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O corpo em que ela nasceu

06 de janeiro de 2014 0

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Texto de Alexandre Lucchese

Escrever sobre si mesmo já se tornou algo corriqueiro, e basta dar uma rápida olhada nas redes sociais para perceber que cada vez mais gente o faz sem pudor, com desenvoltura e, por vezes, até mesmo graça. No entanto, aventurar-se no discurso sobre o eu sem cair no narcisismo estéril não é tarefa simples. Com boas doses de autoironia e humor, a mexicana Guadalupe Nettel deu conta desse desafio, conseguindo tocar o leitor e construindo um verdadeiro testemunho geracional nas mais de 200 páginas autobiográficas de O Corpo em que Nasci (Tradução: Ronaldo Bressane, Rocco, 224 páginas).

Publicado originalmente em 2011, este é o segundo romance de Guadalupe, e marca sua estreia no Brasil. Nele, a autora, que ainda tem quatro livros de contos, desnuda sua infância e adolescência para uma psicanalista. Carregando um curativo sobre um de seus olhos durante a maior parte do dia em seus primeiros anos escolares, como terapia para curar o estrabismo, a jovem Guadaluppe cedo se transforma em uma outsider entre os colegas de classe. Mais tarde, ela enfrentará a separação dos pais, e uma mudança repentina para um bairro de estrangeiros e delinquentes no Sul da França, onde passa a viver com o irmão e a mãe enquanto esta desenvolve seu doutorado.

O leitor acompanha o relato como quem espia uma sessão de psicanálise, ambiente ideal para encarar os mais decisivos episódios da história da protagonista sem os filtros da vaidade ou da auto-piedade. É fácil de identificar com a frágil jovem, que, mesmo diante de suas limitações físicas e da desestruturação familiar, nutre uma curiosidade ilimitada em conhecer o mundo que se revela em torno de si, e conta com sarcasmo e graça a respeito de seus próprios erros e insucessos, assim como de seus encontros e escolhas que possibilitaram melhor conhecer e aceitar a si mesma – o encontro com o “corpo em que nasci” do título.

Com 40 anos, Guadaluppe demonstra ser uma escritora madura, já que, depois deste profundo mergulho íntimo, consegue emergir com um relato que transcende o âmbito pessoal. A inépcia e as contradições dos jovens pais influenciados pela contracultura dos anos 1970, pretensamente libertária, para educarem seus próprios filhos; as transformações, nos anos 1980, da Europa, onde a protagonista já adolescente encontra uma sociedade desigual e preconceituosa; e uma América Latina pouco consciente de si mesma, que tenta imitar padrões de comportamento externos, perceptível no retorno da jovem ao México: tudo isto fica ricamente ilustrado na prosa da autora.

Mesmo com todas as dificuldades que a personagem/autora encontra em seu caminho, este não é um livro rancoroso ou vingativo. Como exemplo, é possível citar seu juízo sobre a agitação cultural que influenciou seus pais nos anos 1970. Ainda criança, a protagonista vai visitar três irmãs que eram suas amigas e se surpreende com a cena dos pais destas transando sem qualquer embaraço num cômodo sem portas nem cortinas, não se constrangendo com as pequenas que assistiam à televisão ao lado. A cena é descrita modo bem-humorado, mas é logo seguida do comentário: “Dizem que a mudança tão conservadora que originou a geração a que pertenço se deve em grande medida à aparição da AIDS, eu estou segura de que nossa atitude é em boa parte uma reação à forma tão experimental com que nossos pais encararam a vida adulta.

Ainda assim, a crítica acima não faz de Guadaluppe alguém insensível ao que o movimento hippie da geração anterior á sua pode ter de bom. Ao contrário: o título O Corpo em que Nasci é retirado de de um poema de Allen Ginsberg, guru da contracultura e um dos poetas preferidos da autora. A edição brasileira do livro faz parte da coleção Otra Língua, esforço capitaneado pelo escritor Joca Reiners Terron para fazer conhecidos autores contemporâneos de língua espanholas ainda obscuros nestas terras. Dentre os títulos publicados, estão Asco, do salvadorenho Horacio Moya, Deixa Comigo, do uruguaio Mario Levrero, e Os Lemmings e os Outros, do argentino Fabián Casas.

 

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