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A revolução e os náufragos da história

28 de dezembro de 2015 0
Capa de A Estrada, de Vassili Grossman

Capa de A Estrada, de Vassili Grossman

Dada a energia que a União Soviética empregou ao longo do século 20 para silenciar os escritores “contrarrevolucionários” (senha para “ideologicamente inconvenientes”), o caso de Vassili Grossman (1905 – 1964), um dos autores mais sistematicamente proibidos do regime, não é, infelizmente, incomum. Incomum é o fato de que a melhor parte de sua obra tardia, suprimida, proibida e ameaçada de destruição durante toda a vigência do Império Soviético, tenha de algum modo sobrevivido e alcance hoje ressonância internacional.

Grossman é o autor de Vida e Destino, romance monumental que, inspirado desde o título por Guerra e Paz, de Tolstoi, recompõe a escala humana das dificuldades enfrentadas pelo povo russo durante os embates da II Guerra, em um carrossel de vozes que vão dos campos de prisioneiros nazistas ao front desabastecido, passando pela burocracia desumana a que estão submetidos os cidadãos nas sitiadas cidades. O livro constava como obliterado, mas apareceu e foi publicado em 1980, e se tornou um romance consagrado após a queda do comunismo soviético. Publicado finalmente no Brasil no ano passado, o livro abriu caminho para outros trabalhos do autor, como os contos, ensaios e reportagens reunidos neste recente A Estrada (Tradução de Irineu Franco Perpetuo. Objetiva, 336 páginas, R$ 54,90).

Compilados pelo tradutor inglês da obra, Robert Chandler, e pelo especialista russo Yuri Bit-Yunan, os textos vêm distribuídos em cinco seções, abrangem desde Na Cidade de Berdítchev, publicado em 1934, uma das primeiras obras de Grossman a angariar reconhecimento crítico (merecido, comprova a leitura desa poderosa reflexão sobre o dilema revolução-vida familiar que afligiu parte dos mais fervorosos soviéticos), até cartas de despedida que escreveu para a mãe já morta há muitos anos (fuzilada pelos nazistas em 1941, com outros 12 mil judeus, na Berdítchev natal do autor).

Sobressai nos contos, desde os poucos do início da carreira até os mais tardios, o caráter compassivo da prosa de Grossman. Ao contrário da fascinação com a violência revolucionária que permeia desde um autor plenamente alinhado com os  soviéticos, como Máximo Górki, até uma vítima do regime, como Isaac Bábel, Grossman se preocupa menos com os grandes tornados da História do que com as vidas que adernam à sua passagem. Não é à toa que ele tenha sido um dos primeiros, já em 1944, a retratar o horror de um campo nazista, em O Inferno de Treblinka, incluído neste volume.

A justiça selvagem das redes

22 de dezembro de 2015 0
Capa de Humilhado, de Jon Ronson

Capa de Humilhado, de Jon Ronson

Ao longo dos séculos, a humilhação pública foi uma punição tradicional no Ocidente, até ser gradativamente abolida, entre outros motivos, por seu caráter desumano. Mas e se estivermos resgatando essa prática no tribunal em massa das redes sociais? Essa é a pergunta que move Humilhado: Como a Era da Internet Mudou o Julgamento Público, livro mais recente do jornalista inglês Jon Ronson (Tradução de Mariana Kohnert, Best Seller, 304 páginas, R$ 39).

Ronson é um autor com uma prosa de tom particular. Em livros como Os Homens que Encaravam as Cabras e O Teste do Psicopata (ambos também lançados no Brasil pela mesma editora), mescla a apuração de uma grande reportagem, o tom confessional de um escritor que apresenta o passo a passo de suas próprias pesquisas e uma pegada humorística que brinca com as dificuldades de pesquisa e com as ideias que o perturbavam no início do projeto.

É algo que se repete parcialmente em Humilhado – talvez pelo tom mais pesado inevitável na narrativa de pessoas arrastadas à vergonha pública, Ronson é mais contido no humor. O autor analisa episódios em que declarações infelizes ou segredos revelados na rede provocaram um aluvião de humilhação pública. Casos como o de Jonah Lehrer, divulgador científico caído em desgraça depois que vieram à tona citações alteradas em alguns de seus livros, ou o da relações-públicas Justine Sacco, que publicou uma piada considerada racista no Twitter quando estava embarcando em uma viagem para a África e cuja vida desmoronou, sem que ela soubesse, durante as 12 horas que o voo durou.

Ronson os entrevista, bem como  a alguns participantes dos frenesis de justiça na rede. Pesquisa a humilhação pública como punição (exposição na praça amarrado  no pelourinho ou na berlinda, chibatadas) e os motivos pelos quais ela foi sendo abandonada. Ao associá-la ao atual tribunal das redes, Ronson faz analogias felizes, mas sua abordagem tende mais à perplexidade do que propriamente à análise, o que pode ser considerado um dos pontos fracos do livro.

Entre as virtudes, contudo, está a honestidade com que o autor também confessa suas próprias dubiedades com relação ao tema. Ele próprio viu com entusiasmo os primeiros episódios de humilhação na rede, dirigidos a grandes redes e corporações: “Hierarquias eram horizontalizadas. Os silenciados ganhavam voz. Era como a democratização da justiça”.

Ronson, contudo, não tarda a cair em si: ninguém parece estar no comando dessa “Justiça”. E sem regras ou leis de execução explícitas, um tuíte pode ser a diferença entre justiça e massacre.

Os documentos de Alejandro Zambra

18 de dezembro de 2015 0
O escritor chileno Alejandro Zambra

O escritor chileno Alejandro Zambra

Texto de Fernanda Grabauska

“Eu não sabia nada do mundo, nada.” É assim, em uma mistura de nostalgia infantil com adulta confissão, que o chileno Alejandro Zambra ensaia fragmentos de uma ficção autoarqueológica em seu primeiro volume de contos, o adequadamente intitulado Meus Documentos (Tradução de Miguel del Castillo. Cosac Naify, 222 páginas, R$ 32,90). Mas se o pronome possessivo do título deixa o leitor com a impressão de que a voz única é a do autor-narrador, esta se rompe já na largada: os documentos não são de uma pessoa apenas, mas de toda uma geração, desejosa de questionar-se sobre seu passado.

Agraciado em 2010 com um lugar entre os 22 melhores escritores da língua espanhola com menos de 35 anos pela revista Granta e consagrado no gênero romance com títulos como Bonsai (2006), A Vida Privada das Árvores (2007) e Formas de Voltar para Casa (2011), Zambra incursiona pelos contos com a mesma prosa sensível para retornar à experiência de crescer no Chile de Pinochet e de ver-se, anos depois, em meio a uma geração cada vez mais atrelada aos computadores.

Ele está longe, contudo, de falar exclusivamente aos chilenos – cada fragmento de memória ecoa, também, naqueles que cresceram nas décadas de 1980 e 90. Em qualquer lugar, foram eles os únicos, talvez, a escutar as teclas das máquinas de
escrever paternas, que rascunharam seus primeiros textos literários em blocos de nota e que, finalmente, formataram-nos
em arquivos para deixá-los, muitas vezes esquecidos, na pasta Meus Documentos do Windows.

Toda essa nostalgia, por vezes humana – como no conto que dá nome ao livro –, por vezes tecnológica _ como em Lembranças de um Computador Pessoal –, é captada por Zambra e descrita com sutileza e ironia. Seja no momento da malograda tentativa do autor (famoso pela velocidade em que emenda um cigarro no outro) de abandonar o tabagismo em Eu Fumava Muito Bem, seja na ambivalência familiar de Verdadeiro ou Falso, a tônica de Meus Documentos é clara e universal: não importa o quanto voltemos ao passado, difícil mesmo é o presente.

Capa do livro Meus Documentos, de Alejandro Zambra

Capa do livro Meus Documentos, de Alejandro Zambra

Três perguntas para a tradutora Hilary Kaplan

14 de dezembro de 2015 0
A capa da edição brasileira de "Rilke Shake", à esquerda, e a da tradução à direita.

A capa da edição brasileira de “Rilke Shake”, à esquerda, e a da tradução à direita.

A americana Hilary Kaplan foi indicada esta semana à lista de semifinalistas do prêmio Pen pela sua tradução de Rilke Shake, livro de estreia da poeta pelotense Angélica Freitas, publicado em inglês em fevereiro deste ano pela editora californiana Phoneme Media. Kaplan respondeu, por e-mail, três perguntas sobre o trabalho de tradução do livro:

Você encontrou o livro Rilke Shake em uma viagem a Porto Alegre, não? Poderia contar rapidamente essa história? Fui a Porto Alegre, em 2007, visitar uma amiga e a família dela. Fui à Livraria Cultura buscar poesia brasileira contemporânea. Adorei o título Rilke Shake – foi o único título na estante que me fez rir. Abri o livro e achei poemas que brincavam/jogavam muito com as palavras, escritos em uma voz que eu nunca tinha ouvido em poesia brasileira: divertida, feminina e do sul.

O que a atraiu na poesia de Angélica? Adorei o jogo de palavras nos poemas, os trocadilhos – muito criativos e engraçados. Me atraíram a criação de identidade e a interrogação da identidade, através de um encontro com o presente e o passado da literatura e da cultura brasileiras – e também latino-americana, norte-americana e europeia. Foi uma voz em diálogo (mesmo não propositado) com jovens poetas contemporâneos americanos que eu tinha lido, e por isso ressoou comigo.

Dado o uso que Angélica faz de trocadilhos, aliterações e outros recursos rítmicos, quais foram suas principais dificuldades? Trocadilhos, aliterações e recursos rítmicos são divertidos. Isso é escrita, poesia, invenção e jogo. O prazer e o desafio é achar um equivalente ou uma maneira de dizê-lo em inglês. Aprendi muitas expressões e fatos culturais do sul do Brasil. O livro também tem tantas alusões, óbvias e sutis, à literatura brasileira. Ainda as estou descobrindo.

A submissão do Ocidente

06 de agosto de 2015 3
Michel Houellebecq. Foto:  Miguel Medina / AFP

Michel Houellebecq. Foto: Miguel Medina / AFP

Na encruzilhada aparentemente sem saída da anomia contemporânea, a solução para a angústia ocidental estaria na aceitação – ou melhor, na submissão – de um ideal metafísico amparado na religião, ainda que tal religião seja tirânica e contrária a vários dos valores que fizeram o Ocidente? É essa a pergunta que o protagonista do romance Submissão, de Michel Houellebecq, se faz durante boa parte do livro, que se tornou polêmico pelo tom provocador e pelo que muitos viram como uma obra ofensiva à comunidade islâmica na França.

Submissão (Alfaguara, R$ 39,90, 256 páginas. Tradução de Rosa Freire D’Aguiar) narra a ascensão eleitoral de um partido muçulmano ao poder na França e as consequências desta vitória. O centro da narrativa não é o cenário político imaginado, e sim a vida tediosa de François, um personagem que, mais do que uma extensão, é uma repetição dos protagonistas anteriores de Houellebecq (culto, misógino, com olhar cínico e comportamento apático). Professor na Sorbonne, François come mal, dorme mal e, no início do romance, está afundado em uma anomia que afasta até mesmo Myriam, a jovem aluna com quem tem um caso. Autor de elogiadas incursões críticas pela obra do escritor decadentista francês Joris-Karl Huysmans (1848 – 1907), François leciona sem fazer diferença aparente na vida dos alunos, mas goza de prestígio na universidade. Até que o cenário político das eleições de 2022 torna o improvável realidade.

Ao fim do segundo mandato fictício de François Hollande, a França está mergulhada em tal caos institucional que o tradicional PS, o partido do presidente, está fora do segundo turno, e a disputa se polariza entre a favorita Frente Nacional de Marine Le Pen e a fictícia Irmandade Muçulmana, do também fictício candidato Mohammed Ben Abbas.

Para impedir a vitória da ultradireita de Marine Le Pen, os socialistas do PS acertam uma coligação com o partido muçulmano celebrando algumas medidas inesperadas: a restrição do ensino público universal até os 12 anos e a privatização de todas as universidades. A Sorbonne, financiada pela abundante riqueza do novo aliado Arábia Saudita, torna-se uma instituição muçulmana oferecendo educação baseada na religião, e todos os que não partilham da mesma fé são compulsoriamente aposentados, como o próprio François.

Embora seu romance tenha a moldura de um “livro de tese”, Houellebecq é um narrador hábil, com uma prosa envolvente a ponto de urdir a ascensão eleitoral da nova França islâmica sem exigir do leitor grandes voos de imaginação, apenas dando ênfase caricatural a elementos que já estão no ar, como a tensão entre árabes e europeus, a indeterminação ideológica de esquerda e direita e as alianças improváveis para chegar ao poder.

Como todo mundo lembra a esta altura, Submissão chegou às livrarias francesas na primeira semana de janeiro, quase ao mesmo tempo em que terroristas invadiram o jornal humorístico Charlie Hebdo, matando 12 pessoas e deixando 11 feridas no tiroteio. A publicação do romance era o destaque de capa da edição daquela semana do Charlie Hebdo – com Houellebecq retratado em uma caricatura sob a chamada “As Previsões de Houellebecq”. Com a repercussão do atentado, o escritor cancelou a turnê de divulgação do romance e deixou Paris rumo ao interior da França. Curiosamente, o próprio protagonista de Submissão faz o mesmo às vésperas das eleições que consagram a Irmandade Muçulmana: refugia-se em Rocamadour até a poeira e os distúrbios passarem na Capital.

Apesar do barulho provocado por seu suposto retrato do Islã e das circunstância catastróficas de lançamento , a crítica mais ácida de Submissão não se dirige ao mundo árabe, mas ao alvo principal do autor francês desde : a cansada civilização europeia democrática e liberal. Contra a liberdade sem perspectivas do Ocidente, a submissão islâmica diante de Alá (análoga, segundo o autor, ao sentido sexual de submissão) agrada a mais pessoas do que se poderia imaginar na “nova França” de Ben Abbas.

Há algo de preguiçoso, contudo, na forma como o autor lança mão das convenções do gênero de “história alternativa”. Enquanto as alianças políticas vão sendo tecidas, o romance cresce, para decair na eleição da Irmandade Muçulmana. A falta de reação de François é um reflexo do horizonte moral de todo o romance — pode-se perguntar onde estão, no livro, as vozes que preferiram não se submeter. Talvez, com seu niilismo, Houellebecq sequer acredite que elas existam.

Submissão, de Michel Houellebecq

Submissão, de Michel Houellebecq

Guerra grande, vidas breves

29 de dezembro de 2014 0
Capa do livro 14, de Jean Echenoz

Capa do livro 14, de Jean Echenoz

Com tanto que se publicou a respeito da centenária I Guerra Mundial ao longo deste ano – literalmente milhares de páginas – é uma surpresa o tamanho do impacto provocado no leitor por uma novela tão curta quanto 14, do escritor francês Jean Echenoz, que foi lançada recentemente no Brasil (Tradução de Samuel Titan Jr., editora 34, 136 páginas). Falando de uma das guerras mais esquecidas pela ficção devido à complexidade de suas causas e forças em disputa, Echenoz, com uma prosa sóbria e impessoal, consegue realizar um grande livro enfocando personagens que sabiam tanto daquela guerra quanto o leitor contemporâneo: muito pouco.

Estruturado em 15 capítulos breves como vinhetas, mas plenos de cenas poderosas em seu poder evocativo, 14 concentra seu olhar não em soberanos, diplomatas e generais, os protagonistas “históricos” da guerra, mas em cinco rapazes e em uma moça franceses. Anthime, Charles, Padioleau, Bossis e Arcenel são jovens nascidos e criados todos na mesma aldeia da Vendeia, unidos por relações de coleguismo, em alguns casos, e parentesco, em outros – relações que a narrativa vai revelando aos poucos.

Em um primeiro momento, seu horizonte não parece muito amplo: alguns trabalham na fábrica que é o centro da economia local, outros são amigos de pescaria, mas todos são afetados pela notícia da declaração de guerra. Alistam-se e são designados ao mesmo regimento de infantaria e rumam para uma guerra até então sem par nos métodos industriais de violência e carnificina – o signo da fábrica que é o elemento tão presente na rotina da pequena aldeia é aqui replicado com uma torção cruel: a fábrica a serviço da morte em larga escala. O contraponto da narrativa é dado por Blanche, jovem a quem Anthime dirige sentimentos de afeição mas que é amante, efetivamente, de outro dos rapazes (e mais não se dirá porque o triângulo que se forma terá consequências no próprio destino de alguns dos combatentes no front).

Ciente de que seu romance não tem a legitimidade do testemunho de obras de escritores que de fato combateram na I Guerra, como Blaise Cendrars ou Céline, Echenoz não tenta transformar seu relato de guerra em um drama comovente. Pelo contrário, os melhores efeitos são obtidos do contraste entre os horrores narrados – combates, ferimentos, o inferno das trincheiras cheias de lama e ratos, as tentativas de deserção, reais ou acidentais – e o tom breve e impessoal da narrativa. Esse poderia ser o único reparo a ser feito ao livro: quando se demora um pouco mais na descrição da guerra do que em acompanhar seus personagens, Echenoz parece estar fazendo uma súmula das ideias mais facilmente associadas ao teatro de operações da I Guerra. É quando o livro se estende sobre o impacto de tal engrenagem sobre as frágeis vidas de seus personagens que 14 brilha com um magnetismo conciso e perturbador.

Capparelli viaja à Calábria

20 de novembro de 2014 0
Capa de Viagem à Calábria

Capa de Viagem à Calábria

Uma viagem na idade madura se assemelha a um regresso à infância. Ao menos da forma como essa jornada é narrada em Viagem à Calábria (Record), novo romance de Sérgio Capparelli. O livro marca o retorno do escritor à prosa para adultos 20 anos após Gaspar e a Linha Dnieperpetrovski. Nessas duas décadas, o autor se concentrou na literatura para jovens, da qual é um dos principais nomes do Brasil, e à poesia. Além do romance, ele ainda tem outros dois livros a caminho – O Rapaz do Metrô: Poemas para Jovens em 8 Chacinas ou Capítulos (Record) e a coletânea de poesias Os Cavalos de Einstein (L&PM).

Viagem à Calábria acompanha as andanças pela região italiana de um personagem que empresta de Capparelli alguns elementos autobiográficos: a idade, o fato de ter passado a infância em Minas Gerais e mesmo o sobrenome – que tem origem em albaneses que migraram para a Calábria. No livro, o personagem viaja em busca de seu irmão, radicado no país, para retomar um contato interrompido meio século antes e tirar a limpo uma dúvida que corrói o personagem: teria o irmão traído e entregado o pai – um ex-seminarista sonhador perseguido pela ditadura militar?

O livro se estrutura como em um jogo de espelhos, no qual o número dois assume fundamental importância na composição especular da narrativa. O protagonista viaja na companhia do irmão não apenas pela Itália, mas pela memória de sua vida no Brasil. Sob vários pretextos, logo o seu pensamento se desgarra em direção à infância em Uberlândia, no fim dos anos 1950, na qual a dualidade está sempre presente: o bairro em que o menino vive é separado por um córrego de uma aldeia de caboclos que vivem nas ruínas de uma igreja; o garoto divide seu afeto entre a mãe, uma mulher frustrada pelo temperamento pouco prático e sonhador do marido, e Dona Sílvia, uma vizinha aparentemente abandonada pelo marido desaparecido – na verdade, um perseguido político fugindo do truculento delegado local.

Quando o golpe militar se instaura, a duplicidade engolfa também o pai do protagonista, que precisa ele próprio se esconder, caçado pelo delegado local, quase como um duplo do desaparecido marido de Dona Sílvia, a “mãe idealizada” do menino. É o desfecho dramático dessa caçada que coloca no personagem principal a dúvida a ser solucionada meio século depois, na viagem com o irmão. Outra jornada especular, dado que, quanto mais ambos avançam pela Itália, mais vigorosamente a narrativa se concentra na infância de tons fellinianos e agridoces vivida no Brasil.

Três perguntas para Veronica Stigger

17 de novembro de 2014 0
A escritora Veronica Stigger. Foto: Guto Kuerten, Agência RBS

A escritora Veronica Stigger. Foto: Guto Kuerten, Agência RBS

A escritora porto-alegrense Veronica Stigger recebeu, na semana passada, o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria estreante acima de 40anos, por seu romance Opisanie Šwiata. Ela respondeu três perguntas por e-mail. Parte desta entrevista foi publicada, com cortes, no caderno PrOA de Zero Hora deste domingo. Abaixo, segue a versão na íntegra:

Dar a um romance de estreia no Brasil um título em polonês (apesar de todo o sentido que o título assume dentro da narrativa) é, de algum modo, um gesto anticomercial?
Não é a primeira vez que dou um título em outra língua para um trabalho. Meu segundo livro saiu com o título em italiano: Gran Cabaret Demenzial. E tenho vários textos com títulos em línguas estrangeiras: “Argumentum chronologicum”, “Quand avez-vous le plus souffert?”, “L’après-midi de V. S.”, “Des cannibales” – cada um com sua razão própria de ser. Antes de ser um gesto anticomercial, é, para mim, um gesto artístico, um gesto poético. Que poesia e anticomércio, hoje em dia, acabem por coincidir é algo que talvez diga menos sobre meu romance do que sobre nossa sociedade ou nossa “vida cultural”. Com o título Opisanie Šwiata, queria produzir um estranhamento, que colocasse o leitor na posição de estrangeiro, como é a do personagem principal (o título está na língua dele). E não abriria mão deste gesto por um suposto aumento de vendas.

Seu livro dialoga com títulos brasileiros dos anos 1920 e tem até um viajado Bopp como personagem, alusão clara a Raul Bopp, autor do clássico modernista Cobra Norato. Esta aproximação explícita do modernismo é uma tentativa de dialogar com os valores estéticos desse movimento?
Sim. Vejo o Opisanie Šwiata como uma espécie de história poética do modernismo brasileiro, e não só brasileiro – uma homenagem a este período, que venho estudando bastante. Acredito que há uma vontade de experimentação, naquela fase da história artística e literária brasileira, que ainda não foi de todo esgotada. Daí eu ter buscado fazer, como dizem as anotações encontradas por Opalka no caderno de Natanael, “um livro antigo / um livro de viagens / com páginas que se desdobram”, isto é, um livro “moderno”. Às vezes, um desvio pelo passado (e não para o passado), um reencontro com aquilo que ainda permanece vivo no passado, pode ser a melhor maneira de ultrapassar os impasses estéticos do presente, a melhor maneira de seguir adiante. Por exemplo, há um modelo de ficção literária que foi se impondo ao longo dos últimos anos, que é o modelo chancelado e até mesmo promovido pela indústria editorial de língua inglesa. Este modelo, transformado em padrão por algumas editoras hegemônicas e por alguns jornais e revistas a elas associados, arriscou transformar a prosa literária brasileira contemporânea numa espécie de cover da literatura anglo-saxã. O que, convenhamos, é bastante melancólico para uma prosa que já teve um Oswald de Andrade ou uma Clarice Lispector. Todas as experiências que se contraponham, conscientemente ou não, a esse padrão, e à padronização dele resultante, contam com minha simpatia. Felizmente, posso nomear vários autores cujo sucesso (artístico, não comercial) demonstra que o padrão que se tentou e ainda se tenta impor já está em declínio: Nuno Ramos, André Sant’Anna, Marcelo Mirisola, Ricardo Lísias, João Paulo Cuenca, Paloma Vidal, Marcelino Freire, Alberto Martins, Carlos de Brito e Mello, Elvira Vigna, Evandro Affonso Ferreira, Juliano Garcia Pessanha, Vitor Ramil, Juliana Frank. Fico por aqui, mas haveria uns tantos outros nomes a citar.

O livro apresenta um cuidadoso trabalho visual, com imagens e cores que se alternam ao longo das páginas. Também Os Anões tinha um padrão gráfico sofisticado e único que emulava na forma a pequenez do título. Como foi sua participação no processo de edição visual? Você pensa seus livros como objetos artísticos?
Para mim, um livro não se resume ao texto. Costumo pensá-lo como um todo. Quando o estou escrevendo, já vou imaginando a forma que darei a ele, a organização interna dos textos, o tipo de papel, a capa, se terá ilustrações, que ilustrações etc. Por conta disso, quando entrego os originais na editora, sento-me com a equipe de design gráfico e explico toda a concepção do livro em seus mínimos detalhes. Em Opisanie Šwiata, por exemplo, há várias linhas narrativas: em primeira pessoa, em terceira pessoa, cartas, trechos de um guia de viagem, notícias, anúncios. E eu queria que cada uma dessas linhas tivesse uma diferenciação gráfica discreta, evitando recorrer ao itálico ou à mudança muito marcada de tipo de letra. Por isso, as páginas são coloridas. Além disso, imaginei a abertura do livro como a abertura de um filme, em que há uma espécie de prólogo antes dos créditos iniciais. Daí, o livro se abrir com as cartas e só depois disso apresentar seu título e minha assinatura, a dedicatória, as epígrafes.

Dramáticos legados da I Guerra

16 de outubro de 2014 0
Soldados nas trincheiras de La Lys, em Flandres, durante a I Guerra

Soldados nas trincheiras de La Lys, em Flandres, durante a I Guerra

Texto de Luiz Antonio Araújo

Lenço umedecido, zíper, horário de verão. Banco de sangue, tabagismo, “corredor polonês”. Aço inoxidável, saquinho de chá, comunicação por rádio a bordo de aeronaves. Genocídio, bombardeio aéreo, tanque de guerra. Nenhuma dessas expressões fazia sentido antes da I Guerra Mundial, e se hoje nos parecem familiares, é porque “é impossível entender o Breve Século 20 sem ela”, como escreveu o historiador britânico Eric Hobsbawm. Ou porque foi “a primeira calamidade do século 20, a calamidade da qual brotaram todas as outras”, no balanço mais explícito de outro historiador, o americano Fritz Stern.

A Grande Guerra, como batizada inicialmente pelos contemporâneos (a expressão “I Guerra Mundial” surgiu apenas ao final do conflito, quando ficou claro que seus horrores seriam reprisados), foi o apocalipse realmente existente para a civilização europeia. Antes dela, longas aventuras militares pareciam definitivamente confinadas a confins como Sudão e China. Depois, a linha de frente alcançou centros urbanos como Estrasburgo, Varsóvia e Salônica, onde havia cafés, automóveis e orquestras sinfônicas.

A guerra mobilizou 65 milhões de homens, demoliu quatro impérios e deixou 20 milhões de mortos entre militares e civis. Ao final de quatro anos, seis em cada 10 homens sérvios tinham perecido. Numa escala menor, um em cada quatro graduandos de Oxford e Cambridge, destinados desde o berço ao parlamento ou ao serviço colonial, foi parar nos cemitérios militares britânicos. Em pelo menos uma dimensão a profecia do presidente americano Woodrow Wilson, de que aquela seria “uma guerra para acabar com todas as guerras”, se realizou: os que nela combateram tornaram-se firmes partidários da paz. Entre as exceções, conta-se Adolf Hitler. O filósofo Karl Popper disse que o futuro não seria o que é se fosse possível conhecê-lo. Com a I Guerra, ocorre um fenômeno curioso: quanto mais a conhecemos, menos ela se parece com o que é, ou seja, um acontecimento que irrompeu há um século.

O historiador britânico Christopher Clark, autor do elogiado Os Sonâmbulos – Como Eclodiu a Primeira Guerra Mundial (Tradução de Berilo Vargas e Laura Motta. Companhia das Letras, 704 páginas, R$ 69,50), tem uma explicação que pareceria surpreendente: “se o debate é antigo, o tema ainda é atual. Na verdade, é ainda mais atual e mais relevante agora do que 20 ou 30 anos atrás. As mudanças no mundo alteraram nossa perspectiva sobre os acontecimentos de 1914”. É impossível não se impressionar com a seguinte descrição da crise que levou à guerra e do papel nela desempenhado pelo grupo terrorista sérvio Mão Negra, do qual fazia parte Gavrilo Príncip, jovem estudante que matou a tiros o arquiduque austríaco Francisco Ferdinando: “O processo começou com um esquadrão de homens-bomba suicidas e um cortejo de automóveis. Por trás do ultraje de Sarajevo estava uma organização declaradamente terrorista com um culto de sacrifício, morte e vingança; mas essa organização era extraterritorial, sem uma localização geográfica ou política clara; estava dispersa em células que transpunham fronteiras políticas, não tinha como ser chamada à responsabilidade, suas ligações com qualquer governo soberano eram indiretas, ocultas e certamente dificílimas de discernir fora da organização”. A força da obra de Clark, entretanto, não está num suposto recurso ao “presentismo”, que o historiador rejeita explicitamente. Ao contrário, ele enfatiza justamente o fato de que, morto o arquiduque, a chamada Crise de Julho adquiriu uma dinâmica própria, na qual teve peso decisivo o intrincado e pouco coerente sistema de alianças europeu e, no seu interior, a teia de interesses econômicos, políticos e por vezes pessoais que detonaram a matança. Os Sonâmbulos focaliza em detalhe a história dos Bálcãs, fronteira de três impérios (Austro-húngaro, Russo e Turco Otomano), e mostra como essa região crítica para a  Europa tornou-se, já no final do século 19, um barril de pólvora: a turbulência balcânica, assegura Clark, “forneceu a estrutura conceitual dentro da qual a crise, uma vez surgida, foi interpretada”. Voltando à analogia entre passado e presente, a desterritorialização da gestão de crises, hoje tornada possível por um sistema de governança global ainda incipiente, atua como freio contra colapsos incontroláveis como o de 1914, precipitado, segundo o britânico, por “rápidas interações entre centros de poder autônomos e pesadamente armados que confrontavam ameaças diferentes e cambiantes, e que operavam em condições de alto risco e baixa confiança e transparência”.

Em vez de se concentrar na Crise de Julho, O Horror da Guerra (Tradução de Janaína Marcoantonio. Planeta, 736 páginas, R$ 89,90), do britânico Niall Ferguson (publicado em 1998 e com edição brasileira em abril deste ano), é um opulento ensaio de 736 páginas em torno de 10 perguntas clássicas sobre a I Guerra. Algumas, como “A guerra foi recebida com entusiasmo popular?”, já foram exaustivamente respondidas (“Houve manifestações isoladas de entusiasmo chauvinista pela luta iminente, mas foram exceções”, afirma Clark). Outras, como “A propaganda, e especialmente a imprensa, mantiveram a guerra em curso, como acreditava Karl Kraus?”, só se justificam em função da admiração de Ferguson por Kraus. A pergunta fundamental do livro é a que permite ao autor exercitar sua veia polêmica, especialmente contra a visão estabelecida sobre a guerra entre historiadores britânicos: “A guerra era inevitável, seja por causa do militarismo, do imperialismo, da diplomacia secreta ou da corrida armamentista?”. As conclusões de Ferguson (em 1914, os europeus estavam dando as costas ao militarismo e abraçando a democracia, e a grande falha da Grã-Bretanha foi ter se omitido do ponto de vista político e militar em relação a esse fenômeno) são largamente baseadas em dados sobre a França e a Alemanha, evitando as águas profundas da Rússia e da Áustria-Hungria.

O livro de Ferguson tem o subtítulo Uma Provocativa Análise da I Guerra Mundial. Mas é O Adeus à Europa – A América Latina e a Grande Guerra (Tradução de Carlos Nougue. Rocco, 400 páginas, R$ 39,50), do francês Olivier Compagnon, o verdadeiro merecedor desse rótulo. Deixando de lado o mito conveniente de que a I Guerra foi um conflito europeu, ele muda o foco para seus efeitos na América Latina, a partir da dissecação da forma como a guerra foi vivida por Brasil e Argentina. Um dos alvos de Compagnon, especialista em história latino- americana, é a velha assertiva de que o período de 1889 a 1929 foi marcado, no subcontinente, pelo expansionismo americano (a política do “Grande Porrete” de Theodore Roosevelt), pela crise do modelo liberal-oligárquico e pelo crescimento das classes médias urbanas. O resultado é a instigante ideia, traduzida no título da obra, de que a guerra marcou o fim do idílio europeu das elites brasileiras e argentinas e permitiu o florescimento de um modernismo político e cultural que Compagnon relaciona à ascensão de correntes como o varguismo e o peronismo.

Secretário permanente da Academia Sueca, Peter Englund compõe um interessante painel da guerra a partir de cartas, diários, livros e entrevistas de 19 testemunhas da guerra. Dois são civis, quatro são mulheres e há um latino-americano, o venezuelano Rafael de Nogales, que, aos 35 anos, se junta às forças otomanas e assiste, horrorizado, ao massacre dos armênios da Anatólia.

Ainda que o material utilizado por Englund não seja inédito, A Beleza e a Dor – Uma História Íntima da Primeira Guerra Mundial está cheio de insights preciosos sobre a vida cotidiana no início do século passado e pode ser lido como uma biografia ou uma novela de aventuras. Catástrofe – 1914: A Europa Vai à Guerra, do britânico Max Hastings (Tradução de Berilo Vargas. Intrínseca, 672 páginas, R$ 49,90), é a estreia de um veterano historiador e jornalista, autor de mais de 20 livros sobre história militar, no território densamente povoado do caminho para a I Guerra. Trata-se de uma obra sob medida para os leitores que pretendem ter uma visão abrangente e vívida sobre o tema, com abundância de fontes e bibliografia e a prosa mais do que certeira de um grande narrador. Merecem destaque ainda as coleções de imagens de combates e de mapas – essenciais em qualquer livro sobre o assunto e infelizmente negligenciadas em outras obras – e a útil cronologia do ano de 1914.

Com tantos estudos e livros históricos, contudo, se há um lançamento da recente fornada sobre a I Guerra que merece ser comemorado, é uma ficção: a edição brasileira do romance As Aventuras do Bom Soldado Švejk, de Jaroslav Hašek, com tradução diretamente do checo por Luís Carlos Cabral. Clássico da literatura da Europa Central, cujos méritos foram reconhecidos pela primeira vez por Max Brod, amigo responsável pela preservação da obra de Franz Kafka, Švejk permaneceu por muito tempo ignorado em parte pela particularidade linguística: foi escrito em checo, língua pouco conhecida no Brasil (Kafka, também checo, escrevia em alemão). O romance, que já foi associado a Dom Quixote, acompanha a saga de Josef Švejk, um ex-comerciante de cães (profissão que também foi exercida pelo autor) que se integra ao exército austro-húngaro nos primeiros anos da guerra. As Aventuras do Bom Soldado Švejk merece figurar em qualquer lista do legado da I Guerra Mundial – quem sabe no lugar do bombardeio aéreo e muitas posições acima do zíper e do lenço umedecido.

Cores e flores astrais

03 de setembro de 2014 3
A escritora Eleanor Catton. Foto: NZatFrankfurt, Wikicommons

A escritora Eleanor Catton. Foto: NZatFrankfurt, Wikicommons

Logo de cara, a vitória do romance Os Luminares, de Eleanor Catton, na última edição do Man Booker Prize, uma das mais prestigiosas premiações para a literatura em língua inglesa, criou dois factoides que impulsionaram o hype sobre a obra. Então com 28 anos, Catton, canadense de nascimento mas radicada na Nova Zelândia desde a infância, foi a mais jovem escritora a ganhar o prêmio. E o romance, com suas mais de 800 páginas, foi a narrativa mais longa a ser agraciada. São informações que não têm correlação direta com a qualidade da obra (curiosidades como essas quase nunca têm). No máximo, a juventude da autora e a extensão peculiar do romance podem ser indícios a se pinçar no quadro das principais virtudes e problemas de Os Luminares: uma obra ambiciosa, surpreendentemente madura e erudita, construída em uma forma tão rigorosa que foi seguida até as últimas consequências – não necessariamente para o bem do livro.

Lançado há pouco no Brasil,Os Luminares (Tradução de Fabio Bonillo Globo, 880 páginas, R$ 69,90) se passa no interior da Nova Zelândia, entre 1865 e 1866, no auge da corrida do ouro que de fato teve lugar no país naqueles dias. No povoado de Hokitika, que no período de dois anos passou de um amontoado de cabanas para uma cidade em expansão, o recém-chegado Walter Moody surpreende inadvertidamente uma reunião de 12 homens no salão de um hotel. Todos estão ali para discutir quatro eventos aparentemente não relacionados, mas que se sucederam na mesma noite: a morte suspeita de um ermitão que vivia nas proximidades; a chegada a Hokitika de um candidato ao parlamento; o misterioso desaparecimento do mais jovem e bem-sucedido garimpeiro local e o fato de uma jovem prostituta ter sido encontrada quase morta devido a uma ingestão pesada de ópio.

Os presentes à misteriosa reunião são dois chineses (um garimpeiro e um ourives), um aborígene, um jornalista, um hoteleiro, um proprietário rico de minas da região, um corretor comissionado, um boticário, um funcionário do tribunal, um bancário e um agente portuário. Estão ali porque ao longo das últimas semanas cada um deles esteve envolvido com um ou mais dos quatro acontecimentos, que se revelam de algum modo conectados no momento em que aparecem na cidade uma ex-cafetina que se diz viúva do homem morto e um belicoso capitão de navio metido em expedientes escusos.

Os homens reunidos não são 12 por acaso: cada um corresponde a um signo do Zodíaco na arquitetura que sustenta a trama. Os outros que em torno deles “gravitam”, como o próprio Moody, a suposta viúva, o marinheiro, são planetas. À medida que a narrativa avança e recua, reconstituindo os contatos prévios de cada personagem com os demais, avança-se por um mapa celeste que espelha as interações dos personagens. Há outras surpresas formais. Escrito com uma linguagem suntuosa que por vezes parece acertar o ponto e por vezes parece um pastiche de Dickens, o romance se subdivide também em 12 capítulos, cada um passado em um mês. Como um livro que consome a si mesmo, cada capítulo é menor que o precedente, das longas 370 páginas do primeiro até uma vinheta de duas páginas no 12º.

Mesmo com uma estrutura tão metódica e planejada, o livro de Catton é uma leitura que flui enquanto entretece as narrativas de seus personagens, ligando-as a fraudes de registros de mineração, chantagens, adultérios, e a trajetória misteriosa de uma quantia em ouro desaparecida. Subterrâneas à trama, estão as movimentações de uma insuspeita história de amor entre dois personagens comparados ao sol e à lua na dinâmica do livro – são eles os “luminares” do título, coração camuflado da narrativa e subtrama na qual Catton cede a toques de fantástico que parecem deslocados no rigoroso realismo histórico de todo o resto. É ao amarrar suas histórias que o romance torna-se prisioneiro de sua estrutura. Depois de avançar por quatro capítulos de mais de 750 páginas, Catton acha por bem recuar a narrativa um ano no tempo para seguir os meses anteriores à reunião que abre a narrativa. É um recurso desnecessário a não ser para um tipo de leitor tão desatento que provavelmente já teria abandonado o livro antes – e que produz um paradoxo: as pouco mais de 100 páginas até o fim do romance são mais tediosas do que as 750 anteriores, por reiterarem relações já subentendidas.

Capa do livro Os Luminares

Capa do livro Os Luminares