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Posts de outubro 2014

Dramáticos legados da I Guerra

16 de outubro de 2014 0
Soldados nas trincheiras de La Lys, em Flandres, durante a I Guerra

Soldados nas trincheiras de La Lys, em Flandres, durante a I Guerra

Texto de Luiz Antonio Araújo

Lenço umedecido, zíper, horário de verão. Banco de sangue, tabagismo, “corredor polonês”. Aço inoxidável, saquinho de chá, comunicação por rádio a bordo de aeronaves. Genocídio, bombardeio aéreo, tanque de guerra. Nenhuma dessas expressões fazia sentido antes da I Guerra Mundial, e se hoje nos parecem familiares, é porque “é impossível entender o Breve Século 20 sem ela”, como escreveu o historiador britânico Eric Hobsbawm. Ou porque foi “a primeira calamidade do século 20, a calamidade da qual brotaram todas as outras”, no balanço mais explícito de outro historiador, o americano Fritz Stern.

A Grande Guerra, como batizada inicialmente pelos contemporâneos (a expressão “I Guerra Mundial” surgiu apenas ao final do conflito, quando ficou claro que seus horrores seriam reprisados), foi o apocalipse realmente existente para a civilização europeia. Antes dela, longas aventuras militares pareciam definitivamente confinadas a confins como Sudão e China. Depois, a linha de frente alcançou centros urbanos como Estrasburgo, Varsóvia e Salônica, onde havia cafés, automóveis e orquestras sinfônicas.

A guerra mobilizou 65 milhões de homens, demoliu quatro impérios e deixou 20 milhões de mortos entre militares e civis. Ao final de quatro anos, seis em cada 10 homens sérvios tinham perecido. Numa escala menor, um em cada quatro graduandos de Oxford e Cambridge, destinados desde o berço ao parlamento ou ao serviço colonial, foi parar nos cemitérios militares britânicos. Em pelo menos uma dimensão a profecia do presidente americano Woodrow Wilson, de que aquela seria “uma guerra para acabar com todas as guerras”, se realizou: os que nela combateram tornaram-se firmes partidários da paz. Entre as exceções, conta-se Adolf Hitler. O filósofo Karl Popper disse que o futuro não seria o que é se fosse possível conhecê-lo. Com a I Guerra, ocorre um fenômeno curioso: quanto mais a conhecemos, menos ela se parece com o que é, ou seja, um acontecimento que irrompeu há um século.

O historiador britânico Christopher Clark, autor do elogiado Os Sonâmbulos – Como Eclodiu a Primeira Guerra Mundial (Tradução de Berilo Vargas e Laura Motta. Companhia das Letras, 704 páginas, R$ 69,50), tem uma explicação que pareceria surpreendente: “se o debate é antigo, o tema ainda é atual. Na verdade, é ainda mais atual e mais relevante agora do que 20 ou 30 anos atrás. As mudanças no mundo alteraram nossa perspectiva sobre os acontecimentos de 1914”. É impossível não se impressionar com a seguinte descrição da crise que levou à guerra e do papel nela desempenhado pelo grupo terrorista sérvio Mão Negra, do qual fazia parte Gavrilo Príncip, jovem estudante que matou a tiros o arquiduque austríaco Francisco Ferdinando: “O processo começou com um esquadrão de homens-bomba suicidas e um cortejo de automóveis. Por trás do ultraje de Sarajevo estava uma organização declaradamente terrorista com um culto de sacrifício, morte e vingança; mas essa organização era extraterritorial, sem uma localização geográfica ou política clara; estava dispersa em células que transpunham fronteiras políticas, não tinha como ser chamada à responsabilidade, suas ligações com qualquer governo soberano eram indiretas, ocultas e certamente dificílimas de discernir fora da organização”. A força da obra de Clark, entretanto, não está num suposto recurso ao “presentismo”, que o historiador rejeita explicitamente. Ao contrário, ele enfatiza justamente o fato de que, morto o arquiduque, a chamada Crise de Julho adquiriu uma dinâmica própria, na qual teve peso decisivo o intrincado e pouco coerente sistema de alianças europeu e, no seu interior, a teia de interesses econômicos, políticos e por vezes pessoais que detonaram a matança. Os Sonâmbulos focaliza em detalhe a história dos Bálcãs, fronteira de três impérios (Austro-húngaro, Russo e Turco Otomano), e mostra como essa região crítica para a  Europa tornou-se, já no final do século 19, um barril de pólvora: a turbulência balcânica, assegura Clark, “forneceu a estrutura conceitual dentro da qual a crise, uma vez surgida, foi interpretada”. Voltando à analogia entre passado e presente, a desterritorialização da gestão de crises, hoje tornada possível por um sistema de governança global ainda incipiente, atua como freio contra colapsos incontroláveis como o de 1914, precipitado, segundo o britânico, por “rápidas interações entre centros de poder autônomos e pesadamente armados que confrontavam ameaças diferentes e cambiantes, e que operavam em condições de alto risco e baixa confiança e transparência”.

Em vez de se concentrar na Crise de Julho, O Horror da Guerra (Tradução de Janaína Marcoantonio. Planeta, 736 páginas, R$ 89,90), do britânico Niall Ferguson (publicado em 1998 e com edição brasileira em abril deste ano), é um opulento ensaio de 736 páginas em torno de 10 perguntas clássicas sobre a I Guerra. Algumas, como “A guerra foi recebida com entusiasmo popular?”, já foram exaustivamente respondidas (“Houve manifestações isoladas de entusiasmo chauvinista pela luta iminente, mas foram exceções”, afirma Clark). Outras, como “A propaganda, e especialmente a imprensa, mantiveram a guerra em curso, como acreditava Karl Kraus?”, só se justificam em função da admiração de Ferguson por Kraus. A pergunta fundamental do livro é a que permite ao autor exercitar sua veia polêmica, especialmente contra a visão estabelecida sobre a guerra entre historiadores britânicos: “A guerra era inevitável, seja por causa do militarismo, do imperialismo, da diplomacia secreta ou da corrida armamentista?”. As conclusões de Ferguson (em 1914, os europeus estavam dando as costas ao militarismo e abraçando a democracia, e a grande falha da Grã-Bretanha foi ter se omitido do ponto de vista político e militar em relação a esse fenômeno) são largamente baseadas em dados sobre a França e a Alemanha, evitando as águas profundas da Rússia e da Áustria-Hungria.

O livro de Ferguson tem o subtítulo Uma Provocativa Análise da I Guerra Mundial. Mas é O Adeus à Europa – A América Latina e a Grande Guerra (Tradução de Carlos Nougue. Rocco, 400 páginas, R$ 39,50), do francês Olivier Compagnon, o verdadeiro merecedor desse rótulo. Deixando de lado o mito conveniente de que a I Guerra foi um conflito europeu, ele muda o foco para seus efeitos na América Latina, a partir da dissecação da forma como a guerra foi vivida por Brasil e Argentina. Um dos alvos de Compagnon, especialista em história latino- americana, é a velha assertiva de que o período de 1889 a 1929 foi marcado, no subcontinente, pelo expansionismo americano (a política do “Grande Porrete” de Theodore Roosevelt), pela crise do modelo liberal-oligárquico e pelo crescimento das classes médias urbanas. O resultado é a instigante ideia, traduzida no título da obra, de que a guerra marcou o fim do idílio europeu das elites brasileiras e argentinas e permitiu o florescimento de um modernismo político e cultural que Compagnon relaciona à ascensão de correntes como o varguismo e o peronismo.

Secretário permanente da Academia Sueca, Peter Englund compõe um interessante painel da guerra a partir de cartas, diários, livros e entrevistas de 19 testemunhas da guerra. Dois são civis, quatro são mulheres e há um latino-americano, o venezuelano Rafael de Nogales, que, aos 35 anos, se junta às forças otomanas e assiste, horrorizado, ao massacre dos armênios da Anatólia.

Ainda que o material utilizado por Englund não seja inédito, A Beleza e a Dor – Uma História Íntima da Primeira Guerra Mundial está cheio de insights preciosos sobre a vida cotidiana no início do século passado e pode ser lido como uma biografia ou uma novela de aventuras. Catástrofe – 1914: A Europa Vai à Guerra, do britânico Max Hastings (Tradução de Berilo Vargas. Intrínseca, 672 páginas, R$ 49,90), é a estreia de um veterano historiador e jornalista, autor de mais de 20 livros sobre história militar, no território densamente povoado do caminho para a I Guerra. Trata-se de uma obra sob medida para os leitores que pretendem ter uma visão abrangente e vívida sobre o tema, com abundância de fontes e bibliografia e a prosa mais do que certeira de um grande narrador. Merecem destaque ainda as coleções de imagens de combates e de mapas – essenciais em qualquer livro sobre o assunto e infelizmente negligenciadas em outras obras – e a útil cronologia do ano de 1914.

Com tantos estudos e livros históricos, contudo, se há um lançamento da recente fornada sobre a I Guerra que merece ser comemorado, é uma ficção: a edição brasileira do romance As Aventuras do Bom Soldado Švejk, de Jaroslav Hašek, com tradução diretamente do checo por Luís Carlos Cabral. Clássico da literatura da Europa Central, cujos méritos foram reconhecidos pela primeira vez por Max Brod, amigo responsável pela preservação da obra de Franz Kafka, Švejk permaneceu por muito tempo ignorado em parte pela particularidade linguística: foi escrito em checo, língua pouco conhecida no Brasil (Kafka, também checo, escrevia em alemão). O romance, que já foi associado a Dom Quixote, acompanha a saga de Josef Švejk, um ex-comerciante de cães (profissão que também foi exercida pelo autor) que se integra ao exército austro-húngaro nos primeiros anos da guerra. As Aventuras do Bom Soldado Švejk merece figurar em qualquer lista do legado da I Guerra Mundial – quem sabe no lugar do bombardeio aéreo e muitas posições acima do zíper e do lenço umedecido.