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Posts de dezembro 2015

A revolução e os náufragos da história

28 de dezembro de 2015 0
Capa de A Estrada, de Vassili Grossman

Capa de A Estrada, de Vassili Grossman

Dada a energia que a União Soviética empregou ao longo do século 20 para silenciar os escritores “contrarrevolucionários” (senha para “ideologicamente inconvenientes”), o caso de Vassili Grossman (1905 – 1964), um dos autores mais sistematicamente proibidos do regime, não é, infelizmente, incomum. Incomum é o fato de que a melhor parte de sua obra tardia, suprimida, proibida e ameaçada de destruição durante toda a vigência do Império Soviético, tenha de algum modo sobrevivido e alcance hoje ressonância internacional.

Grossman é o autor de Vida e Destino, romance monumental que, inspirado desde o título por Guerra e Paz, de Tolstoi, recompõe a escala humana das dificuldades enfrentadas pelo povo russo durante os embates da II Guerra, em um carrossel de vozes que vão dos campos de prisioneiros nazistas ao front desabastecido, passando pela burocracia desumana a que estão submetidos os cidadãos nas sitiadas cidades. O livro constava como obliterado, mas apareceu e foi publicado em 1980, e se tornou um romance consagrado após a queda do comunismo soviético. Publicado finalmente no Brasil no ano passado, o livro abriu caminho para outros trabalhos do autor, como os contos, ensaios e reportagens reunidos neste recente A Estrada (Tradução de Irineu Franco Perpetuo. Objetiva, 336 páginas, R$ 54,90).

Compilados pelo tradutor inglês da obra, Robert Chandler, e pelo especialista russo Yuri Bit-Yunan, os textos vêm distribuídos em cinco seções, abrangem desde Na Cidade de Berdítchev, publicado em 1934, uma das primeiras obras de Grossman a angariar reconhecimento crítico (merecido, comprova a leitura desa poderosa reflexão sobre o dilema revolução-vida familiar que afligiu parte dos mais fervorosos soviéticos), até cartas de despedida que escreveu para a mãe já morta há muitos anos (fuzilada pelos nazistas em 1941, com outros 12 mil judeus, na Berdítchev natal do autor).

Sobressai nos contos, desde os poucos do início da carreira até os mais tardios, o caráter compassivo da prosa de Grossman. Ao contrário da fascinação com a violência revolucionária que permeia desde um autor plenamente alinhado com os  soviéticos, como Máximo Górki, até uma vítima do regime, como Isaac Bábel, Grossman se preocupa menos com os grandes tornados da História do que com as vidas que adernam à sua passagem. Não é à toa que ele tenha sido um dos primeiros, já em 1944, a retratar o horror de um campo nazista, em O Inferno de Treblinka, incluído neste volume.

A justiça selvagem das redes

22 de dezembro de 2015 0
Capa de Humilhado, de Jon Ronson

Capa de Humilhado, de Jon Ronson

Ao longo dos séculos, a humilhação pública foi uma punição tradicional no Ocidente, até ser gradativamente abolida, entre outros motivos, por seu caráter desumano. Mas e se estivermos resgatando essa prática no tribunal em massa das redes sociais? Essa é a pergunta que move Humilhado: Como a Era da Internet Mudou o Julgamento Público, livro mais recente do jornalista inglês Jon Ronson (Tradução de Mariana Kohnert, Best Seller, 304 páginas, R$ 39).

Ronson é um autor com uma prosa de tom particular. Em livros como Os Homens que Encaravam as Cabras e O Teste do Psicopata (ambos também lançados no Brasil pela mesma editora), mescla a apuração de uma grande reportagem, o tom confessional de um escritor que apresenta o passo a passo de suas próprias pesquisas e uma pegada humorística que brinca com as dificuldades de pesquisa e com as ideias que o perturbavam no início do projeto.

É algo que se repete parcialmente em Humilhado – talvez pelo tom mais pesado inevitável na narrativa de pessoas arrastadas à vergonha pública, Ronson é mais contido no humor. O autor analisa episódios em que declarações infelizes ou segredos revelados na rede provocaram um aluvião de humilhação pública. Casos como o de Jonah Lehrer, divulgador científico caído em desgraça depois que vieram à tona citações alteradas em alguns de seus livros, ou o da relações-públicas Justine Sacco, que publicou uma piada considerada racista no Twitter quando estava embarcando em uma viagem para a África e cuja vida desmoronou, sem que ela soubesse, durante as 12 horas que o voo durou.

Ronson os entrevista, bem como  a alguns participantes dos frenesis de justiça na rede. Pesquisa a humilhação pública como punição (exposição na praça amarrado  no pelourinho ou na berlinda, chibatadas) e os motivos pelos quais ela foi sendo abandonada. Ao associá-la ao atual tribunal das redes, Ronson faz analogias felizes, mas sua abordagem tende mais à perplexidade do que propriamente à análise, o que pode ser considerado um dos pontos fracos do livro.

Entre as virtudes, contudo, está a honestidade com que o autor também confessa suas próprias dubiedades com relação ao tema. Ele próprio viu com entusiasmo os primeiros episódios de humilhação na rede, dirigidos a grandes redes e corporações: “Hierarquias eram horizontalizadas. Os silenciados ganhavam voz. Era como a democratização da justiça”.

Ronson, contudo, não tarda a cair em si: ninguém parece estar no comando dessa “Justiça”. E sem regras ou leis de execução explícitas, um tuíte pode ser a diferença entre justiça e massacre.

Os documentos de Alejandro Zambra

18 de dezembro de 2015 0
O escritor chileno Alejandro Zambra

O escritor chileno Alejandro Zambra

Texto de Fernanda Grabauska

“Eu não sabia nada do mundo, nada.” É assim, em uma mistura de nostalgia infantil com adulta confissão, que o chileno Alejandro Zambra ensaia fragmentos de uma ficção autoarqueológica em seu primeiro volume de contos, o adequadamente intitulado Meus Documentos (Tradução de Miguel del Castillo. Cosac Naify, 222 páginas, R$ 32,90). Mas se o pronome possessivo do título deixa o leitor com a impressão de que a voz única é a do autor-narrador, esta se rompe já na largada: os documentos não são de uma pessoa apenas, mas de toda uma geração, desejosa de questionar-se sobre seu passado.

Agraciado em 2010 com um lugar entre os 22 melhores escritores da língua espanhola com menos de 35 anos pela revista Granta e consagrado no gênero romance com títulos como Bonsai (2006), A Vida Privada das Árvores (2007) e Formas de Voltar para Casa (2011), Zambra incursiona pelos contos com a mesma prosa sensível para retornar à experiência de crescer no Chile de Pinochet e de ver-se, anos depois, em meio a uma geração cada vez mais atrelada aos computadores.

Ele está longe, contudo, de falar exclusivamente aos chilenos – cada fragmento de memória ecoa, também, naqueles que cresceram nas décadas de 1980 e 90. Em qualquer lugar, foram eles os únicos, talvez, a escutar as teclas das máquinas de
escrever paternas, que rascunharam seus primeiros textos literários em blocos de nota e que, finalmente, formataram-nos
em arquivos para deixá-los, muitas vezes esquecidos, na pasta Meus Documentos do Windows.

Toda essa nostalgia, por vezes humana – como no conto que dá nome ao livro –, por vezes tecnológica _ como em Lembranças de um Computador Pessoal –, é captada por Zambra e descrita com sutileza e ironia. Seja no momento da malograda tentativa do autor (famoso pela velocidade em que emenda um cigarro no outro) de abandonar o tabagismo em Eu Fumava Muito Bem, seja na ambivalência familiar de Verdadeiro ou Falso, a tônica de Meus Documentos é clara e universal: não importa o quanto voltemos ao passado, difícil mesmo é o presente.

Capa do livro Meus Documentos, de Alejandro Zambra

Capa do livro Meus Documentos, de Alejandro Zambra

Três perguntas para a tradutora Hilary Kaplan

14 de dezembro de 2015 0
A capa da edição brasileira de "Rilke Shake", à esquerda, e a da tradução à direita.

A capa da edição brasileira de “Rilke Shake”, à esquerda, e a da tradução à direita.

A americana Hilary Kaplan foi indicada esta semana à lista de semifinalistas do prêmio Pen pela sua tradução de Rilke Shake, livro de estreia da poeta pelotense Angélica Freitas, publicado em inglês em fevereiro deste ano pela editora californiana Phoneme Media. Kaplan respondeu, por e-mail, três perguntas sobre o trabalho de tradução do livro:

Você encontrou o livro Rilke Shake em uma viagem a Porto Alegre, não? Poderia contar rapidamente essa história? Fui a Porto Alegre, em 2007, visitar uma amiga e a família dela. Fui à Livraria Cultura buscar poesia brasileira contemporânea. Adorei o título Rilke Shake – foi o único título na estante que me fez rir. Abri o livro e achei poemas que brincavam/jogavam muito com as palavras, escritos em uma voz que eu nunca tinha ouvido em poesia brasileira: divertida, feminina e do sul.

O que a atraiu na poesia de Angélica? Adorei o jogo de palavras nos poemas, os trocadilhos – muito criativos e engraçados. Me atraíram a criação de identidade e a interrogação da identidade, através de um encontro com o presente e o passado da literatura e da cultura brasileiras – e também latino-americana, norte-americana e europeia. Foi uma voz em diálogo (mesmo não propositado) com jovens poetas contemporâneos americanos que eu tinha lido, e por isso ressoou comigo.

Dado o uso que Angélica faz de trocadilhos, aliterações e outros recursos rítmicos, quais foram suas principais dificuldades? Trocadilhos, aliterações e recursos rítmicos são divertidos. Isso é escrita, poesia, invenção e jogo. O prazer e o desafio é achar um equivalente ou uma maneira de dizê-lo em inglês. Aprendi muitas expressões e fatos culturais do sul do Brasil. O livro também tem tantas alusões, óbvias e sutis, à literatura brasileira. Ainda as estou descobrindo.