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Rubem Braga no centro do mundo

09 de maio de 2013 0

Pois não é que máquinas do tempo também podem ser construídas com papel? Vejamos o exemplo de Retratos Parisienses, reunião de reportagens escritas por Rubem Braga na França, reunidas pela primeira vez em livro. Retratos Parisienses, que está sendo publicado dentro das comemorações do centenário do autor, celebrado este ano, reúne 31 textos, a maioria deles escritos em 1950, quando Rubem Braga, então no fim da casa dos 30, residia em Paris, atuando como correspondente para a Folha da Tarde e o Correio da Manhã, ambos do Rio de Janeiro. De Paris – e de Roma, nos últimos textos –, Braga radiografa uma Europa ainda metrópole cultural, em processo de reconstrução depois da guerra e, de modo geral, alarmada com a possibilidade de eclosão de um novo conflito, entre a União Soviética comunista e os Estados Unidos, centro do capitalismo.

São essas as questões que atravessam boa parte das reportagens enviadas por Braga do estrangeiro: ele faz uma recapitulação do feroz debate entre os intelectuais franceses a respeito do antissemitismo de Louis-Ferdinand Céline, então em vias de ser julgado como colaboracionista. Ouve Thomas Mann, em uma palestra, lamentar a ocupação alemã de Paris, ocorrida uma década antes. Também escuta Jean-Paul Sartre vaticinar que a guerra entre capitalismo e comunismo talvez não fosse mais evitável e que, quando o conflito explodisse, seria “difícil de terminar a não ser depois de muitos e muitos anos, quando a maior parte do mundo estiver reduzida a tal estado de miséria que ninguém saberá o que foi que venceu”.

Com bons contatos na cidade, como o artista Cícero Dias, o escritor Gilberto Amado ou o jornalista Louis Wiznitzer, Braga tem acesso aos personagens que formam o centro do panorama artístico de seu tempo, e não apenas na literatura. Fala com o escritor Georges Duhamel, participa de um encontro no café em que se reúnem os remanescentes do surrealismo liderados por André Breton, mas também conversa com Pablo Picasso, Marie Laurencin e Marc Chagall, grandes nomes das artes plásticas, e com o mímico e ator Jean-Louis Barrault e o cineasta Henri-Georges Clouzot. Neste ponto, é possível fazer uma observação sobre o trabalho editorial do volume: falta ao livro um trabalho mais sólido de contextualização de alguns pontos levantados nas entrevistas. Clouzot, por exemplo, declara a Braga, entusiasmado, seu plano de ir ao Brasil para fazer um filme. O cineasta havia recém casado com Vera Amado, filha do já mencionado Gilberto Amado, e planejava levar uma equipe de filmagem ao Brasil para rodar lá um documentário sobre o país de sua mulher. Não seria mal uma nota ou algo semelhante dando conta dos acontecimentos posteriores – Clouzot de fato veio ao Brasil, mas teve problemas (que surpresa) com as tacanhas autoridades nacionais por estar muito interessado em filmar a pobreza do país em vez de suas belezas naturais. A produção do documentário se estendeu demais, os custos foram à Lua e o filme jamais foi finalizado, o que poderia ter sido informado no livro.

Outro ponto que chama a atenção é como estes textos de Braga, para além da qualidade estética que de fato apresentam, traem também o provincianismo autocentrado da vida cultural no Rio de Janeiro de então.Em uma das visitas que relata, Braga ouve Duhamel dizer que, mesmo com a produção ficcional intensa, faz questão de escrever artigos para imprensa como forma de ampliar seu público.“Fiz um cálculo: meus artigos atingem cerca de quatro milhões de pessoas. Espero que muitas dessas pessoas me leiam e pensem no que escrevo.” Pois Braga parece ter a noção oposta. Ao enviar artigos periódicos para dois grandes jornais da Capital Federal, com um suposto grande número de leitores, portanto, Braga se compraz em comparar seus entrevistados a artistas brasileiros de seu grupo mais próximo, como se escrevesse – e talvez o fizesse – para seus amigos. Jean Cocteau “parece um pouco com Sérgio Milliet” ou com “um Olegário Mariano desidratado”. Jacques Prévert lhe recorda “um irmão mais moço de Jayme Ovalle”. Sartre se apresenta a seus olhos como um Portinari “mais forte e mais rústico”.

Essa insistência na piada interna não deixa de ser a outra face do elemento de maior interesse do livro: o fato de que nestes textos Braga é menos um repórter ou correspondente jornalístico strictu sensu, e sim um escritor, o cronista que logo se tornaria o maior do Brasil narrando não “entrevistas”, mas “visitas” a seus pares. Não é um livro de entrevistas com personalidades. É, antes, uma visão pessoal de um mundo no qual Braga circulava com a segurança de quem a ele pertencia.

ELES POR ELE:

PABLO PICASSO
“Pede notícias do casal amigo, faz-me sentar, e quer saber se pinto ou desenho, quando cheguei etc. Está, como eu,  de short e sapato – tênis e uma camisa esporte. É um pouco mais baixo do que eu esperava, retaco, musculoso e belo, com sua grande cabeça bronzeada. Sei que vai fazer neste verão 69 anos – e eu não lhe daria mais de 54. Conheço bem e tenho prazer em ver pessoalmente essa bela cabeça de homem à qual todas as marcas da passagem do tempo só fizeram ajuntar energia e firmeza…”

MARIE LAURENCIN
“Reparo em sua cabeça, sob os cabelos brancos. Deve ter tido certo encanto em moça, com esses olhos vivos, a pele rosada; hoje se parece com a minha concierge. Apesar de tudo é simpática, e quando o marchand Barreiros aparece e lhe pergunta se é verdade que ela vai se casar, tem um sorriso quase de jeune fille antes de dizer e explicar que não, mas é verdade que tempos atrás um grande cirurgião a pediu em casamento. Uma de suas amigas presentes conta a história.”

THOMAS MANN
Todo vestido de preto, com gestos sóbrios, Thomas Mann começou a falar: ‘Sofri profundamente quando, há dez anos, a Alemanha celebrou sua miserável vitória sobre a França’. Mas advertiu, a certa altura, falando do seu livro: ‘A tendência pactuar com o demônio, da qual muito se falou a propósito de Fausto, não se limita à Alemanha.’ E depois: ‘Nunca fui e nunca serei um homem de partido. Cada homem que atiça o ódio deve sempre pensar que está apressando a catástrofe.’”

JEAN-PAUL SARTRE
“À primeira vista, o dono da casa lembra Portinari; um Portinari que fosse mais forte e mais rústico. Esse parisiense que deriva da Borgonha e da Alsácia tem alguma coisa de camponês do Norte. É vermelho, tem a pele grosseira e os cabelos cor de palha suja. Os pedaços de costeleta que passam sob os ganchos dos óculos já embranqueceram. É impossível saber se está falando com Roberto Assumpção ou comigo, pois cada olho verde fixa um de nós, formando um ângulo de 45 graus.”

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