Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts de janeiro 2014

Ricardo Alexandre e a música dos últimos 20 anos

24 de janeiro de 2014 0
Raimundos ainda com sua formação original, com o vocalista Rodolfo

Raimundos ainda com sua formação original, com o vocalista Rodolfo

Como jornalista Ricardo Alexandre acompanhou de perto as últimas duas décadas do cenário musical brasileiro. Passou pelas redações das revistas Bizz, General, Superinteressante, Carta Capital, Capricho, Revista MTV e dos jornais Folha de São Paulo e Estadão. Foi também gerente de conteúdo do site Somlivre.com e diretor de redação na última fase da revista Bizz, em meados dos anos 2000. É também reconhecido como autor de Dias de Luta, um dos melhores levantamentos jornalísticos sobre a música do Brasil, uma grande reportagem abrangente sobre a chegada do rock ao Brasil e o estouro do gênero a partir dos anos 1980. Considerado ainda uma referência após uma década, o livro foi relançado em edição comemorativa no ano passado pela editora gaúcha Arquipélago (leia entrevista aqui).

Agora, Ricardo Alexandre retorna à música como tema no seu novo livro, Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar (Arquipélago Editorial, 256 páginas, R$ 34,90). O tom, contudo, é outro. Se Dias de Luta era uma reportagem com apuração intensa, Cheguei Bem a Tempo… assemelha-se mais a um livro de memórias. Não é Ricardo Alexandre contando a história de um período musical, mas relatando sua própria história como um coadjuvante no universo da música – ainda assim, apresentada com um detalhado pano de fundo. O novo livro abre os trabalhos exatamente no ponto em que Dias de Luta parou. E, em 50 textos curtos, perpassa a música brasileira dos anos 1990 e 2000: a entrada em cena de bandas nacionais que mudaram o panorama da música, como Skank, Raimundos, Charlie Brown Jr; a dominação da indústria por uma visão mercadológica e padronizada; a queda final do rock e de parte da imprensa musical com ele – inclusive a Bizz que Ricardo Alexandre dirigia. Por telefone, Ricardo Alexandre concedeu a seguinte entrevista a Zero Hora:

Zero Hora – Embora esse livro não seja estritamente uma continuação, pelo viés mais pessoal adotado, em que momento veio a ideia de fazer um novo livro abordando o período posterior àquele vislumbrado em Dias de Luta
Ricardo Alexandre – Eu acho que a ideia desse livro me rondava desde que o Dias de Luta foi lançado, mas era uma coisa que me parecia distante e muito pouco provável. Essa ideia voltou com uma certa força quando eu comecei a pensar no relançamento do Dias de Luta, quando houve a possibilidade de o livro sair em uma edição comemorativa dos 10 anos do livro, e essa ideia começou a ser conjecturada e surgiu uma editora interessada, a Arquipélago, aí de Porto Alegre. Aí essa sequência ganhou sentido para mim. O passo seguinte foi pensar no formato, de fato que fosse ao mesmo tempo relevante para o leitor mas totalmente diverso do Dias de Luta. Aí chegamos a esse formato de posts, o livro funciona como uma coleção de postagens, tanto que surgiu a ideia de ele estrear primeiramente em um blogue.

ZH – Sim, ele foi publicado como um blog no portal do Msn.
Alexandre – Sim, eu ainda mantenho o blog, publicando agora coisas mais atuais, mas o contrato com o msn foi formado por conta do projeto do livro.

ZH – O fato desses anos abordados em Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar coincidirem com seu período de atuação na imprensa musical foi o que o levou a escolher um formato mais pessoal, mais aparentado com o depoimento e menos com a grande reportagem que era o livro anterior?
Alexandre – Sem dúvida, foi exatamente isso que me manteve longe da ideia por esses anos todos. Porque o formato que me vinha na cabeça era o mesmo usado no Dias de Luta. Só considerei a possibilidade de fazer outro formato quando esta prestes a completar 20 anos de carreira, quando eu comecei a ser mais acionado ou requisitado para falar a respeito dessa geração dos anos 1990. Aí eu vi que de alguma maneira eu também fazia parte daquela história e que fazia sentido esse formato mais pessoal.

ZH – Ao mesmo tempo, este é um dos primeiros livros em português a tentar elaborar uma crônica das radicais transformações no ramo da música nos últimos 20 anos: a digitalização da música, o virtual desaparecimento do CD, a dúvida sobre como
Alexandre – Sem dúvida isso me despertou como assunto, mas não foi a fagulha inicial. Eu arriscaria dizer que essa fagulha foi tentar discutir a mídia, o meu papel como jornalista. É uma movimentação que considero muito interessante e que tem começado a surgir de uns anos para cá: algo que me chamou a atenção foi o trabalho do jornalista Paulo Nogueira no blog Diário do Centro do Mundo. O Paulo é uma pessoa com quem já trabalhei, eu o cito no livro e tudo, eu vi ali um esforço dele em tentar colocar a mídia como um objeto a ser discutido, assim como os objetos que a mídia discute. Isso foi uma coisa que me influenciou bastante, a possibilidade de discutir o ambiente em que eu estava inserido, o ambiente das redações, da MTV, e o interesse que há em torno disso ficou muito claro com os comentários sobre o final das trasmissões da MTV, o interesse pela revista Bizz… A fagulha original para que o livro tivesse essa toada foi essa. E no meio do caminho eu percebi que esse trabalho dizia muito respeito aos bastidores da indústria cultural como um todo, e aí entra de tudo: festivais, indústria fonográfica.

ZH – O título, Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar, alude a um episódio real que você acompanhou. Mas também pode ser lido, metaforicamente, como uma alusão ao cenário musical, as gravadoras, a indústria do CD. Esse é o “palco que desabou”?
Alexandre – Sim, claro. Mas eu acho que a minha mente talvez esteja mais focada na parte do “cheguei bem a tempo” do que na do palco desabando. É quase uma paráfrase daquela frase que eu cito no livro: “cheguei muito tarde para um mundo muito velho”, eu acho que eu me coloco um pouco ali. O fato de eu fazer parte de uma espécie de última geração que ainda viveu o charme de escrever e trafegar no mundo musical. As pessoas têm reforçado bastante esse aspecto melancólico do livro, de tal maneira que eu acredito que ele acabe traduzindo uma certa frustração. Por outro lado, eu acredito que tudo é cíclico e que a gente deve passar em algum momento por um período de maior recuperação desse charme de escrever.

Os mineiros do Skank

Os mineiros do Skank

ZH – Quando conversamos por ocasião do relançamento de Dias de Luta, no ano passado, você comentou que a sua impressão é que o cenário musical hoje é menos uma arena pública e mais um conjunto de tribos ligadas por gostos afins, o que fazia com que artistas não precisassem mais passar por um circuito que os faria tocar para um grupo de pessoas que não tinham motivo para gostar de seu trabalho. Lendo o livro de agora, você parece descrever a banda Los Hermanos como uma espécie de marco desse cenário, ao cercar-se de um grupo de fãs que os veneram acriticamente, como um culto.
Alexandre – Interessante. Nunca tinha pensado no Los Hermanos desse jeito que você descreveu tão bem. Acho que de fato é uma banda que se alicerçou sobre um culto que eles mesmos alimentaram. Cara, é que eu vejo esse período retratado no meu livro com uma dobra ali muito clara, o momento em que o Brasil se torna um grande mercado de discos. Ali eu acho que algma coisa se rompe, eu acho que aquele romantismo, aquela naturalidade que havia nos anos 1980 começa a se perder. A gente começa a ver a indústria se tornando muito mais “industrial” mesmo. E esses processos mais naturais de amadurecimento da arte começam a ficar truncados. Essa característica de o artista ter de enfrentar um público que não é o seu acaba se perdendo, e eu acho que até meados dos anos 1990 isso ainda existia. Eu me lembro de muita clareza do Skank no palco do Hollywood Rock, ou os Raimundos tocando pela primeira vez na Globo… Ainda havia esse sabor do breakthrough, de você romper um estágio para entrar em outro… Mas acho que depois, quando os departamentos de marketing tomam as músicas pelas mãos, não só essa característica, mas várias outras ligadas ao amadurecimento do artista ficaram muito embaralhadas.

livrochegueiZH – O formato mais pessoal parece ter dado mais liberdade para exercitar uma veia opinativa que faz declarações por vezes polêmicas e por vezes inusitadas.
Alexandre – É que na verdade, e eu gostaria que isso tivesse ficado claro, ou ao menos mais claro do que eventualmente ficou, essa é a minha história. Talvez essa seja a grande diferença do Dias de Luta. O Dias de Luta tem uma pretensão de ser um retrato com mais acuidade das proporções dos anos 1980. E este livro não tem essa pretensão. Alguém me chamou a atenção: “cara, você não falou nada do Sepultura“. E é verdade, eu não falei, porque eles não fizeram parte da minha vida, e o que eu talvez precisasse dizer sobre o Sepultura já estava lá no Dias de Luta. Cheguei a pensar, depois, que devesse ter falado, mas o fato é que, se eles não vieram à mente em um primeiro momento, é porque o formato do livro os excluiu naturalmente. Por outro lado, bandas irrelevantes, como a Catedral, têm um espaço generoso no livro, porque teve a ver com a minha história. Então acho importante esclarecer isso para o leitor para ele não levar gato por lebre.

ZH – Seu livro fala sobre a retomada da Bizz, mas ao analisar as questões que levaram ao segundo e definitivo fim da publicação, você em nenhum momento menciona também que essa segunda fase da revista foi aquela em que ela precisou enfrentar a concorrência da Rolling Stone, que chegou no Brasil na mesma época.
Alexandre – Na minha opinião, as questões da Bizz estavam muito ligadas ao DNA daquela operação, não tinham muito a ver com o mundo exterior. Pelo contrário. Como eu já disse em algumas entrevistas, o surgimento da Rolling Stone veio confirmar algumas teorias que eu defendia ali dentro da Abril. Como o fato de que a revista precisava ter mais opção em banca, mais investimento em marketing, que precisava custar um pouco mais barato. Isso acabou não entrando no livro por questões de espaço, mas uma capa da Rolling Stone com o Coldplay foi o que me fez dormir tranquilo. Porque a capa era idêntica à da Bizz, as chamadas de capa eram idênticas, as matérias em paralelo eram semelhantes, e eu particularmente acredito que a nossa reportagem sobre a vinda do Coldplay era mais interessante. E no entanto, eles venderam 10 vezes mais. Por quê? Tenho convicção de que não foi por motivos editoriais, porque no editorial ambas eram muito semelhantes. A Rolling Stone em nenhum momento me desestimulou.

ZH – A cena roqueira de Porto Alegre também ganha muito mais destaque neste livro do que em Dias de Luta. É nos anos 1990 que você começa a tomar mais conhecimento dela como jornalista?
Alexandre – Eu tinha uma predileção pessoal pelo que acontecia aí. Eu sempre gostei do rock dos anos 1960, que era uma influência muito comum aí em Porto Alegre para as bandas dos anos 1990. E também porque eu via aí uma espécie de peça de resistência da profissionalização marquetológica da música. Aí a gente ainda conseguia focos de pessoas que trabalham com viés artístico. Me parecia que aí ainda havia se preservado algumas características do romantismo do rock brasileiro dos anos 1980. Então foi por isso. É um cenário que eu acompanhei muito de perto e do qual gosto muito até hoje.

A utopia como caso de polícia

14 de janeiro de 2014 0
À esquerda, Ramón Mercader. Nas imagens seguintes, Trosky (com a esposa ao centro e uniformizado à direita). Divulgação, Boitempo

À esquerda, Ramón Mercader del Río na época da Guerra Civil Espanhola
Nas imagens seguintes, Trosky (com a esposa ao centro e uniformizado,
como líder do Exército Vermelho, à direita). Divulgação, Boitempo

Nos interstícios entre dois gêneros de formas bem demarcadas, o romance policial e o de espionagem, o livro O Homem que Amava os Cachorros, do escritor cubano Leonardo Padura, retrata a degradação de uma das principais utopias do século 20. O romance, a obra mais ambiciosa de um escritor que fez nome como respeitado autor de literatura de crime, monta uma complexa rede narrativa para retratar as trajetórias paralelas do líder revolucionário soviético Leon Trotsky (1879 – 1940) e do homem que o assassinou a mando de Josef Stalin (1879 – 1953), o militante espanhol Ramón Mercader del Río (1913 – 1978).

O Homem que Amava os Cachorros  (Tradução de Helena Pitta, Boitempo Editorial, 590 páginas, R$ 69) pega seu nome emprestado de um conto de Dashiell Hammett (incluído na coletânea Assassino na Chuva, publicada pela L&PM). Essa filiação já declara tacitamente a proposta de Padura: mesclar um romance de ficção histórica com uma narrativa em ritmo de thriller, para reconstituir: o instável quadro político da primeira metade do século 20; as sucessivas quedas e expurgos de soviéticos à medida que a tirania de Stalin se tornava mais paranoica e cruel; a cambiante política de alianças dos comunistas submetidos à autoridade de Moscou e, principalmente, a trajetória errante de Trotsky, um dos homens que fizeram a Revolução Russa, como um exilado indesejável em boa parte do mundo.

No centro da trama está o complô para matar Trotsky – consolidado, em 1940, quando Mercader, ex-combatente da luta contra Franco na Espanha, assassinou o soviético em seu último pouso, no México, com um golpe de picareta. Até o desenlace fatal, o romance acompanha alternadamente o exílio de Trotsky, de 1928 até sua morte, e a transformação de Mercader de guerrilheiro em agente infiltrado. À parte as vidas paralelas de ambos, Padura Fuentes – que, curiosamente, é identificado apenas como Leonardo Padura na edição do romance pela Boitempo – acrescenta um terceiro elemento que serve como a voz contemporânea a avaliar os resultados dos esforços de ambos, um escritor cubano chamado Iván Marturell. Após um bem recebido livro de contos, Marturell cai em desgraça junto ao regime dos irmãos Castro e passa por diversas etapas de aniquilação pessoal em conflito com a marcha da História na Ilha.

Marturell gradualmente abandona a literatura enquanto seu caráter lentamente se degrada à medida que cumpre funções burocráticas para o regime. Seu irmão, homossexual forçado a esconder sua condição, desaparece após tentar fugir de Cuba em uma balsa improvisada que naufraga. Desiludido com a marcha da revolução cubana que se tornou autoritarismo, ele encontra na Havana dos anos 1970 um misterioso estrangeiro que parece saber tudo sobre o complô stalinista para matar Trotksy – algo bem pouco conhecido na Cuba alinhada com a política oficialista da União Soviética. O relato, uma espécie de lado B da utopia comunista defendida pela propaganda oficial da ilha, será fundamental para que ele tente recuperar a literatura que havia abandonado.

Embora o foco se divida, a rigor, entre três personagens, Trotsky, Mercader e Marturell, são combinações binárias entre temas e motivos especulares que sustentam o romance. A derrisão da identidade de Trotsky provocada pela perseguição de Stálin (de líder comunista a voz de oposição, de dissidente perigoso até um homem solitário transformado em bicho-papão da utopia) encontra seu reflexo nas várias trocas de identidade do próprio Ramón ao longo de sua preparação, de militante comunista movido por paixão genuína a um agente cheio de dúvidas que mesmo assim executa sua missão (Mercader também muda de nome ao longo da sua preparação, até assumir a identidade de Jacques Mornard Vandendreschs, um belga envolvido em negócios no México, que se aproxima do círculo de confiança de Trosky).

Em outro caso de temas que se refletem, Trotsky, embora esteja sempre em cena, se constitui, na narrativa de Padura, em uma figura com a qual Stálin, ausente das cenas mas presente nas sombras, estabelece uma relação simbiótica. Para que Stálin se erga como o líder e guardião incontestável dos valores da Revolução, precisa transformar Trotsky em um líder dissidente de igual poder, capaz de complôs e alianças com os mais perigosos inimigos dos soviéticos, como os nazistas – embora Trotsky tivesse um prestígio cada vez mais restrito e um grupo cada vez menor de seguidores, sua apresentação pela propaganda comunista como um grande conspirador fornecia a cobertura necessária para as tramas que o próprio Stálin tecia, inclusive um acordo com os mesmos nazistas que Trotsky foi acusado de apoiar em certo momento.

Também as trajetórias de duas revoluções se espelham na forma como Padura urde sua trama: a Russa, matriz da Cubana, ambas corrompidas pelo autoritarismo e pela politicagem. Os expurgos e os desmandos de Stálin, que resultam em perseguições e fome para a população, têm eco na forma como a própria revolução cubana vai se deteriorando, da utopia sustentada pelo dinheiro soviético nos anos 1970 e 198o até a pobreza extrema dos anos 1990, agravada pela queda do comunismo e pelo embargo norte-americano.

Autor de policiais bastante apreciados pelos fãs do gênero, como Adeus Hemingway ouVentos de Quaresma, Padura se vale de sua habilidade adquirida no ofício e tem sucesso em criar uma atmosfera de suspense e interesse para um episódio real cujo fim é hoje amplamente conhecido. O que deixa a desejar é justamente o território novo que o escritor tem a desbravar em uma trama tão extensa e ambiciosa: a construção psicológica dos personagens. O retrato íntimo de Trotsky como um homem exilado e perseguido contrapõe- se com eficiência à imagem demoníaca que Mercader forma do adversário depois da doutrinação stalinista (em mais uma elegante construção especular). Mas, como o retrato esboçado por Padura é abertamente simpático a um Trotsky derrotado e sem poder, são reduzidas algumas contradições importantes de seu comportamento como um dos comandantes revolucionários, ele próprio responsável por fuzilamentos durante os primeiros anos da Revolução. Até se menciona de passagem esse episódio, mas a voz de Trotsky, colada à do narrador, é rápida em justificar que as circunstâncias de seus fuzilamentos eram outras e não se volta a esse tema.

Ao menos no início, é uma obsessão amorosa o grande motivo para que Mercader embarque em sua missão de morte, a paixão por Africa de las Heras, uma militante stalinista radical e totalmente devotada às ordens do Kremlin (e outra personagem real, a propósito). Ainda que o romance possa ter base histórica, o destaque que Padura dá a esse caso de amor é uma solução pouco imaginativa, que de algum modo enfraquece o universo interior, moral e ideológico de Mercader, melhor apresentado em A Segunda Morte de Ramon Mercader, de Jorge Semprun, por exemplo, que também aborda o mesmo episódio.  Á medida que os destinos de Trotsky e Mercáder convergem, contudo, O Homem que Amava os Cachorros cresce, na forma como consegue interligar a estrutura especular habilmente montada à história real, montando um grande painel de vidas levadas de roldão pela História, essa abstração pela qual tanto se matou e morreu.

O corpo em que ela nasceu

06 de janeiro de 2014 0

corpo-em-que-nasci-guadalupe-nettel

Texto de Alexandre Lucchese

Escrever sobre si mesmo já se tornou algo corriqueiro, e basta dar uma rápida olhada nas redes sociais para perceber que cada vez mais gente o faz sem pudor, com desenvoltura e, por vezes, até mesmo graça. No entanto, aventurar-se no discurso sobre o eu sem cair no narcisismo estéril não é tarefa simples. Com boas doses de autoironia e humor, a mexicana Guadalupe Nettel deu conta desse desafio, conseguindo tocar o leitor e construindo um verdadeiro testemunho geracional nas mais de 200 páginas autobiográficas de O Corpo em que Nasci (Tradução: Ronaldo Bressane, Rocco, 224 páginas).

Publicado originalmente em 2011, este é o segundo romance de Guadalupe, e marca sua estreia no Brasil. Nele, a autora, que ainda tem quatro livros de contos, desnuda sua infância e adolescência para uma psicanalista. Carregando um curativo sobre um de seus olhos durante a maior parte do dia em seus primeiros anos escolares, como terapia para curar o estrabismo, a jovem Guadaluppe cedo se transforma em uma outsider entre os colegas de classe. Mais tarde, ela enfrentará a separação dos pais, e uma mudança repentina para um bairro de estrangeiros e delinquentes no Sul da França, onde passa a viver com o irmão e a mãe enquanto esta desenvolve seu doutorado.

O leitor acompanha o relato como quem espia uma sessão de psicanálise, ambiente ideal para encarar os mais decisivos episódios da história da protagonista sem os filtros da vaidade ou da auto-piedade. É fácil de identificar com a frágil jovem, que, mesmo diante de suas limitações físicas e da desestruturação familiar, nutre uma curiosidade ilimitada em conhecer o mundo que se revela em torno de si, e conta com sarcasmo e graça a respeito de seus próprios erros e insucessos, assim como de seus encontros e escolhas que possibilitaram melhor conhecer e aceitar a si mesma – o encontro com o “corpo em que nasci” do título.

Com 40 anos, Guadaluppe demonstra ser uma escritora madura, já que, depois deste profundo mergulho íntimo, consegue emergir com um relato que transcende o âmbito pessoal. A inépcia e as contradições dos jovens pais influenciados pela contracultura dos anos 1970, pretensamente libertária, para educarem seus próprios filhos; as transformações, nos anos 1980, da Europa, onde a protagonista já adolescente encontra uma sociedade desigual e preconceituosa; e uma América Latina pouco consciente de si mesma, que tenta imitar padrões de comportamento externos, perceptível no retorno da jovem ao México: tudo isto fica ricamente ilustrado na prosa da autora.

Mesmo com todas as dificuldades que a personagem/autora encontra em seu caminho, este não é um livro rancoroso ou vingativo. Como exemplo, é possível citar seu juízo sobre a agitação cultural que influenciou seus pais nos anos 1970. Ainda criança, a protagonista vai visitar três irmãs que eram suas amigas e se surpreende com a cena dos pais destas transando sem qualquer embaraço num cômodo sem portas nem cortinas, não se constrangendo com as pequenas que assistiam à televisão ao lado. A cena é descrita modo bem-humorado, mas é logo seguida do comentário: “Dizem que a mudança tão conservadora que originou a geração a que pertenço se deve em grande medida à aparição da AIDS, eu estou segura de que nossa atitude é em boa parte uma reação à forma tão experimental com que nossos pais encararam a vida adulta.

Ainda assim, a crítica acima não faz de Guadaluppe alguém insensível ao que o movimento hippie da geração anterior á sua pode ter de bom. Ao contrário: o título O Corpo em que Nasci é retirado de de um poema de Allen Ginsberg, guru da contracultura e um dos poetas preferidos da autora. A edição brasileira do livro faz parte da coleção Otra Língua, esforço capitaneado pelo escritor Joca Reiners Terron para fazer conhecidos autores contemporâneos de língua espanholas ainda obscuros nestas terras. Dentre os títulos publicados, estão Asco, do salvadorenho Horacio Moya, Deixa Comigo, do uruguaio Mario Levrero, e Os Lemmings e os Outros, do argentino Fabián Casas.