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Posts de fevereiro 2014

As melhores adaptações não estão no Oscar

18 de fevereiro de 2014 2
Cena da adaptação de Piotr Dumala para "Crime e Castigo"

Cena da adaptação de Piotr Dumala para “Crime e Castigo”

Como não é segredo para ninguém que é estatísticamente mais provável Uwe Böll dirigir uma obra prima do que alguém ter uma ideia original em Hollywood, há muito tempo que uma das usinas que garante a matéria-prima para roteiros na indústria do cinema é o mercado literário. Já foram feitos filmes baseados em grandes clássicos da literatura; em livros de não ficção; em biografias e memórias (dois dos principais concorrentes ao Oscar deste ano, por exemplo, 12 Anos de Escravidão e O Lobo de Wall Street se incluem nesta categoria). Há até livros baseados em artigos e reportagens de revistas como New Yorker ou Rolling Stone. Muitas vezes confrontado com a pergunta sobre quais são as melhores adaptações literárias que eu conhecia, sempre respondia pela tangente, porque esse é o tipo de comparação esquisita entre dusa linguagens que muitas vezes não encontram tradução perfeita de uma para a outra.

Porém, esses dias cheguei à conclusão de que algumas das melhores adaptações literárias que já havia visto por aí não eram longas-metragens com o apoio de um grande estúdio, mas sim curtas de animação que conseguem, com seu sistema de produção muitas vezes perto do artesanal, sustentar-se de pé como obras autônomas, preservar o espírito do original e ainda oferecer algo extremamente original e novo em termos da linguagem do próprio cinema. Antes da existência da arca de maravilhas da internet, muitos dos filmes aí abaixo eram bem pouco conhecidos, lia-se sobre eles em revistas de cinema, via-se o nome nos indicados a prêmios como o Oscar ou o Globo de Ouro, mas ter conhecimento dos trabalhos era bem mais difícil. Dado que hoje o Youtube tem quase tudo, resolvi preparar uma breve e muito rápida lista com exemplares de grandes adaptações literárias feitas em curtas de animação (quando possível, publiquei versões legendadas em português, mas nem sempre as encontrei).

O Velho e o Mar (1999)
O artista russo Aleksandr Petrov desenvolveu esta pequena gema adaptando a novela de Ernest Hemingway utilizando-se da técnica de desenhar em pranchas de vidro, apagando e repintando detalhes das cenas a cada mudança de quadro. Ele também não usa pincéis, e sim os próprios dedos, o que dá à imagem um tom onírico e impreciso. Contrariando um pouco a minha chamada um tanto provocativa para este post, este filme esteve sim no Oscar, e venceu o prêmio na categoria melhor curta de animação. Petrov já garimpou outras riquezas da literatura, para suas animações, como A Sereia (baseado em Púchkin) e Sonho de um Homem Ridículo (baseado em Dostoiévski).

O Coração  Denunciador (1953)
Uma adaptação do conto de mesmo nome de Edgar Allan Poe que usa sombras, fusões, sobreposições e texturas para criar um padrão visual semelhante às cenografias surreais criadas por Eugène Berman para o Metropolitan Opera, de Nova York, nas quais pode-se reconhecer mais do que um leve toque do trabalho de Salvador Dalí. A sombria história do assassino que se vê compelido a confessar seu crime para não ouvir mais as batidas fantasmagóricas do coração de sua vítima é narrada, adverte o curta em um cartão de texto, “pelos olhos de um louco, que, como todos nós, crê que é são”. Por isso os ângulos distorcidos e as sombras assustadoras de um desenho que foge ao tradicional casa tão bem com o espírito da obra. A voz do personagem principal – que, como no conto,  narra em primeira pessoa – é dublada por James Mason, e foi o primeiro cartum a receber indicação etária recomendada apenas para adultos na Inglaterra. O curta é produzido pelo estúdio UPA (United Productions of America) e dirigido por Ted Parmelee.

The Man With the Beautiful Eyes (1999)
Jonathan Hodgson é um artista baseado em Londres e que já trabalhou dirigindo sequências de animação para a série de TV Da Vinci Demon’s, de David S. Goyer – passa num dos canais da TV a cabo, embora eu não me lembre exatamente qual. Mas isso, dado que a série é bem meia-boca, não deve servir como demérito ao currículo do homem. Hodgson é o autor deste belo curta que adapta um poema de mesmo nome de Charles Bukowski, sobre um grupo de crianças que se  mostram fascinadas pelo mistério selvagem de um vagabundo alcóolatra visto em uma casa aparentemente abandonada na vizinhança em que moram. Com um traço e um uso nervoso da cor, aplicando palavras na tela e buscando uma representação tão estilizada que chegue a uma espécie de moldura do objeto (preste atenção na cena final, na qual os carros e as pessoas que passam diante da vitrine são apenas formas que não a encobrem). Um filme que arrebanhou prêmios em vários festivais internacionais, incluindo o Bafta, o mais importante da Grã-Bretanha.

A Alegoria da Caverna (2008)
Este não é um livro especificamente, mas um dos trechos mais conhecidos de uma das obras fundadoras da cultura ocidental, A República, de Platão. A representação da realidade física como uma caverna em que vemos apenas as sombras das coisas, sem atentar para seu significado verdadeiro, é um dos mitos mais conhecidos da história da filosofia, e aqui ganha uma muito breve versão na técnica stop-motion que, em inglês, é conhecida como “claynimation”, trocadilho entre “argila” e “animação” que é usada para definir o tipo de filme que aqui conhecemos por “massinha”. O filme é uma produção do diretor Michael Ramsey e do artista animador John Gribsby.

Um Médico de Aldeia (2007)
Uma versão do premiado diretor japonês Koji Yamamura para este alucionatório conto de Franz Kafka. O clima opressivo do original, uma pérola da juventude do autor tcheco, é traduzido por meio de um desenho nervoso e de uma variação constante das proporções e das perspectivas na obra animada.

Nicholas Era… (2010)
Em seu livro Fumaça e Espelhos, o inglês Neil Gaiman, autor de Sandman, conta a origem deste um breve conto sombrio natalino. Não estou com o livro em mãos para a citação literal, mas basicamente a história surgiu como um cartão de Natal, um pequeno conto/poema de 100 palavras invertendo a lógica benevolente das atribuições do Papai Noel. O texto foi caligrafado e ilustrado pelo amigo de Gaiman, e parceiro em Sandman, Dave McKean, e enviado como cartão a amigos e conhecidos (Gaiman admite na introdução do livro que a ideia veio após se sentir miseravelmente humilhado e sem talento por receber todo ano cartões de Natal feitos pelos seus talentosos amigos ilustradores). Seguindo a mesma lógica, o estúdio animado 39 Degrees, baseado em Pequim, adaptou o conto em uma animação de Natal em 2010.

Crime e Castigo (2000)
Assim como o Aleksandr Petrov mencionado lá no início, Piotr Dumala é um mestre russo da animação, e tem seu próprio método de produção tão sofisticado e trabalhoso quanto as pranchas de vidro do primeiro. Cada quadro nas animações de Dumala é obtida raspando com uma agulha uma prancha totalmente coberta de tinta preta. Fotografada para o filme, a prancha é então coberta de preto outra vez para o quadro seguinte, e assim por diante. Com isso, o trabalho resultante é de um contraste muito forte entre os raros pontos iluminados e a escuridão do restante do quadro. Um tipo de trabalho que parece ajustado à perfeição para ilustrar a opressiva atmosfera de Crime e Castigo, de Dostoiévski. O vídeo abaixo não tem legendas, mas como Dumala criou uma versão expressionista da narrativa, não há diálogos na animação, tornando-a passível de ser entendida por todos nós. É uma versão com ares de pesadelo, não seguindo necessariamente o livro ao pé da letra.

Ricardo III (1994)
Entre 1992 e 1994 a BBC levou ao ar uma série de episódios de aproximadamente meia hora cada, cada um apresentando uma versão animada de uma peça de William Shakespeare a cargo de um animador russo diferente. Uma das versões mais legais, na minha modesta opinião, é a que se vê abaixo , dirigida por Natalya Orlova, com base na sangrenta peça de Shakespeare sobre o perverso nobre deformado que empilha uma montanha de corpos em seu caminho até o trono (e a inevitável desgraça):

Kashtanka (2004)
Quem chegou até aqui já deve ter percebido sem que eu precise dizer que a tradição russa de desenhos animados é uma das mais ricas do mundo. Aqui temos outra prova disso, uma versão de um dos contos mais singelos de Tchékhov, sobre a cadela de um carpinteiro bêbado que, após se perder de seu dono após a passagem de uma parada militar, é recolhida por outro homem e levada para uma casa com animais treinados para o circo, entre eles um ganso e um gato. A versão abaixo é uma das disponíveis, tem legenda em inglês e espanhol, e é assinada pela mesma Natalya Orlova do desenho anterior.

A Maior Flor do Mundo (2007)
Uma animação do diretor espanhol (nascido no Uruguai) Juan Pablo Etcheverry baseada em um conto para crianças de José Saramago. Lançado quando o escritor ainda vivia, o filme é narrado pela voz do próprio Saramago, que a apresenta no início e faz uma breve aparição no fim. Para encerrar falando português…

Tradução e escravidão

17 de fevereiro de 2014 3
Chiwetel Ejiofor em cena de "12 Anos de Escravidão". Foto: Fox Searchlight, divulgação

Chiwetel Ejiofor em cena de “12 Anos de Escravidão”. Foto: Fox Searchlight, divulgação

Como já escreveu a jornalista Raquel Cozer, da Folha de S. Paulo, neste texto do último dia 10 de fevereiro, vivemos, e já há alguns anos, um momento em que as editoras parecem se guiar muito mais pelo possível sucesso de uma adaptação cinematográfica do que no valor intrínseco de uma obra para desovar uma tradução no Brasil. Um dos exemplos citados por ela é a obra Twelve Years a Slave, de Solomon Northup. Publicada originalmente em 1853, em domínio público, portanto, a narrativa autobiográfica do negro livre que foi raptado e vendido como escravo ganhará não uma, mas duas chances no mercado nacional – já que o filme de Steve McQueen estrelado por Chiwetel Ejiofor tem boas chances de ganhar o Oscar e de ser um sucesso de bilheteria.

A Companhia das Letras lança 12 Anos de Escravidão pelo selo Penguin, em edição com tradução de Caroline Chang e prefácio do mesmo Steve McQueen que assina a adaptação para o cinema. Em uma estratégia para associar ainda mais o livro e o filme, a capa foge do padrão da série usando a imagem do cartaz do filme. A segunda edição está saindo pela editora Seoman, parte do grupo Pensamento, e é creditada a alguém nomeado estranhamente apenas como Drago. Dado que fazia horas que não rolava uma comparação tradutória aqui no blog, acho que essa é uma circunstância mais do que apropriada para nos dedicarmos a isso.

Vamos, então, começar com a versão de Caroline Chang. Caroline é jornalista, editora da L&PM e tem em seu currículo traduções, entre outras, de A Longa Marcha, de Sun Shuyun (Arquipélago Editorial); As Filhas Sem Nome, de Xinran (Companhia das Letras); Janela para a Morte, de Raymond Chandler (L&PM) e A Resposta, de Kathryn Stockett (Bertrand Brasil) – este último, curiosamente, também um “livro de Oscar”, uma vez que foi publicado por aqui na mesma época em que sua adaptação cinematográfica, Histórias Cruzadas, chamava a atenção por indicações ao prêmio. Como nosso intuito com esta série é mais lúdico e menos técnico, selecionei para fins de comparação os primeiros dois parágrafos, em uma seleção arbitrária. Não é um trecho especialmente fácil ou difícil, é só o trecho que abre o livro:

12_anos_de_escravidao“Tendo nascido um homem livre, por mais de trinta anos gozado da bênção da liberdade em um estado livre e sido, ao final desse período, sequestrado e vendido como escravo, assim permanecendo até ser felizmente resgatado no mês de janeiro de 1853, após uma servidão de doze anos, foi sugerido que um relato da minha vida e de minhas desventuras não seria desprovido de interesse para o público. Desde meu retorno à liberdade não deixei de perceber o crescente interesse nos estados do Norte quanto ao assunto da escravidão. Trabalhos de ficção, prometendo retratar suas características mais amenas bem como as mais repugnantes, circularam de forma sem precedentes e, a meu ver, criaram um tópico rico para comentários e discussões.
Posso falar sobre a escravidão apenas na medida em que foi por mim observada – apenas na medida em que a conheci e vivenciei em minha própria pessoa. Meu objetivo é dar uma declaração simples e verdadeira dos fatos: repetir a história de minha vida, sem exageros, deixando para outros determinarem se as páginas da ficção apresentam um retrato de uma maldade mais cruel ou de uma servidão mais severa.”

O interesse pelo livro – e também por outra obra contemporânea deste, A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe – dá mostras de como a escravidão começava a ser tornar um tema central no norte “ilustrado”. Já começava-se a sentir o inevitável choque entre a escravidão no Sul, institucional, e as pretensões civilizadas do Norte industrializado, que desembocaria na Secessão na década seguinte, após os Estados sulistas formarem uma confederação e declararem a separação dos demais. O trecho que vemos acima serve como uma sinopse do livro, ao mesmo tempo em que tenta marcar sua diferença para com as obras de ficção. Este é um depoimento. Tem a validade de haver sido testemunhado e vivido. Vamos ver, agora, como esse trecho foi passado para o português pelo tradutor Drago, de quem não conheço a biografia e cujos outros trabalhos na área parecem ter sido todos realizados para a mesma editora Seoman, como O Homem que Amava Muito os Livros, de Allison Hoover Bartlett, e a biografia de Lance Armstrong editada pela mesma casa.

12-Anos-de-Escravidão-seoman“Tendo nascido um homem livre e desfrutado, por mais de trinta anos, das bênçãos da liberdade em um Estado livre e, ao término desse período, tendo sido sequestrado e vendido como escravo – condição na qual permaneci até ser, felizmente, resgatado no mês de janeiro de 1853, após doze anos de servidão – foi-me sugerido que um relato da minha vida e dos acasos que a pontuaram não poderia deixar de atrair o interesse do público.
Desde a minha volta à liberdade, não pude deixar de notar o crescente interesse pelo tema da Escravidão, em todos os Estados do Norte. Obras de ficção que pretendem retratar os aspectos mais agradáveis – tanto quanto os mais repugnantes – do assunto têm circulado, com uma abrangência e uma aceitação popular sem precedentes; o que, segundo creio, contribui para o estabelecimento de um proveitoso tópico de comentários e discussões.
Posso discorrer sobre a Escravidão apenas até o ponto em que tive oportunidade de observá-la; até o ponto em que a conheci e experimentei-a pessoalmente. Meu objetivo é fornecer um testemunho sincero e verdadeiro sobre os fatos: recontar a história de minha vida, sem exageros, deixando aos outros a tarefa de decidir se mesmo páginas de ficção contenham descrições mais equivocadas ou rigorosas de como foi a Escravidão.”

Cá estamos, então. Há, como seria de se esperar, pequenas diferenças que se referem não à tradução, mas à edição. A mais estranha para mim é a adoção daquela maiúscula na palavra Escravidão. Quando se usa uma letra maiúscula em uma palavra como essa, está-se falando do período histórico a que ela alude, e não à indústria infamante da escravidão de um modo mais genérico. Mas aí algo não encaixa, para mim, por dois motivos: 1) o Brasil teve seu próprio período histórico de Escravidão, que não coincide com o retratado no livro, e 2) o livro fala da escravidão tanto no sentido histórico quanto no sentido geral, embora Northup ressalte que está dando um testemunho pessoal. Também é digna de menção outra alteração gráfica, esta promovida pela Companhia: a transformação dos três parágrafos desse trecho em dois, algo cujo motivo não entendi muito bem. Mas claro que isso não tem a ver com o tradutor, então vamos adiante.

Drago lança mão do recurso de delimitar uma das frases da longa sentença inicial entre travessões para torná-la mais clara e inteligível. É um recurso que, ao menos na edição que eu encontrei de 12 Years a Slave, o original também usa, embora aplicado em uma frase diferente daquela que o tradutor resolveu apartar do restante. Nesse sentido, acho que a tradução de Caroline Chang para a Companhia é mais eficiente em conseguir preservar o ritmo da longa frase original sem precisar de parênteses ou travessões. É interessante notar que ao longo do trecho todo Drago parece optar por um andamento mais entrecortado por pronomes e conetivos.

O fim da primeira frase na edição da Seoman também me parece alterar sutilmente o original. Fiel ao tempo em que foi escrita, a prosa de Northup é mais cheia de circunlóquios, menos afirmativa, mais cheia de ressalvas, o que se percebe na forma indireta como ele afirma que o motivo da escrita do livro é o interesse público. No original ele escreve que seu relato ” would not be uninteresting to the public“. “Não seria desinteressante para o público”, literalmente, e nesse sentido o “não seria desprovido de interesse” da tradução de Caroline Chang parece mais preciso do que o “não poderia deixar de atrair o público”. Não ser desprovido de interesse e não poder deixar de atrair são duas coisas diferentes. Algo pode não ser desinteressante e ainda assim não atrair interesse algum, se é que me entendem.

Em outro ponto, Northup se refere ao quadro da escravidão montado pelas obras de ficção que se dedicaram ao tema. E aí admito que a opção de Drago por traduzir “their more pleasing as well as more repugnant aspects” por “os aspectos mais agradáveis – tanto quanto os mais repugnantes – do assunto” me provoca certa estranheza desconfortável, porque parece apelar a um sentido inadequado do “pleasing” original. Ao menos em português, a ideia de que a escravidão tenha um aspecto “agradável”, que “agrada”, parece fora do lugar.

São aspectos extremamente subjetivos, claro, mas confesso minha predileção pela tradução de Caroline Chang. A caixa de comentários fica, portanto, aberta a novas contribuições e à discordância – fundamentada, claro. Para encerrar, vamos ao trecho original, em inglês, para que vocês mesmos aí possam fazer sua própria análise:

“Having been born a freeman, and for more than thirty years enjoyed the blessings of liberty in a free State – and having at the end of that time been kidnapped and sold into Slavery, where I remained, until happily rescued in the month of January, 1853, after a bondage of twelve years — it has been suggested that an account of my life and fortunes would not be uninteresting to the public.
Since my return to liberty, I have not failed to perceive the increasing interest throughout the Northern States, in regard to the subject of Slavery. Works of fiction, professing to portray its features in their more pleasing as well as more repugnant aspects, have been circulated to an extent unprecedented, and, as I understand, have created a fruitful topic of comment and discussion.
I can speak of Slavery only so far as it came under my own observation—only so far as I have known and experienced it in my own person. My object is, to give a candid and truthful statement of facts: to repeat the story of my life, without exaggeration, leaving it for others to determine, whether even the pages of fiction present a picture of more cruel wrong or a severer bondage.”

Gonçalo Tavares e a máquina da cidade

14 de fevereiro de 2014 1
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Gonçalo M. Tavares na Feira do Livro de Caxias do Sul, em 2013.
Foto: Diogo Sallaberry, Agência RBS

A obra do português Gonçalo M. Tavares conquistou, ao longo de apenas uma década, um reconhecimento crítico que costuma levar bem mais tempo para ser obtido. Autor de Jerusalém, romance que venceu o Prêmio Portugal Telecom, e de uma inventiva série chamada O Bairro, na qual os personagens, identificados com nomes de artistas e intelectuais, representam ideias abstratas em situações que vão da lógica à comicidade, Tavares está lançando no Brasil seu romance Matteo Perdeu o Emprego (Foz Editora, 160 páginas, R$ 49) – publicado originalmente em 2010 em Portugal . Trata-se de um livro de difícil classificação. Metade da obra é constituída por uma reunião de fragmentos narrativos em que cada personagem serve de ponte para o protagonista da história seguinte. A outra metade é um posfácio crítico do autor à própria obra, puxando os fios de interpretações possíveis sobre os elementos reunidos na ficção. Leia aqui o texto publicado hoje no Segundo Caderno de Zero Hora. E confira abaixo a entrevista com o autor, concedida por telefone desde Lisboa, onde o autor português nascido em Angola reside:

Zero Hora – Por lidarem com a tradição de um modo um tanto elíptico, seus livros sempre despertam muitas leituras críticas bastante imaginativas. Neste livro o senhor apresenta uma leitura crítica do livro no próprio livro. Foi para orientar a leitura?
Gonçalo M. Tavares – Penso que não. Penso que é realmente uma segunda parte na qual eu faço uma reflexão sobre o texto narrativo. Mas eu espero que esse ensaio final abra ainda mais leituras e mais interpretações. É também um comentário, uma reflexão muito elíptica, que dá uma interpretação mas também abre um espaço. Como você disse bem, eu quando escrevo tento ser tanto mais sintético quanto possível. E essa síntese, essa tentativa de escrever com o mínimo possível de palavras faz com que, espero eu, aumente a densidade do texto. Eu busco essa densidade como uma característica quase física da matéria: como a matéria que ocupa pouco espaço mas contém muito mais energia. Espero que o meu ensaio final em Matteo Perdeu o Emprego também tenha essa característica. É o leitor que vai, de certa maneira, desdobrar em vários metros quadrados essa energia densa que ocupa pouco espaço. E portanto, eu na segunda parte também não dou muitas explicações.

ZH – O senhor estrutura a história como um círculo organizado de personagem a personagem seguindo a ordem alfabética, uma ordem que, no ensaio, o senhor define como uma escolha arbitrária. Por que, então, o título, que poderia ser sobre qualquer personagem, é justamente sobre o último, o que “perde o emprego”? É seu comentário sobre a crise econômica cujos efeitos ainda são sentidos na Europa?
Tavares – Talvez não tanto, porque o livro é não realista, todos os episódios são bizarros. Eu, por norma, não escrevo sobre o que está a acontecer em termos concretos. Agora, é evidente, o desemprego é qualquer coisa de muito atemporal. E sobre dar ao livro a ordem do alfabeto, uma das coisas importantes para mim foi realmente a ideia de que o alfabeto é qualquer coisa de muito aleatório. Por exemplo, se pensarmos na enciclopédia, com os temas ordenados pelo alfabeto, o que é impressionante é que a ordem alfabética é quase surrealista de tão absurda. Pode-se juntar na letra C a palavra “comboio” com a palavra “costura”… Ou seja, só por ser a mesma letra, palavras que nada têm a ver uma com a outra podem estar juntas ou em uma sequência. E a esta lógica absurda do alfabeto, não sei por que, respeitamo-la como uma lógica qualquer, forte, como se fosse quase uma lógica divina, e não humana. E nesse sentido, no Matteo Perdeu o Emprego, o fato de essas personagens interligadas terem nomes que se ordenam por ordem alfabética dá como que um sentido no meio dessa estranheza. Quanto à história que dá título ao livro, é uma história de alguém que precisa trabalhar, e eu diria que é uma narrativa mais da perversidade humana, que se confunde com a perversidade sexual. Acho que essa característica está muito presente, além da questão do emprego.

ZH – Assim como em outros romances que o senhor escreveu, neste os nomes dos personagens têm um estranho papel simbólico. Em sua série O Bairro, os personagens têm nomes de artistas e pensadores. Em seu ciclo O Reino os nomes têm uma vaga referência ao leste europeu. Neste livro, a maioria dos personagens têm nomes judaicos. Para o senhor o nome de um personagem é escolhido para ancorá-lo em um espaço ficcional próprio?
Tavares – O nome dos meus personagens é quase como o nome de um livro. Há uma parte que é racional na escolha, mas há outra parte que é, eu não diria que do acaso, mas de qualquer coisa que é diferente da racionalidade. Ou seja, eu não escolho o nome de forma consciente. Em outro livro que eu escrevi, chamado Uma Viagem à Índia, a escolha dos nomes têm a ver às vezes com a sonoridade. E nesse caso de Matteo Perdeu o Emprego, o ponto de partida foi um conjunto de fotografias que eu vi de um vendedor de campas. Não eram campas no cemitério, eram apenas as pedras, lisas, não tinham nem data de nascimento ou de morte, porque eram para vender, e nessas campas tinham alguns dos nomes que aparecem em Matteo Perdeu o Emprego, muitos deles judeus. E não sei explicar, eu não penso, quando escrevo, em uma determinada mensagem, nem quero situar a narrativa espacial e temporalmente. Acho que meus livros, no geral, não estão situados nem no espaço nem no tempo. Então, a escolha do nome se dá pela narrativa que ele incita. Eu consigo ver quase como se o nome “Goldman” me atirasse para uma história, por exemplo. Há qualquer coisa que tem a ver com o nome, e se eu usasse o nome “Maria”, isso me atiraria para um tipo de história completamente diferente. Ou seja, o nome não é algo que seja neutro, ele tem já uma história. Quando eu uso um nome judeu, por exemplo, não é apenas o nome de uma pessoa, é como se pudéssemos ver parte da história do mundo através do nome de uma pessoa.

ZH – Matteo Perdeu o Emprego tem um determinado número de temas e signos que aparecem ao longo de todo o livro quase como refrões ou motivos musicais. Não apenas a circularidade da trama espelha outros “círculos” espalhados pelo romance (que começa em uma rótula, ou rotunda, no português lusitano), mas também há uma recorrência à questão do lixo, central em várias das histórias.
Tavares – Interessava-me pensar a questão do círculo. Há outras rotundas que aparecem no livro, e é como se elas espelhassem a própria forma da obra, como se o próprio livro fosse uma rotunda, ainda que mal feita, no sentido de que não termina no mesmo ponto em que começou. Mas no lixo eu não havia pensado nele surgindo tanto assim, mas é verdade. A questão principal era adequar os episódios como se fossem peças de dominó, ou seja, a partir do momento em que se começa a contar a primeira história, aquela primeira personagem cruza-se com uma segunda, a segunda cruza-se com uma terceira, a terceira fala de uma quarta… Matteo Perdeu o Emprego é um pouco a história das ligações possíveis entre diferentes histórias. Não me interessava aqui um personagem concreto ou um tema concreto. Talvez o tema chave seja a questão da circunferência. Mas realmente esses episódios envolvendo o lixo são para mim muito significativos. A mim me interessa muito a ideia do lixo, e que está também em outro dos meus romances, Aprender a Rezar na Era da Técnica. O lixo é uma coisa interessante, porque muitas vezes não temos a consciência de que uma casa de uma pessoa é como se fosse um imenso organismo. Uma experiência interessante seria se filmássemos e pesássemos tudo o que entra de alimento pela porta de uma casa, e depois víssemos o lixo que sai. O lixo é qualquer coisa que atiramos para longe, mas se ficássemos com todo o lixo produzido por uma casa durante um mês, ficaríamos com algo de um peso gigantesco. E é quase como se fossem dejetos do próprio organismo. A ideia do lixo me interessa muito, e cruza-se com a ideia de cidade. A cidade tem muitas funções, e uma delas é fazer desaparecer o lixo. Fazer com que as pessoas não se apercebam que produzem diariamente quilos de lixo, e isso é interessante. Porque esconder o que é sujo, o que cheira mal, é uma imagem que pode ser pensada para outras situações: a cidade quer esconder a pobreza, quer esconder o que é feio, e a cidade às vezes quer esconder a deficiência. E aqui há um instinto da cidade que eu considero muito perigoso: crer apenas em fachadas limpas. Dar uma ideia da cidade que seja apenas, digamos, a sua parte iluminada. Mas a cidade tem várias outras sombras, e o lixo simbolicamente é isso. Aquele episódio do livro de um homem que aproveita o lixo para fazer alguma coisa é algo que me interessa muito, bem como a arte contemporânea, que lida com os restos que a cidade vai deixando.

ZH – Em outro episódio do livro uma escola vai sendo progressivamente soterrada por pilhas de lixo acumulados no pátio após uma greve de lixeiros. Quando o lixo começa a invadir a sala, apenas uma turma permanece. É também um comentário sobre a produção do lixo, e sobre esse peso que o senhor falou?
Tavares – Para mim não há uma interpretação concreta, como disse, há várias interpretações, mas realmente há ali qualquer coisa que tem a ver com a racionalidade, com a pessoa manter a sua inteligência e manter-se aprendendo apesar de mais ou menos atacado pelo lixo. São temas que me interessam, e o Matteo Perdeu o Emprego está cheio de pequenos episódios, de situações um bocado bizarras que têm a ver com a cidade. É possível dizer que o livro é sobre a lógica da cidade, também.

ZH – Caminhos também são um signo recorrente no romance. Ele começa em uma rótula, uma via para automóveis, na qual um homem é atropelado. Há uma outra rótula projetada em um cruzamento quadrado. Há dois homens que se perdem em um labirinto turístico. É também um romance sobre trajetórias?
Tavares – Sim, parte da cidade é basicamente uma rede de cruzamentos sucessivos. Matteo Perdeu o Emprego é realmente sobre essa questão dos caminhos, de ir pela esquerda ou pela direita. Eu vejo a cidade como se fosse uma máquina composta por vários cruzamentos que mais não fazem do que separar as pessoas. Por exemplo, em Lisboa eu ando muito de metrô. E uma das coisas que gosto é de ver, em uma estação de metrô, aquelas centenas e centenas de pessoas a saírem de uma mesma estação. E a estação tem duas saídas. E logo de imediato, se tivermos ali mil pessoas, 500 vão por uma saída e 500 vão pela outra. É o primeiro cruzamento, aquela saída de metrô. E depois, as 500 que foram para um lado vão andando e chegam a outro cruzamento. Ali, 200 vão para a esquerda, 100 vão em frente e 200 seguem à direita. E daqueles 200, depois vão 100 para um lado e 100 para o outro. Vão aparecendo cruzamentos sucessivos e o que eu sinto é que os vários caminhos, os vários cruzamentos, são maneiras de ir separando multidões. Até o ponto em que, a certa altura, restam duas pessoas caminhando lado a lado, uma vai para a esquerda e outra dobra para a porta de seu apartamento, abre a fechadura, deita-se na sua casa, na sua cama, uma daquelas mil pessoas que saíram da estação de metrô todas juntas. E isso é a grande máquina da cidade, é como um conjunto de canais de água que consegue transportar uma pessoa para seu local individual, a sua casa, a sua cama. De certa maneira os conflitos na cidade aparecem quando duas pessoas estão no mesmo espaço e não deveriam estar.

ZH – Matteo Perdeu o Emprego parece fundir elementos de seus projetos anteriores: os romances da série O Reino, com um corte mais sério e realista, e os livros da série O Bairro, na qual o senhor cria variações sobre temas mais abstratos e fantásticos. O senhor o vê como uma síntese?
Tavares – Eu diria realmente que, se pensarmos nos romances, Jerusalém, Aprender a Rezar… são do mundo mais realista. E as narrativas d‘O Bairro são mais da fantasia. Histórias como a do Senhor Valéry são uma ficção em um mundo paralelo à realidade. Este Matteo Perdeu o Emprego é ao mesmo tempo um livro realista e fantasioso, bizarro. E, portanto, é uma mistura entre qualquer coisa que poderia acontecer mas que era muito improvável acontecer, era estranho. Há uma coisa no livro que me interessa muito, que é o contraste entre este tom por vezes estranho, quase no limite da irracionalidade que marca as histórias, e depois o tom muito racional e reflexivo que marca o posfácio interpretativo. Me interessava escrever as histórias, ligá-las e depois pensar como escrever racionalmente, reflexivamente, sobre histórias que têm um tom não realista. Isso é também interessante, porque podemos pensar sobre histórias realistas ou pensar sobre a realidade, mas a partir de histórias não realistas. Matteo Perdeu o Emprego é qualquer coisa que eu não sei bem definir, mas ocupa um espaço intermédio entre a realidade e esse mundo paralelo da ficção.

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