Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Os documentos de Alejandro Zambra

18 de dezembro de 2015 0
O escritor chileno Alejandro Zambra

O escritor chileno Alejandro Zambra

Texto de Fernanda Grabauska

“Eu não sabia nada do mundo, nada.” É assim, em uma mistura de nostalgia infantil com adulta confissão, que o chileno Alejandro Zambra ensaia fragmentos de uma ficção autoarqueológica em seu primeiro volume de contos, o adequadamente intitulado Meus Documentos (Tradução de Miguel del Castillo. Cosac Naify, 222 páginas, R$ 32,90). Mas se o pronome possessivo do título deixa o leitor com a impressão de que a voz única é a do autor-narrador, esta se rompe já na largada: os documentos não são de uma pessoa apenas, mas de toda uma geração, desejosa de questionar-se sobre seu passado.

Agraciado em 2010 com um lugar entre os 22 melhores escritores da língua espanhola com menos de 35 anos pela revista Granta e consagrado no gênero romance com títulos como Bonsai (2006), A Vida Privada das Árvores (2007) e Formas de Voltar para Casa (2011), Zambra incursiona pelos contos com a mesma prosa sensível para retornar à experiência de crescer no Chile de Pinochet e de ver-se, anos depois, em meio a uma geração cada vez mais atrelada aos computadores.

Ele está longe, contudo, de falar exclusivamente aos chilenos – cada fragmento de memória ecoa, também, naqueles que cresceram nas décadas de 1980 e 90. Em qualquer lugar, foram eles os únicos, talvez, a escutar as teclas das máquinas de
escrever paternas, que rascunharam seus primeiros textos literários em blocos de nota e que, finalmente, formataram-nos
em arquivos para deixá-los, muitas vezes esquecidos, na pasta Meus Documentos do Windows.

Toda essa nostalgia, por vezes humana – como no conto que dá nome ao livro –, por vezes tecnológica _ como em Lembranças de um Computador Pessoal –, é captada por Zambra e descrita com sutileza e ironia. Seja no momento da malograda tentativa do autor (famoso pela velocidade em que emenda um cigarro no outro) de abandonar o tabagismo em Eu Fumava Muito Bem, seja na ambivalência familiar de Verdadeiro ou Falso, a tônica de Meus Documentos é clara e universal: não importa o quanto voltemos ao passado, difícil mesmo é o presente.

Capa do livro Meus Documentos, de Alejandro Zambra

Capa do livro Meus Documentos, de Alejandro Zambra

Envie seu Comentário