Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts de julho 2013

O diabo na rua, no meio do labirinto

22 de julho de 2013 0

O escritor Daniel Pellizzari. Foto de Renato Parada, divulgação

Daniel Pellizzari publicou recentemente seu romance Digam a Satã que o Recado foi Entendido (Companhia das Letras, 180 páginas, R$ 37), resultado do projeto Amores Expressos. Com o lançamento, o escritor interrompe um silêncio literário que se prolongava desde 2005, com Dedo Negro com Unha (embora, nesse meio tempo, não tenha parado, efetivamente, e sim trabalhado em um projeto de quadrinhos ainda inédito com Rafael Grampá e em um bom número de traduções – a mais recente delas a ganhar edição é a coletânea de ensaios Pulphead, de John Jeremiah Sullivan, vertida para o português por Pellizzari e por Chico Mattoso, autor de outro romance do Amores Expressos, Nunca Vai Embora).

Pellizzari foi enviado a Dublin para uma temporada de um mês em 2007, da qual deveria voltar com o único compromisso de escrever um romance ambientado no local. Quem vem acompanhando o trabalho do escritor desde seus primeiros trabalhos (como os contos de Ovelhas que Voam se Perdem no Céu ou O Livro das Coisas que Acontecem) achou a escolha muito natural (só Moscou pareceria mais apropriado, mas isso talvez resultasse em uma mera repetição do que o autor já havia feito em Dedo Negro com Unha, que tem um terço de sua narrativa ocupado por um pastiche de romance russo). O próprio Pellizzari pensava assim, como relata neste texto postado no blog da Companhia das Letras. Desde cedo havia se interessado pelo folclore, pela cultura, pela história da cidade e pensava que voltaria de lá com o romance praticamente pronto. Na prática não foi bem assim. Embora tivesse já personagens delineados em sua cabeça, Pellizzari precisou de algumas sessões de tentativa e erro para dar forma ao romance que desejava – ou, ao menos, ao romance que desejava assinar.

Digam A Satã que o Resultado foi Entendido continua sendo um livro de Daniel Pellizzari, uma vez que rejeita a forma linear de narrativa e se espraia pela psique de um mosaico de personagens e episódios entre o cômico e o delirante, mas o próprio escritor comenta que sua ênfase desta vez era outra, mais centrada nas angústias e reviravoltas internas de seus personagens (o livro dispensa a voz narrativa em terceira pessoa, cheia de truques, de Dedo Negro com Unha, e entrega a condução da trama aos personagens, em primeira pessoa – com exceção de uma sequência hilária de diálogo durante uma tentativa de roubo). Em Dublin, Magnus Factor, um imigrante sem pouso fixo, resolve ficar atraído pelo que considera “o milk shake perfeito” e pela relação que estabelece com uma linda garçonete eslovena. Monta, então, uma firma que elabora roteiros turísticos falsos explorando fantasiosas histórias de assombração da cidade – há roteiros assim de verdade em Dublin, mas a versão dos personagens difere por só realizar suas excursões durante o dia e não aceitar clientes locais, uma providência necessária, já que eles inventam todas as histórias que apresentam a seus fregueses.

Em volta de Magnus giram seus parceiros de pilantragem Zbigniew e Barry, também narradores, além de Laura, jovem com quem Factor se envolve após ser abandonado por sua garçonete eslovena e que o apresenta a um grupo anarquista chamado Trevo Negro. Na outra ponta do romance (metaforicamente falando, já que as histórias se intercalam mais do que se opõem), está Patrícia, adolescente que fantasia com a própria morte no alto de uma montanha, mas, a caminho de sua morte sonhada, cruza com uma seita de místicos interessados em fazer um sacrifício de sangue para despertar um antigo deus serpente. Em volta de Patrícia, outro centro gravitacional do romance, orbitam Demetrius Vindaloo, o líder do grupo, e Siobhan, uma de suas mais fervorosas adeptas.

O mosaico de trajetórias que se cruzam na Dublin imaginada por Pellizzari amarra suas pontas (talvez até demais) ao fim – e por isso mais não se falará da trama. Conversei com Pellizzari via chat para elaborar a matéria que saiu no Segundo Caderno sobre o livro (leia aqui). Posto aqui a íntegra da entrevista (preservei o tom informal das perguntas e respostas, embora tenha editado uma que outra coisa em benefício da clareza do raciocínio):

Zero Hora – Primeiramente, eu já havia começado a ler o livro quando publicaram o teu texto lá no blogue da Companhia. E estava justamente vendo o livro como o menos “hermético” na tua produção. E ali naquele texto tu comenta que queria dialogar com pessoas, não mais só com a literatura, o que pareceu confirmar essa impressão. O que levou a essa mudança de abordagem?
Daniel Pellizzari
– Eu poderia ficar elucubrando um bom tempo sobre isso, mas acho que no fundo foi mesmo isso: uma vontade de estar mais próximo do leitor, de transmitir e formar alguma conexão emocional. E ao mesmo tempo uma necessidade súbita de explorar personagens (ou seja, pessoas). Comecei a me dar conta de que era isso que eu gostava em boa parte dos meus livros prediletos, mas que por algum motivo (medo, imaturidade, empáfia juvenil) eu tinha evitado nos meus livros anteriores.

ZH – O uso da literatura, das referências, da estrutura intrincada, das citações de modelos e reapoveitamento dos gêneros antes talvez fosse, por essa perspectiva, uma forma de defesa, então? Não que tu não esteja fazendo isso aqui neste livro, mas, como tu disse, o foco agora são os personagens.
Pellizzari
– Acho que eu não tinha encontrado ainda uma forma de falar de uma forma mais direta sobre o que é estar vivo (e que talvez fosse um reflexo de ainda não ter encontrado uma forma mais direta de viver). Então era o que eu conseguia fazer na época, tinha outras preocupações na vida e na literatura. Não renego o Dedo Negro com Unha, não é isso, gosto bastante dele. Mas é um livro escrito por outra pessoa, alguém de certo modo mais fechado em si. Eu mudei e minha literatura mudou (ainda que isso tenha precisado de um bom tempo de ajuste, nos dois casos).

ZH – Me parece que um dos “grandes temas” deste teu romance é a invenção das tradições, e a tradição como invenção. E como, nos dois casos, uma coisa e outra parecem disfarçar um fundo de violência e até mesmo absurdo. A certa altura, a personagem Patrícia reflete sobre algo parecido, e Magnus e seu grupo de picaretas inventam e improvisam as histórias “fantásticas” de Dublin para turistas. O próprio Magnus comenta como a espontânea ilegalidade de um bando de moleques parece repetir tradições muito antigas da cidade. Tu concorda com essa avaliação?
Pellizzari
– Sim. (Obrigado por perceber). A invenção (de tradições, de crenças, acima de tudo de identidades, que engloba tudo isso) e o ímpeto que leva a ela, por conta de um senso entranhado de inadequação, de que existe algo faltando. E que talvez exista um modo de o indivíduo ter, de fato, alguma agência nesse processo. Aí se colocam os dois polos opostos, que são o Magnus (que é um sujeito passivo, mas que começa o livro tomando uma decisão) e a Patricia (que no início do romance está desistindo de viver, mas que vai se mostrando alguém muito ativo, disposta a tomar as rédeas e criar as regras da própria vida).

ZH – É interessante tu teres mencionado essa questão do senso de inadequação, porque uma das formas de tu tocar nisso é construir um romance que, para além dessa oposição que assinalaste, parece brincar muito e até satirizar às vezes o impulso gregário. Há uma série de grupos e pequenas “comunidades” no livro (a seita do deus serpente, o Trevo Negro, a “empresa” de Magnus e Barry). Ao discutir o lugar do indivíduo tu satirizas o grupo?
Pellizzari
– De certo modo eu quis mostrar o quanto um grupo, por mais homogêneo que pareça de fora, e por mais que exista um discurso unificador, é formado por pessoas muito diversas – mesmo aquelas que mais tentam se adequar ao grupo, aceitar as regras. E que as percepções que as pessoas de um grupo têm sobre as outras são sempre incompletas e muitas vezes totalmente equivocadas. No fim das contas todo mundo está sozinho. Não é possível viver sozinho, não é possível realmente se encaixar num grupo, o que é possível, então? Algo por aí.

ZH – Foi essa mudança de vida e de literatura a responsável pelo tempo decorrido entre a viagem e o livro? Tu estavas aprendendo que novo escritor tu era?
Pellizzari –
Sim, é o que comentei no texto do blog da Companhia. Precisei de um tempo para me reajustar, tanto na vida quanto como escritor. Depois de um período ficou claro o tipo de livro que eu queria escrever, mas ao mesmo tempo descobri que eu não sabia como fazer isso. Tinha a técnica, mas não sabia ao certo como colocar a danada a serviço do romance. Aí se seguiu uma história acidentada de crises e reavaliações e tentativas em falso, até as coisas se encaixarem e tudo dar mais certo do que eu imaginava. Assim como os personagens, eu também passei por esse processo de reavaliação e criação de uma identidade, no caso, a de escritor. Que tipo de escritor eu não queria mais ser, o escritor que eu preferia me tornar, como fazer isso, até onde isso seria possível. Desisti de tudo dezenas de vezes ao longo desse tempo, o que não foi muito fácil.

ZH – Não deixa de ser simbólico que isso ocorra em um romance sobre a Irlanda, também, em que questões de identidade também fazem parte da, digamos, “imagem pública” do país.
Pellizzari –
É, eu brinquei um pouco com essas questões de identidade irlandesa com a história dos sequestros de símbolos nacionais.Que englobam tanto símbolos de fato, como a harpa e o livro de Kells, quanto coisas mais aleatórias e/ou turísticas, como as múmias da St. Michans ou a estátua do Oscar Wilde.

ZH – Sim, embora tu estejas lidando com as questões de identidade, tu sempre trata no livro as identidades mais “estabelecidas” com humor e sarcasmo. Os monólogos nacionalistas e chauvinistas em mais de um sentido de Barry, o roubo dos objetos que representam essa nacionalidade, e como eles são realizados por um grupo que é descrito de modo meio mambembe. É como se o romance sinalizasse que, embora lide com questões de identidade, não vê no nacionalismo ou em sectarismos semelhantes a solução para elas.
Pellizzari
– Tradições são resultados de longos processos históricos, mas ao mesmo tempo esses processos são detonados e levados adiante por indivíduos tão confusos quanto quaisquer outros. Então, no fundo, dá no mesmo: uma tradição é uma idiossincrasia socialmente aceita que teve tempo para se estabelecer. Quanto à ideia de nação/nacionalidade, acho que aí transparece um pouco minha opinião pessoal de anarquista, que é: acho uma bobagem sem tamanho.

ZH – Não tenho conhecimento de misticismo o bastante, então posso estar interpretando errado, mas quando o foco narrativo é o Demetrius, ele começa a recitar os fundamentos de seu credo, que devem estar de algum modo baseados em conhecimento esotérico real. Mas o tom da narrativa me parecia cômico, patético, como se Demetrius fosse um Ignatius Reilly do misticismo, com aquela crença levada ao paroxismo e tornada, portanto, ridícula. Essa é a ligação entre o escritor de antes e o de agora? Não o místico, mas o humorístico?
Pellizzari
– Claro, no livro isso é levado às últimas consequências porque o Demetrius é esquizofrênico, mas de certo modo ele e a Siobhan são uma colagem de pessoas que conheci no meio esotérico/ocultista – as pessoas mais frágeis e mais doentes, sim, mas não por isso menos reais. Mas quanto ao humor: eu gosto bastante de humor em literatura, e acho lamentável que se considere uma forma inferior de expressão. Até porque o trágico pode ser comunicado de forma muito eficaz através do humor, o próprio Ignatius é um exemplo (e espero que meus personagens também). Mas – e aí é o meu ponto de vista, claro, que não tem como ser exato – acho que meu humor tem sempre um pouco de melancolia. Tem muito de humor negro e também do que chamam de gallows humor em inglês, o humor do condenado em frente ao patíbulo. Gosto de trabalhar o humor como forma de lidar com situações extremas, com desesperança – boa parte dos deprimidos crônicos desenvolvem um senso de humor aguçado.

ZH – Tu usa também a doença com elemento no livro: Demetrius é esquizofrênico, Zbigniew também sofre ataques de um distúrbio psicológico. A doença é também um componente da identidade. Ou tudo isso foi uma tentativa de dificultar ainda mais as cartas, uma vez que estavas lidando com personagens em busca de uma identidade e o elemento da doença tornava o desafio mais alto porque havia condições que tornavam para eles essa tarefa mais complicada?
Pellizzari –
Foi uma tentativa de tentar entender (e comunicar) o que é “doença”, creio. Porque apesar de alguns sintomas serem inequívocos e de causarem sofrimento real e prejuízo à vida de quem tem que viver com eles, até que ponto alguém “doente” é tão diferente assim, em termos fundamentais, de alguém mais “ajustado”? O que define os limites entre uma coisa e outra? É possível decidir o que fazer com isso, viver normalmente, ter uma existência satisfatória? Se sim, como? Se não, o que fazer?

ZH – Tais questões de identidade parecem estar também no fato de que é um dos poucos livros dessa série que não é protagonizado pelo “olhar brasileiro sobre a paisagem”, embora muitos dos personagens sejam estrangeiros em Dublin. É outra camada da tua tentativa de encontrar a humanidade dos personagens, independente das circunstâncias externas?
Pellizzari
– Todo mundo é estrangeiro em qualquer lugar. Pelo menos os meus personagens, e eu também me sinto assim no mundo, logo é a experiência que consigo (ou tento) comunicar e que busco compreender.

Algumas notas sobre A Vida de Pi

02 de julho de 2013 0

1 – Precisei esses tempos finalmente encarar o romance A Vida de Pi, de Yann Martel, para um debate que participei há algum tempo na Palavraria. Dessa leitura, ficou a noção de que, ao menos em termos de construção simbólica, o romance é mais complexo do que simplesmente um “plágio de Moacyr Scliar“, como foi divulgado pela imprensa internacional na ocasião em que Martel foi premiado com o Man Booker Prize. De fato, o próprio Martell admitiu mais tarde haver retirado a imagem do homem em um bote confrontando um predador selvagem de uma das partes de Max & os Felinos. Martell não leu o livro, leu apenas a descrição da imagem em uma resenha da edição americana, e se apropriou da imagem para seus próprios propósitos artísticos – e aqui encerramos a parte deste texto referente a este assunto. Scliar, um homem de elegância ímpar, manifestou-se publicamente a respeito em 2009 e comentou que apropriações eram parte do jogo literário – o que talvez Martell não tivesse feito direito foi o reconhecimento, mais tarde incluído em uma nota em edições posteriores. O que me interessa aqui é outra apropriação realizada por Martel: a de Robinson Crusoe, um dos livros fundadores do romance moderno e a história paradigmática de sobrevivência em circunstâncias adversas.

2 – Em seu estudo A Ascensão do Romance, Ian Watt comenta que a chave para entender o grande mito literário que é Robinson Crusoe é o modo como a história do náufrago criada por Daniel Defoe realiza, no plano literário, a oportunidade única de concretizar o grande anseio da civilização moderna: a absoluta liberdade econômica, social e intelectual do indivíduo“. Crusoe é o herói necessário para a modernidade industrial e capitalista que nascia com ele: o homem razoavelmente comum que, munido de habilidade e engenho, transforma e domina a natureza hostil, não apenas sobrevivendo nela, mas dela tomando posse para uso em seus próprios termos. Claro que Crusoe, como Watt não deixa de ressaltar, não domina a ilha sozinho, mas amparado no legado do engenho humano, ao ter acesso ao estoque de ferramentas que consegue salvar do naufrágio – uma ideia que retorna na versão cinematográfica mais recente de Robinson Crusoe, o filme O Náufrago, estrelado por Tom Hanks (que, embora não assuma a adaptação abertamente, é eivado do espírito do livro, quer os produtores que o financiaram tenham lido a obra ou apenas ouvido falar de um resumo da história). Ainda assim, embora o acaso lhe proporcione os meios e as ferramentas, são a vontade e o intelecto “superiores” do homem civilizado Crusoe que garantem a ele a predominância natural tanto sobre o ambiente quanto sobre o outro ser humano que cruza seu caminho. Como diz Watt: “Mesmo quando já não está sozinho, sua autarquia pessoal permanece – na verdade aumenta: o papagaio grita o nome do dono; Sexta-Feira espontaneamente jura ser seu escravo para sempre. Crusoe imagina-se monarca absoluto, e um visitante chega a perguntar se ele é um deus”.

3 – A Vida de Pi é, a seu modo, a inversão desse processo. O jovem Pi Patel, garoto indiano que está migrando para o Canadá com a família, naufraga e passa mais de 200 dias à deriva a bordo de um bote que, primeiramente, divide com o tigre Richard Parker, uma hiena, uma macaca e uma zebra. Previsivelmente, à medida que os dias passam, a luta natural se instaura, a hiena mata a zebra e a macaca, e é, enfim, morta pelo tigre. Restam apenas Pi e o tigre, um magnífico animal descrito para simbolizar a força e a majestade do mundo natural diante da frágil criatura humana. Pi, contudo, sobrevive. Em parte porque, assim como o Crusoe da história de Defoe, sabe aproveitar e lançar mão das coisas que o engenho de outros preparou para ele (boias, rações náuticas, cordas, remos). Só que, se Crusoe conseguia sobreviver e dominar o ambiente em termos monárquicos, levando a efeito a ideologia do homem branco europeu civilizador que tornou o livro tão popular, Pi é o anti-Robinson Crusoe porque não é o elemento mais forte na equação. Se Crusoe, com seu espírito empreendedorista europeu, se dá ao luxo de rebatizar o outro homem que encontra porque não está interessado em aprender seu nome, Pi, ao contrário, só consegue permanecer vivo por tanto tempo pelo conhecimento que uma vida passada no zoológico legou-lhe a respeito do animal como um “outro”. Não é o ambiente, a paisagem nem os demais que se curvam voluntariamente ao engenhoso senhor, é Pi quem precisa ser astucioso para, dentro das regras do mundo animal, transformar o bote em que navegam não em seu reino particular, mas em uma reprodução passável da jaula que o tigre habitava no zoológico antes do naufrágio. Pi derrama a própria urina sobre a parte do bote coberta por uma lona, tem sucesso em pescar e não se alimenta dos peixes que apanha, mas os oferece regularmente a Richard Parker, reservando para si as rações de bordo. Sob esse prisma, Pi não é o europeu independente, é o natural do terceiro mundo sobrevivendo graças a uma complexa e brutal relação de “dependência” com o animal mais forte. Não deixa de ser irônico pensar nisso ao constatar que o romance, lançado aqui inicialmente como A Vida de Pi, mudou seu nome em edição posterior para As Aventuras de Pi, o nome da adaptação cinematográfica de Ang Lee, em mais uma clara mostra da relação sobrevivência/subserviência. Mantive, nestas notas, o primeiro nome do livro, e sim, foi por pura teimosia, se você está perguntando.

4 – Tivesse parado por aí, talvez A Vida de Pi fosse o grande livro que quase chega a ser, mas há uma outra dimensão que se sobrepõe, e é, a meu ver, a grande responsável pela insatisfação com o conjunto: o caráter doutrinário religioso. Ao tecer o que parece uma fábula a respeito da dominação, invertendo os sinais de um mito literário fundador do romance no ocidente, Martel a transforma em uma alternativa em um conflito de versões que pede ao seu leitor que, a exemplo do narrador do romance, escolha entre qual história prefere. Alguns viram aí uma afetuosa declaração de amor à literatura e seu potencial mágico de maravilhamento. Mas, assim como Crusoe, em que pese sua grande capacidade de maravilhar seus leitores, não é um livro neutro do ponto de vista ideológico, A Vida de Pi urde o twist final de tal modo na descoberta espiritual do protagonista que a escolha final não é sobre a imaginação versus a crueza da realidade, é sobre o mundo como ele é e a dimensão metafísica de Deus – o que torna a submissão de Pi diante do elemento mais forte no bote não apenas uma alegoria política do mundo contemporâneo, mas uma forma velada de evangelização. O que é extremamente empobrecedor quando comparado com outra experiência de inversão da história de Crusoe: Foe, de J.M. Coetzee. No romance de Coetzee, é também o “outro” o centro do relato de Crusoe: uma mulher, Susana Barton, que, em uma viagem náutica em busca de uma filha raptada, naufraga após um motim e vai parar na mesma ilha em que já estão Crusoe e Sexta-Feira. Depois que o trio é resgatado, e Crusoe morre antes do retorno à Inglaterra, ela tenta relatar suas aventuras, torna-se amante do escritor Daniel Foe, a quem pede ajuda para tratar seu manuscrito, mas que transforma a história na narrativa das aventuras do falecido Crusoe. O Sexta-feira do romance de Coetzee é um homem privado da palavra ao ter sua língua cortada. Foe (sobrenome do escritor e também, convenientemente, uma das palavras inglesas para “inimigo” ou “adversário”) reproduz, simbolicamente, essa atrocidade ao privar Susana de sua voz literária e substituí-la pela de Crusoe. A temática de Foe não é a linguagem do divino expressando-se na ficção ou no maravilhamento, é, antes, a tematização do silêncio oprimido. O negro Sexta-Feira e sua incapacidade de comunicação – que resiste mesmo às utópicas tentativas de Foe de ensiná-lo a escrever – é um toque patético que, em vez de reduzir seu personagem diante da metafísica ou forçar tanto o narrador como seu leitor a uma escolha entre duas versões da mesma história (como o livro de Martel), arrisca a completar os vazios da história original, trazendo à tona, por espelhamento, seus sentidos ocultos. O que não deixa de ser um exemplo bastante ilustrativo de quem chegou mais perto daquilo que chamamos de “grande arte”.