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A China de ontem e a de amanhã

Dos lugares-comuns a arte garimpa materiais preciosos muitas vezes. Lembrar que a China é uma das sociedades mais autoritárias do planeta e que pode vir a ser a potência econômica do século 21 são dois desses clichês, nos quais dois autores chineses contemporâneos se amparam para criar bons romances agora lançados no Brasil. Em Os Anos de Fartura, sucesso internacional mas não publicado na China, o jornalista Chan Koonchung cria uma distopia cujos elementos mais perturbadores vêm da própria realidade. E, com Crônica de um Vendedor de Sangue, o escritor Yu Hua - autor de outros dois romances sobre o passado chinês, Viver e Irmãos - tece uma evocação histórica bela e dolorosa em iguais medidas.

Na comparação entre ambas as obras,Yu Hua é um romancista com uma técnica mais apurada e um domínio muito maior da arte narrativa, embora a imaginação de Chan Koonchung seja surpreendente. Koonchung imagina a China de um futuro bem próximo, o do ano de 2013. No mundo reinventado em Os Anos de Fartura, a economia ocidental não se recupera da crise dos valores mobiliários ocorrida nos Estados Unidos em 2008 e vai à falência em uma segunda crise três anos depois. Imediatamente, em melhores condições econômicas, a China promove uma abertura de capital controlada pelo Partido Comunista, libera a propriedade privada e logo megacorporações chinesas dominam o mercado econômico internacional – ao ponto de uma companhia local comprar a rede internacional de cafés Starbucks, entre apenas um dos exemplos.

O paralelo com 1984 e Admirável Mundo Novo, duas das distopias fundamentais da literatura, não é gratuito. Num mundo em que todos parecem felizes com a prosperidade econômica, após 60 anos de planos revolucionários desastrosos, ninguém parece ligar para o fato de que o governo ainda é uma ditadura de partido único – e poucos parecem lembrar de que um mês inteiro da história chinesa parece ter sido suprimido dos registros, o fevereiro de 2011 que separa a quebradeira internacional e a ascensão econômica do Império do Meio.

Embora seja confuso em termos formais (suas trocas de pessoas narrativas não parecem servir de fato à história; personagens e situações promissores são abandonados; os capítulos finais que revelam alguns dos mistérios por vezes parecem tediosos relatórios de comércio exterior, destoantes da dinâmica da primeira metade), o romance de Koonchung tem, entre suas qualidades, a forma como interliga o que às vezes parece uma trama fantasiosa com o que de fato a China vem realizando para manter seu controle sobre povo, instituições e tecnologias. Na boa edição da L&PM, contudo, este leitor em particular sentiu a estranheza da opção do sistema escolhido para a transliteração do mandarim. Tá certo que Mao Zedong e Teng Xiao Ping, com seus nomes transliterados ao estilo Pinyin, já são formas correntes em vários livros que li nos últimos anos, deixando para trás a antiga transliteração Wade-Giles. Mas que a capital do país vire BEIJING me pareceu um pouco demais.

Mais sutil e minimalista, Crônica de um Vendedor de Sangue, de Yu Hua, também se assenta sobre uma base real: 30 anos de história da China comandada por Mao, mostrados por meio do microcosmo de uma família residente em uma cidade provinciana. Xu Sanguan, o protagonista, é um homem testemunha e vítima do processo histórico da China maoísta. Ele trabalha em uma fábrica de seda no interior, mais tarde transformada em siderúrgica para apoiar o desastroso "Grande Salto para Frente" do supremo timoneiro. Sofre com a fome provocada pelas reformas econômicas e rurais do governo, e anos depois sua família passa a ser alvo dos carrascos voluntários da Revolução Cultural.

Em intervalos, Xu Sanguan se vê coagido pelas circunstâncias a vender sangue para um dos bancos de sangue de fundo de quintal espalhados pelo país, coordenado por um funcionário corrupto - e que ainda assim paga o equivalente a meses de trabalho duro na fábrica ou na lavoura. Usando como mote o mercado clandestino de sangue, situação real que provocou a contaminação de aldeias inteiras devido às condições pouco higiênicas em que as doações eram tomadas, Yu Hua lança mão do sangue e de seus significados simbólicos para traçar por meio da família Xu e de seu desespero uma história crítica e dolorosa sobre vidas comuns arrastadas pelo autoritarismo.

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A Bibiana do Erico Verissimo - e a do filme...

No começo do capítulo Um Certo Capitão Rodrigo, de O Continente, primeira parte da saga O Tempo e o Vento, Erico Verissimo assim descreve a jovem Bibiana Terra (que, naquela altura, o leitor já conhecia como a avó-matriarca da família Terra Cambará sitiada no sobrado na praça central de Santa Fé durante a Revolução Federalista, em 1895):

Bibiana tinha um rosto redondo, olhos oblíquos e uma boca carnuda em que o lábio inferior era mais espesso que o superior. Havia em seus olhos, bem como na voz, qualquer coisa de noturno e aveludado. Os forasteiros que chegavam a Santa Fé e deitavam os olhos nela, ao saberem-na ainda solteira, exclamavam: "Mas que é que a rapaziada desta terra está fazendo?" E então ouviam histórias... Bento Amaral, filho do coronel Ricardo Amaral Neto, senhor dos melhores e mais vastos campos dos arredores do povoado, andava apaixonado pela menina, tinha-se declarado mais de uma vez, mas a moça não queria saber dele.
– O herdeiro do velho Amaral? – estranhavam os forasteiros.
– Sim senhor.
– Mas o moço é aleijado?
– Qual nada! É até um rapagão mui guapo.
Ninguém conseguia compreender. As outras moças invejavam Bibiana Terra e não entendiam como era que ela, não sendo rica, rejeitava o melhor partido de Santa Fé, aquele moço bonitão a quem elas de muito bom grado diriam sim no momento em que ele se declarasse.
Mas quem ficava mais perplexo que qualquer outra pessoa era o próprio Pedro Terra, que não atinava com uma explicação para a atitude da filha. Ele não morria de amores pelos Amarais. Tinha até queixas do velho Ricardo, que lhe tirara as terras e se recusara a ajudá-lo quando o trigo fora águas abaixo. Além disso, achava os Amarais prepotentes, vaidosos, gananciosos, e também sabia que Ricardo não fazia muito gosto no casamento do filho com Bibiana, pois queria que o rapaz casasse com alguma moça rica de Rio Grande ou Porto Alegre. Por todas essas coisas Pedro Terra não insistia com a filha para que aceitasse Bento Amaral. Mas mesmo assim não compreendia e ficava vagamente inquieto à idéia de morrer sem ver a filha casada com um homem de bem.
Fosse como fosse, os Amarais eram por assim dizer os donos de Santa Fé. E Bento visitava os Terras com alguma freqüência, tratava-os bem, dava presentes a Juvenal, a Arminda e principalmente a Bibiana, que os recebia sem nenhuma alegria, mal murmurando uma palavra de agradecimento, quase sempre sem olhar para o pretendente.
Pedro Terra às vezes inquietava-se pensando no gênio da filha. Era voluntariosa, duma teimosia nunca vista, e dum orgulho tão grande que era capaz de morrer de fome e de sede só para não pedir favores aos outros. No entanto, quem olhasse para ela julgaria, pelo seu suave aspecto exterior, estar diante da criatura mais meiga e submissa do mundo.

Não tive como não ir atrás dessa descrição para compará-la com a foto abaixo (de um ensaio para a revista Trip), já que foi recentemente anunciado que essa Bibiana, a Bibiana jovem que conhece o Capitão Rodrigo e se casa com ele, será vivida pela atriz e cantora Marjorie Estiano no longa que o diretor Jayme Monjardim prepara adaptando a saga - sim, parece que é a saga toda, mas não tenho informações mais detalhadas. Consultem a página oficial da produção.

"Bibiana, minha prenda, estás aquecendo água pro mate?" Foto: Trip/divulgação

A Bibiana matriarca do sobrado será vivida por Fernanda Montenegro. O interessante é que o Capitão Rodrigo nesta versão será Thiago Lacerda. E, embora a figura de Tarcísio Meira tenha se cristalizado como capitão devido ao sucesso da minissérie que anda até reprisando por aí, de acordo com o que me informaram, é possível que o capitão do Erico tivesse mais a ver com o Lacerda mesmo (a não ser a altura. Rodrigo é descrito como um homem de estatura média). O Capitão, na descrição do Erico no romance, era assim:

Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia andar lá pelo meio da casa dos trinta, montava um alazão, trazia bombachas claras, botas com chilenas de prata e o busto musculoso apertado num dólmã militar azul, com gola vermelha e botões de metal. Tinha um violão a tiracolo; sua espada, apresilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira

Prosseguindo na leitura, vemos Rodrigo entrar na birosca do Nicolau e quase arranjar briga com o irmão de Bibiana, Juvenal Terra devido a uma bravata que tinha a intenção de ser engraçada. Apaziguados os ânimos, ambos sentam-se a uma mesa para um trago. Rodrigo pede uma linguiça, que na época ainda devia ter trema, acredito. E é pelos olhos de Pedro Terra a partir daí que vemos mais um pouco da figura de Rodrigo:

Só o jeito de olhar é que não era lá muito agradável: havia naqueles olhos muito atrevimento, muita prosápia e assim um ar de superioridade. Depois, Juvenal sempre desconfiara de homem de olho azul... No entanto, podia jurar que nunca vira cara de macho mais insinuante. Os cabelos do capitão eram meio ondulados e dum castanho escuro com uns lampejos assim como de fundo de tacho ao sol. O nariz era reto e fino, os beiços dum vermelho úmido, meio indecente, e o queixo voluntarioso.

Vejamos como isso se traduzirá no filme, então.

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PS:

– Vem cá, essa notícia de que a Marjorie Estiano vai ser a Bibiana não é da semana passada?

– É, é sim.

– Então pra que tocar neste assunto aqui no blog agora?

– Porque era uma boa oportunidade de colocar uma foto insinuante de uma garota bonita. Não é sempre que se consegue isso, mas todas as vezes que conseguimos, a audiência subiu à estratosfera. Por que não, então?

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Precisamos falar sobre maternidade

Tilda Swinton na adaptação cinematográfica do livro (Foto: Divulgação)

NOTA DO EDITOR DESTE BLOGUE: Com a proximidade da estreia no Brasil do filme Precisamos Falar Sobre o Kevin, adaptação cinematográfica estrelada por Tilda Swinton do romance que chamou pela primeira vez atenção internacional para o nome da escritora Lionel Shriver, achei apropriado republicar aqui no blog crítica do livro escrita pelo meu amigo Cauê Fonseca e veiculada na versão impressa do jornal por ocasião do lançamento do livro, em 2007. Aproveitem. Ah, sim, e o livro já tem quatro anos, então se você ainda não leu e sofre da doença infantil e tatibitate do spoiler, desista agora ou não se manifeste. Abraço.

Texto de Cauê Fonseca

O ditado de que não se julga um livro pela capa nunca esteve tão errado. A figura macabra de um adolescente com cabeça de felino é retrato fiel e hipnotizante do personagem central de Precisamos Falar sobre o Kevin (Intrínseca, 464 páginas). A ficção de Lionel Shriver gira em torno de uma chacina cada vez mais comum em escolas americanas, mas com a lucidez que falta aos noticiários ao analisar o tema.

A abordagem sensata de um assunto tão espinhoso — a ponto de o livro ter sido recusado por 25 editoras — vem por cartas da narradora, Eva Khatchadourian, a seu ex-marido, Franklin, em meio ao dia-a-dia de quem tenta reconstruir a vida das cinzas. Esporadicamente, Eva quebra a rotina com visitas à penitenciária juvenil onde seu filho de 16 anos, Kevin, cumpre pena após assassinar sete colegas, uma professora e um funcionário de sua escola.

Como toda a sociedade americana, Eva é tomada pela ânsia de encontrar porquês e culpados após a barbárie, e é com a honestidade de quem não tem nada a perder que ela faz uma minuciosa revisão de 15 anos convivendo com aquele "país  estrangeiro em casa", que viria a se tornar um assassino. Enquanto o pai via o garoto como a resposta para "a grande questão", como o sentido da vida, Eva, desde o momento em que o bebê rejeita seu seio cheio de leite, percebe que ele nunca quis responder a questão alguma. Começa aí um duelo de rejeição entre mãe e filho, permeado pela preocupação de Eva com a personalidade cruel de Kevin.

Somente entre 1997 e 1998, houve 42 assassinatos em escolas americanas. De forma que seria impossível dar verossimilhança a  um livro sobre o tema sem citar casos reais. Eva relembra desde o primeiro deles, cometido na Califórnia, em 1979, por Brenda Spencer, até o célebre massacre de Columbine, em 20 de abril de 1999. Na cronologia do livro, Columbine acontece apenas 12 dias após os crimes cometidos por Kevin, que classifica os assassinos reais Eric Harris e Dylan Klebold como "trouxas que acabam com a reputação dos massacres". A mãe identifica certo ressentimento pelo filho ter tido
o número de baixas superado pela dupla, que matou 15 pessoas.

O livro decepciona quem busca um relato sobre o perigo da ausência dos pais na criação dos filhos, dos videogames violentos, do acesso a armas de fogo e do bullying — palavra da moda que define a secular intimidação entre colegas de escola. Kevin — com seus traços belos, roupas curtas e trejeitos dissimulados frente aos mimos do pai — é um assassino mais complexo do que um mero adolescente excluído, de forma que todos os clichês sobre o tema caem por terra ao longo da narrativa. Olhando sobretudo para si mesma, Eva tenta responder a questões muito mais complexas: é possível uma pessoa nascer genuinamente má? Uma mãe pode odiar um filho desde o seu nascimento?

Mas não se trata de um bom livro de respostas. Até mesmo as explicações que Eva consegue tatear ao longo da narrativa se esvaem no capítulo derradeiro. O final de Precisamos Falar sobre o Kevin é o melhor exemplo de sua tônica: uma obra brilhantemente escrita que, quanto menos responde às suas angústias, mais fascinante fica.

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Guerra e Paz – o primeiro contato


Prólogo

Como foi avisado ontem no Facebook do Mundo Livro, o blog estava com problemas na caixa de comentários. Sinto muito se você foi um dos que tentou comentar e não conseguiu. Agora parece que as coisas estão resolvidas, então, ao fim do post, todos comentando, né?

Nariz de cera

Decidimos, Carlos André e eu em uma conversa de corredor, que o dia de posts da maratona seria sexta-feira, e cá estamos. A boa notícia é que sim, comecei a leitura, mas antes de contar a quantas andamos, vou me desculpando.

É que escolhi certamente a pior semana do ano para reparar o parquê do meu apê, depois de uma infiltração do vizinho de cima. Hoje estou voltando pra casa de mala, cuia e gata – a Panda – para casa. Como gatos não curtem muito sair de casa, vocês podem imaginar que a leitura não foi a das mais privilegiadas nos últimos dias. Ainda assim, comemoro a chegada a página 65, o que significa que li fenomenais 4 capítulos. Mas, adivinha, não falarei sobre isso ainda.

OK, o post

Vou dar uma palhinha do que é a tradução do Rubens Figueiredo. Já na apresentação ele comenta que, em muitos trechos, o Guerra e Paz é escrito parte em russo e parte em francês, forma de "mostrar com que Rússia já era um país invadido antes mesmo da chegada das tropas de Napoleão." Também na apresentação, o tradutor explica que o propósito foi preservar, o máximo possível, os traços linguísticos relevantes para o autor, entre repetições de palavras, expressões e estruturas sintáticas.

O que mais fica evidente no começo do livro é a mistura que Tolstói faz de francês e russo na mesma frase. Como o francês nessa edição fica no original (seguindo inclusive a pontuação original), o desafio do começo da leitura é por onde começar: eu, que não entendo nada de francês, fico hipnotizada por tentar entender antes da tradução, e depois salto lá para o rodapé para, de fato, ler, o que muda bastante o ritmo da coisa. Me parece, inclusive, que são duas leituras diferentes, mas ainda não sei como vou seguir.

Devo comprar um dicionário de francês?

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Pamuk e os moldes do romance

Orhan Pamuk durante passagem por Porto Alegre, em 05/12/2011. Foto: Ricardo Duarte, ZH

Contrariando a sisudez que a palavra " Nobel" costuma decalcar, como um rótulo, em seus laureados, o turco Orhan Pamuk, vencedor do prêmio em 2006, se apresenta em seu novo livro como uma das mais agradáveis companhias para discutir literatura.  Ou melhor, romances, tema de seu mais recente livro a sair no Brasil,  O Romancista Ingênuo e o Sentimental (Tradução de Hildegard Feist. Companhia das Letras, 152 páginas. R$ 34).

O livro compila seis conferências proferidas por Pamuk – autor de Meu Nome É Vermelho e Neve – no ciclo de palestras Norton, da universidade de Harvard. A cada ano, a instituição convida um artista ou pensador expoente em seu campo para ministrar seis conferências sobre tema à escolha do convidado. Tal projeto já deu origem a outros ótimos livros sobre arte narrativa, como Licões dos Mestres, de George Steiner; Seis Propostas para o Próximo Milênio, de Italo Calvino; ou Seis Passeios pelos Bosques da Ficção, de Umberto Eco. O livro de Pamuk, para escapar do óbvio "Seis Considerações sobre o Romance", ou coisa do gênero, empresta o título de um ensaio de Friedrich Schiller, que dividia os poetas de seu século 18 entre ingênuos ( que escrevem de modo espontâneo, sem considerações sobre o processo - Goethe, no caso da divisão proposta por Schiller) e os sentimentais (reflexivos,  muito cônscios dos passos necessários para a literatura enquanto construção e artifício - como o próprio Schiller).

O Romancista Ingênuo e o Sentimental é dividido em seis conferências sobre aspectos do romance - e sobre as características que fizeram do gênero um fenômeno avassalador, capaz de assumir o protagonismo em qualquer ambiente literário para o qual foi transplantado.  Pamuk fala do que forma um romance, de como a imersão almejada ( e por vezes conseguida) por grandes romancistas na realidade representada em suas obras é análoga à apreensão visual de uma pintura.  O quanto elementos da realidade concreta transplantados para a narrativa romanesca sustentam a ilusão de verdade no leitor que se entrega à leitura.

Pamuk escreve com um ponto de vista subjetivo: é ele próprio um romancista de uma tradição tardia do romance, desenvolvido num país em que se mesclam retalhos de Ocidente e Oriente.  Algumas das intuições e leituras oferecidas nas seis conferências depuram temas já tratados nos ensaios reunidos em um livro anterior, Outras Cores (2010). Na abertura da quarta conferência, por exemplo, o Nobel turco escreve a respeito de Dostoiévski:

"Quando lemos os romances de Dostoiévski, às vezes achamos que deparamos com alguma coisa surpreendentemente profunda - que alcançamos um considerável conhecimento da vida, das pessoas e, sobretudo, do nosso próprio eu. Esse conhecimento parece tão familiar e, ao mesmo tempo tão extraordinário que por vezes nos enche de medo".

Essa afirmação que retoma o que Pamuk já dissera sobre o mestre russo nos ensaios de Outras Cores sobre Notas do Subterrâneo e Os Demônios.

Embora Pamuk apresente as mecânicas do romance do ponto de vista de um romancista praticante, são seus insights de leitor o ponto forte do livro.  Para ele, o que diferencia a prosa romanesca de outras experiências narrativas como a poesia épica é que o romance tem um " centro" oculto e impreciso, que reorganiza sob sua gravidade todos os elementos de que o livro é composto - descrições, frases, personagens, objetos.  Esse centro, por vezes difícil de capturar, é" uma profunda opinião ou insight sobre a vida, um ponto de mistério, real ou imaginado, profundamente entranhado".  Pamuk é um romancista que, ao refletir sobre seu ofício, não esconde jamais a paixão e o maravilhamento sobre aquilo que a forma dominante da literatura dos últimos três séculos é capaz de fazer.

Sentimental na forma, mas ingênuo na paixão.

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Promessa para 2012 – Guerra e Paz

Eu não sei do Natal de vocês, mas o meu esse ano veio com o desafio. Um amigo me deu essa beleza de edição da Cosac Naify para Guerra e Paz, com tradução direta do russo, capa aveludada, papel especial e mimimi. Ainda não sabe qual é? Saca só aqui.

Pois com essa beleza de 2.536 páginas em mãos, é óbvio que terei de encarar Tolstói. Como promessas de Ano-Novo não são lá as mais cumpridas pelos devotos, chamo vocês, leitores, a acompanharem a minha volta a este blog (recebi ameaças do glorioso editor caso não voltasse...) com a série Promessas para 2012 – Guerra e Paz.

Com inspiração descarada da primeira edição Maratona tijolão literário neste blog, post semanais com o andamento da leitura – ou com firulas da edição, se algo não avançar tão bem quanto esperado – estarão aqui. Sugestões, dicas ou apoio moral, vamos pela caixa de comentários, né?

Me desejem sorte.

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Pynchon e o noir psicodélico

O hoje septuagenário Thomas Pynchon, imaginado envelhecido a partir de uma de suas poucas fotos conhecidas. Ilustração de Renato Nascimento

As coisas parecem um pouco diferentes agora. O escritor Thomas Pynchon está mais próximo, embora ainda não se deixe fotografar - a ilustração deste post é baseada numa foto dos anos 1950. Foi ele próprio quem narrou um vídeo promocional falando de seu mais novo romance, Vício Inerente, postado no YouTube pela sua editora. Mas é bom não se entusiasmar: Pynchon continua o escritor mais recluso da contemporaneidade, mesmo completando uma década produtiva, neste começo de século. Vício Inerente, que chegou às livrarias brasileiras há dois meses, é considerado modelo light da literatura pynchoniana: tem "apenas" 464 páginas. O anterior, Against the Day, passa de mil. Foi lançado em 2006 e ainda cria profundas dores de cabeça para a tradução. Mas também deve ser publicado no Brasil até o final deste ano.

Vício Inerente é, sobretudo, um romance policial, um noir no melhor estilo Raymond Chandler. Saem de cena o detetive Phillip Marlowe e seus drinks, entram Doc Sportello e seu consumo descomunal de marijuana. Um detetive baixinho e que, mesmo branco, cultiva uma caprichada cabeleira afro. Seu escritório, não muito longe da areia da praia, tem um LSD gravado na porta - não a droga sintetizada, mas as iniciais de "Localizamos, Seguimos e Detectamos". Ao contrário dos ternos  amarrotados de Marlowe, seu baratinado alter ego veste roupas coloridas e sandálias mexicanas. Isso mesmo: Sportello é um detetive particular riponga. Volta e meia está em uma lanchonete de praia, interagindo com a fauna da orla californiana. E sofre nas mãos de um policial pentelho que coleciona cercas de arame farpado, chamado Pé-Grande Bjornsen.

A trama é noir clássico. Shasta Fay Hepworth, uma ex-namorada de Doc, quer que o detetive a ajude a desbaratar uma possível tentativa de sequestro do seu atual amante, o barão do mercado imobiliário Mickey Wolfmann. Acusa a mulher de Mickey e o amante dela, Riggs Warbling, de planejarem o sequestro do magnata. Pouco depois, um ex-presidiário, Tariq Khalil, o contrata para encontrar um dos guarda-costas do milionário, Glen Charlock, que lhe devia dinheiro desde o tempo que passaram juntos na prisão. Wolfmann some de fato — e é só o início de uma trama envolvendo corrupção policial, contrabando, surfistas, traficantes e a maligna entidade Presa Dourada.

O que se esconde por baixo da superfície é que em Gordita Beach, entre março e maio de 1970 – tempo em que se desenrola Vício Inerente —, pirar era até uma maneira de descompressão. Richard Nixon era o presidente norte-americano, Ronald Reagan o governador da Califórnia, e a euforia hippie havia sido consumida por Charles Manson e sua "família". Os assassinatos cometidos por Manson e companhia — as vítimas foram Sharon Tate e amigos, além do casal LaBianca — pairam como uma certa sombra pelo romance.

A quantidade de referências pop e à época é estonteante. De Beach Boys e da melhor surf music a Dion, passando pelos Distúrbios de Watts, A Ilha dos Birutas, o Leviatã de Hobbes, o Van Helsing de Drácula, quem não tem uma sólida "erudição" em cultura pop vai passar por cima de dezenas de citações saborosas. É arriscado mexer nesse mundo tão rico e tão contraditório se você não for Tom Wolfe, Hunter S. Thompson, ou outro talento literário dos anos 1960. Mas quem conhece a obra pregressa do mestre Pynchon, claro, jamais duvidaria que sua incursão pelo ambiente "paz e amor" daqueles tempos não deixaria a desejar.

Ele se divertiu com ela, e os leitores também vão se divertir.

Texto de Renê Müller

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O cavalo de guerra deles e o nosso

O ator Jeremy Irvine e o equino protagonista de Cavalo de Guerra

Lendo a matéria de hoje no Segundo Caderno sobre o novo filme de Steven Spielberg, Cavalo de Guerra, não pude deixar de me lembrar de um conto de Simões Lopes Neto. O filme de Spielberg é a retomada do cineasta de ET e da série Indiana Jones a um tipo de produção que, se fosse um gênero próprio, provavelmente seria chamado "filme de Steven Spielberg": uma fábula moral aventuresca que defende valores edificantes como amizade, lealdade, a coragem de fazer o que é preciso e inocência. Baseada em um livro de Michael Morpurgo (que ganhou edição nacional este ano pela WMF), a produção Cavalo de Guerra conta uma história de amizade entre um jovem e um cavalo, que, comprado para o trabalho em uma fazenda, revela-se pouco apto para a função e termina enviado para o exército durante a I Guerra Mundial. O garoto, que havia se afeiçoado ao cavalo, parte em busca do amigo – provavelmente com sucesso, já que se trata de um filme de Spielberg.

A história, no entanto, me lembrou foi de uma abordagem menos "bonita" e mais melancólica e realista de um mote semelhante, o conto Batendo Orelha, do mestre universal e regionalista Simões Lopes Neto, parte do formidável conjunto dos Contos Gauchescos. Notem só:

BATENDO ORELHA1
Simões Lopes Neto

Nasceu o potrilho, lindo e gordo, filho de égua boa leiteira, crioula de campo de lei.

O guri era mimoso, dormindo em cama limpa e comendo em mesa farta.

Já de sobreano2 fizeram uma recolhida grande, sentaram-lhe uns pealos, apertaram-no pelas orelhas e pela cola e a marca em brasa chiou-lhe na picanha.

Andaria nos oito anos quando meteram-lhe nas mãos a cartilha das letras e o mestre-régio começou a indicar-lhe as unhas, de palmatoadas.

O potrilho couceou, na marca. O menino meteu fios de cabelo nos olhos da santa-luzia...

Em potranco acompanhava a manada e retouçava com as potrancas, sem mal nenhum.

O rapazinho rezava o terço e brincava de esconder com as meninas… o que custou-lhe uma sapeca de vara de marmeleiro.

Quando o potrilho foi-se enfeitando para repontar, o pastor velho meteu-lhe os cascos e mais, a dente, botou-o campo fora: fosse rufiar lá longe!...

O gurizote, já taludo, quis passar-se de mais com uma prima...; o tio deu-lhe um chá-de-casca-de-vaca, que saiu cinza e fedeu a rato!...

O potro andava corrido, farejando... Mas nem uma petiça arrastadeira d'água e poronguda, achou, para consolo da vida. Té que o caparam.

O mocito, que era pimpão, foi mandado incorporar. Sentaram-lhe a farda no lombo.

Mal sarou da ferida o potro foi pegado: corcoveou, berrou; quebraram-lhe a boca a tirões, dividiram-lhe a barriga com a cincha3; quis planchar-se, e lanharam-lhe as virilhas a rebenque e as paletas a roseta de espora. Tiraram-lhe as cócegas... Ficou redomão4.

O recruta marcou passo, horas, pra aprender; entrou na forma; agüentou descomposturas; deu umas bofetadas num cabo e gurniu solitária e guarda dobrada, por quinze dias. Cortaram-lhe os cabelos à escovinha e ficou apontado. Era o faxineiro do esquadrão.

Houve uns apuros de precisão… O rocim foi vendido em lote, para o regimento.

Tocou a reunir: era uma ordem de marcha, urgente. O faxineiro recebeu lança, espadão e tercerola5.

Quando a cavalhada chegou, o primeiro serviço dos sargentos foi assinalar os novos; era simples e ligeiro: um talho de faca na orelha, rachando-a. Bagual assim, virava reiúno6.

Quando tocou o bota-sela, o faxineiro estava na porteira, de buçal na mão, esperando a vez. O laçador laçava, chamava a praça e esta enfrenava... e cada um roia o osso que lhe tocava.

- Chê! Enfrena!...

Foi o reiúno que caiu pro recruta.

Aí se juntaram os dois parecidos, o bicho e o homem. E a sorte levou os dois, de parceria, pelo tempo adiante. Curtiram fome, juntos, cada um, do seu comer, E sede. E frio. E cansaço, mataduras e manqueiras; cheiros de pólvora e respingos de sangue, barulho de músicas, tronar grosso e pipoquear, nas guerrilhas.

E de saúde, assim, assim... Um teve sarnagem, o outro apanhou muquiranas; se um batia a mutuca, o outro caçava as pulgas.

Quando, no verão, o reiúno pelechava, também o faxineiro deixava de sofrer dores de dentes.

Passados anos o mancarrão já nem engordava mais, e todo ovado estava. O fiscal do regimento, sem uma palavra de - Deus te pague - mandou vendê-lo em leilão, como um cisco da estrebaria. Um carroceiro comprou-o, por patacão e meio, com as ferraduras.

Passados anos o praça aquele teve baixa, por incapaz, com o bofe em petição de miséria; e saiu da fileira sem mais família e sem saber oficio. Saiu com cinco patacas, de resto do soldo, e sem o capote. Foi então ser carregador de esquina.

O reiúno apanhava do carroceiro, como boi ladrão!

O carregador levava dos fregueses descompostura, de criar bicho!

O reiúno deu em empacar.

O carregador pegou a traguear.

O carroceiro um dia, furioso, meteu o cabo do relho entre as orelhas do empacador e... matou-o.

A policia uma noite prendeu o borrachão, que resistiu, entonado; apanhou estouros… e foi para o hospital, golfando sangue; e esticou o molambo.

O engraçado é que há gente que se julga muito superior aos reiúnos; e sabe lá quanto reiúno inveja a sorte da gente...

Glossário:

1 – Expressão usada para designar duas coisas muito parecidas.

2 – Animal com mais de um ano de idade e menos de dois.

3 – Peça dos arreios usada para firmar o lombilho sobre o animal.

4 – Cavalo novo que está sendo domado.

5 – Arma de fogo usada em infantaria, um terço mais curta que a carabina, daí o nome.

6 – Pertencente ao Estado. Na origem, a palavra designa propriedade do "rei", mas foi largamente usada no Rio Grande do Sul para designar propriedade de outras instituições do Estado

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Descoberta do fim do ano

Mural de Diego Rivera que mostra Mussollini abençoado pelo papa pró-fascista Pio XI. Divulgação, L&PM

O escândalo dos abusos sexuais cometidos por padres tem levantado essas questões com maior evidência, mas existem outras violações e outros problemas causados pelos altos sacerdotes políticos que, por algum motivo teológico, incentivam o ódio, a violência ou a discriminação dentro de suas comunidades. A liberdade de religião não dá o direito a pregar o ódio, como descobriram alguns mulás radicais que foram condenados em Old Bailey, o tribunal judicial geral de Londres. Em 2009 a Grã-Bretanha barrou a entrada de vários evangelistas dos Estados Unidos e um apresentador de rádio texano no país por receio de que eles pudessem promover a homofobia; em 2010 um fanático religioso foi preso no centro de uma cidade por ter manifestado aos policiais locais suas ideias de que o homossexualismo era errado. Sensatamente, as autoridades decidiram não processar esse indivíduo, que era sem dúvida apenas um maluco qualquer. No entanto, esse não é o caso do papa Bento XVI. Caso volte a professar em público sua visão já muitoas vezes exposta de que o homossexualismo é "perverso" e de que todos os os homossexuais são pessoas com problemas de personalidade, ele estará fazendo pleno uso de seu cargo espiritual para demonizar uma camada da população protegida  pela igualdade perante a lei. Há sempre, é claro, um limite a ser respeitado em favor da liberdade de expressão, embora o poder das condenações papais seja muito maior do que o dos mulás e dos evangelistas norte-americanos banidos, mesmo (especialmente, na verdade) quando expressadas em uma linguagem decente para suas congregações religiosas. Caso o papa Bento XVI ameaçasse professar com força total suas visões, que já foram acusadas de incitar o espancamento de homossexuais no Brasil e em outros países católicos, o Ministério do Interior britânico também não poderia, sendo coerente quanto às suas decisões em outros casos, permitir sua entrada no país. No entanto, seria inconcebível  para o governo do Reino Unido barrar a entrada do papa. Pelo contrário, ele foi convidado para uma "visita oficial", pela qual os contribuintes britânicos ainda serão obrigados a pagar metade da conta, estimada hoje em mais de US$ 32 milhões – o que não poderia acontecer caso o papa não fosse reconhecido como um chefe de Estado. Conforme previsto, ele deverá descer em Edimburgo de seu avião particular, resplandescente com seu manto de "chefe de Estado" ("um manto de cetim vermelho com bordas de pele por cima de um roquete, e uma estola papal bordada"), para uma reunião com sua  colega chefe de Estado, a rainha Elizabeth II (que deverá estar de preto, já que apenas rainhas católicas podem receber o papa de branco). Ele então voltará a aparecer no dia seguinte com seu modesto manto branco de "chefe da Igreja" para conduzir uma missa pública. Nesse segundo caso suas vestes merecem respeito, mas no primeiro é importante deixar claro que é um exagero.

Comecei apenas ontem a ler o exemplar de O Papa é Culpado? (Tradução de Otávio Albuquerque. L&PM, 280 páginas, R$ 44), livro de Geoffrey Robertson que havia sido enviado para mim pela editora , nas minhas férias. Robertson é um dos mais renomados juristas britânicos e discute longamente em seu livro os pontos técnicos que podem transformar ou não Bento XVI ou qualquer um que vier a ocupar o trono papal em responsável direto ou indireto pela prática e acobertamento de violações de direitos humanos. O questionamento principal levantado por Robertson é justamente o status de nação independente concedido ao Vaticano – que, como ele lembra muito bem, é resultado de um acordo assinado nos anos 1920 com... Benito Mussollini, é aquele mesmo.

Além de um tratamento absolutamente incomum não compartilhado com religião alguma no planeta, o status de Estado para a sede da Igreja Católica tem permitido na última década manobras legais de acobertamento dos escândalos envolvendo padres católicos acusados de pedofilia em suas paróquias, e é esse o foco principal do livro. Ainda não li todo o livro, deixo isso aqui bem claro, mas Robertson lista numerosos casos de denúncias e queixas de pedofilia levadas à Igreja Católica ao longo de 50 anos e acobertadas ou ignoradas pelas dioceses seguindo uma política oficial do Vaticano de resolver tais questões no âmbito interno da igreja – o que, lembra Robertson claramente, contraria dispositivos que são a base do Estado laico: a liberdade religiosa não autoriza ninguém a cometer crimes. Para piorar, a forma como a igreja muitas vezes trata de tais assuntos é praticamente uma garantia de impunidade: vários padres acusados de pedofilia em paróquias americanas foram realocados para outras comunidades em Roma, na América Latina e, principalmente, na África, sem menção alguma a sua folha corrida anterior, praticamente garantindo campo livre para a reincidência em uma nova paróquia desinformada.

Os argumentos de Robertson  referem-se muitas vezes a casos e leis específicas da common law aplicada na Grã-Bretanha, mas se estendem muitas vezes para questões gerais de direito e Justiça válidas para qualquer nação democrática. Afinal, como ele mesmo escreve em determinado trecho: "todas as  instituições que oferecem ensino ou orientação a jovens devem estar alertas para o perigo de que adultos abusem da confiança a eles conferida. Uma organização religiosa que impõe o celibato aos seus sacerdotes e concede ao clero o poder de dar orientação espiritual e amplas oportunidades para influencias crianças deveria estar particularmente alerta".

O livro além de tudo, e talvez involuntariamente, é um libelo contundente contra o argumento sempre apresentado pelos críticos do ateísmo de que só pode existir um sistema de valores morais dentro de um sistema de fé religiosa. Como demonstra Robertson, assim como existe uma ética e uma moral laica humanista, há práticas religiosas de duvidosa qualificação moral...

Boa leitura para este fim de ano e início do próximo.

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Brincadeira de Forte Apache

Não se julga livro pela capa, todo mundo sabe, este resenhista também sabe, então vamos tirar esta questão do caminho o mais cedo possível. Mas literatura também é produção de signos, e, intencionalmente ou não, boas pistas das qualidades de Habitante Irreal, romance do escritor gaúcho Paulo Scott, encontram-se na capa da belíssima edição lançada mês passado pelo selo Alfaguara, da Objetiva. Sobre um fundo branco indistinto, avulta-se um boneco sem cabeça, em close — uma antiga miniatura do conjunto de brinquedos Forte Apache, que opunha índios e cavalaria estadunidenses e fez parte da infância de quem hoje anda pelos 40 anos, pouco mais ou pouco menos. É essa a geração retratada no livro, a dos que foram jovens no fim dos anos 1980 e viram e sonharam com a retomada democrática no país.

A imagem da capa é ao mesmo tempo evocativa e perturbadora — a ausência de rosto do índio de brinquedo não apenas remete a um dos temas-chave do livro, sobre o qual falaremos adiante, como também parece fazer referência à mutilação dos sonhos otimistas acalentados na infância da redemocratização. Habitante Irreal é dividido em quatro partes. A primeira concentra-se na crise de identidade vivida por Paulo, personagem que toma emprestado de seu autor não apenas o nome, mas alguns elementos biográficos.

Paulo (o protagonista, não o escritor) é um estudante de Direito, jovem líder estudantil de Porto Alegre, militante de primeira hora da primeira eleição vencida pelo PT no Estado. Desencantado com a prática profissional no escritório em que estagia e com a voracidade da disputa por cargos no governo petista recém-eleito, Paulo vive uma crise de identidade que tenta resolver após encontrar, na volta de uma viagem a Pelotas, uma adolescente índia à beira da estrada, assolada pelo temporal. Ele oferece uma carona à menina, de nome Maína, e, encantado por ela, faz planos de mudar a vida que a garota leva, acampada à beira de uma estrada federal com a mãe e as irmãs. O idealismo inconsequente de Paulo, embora bem-intencionado, é pautado por uma mescla de sentimentos confusos que desembocam, no fim, na exploração emocional e sexual da garota. Não é essa, claro, a a intenção de Paulo, que gostaria de salvar a índia para salvar a si mesmo, e para provar que ainda é o idealista puro inflamado pela chama dos próprios sonhos - obviamente, à medida que a narrativa avança, não acontecerá nem uma coisa, nem outra.

Paulo é um inconformado com o rumo desastrado que as coisas, vistas fora do prisma de sua visão de mundo, tomaram. Suas tentativas de "salvar" Maína, contudo, mostram uma incompreensão colonialista inconsciente tão grande quanto a das autoridades que ele considera responsáveis pelo abandono de Maína e sua família. Uma inconsciência que terá consequências drásticas mais adiante, quando Maína engravida de Paulo e gera um menino, Donato (que não por acaso significa "dado", "doado"). Depois de trágicas peripécias, Donato é adotado por um casal de professores universitários — destinados a repetir, ainda que dotados das melhores intenções, alguns dos erros do pai biológico do garoto com Maína, como a negação da identidade e o pensamento paternalista.

Em obras anteriores, como a coletânea de contos Ainda Orangotangos, Scott se mostrava um artista ligado à experimentação da forma - a primeira edição do livro, pela extinta Livros do Mal, vinha com um disco com uma faixa de acompanhamento para cada conto; bem como uma das histórias era narrada em blocos dispostos na ordem contrária (antes ainda do sucesso do filme Amnésia, de Christopher Nolan), etc... Em Habitante Irreal, alguns torneios estruturais e gráficos permanecem para dar conta de uma vontade de ousadia do autor, mesmo que nem todos bem-sucedidos – alguns capítulos são narrados como imensas notas de rodapé para textos inexistentes, um recurso de sinalização metalinguística que não chega a ter neste romance o impacto de uma estratégia semelhante usada por J.M. Coetzee em Diário de um Ano Ruim. As últimas páginas de Habitante..., por exemplo, que também estão lá para relembrar ao leitor do caráter ficcional e narrativo do que acabou de ler, conseguem com beleza e poesia um efeito dilacerante, algo que as notas apenas tangenciam.

A prosa, narrada em uma terceira pessoa colada de modo epidérmico às personagens, estrutura-se em frases longas e sinuosas, por vezes furiosas, por vezes líricas, sentenças que se projetam para mais de um plano de ação e discurso, do personagem e do narrador: "Caminha até a beira da estrada, sente-se capaz de enternecê-la (e quando os próximos faróis chegarem cogita, a partir de um velho hábito de apenas cogitar, forrá-los ainda que instantâneo seja o baque, cegando-os, forjando altura das copas de todas as árvores visíveis, companhia e penúria lunar contra a peça de madeira que ficará ali para sempre)".

Voláteis, romance anterior de Scott, já apresentava uma inflexão da experimentação formal para a construção psicológica - era das relações entre os três principais personagens em meio a uma trama de solidões e submundo que o livro, um romance de crime que transcendia o policial, tirava sua força. Habitante Irreal leva a obra de Scott a outro patamar na representação dos personagens, embora ainda mantenha a estrutura formal sofisticada - as três partes seguintes à apresentação de Paulo praticamente deixam o personagem de lado, mapeando as vidas tocadas indiretamente por seus atos: Maína; o filho de ambos Donato; Luísa, mulher do professor que adota o garoto. Cada novo mergulho aprofunda a incompreensão básica de cada personagem com relação ao caminho correto a tomar, aparentemente tão claro no início. O trajeto romanesco de Habitante Irreal é, assim, também um trajeto ético, uma vez que cada decisão parece gerar mais dúvidas e provocar consequências contrárias às intenções que as balizavam na origem. No fim, caberá a Donato tecer uma prece mortuária de múltipla significação no contexto do romance — não apenas para alguém que morreu, mas para si mesmo, para a vida emprestada que levou até ali, para o toque de morte dos contatos indígenas com o homem branco mostrados ao longo da narrativa.

É bem nesse fim do romance que Paulo (o personagem, não o autor) volta à história. E ainda que seu retorno feche um círculo formal, sua presença naquela situação parece excessiva, uma vez que ele reaparece depois de 20 anos e várias páginas ausentes apenas para reiterar seu comportamento pusilânime do passado - o que soa deslocado quando tantas transformações drásticas ocorreram nos demais personagens circunstanciais. Essas mudanças são o que o romance tem de melhor. É no mergulho intenso na psiquê, nas dúvidas, covardias e incertezas de suas criaturas que Scott tece um emaranhado complexo que, ao mesmo tempo, se sustenta como estudo de personagem e responde, a seu modo, ao velho questionamento de "por onde anda a realidade brasileira na literatura?". Os personagens de Habitante Irreal não existem fora do contexto nacional - as eleições do processo de redemocratização, o surgimento da internet no Brasil, a questão indígena, um retrato onívoro que tenta não deixar nada de fora – e por vezes peca aqui e ali pelo excesso de enumerações contextuais.

Com Paulo e sua covardia desastrada e bem-intencionada; Luísa e sua e Donato, o índio mestiço, gradativamente espoliado de suas raízes, de sua cultura e de sua identidade (ainda que sempre com as melhores intenções, o que torna tudo muito pior), Scott faz de Habitante Irreal um romance político, arrebatado, disposto a sair no mano a mano com a complexa realidade brasileira dos últimos 30 anos.

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