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Posts de dezembro 2013

O amálgama ético de Rubem Fonseca

09 de dezembro de 2013 1

CAPA Amálgama

Há anos que Rubem Fonseca deixou de ser o profeta do apocalipse social brasileiro. Agora, o autor de 88 anos prefere ser o comentarista sarcástico da desagregação nacional, como se vê nos 34 contos de Amálgama, seu novo livro.

Apesar de o título sugerir um material físsil tornado uma massa homogênea, Amálgama na verdade se aproxima muito de um exercício literário cubista que lança mão de variações temáticas e formais de obsessões antigas do autor. O Filho, o primeiro conto, narra o conflito entre uma mãe e sua filha grávida, ambas interessadas em vender o bebê recém-nascido. A última narrativa, intitulada singelamente Foda-se, versa sobre um homem impotente que tenta redescobrir sua virilidade exercendo o desapego. Entre um e outra,as histórias, a maioria muito breves, desfilam situações que se repetem como variações sinfônicas de um pesadelo: crianças nascidas com deformidades; rejeições paternas e maternas; seduções grotescas; vinganças que parecem um pastiche sarcástico de histórias de folhetim. E,claro,anões e mulheres deslumbrantes “de corpo perfeito”, como mais de uma delas é descrita pelos protagonistas masculinos do autor  – muitos deles também variações de uma mesma voz a percorrer o livro.

Rubem Fonseca foi um artista profético ao longo de uma carreira que completou meio século neste ano (seu primeiro  livro, Os Prisioneiros, é de 1963). Suas obras trouxeram para a literatura brasileira não apenas a temática urbana expressa em uma linguagem urgente, mas flagraram a ascensão de uma violência disseminada e impessoal, consequência do crescimento das cidades em um país como o Brasil. Em um processo que talvez fosse inevitável, a profecia perdeu força depois de realizada. A violência e a crueldade que Fonseca elaborou como ficção nos anos 1960 e 1970 – motivo de choque e censura – hoje são o cenário contemporâneo no qual vivemos,o que talvez ajude a explicar a irregularidade de muitas de suas obras recentes, embora o autor não tenha propriamente se desviado de seus temas.

Amálgama consegue ser um conjunto mais coeso do que muitas das coletâneas de contos publicadas por Fonseca neste breve século 21, como Ela e Outras Mulheres (2006) e Axilas e Outras Histórias Indecorosas (2011). Em Amálgama, ainda estão lá a brutalidade nas relações e a violência de ares cada vez mais grotescos, mas o que parece ser a tônica do novo trabalho é justamente uma indistinção de seus motivos e de uma alternativa. Se contos clássicos como Passeio Noturno e O Cobrador traziam embutidos uma dimensão de denúncia social, a obra mais recente de Fonseca põe a denúncia em segundo plano: não há o que denunciar quando o pior já aconteceu. Ele exercita, então, o riso amargo e o sarcasmo ao contemplar o bem e o mal – amalgamados ambos.

Mandela nos livros

06 de dezembro de 2013 0

Foi através do teatro que, pela primeira vez na minha vida, nos anos 60, ouvi falar de Nelson Mandela. Estudante, depois professor de direito internacional e, desde o início, militante do anticolonialismo e do anti-racismo, eu me opunho ao apartheid, mas o homem que liderava a luta ainda não tinha um rosto para mim. No Festival de Nancy, encontre Jean Guiloineau, diretor do Grupo de Teatro Antigo da Sorbonne, que ia apresentar Ajax, de Sófocles. Grande conhecedor da África do Sul, ele traçou para mim o retrato de Mandela, cujas memórias viria a traduzir muitos anos depois. Sua admiração pelo prisioneiro de Robben Island me impressionou muito. Talvez tenha sido a forma como se deu esse primeiro encontro o que me levou a perceber dede o início o gosto que o líder africano manifestou durante toda sua vida pela cultura e pelo teatro. E a colocar minha narrativa sob a invocação da dramaturgia universal, de Sófocles a Corneille e de Shakespeare a Cesaire.
Aparementemente, a paixão pela arte não é uma característica importante de Nelson Mandela. Os analistas a negligenciam, com frequência, mas eu acho que se trata de uma das chaves de sua personalidade. Quando ele era estudante, representou, numa companhia amadora, o papel de assassino do presidente Lincoln. “Meu papel era pequeno, mas eu era o elemento motor da moral da peça, segundo a qual os homens que assumem grandes riscos devem estar preparados para as pesadas consequências daí decorrentes.” Ele continuou sendo o elemento motor o resto da vida.

Como a esta hora a maioria de vocês já ficaram sabendo, morreu ontem o líder sul-africano Nelson Mandela, um dos personagens que com sua vida e atuação resumem parte do século 20. Em sua condição de símbolo planetário, Mandela sempre foi alvo de grande atenção pública – primeiro com a comunidade internacional protestando contra seu confinamento, depois, ao provar na prática que poderia ser o governante de um tempo em que as pesadas e infames feridas do Apartheid pudessem cicatrizar – ainda que demoradamente, em um processo que não acabou até hoje.

Um personagem dessa dimensão não poderia, portanto, deixar de ser alvo de um bom número de biografias. Já deve andar perto da centena o número de livros publicados sobre o ex-prisioneiro que se tornou presidente e símbolo de uma das vitórias da Humanidade contra a Barbárie (infelizmente elas são menos do que gostaríamos). Muitas delas já têm tradução no país – Mandela é provavelmente uma das personalidades estrangeiras com o maior número de histórias de sua vida editadas por aqui. Uma delas é o livro de onde foi extraído o trecho que vocês leram acima: Mandela – uma Lição de Vida, de Jack Lang (Tradução de  Rubia Prates Goldoni, Mundo Editorial, 240 páginas) – um livro que tem lá seu tom de particularidade interessante porque Lang não é um biógrafo comum, é o ex-ministro da Cultura da França, e estrutura sua biografia de Mandela como quatro atos correspondentes a mitos históricos da dramaturgia ocidental: Antígona no primeiro; Espártaco no segundo; Prometeu acorrentado no terceiro e o sonhador Próspero de Shakespeare no quarto. O quinto o apresenta como o protótipo do rei sábio presente em muitas culturas.

Menos ambiciosa intelectualmente, mas com maior poder de comoção talvez seja Mandela, Retrato Autorizado, de Mac Marahaj e Ahamed Kathrada (Tradução de Alexandre Moschella e Joana Canedo. Editora Alles Trade, 356 páginas) – um livro que, como seu título já anuncia, é um texto autorizado pelo próprio Mandela e que trabalha para construir a imagem épica do estadista africano, seja por meio de narrativa de sua vida em tons elevados, seja com depoimentos de personalidades que conheceram Mandela, como o bispo sul-africano Desmond Toutou, o presidente dos Estados Unidos Bill Clinton e o cantor Bono Vox ou ainda por uma ampla coleção de imagens da trajetória de Mandela. É o Mandela “oficial” dos livros de história, o líder aclamado por um mundo abismado com a força de sua trajetória e de seu exemplo.

MandelaA mais recente biografia de Mandela a aportar nas livrarias brasileiras é Mandela: O Homem, a História e o  Mito, de Elleke Boehmer (Tradução de Denise Bottmann, L&PM, 224 páginas). É uma biografia que tenta avançar além da biografia de estilo jornalístico, mesclando os relatos sobre a vida de Mandela com interpretações históricas e acadêmicas sobre sua trajetória. É um dos textos desta série mais sólidos em analisar as circunstâncias e o pano de fundo da trajetória de Mandela para além do binômio “homem x mito” estabelecido pela persona pública do político sul-africano após a sua libertação. Não se tem aqui nem o herói admirável nem o militante de atuação controversa. Mandela é mostrado – a certa altura, em paralelo com Gandhi – como um personagem que lutava contra o imperialismo que, a seu modo, o tornou possível. Após décadas de domínio opressor, formou-se, a duras penas, uma massa crítica de figuras de proa nascidas no país com vontade de questionar o sistema em que viviam. Uma boa biografia para quem quer mergulhar em um panorama geral de Mandela e seu tempo.

mandela (1)Outra biografia, esta narrada por meio das próprias palavras do estadista sul-africano é Mandela: Conversas que Tive Comigo (Tradução de Ângela Lobo de Andrade, Nivaldo Montingelli Jr. e Ana Deiró. Rocco, 415 páginas), compilação de cartas e documentos pessoais de Mandela, gravações e depoimentos reunidos pela fundação que leva seu nome e reúne reflexões do personagem sobre o lado íntimo de seu sofrimento: a ausência na vida da família por quase três décadas de prisão imposta pelo regime racista do apartheid; os conflitos de uma vida dividida entre a luta política e a família – essa oposição, em configurações diferentes, levaria ao fim de dois casamentos, com Evelyn Mase ( 1944 a 1957) e Winnie Mandela (1957 – 1996). Embora o material tenha sido compilado por uma instituição oficial ligada a Mandela, o tom não é celebratório ou condescendente. Há diversas passagens em que Mandela faz uma autoanálise bastante dura sobre seus anos de juventude – e fala muito, também, sobre a dor de quase três décadas de encarceramento. Um texto sobre o livro pode ser lido aqui:

Esse é apenas um dos livros em que se pode ler a vida de Mandela pelas palavras dele próprio. Como menciona o biógrafo Lang no texto citado, Mandela foi também um um esteta além de estadista. Suas memórias foram publicadas nos Brasil também há duas décadas, pela Globo, com o nome de Nelson Mandela: A Luta é a Minha Vida - mas hoje duvido que se ache fora de sebo ou da Estante Virtual. E há uns dois anos a Martins Editora publicou uma coletânea de contos infanto-juvenis escolhidos pelo próprio Mandela, com o nome de Meus Contos Africanos (Tradução de Luciana Garcia, 156 páginas, R$ 54,80), reunindo histórias tradicionais do continente.

Há ainda Conquistando o Inimigo: Nelson Mandela e o Jogo que Uniu a África do Sul, de John Carlin, que inspirou o filme Invictus, de Clint Eastwood, e sobre o qual já publicamos um texto aqui.

Don DeLillo do lado de fora da vida

02 de dezembro de 2013 0

O-Anjo-Esmeralda

Texto de Luiza Piffero

Os personagens de Don DeLillo não fazem muito mais do que contemplar o que acontece ao seu redor, como se assistissem à vida se desenrolar ao largo deles. Quando encontram alguma coisa ou alguém para se agarrar, o fazem de maneira obsessiva.

Embora os nove contos da coletânea O Anjo Esmeralda cubram mais de três décadas na carreira de DeLillo – mais conhecido por romances como Ruído Branco e Submundo – e seus personagens habitem mundos tão diversos quanto o espaço sideral e uma ilha caribenha, eles mantêm esse forte traço em comum. O autor escolhe protagonistas que não estão presos no fluxo cotidiano da cidade e não precisam orientar seus dias pelo relógio: um viajante, um astronauta, um presidiário, um desempregado que passa as suas horas frequentando cinemas. Desde seus primeiros contos, fica claro que DeLillo, um dos autores norte-americanos mais festejados da atualidade, não estava interessado em histórias com início, meio e fim, mas na fabricação de personagens complexos e narrativas imbuídas de um mistério que cativa sem causar sobressaltos. Por esse motivo, ele presta especial atenção aos diálogos e jamais desperdiça palavras em descrições longas. Prefere a concisão.

Ler um conto seu é desacelerar e sentir a sensação de viver fora da urgência das cidades. Seus personagens têm tempo de sobra para refletir sobre si mesmos ou o que se passa diante deles. Por isso, acabam formulando pensamentos delicados, coisas secretas que um dia todos pensamos sem dar maior  importância e, na sua mão, viram um trampolim para questionamentos profundos. Obcecados por essas impressões,distanciam-se da realidade.

Esse desacelerar não quer dizer correr o risco de pegar no sono. O texto de DeLillo alcança um ritmo e é arquitetado de uma forma tal que o leitor é deixado sempre em estado de alerta. Esse traço o rendeu o apelido de“xamã da escola paranoica da ficção americana” e alguns críticos apontam nele o talento para absorver a atmosfera de medo e insegurança que se instalou nos Estados Unidos pós-11 de setembro.

O cuidado com as estruturas dos textos, muito mais dinâmicas do que as histórias, aparece bem em O Corredor. Nesse conto, DeLillo descreve a ação de maneira a colocar o leitor a correr junto do protagonista, que se exercita em um parque, arfando e respirando o mesmo ar, assistindo à paisagem mudar a cada passo. As sensações do personagem
são revezadas com as visões fragmentárias do espaço e de um episódio insólito que ele testemunha. Os personagens de DeLillo passam tanto tempo contemplando o mundo, excluídos, que, tal como escritores, passam a inventar suas próprias versões dele. Nas entrelinhas de cada conto, DeLillo parece sussurrar que, quando o mundo não faz mais sentido, a ficção é única saída.