRGS, que também colabora nesta vinda de Coetzee ao Brasil.

A passagem do Nobel faz parte de uma dupla visita que o escritor fará a cidades brasileiras em abril. Antes de passar pela Capital, falará em Curitiba, no dia 15 de abril , no Teatro Fernanda Montenegro, em uma conferência que servirá como prólogo para o Festival LiterCultura, que se realizará em agosto. Nos dois encontros, Coetzee será apresentado por Kathrin Rosenfield e falará sobre censura, um tema ao qual já dedicou ensaios – alguns deles incluídos em Given Offense, livro de 1996 ainda inédito no Brasil.

Coetzee deve falar por 50 minutos, sem  perguntas da plateia (fez o mesmo em outra passagem pelo país, em 2007, na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip). Tanto em Porto Alegre quanto em Curitiba, autografará um número reduzido de exemplares de seu romance mais recente, A Infância de Jesus, cuja edição nacional está programada pela Companhia das Letras também para abril. A conferência em Porto Alegre também marcará o lançamento de um livro de ensaios, Lendo J.M. Coetzee, organizado por Kathrin e pelo professor e tradutor Lawrence Flores Pereira.

Coetzee é um dos maiores escritores contemporâneos e, como muitos dos grandes autores com características próprias, é também por vezes vítima de um entendimento superficial ou apressado. Romancista célebre e ensaísta arguto, Coetzee, por sua linguagem sóbria e ressecada, sem arroubos de retórica ou sentimentalismo, é normalmente definido, mesmo por aqueles que nunca leram seus livros, com adjetivos simplificadores como “seco”,“pessimista” ou “econômicos. Para além de tais generalizações, Coetzee é um autor com uma obra de múltiplas ressonâncias, na qual se pode ler alegoria (À Espera dos Bárbaros ou mesmo o recente A Infância de Jesus), fissuras de uma história africana construída sobre a infâmia (Vida e Época de Michael K. e Desonra) e um uso desconcertante da própria biografia como material ficcional (Juventude, Verão e Diário de um Ano Ruim – todos livros nos quais se encontram correspondência entre elementos da biografia do autor e do protagonista).

Os termos do debate

12 de março de 2013 0

Gravura O Poeta Angustiado, de William Hogarth

Primeiramente, vamos a um texto publicado por Richard Steele no jornal inglês Guardian, condenando o hábito da leitura como puro e simples entretenimento:

“É um jeito duvidoso de ler (…) que naturalmente nos induz a um modo indeterminado de pensar (…) Aquele conjunto de palavras que se chama estilo fica totalmente aniquilado (…) A defesa comum dessas pessoas é que não têm na leitura outro propósito além do prazer, o qual, creio eu, devia brotar mais da reflexão e da lembrança do que se leu do que da transitória satisfação do que se faz, e nosso prazer devia ser proporcional a nosso proveito”.

Outro articulista, Samuel Croxall, externou no prefácio de uma coletânea sua preocupação pelo que considerava a corrosão da memória provocada pelo modo predominante de leitura contemporânea e pelo alto número de concessões que os escritores estariam dispostos a fazer em busca de maior público:

“aquelas descobertas que envolvem e possuem (a mente) da maneira mais eficaz são obtidas sem o menor esforço, a imaginação tem a maior parte e o assunto é evidente a nossos sentidos (…) E assim são as narrativas de ficção, que devem ser compreendidas sem grande esforço da mente  ou o exercício de nossa faculdade racional e onde será suficiente uma forte fantasia, com pouco ou nenhum ônus para a memória”

Outro escritor, este bem mais conhecido (digo quem é daqui a pouco), assim se expressa ao reclamar das imposições do mercado sobre os autores:

“Escrever (…) tornou-se um ramo considerável do comércio inglês. Os livreiros são os patrões fabricantes ou empregadores. Os diversos escritores, autores, copiadores, subescritores e todos os outros que operam com pena e tinta são os trabalhadores empregados pelos ditos patrões fabricantes.”

Essa corrida pelas graças do público, como não poderia deixar de ser, tem como resultado ondas mercadológicas que tentam reproduzir nas estantes os fenômenos de venda, postura criticada em outro texto, do também inglês James Ralph:

A produção de livros é o negócio que faz o livreiro prosperar: as normas do comércio obrigam-no a comprar o mais barato possível e vender o mais caro possível (…) sabendo bem que tipo de mercadoria mais se presta ao mercado, ele faz suas encomendas de acordo com isso; e é tão inflexível ao determinar o prazo da publicação quanto ao calcular o pagamento.
Isso esclarecerá bastante os paroxismos da imprensa: o livreiro sagaz sente o pulso dos tempos e, de acordo com o ritmo, decide não curar, mas estimular a doença: enquanto o paciente continua a engolir, ele continua a ministrar; e ao primeiro sintoma de náuseas, muda a dose. Daí a cessação de todos os carminativos políticos e a introdução das cantáridas sob a forma de contos, novelas, romances, etc….”

O grande número de autores dedicados a escrever, não somente aqueles com pendor profissional para tanto, também já foi avo de crítica ácida de outro autor inglês:

“A época atual bem pode ser denominada, com grande propriedade, a era dos autores: pois talvez nunca tenha havido uma época em que homens de todos os níveis de capacidade, todo tipo de instrução, toda profissão e emprego se dedicaram com tamanho ardor à palavra impressa

O que chama a atenção em todos os fragmentos acima,  sobre cuja autoria fui deliberadamente lacônico ou impreciso, é que são todos textos publicados no século 18.  O primeiro foi publicado sim no Guardian, mas não no que conhecemos hoje, e sim em um periódico de mesmo nome que circulou apenas durante alguns meses de 1713. O segundo é de Croxall no prefácio do volume Select Collection of Novels and Histories, organizado por ele em 1720. O terceiro é de Daniel Defoe, autor de Robinson Crusoe e Moll Flanders, e foi publicado em 1725. O quarto é um excerto de The Case of the Authors, de 1758. E o último foi publicado em 1753 no periódico The Adventurer pela maior autoridade de seu tempo nos trabalhos de Shakespeare, Samuel Johnson.

Todos esses trechos estão no clássico estudo A Ascensão do Romance, de Ian Watt (e por isso escolhi a gravura que ilustra este texto, a original que baseia a capa da edição brasileira da obra). O que não deixa de ser engraçado. Para uma obra que mapeia com tanto critério e minúcia as circunstâncias específicas no século 18 em que os autores Daniel Defoe (1660 – 1731), Samuel Richardson (1669 – 1761) e Henry Fielding (1707 –  1754) deram, na visão de Watt, origem ao romance realista que seria desenvolvido no século seguinte, não deixa de ser curioso que algumas declarações ali transcritas, com outros termos e talvez uma forma um pouco menos rebuscada, também são usadas até hoje para outros tópicos do debate literário: o modo contemporâneo de leitura como a origem de uma geração sem  concentração e sem memória, a pressão do mercado sobre os escritores para adequar-se ao gosto do público, as “ondas” nocivas de livros medíocres que tentam “administrar nova dose” de algo em que o leitor está viciado.


Novos dias de luta

11 de março de 2013 1

A Legião Urbana em Porto Alegre, em setembro de 1986. Foto: Dulce Helfer, Arquivo ZH

Dias de Luta, do jornalista Ricardo Alexandre, lançado há uma década, é, até hoje, a mais abrangente crônica da geração que ensinou o Brasil a fazer (e a gostar de) rock. O livro, esgotado há anos, será republicado neste semestre pela gaúcha Arquipélago Editorial. Para a reedição, com publicação prevista para o início de abril, Alexandre realizou revisões e incluiu uma novidade ao gosto do tempo: uma lista, no fim do livro, de 50 músicas representativas do chamado “BRock” oitentista.

— É um apêndice que tem mais a ver com o mundo de 2013 do que com o mundo de 2002. Talvez alguém reclame que falta uma ou outra música, mas vai fazer sentido com a leitura do livro — diz o autor.

Embora fale de experiências seminais do rock nacional dos anos 1970, como o Vímana, banda que reuniu no mesmo grupo Ritchie, Lulu Santos e Lobão, Dias de Luta concentra sua narrativa temporalmente ao longo da década de 1980. É em termos geográficos que o livro ganha amplitude, recuperando a explosão do rock em várias frentes. Estão lá a Brasília da Turma da Colina, cujo principal expoente foi a Legião Urbana; o Rio de Janeiro de uma geração que se reunia no Circo Voador, palco do primeiro show de sucesso dos Paralamas; a São Paulo de um rock experimental e intelectualizado, como o de Júlio Ribeiro e a Gang 90, ou de sua face mais contestadora e agressiva, representada por  Ira e Inocentes . E, claro, a Porto Alegre de Os Replicantes e da banda tida pelos seus próprios contemporâneos como seu exato oposto, o superpopular Engenheiros do Hawaii.

A primeira edição de Dias de Luta foi lançada no fim de 2002 pela editora DBA. Naquele momento, apenas se desenhava o cenário visto hoje, com o declínio das grandes gravadoras diante da prática dos compartilhamentos na rede. Hoje, o cenário mudou de tal modo que a relação de músicos, público e críticos é completamente outra.

– O Pepe Escobar (crítico musical) de hoje é um menino nerd que senta no fundão e tem um blog. Ainda há os formadores de opinião, mas não na imprensa tradicional – analisa o autor.

Leia abaixo a íntegra da entrevista:

Zero Hora – Para essa nova edição, houve alguma coisa alterada no primeiro livro, ou atualizada?
Ricardo Alexandre –
Sim, eu revisei o livro todo com um olhar da informação, ou seja, muita coisa a gente descobriu sobre aquele período depois de o livro ter sido publicado. Então, algumas informações foram atualizadas. E também alguma coisa do estilo, alguns retoques, é uma edição literalmente revista e atualizada, mas tentei ser fiel ao que o livro foi naquela época. Ele está revisado, mas não foi refeito. E ele tem um apêndice que é novo, que tem mais a ver com o mundo de 2013 do que com o mundo de 2002, que é uma playlist de 50 músicas que marcaram os anos 1980.

ZH – Na última década foram publicadas várias obras que enfocam personagens ou grupos específicos da geração roqueira dos anos 1980, como biografias de Lobão, Renato Russo, dos Titãs, mas seu livro ainda é o único a lançar um olhar de conjunto sobre aquele movimento. Em sua opinião, por que isso aconteceu?
Alexandre –
Eu estou muito presente dentro desse cenário para conseguir ter uma avaliação mais distanciada. O que eu acho é que o livro se distingue dessas outras obras todas porque eu sou um observador à distância. Eu não era sequer jornalista na época retratada pelo livro, então eu consigo ter um olhar de escala muito semelhante ao do leitor comum, pelo menos foi o que pretendi fazer, o que é diferente de todas as biografias e autobiografias publicadas depois do livro. Nesse sentido, ele preserva o interesse do leitor médio, do ouvinte comum, do fã ocasional do rock dos anos 1980. Por isso, acho  bom que esse livro esteja de volta

ZH – Na introdução do livro você confessava que nem era fã do rock anos 1980, e no período de lançamento da obra, há 10 anos, foi bastante cobrado por isso. Você foi mal interpretado ou se expressou mal?
Alexandre –
Eu acho que essa frase me colocava certos riscos que talvez eu não devesse ter corrido, entre eles o risco da má interpretação. Entretanto, se por um lado ela pode ter sido mal interpretada, por outro, em igual número e, espero, até em maior número de vezes, ela deve ter me aberto um campo de credibilidade para poder dizer que o que está lá não é fruto do trabalho de um fã, simplesmente. Agora, o que eu disse lá é que eu não era fã em especial dos anos 1980. O que eu quis dizer, embora talvez não tenha ficado claro, é que eu não quis fazer aquele livro porque era fã ou colecionador das bandas. A minha decisão de fazer o livro foi mais política do que pessoal.

ZH – Já quando o livro saiu, o rock não era mais uma forma hegemônica no cenário cultural, como em seu auge. Hoje, 10 anos depois, com a explosão e a multiplicidade dos gêneros, vê-se que alguns integrantes daquela geração compartilham até mesmo um discurso algo retrógrado de crítica e depreciação do que é feito na contemporaneidade. O rock Brasil envelheceu?
Alexandre –
Acho que aquela geração dos anos 1980, bem como público dos anos 1980 até meados dos anos 1990, ele acostumou-se com a música como uma grande comunidade que partilhava de  uma série de valores, de discursos, de ideias. Essa ideia de que a música pop poderia ser uma grande comunidade de centenas de milhares de pessoas, foi se esvaziando desde então. O que se tem hoje são pequeníssimas comunidades, muito específicas e que dificilmente se reúnem. Então a gente tem os fãs dos Los Hermanos, que são em número tão grande quanto o dos detratores dos Los Hermanos. E eu acho que essa dispersão é o que invialibiza, por exemplo, editar uma revista de música, que precisa de um certo número de leitores congregados com um mínimo de coesão para funcionar, o que não se tem mais. É daí que acredito que venha parte desse discurso desses artistas: “pô, legal era na minha época.” Sim, era legal na sua época porque você conseguia tocar toda noite, conseguia ir nas TVs abertas e vender centenas de milhares de discos. E é um cenário muito diferente.

ZH – E o que essa mudança representa em termos artísticos?
Alexandre –
Eu acho que a gente perdeu no ponto de vista de que essas microcomunidades tiram do artista um grande desafio que havia nos anos 1980: o artista era inquirido por públicos que não eram o seu, que não estavam dispostos a gostar do que ele faria. Quando o RPM ia tocar no Chacrinha, quando o Akira S. precisava tocar no Napalm ou os Replicantes tinham de se apresentar no 89, em São Paulo, eles eram obrigados a convencer um público que não tinha referências anteriores deles. Hoje é impossível você sair de casa sem ter pesquisado pelo menos no myspace ou no canal do YouTube da banda. Então quando você vai a um espetáculo, vai para avalizar aquilo que você gosta. O exercício de o artista convencer o público se perdeu, e perdendo isso, perde-se uma música mais comunicativa. Nesse sentido, isso representa um recuo do que se conquistou naquela época. Agora, por outro lado, a gente ganha em experimentação, em ousadia. Artisticamente, os valores são equivalentes, mas como oportunidade, como mercado, como cenário, não tenho dúvida de que os anos 1980 foram especiais.

ZH – Durante anos, houve um entendimento tácito e uma reclamação unânime dos artistas daquela geração de que as gravadoras lesavam os músicos, mas aquele era o único sistema disponível. Só que com a implosão da indústria musical, muitos daqueles artistas ainda parecem tatear em busca de um caminho neste momento em que as gravadoras não lucram e os ouvintes não pagam. É também a sua impressão?
Alexandre –
Acho que sim, e acho que a questão é mais grave. A ideia de que você possa vender seu talento para que um grande empresário pague seu salário é cada vez menos provável, não apenas para a música. A gente vê uma quantidade de caras que saíram da mídia, ou desse sistema, para usar a palavra que você empregou, para trilhar possibilidades de relação de negócios que tendem ao infinito. Acho que não é uma questão dos artistas, mas de todos os profissionais que trabalham com criação, comunicação e entretenimento, que são as áreas que eu de fato conheço, embora eu desconfie que esse fenômeno vá para outras áreas. Acho que a inadequação de alguns desses artistas vem do fato de que muitos deles têm mais de 50 anos. E têm a convicção, ainda que não admitam, de que o auge do seu fervor criativo já passou. Eu acho pouco provável que esses caras estejam interessados em desbravar tudo outra vez, de inventar uma nova maneira de trabalhar, de botar a música não sei onde para poder chegar no seu público para fazer show muito menores em termos de público. Acho que alguns tentam: o Lobão, o Leoni é um cara que tenta reinventar várias alternativas, mas são exceções, não dá para chamar de tendência. A tendência é de que seja como faz o Kid Abelha: se reune a cada seis anos, faz mais uma turnê comemorativa de data redonda, grava um disco ao vivo, um DVD, um especial para algum canal, lança duas músicas novas e se recolhe novamente.


Os Replicantes. Foto: Rochelle Costi, Divulgação, Arquivo ZH



Nos bares da vida

06 de março de 2013 0

Cena de "Uma História Radicalmente Condensada...". Foto: Cris Lyra, divulgação

Quando foram apresentados, ele fez uma piada, esperando ser apreciado. Ela riu extremamente forte, esperando ser apreciada. Depois, cada um voltou para casa sozinho em seu carro, olhando direto para a frente, com a mesma contração no rosto.
O homem que apresentou os dois não gostava muito de nenhum deles, embora agisse como se gostasse, ansioso como estava para conservar boas relações a todo momento. Nunca se sabe, afinal, não é mesmo não é mesmo não é mesmo.

O texto acima é a íntegra (sim, a íntegra) do conto Uma História Radicalmente Condensada da Vida Pós-Industrial, praticamente um cruzamento entre vinheta e epigrama que o autor defunto David Foster Wallace publicou em sua coletânea de contos Breves Entrevistas com Homens Hediondos. É o primeiro texto da coletânea, que contém alguns dos melhores contos de Wallace, como Para Sempre Em Cima e A Pessoa Deprimida.

Publico aqui porque a mesma companhia paulista que há um ou dois anos apresentou aqui em Porto Alegre uma peça adaptada com o mesmo título do livro agora apresenta uma nova produção retirada do livro de Wallace, chamada justamente Uma História Radicalmente Condensada da Vida Pós-Industrial. O espetáculo é montado em bares, com os pagantes recebendo um fone para escutar a conversa do elenco durante a peça, enquanto a casa funciona normalmente atendendo outros frequentadores que podem nem saber o que está acontecendo ali.

A peça será apresentada em Porto Alegre em um dos pontos tradicionais da boemia da Cidade Baixa, o Van Gogh (Na Lima e Silva, esquina com João Pessoa). As apresentações serão realizadas nos dia 8, 9 e 10 de março (sexta e sábado, às 21h; domingo, às 20h). Os ingressos estão à venda no próprio bar, a partir de duas horas antes de cada performance. Achei que seria um bom pretexto para publicar a história de Wallace