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Algumas notas sobre A Vida de Pi

02 de julho de 2013 0

1 – Precisei esses tempos finalmente encarar o romance A Vida de Pi, de Yann Martel, para um debate que participei há algum tempo na Palavraria. Dessa leitura, ficou a noção de que, ao menos em termos de construção simbólica, o romance é mais complexo do que simplesmente um “plágio de Moacyr Scliar“, como foi divulgado pela imprensa internacional na ocasião em que Martel foi premiado com o Man Booker Prize. De fato, o próprio Martell admitiu mais tarde haver retirado a imagem do homem em um bote confrontando um predador selvagem de uma das partes de Max & os Felinos. Martell não leu o livro, leu apenas a descrição da imagem em uma resenha da edição americana, e se apropriou da imagem para seus próprios propósitos artísticos – e aqui encerramos a parte deste texto referente a este assunto. Scliar, um homem de elegância ímpar, manifestou-se publicamente a respeito em 2009 e comentou que apropriações eram parte do jogo literário – o que talvez Martell não tivesse feito direito foi o reconhecimento, mais tarde incluído em uma nota em edições posteriores. O que me interessa aqui é outra apropriação realizada por Martel: a de Robinson Crusoe, um dos livros fundadores do romance moderno e a história paradigmática de sobrevivência em circunstâncias adversas.

2 – Em seu estudo A Ascensão do Romance, Ian Watt comenta que a chave para entender o grande mito literário que é Robinson Crusoe é o modo como a história do náufrago criada por Daniel Defoe realiza, no plano literário, a oportunidade única de concretizar o grande anseio da civilização moderna: a absoluta liberdade econômica, social e intelectual do indivíduo“. Crusoe é o herói necessário para a modernidade industrial e capitalista que nascia com ele: o homem razoavelmente comum que, munido de habilidade e engenho, transforma e domina a natureza hostil, não apenas sobrevivendo nela, mas dela tomando posse para uso em seus próprios termos. Claro que Crusoe, como Watt não deixa de ressaltar, não domina a ilha sozinho, mas amparado no legado do engenho humano, ao ter acesso ao estoque de ferramentas que consegue salvar do naufrágio – uma ideia que retorna na versão cinematográfica mais recente de Robinson Crusoe, o filme O Náufrago, estrelado por Tom Hanks (que, embora não assuma a adaptação abertamente, é eivado do espírito do livro, quer os produtores que o financiaram tenham lido a obra ou apenas ouvido falar de um resumo da história). Ainda assim, embora o acaso lhe proporcione os meios e as ferramentas, são a vontade e o intelecto “superiores” do homem civilizado Crusoe que garantem a ele a predominância natural tanto sobre o ambiente quanto sobre o outro ser humano que cruza seu caminho. Como diz Watt: “Mesmo quando já não está sozinho, sua autarquia pessoal permanece – na verdade aumenta: o papagaio grita o nome do dono; Sexta-Feira espontaneamente jura ser seu escravo para sempre. Crusoe imagina-se monarca absoluto, e um visitante chega a perguntar se ele é um deus”.

3 – A Vida de Pi é, a seu modo, a inversão desse processo. O jovem Pi Patel, garoto indiano que está migrando para o Canadá com a família, naufraga e passa mais de 200 dias à deriva a bordo de um bote que, primeiramente, divide com o tigre Richard Parker, uma hiena, uma macaca e uma zebra. Previsivelmente, à medida que os dias passam, a luta natural se instaura, a hiena mata a zebra e a macaca, e é, enfim, morta pelo tigre. Restam apenas Pi e o tigre, um magnífico animal descrito para simbolizar a força e a majestade do mundo natural diante da frágil criatura humana. Pi, contudo, sobrevive. Em parte porque, assim como o Crusoe da história de Defoe, sabe aproveitar e lançar mão das coisas que o engenho de outros preparou para ele (boias, rações náuticas, cordas, remos). Só que, se Crusoe conseguia sobreviver e dominar o ambiente em termos monárquicos, levando a efeito a ideologia do homem branco europeu civilizador que tornou o livro tão popular, Pi é o anti-Robinson Crusoe porque não é o elemento mais forte na equação. Se Crusoe, com seu espírito empreendedorista europeu, se dá ao luxo de rebatizar o outro homem que encontra porque não está interessado em aprender seu nome, Pi, ao contrário, só consegue permanecer vivo por tanto tempo pelo conhecimento que uma vida passada no zoológico legou-lhe a respeito do animal como um “outro”. Não é o ambiente, a paisagem nem os demais que se curvam voluntariamente ao engenhoso senhor, é Pi quem precisa ser astucioso para, dentro das regras do mundo animal, transformar o bote em que navegam não em seu reino particular, mas em uma reprodução passável da jaula que o tigre habitava no zoológico antes do naufrágio. Pi derrama a própria urina sobre a parte do bote coberta por uma lona, tem sucesso em pescar e não se alimenta dos peixes que apanha, mas os oferece regularmente a Richard Parker, reservando para si as rações de bordo. Sob esse prisma, Pi não é o europeu independente, é o natural do terceiro mundo sobrevivendo graças a uma complexa e brutal relação de “dependência” com o animal mais forte. Não deixa de ser irônico pensar nisso ao constatar que o romance, lançado aqui inicialmente como A Vida de Pi, mudou seu nome em edição posterior para As Aventuras de Pi, o nome da adaptação cinematográfica de Ang Lee, em mais uma clara mostra da relação sobrevivência/subserviência. Mantive, nestas notas, o primeiro nome do livro, e sim, foi por pura teimosia, se você está perguntando.

4 – Tivesse parado por aí, talvez A Vida de Pi fosse o grande livro que quase chega a ser, mas há uma outra dimensão que se sobrepõe, e é, a meu ver, a grande responsável pela insatisfação com o conjunto: o caráter doutrinário religioso. Ao tecer o que parece uma fábula a respeito da dominação, invertendo os sinais de um mito literário fundador do romance no ocidente, Martel a transforma em uma alternativa em um conflito de versões que pede ao seu leitor que, a exemplo do narrador do romance, escolha entre qual história prefere. Alguns viram aí uma afetuosa declaração de amor à literatura e seu potencial mágico de maravilhamento. Mas, assim como Crusoe, em que pese sua grande capacidade de maravilhar seus leitores, não é um livro neutro do ponto de vista ideológico, A Vida de Pi urde o twist final de tal modo na descoberta espiritual do protagonista que a escolha final não é sobre a imaginação versus a crueza da realidade, é sobre o mundo como ele é e a dimensão metafísica de Deus – o que torna a submissão de Pi diante do elemento mais forte no bote não apenas uma alegoria política do mundo contemporâneo, mas uma forma velada de evangelização. O que é extremamente empobrecedor quando comparado com outra experiência de inversão da história de Crusoe: Foe, de J.M. Coetzee. No romance de Coetzee, é também o “outro” o centro do relato de Crusoe: uma mulher, Susana Barton, que, em uma viagem náutica em busca de uma filha raptada, naufraga após um motim e vai parar na mesma ilha em que já estão Crusoe e Sexta-Feira. Depois que o trio é resgatado, e Crusoe morre antes do retorno à Inglaterra, ela tenta relatar suas aventuras, torna-se amante do escritor Daniel Foe, a quem pede ajuda para tratar seu manuscrito, mas que transforma a história na narrativa das aventuras do falecido Crusoe. O Sexta-feira do romance de Coetzee é um homem privado da palavra ao ter sua língua cortada. Foe (sobrenome do escritor e também, convenientemente, uma das palavras inglesas para “inimigo” ou “adversário”) reproduz, simbolicamente, essa atrocidade ao privar Susana de sua voz literária e substituí-la pela de Crusoe. A temática de Foe não é a linguagem do divino expressando-se na ficção ou no maravilhamento, é, antes, a tematização do silêncio oprimido. O negro Sexta-Feira e sua incapacidade de comunicação – que resiste mesmo às utópicas tentativas de Foe de ensiná-lo a escrever – é um toque patético que, em vez de reduzir seu personagem diante da metafísica ou forçar tanto o narrador como seu leitor a uma escolha entre duas versões da mesma história (como o livro de Martel), arrisca a completar os vazios da história original, trazendo à tona, por espelhamento, seus sentidos ocultos. O que não deixa de ser um exemplo bastante ilustrativo de quem chegou mais perto daquilo que chamamos de “grande arte”.

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