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A justiça selvagem das redes

22 de dezembro de 2015 0
Capa de Humilhado, de Jon Ronson

Capa de Humilhado, de Jon Ronson

Ao longo dos séculos, a humilhação pública foi uma punição tradicional no Ocidente, até ser gradativamente abolida, entre outros motivos, por seu caráter desumano. Mas e se estivermos resgatando essa prática no tribunal em massa das redes sociais? Essa é a pergunta que move Humilhado: Como a Era da Internet Mudou o Julgamento Público, livro mais recente do jornalista inglês Jon Ronson (Tradução de Mariana Kohnert, Best Seller, 304 páginas, R$ 39).

Ronson é um autor com uma prosa de tom particular. Em livros como Os Homens que Encaravam as Cabras e O Teste do Psicopata (ambos também lançados no Brasil pela mesma editora), mescla a apuração de uma grande reportagem, o tom confessional de um escritor que apresenta o passo a passo de suas próprias pesquisas e uma pegada humorística que brinca com as dificuldades de pesquisa e com as ideias que o perturbavam no início do projeto.

É algo que se repete parcialmente em Humilhado – talvez pelo tom mais pesado inevitável na narrativa de pessoas arrastadas à vergonha pública, Ronson é mais contido no humor. O autor analisa episódios em que declarações infelizes ou segredos revelados na rede provocaram um aluvião de humilhação pública. Casos como o de Jonah Lehrer, divulgador científico caído em desgraça depois que vieram à tona citações alteradas em alguns de seus livros, ou o da relações-públicas Justine Sacco, que publicou uma piada considerada racista no Twitter quando estava embarcando em uma viagem para a África e cuja vida desmoronou, sem que ela soubesse, durante as 12 horas que o voo durou.

Ronson os entrevista, bem como  a alguns participantes dos frenesis de justiça na rede. Pesquisa a humilhação pública como punição (exposição na praça amarrado  no pelourinho ou na berlinda, chibatadas) e os motivos pelos quais ela foi sendo abandonada. Ao associá-la ao atual tribunal das redes, Ronson faz analogias felizes, mas sua abordagem tende mais à perplexidade do que propriamente à análise, o que pode ser considerado um dos pontos fracos do livro.

Entre as virtudes, contudo, está a honestidade com que o autor também confessa suas próprias dubiedades com relação ao tema. Ele próprio viu com entusiasmo os primeiros episódios de humilhação na rede, dirigidos a grandes redes e corporações: “Hierarquias eram horizontalizadas. Os silenciados ganhavam voz. Era como a democratização da justiça”.

Ronson, contudo, não tarda a cair em si: ninguém parece estar no comando dessa “Justiça”. E sem regras ou leis de execução explícitas, um tuíte pode ser a diferença entre justiça e massacre.

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