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Posts de novembro 2014

Capparelli viaja à Calábria

20 de novembro de 2014 0
Capa de Viagem à Calábria

Capa de Viagem à Calábria

Uma viagem na idade madura se assemelha a um regresso à infância. Ao menos da forma como essa jornada é narrada em Viagem à Calábria (Record), novo romance de Sérgio Capparelli. O livro marca o retorno do escritor à prosa para adultos 20 anos após Gaspar e a Linha Dnieperpetrovski. Nessas duas décadas, o autor se concentrou na literatura para jovens, da qual é um dos principais nomes do Brasil, e à poesia. Além do romance, ele ainda tem outros dois livros a caminho – O Rapaz do Metrô: Poemas para Jovens em 8 Chacinas ou Capítulos (Record) e a coletânea de poesias Os Cavalos de Einstein (L&PM).

Viagem à Calábria acompanha as andanças pela região italiana de um personagem que empresta de Capparelli alguns elementos autobiográficos: a idade, o fato de ter passado a infância em Minas Gerais e mesmo o sobrenome – que tem origem em albaneses que migraram para a Calábria. No livro, o personagem viaja em busca de seu irmão, radicado no país, para retomar um contato interrompido meio século antes e tirar a limpo uma dúvida que corrói o personagem: teria o irmão traído e entregado o pai – um ex-seminarista sonhador perseguido pela ditadura militar?

O livro se estrutura como em um jogo de espelhos, no qual o número dois assume fundamental importância na composição especular da narrativa. O protagonista viaja na companhia do irmão não apenas pela Itália, mas pela memória de sua vida no Brasil. Sob vários pretextos, logo o seu pensamento se desgarra em direção à infância em Uberlândia, no fim dos anos 1950, na qual a dualidade está sempre presente: o bairro em que o menino vive é separado por um córrego de uma aldeia de caboclos que vivem nas ruínas de uma igreja; o garoto divide seu afeto entre a mãe, uma mulher frustrada pelo temperamento pouco prático e sonhador do marido, e Dona Sílvia, uma vizinha aparentemente abandonada pelo marido desaparecido – na verdade, um perseguido político fugindo do truculento delegado local.

Quando o golpe militar se instaura, a duplicidade engolfa também o pai do protagonista, que precisa ele próprio se esconder, caçado pelo delegado local, quase como um duplo do desaparecido marido de Dona Sílvia, a “mãe idealizada” do menino. É o desfecho dramático dessa caçada que coloca no personagem principal a dúvida a ser solucionada meio século depois, na viagem com o irmão. Outra jornada especular, dado que, quanto mais ambos avançam pela Itália, mais vigorosamente a narrativa se concentra na infância de tons fellinianos e agridoces vivida no Brasil.

Três perguntas para Veronica Stigger

17 de novembro de 2014 0
A escritora Veronica Stigger. Foto: Guto Kuerten, Agência RBS

A escritora Veronica Stigger. Foto: Guto Kuerten, Agência RBS

A escritora porto-alegrense Veronica Stigger recebeu, na semana passada, o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria estreante acima de 40anos, por seu romance Opisanie Šwiata. Ela respondeu três perguntas por e-mail. Parte desta entrevista foi publicada, com cortes, no caderno PrOA de Zero Hora deste domingo. Abaixo, segue a versão na íntegra:

Dar a um romance de estreia no Brasil um título em polonês (apesar de todo o sentido que o título assume dentro da narrativa) é, de algum modo, um gesto anticomercial?
Não é a primeira vez que dou um título em outra língua para um trabalho. Meu segundo livro saiu com o título em italiano: Gran Cabaret Demenzial. E tenho vários textos com títulos em línguas estrangeiras: “Argumentum chronologicum”, “Quand avez-vous le plus souffert?”, “L’après-midi de V. S.”, “Des cannibales” – cada um com sua razão própria de ser. Antes de ser um gesto anticomercial, é, para mim, um gesto artístico, um gesto poético. Que poesia e anticomércio, hoje em dia, acabem por coincidir é algo que talvez diga menos sobre meu romance do que sobre nossa sociedade ou nossa “vida cultural”. Com o título Opisanie Šwiata, queria produzir um estranhamento, que colocasse o leitor na posição de estrangeiro, como é a do personagem principal (o título está na língua dele). E não abriria mão deste gesto por um suposto aumento de vendas.

Seu livro dialoga com títulos brasileiros dos anos 1920 e tem até um viajado Bopp como personagem, alusão clara a Raul Bopp, autor do clássico modernista Cobra Norato. Esta aproximação explícita do modernismo é uma tentativa de dialogar com os valores estéticos desse movimento?
Sim. Vejo o Opisanie Šwiata como uma espécie de história poética do modernismo brasileiro, e não só brasileiro – uma homenagem a este período, que venho estudando bastante. Acredito que há uma vontade de experimentação, naquela fase da história artística e literária brasileira, que ainda não foi de todo esgotada. Daí eu ter buscado fazer, como dizem as anotações encontradas por Opalka no caderno de Natanael, “um livro antigo / um livro de viagens / com páginas que se desdobram”, isto é, um livro “moderno”. Às vezes, um desvio pelo passado (e não para o passado), um reencontro com aquilo que ainda permanece vivo no passado, pode ser a melhor maneira de ultrapassar os impasses estéticos do presente, a melhor maneira de seguir adiante. Por exemplo, há um modelo de ficção literária que foi se impondo ao longo dos últimos anos, que é o modelo chancelado e até mesmo promovido pela indústria editorial de língua inglesa. Este modelo, transformado em padrão por algumas editoras hegemônicas e por alguns jornais e revistas a elas associados, arriscou transformar a prosa literária brasileira contemporânea numa espécie de cover da literatura anglo-saxã. O que, convenhamos, é bastante melancólico para uma prosa que já teve um Oswald de Andrade ou uma Clarice Lispector. Todas as experiências que se contraponham, conscientemente ou não, a esse padrão, e à padronização dele resultante, contam com minha simpatia. Felizmente, posso nomear vários autores cujo sucesso (artístico, não comercial) demonstra que o padrão que se tentou e ainda se tenta impor já está em declínio: Nuno Ramos, André Sant’Anna, Marcelo Mirisola, Ricardo Lísias, João Paulo Cuenca, Paloma Vidal, Marcelino Freire, Alberto Martins, Carlos de Brito e Mello, Elvira Vigna, Evandro Affonso Ferreira, Juliano Garcia Pessanha, Vitor Ramil, Juliana Frank. Fico por aqui, mas haveria uns tantos outros nomes a citar.

O livro apresenta um cuidadoso trabalho visual, com imagens e cores que se alternam ao longo das páginas. Também Os Anões tinha um padrão gráfico sofisticado e único que emulava na forma a pequenez do título. Como foi sua participação no processo de edição visual? Você pensa seus livros como objetos artísticos?
Para mim, um livro não se resume ao texto. Costumo pensá-lo como um todo. Quando o estou escrevendo, já vou imaginando a forma que darei a ele, a organização interna dos textos, o tipo de papel, a capa, se terá ilustrações, que ilustrações etc. Por conta disso, quando entrego os originais na editora, sento-me com a equipe de design gráfico e explico toda a concepção do livro em seus mínimos detalhes. Em Opisanie Šwiata, por exemplo, há várias linhas narrativas: em primeira pessoa, em terceira pessoa, cartas, trechos de um guia de viagem, notícias, anúncios. E eu queria que cada uma dessas linhas tivesse uma diferenciação gráfica discreta, evitando recorrer ao itálico ou à mudança muito marcada de tipo de letra. Por isso, as páginas são coloridas. Além disso, imaginei a abertura do livro como a abertura de um filme, em que há uma espécie de prólogo antes dos créditos iniciais. Daí, o livro se abrir com as cartas e só depois disso apresentar seu título e minha assinatura, a dedicatória, as epígrafes.