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Guerra grande, vidas breves

29 de dezembro de 2014 0
Capa do livro 14, de Jean Echenoz

Capa do livro 14, de Jean Echenoz

Com tanto que se publicou a respeito da centenária I Guerra Mundial ao longo deste ano – literalmente milhares de páginas – é uma surpresa o tamanho do impacto provocado no leitor por uma novela tão curta quanto 14, do escritor francês Jean Echenoz, que foi lançada recentemente no Brasil (Tradução de Samuel Titan Jr., editora 34, 136 páginas). Falando de uma das guerras mais esquecidas pela ficção devido à complexidade de suas causas e forças em disputa, Echenoz, com uma prosa sóbria e impessoal, consegue realizar um grande livro enfocando personagens que sabiam tanto daquela guerra quanto o leitor contemporâneo: muito pouco.

Estruturado em 15 capítulos breves como vinhetas, mas plenos de cenas poderosas em seu poder evocativo, 14 concentra seu olhar não em soberanos, diplomatas e generais, os protagonistas “históricos” da guerra, mas em cinco rapazes e em uma moça franceses. Anthime, Charles, Padioleau, Bossis e Arcenel são jovens nascidos e criados todos na mesma aldeia da Vendeia, unidos por relações de coleguismo, em alguns casos, e parentesco, em outros – relações que a narrativa vai revelando aos poucos.

Em um primeiro momento, seu horizonte não parece muito amplo: alguns trabalham na fábrica que é o centro da economia local, outros são amigos de pescaria, mas todos são afetados pela notícia da declaração de guerra. Alistam-se e são designados ao mesmo regimento de infantaria e rumam para uma guerra até então sem par nos métodos industriais de violência e carnificina – o signo da fábrica que é o elemento tão presente na rotina da pequena aldeia é aqui replicado com uma torção cruel: a fábrica a serviço da morte em larga escala. O contraponto da narrativa é dado por Blanche, jovem a quem Anthime dirige sentimentos de afeição mas que é amante, efetivamente, de outro dos rapazes (e mais não se dirá porque o triângulo que se forma terá consequências no próprio destino de alguns dos combatentes no front).

Ciente de que seu romance não tem a legitimidade do testemunho de obras de escritores que de fato combateram na I Guerra, como Blaise Cendrars ou Céline, Echenoz não tenta transformar seu relato de guerra em um drama comovente. Pelo contrário, os melhores efeitos são obtidos do contraste entre os horrores narrados – combates, ferimentos, o inferno das trincheiras cheias de lama e ratos, as tentativas de deserção, reais ou acidentais – e o tom breve e impessoal da narrativa. Esse poderia ser o único reparo a ser feito ao livro: quando se demora um pouco mais na descrição da guerra do que em acompanhar seus personagens, Echenoz parece estar fazendo uma súmula das ideias mais facilmente associadas ao teatro de operações da I Guerra. É quando o livro se estende sobre o impacto de tal engrenagem sobre as frágeis vidas de seus personagens que 14 brilha com um magnetismo conciso e perturbador.

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