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Posts de setembro 2013

O Silêncio das Montanhas, de Khaled Hosseini

18 de setembro de 2013 0

montanhas

“Seus dias em Shadbag estavam contados, como os de Shuja. Agora ele sabia disso. Não havia mais nada para ele aqui. Não havia mais um lar. Ia esperar até o inverno passar, até o degelo da primavera, levantaria numa manhã antes do amanhecer e sairia pela porta. Escolheria uma direção e começaria a andar. Continuaria andando até estar o mais longe possível de Shadbag, para onde o levassem seus pés. E se um dia, caminhando por um vasto campo aberto, se sentisse tomado pelo desespero, iria parar de andar, fechar os olhos e pensar na pena de falcão que Pari achara no deserto.  Imaginaria a pena soltando-se do pássaro, perto das nuvens, um quilômetro acima do mundo, rodopiando e girando nas violentas correntes, arremessada por tumultuadas rajadas de vento por quilômetros e quilômetros de deserto e montanhas, para afinal pousar, entre tantos lugares e, contra tantas probabilidades, aos pés daquela pedra, para sua irmã encontrar. Teria uma sensação de assombro e de esperança também, que tais coisas acontecessem. E mesmo sem se deixar enganar por essa sensação, reuniria suas forças, abriria os olhos e continuaria andando”

Best-seller planetário com seu O Caçador de Pipas, gerando inclusive o que na época foi uma grande “onda afegã” nas prateleiras, o médico e escritor Khaled Hosseini está lançando seu terceiro romance. Menos linear do que os anteriores e composto por uma intrincada estrutura de saltos cronológicos, O Silêncio das Montanhas  (Globo, 352 páginas, R$ 39,90) parece o livro que Hosseini resolveu escrever para provar-se um escritor com mais recursos do que a sua já estabelecida habilidade de contar histórias.

O Silêncio das Montanhas é o título que o tradutor Claudio Carinas encontrou em português, curiosamente, para o original “And The Mountains Echoed”, algo como “As montanhas fizeram eco”, e que também poderia ser “O eco veio das montanhas”, se alguém quisesse, mas que eu não associaria imediatamente a um “silêncio”. Vá lá. O romance começa com a narração de uma história folclórica em que um Dev, monstro mitológico afegão, força uma dolorosa separação familiar. Esse será, com variações, o refrão que se repetirá ao longo do livro, orquestrado em nove capítulos que vão e vêm no tempo, de 1952 a 2012,e em que várias e trágicas separações familiares serão ditadas por entidades menos sobrenaturais mas não menos poderosas: o inverno rigoroso, a culpa, a guerra, o Talibã, a fraqueza humana. No início e no fim de uma trama que alterna narradores e pontos de vista, está a tragédia familiar de dois irmãos, o jovem Abdullah e sua irmã Pari (“fada”, em persa), vendida pelo pai na infância a um casal rico e sem filhos.

Já em sua estreia, o sucesso O Caçador de Pipas (2002), Hosseini provava ser um novelista interessante, que punha o livro a perder por ser um romancista desastrado. O Caçador… era claramente segmentado em três histórias – duas delas boas – cujos pontos de união eram de uma incômoda inverossimilhança melodramática a serviço de uma redenção imposta a marteladas sobre o que de melhor a narrativa tinha: a honestidade brutal de algumas fraquezas do caráter de seu protagonista. Em O Silêncio das Montanhas, Hosseini sai-se melhor em boa parte do texto – favorecido pela estrutura fragmentada que transforma o romance em contos passados em diferentes circunstâncias de tempo e espaço mas interligados pelo retorno eventual de personagens mostrados em capítulos anteriores.

A estrutura é similar à que a americana Jennifer Egan utilizou em seu recente (e elogiado) A Visita Cruel do Tempo, mas a comparação desnuda algumas fraquezas técnicas da obra de Hosseini: o uso de golpes baixos melodramáticos, uma prosa pausterizada que abdica da tensão em favor do sentimentalismo e personagens clichês como a artista volúvel e torturada (neste livro há duas) ou descrições recorrentes de imagética batida (mais de um personagem tem o nariz adunco comparado a um bico de pássaro, por exemplo).

Mas Hosseini é um autor com leitores. E, para estes, sua assinatura deve bastar, ainda que na capa de um livro tão apegado ao melodrama que por vezes derrapa no excesso de açúcar.

Uma incursão pelos cabarés

14 de setembro de 2013 0

vidadificil

Texto de Klécio Santos

O cenário é Jaguarão, à época em que a fronteiriça cidade vivia a epopeia da construção da ponte internacional Mauá, inaugurada em 1930. O agito durante o dia, de marinheiros e operários, contrasta com a noite, quando a cena é dominada pelas prostitutas e a cidade submerge até o amanhecer em um silêncio cúmplice dos segredos de alcova. É nesse passado boêmio que o escritor, tradutor e professor Aldyr Garcia Schlee mergulhou para escrever Contos da Vida Difícil (Editora ARdoTEmpo, 184 páginas, R$ 35), seu mais recente livro, lançado na centenária Bibliotheca Pública Pelotense.

A cidade era rota do tráfico de mulheres provenientes de Montevidéu e Buenos Aires. Uma escala enquanto aguardavam o embarque para o Rio de Janeiro por meio do porto de Rio Grande. É pelos cabarés de luxo que fizeram a fama das cidades siamesas que os personagens de Schlee transitam. Ou mesmo pelos pardieiros – chamados de “peixe” – na orla da praia, junto à curva do rio Jaguarão. As histórias estão interligadas por certa dose de melancolia, impedindo a separação entre um conto e outro. Schlee muitas vezes recorre,com um exagero proposital, à repetição de trechos como forma de prender o leitor aos detalhes e à nostalgia daqueles tempos em que a prostituição era assunto proibido. Histórias que o perseguiam desde a infância e o começo da adolescência, como a do tio que largou tudo e se enfiou no chinaredo de uma cafetina uruguaia para viver com a louca Ignez. Sobre a cama, palco do tórrido romance, a faixa carnavalesca com os dizeres: “Viva eu, viva ela, viva o rabo da cadela”. Em outros momentos, Schlee recorre a personagens de antigos contos como Artigas Guinchón, que aparece em Linha Divisória, também ambientado na fronteira.

Em Contos da Vida Difícil, famosos proxenetas, mafiosos e cafetinas ganham nome e sobrenome graças à tese da historiadora Yvette Trochon: Las Rutas de Eros – La Trata de Blancas en el Atlántico Sur. Argentina, Brasil y Uruguay (1880 – 1932). A obra, impressa em Montevidéu (Taurus, 2006), serviu para Schlee enriquecer o imaginário em torno daquelas mulheres polacas com rosto de bonecas de louça, frequentadoras do cabaré do Tomazinho. O lugar é o palacete com sacadas para a rua, porta em relevo e platibanda ornada que hoje é sede do Clube Instrução e Recreio, no centro de Jaguarão.

Mas não há glamourização do tema. Pelo contrário. As misérias da chamada vida fácil estão latentes em contos como R.S., em que a decadente Sara vive sozinha, velha e embriagada, agarrada em uma garrafa de licor de anis Carabanchel, cultivando apenas a lembrança do seu grande amor, Ruby, adolescente americana que, como ela, trabalhava como corista pelos cabarés do Brooklyn. Um tempo, como diz o autor, em que a “clandestinidade do gim libertava a paixão de mulheres por mulheres”. Ruby se tornou uma estrela de Hollywood, uma imagem que Sara só podia ver na tela quando cruzava a ponte Barão de Mauá para ir ao Cine Rio Branco. Schlee não diz de forma explícita, mas, ao listar filmes como Noites da Broadway e Mulher Sem Algemas, revela que a atriz é Barbara Stanwyck, nascida Ruby Stevens.

O livro é um convite para penetrar no universo dessas mulheres. Há desde a traída pelo marido que resolve se prostituir no famoso Mangacha, em Rio Grande, até a atriz decadente, uma misteriosa ruiva que se apresentou no Teatro Esperança, interpretando um tango sofrível e que, nas horas vagas, era oferecida para uma sessão de sexo privê. Enfim, um retrato fiel de um tempo que o autor testemunhou, mesmo que com a inocência do guri que comia cascudo e um dia tropeçara nas pernas de uma diva. Ao final, Schlee engata em sequência três contos em homenagem à musica, ao teatro e ao cinema, com personagens como Violeta, que soam como pastiche de alguma marafona gorda da Broadway citada em Longa Jornada Noite Adentro,de Eugene O’Neill, ou como remissões de um filme de Pietro Germi, Seducida y Abandonada, que o autor aproveita para discutir o tabu da virgindade. Prestes a completar 79 anos, em novembro, Schlee vem produzindo em um ritmo frenético desde o romance épico Dom Frutos (2010), história do caudilho uruguaio José Fructuoso Rivera (1784 – 1854) narrada em mais de 500 páginas. Lançou, em 2009, Os Limites do Impossível, a partir da ideia estarrecedora de que o nascimento de Carlos Gardel ocorreu em Tacuarembó, no Uruguai, fruto de incesto e estupro. Neste ano, teve reeditada a coletânea de contos O Dia em que o Papa foi a Melo.

Atualmente, Schlee divide seu tempo ora com palestras sobre a obra de Simões Lopes Neto, ora se divertindo ao comparar várias versões – até o original latino – de A Arte de Amar, do poeta romano Ovídio. Já estão a caminho dois outros livros, um deles, Contos com Espelhos, um ambicioso diálogo com a ficção de Jorge Luis Borges, a partir de uma referência da passagem do famoso escritor por Jaguarão. Desde a publicação de Dom Frutos, contudo, se diz mais seguro,  com os personagens sob sua rédea, ou melhor, controle, uma luta que encara com prazer em seu sítio no Capão do Leão, nos arredores de Pelotas, diante de uma imensa maquete de zinco da ponte Mauá, presente que ganhou aos 10 anos.

Carlos Fuentes e o eterno retorno

13 de setembro de 2013 0
O escritor mexicano Carlos Fuentes

O escritor mexicano Carlos Fuentes

Da sacada de um hotel em um país que poderia ser tanto o México quanto qualquer outro, dois homens discutem ideias enquanto observam a sangrenta marcha de uma revolução – que também poderia ser qualquer uma. Em torno desse tênue fio condutor que se tece Federico em Sua Sacada, romance que o escritor mexicano Carlos Fuentes concluiu pouco antes de sua morte inesperada, em maio do ano passado.

Federico em Sua Sacada ( Tradução de Carlos Nougué. Rocco, 316 páginas, R$ 39) é um livro de estrutura complexa. A narrativa se divide em quatro seções, cada uma delas com uma citação irônica do hino nacional mexicano. Essas partes se subdividem em capítulos curtos, que se alternam entre o diálogo de dois homens que conversam de uma sacada ara outra em um hotel e os pontos de vista de uma dezena de personagens cujas ações formam a história de uma revolução popular deteriorada em ditadura e terror. O “Federico” do título é o redivivo Friedrich Nietzsche, que discute com o narrador temas centrais de sua filosofia ilustrados pela ação dos homens e das mulheres que amam e se matam lá embaixo: o eterno retorno, a vontade de poder e a legitimação da violência.

Enquanto Federico dialoga com um narrador que muda constantemente de identidade (às vezes é outro Federico, à vezes é um duplo de Fuentes, em outro momento é Dante, uma das figuras centrais do livro), desfilam diante de seus olhos os principais personagens da narrativa, figuras que cumprem uma função alegórica no grande teatro histórico – posição que é marcada mesmo pela escolha dos nomes dos personagens. Dante e Leonardo são irmãos aristocratas em lados opostos. Leonardo é conselheiro do poder constituído, Dante é um dos ideólogos do movimento, ao lado de Aarón Azar, advogado de austeridade sombria, e de Saúl Mendés-Renania, revolucionário que tem abertos na carne estigmas que sangram continuamente. Não demora para que o movimento triunfe, e cada um deles, além de outros personagens que gravitam na história,assumam papéis que resumem o declínio histórico de qualquer revolução real, da francesa à soviética, passando pela mexicana: o traído, o traidor,o mártir,o herói,o tirano

As interrelações entre o trio de líderes reproduzirão, aos poucos, tensões históricas que ora remetem à ruptura de Stalin com Trotsky (quando Aarón vota pela desgraça de seu amigo Dante), ora o conflito entre Danton e Robespierre (Aaron é austero e seco como o “incorruptível” da Revolução Francesa, e o próprio Dante é chamado, às, vezes, de Dantón, um apelido no aumentativo que reproduz no espanhol o nome da “voz da Revolução”. O arco de persoangens, contudo, não é muito desenvolvido, talvez pela própria função alegórica de cada um. A maior exceção talvez seja o sapateiro Basilicato, homem do povo entusiasmado pelo fervor da revolução que vai gradativamente galgando postos na hierarquia do movimento.

Em um romance assumidamente dedicado a transformar o “eterno retorno” de Nietzsche em alegoria, não é de surpreender que temas e inquietações característicos de Fuentes reapareçam neste livro derradeiro. Estão lá acontecimentos suprarreais usados como metáfora para a realidade política latino-americana e a história turbulenta do continente descrita com fartas doses de farsa e sangue – temas comuns ao boom do qual Fuentes foi um dos maiores expoentes e aos quais permaneceu fiel até o fim. Não é um livro fácil,devido à radicalidade de sua experimentação. Também não é um romance coeso,pois,em determinadas passagens, a confusão instaurada pela narrativa parece menos tributária da vontade do autor do que de uma artesania deficiente ou apressada – talvez Fuentes ainda pretendesse trabalhar mais no texto após concluí-lo. Mas serve como um memorável súmula do trabalho de um dos mais combativos autores latino-americanos.

federico

O que é um "autor gaúcho"?

13 de setembro de 2013 0

1 – Trabalho em um jornal que dá alguma importância ao lugar em que o personagem nasce. É uma derivação natural da linha de perspectiva local adotada pelo veículo, mas isso, lá de vez em quando, como qualquer sistema de categorização, cria alguns problemas de nomenclatura. Quando saem os finalistas indicados por um prêmio, como o recente Portugal Telecom, por exemplo, destacamos nas páginas da Zero Hora os “autores gaúchos” – que é também uma das categorias deste blog ali na barra de cima, e que só são tão poucas porque eu simplesmente me esqueci como é que eu mexo naquilo para ampliá-las.

2 – Só que essas categorizações são difíceis, e nunca 100% eficientes – o que significa exatamente chamar alguém de “autor gaúcho”? É um autor nascido no Rio Grande do Sul ou que desenvolveu seu trabalho por aqui? Até que ponto uma informação como essa é precisa? Peguemos, primeiramente, alguns exemplos que transcendem essa questão e que são relacionados a artistas de outras paragens que também despertam esse tipo de dúvida. Italo Calvino nasceu em Santiago de Las Vegas, em Cuba. Por pura circunstância. A maior parte de sua vida foi vivida na Itália. Ele escrevia em italiano. Ele era um escritor italiano, falar qualquer outra coisa além disso é bobagem. Mas sempre deve haver espaço, claro, para incluir aí o que chamo de “fator espertinho”. O fator espertinho designa uma reação precipitada de um leitor querendo provar uma coisa que, no fundo é verdade: que o jornalista não sabe nada.

3 – Me explico: jornalistas não sabem nada. Não conhecem a maioria das coisas sobre a Terra, eles apenas sabem, e nem todos, procurar pelas informações de modo mais rápido e eficiente que a maioria. Logo, o jornalista é sim, um ignorante na maioria das coisas, até porque o primeiro ato de um jornalista deve ser não saber, para então tentar obter o conhecimento que não sabe para que possa depois levá-lo a seu público. Só que isso não significa, em todos os casos e para todo o sempre, que todos os jornalistas sejam rematados imbecis. Mas há o leitor espertinho que, ciente da primeira premissa, toma a segunda como verdadeira, e sempre caça algo que para ele é erro. Às vezes é mesmo. Às vezes não.

4 – Em um show do Milton Nascimento que fui cobrir há muitos anos, encontrei uma ex-colega de trabalho, uma fotógrafa, e a primeira coisa que ela me disse, antes mesmo de cumprimentar, foi: “Bá, que mancada, hein? Matéria de hoje dizia que o Milton Nascimento é carioca”. Só que, e aí entra essa nuança problemática da qual falávamos: dizer que o Milton Nascimento é carioca não está errado, uma vez que ele de fato nasceu no Rio de Janeiro. Talvez estivesse se disséssemos que ele é um “artista carioca”, uma vez que ele integrou uma das grandes gerações da música mineira, incluindo seus parceiros do clube da esquina Márcio e Lô Borges.

5 – Passando finalmente para o assunto que abriu a conversa, a literatura. Donaldo Schüler, há anos residente e atuante no Estado, é nascido em Santa Catarina. Celso Sisto, vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura 2011, é carioca de nascimento – como Milton –, mas vive no Estado e aqui desenvolveu sua carreira nos últimos anos. Na atual geração dos contemporâneos “autores gaúchos”, há alguns que representam desafio semelhante a uma definição geográfica concreta. Os daniéis, por exemplo, Galera e Pellizzari. Galera nasceu em São Paulo, morou um bom tempo em Porto Alegre, passou por São Paulo, Santa Catarina e andava por aí por Porto Alegre esses dias (mas já pode ter mudado de novo, vai saber). Pellizzari nasceu em Manaus, mas também morou um bom tempo em Porto Alegre – hoje vive em São Paulo. O que talvez ajude a defini-los dessa forma é que estrearam por aqui. Fizeram parte da formação do CardosOnline quando se conheceram em uma faculdade local, fundaram a Livros do Mal aqui… É isso o que os torna, para fins de nominação no jornal, “autores gaúchos”  - e, claro, esse é o tipo de detalhe que não tem relevância nenhuma, mas eu andava querendo retomar os textos neste blogue.