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As melhores adaptações não estão no Oscar

18 de fevereiro de 2014 2
Cena da adaptação de Piotr Dumala para "Crime e Castigo"

Cena da adaptação de Piotr Dumala para “Crime e Castigo”

Como não é segredo para ninguém que é estatísticamente mais provável Uwe Böll dirigir uma obra prima do que alguém ter uma ideia original em Hollywood, há muito tempo que uma das usinas que garante a matéria-prima para roteiros na indústria do cinema é o mercado literário. Já foram feitos filmes baseados em grandes clássicos da literatura; em livros de não ficção; em biografias e memórias (dois dos principais concorrentes ao Oscar deste ano, por exemplo, 12 Anos de Escravidão e O Lobo de Wall Street se incluem nesta categoria). Há até livros baseados em artigos e reportagens de revistas como New Yorker ou Rolling Stone. Muitas vezes confrontado com a pergunta sobre quais são as melhores adaptações literárias que eu conhecia, sempre respondia pela tangente, porque esse é o tipo de comparação esquisita entre dusa linguagens que muitas vezes não encontram tradução perfeita de uma para a outra.

Porém, esses dias cheguei à conclusão de que algumas das melhores adaptações literárias que já havia visto por aí não eram longas-metragens com o apoio de um grande estúdio, mas sim curtas de animação que conseguem, com seu sistema de produção muitas vezes perto do artesanal, sustentar-se de pé como obras autônomas, preservar o espírito do original e ainda oferecer algo extremamente original e novo em termos da linguagem do próprio cinema. Antes da existência da arca de maravilhas da internet, muitos dos filmes aí abaixo eram bem pouco conhecidos, lia-se sobre eles em revistas de cinema, via-se o nome nos indicados a prêmios como o Oscar ou o Globo de Ouro, mas ter conhecimento dos trabalhos era bem mais difícil. Dado que hoje o Youtube tem quase tudo, resolvi preparar uma breve e muito rápida lista com exemplares de grandes adaptações literárias feitas em curtas de animação (quando possível, publiquei versões legendadas em português, mas nem sempre as encontrei).

O Velho e o Mar (1999)
O artista russo Aleksandr Petrov desenvolveu esta pequena gema adaptando a novela de Ernest Hemingway utilizando-se da técnica de desenhar em pranchas de vidro, apagando e repintando detalhes das cenas a cada mudança de quadro. Ele também não usa pincéis, e sim os próprios dedos, o que dá à imagem um tom onírico e impreciso. Contrariando um pouco a minha chamada um tanto provocativa para este post, este filme esteve sim no Oscar, e venceu o prêmio na categoria melhor curta de animação. Petrov já garimpou outras riquezas da literatura, para suas animações, como A Sereia (baseado em Púchkin) e Sonho de um Homem Ridículo (baseado em Dostoiévski).

O Coração  Denunciador (1953)
Uma adaptação do conto de mesmo nome de Edgar Allan Poe que usa sombras, fusões, sobreposições e texturas para criar um padrão visual semelhante às cenografias surreais criadas por Eugène Berman para o Metropolitan Opera, de Nova York, nas quais pode-se reconhecer mais do que um leve toque do trabalho de Salvador Dalí. A sombria história do assassino que se vê compelido a confessar seu crime para não ouvir mais as batidas fantasmagóricas do coração de sua vítima é narrada, adverte o curta em um cartão de texto, “pelos olhos de um louco, que, como todos nós, crê que é são”. Por isso os ângulos distorcidos e as sombras assustadoras de um desenho que foge ao tradicional casa tão bem com o espírito da obra. A voz do personagem principal – que, como no conto,  narra em primeira pessoa – é dublada por James Mason, e foi o primeiro cartum a receber indicação etária recomendada apenas para adultos na Inglaterra. O curta é produzido pelo estúdio UPA (United Productions of America) e dirigido por Ted Parmelee.

The Man With the Beautiful Eyes (1999)
Jonathan Hodgson é um artista baseado em Londres e que já trabalhou dirigindo sequências de animação para a série de TV Da Vinci Demon’s, de David S. Goyer – passa num dos canais da TV a cabo, embora eu não me lembre exatamente qual. Mas isso, dado que a série é bem meia-boca, não deve servir como demérito ao currículo do homem. Hodgson é o autor deste belo curta que adapta um poema de mesmo nome de Charles Bukowski, sobre um grupo de crianças que se  mostram fascinadas pelo mistério selvagem de um vagabundo alcóolatra visto em uma casa aparentemente abandonada na vizinhança em que moram. Com um traço e um uso nervoso da cor, aplicando palavras na tela e buscando uma representação tão estilizada que chegue a uma espécie de moldura do objeto (preste atenção na cena final, na qual os carros e as pessoas que passam diante da vitrine são apenas formas que não a encobrem). Um filme que arrebanhou prêmios em vários festivais internacionais, incluindo o Bafta, o mais importante da Grã-Bretanha.

A Alegoria da Caverna (2008)
Este não é um livro especificamente, mas um dos trechos mais conhecidos de uma das obras fundadoras da cultura ocidental, A República, de Platão. A representação da realidade física como uma caverna em que vemos apenas as sombras das coisas, sem atentar para seu significado verdadeiro, é um dos mitos mais conhecidos da história da filosofia, e aqui ganha uma muito breve versão na técnica stop-motion que, em inglês, é conhecida como “claynimation”, trocadilho entre “argila” e “animação” que é usada para definir o tipo de filme que aqui conhecemos por “massinha”. O filme é uma produção do diretor Michael Ramsey e do artista animador John Gribsby.

Um Médico de Aldeia (2007)
Uma versão do premiado diretor japonês Koji Yamamura para este alucionatório conto de Franz Kafka. O clima opressivo do original, uma pérola da juventude do autor tcheco, é traduzido por meio de um desenho nervoso e de uma variação constante das proporções e das perspectivas na obra animada.

Nicholas Era… (2010)
Em seu livro Fumaça e Espelhos, o inglês Neil Gaiman, autor de Sandman, conta a origem deste um breve conto sombrio natalino. Não estou com o livro em mãos para a citação literal, mas basicamente a história surgiu como um cartão de Natal, um pequeno conto/poema de 100 palavras invertendo a lógica benevolente das atribuições do Papai Noel. O texto foi caligrafado e ilustrado pelo amigo de Gaiman, e parceiro em Sandman, Dave McKean, e enviado como cartão a amigos e conhecidos (Gaiman admite na introdução do livro que a ideia veio após se sentir miseravelmente humilhado e sem talento por receber todo ano cartões de Natal feitos pelos seus talentosos amigos ilustradores). Seguindo a mesma lógica, o estúdio animado 39 Degrees, baseado em Pequim, adaptou o conto em uma animação de Natal em 2010.

Crime e Castigo (2000)
Assim como o Aleksandr Petrov mencionado lá no início, Piotr Dumala é um mestre russo da animação, e tem seu próprio método de produção tão sofisticado e trabalhoso quanto as pranchas de vidro do primeiro. Cada quadro nas animações de Dumala é obtida raspando com uma agulha uma prancha totalmente coberta de tinta preta. Fotografada para o filme, a prancha é então coberta de preto outra vez para o quadro seguinte, e assim por diante. Com isso, o trabalho resultante é de um contraste muito forte entre os raros pontos iluminados e a escuridão do restante do quadro. Um tipo de trabalho que parece ajustado à perfeição para ilustrar a opressiva atmosfera de Crime e Castigo, de Dostoiévski. O vídeo abaixo não tem legendas, mas como Dumala criou uma versão expressionista da narrativa, não há diálogos na animação, tornando-a passível de ser entendida por todos nós. É uma versão com ares de pesadelo, não seguindo necessariamente o livro ao pé da letra.

Ricardo III (1994)
Entre 1992 e 1994 a BBC levou ao ar uma série de episódios de aproximadamente meia hora cada, cada um apresentando uma versão animada de uma peça de William Shakespeare a cargo de um animador russo diferente. Uma das versões mais legais, na minha modesta opinião, é a que se vê abaixo , dirigida por Natalya Orlova, com base na sangrenta peça de Shakespeare sobre o perverso nobre deformado que empilha uma montanha de corpos em seu caminho até o trono (e a inevitável desgraça):

Kashtanka (2004)
Quem chegou até aqui já deve ter percebido sem que eu precise dizer que a tradição russa de desenhos animados é uma das mais ricas do mundo. Aqui temos outra prova disso, uma versão de um dos contos mais singelos de Tchékhov, sobre a cadela de um carpinteiro bêbado que, após se perder de seu dono após a passagem de uma parada militar, é recolhida por outro homem e levada para uma casa com animais treinados para o circo, entre eles um ganso e um gato. A versão abaixo é uma das disponíveis, tem legenda em inglês e espanhol, e é assinada pela mesma Natalya Orlova do desenho anterior.

A Maior Flor do Mundo (2007)
Uma animação do diretor espanhol (nascido no Uruguai) Juan Pablo Etcheverry baseada em um conto para crianças de José Saramago. Lançado quando o escritor ainda vivia, o filme é narrado pela voz do próprio Saramago, que a apresenta no início e faz uma breve aparição no fim. Para encerrar falando português…

Comentários (2)

  • @mvende diz: 17 de maio de 2014

    Oba, acabei de assistir a animação sobre o velho e o mar e achei bem legal. Muito bem feita. Me deu até vontade de ler o livro novamente. Que baita trabalho deve ter dado.

    Falando sobre Ernest, gostei muito do livro na Outra Margem entre as arvores. http://goo.gl/B8q5iR . Me disseram que existe um filme baseado no livro, mas nunca encontrei. Alguém sabe se o nome é o mesmo?

    Muito bom o seu Blog. Parabéns

  • mundolivro diz: 18 de maio de 2014

    Oi, M., tudo bem? Primeiramente, obrigado. Em segundo lugar, pelo que eu saiba, houve um roteiro adaptando esse filme escrito pelo John Huston, mas o filme nunca foi feito. Fiz alguma pesquisa e não consegui encontrar nenhuma outra adaptação.
    Grande abraço e volte sempre.

    Carlos André

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