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Posts de agosto 2015

A submissão do Ocidente

06 de agosto de 2015 3
Michel Houellebecq. Foto:  Miguel Medina / AFP

Michel Houellebecq. Foto: Miguel Medina / AFP

Na encruzilhada aparentemente sem saída da anomia contemporânea, a solução para a angústia ocidental estaria na aceitação – ou melhor, na submissão – de um ideal metafísico amparado na religião, ainda que tal religião seja tirânica e contrária a vários dos valores que fizeram o Ocidente? É essa a pergunta que o protagonista do romance Submissão, de Michel Houellebecq, se faz durante boa parte do livro, que se tornou polêmico pelo tom provocador e pelo que muitos viram como uma obra ofensiva à comunidade islâmica na França.

Submissão (Alfaguara, R$ 39,90, 256 páginas. Tradução de Rosa Freire D’Aguiar) narra a ascensão eleitoral de um partido muçulmano ao poder na França e as consequências desta vitória. O centro da narrativa não é o cenário político imaginado, e sim a vida tediosa de François, um personagem que, mais do que uma extensão, é uma repetição dos protagonistas anteriores de Houellebecq (culto, misógino, com olhar cínico e comportamento apático). Professor na Sorbonne, François come mal, dorme mal e, no início do romance, está afundado em uma anomia que afasta até mesmo Myriam, a jovem aluna com quem tem um caso. Autor de elogiadas incursões críticas pela obra do escritor decadentista francês Joris-Karl Huysmans (1848 – 1907), François leciona sem fazer diferença aparente na vida dos alunos, mas goza de prestígio na universidade. Até que o cenário político das eleições de 2022 torna o improvável realidade.

Ao fim do segundo mandato fictício de François Hollande, a França está mergulhada em tal caos institucional que o tradicional PS, o partido do presidente, está fora do segundo turno, e a disputa se polariza entre a favorita Frente Nacional de Marine Le Pen e a fictícia Irmandade Muçulmana, do também fictício candidato Mohammed Ben Abbas.

Para impedir a vitória da ultradireita de Marine Le Pen, os socialistas do PS acertam uma coligação com o partido muçulmano celebrando algumas medidas inesperadas: a restrição do ensino público universal até os 12 anos e a privatização de todas as universidades. A Sorbonne, financiada pela abundante riqueza do novo aliado Arábia Saudita, torna-se uma instituição muçulmana oferecendo educação baseada na religião, e todos os que não partilham da mesma fé são compulsoriamente aposentados, como o próprio François.

Embora seu romance tenha a moldura de um “livro de tese”, Houellebecq é um narrador hábil, com uma prosa envolvente a ponto de urdir a ascensão eleitoral da nova França islâmica sem exigir do leitor grandes voos de imaginação, apenas dando ênfase caricatural a elementos que já estão no ar, como a tensão entre árabes e europeus, a indeterminação ideológica de esquerda e direita e as alianças improváveis para chegar ao poder.

Como todo mundo lembra a esta altura, Submissão chegou às livrarias francesas na primeira semana de janeiro, quase ao mesmo tempo em que terroristas invadiram o jornal humorístico Charlie Hebdo, matando 12 pessoas e deixando 11 feridas no tiroteio. A publicação do romance era o destaque de capa da edição daquela semana do Charlie Hebdo – com Houellebecq retratado em uma caricatura sob a chamada “As Previsões de Houellebecq”. Com a repercussão do atentado, o escritor cancelou a turnê de divulgação do romance e deixou Paris rumo ao interior da França. Curiosamente, o próprio protagonista de Submissão faz o mesmo às vésperas das eleições que consagram a Irmandade Muçulmana: refugia-se em Rocamadour até a poeira e os distúrbios passarem na Capital.

Apesar do barulho provocado por seu suposto retrato do Islã e das circunstância catastróficas de lançamento , a crítica mais ácida de Submissão não se dirige ao mundo árabe, mas ao alvo principal do autor francês desde : a cansada civilização europeia democrática e liberal. Contra a liberdade sem perspectivas do Ocidente, a submissão islâmica diante de Alá (análoga, segundo o autor, ao sentido sexual de submissão) agrada a mais pessoas do que se poderia imaginar na “nova França” de Ben Abbas.

Há algo de preguiçoso, contudo, na forma como o autor lança mão das convenções do gênero de “história alternativa”. Enquanto as alianças políticas vão sendo tecidas, o romance cresce, para decair na eleição da Irmandade Muçulmana. A falta de reação de François é um reflexo do horizonte moral de todo o romance — pode-se perguntar onde estão, no livro, as vozes que preferiram não se submeter. Talvez, com seu niilismo, Houellebecq sequer acredite que elas existam.

Submissão, de Michel Houellebecq

Submissão, de Michel Houellebecq