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Guerra grande, vidas breves

29 de dezembro de 2014 0
Capa do livro 14, de Jean Echenoz

Capa do livro 14, de Jean Echenoz

Com tanto que se publicou a respeito da centenária I Guerra Mundial ao longo deste ano – literalmente milhares de páginas – é uma surpresa o tamanho do impacto provocado no leitor por uma novela tão curta quanto 14, do escritor francês Jean Echenoz, que foi lançada recentemente no Brasil (Tradução de Samuel Titan Jr., editora 34, 136 páginas). Falando de uma das guerras mais esquecidas pela ficção devido à complexidade de suas causas e forças em disputa, Echenoz, com uma prosa sóbria e impessoal, consegue realizar um grande livro enfocando personagens que sabiam tanto daquela guerra quanto o leitor contemporâneo: muito pouco.

Estruturado em 15 capítulos breves como vinhetas, mas plenos de cenas poderosas em seu poder evocativo, 14 concentra seu olhar não em soberanos, diplomatas e generais, os protagonistas “históricos” da guerra, mas em cinco rapazes e em uma moça franceses. Anthime, Charles, Padioleau, Bossis e Arcenel são jovens nascidos e criados todos na mesma aldeia da Vendeia, unidos por relações de coleguismo, em alguns casos, e parentesco, em outros – relações que a narrativa vai revelando aos poucos.

Em um primeiro momento, seu horizonte não parece muito amplo: alguns trabalham na fábrica que é o centro da economia local, outros são amigos de pescaria, mas todos são afetados pela notícia da declaração de guerra. Alistam-se e são designados ao mesmo regimento de infantaria e rumam para uma guerra até então sem par nos métodos industriais de violência e carnificina – o signo da fábrica que é o elemento tão presente na rotina da pequena aldeia é aqui replicado com uma torção cruel: a fábrica a serviço da morte em larga escala. O contraponto da narrativa é dado por Blanche, jovem a quem Anthime dirige sentimentos de afeição mas que é amante, efetivamente, de outro dos rapazes (e mais não se dirá porque o triângulo que se forma terá consequências no próprio destino de alguns dos combatentes no front).

Ciente de que seu romance não tem a legitimidade do testemunho de obras de escritores que de fato combateram na I Guerra, como Blaise Cendrars ou Céline, Echenoz não tenta transformar seu relato de guerra em um drama comovente. Pelo contrário, os melhores efeitos são obtidos do contraste entre os horrores narrados – combates, ferimentos, o inferno das trincheiras cheias de lama e ratos, as tentativas de deserção, reais ou acidentais – e o tom breve e impessoal da narrativa. Esse poderia ser o único reparo a ser feito ao livro: quando se demora um pouco mais na descrição da guerra do que em acompanhar seus personagens, Echenoz parece estar fazendo uma súmula das ideias mais facilmente associadas ao teatro de operações da I Guerra. É quando o livro se estende sobre o impacto de tal engrenagem sobre as frágeis vidas de seus personagens que 14 brilha com um magnetismo conciso e perturbador.

Capparelli viaja à Calábria

20 de novembro de 2014 0
Capa de Viagem à Calábria

Capa de Viagem à Calábria

Uma viagem na idade madura se assemelha a um regresso à infância. Ao menos da forma como essa jornada é narrada em Viagem à Calábria (Record), novo romance de Sérgio Capparelli. O livro marca o retorno do escritor à prosa para adultos 20 anos após Gaspar e a Linha Dnieperpetrovski. Nessas duas décadas, o autor se concentrou na literatura para jovens, da qual é um dos principais nomes do Brasil, e à poesia. Além do romance, ele ainda tem outros dois livros a caminho – O Rapaz do Metrô: Poemas para Jovens em 8 Chacinas ou Capítulos (Record) e a coletânea de poesias Os Cavalos de Einstein (L&PM).

Viagem à Calábria acompanha as andanças pela região italiana de um personagem que empresta de Capparelli alguns elementos autobiográficos: a idade, o fato de ter passado a infância em Minas Gerais e mesmo o sobrenome – que tem origem em albaneses que migraram para a Calábria. No livro, o personagem viaja em busca de seu irmão, radicado no país, para retomar um contato interrompido meio século antes e tirar a limpo uma dúvida que corrói o personagem: teria o irmão traído e entregado o pai – um ex-seminarista sonhador perseguido pela ditadura militar?

O livro se estrutura como em um jogo de espelhos, no qual o número dois assume fundamental importância na composição especular da narrativa. O protagonista viaja na companhia do irmão não apenas pela Itália, mas pela memória de sua vida no Brasil. Sob vários pretextos, logo o seu pensamento se desgarra em direção à infância em Uberlândia, no fim dos anos 1950, na qual a dualidade está sempre presente: o bairro em que o menino vive é separado por um córrego de uma aldeia de caboclos que vivem nas ruínas de uma igreja; o garoto divide seu afeto entre a mãe, uma mulher frustrada pelo temperamento pouco prático e sonhador do marido, e Dona Sílvia, uma vizinha aparentemente abandonada pelo marido desaparecido – na verdade, um perseguido político fugindo do truculento delegado local.

Quando o golpe militar se instaura, a duplicidade engolfa também o pai do protagonista, que precisa ele próprio se esconder, caçado pelo delegado local, quase como um duplo do desaparecido marido de Dona Sílvia, a “mãe idealizada” do menino. É o desfecho dramático dessa caçada que coloca no personagem principal a dúvida a ser solucionada meio século depois, na viagem com o irmão. Outra jornada especular, dado que, quanto mais ambos avançam pela Itália, mais vigorosamente a narrativa se concentra na infância de tons fellinianos e agridoces vivida no Brasil.

Três perguntas para Veronica Stigger

17 de novembro de 2014 0
A escritora Veronica Stigger. Foto: Guto Kuerten, Agência RBS

A escritora Veronica Stigger. Foto: Guto Kuerten, Agência RBS

A escritora porto-alegrense Veronica Stigger recebeu, na semana passada, o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria estreante acima de 40anos, por seu romance Opisanie Šwiata. Ela respondeu três perguntas por e-mail. Parte desta entrevista foi publicada, com cortes, no caderno PrOA de Zero Hora deste domingo. Abaixo, segue a versão na íntegra:

Dar a um romance de estreia no Brasil um título em polonês (apesar de todo o sentido que o título assume dentro da narrativa) é, de algum modo, um gesto anticomercial?
Não é a primeira vez que dou um título em outra língua para um trabalho. Meu segundo livro saiu com o título em italiano: Gran Cabaret Demenzial. E tenho vários textos com títulos em línguas estrangeiras: “Argumentum chronologicum”, “Quand avez-vous le plus souffert?”, “L’après-midi de V. S.”, “Des cannibales” – cada um com sua razão própria de ser. Antes de ser um gesto anticomercial, é, para mim, um gesto artístico, um gesto poético. Que poesia e anticomércio, hoje em dia, acabem por coincidir é algo que talvez diga menos sobre meu romance do que sobre nossa sociedade ou nossa “vida cultural”. Com o título Opisanie Šwiata, queria produzir um estranhamento, que colocasse o leitor na posição de estrangeiro, como é a do personagem principal (o título está na língua dele). E não abriria mão deste gesto por um suposto aumento de vendas.

Seu livro dialoga com títulos brasileiros dos anos 1920 e tem até um viajado Bopp como personagem, alusão clara a Raul Bopp, autor do clássico modernista Cobra Norato. Esta aproximação explícita do modernismo é uma tentativa de dialogar com os valores estéticos desse movimento?
Sim. Vejo o Opisanie Šwiata como uma espécie de história poética do modernismo brasileiro, e não só brasileiro – uma homenagem a este período, que venho estudando bastante. Acredito que há uma vontade de experimentação, naquela fase da história artística e literária brasileira, que ainda não foi de todo esgotada. Daí eu ter buscado fazer, como dizem as anotações encontradas por Opalka no caderno de Natanael, “um livro antigo / um livro de viagens / com páginas que se desdobram”, isto é, um livro “moderno”. Às vezes, um desvio pelo passado (e não para o passado), um reencontro com aquilo que ainda permanece vivo no passado, pode ser a melhor maneira de ultrapassar os impasses estéticos do presente, a melhor maneira de seguir adiante. Por exemplo, há um modelo de ficção literária que foi se impondo ao longo dos últimos anos, que é o modelo chancelado e até mesmo promovido pela indústria editorial de língua inglesa. Este modelo, transformado em padrão por algumas editoras hegemônicas e por alguns jornais e revistas a elas associados, arriscou transformar a prosa literária brasileira contemporânea numa espécie de cover da literatura anglo-saxã. O que, convenhamos, é bastante melancólico para uma prosa que já teve um Oswald de Andrade ou uma Clarice Lispector. Todas as experiências que se contraponham, conscientemente ou não, a esse padrão, e à padronização dele resultante, contam com minha simpatia. Felizmente, posso nomear vários autores cujo sucesso (artístico, não comercial) demonstra que o padrão que se tentou e ainda se tenta impor já está em declínio: Nuno Ramos, André Sant’Anna, Marcelo Mirisola, Ricardo Lísias, João Paulo Cuenca, Paloma Vidal, Marcelino Freire, Alberto Martins, Carlos de Brito e Mello, Elvira Vigna, Evandro Affonso Ferreira, Juliano Garcia Pessanha, Vitor Ramil, Juliana Frank. Fico por aqui, mas haveria uns tantos outros nomes a citar.

O livro apresenta um cuidadoso trabalho visual, com imagens e cores que se alternam ao longo das páginas. Também Os Anões tinha um padrão gráfico sofisticado e único que emulava na forma a pequenez do título. Como foi sua participação no processo de edição visual? Você pensa seus livros como objetos artísticos?
Para mim, um livro não se resume ao texto. Costumo pensá-lo como um todo. Quando o estou escrevendo, já vou imaginando a forma que darei a ele, a organização interna dos textos, o tipo de papel, a capa, se terá ilustrações, que ilustrações etc. Por conta disso, quando entrego os originais na editora, sento-me com a equipe de design gráfico e explico toda a concepção do livro em seus mínimos detalhes. Em Opisanie Šwiata, por exemplo, há várias linhas narrativas: em primeira pessoa, em terceira pessoa, cartas, trechos de um guia de viagem, notícias, anúncios. E eu queria que cada uma dessas linhas tivesse uma diferenciação gráfica discreta, evitando recorrer ao itálico ou à mudança muito marcada de tipo de letra. Por isso, as páginas são coloridas. Além disso, imaginei a abertura do livro como a abertura de um filme, em que há uma espécie de prólogo antes dos créditos iniciais. Daí, o livro se abrir com as cartas e só depois disso apresentar seu título e minha assinatura, a dedicatória, as epígrafes.

Dramáticos legados da I Guerra

16 de outubro de 2014 0
Soldados nas trincheiras de La Lys, em Flandres, durante a I Guerra

Soldados nas trincheiras de La Lys, em Flandres, durante a I Guerra

Texto de Luiz Antonio Araújo

Lenço umedecido, zíper, horário de verão. Banco de sangue, tabagismo, “corredor polonês”. Aço inoxidável, saquinho de chá, comunicação por rádio a bordo de aeronaves. Genocídio, bombardeio aéreo, tanque de guerra. Nenhuma dessas expressões fazia sentido antes da I Guerra Mundial, e se hoje nos parecem familiares, é porque “é impossível entender o Breve Século 20 sem ela”, como escreveu o historiador britânico Eric Hobsbawm. Ou porque foi “a primeira calamidade do século 20, a calamidade da qual brotaram todas as outras”, no balanço mais explícito de outro historiador, o americano Fritz Stern.

A Grande Guerra, como batizada inicialmente pelos contemporâneos (a expressão “I Guerra Mundial” surgiu apenas ao final do conflito, quando ficou claro que seus horrores seriam reprisados), foi o apocalipse realmente existente para a civilização europeia. Antes dela, longas aventuras militares pareciam definitivamente confinadas a confins como Sudão e China. Depois, a linha de frente alcançou centros urbanos como Estrasburgo, Varsóvia e Salônica, onde havia cafés, automóveis e orquestras sinfônicas.

A guerra mobilizou 65 milhões de homens, demoliu quatro impérios e deixou 20 milhões de mortos entre militares e civis. Ao final de quatro anos, seis em cada 10 homens sérvios tinham perecido. Numa escala menor, um em cada quatro graduandos de Oxford e Cambridge, destinados desde o berço ao parlamento ou ao serviço colonial, foi parar nos cemitérios militares britânicos. Em pelo menos uma dimensão a profecia do presidente americano Woodrow Wilson, de que aquela seria “uma guerra para acabar com todas as guerras”, se realizou: os que nela combateram tornaram-se firmes partidários da paz. Entre as exceções, conta-se Adolf Hitler. O filósofo Karl Popper disse que o futuro não seria o que é se fosse possível conhecê-lo. Com a I Guerra, ocorre um fenômeno curioso: quanto mais a conhecemos, menos ela se parece com o que é, ou seja, um acontecimento que irrompeu há um século.

O historiador britânico Christopher Clark, autor do elogiado Os Sonâmbulos – Como Eclodiu a Primeira Guerra Mundial (Tradução de Berilo Vargas e Laura Motta. Companhia das Letras, 704 páginas, R$ 69,50), tem uma explicação que pareceria surpreendente: “se o debate é antigo, o tema ainda é atual. Na verdade, é ainda mais atual e mais relevante agora do que 20 ou 30 anos atrás. As mudanças no mundo alteraram nossa perspectiva sobre os acontecimentos de 1914”. É impossível não se impressionar com a seguinte descrição da crise que levou à guerra e do papel nela desempenhado pelo grupo terrorista sérvio Mão Negra, do qual fazia parte Gavrilo Príncip, jovem estudante que matou a tiros o arquiduque austríaco Francisco Ferdinando: “O processo começou com um esquadrão de homens-bomba suicidas e um cortejo de automóveis. Por trás do ultraje de Sarajevo estava uma organização declaradamente terrorista com um culto de sacrifício, morte e vingança; mas essa organização era extraterritorial, sem uma localização geográfica ou política clara; estava dispersa em células que transpunham fronteiras políticas, não tinha como ser chamada à responsabilidade, suas ligações com qualquer governo soberano eram indiretas, ocultas e certamente dificílimas de discernir fora da organização”. A força da obra de Clark, entretanto, não está num suposto recurso ao “presentismo”, que o historiador rejeita explicitamente. Ao contrário, ele enfatiza justamente o fato de que, morto o arquiduque, a chamada Crise de Julho adquiriu uma dinâmica própria, na qual teve peso decisivo o intrincado e pouco coerente sistema de alianças europeu e, no seu interior, a teia de interesses econômicos, políticos e por vezes pessoais que detonaram a matança. Os Sonâmbulos focaliza em detalhe a história dos Bálcãs, fronteira de três impérios (Austro-húngaro, Russo e Turco Otomano), e mostra como essa região crítica para a  Europa tornou-se, já no final do século 19, um barril de pólvora: a turbulência balcânica, assegura Clark, “forneceu a estrutura conceitual dentro da qual a crise, uma vez surgida, foi interpretada”. Voltando à analogia entre passado e presente, a desterritorialização da gestão de crises, hoje tornada possível por um sistema de governança global ainda incipiente, atua como freio contra colapsos incontroláveis como o de 1914, precipitado, segundo o britânico, por “rápidas interações entre centros de poder autônomos e pesadamente armados que confrontavam ameaças diferentes e cambiantes, e que operavam em condições de alto risco e baixa confiança e transparência”.

Em vez de se concentrar na Crise de Julho, O Horror da Guerra (Tradução de Janaína Marcoantonio. Planeta, 736 páginas, R$ 89,90), do britânico Niall Ferguson (publicado em 1998 e com edição brasileira em abril deste ano), é um opulento ensaio de 736 páginas em torno de 10 perguntas clássicas sobre a I Guerra. Algumas, como “A guerra foi recebida com entusiasmo popular?”, já foram exaustivamente respondidas (“Houve manifestações isoladas de entusiasmo chauvinista pela luta iminente, mas foram exceções”, afirma Clark). Outras, como “A propaganda, e especialmente a imprensa, mantiveram a guerra em curso, como acreditava Karl Kraus?”, só se justificam em função da admiração de Ferguson por Kraus. A pergunta fundamental do livro é a que permite ao autor exercitar sua veia polêmica, especialmente contra a visão estabelecida sobre a guerra entre historiadores britânicos: “A guerra era inevitável, seja por causa do militarismo, do imperialismo, da diplomacia secreta ou da corrida armamentista?”. As conclusões de Ferguson (em 1914, os europeus estavam dando as costas ao militarismo e abraçando a democracia, e a grande falha da Grã-Bretanha foi ter se omitido do ponto de vista político e militar em relação a esse fenômeno) são largamente baseadas em dados sobre a França e a Alemanha, evitando as águas profundas da Rússia e da Áustria-Hungria.

O livro de Ferguson tem o subtítulo Uma Provocativa Análise da I Guerra Mundial. Mas é O Adeus à Europa – A América Latina e a Grande Guerra (Tradução de Carlos Nougue. Rocco, 400 páginas, R$ 39,50), do francês Olivier Compagnon, o verdadeiro merecedor desse rótulo. Deixando de lado o mito conveniente de que a I Guerra foi um conflito europeu, ele muda o foco para seus efeitos na América Latina, a partir da dissecação da forma como a guerra foi vivida por Brasil e Argentina. Um dos alvos de Compagnon, especialista em história latino- americana, é a velha assertiva de que o período de 1889 a 1929 foi marcado, no subcontinente, pelo expansionismo americano (a política do “Grande Porrete” de Theodore Roosevelt), pela crise do modelo liberal-oligárquico e pelo crescimento das classes médias urbanas. O resultado é a instigante ideia, traduzida no título da obra, de que a guerra marcou o fim do idílio europeu das elites brasileiras e argentinas e permitiu o florescimento de um modernismo político e cultural que Compagnon relaciona à ascensão de correntes como o varguismo e o peronismo.

Secretário permanente da Academia Sueca, Peter Englund compõe um interessante painel da guerra a partir de cartas, diários, livros e entrevistas de 19 testemunhas da guerra. Dois são civis, quatro são mulheres e há um latino-americano, o venezuelano Rafael de Nogales, que, aos 35 anos, se junta às forças otomanas e assiste, horrorizado, ao massacre dos armênios da Anatólia.

Ainda que o material utilizado por Englund não seja inédito, A Beleza e a Dor – Uma História Íntima da Primeira Guerra Mundial está cheio de insights preciosos sobre a vida cotidiana no início do século passado e pode ser lido como uma biografia ou uma novela de aventuras. Catástrofe – 1914: A Europa Vai à Guerra, do britânico Max Hastings (Tradução de Berilo Vargas. Intrínseca, 672 páginas, R$ 49,90), é a estreia de um veterano historiador e jornalista, autor de mais de 20 livros sobre história militar, no território densamente povoado do caminho para a I Guerra. Trata-se de uma obra sob medida para os leitores que pretendem ter uma visão abrangente e vívida sobre o tema, com abundância de fontes e bibliografia e a prosa mais do que certeira de um grande narrador. Merecem destaque ainda as coleções de imagens de combates e de mapas – essenciais em qualquer livro sobre o assunto e infelizmente negligenciadas em outras obras – e a útil cronologia do ano de 1914.

Com tantos estudos e livros históricos, contudo, se há um lançamento da recente fornada sobre a I Guerra que merece ser comemorado, é uma ficção: a edição brasileira do romance As Aventuras do Bom Soldado Švejk, de Jaroslav Hašek, com tradução diretamente do checo por Luís Carlos Cabral. Clássico da literatura da Europa Central, cujos méritos foram reconhecidos pela primeira vez por Max Brod, amigo responsável pela preservação da obra de Franz Kafka, Švejk permaneceu por muito tempo ignorado em parte pela particularidade linguística: foi escrito em checo, língua pouco conhecida no Brasil (Kafka, também checo, escrevia em alemão). O romance, que já foi associado a Dom Quixote, acompanha a saga de Josef Švejk, um ex-comerciante de cães (profissão que também foi exercida pelo autor) que se integra ao exército austro-húngaro nos primeiros anos da guerra. As Aventuras do Bom Soldado Švejk merece figurar em qualquer lista do legado da I Guerra Mundial – quem sabe no lugar do bombardeio aéreo e muitas posições acima do zíper e do lenço umedecido.

Cores e flores astrais

03 de setembro de 2014 3
A escritora Eleanor Catton. Foto: NZatFrankfurt, Wikicommons

A escritora Eleanor Catton. Foto: NZatFrankfurt, Wikicommons

Logo de cara, a vitória do romance Os Luminares, de Eleanor Catton, na última edição do Man Booker Prize, uma das mais prestigiosas premiações para a literatura em língua inglesa, criou dois factoides que impulsionaram o hype sobre a obra. Então com 28 anos, Catton, canadense de nascimento mas radicada na Nova Zelândia desde a infância, foi a mais jovem escritora a ganhar o prêmio. E o romance, com suas mais de 800 páginas, foi a narrativa mais longa a ser agraciada. São informações que não têm correlação direta com a qualidade da obra (curiosidades como essas quase nunca têm). No máximo, a juventude da autora e a extensão peculiar do romance podem ser indícios a se pinçar no quadro das principais virtudes e problemas de Os Luminares: uma obra ambiciosa, surpreendentemente madura e erudita, construída em uma forma tão rigorosa que foi seguida até as últimas consequências – não necessariamente para o bem do livro.

Lançado há pouco no Brasil,Os Luminares (Tradução de Fabio Bonillo Globo, 880 páginas, R$ 69,90) se passa no interior da Nova Zelândia, entre 1865 e 1866, no auge da corrida do ouro que de fato teve lugar no país naqueles dias. No povoado de Hokitika, que no período de dois anos passou de um amontoado de cabanas para uma cidade em expansão, o recém-chegado Walter Moody surpreende inadvertidamente uma reunião de 12 homens no salão de um hotel. Todos estão ali para discutir quatro eventos aparentemente não relacionados, mas que se sucederam na mesma noite: a morte suspeita de um ermitão que vivia nas proximidades; a chegada a Hokitika de um candidato ao parlamento; o misterioso desaparecimento do mais jovem e bem-sucedido garimpeiro local e o fato de uma jovem prostituta ter sido encontrada quase morta devido a uma ingestão pesada de ópio.

Os presentes à misteriosa reunião são dois chineses (um garimpeiro e um ourives), um aborígene, um jornalista, um hoteleiro, um proprietário rico de minas da região, um corretor comissionado, um boticário, um funcionário do tribunal, um bancário e um agente portuário. Estão ali porque ao longo das últimas semanas cada um deles esteve envolvido com um ou mais dos quatro acontecimentos, que se revelam de algum modo conectados no momento em que aparecem na cidade uma ex-cafetina que se diz viúva do homem morto e um belicoso capitão de navio metido em expedientes escusos.

Os homens reunidos não são 12 por acaso: cada um corresponde a um signo do Zodíaco na arquitetura que sustenta a trama. Os outros que em torno deles “gravitam”, como o próprio Moody, a suposta viúva, o marinheiro, são planetas. À medida que a narrativa avança e recua, reconstituindo os contatos prévios de cada personagem com os demais, avança-se por um mapa celeste que espelha as interações dos personagens. Há outras surpresas formais. Escrito com uma linguagem suntuosa que por vezes parece acertar o ponto e por vezes parece um pastiche de Dickens, o romance se subdivide também em 12 capítulos, cada um passado em um mês. Como um livro que consome a si mesmo, cada capítulo é menor que o precedente, das longas 370 páginas do primeiro até uma vinheta de duas páginas no 12º.

Mesmo com uma estrutura tão metódica e planejada, o livro de Catton é uma leitura que flui enquanto entretece as narrativas de seus personagens, ligando-as a fraudes de registros de mineração, chantagens, adultérios, e a trajetória misteriosa de uma quantia em ouro desaparecida. Subterrâneas à trama, estão as movimentações de uma insuspeita história de amor entre dois personagens comparados ao sol e à lua na dinâmica do livro – são eles os “luminares” do título, coração camuflado da narrativa e subtrama na qual Catton cede a toques de fantástico que parecem deslocados no rigoroso realismo histórico de todo o resto. É ao amarrar suas histórias que o romance torna-se prisioneiro de sua estrutura. Depois de avançar por quatro capítulos de mais de 750 páginas, Catton acha por bem recuar a narrativa um ano no tempo para seguir os meses anteriores à reunião que abre a narrativa. É um recurso desnecessário a não ser para um tipo de leitor tão desatento que provavelmente já teria abandonado o livro antes – e que produz um paradoxo: as pouco mais de 100 páginas até o fim do romance são mais tediosas do que as 750 anteriores, por reiterarem relações já subentendidas.

Capa do livro Os Luminares

Capa do livro Os Luminares

Alice no país dos porto-alegrenses

15 de julho de 2014 2

quarentadias

Quarenta Dias, da escritora paulista Maria Valéria Rezende, conta uma história do tamanho do Brasil, embora restrinja seu foco a Porto Alegre. O romance (Alfaguara, 248 páginas, R$ 37,90) acompanha a paraibana Alice, professora na faixa dos 50 anos, que, após muita insistência, se vê praticamente obrigada a trocar João Pessoa por Porto Alegre – para ajudar a filha, professora universitária casada com um gaúcho – nos planos de uma futura gravidez. É do estranhamento de Alice com Porto Alegre, uma cidade de costumes e gentes diversos, nos quais outros nordestinos como a protagonista parecem sempre relegados à periferia e a funções subalternas, que Maria Valéria tece sua história.

Freira da Congregação de Nossa Senhora, Maria Valéria não ignora as referências bíblicas do título de seu romance. Se no Evangelho de Mateus Jesus passa 40 dias em uma ascese mística jejuando no deserto, período em que é tentado com o reino material pelo próprio Diabo, a protagonista do romance migra de sua pacata e já estabelecida vida nordestina para um deserto sem conhecidos e amigos, no qual o conforto material e o consumismo inconsequente são as grandes tentações mascarando uma vida vazia.

Os Quarenta Dias mencionados no título são um período crucial da narrativa, no qual Alice, sozinha em Porto Alegre devido a uma reviravolta familiar que soa um tanto forçada, se lança a vagar sem rumo pela cidade desconhecida, dormindo em parques, saguões de hospital e bancos de rodoviária, com o pretexto de encontrar o filho de uma amiga  pernambucana. Maria Valéria Rezende já comentou em entrevistas que elaborou a história e depois passou um tempo em Porto Alegre pondo à prova as errâncias da personagem.

Tal circunstância talvez explique a irregularidade do livro: a fragilidade dos eventos construídos para empurrar Alice para sua caminhada. Os encontros e contatos espontâneos que Alice estabelece com as pessoas do lugar são a maior riqueza do romance. Por baixo de sotaques e hábitos diversos, Alice vai tecendo elos fugazes com pessoas que, no fundo, ela não tarda a perceber, carregam muitas das mesmas angústias da própria protagonista: solidão, falta de conexão com o mundo ao redor, cansaço, solidariedade. As trombadas de Alice com a árida Porto Alegre também servem para uma denúncia sutil do racismo e do preconceito velados que este Rio Grande do Sul tão orgulhoso de si mesmo nunca admite que pratica.

Por mais errático que seja o caminho de Alice, é gratificante trilhá-lo com ela. O problema é que, até o início dessa jornada, a autora se estende por 60 páginas no rame-rame da relação insatisfatória de Alice com sua filha, com o genro, com o estranho apartamento “todo em preto e branco” em que foi alojada. A história se ilumina quando Alice finalmente abre a porta e se aventura nas ruas frias e estranhas de Porto Alegre.  Pena que ela não faça isso mais cedo.

O México como história policial

11 de julho de 2014 1

arrecife

Se uma narrativa começa com a descoberta de um cadáver, é bastante provável que se trate de um história policial. Isso é verdade apenas até certo ponto para Arrecife, romance do mexicano Juan Villoro que ganha edição agora no Brasil (Companhia das Letras, 240 páginas, R$ 39,90. Tradução de Josely Vianna Baptista). Embora não deixe de ser uma história de crime, Arrecife não busca apenas a resolução de um único homicídio, mas a reconstrução do caminho que levou o próprio país a um inferno social e criminal.

Villoro é um um dos grandes autores mexicanos contemporâneos. Pertence a uma geração mais recente que os canônicos Carlos Fuentes, Octávio Paz ou Elena Poniatowzka. Ele e outros autores, como Juan Pablo Villalobos ou Jorge Zepeda Patterson, se distinguem por encarar abertamente como tema a violência endêmica na sociedade mexicana – em certos aspectos bem parecida com a brasileira, situação agravada pela interferência do vizinho Estados Unidos e pela ação do narcotráfico. Cada qual a seu modo, seus livros falam de um México sangrado até o limite do surrealismo, aproveitando para isso o cruzamento de referências, olhares e gêneros.

Em Arrecife, um grupo de personagens alquebrados gravita em torno de um empreendimento hoteleiro chamado La Piramide – um resort de luxo no Caribe que oferece como diferencial a seus hóspedes, turistas endinheirados da Europa e dos EUA, a sensação de perigo que se vive em uma região conflagrada pelo narcotráfico e pela disparidade social. Um programa que inclui sequestros encenados e encontros com guerrilhas falsas compostas por atores contratados.

Até que um dos mergulhadores contratados, o americano Ginger Oldenville, aparece assassinado diante do aquário do hotel, com um arpão nas costas. Quem conduz a narrativa é Tony Góngora, ex-roqueiro aposentado com vazios na memória devido ao abuso de drogas. Contratado para o resort por um amigo de infância e ex-colega de banda – que agora gerencia o local e seu programa de “violência recreativa” –, Tony se vê enredado nas consequências da investigação, que se complicam depois que outro mergulhador, amigo e talvez amante do primeiro, é encontrado morto em alto-mar, e a possibilidade de um pacto suicida entre ambos é sugerida.

É aqui que Villoro marca a diferença entre seu romance e uma novela de crime tradicional. A investigação propriamente dita corre à parte das ações de Tony, e o foco se concentra em sua relação com outros personagens que também veem no La Piramide um ponto de recomeço para desastres passados. À medida que a narrativa enfoca cada vez mais o passado de Tony como roqueiro e bicho-grilo dos anos 1970 aos 1990, mais se imiscui na trama o México infernal do século 21, com os rios de sangue vertidos pelo narcotráfico – que Villoro, inteligentemente, associa ao dos sacrifícios maias, centro de um passado histórico e mítico também regado com sangue.

Crime de sangue na aurora do Brasil

23 de junho de 2014 1

A primeira historia do mundo

Não é comum encontrar em listas de “melhores autores brasileiros contemporâneos” ou “gente que está fazendo a nova literatura” e outras denominações semelhantes o nome de Alberto Mussa. O que, dada a qualidade da obra que vem tecendo com paciência ao longo das últimas duas décadas, é francamente incompreensível. Mussa dá mais motivos para essa perplexidade com a publicação, agora, de A Primeira História do Mundo, livro no qual reconstrói, com o misto de prosa ensaística e literária que é característico de seu trabalho, o primeiro crime de sangue registrado no ainda jovem território do Brasil.

A Primeira História do Mundo parte de um fato real: o assassinato de um serralheiro morto com sete (talvez oito) flechadas no Rio de Janeiro de 1567. Em uma cidade com apenas três ruas, ainda cercada pela mata, e com cerca de 400 habitantes, nove homens foram apontados como possíveis autores do crime, de acordo com os registros do procedimento judicial instalado para averiguar o homicídio.  O livro compõe uma trilogia com O Trono da Rainha Jinga, passado em 1626, e O Senhor do Lado Esquerdo, ambientado em 1910. Nos três, Mussa usa a estrutura de um romance policial para engendrar uma mitologia urbana do Rio em diferentes períodos históricos. Ele já anunciou que pretende escrever outros dois romances para outros dois séculos da cidade: o 18 e o 19.

Além de ser parte desse projeto maior, outra possível leitura de A Primeira História do Mundo é a de uma condensação de elementos já trabalhados pelo autor ao longo de sua carreira. O motivo do crime, segundo o processo, seria um adultério, indiscrição à qual Mussa dedicou o romance O Movimento Pendular, no qual se propunha a fazer uma teoria classificatória das variantes do adultério na literatura. A presença de indígenas por toda parte nesse Rio ainda em formação dá a Mussa a oportunidade de tangenciar outra vez o rico universo da tradição autóctone, que ele já havia abordado em Meu Destino é Ser Onça, no qual apresenta uma versão reconstituída da cosmogonia tupinambá.

O que mais surpreende em A Primeira História do Mundo são as soluções que Mussa, criando um narrador que refletindo sobre seus próprios procedimentos, encontra nessa reflexão as ferramentas  para especular as sutilezas de um inquérito do qual só sobraram os depoimentos por escrito, tomados há mais de 400 anos. Um toque de originalidade usando a sempre difícil, porque rígida, moldura do romance policial.

Conflito de versões numa terra fraturada

13 de junho de 2014 0
Capa do livro "Absolvição"

Capa do livro “Absolvição”

Estratégias comerciais de editoras podem ser um involuntário problema para o autor. Veja-se o caso do recente Absolvição, romance de estreia do escritor sul-africano Patrick Flanery (Alfaguara, tradução de Ângela Nogueira Pessoa, 408 páginas, R$ 54,90 impresso, R$ 29,90 em e-book ). Flanery aborda, em um romance longo e de estrutura fragmentada, as feridas e os traumas da transição da África do Sul ao fim do apartheid. Apartheid + autor africano, a editora faz as contas e se apressa a informar na orelha que o autor vem sendo “comparado a J.M. Coetzee por sua visão sombria e desconcertante da história sul-africana”.

Para quem acredita no que se lê em orelhas de livros (o que não se deveria fazer, mas até aí também não se deveria dirigir sem cinto de segurança, vai saber), a afirmação pode ser irresistível, mas é bobagem. Tirando a nacionalidade do autor e o fato de o romance se passar na África do Sul, Flanery, com uma prosa detalhista e centrada em vasculhar as emoções de seus personagens, não poderia estar mais distante do Nobel Coetzee. É aí que surge o involuntário problema, porque a orelha vende errado o peixe certo: Flanery não é Coetzee, e não precisa ser, para tornar Absolvição um romance muito interessante.

Absolvição é, em uma análise sintética, um estudo sobre as diferentes formas de esconder a verdade que se desenvolvem na esteira de um regime totalitário. A trama entrelaça as vidas de Clare Wald, uma célebre e já idosa escritora sul-africana, e de Sam Leroux, acadêmico contratado para escrever a biografia da grande autora. Parte da narrativa encena as entrevistas entre ambos, na casa para a qual a escritora se mudou após uma suspeita tentativa de assalto. As interações entre Clare e Sam são inicialmente ásperas, com a autora deixando clara toda sua má vontade com o projeto da biografia, aparentemente imposto pelo seu editor. À medida que os contatos vão se tornando mais íntimos e o diálogo mais franco, outras linhas narrativas vão dando pistas de que, embora não toquem no assunto, ambos estão ligados por circunstâncias passadas e por traumas antigos de ambos: o assassinato da irmã de Clare, casada com um figurão da extrema-direita pró-apartheid; o desaparecimento da filha da escritora, Laura, ligada à luta armada contra o regime separatista; a infância infeliz de Sam, órfão adotado por um tio violento e abusivo.

Embora a concatenação dessas linhas narrativas possa ter um quê de desconcertante novela mexicana, o que está no centro de Absolvição é o conflito de versões entre o que Sam sabe, ou pensa que lembra, o que os registros contam, o que Clare está disposta a contar ou imagina, como ficcionista que é. Uma ciranda de dissimulações que a seu modo reproduz a lógica ditatorial do regime do apartheid. Em um Estado que mente, segrega e tortura, o resultado só poderia ser uma sociedade em que a desconfiança é a norma. O olhar múltiplo de Flanery também para as vítimas do processo histórico encontrará ressonância em um Brasil que ainda luta para purgar os crimes de sua própria ditadura.

Lançamentos do TVCOM Tudo Mais

29 de maio de 2014 2

Nesta quarta-feira, Carlos André Moreira comentou os seguintes lançamentos no TVCOM Tudo Mais:

A Queda da América, de Allen Ginsberg (Poesia, L&PM Pocket, 224 páginas, R$ 18,90)

Poesia Total, de Wally Salomão (Poesia, Companhia das Letras, 540 páginas, R$ 49)

Roseanna, de Maj Sjowall e Per Wahloo (Romance policial, Record, 256 páginas, R$ 35)

O Horror da Guerra, de Niall Ferguson (História Geral, Planeta do Brasil, 768 páginas, R$ 89,90)

Os Maias, de Eça de Queirós (Romance, edição comentada e ilustrada, Zahar, 576 páginas, R$ 64,90)