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Roth e as lições do desejo

24 de abril de 2013 0

Philip Roth no traço de Gilmar Fraga

No momento em que os admiradores de Philip Roth ainda absorvem a notícia recente de sua aposentadoria, chega ao Brasil uma nova tradução de um de seus livros que melhor sintetizam suas qualidades como escritor. Em O Professor do Desejo, Roth mergulha o leitor no intelecto e nas fragilidades de um jovem professor universitário, David Kepesh. Embora não seja tão recorrente como Nathan Zuckerman, personagem presente em oito livros de Roth, Kepesh é a figura central de três obras do escritor. Sua primeira aparição se dá em The Breast (1972), novela na qual Roth assume com voracidade sua dívida para com Franz Kafka. O jovem Kepesh acorda certo dia transformado em um seio gigantesco de 70 quilos. Com a volúpia narrativa que o tornou um dos maiores autores americanos, Roth investiga a fundo as consequências sensoriais de tão bizarra transformação.

Publicado em 1977, O Professor de Desejo é o segundo episódio dessa trilogia – embora indícios sutis na narrativa pareçam posicionar a história do segundo livro antes da transformação kafkiana vivenciada no primeiro. Kepesh é, neste romance, um jovem intelectual presa de uma permanente inquietação que o leva a buscar experiências eróticas e a mergulhar em relacionamentos desastrosos. Crescido no pós-guerra, filho de um casal judeu que mantém um hotel de temporada nas montanhas, ele próprio recorda sua história – em retrospecto, mas com os verbos no tempo presente, técnica responsável pela sedução e pela estranheza de uma narrativa que, ao mesmo tempo, relembra e avança. Criado em um cenário de tranquila domesticidade familiar, Kepesh sai de casa para a universidade e encontra, fora de seu protegido território da infância, um mundo de tentações a que não está preparado para resistir. Fascinado por Kafka (obviamente) e por Tchékhov, Kepesh oscila entre a erudição interessada no impulso vital da grande arte e o vórtice de sensações ao qual é arrastado pelos seus impulsos sexuais.

É Milan Kundera, em um dos ensaios da recente colêtanea Um Encontro (Companhia das Letras, 176 páginas, 2013), quem nota outro dos interessantes artifícios de O Professor de Desejo. Como contraponto à história de Kepesh, representativa de uma geração que amadureceu em plena revolução sexual, Roth oferece os pais do personagem, um casal que passou a vida inteira junto e pautado pelos valores anteriores de família e pela visão pré-Guerra de dever e vida adulta – em última análise, os pais de Keppesh são pessoas boas, mas incapazes de compreender as angústias do filho, formado por outro ambiente e outra mentalidade.

A nova tradução, de Jorio Dauster, ganha uma edição sofisticada, representativa da gradual mudança do status de Roth como escritor. A versão anterior, publicada pelo Círculo do Livro, trazia uma capa de inescapável charme vulgar ostentando um umbigo lascivo – para tirar proveito da fama de pornográfico que acompanhou os primeiros trabalhos do autor. Mas, ainda que o sexo como meio de interação com o mundo seja uma constante dos personagens de Roth, homens instruídos condenados a refletir incessantemente sobre suas permanentes inquietações eróticas e existenciais, não é a excitação gratuita (marca do pornográfico) o objetivo de sua literatura. A linguagem flaubertiana com que Roth esmiúça a psique de Kepesh tem mais sucesso em provocar comiseração e riso do que tesão.

Relido agora, com a perspectiva do que Roth fez em obras tardias como Homem Comum, Fantasma Sai de Cena e no próprio O Animal Agonizante (2001), que encerra a trilogia de Kepesh com um belo réquiem pela decadência do corpo, O Professor de Desejo mostra-se a prova de uma perfeita unidade temática, um plano artístico bem delimitado atravessando os livros ao longo do tempo. Mais do que um escritor do erotismo, ele é um autor do corpo – não é à toa que, na primeira aparição de Kepesh, ele se vê transformado em uma gigantesca glândula mamária. Em Kepesh e em outros livros protagonizados por Nathan Zuckerman na juventude, os impulsos do corpo estão sempre em conflito com a aparente dignidade do intelecto (e em O Professor do Desejo há uma cena absurda e engraçadíssima que ilustra de modo magistral esse confronto: um sonho no qual Kepesh se vê frente a frente com uma idosa que é apresentada a ele como a prostituta que atendia Franz Kafka).

Já nos livros tardios, é a mente lúcida do mesmo tipo de protagonista que se vê traída pela inevitável falência física. Comum a ambos, está o diagnóstico da fragilidade humana e de suas tentativas insistentes e belamente patéticas de diminuir o desconforto de tal fraqueza.

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