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Carlos Fuentes e o eterno retorno

13 de setembro de 2013 0
O escritor mexicano Carlos Fuentes

O escritor mexicano Carlos Fuentes

Da sacada de um hotel em um país que poderia ser tanto o México quanto qualquer outro, dois homens discutem ideias enquanto observam a sangrenta marcha de uma revolução – que também poderia ser qualquer uma. Em torno desse tênue fio condutor que se tece Federico em Sua Sacada, romance que o escritor mexicano Carlos Fuentes concluiu pouco antes de sua morte inesperada, em maio do ano passado.

Federico em Sua Sacada ( Tradução de Carlos Nougué. Rocco, 316 páginas, R$ 39) é um livro de estrutura complexa. A narrativa se divide em quatro seções, cada uma delas com uma citação irônica do hino nacional mexicano. Essas partes se subdividem em capítulos curtos, que se alternam entre o diálogo de dois homens que conversam de uma sacada ara outra em um hotel e os pontos de vista de uma dezena de personagens cujas ações formam a história de uma revolução popular deteriorada em ditadura e terror. O “Federico” do título é o redivivo Friedrich Nietzsche, que discute com o narrador temas centrais de sua filosofia ilustrados pela ação dos homens e das mulheres que amam e se matam lá embaixo: o eterno retorno, a vontade de poder e a legitimação da violência.

Enquanto Federico dialoga com um narrador que muda constantemente de identidade (às vezes é outro Federico, à vezes é um duplo de Fuentes, em outro momento é Dante, uma das figuras centrais do livro), desfilam diante de seus olhos os principais personagens da narrativa, figuras que cumprem uma função alegórica no grande teatro histórico – posição que é marcada mesmo pela escolha dos nomes dos personagens. Dante e Leonardo são irmãos aristocratas em lados opostos. Leonardo é conselheiro do poder constituído, Dante é um dos ideólogos do movimento, ao lado de Aarón Azar, advogado de austeridade sombria, e de Saúl Mendés-Renania, revolucionário que tem abertos na carne estigmas que sangram continuamente. Não demora para que o movimento triunfe, e cada um deles, além de outros personagens que gravitam na história,assumam papéis que resumem o declínio histórico de qualquer revolução real, da francesa à soviética, passando pela mexicana: o traído, o traidor,o mártir,o herói,o tirano

As interrelações entre o trio de líderes reproduzirão, aos poucos, tensões históricas que ora remetem à ruptura de Stalin com Trotsky (quando Aarón vota pela desgraça de seu amigo Dante), ora o conflito entre Danton e Robespierre (Aaron é austero e seco como o “incorruptível” da Revolução Francesa, e o próprio Dante é chamado, às, vezes, de Dantón, um apelido no aumentativo que reproduz no espanhol o nome da “voz da Revolução”. O arco de persoangens, contudo, não é muito desenvolvido, talvez pela própria função alegórica de cada um. A maior exceção talvez seja o sapateiro Basilicato, homem do povo entusiasmado pelo fervor da revolução que vai gradativamente galgando postos na hierarquia do movimento.

Em um romance assumidamente dedicado a transformar o “eterno retorno” de Nietzsche em alegoria, não é de surpreender que temas e inquietações característicos de Fuentes reapareçam neste livro derradeiro. Estão lá acontecimentos suprarreais usados como metáfora para a realidade política latino-americana e a história turbulenta do continente descrita com fartas doses de farsa e sangue – temas comuns ao boom do qual Fuentes foi um dos maiores expoentes e aos quais permaneceu fiel até o fim. Não é um livro fácil,devido à radicalidade de sua experimentação. Também não é um romance coeso,pois,em determinadas passagens, a confusão instaurada pela narrativa parece menos tributária da vontade do autor do que de uma artesania deficiente ou apressada – talvez Fuentes ainda pretendesse trabalhar mais no texto após concluí-lo. Mas serve como um memorável súmula do trabalho de um dos mais combativos autores latino-americanos.

federico

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