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Posts de outubro 2013

Esperamos vocês na Praça

31 de outubro de 2013 0
Praça da Alfândega pronta para 59ª Feira

Praça da Alfândega pronta para 59ª Feira. Foto: Bruno Alencastro

Como já aconteceu em outras edições da Feira do Livro, este seu blog Mundo Livro estará em plena atividade durante a Feira do Livro, com notas, imagens, resenhas, entrevistas realizadas ao longo dos 17 dias da Feira do Livro, que começa amanhã. Aqui (e na versão da coluna no Caderno da Feira que será publicada no jornal de papel) você encontrará nossas listas de indicações, top tudos, seções e coisas interessantes sobre a Feira. Não esqueça também de nos acompanhar no Facebook e no Twitter.

O Sabbath nas origens do Metal

09 de outubro de 2013 0
Fonte: Castle Communications

O Black Sabbath com sua formação original: Ward, Butler, Ozzy e Iommi

Texto de Roberto Jardim

Death, thrash, black, doom ou qualquer outro ritmo pesado e rápido completado pela palavra metal tiveram como um de seus marcos fundadores a banda Black Sabbath. Com show anunciado para este dia 9 de outubro em Porto Alegre, um dos maiores grupos de metal em atividade é tema do recém-lançado livro de Joel McIver, Sabbath Bloody Sabbath.  McIver começa seu relato pela infância de Ozzy Osbourne – John, quando criança. O autor lamenta não ter tido acesso direto a Ozzy. Mas a extensa pesquisa, que inclui dezenas de entrevistas do cantor a jornais, revistas, rádios e redes de TV, ajuda a montar o cenário no qual o vocalista e os outros três integrantes do grupo – o baterista Bill Ward, o baixista Geezer Butler e o reverenciado guitarrista Tony Iommi – se conheceram, formaram e formataram o som que marcou o heavy metal e seus subgêneros.

Os quatro integrantes originais da banda nasceram em Aston, um subúrbio de Birmingham, na Inglaterra, e o grande mérito de McIver é mostrar como o som do Black Sabbath foi moldado por aquele ambiente sem perspectivas, onde o futuro dos moradores era trabalhar horas a fio nas indústrias locais e beber nos pubs. Uma saída para diminuir o estresse de crescer entre brigas familiares, encrencas e violência era a música. O peso do som do Black Sabbath Earth na origem, o grupo foi rebatizado com o nome de um filme de terror que passava em um cinema em frente ao local onde os quatro se reuniam para ensaiar – também vem de um acidente vivido por Tony. Às vésperas de estrear como guitarrista profissional, aos 17 anos, ele trabalhava como operador de prensa e ficou com a mão direita presa na máquina.  Resultado: teve partes dos dedos médio e anular amputados. Para voltar a tocar,o que só aconteceu meses depois, improvisou dedais, feitos de garrafas plásticas derretidas, para fazer as notas no braço da guitarra – Tony é canhoto. Só que, para não forçar as cordas e arrebentá-las, deixou a afinação da sua guitarra mais grave, tornando o som mais pesado.

A história da banda é contada em três partes. A primeira, entre os anos de 1948 e 1978, mostra as origens de cada integrante – com as mudanças de formação, o mesmo é feito com os novos membros, falando da infância e da experiência musical até entrarem no grupo. A segunda parte enfoca os anos entre 1979 e 1992: são relatadas as inúmeras trocas de formações, com o acompanhamento, em paralelo, da carreira solo de Ozzy Osbourne, que, em certos momentos, chega a ter mais sucesso do que o grupo. Por fim,a parte três traz os anos de 19932011, quando foi planejada uma volta da formação original – no show que passará pela Capital.

Em 31 capítulos, McIver percorre as gravações de cada disco, analisa a repercussão dos trabalhos e relata o troca-troca de integrantes nas mais de 10 formações da banda desde a saída de Ozzy – o único a se manter sempre no grupo foi Tony Iommi. O autor, porém, poderia ter o mesmo zelo ao detalhar as desavenças que levaram à separação da formação original. Na parte do sexo e drogas, também deixa a desejar, relatando só de passagem os problemas que os membros do Sabbath enfrentaram. Peca ainda ao listar apenas os lançamentos de discos no Reino Unido – antes da internet,os grupos tinham lançamentos diferenciados em cada país. Falta, principalmente, uma lista de vídeos e documentários sobre uma banda fundadora do heavy metal.

O Livro Sabbath Bloody Sabbath, de Joel McIver

O Livro Sabbath Bloody Sabbath, de Joel McIver

Vinicius e suas parcerias

09 de outubro de 2013 0
O poeta e compositor Vinicius de Moraes

O poeta e compositor Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes não era muito adepto do “preciso aprender a ser só” dos irmãos Marcos e Paulo Sergio Valle. Casou nove vezes e seus trabalhos mais marcantes e conhecidos são fruto de parcerias com grandes nomes da MPB. A história da música de Vinicius é, assim, também uma crônica de suas grandes amizades, e é esse o caminho que tomam Wagner Homem e Bruno De La Rosa no livro Histórias de Canções: Vinicius de Moraes, sobre os bastidores íntimos da criação de grandes canções do poeta.

Histórias de Canções:Vinicius de Moraes é o quarto exemplar de uma coleção que teve início em 2009 com o lançamento de um volume dedicado a Chico Buarque. Wagner Homem, organizador do site oficial de Chico, decidiu escrever o primeiro livro depois de ver o grande número de perguntas que inundavam a página sobre os bastidores da composição desta ou daquela canção. Na sequência, teve origem a coleção, com volumes dedicados a Toquinho (com João Carlos Pecci, 2010) e Tom Jobim (em parceria com Luiz Roberto Oliveira, 2012). Pela mesma série, Paulo César Pinheiro já escreveu o livro de suas próprias canções. Neste volume, Homem se une ao cantor e compositor Bruno De La Rosa para registrar as histórias, causos e anedotas por trás dos grandes sucessos de Vinicius.

Pela própria natureza do projeto, o livro não traz muitas surpresas ou contribui para mudar a imagem pública que a esta altura está cristalizada no imaginário nacional sobre Vinicius. Nem seria o caso. O livro alinhava casos que mostram Vinicius no máximo de sua persona “poetinha”: o homem apaixonado, lírico, faminto de vida e de amores e que tinha a mania de nomear as coisas no diminutivo. A estrutura do livro se organiza, diferentemente de outros exemplares da série, menos por períodos cronológicos e mais pelos parceiros de composição do poeta: Tom Jobim, Carlos Lyra, Baden Powell, Edu Lobo, Francis Hime, Toquinho, entre outros.

Ao lado das letras das composições (que, na página, parecem algumas vezes um pouco desenxabidas, amputadas de seu casamento orgânico com a melodia, fazendo lembrar das considerações de Antonio Cicero sobre a natureza heterotélica da letra de música, ou seja, sem finalidade em si própria, mas na canção de que faz parte), Homem e De La Rosa alinhavam o contexto do período, um pouco da carreira e da biografia de Vinicius e de cada parceria e as circunstâncias e anedotas que envolvem a criação de uma música em particular. Uma delas: Vinicius se encontrou certa noite com Baden Powell em seu apartamento e passaram ambos a madrugada bebendo uísque, com o poeta enrolando para pôr letra na melodia recém apresentada de Samba em Prelúdio. Quando já raiava o dia e a terceira garrafa de uísque era história, Baden Powell conseguiu por fim arrancar de Vinicius a razão de seu desconforto: a melodia, em sua opinião, era um plágio, mesmo que não intencional, de Chopin. A confusão só foi dirimida acordando-se a mulher de Vinicius, Lucinha Proença, sua quarta esposa, com quem foi casado entre 1957 e 1963, pianista e conhecedora de Chopin. Depois que Lucinha ouviu a música, veio o veredito: não era Chopin. Só aí Vinicius sentou-se para fazer a letra, não sem antes largar um teimoso “Então Chopin esqueceu de fazer essa”. A história era contada pelo próprio Baden em shows, como este.

Há mais histórias, claro. Se com Baden a parceria era regada a madrugadas de conversa e litros de uísque, com Carlos Lyra a dinâmica era outra: Lyra deixava a música registrada em um gravador na casa do poeta e este trabalhava a letra em cima. Toquinho, outro de seus parceiros constantes, havia tocado violão em um disco italiano de Sergio Endrigo com versões das músicas de Vinicius, lançado em 1970. O poeta gostou do resultado e ligou para falar com o jovem violonista, que quase desligou achando que era trote. O telefonema rendeu a Vinicius mais um grande“parceirinho”.

É um projeto saboroso e interessante, mas, em seu quarto volume, revela alguns dos problemas de se trabalhar sempre com os mesmos nomes em um universo tão interconectado como a MPB. Depois de volumes dedicados a Chico, Tom Jobim e Toquinho, é inevitável que algumas histórias deste livro repitam, com apenas ligeiras variações, coisas já contadas nos títulos anteriores – principalmente os de Tom e Toquinho, que mantiveram com Vinicius relação intensa de amizade e parceria. Por exemplo, até algumas frases são as mesmas no causo de como Toquinho conseguiu musicar a letra de Tarde em Itapoã, que Vinicius pretendia oferecer a Dorival Caymmi. Segundo contam os dois livros, com as mesmas palavras praticamente, Toquinho “numa noite, antes de embarcar para São Paulo,simplesmente pegou a letra e viajou.” Mesmo Chico, que só foi parceiro de Vinicius em seis trabalhos, passa pelo repeteco, como o episódio em que o poeta, mordido de ciúmes da parceria entre Toquinho e Chico, insistiu para que seu nome constasse na composição de Samba de Orly, apesar de sua única contribuição para a canção, a troca de um verso, tivesse sido derrubada pela censura. Para quem se interessa por um ou outro personagem isolado, não faz muita diferença. Quem pretender ler todos os volumes talvez se incomode.

O livro Histórias de Cançoes: Vinicius de Moraes

O livro Histórias de Cançoes: Vinicius de Moraes

Bernardo Carvalho fala de seu novo livro, Reprodução

01 de outubro de 2013 0
O escritor Bernardo Carvalho. Foto: Francesco Gattoni, Divulgação

O escritor Bernardo Carvalho. Foto: Francesco Gattoni, Divulgação

Autor de alguns dos livros de melhor recepção crítica entre a recente literatura contemporânea, como As Iniciais (1999), Nove Noites (2002) ou Mongólia (2003), o carioca Bernardo Carvalho aborda, em seu novo livro, Reprodução, uma sociedade que, segundo ele, está imersa em um paradoxo perigoso: o risco de que opiniões e ações se exacerbem de tal modo que acabem flertando com seu contrário. Seu protagonista, um homem preso em uma sala de embarque de um aeroporto, revela, nas fissuras de um discurso que se pretende isento, uma carga de preconceito que o impede de abrir-se para a opinião alheia (não por acaso, nunca transcrita). Por telefone, de São Paulo, Carvalho concedeu entrevista a Zero Hora. Leia a seguir a íntegra da conversa, publicada com cortes e edições no jornal impresso:

Zero Hora – Este é um livro atípico no conjunto de sua obra. De onde veio o impulso para escrevê-lo?
Bernardo Carvalho – Eu acho que ele difere talvez na aparência e no gênero, porque tem uma coisa de humor mais evidente. Mas acho que talvez discorde de você quanto à diferença. Ele está muito próximo da primeira fase da minha carreira, e a questão da qual ele fala, essa coisa da reprodução, está em todos os meus livros, e fica explícita e manifesta nos mais recentes. Essa ideia trágica de reprodução, de que toda ação acaba sendo uma reprodução, enfim de que quando você quer fazer o bem, você faz o mal. A coisa que eu tinha vontade de fazer era escrever sobre uma chinesa que tem tenta salvar uma criança e para isso acaba replicando o próprio inferno que é a vida dela. E isso está meio embutida nessa ideia de reprodução que eu te falei agora, que é essa ideia de que na verdade para sobreviver, você se mata, que é uma coisa que é meio lugar-comum hoje na cabeça de todo mundo com o discurso ecológico e ambientalista, de que o ser humano é autodestrutivo, quanto mais tenta sobreviver, viver e procriar, menos condições de possibilidade mantém para essa sobrevivência. Tem um paradoxo na próprio mecanismo de reprodução, de procriação e tudo mais.

ZH – Há uma ideia que é sim recorrente em sua obra de que a ação, quando concretizada, toma forma e consequências além do controle do agente.
Carvalho – Sim, isso aí está desde sempre. Desde o Teatro, por exemplo. Mesmo naquele Medo de Sade, que foi um livro feito de encomenda, isso estava embutido. Tem uma ideia do paradoxo como uma coisa essencial no humano. Enfim, eu me sinto meio ridículo falando essas coisas, mas o substrato do negócio é esse. Para te contar como foi feito: eu tive vontade de escrever sobre essa professora de chinês e o estudante de chinês, comecei a escrever o negócio, que é o início do romance, e abandonei. E aí eu ganhei uma bolsa e fui para a Alemanha. Fiquei um ano em Berlim e lá tentei um monte de projetos lá, escrevi um monte de coisas, algumas coisas vingaram, outra não, e no final da minha temporada em Berlim, o Flávio Moura, que era curador da Flip, estava organizando uma coletânea de textos de pessoas que haviam participado da Flip, comemorativa aos 10 anos do festival. Ele me pediu o texto, me deu o tamanho e eu fui procurar nos meus arquivos alguma coisa que eu pudesse usar ali, porque estava em cima da hora, não daria tempo de escrever uma coisa nova. Aí eu achei esse texto, retomei, consertei algumas coisas, cortei para dar certa autonomia. Entreguei o texto, mas o que aconteceu foi que a partir desse momento, eu me interessei por retomar aquilo. Eu me encantei por esse monólogo que, na verdade, é um diálogo em que falta uma das partes.

ZH – No momento da concepção do livro você aventou a possibilidade de alguma relação entre este seu trabalho e O Livro dos Mandarins, de Ricardo Lísias, que tem um mote e mesmo algumas ferramentas de expressão similares?
Carvalho – Eu nem li, na verdade, mas acho que de jeito nenhum. Nem sei o que é o livro do Lísias, exatamente, mas acho que não tem nada a ver.

ZH – O Livro dos Mandarins tem como protagonista um executivo obcecado por uma viagem à China e que vai revelando sua própria degradação psicológica por meio de um discurso repetitivo e cheio de chavões corporativos.
Carvalho – Eu não sabia. Mas de qualquer modo, isso é um lugar-comum. O cara que é do mercado financeiro que resolve estudar chinês é a coisa mais lugar-comum possível. Então acho que isso está mais na realidade do que nos romances. Quer dizer, isso está nos romances também, é óbvio, mas eu não vejo nenhuma relação, mas não vejo nenhuma relação alguma, porque sequer li o outro livro.

ZH – Os seus livros anteriores eram relatos de jornadas, pelo Xingu, pela Mongólia, por São Petersburgo. Neste livro, contudo, você confina a narrativa no estágio anterior à viagem, o aeroporto. Foi uma mudança consciente?
Carvalho Acho o seguinte: desde o primeiro livro, desde o Aberração, na verdade, meus livros tem essa vontade de fuga, de escapar, não só do próprio Brasil, mas do Brasil como identidade, como rótulo, como clichê. Acho que há uma coisa simbólica aí desde o início, bem como esse mal-estar do estrangeiro, de não se reconhecer em lugar nenhum. E meus livros normalmente se passam em terrenos movediços, querem ir contra qualquer identidade de gênero, de nação, que seja. E o que aconteceu nesse foi o negócio inverso. O personagem está na porta de saída, mas a porta de saída é uma sala sem janelas, é uma espécie de uma metáfora do sedentarismo absoluto. Ele está preso ali, confinado, é uma viagem constantemente abortada. Acho que há sim uma relação com os outros, ainda que uma relação de inversão. Eu queria fazer um livro que se passasse no Brasil, não queria fazer um livro que se passasse em qualquer outro lugar. Mas é engraçado que, no momento em que eu escrevo um livro sobre o Brasil, ele se passa no aeroporto, que é a porta de saída.

ZH – Seu personagem declara ser bem informado, ler jornais e revistas, ele próprio alega ter um blog, mas passa o romance preso em uma sala sem janelas. É uma representação de algo que o senhor já disse sobre a internet manter o indivíduo confinado?
Carvalho – Legal você ter falado disso. O livro não é um panfleto. Ele é político, mas não é algo deliberado: vou escrever sobre isso, vai representar aquilo. Ele é um apanhado de uma sensação algo difusa que eu tenho do mundo hoje, das coisas, da internet, uma experiência de ver uma certa fascistização do mundo que é muito ambivalente, muito ambíguo. O que eu acho que tem espelhado no discurso desse cara é que você combater o Hitler ou outros países onde o fascismo já aconteceu é fácil, porque você sabe onde está. O difícil é combater o nascimento de um outro fascismo, ambíguo, que é como nascem todos os fascismos, e que está em um discurso no qual você embarca sem perceber, você vai indo, vai concordando com aquilo, e quando você percebeu é tarde demais. Esse cara não é uma caricatura do malufismo. Tudo bem, ele é uma excrescência, é homofóbico, racista, antissemita… Mas, ao mesmo tempo, ele diz coisas com as quais eu posso concordar. Eu não me identifico com ele, não tenho nada a ver com ele, mas o que me interessa neste momento de hoje é menos o fascista caricato e mais a possibilidade de você não perceber em um discurso libertário o nascimento de um novo fascismo. Tem um negócio com o qual eu concordo com o personagem, por exemplo: ele é por um estado laico, contra as religiões, claramente ateu. Eu também sou. Mas em seu discurso primário, quando vai contra as religiões ele acaba reproduzindo um discurso fascista e reacionário. Então eu estava mais interessado nas ambiguidades, nessa confusão que há neste mundo e que a internet também alimenta de uma certa forma. A internet é um terreno libertário, mas esse terreno está controlado por quatro grandes corporações capitalistas, todas elas americanas, e você não consegue participar desse terreno aparentemente libertário que parece neutro se não for se submetendo a essas quatro corporações de mídia. E é curioso, porque é uma ideia de democracia que pressupõe o fim da vida privada, da invisibilidade, da opacidade. Posso estar sendo anacrônico, mas acho que não existe democracia sem privacidade, sem possibilidade de opacidade, de não dito.

ZH – Por isso a segunda parte do livro é toda feita de um discurso “ouvido” pelas paredes da sala, assim como a sala de aula do estudante de chinês tem paredes finas que deixam vazar o som de um cômodo para outro?
Carvalho – É, mas ao mesmo tempo naquele discurso todo ali tem uma opacidade, uma espécie de resistência. O mundo em que a gente está vivendo é o da visibilidade absoluta. Eu não tenho, mas as pessoas têm Facebook, se entregam, se expõem, mesmo sabendo que aquilo vai ser usado para fins de publicidade, que as empresas vão ficar ricas com a informação que você entrega gratuitamente, mesmo assim, você continua se expondo, porque aquilo toca em um ponto muito frágil, que é seu narcisismo, sua vontade de se expressar, que é muito natural, humana, mas que é pervertida por essas corporações. Então, nesse mundo em que não tem opacidade, achei interessante essa situação desse personagem que ouve através de uma divisória ordinária, mas ele não vê, aquilo pode ser só imaginação dele. Pode estar tudo na cabeça dele. E a própria voz do delegado, que é um cara que nunca aparece, que nunca fala, é essa opacidade que está desaparecendo. É um diálogo em que uma parte nunca aparece, e isso cria um mistério que está desaparecendo com essa visibilidade absoluta. Eu não sou um cara a favor da censura nem nada. Acho ótimo os caras que denunciam essas coisas de “whistle-blowing”, como o Snowden agora, o Wikileaks. Mas tem uma coisa interessante: na hora em que tudo é dito, parece que as coisas se anulam. Como se a visibilidade absoluta fosse uma espécie de cegueira. O dito absoluto é também uma forma de você não compreender mais nada. Acho que esses vários aspectos estão presentes no livro e estão presentes nesse mundo um pouco governado pela mentalidade da internet, pelo mecanismo da internet, não é uma crítica, é uma constatação.

ZH – O fascismo, que você citou, é uma ideologia do coletivo. Sua opinião é de que o apelo ao coletivo da nova sociedade tecnológica é fascista?
Carvalho – Eu não sei. Tem uma coisa engraçada: hoje há um combate até das pessoas jovens, engajadas, de esquerda, contra o indivíduo, como se fosse algo burguês, ultrapassado, canhestro, tacanho. Eu acho que o indivíduo é fundamental para a democracia. A democracia também é um negócio burguês, criado no mundo burguês capitalista. Tem conquistas desse mundo moderno burguês capitalista que foram incríveis, como a ideia da individualidade, que eu acho verdadeiramente libertária. E há uma histeria do coletivo nessa coisa da internet. Você só pensa em fórum, só cria no coletivo, tem uma espécie de uma vingança contra a figura do autor, que precisa desaparecer porque é retrógrada, pouco democrática, tem de existir apenas como coletivo. Tem uma tendência na militância de uma nova… não sei se posso dizer esquerda, mas militância jovem, de impor o coletivo contra o individual. Como se o individual fosse de direita. Acho que tem um perigo muito grande aí. Não vou dizer que isso é fascismo, mas há pontos em comum, muitas interfaces entre o fascismo e a democracia de um coletivo absoluto. Então,  isso me interessa politicamente, essa inquietação com essa ambiguidade, com esse paradoxo, é o que o livro está tentando expressar. É um negócio em que você não sabe mais definir quem é o fascista. O protagonista é uma caricatura, mas não a caricatura absoluta, algo de razão tem no discurso dele. Eu dou um exemplo que me impressiona muito, da ultradireita francesa, que era liderada pelo Jean-Marie Le Pen, um cara claramente asqueroso, ligado ao neonazismo, e 10% dos franceses votavam nesse cara, uma fatia da população francesa que é claramente fascista e que não tem vergonha disso. Mas agora o partido começou a mudar e houve uma espécie de “desdiabolização” da Frente Nacional, e quem representa o partido hoje é a filha dele, que não chega a ser uma mulher bonita, mas enfim, é uma mulher, é loura, é moderna, divorciada, é pelo estado laico, ela em princípio não é contra os gays. Na hora em que ela começa a defender o Estado laico você até acredita. Se não fosse o nome dela escrito embaixo você até diria: “puxa, concordo com essa pessoa”. Mas aí de repente você entende que por trás daquilo tudo o que tem é um discurso fascista tradicional: antissemita, anti-árabe, são essas armadilhas que eu acho que estão pipocando no mundo em vários lugares e fazendo com que você embarque em um negócio que é o mesmo fascismo de sempre, mas com um verniz e uma retórica de democracia, de algo libertário. Acho que o livro é isso, não é um panfleto militante racionalmente construído, mas reflete o meu incômodo com uma percepção desse mundo que eu estou te falando.

ZH – Você citou a direita francesa contemporânea, mas essa ambiguidade não é característica do Brasil desde sempre, com sua acomodação de discursos e realidades contraditórias que escamoteia uma realidade desigual e truculenta?
Carvalho – Claro. E esse discurso da totalidade, de que tudo é dito, vai se autoanulando. Ao mesmo tempo em que tem um fascismo por baixo, é um discurso em que você se perde, não tem mais ponto de apoio, é contraditório e se anula. Por esse discurso, portanto, você acaba condenado à reprodução de uma ideologia, não consegue mais produzir uma ação libertária, de ruptura, parece que cai em uma armadilha que se autorreproduz, em uma superficialidade que não vai a fundo em coisa alguma. É um pouco isso que você falou. Escamoteia outra coisa.

Capa do livro "Reprodução"

Capa do livro “Reprodução”