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Cores e flores astrais

03 de setembro de 2014 3
A escritora Eleanor Catton. Foto: NZatFrankfurt, Wikicommons

A escritora Eleanor Catton. Foto: NZatFrankfurt, Wikicommons

Logo de cara, a vitória do romance Os Luminares, de Eleanor Catton, na última edição do Man Booker Prize, uma das mais prestigiosas premiações para a literatura em língua inglesa, criou dois factoides que impulsionaram o hype sobre a obra. Então com 28 anos, Catton, canadense de nascimento mas radicada na Nova Zelândia desde a infância, foi a mais jovem escritora a ganhar o prêmio. E o romance, com suas mais de 800 páginas, foi a narrativa mais longa a ser agraciada. São informações que não têm correlação direta com a qualidade da obra (curiosidades como essas quase nunca têm). No máximo, a juventude da autora e a extensão peculiar do romance podem ser indícios a se pinçar no quadro das principais virtudes e problemas de Os Luminares: uma obra ambiciosa, surpreendentemente madura e erudita, construída em uma forma tão rigorosa que foi seguida até as últimas consequências – não necessariamente para o bem do livro.

Lançado há pouco no Brasil,Os Luminares (Tradução de Fabio Bonillo Globo, 880 páginas, R$ 69,90) se passa no interior da Nova Zelândia, entre 1865 e 1866, no auge da corrida do ouro que de fato teve lugar no país naqueles dias. No povoado de Hokitika, que no período de dois anos passou de um amontoado de cabanas para uma cidade em expansão, o recém-chegado Walter Moody surpreende inadvertidamente uma reunião de 12 homens no salão de um hotel. Todos estão ali para discutir quatro eventos aparentemente não relacionados, mas que se sucederam na mesma noite: a morte suspeita de um ermitão que vivia nas proximidades; a chegada a Hokitika de um candidato ao parlamento; o misterioso desaparecimento do mais jovem e bem-sucedido garimpeiro local e o fato de uma jovem prostituta ter sido encontrada quase morta devido a uma ingestão pesada de ópio.

Os presentes à misteriosa reunião são dois chineses (um garimpeiro e um ourives), um aborígene, um jornalista, um hoteleiro, um proprietário rico de minas da região, um corretor comissionado, um boticário, um funcionário do tribunal, um bancário e um agente portuário. Estão ali porque ao longo das últimas semanas cada um deles esteve envolvido com um ou mais dos quatro acontecimentos, que se revelam de algum modo conectados no momento em que aparecem na cidade uma ex-cafetina que se diz viúva do homem morto e um belicoso capitão de navio metido em expedientes escusos.

Os homens reunidos não são 12 por acaso: cada um corresponde a um signo do Zodíaco na arquitetura que sustenta a trama. Os outros que em torno deles “gravitam”, como o próprio Moody, a suposta viúva, o marinheiro, são planetas. À medida que a narrativa avança e recua, reconstituindo os contatos prévios de cada personagem com os demais, avança-se por um mapa celeste que espelha as interações dos personagens. Há outras surpresas formais. Escrito com uma linguagem suntuosa que por vezes parece acertar o ponto e por vezes parece um pastiche de Dickens, o romance se subdivide também em 12 capítulos, cada um passado em um mês. Como um livro que consome a si mesmo, cada capítulo é menor que o precedente, das longas 370 páginas do primeiro até uma vinheta de duas páginas no 12º.

Mesmo com uma estrutura tão metódica e planejada, o livro de Catton é uma leitura que flui enquanto entretece as narrativas de seus personagens, ligando-as a fraudes de registros de mineração, chantagens, adultérios, e a trajetória misteriosa de uma quantia em ouro desaparecida. Subterrâneas à trama, estão as movimentações de uma insuspeita história de amor entre dois personagens comparados ao sol e à lua na dinâmica do livro – são eles os “luminares” do título, coração camuflado da narrativa e subtrama na qual Catton cede a toques de fantástico que parecem deslocados no rigoroso realismo histórico de todo o resto. É ao amarrar suas histórias que o romance torna-se prisioneiro de sua estrutura. Depois de avançar por quatro capítulos de mais de 750 páginas, Catton acha por bem recuar a narrativa um ano no tempo para seguir os meses anteriores à reunião que abre a narrativa. É um recurso desnecessário a não ser para um tipo de leitor tão desatento que provavelmente já teria abandonado o livro antes – e que produz um paradoxo: as pouco mais de 100 páginas até o fim do romance são mais tediosas do que as 750 anteriores, por reiterarem relações já subentendidas.

Capa do livro Os Luminares

Capa do livro Os Luminares

Alice no país dos porto-alegrenses

15 de julho de 2014 2

quarentadias

Quarenta Dias, da escritora paulista Maria Valéria Rezende, conta uma história do tamanho do Brasil, embora restrinja seu foco a Porto Alegre. O romance (Alfaguara, 248 páginas, R$ 37,90) acompanha a paraibana Alice, professora na faixa dos 50 anos, que, após muita insistência, se vê praticamente obrigada a trocar João Pessoa por Porto Alegre – para ajudar a filha, professora universitária casada com um gaúcho – nos planos de uma futura gravidez. É do estranhamento de Alice com Porto Alegre, uma cidade de costumes e gentes diversos, nos quais outros nordestinos como a protagonista parecem sempre relegados à periferia e a funções subalternas, que Maria Valéria tece sua história.

Freira da Congregação de Nossa Senhora, Maria Valéria não ignora as referências bíblicas do título de seu romance. Se no Evangelho de Mateus Jesus passa 40 dias em uma ascese mística jejuando no deserto, período em que é tentado com o reino material pelo próprio Diabo, a protagonista do romance migra de sua pacata e já estabelecida vida nordestina para um deserto sem conhecidos e amigos, no qual o conforto material e o consumismo inconsequente são as grandes tentações mascarando uma vida vazia.

Os Quarenta Dias mencionados no título são um período crucial da narrativa, no qual Alice, sozinha em Porto Alegre devido a uma reviravolta familiar que soa um tanto forçada, se lança a vagar sem rumo pela cidade desconhecida, dormindo em parques, saguões de hospital e bancos de rodoviária, com o pretexto de encontrar o filho de uma amiga  pernambucana. Maria Valéria Rezende já comentou em entrevistas que elaborou a história e depois passou um tempo em Porto Alegre pondo à prova as errâncias da personagem.

Tal circunstância talvez explique a irregularidade do livro: a fragilidade dos eventos construídos para empurrar Alice para sua caminhada. Os encontros e contatos espontâneos que Alice estabelece com as pessoas do lugar são a maior riqueza do romance. Por baixo de sotaques e hábitos diversos, Alice vai tecendo elos fugazes com pessoas que, no fundo, ela não tarda a perceber, carregam muitas das mesmas angústias da própria protagonista: solidão, falta de conexão com o mundo ao redor, cansaço, solidariedade. As trombadas de Alice com a árida Porto Alegre também servem para uma denúncia sutil do racismo e do preconceito velados que este Rio Grande do Sul tão orgulhoso de si mesmo nunca admite que pratica.

Por mais errático que seja o caminho de Alice, é gratificante trilhá-lo com ela. O problema é que, até o início dessa jornada, a autora se estende por 60 páginas no rame-rame da relação insatisfatória de Alice com sua filha, com o genro, com o estranho apartamento “todo em preto e branco” em que foi alojada. A história se ilumina quando Alice finalmente abre a porta e se aventura nas ruas frias e estranhas de Porto Alegre.  Pena que ela não faça isso mais cedo.

O México como história policial

11 de julho de 2014 1

arrecife

Se uma narrativa começa com a descoberta de um cadáver, é bastante provável que se trate de um história policial. Isso é verdade apenas até certo ponto para Arrecife, romance do mexicano Juan Villoro que ganha edição agora no Brasil (Companhia das Letras, 240 páginas, R$ 39,90. Tradução de Josely Vianna Baptista). Embora não deixe de ser uma história de crime, Arrecife não busca apenas a resolução de um único homicídio, mas a reconstrução do caminho que levou o próprio país a um inferno social e criminal.

Villoro é um um dos grandes autores mexicanos contemporâneos. Pertence a uma geração mais recente que os canônicos Carlos Fuentes, Octávio Paz ou Elena Poniatowzka. Ele e outros autores, como Juan Pablo Villalobos ou Jorge Zepeda Patterson, se distinguem por encarar abertamente como tema a violência endêmica na sociedade mexicana – em certos aspectos bem parecida com a brasileira, situação agravada pela interferência do vizinho Estados Unidos e pela ação do narcotráfico. Cada qual a seu modo, seus livros falam de um México sangrado até o limite do surrealismo, aproveitando para isso o cruzamento de referências, olhares e gêneros.

Em Arrecife, um grupo de personagens alquebrados gravita em torno de um empreendimento hoteleiro chamado La Piramide – um resort de luxo no Caribe que oferece como diferencial a seus hóspedes, turistas endinheirados da Europa e dos EUA, a sensação de perigo que se vive em uma região conflagrada pelo narcotráfico e pela disparidade social. Um programa que inclui sequestros encenados e encontros com guerrilhas falsas compostas por atores contratados.

Até que um dos mergulhadores contratados, o americano Ginger Oldenville, aparece assassinado diante do aquário do hotel, com um arpão nas costas. Quem conduz a narrativa é Tony Góngora, ex-roqueiro aposentado com vazios na memória devido ao abuso de drogas. Contratado para o resort por um amigo de infância e ex-colega de banda – que agora gerencia o local e seu programa de “violência recreativa” –, Tony se vê enredado nas consequências da investigação, que se complicam depois que outro mergulhador, amigo e talvez amante do primeiro, é encontrado morto em alto-mar, e a possibilidade de um pacto suicida entre ambos é sugerida.

É aqui que Villoro marca a diferença entre seu romance e uma novela de crime tradicional. A investigação propriamente dita corre à parte das ações de Tony, e o foco se concentra em sua relação com outros personagens que também veem no La Piramide um ponto de recomeço para desastres passados. À medida que a narrativa enfoca cada vez mais o passado de Tony como roqueiro e bicho-grilo dos anos 1970 aos 1990, mais se imiscui na trama o México infernal do século 21, com os rios de sangue vertidos pelo narcotráfico – que Villoro, inteligentemente, associa ao dos sacrifícios maias, centro de um passado histórico e mítico também regado com sangue.

Crime de sangue na aurora do Brasil

23 de junho de 2014 0

A primeira historia do mundo

Não é comum encontrar em listas de “melhores autores brasileiros contemporâneos” ou “gente que está fazendo a nova literatura” e outras denominações semelhantes o nome de Alberto Mussa. O que, dada a qualidade da obra que vem tecendo com paciência ao longo das últimas duas décadas, é francamente incompreensível. Mussa dá mais motivos para essa perplexidade com a publicação, agora, de A Primeira História do Mundo, livro no qual reconstrói, com o misto de prosa ensaística e literária que é característico de seu trabalho, o primeiro crime de sangue registrado no ainda jovem território do Brasil.

A Primeira História do Mundo parte de um fato real: o assassinato de um serralheiro morto com sete (talvez oito) flechadas no Rio de Janeiro de 1567. Em uma cidade com apenas três ruas, ainda cercada pela mata, e com cerca de 400 habitantes, nove homens foram apontados como possíveis autores do crime, de acordo com os registros do procedimento judicial instalado para averiguar o homicídio.  O livro compõe uma trilogia com O Trono da Rainha Jinga, passado em 1626, e O Senhor do Lado Esquerdo, ambientado em 1910. Nos três, Mussa usa a estrutura de um romance policial para engendrar uma mitologia urbana do Rio em diferentes períodos históricos. Ele já anunciou que pretende escrever outros dois romances para outros dois séculos da cidade: o 18 e o 19.

Além de ser parte desse projeto maior, outra possível leitura de A Primeira História do Mundo é a de uma condensação de elementos já trabalhados pelo autor ao longo de sua carreira. O motivo do crime, segundo o processo, seria um adultério, indiscrição à qual Mussa dedicou o romance O Movimento Pendular, no qual se propunha a fazer uma teoria classificatória das variantes do adultério na literatura. A presença de indígenas por toda parte nesse Rio ainda em formação dá a Mussa a oportunidade de tangenciar outra vez o rico universo da tradição autóctone, que ele já havia abordado em Meu Destino é Ser Onça, no qual apresenta uma versão reconstituída da cosmogonia tupinambá.

O que mais surpreende em A Primeira História do Mundo são as soluções que Mussa, criando um narrador que refletindo sobre seus próprios procedimentos, encontra nessa reflexão as ferramentas  para especular as sutilezas de um inquérito do qual só sobraram os depoimentos por escrito, tomados há mais de 400 anos. Um toque de originalidade usando a sempre difícil, porque rígida, moldura do romance policial.

Conflito de versões numa terra fraturada

13 de junho de 2014 0
Capa do livro "Absolvição"

Capa do livro “Absolvição”

Estratégias comerciais de editoras podem ser um involuntário problema para o autor. Veja-se o caso do recente Absolvição, romance de estreia do escritor sul-africano Patrick Flanery (Alfaguara, tradução de Ângela Nogueira Pessoa, 408 páginas, R$ 54,90 impresso, R$ 29,90 em e-book ). Flanery aborda, em um romance longo e de estrutura fragmentada, as feridas e os traumas da transição da África do Sul ao fim do apartheid. Apartheid + autor africano, a editora faz as contas e se apressa a informar na orelha que o autor vem sendo “comparado a J.M. Coetzee por sua visão sombria e desconcertante da história sul-africana”.

Para quem acredita no que se lê em orelhas de livros (o que não se deveria fazer, mas até aí também não se deveria dirigir sem cinto de segurança, vai saber), a afirmação pode ser irresistível, mas é bobagem. Tirando a nacionalidade do autor e o fato de o romance se passar na África do Sul, Flanery, com uma prosa detalhista e centrada em vasculhar as emoções de seus personagens, não poderia estar mais distante do Nobel Coetzee. É aí que surge o involuntário problema, porque a orelha vende errado o peixe certo: Flanery não é Coetzee, e não precisa ser, para tornar Absolvição um romance muito interessante.

Absolvição é, em uma análise sintética, um estudo sobre as diferentes formas de esconder a verdade que se desenvolvem na esteira de um regime totalitário. A trama entrelaça as vidas de Clare Wald, uma célebre e já idosa escritora sul-africana, e de Sam Leroux, acadêmico contratado para escrever a biografia da grande autora. Parte da narrativa encena as entrevistas entre ambos, na casa para a qual a escritora se mudou após uma suspeita tentativa de assalto. As interações entre Clare e Sam são inicialmente ásperas, com a autora deixando clara toda sua má vontade com o projeto da biografia, aparentemente imposto pelo seu editor. À medida que os contatos vão se tornando mais íntimos e o diálogo mais franco, outras linhas narrativas vão dando pistas de que, embora não toquem no assunto, ambos estão ligados por circunstâncias passadas e por traumas antigos de ambos: o assassinato da irmã de Clare, casada com um figurão da extrema-direita pró-apartheid; o desaparecimento da filha da escritora, Laura, ligada à luta armada contra o regime separatista; a infância infeliz de Sam, órfão adotado por um tio violento e abusivo.

Embora a concatenação dessas linhas narrativas possa ter um quê de desconcertante novela mexicana, o que está no centro de Absolvição é o conflito de versões entre o que Sam sabe, ou pensa que lembra, o que os registros contam, o que Clare está disposta a contar ou imagina, como ficcionista que é. Uma ciranda de dissimulações que a seu modo reproduz a lógica ditatorial do regime do apartheid. Em um Estado que mente, segrega e tortura, o resultado só poderia ser uma sociedade em que a desconfiança é a norma. O olhar múltiplo de Flanery também para as vítimas do processo histórico encontrará ressonância em um Brasil que ainda luta para purgar os crimes de sua própria ditadura.

Lançamentos do TVCOM Tudo Mais

29 de maio de 2014 2

Nesta quarta-feira, Carlos André Moreira comentou os seguintes lançamentos no TVCOM Tudo Mais:

A Queda da América, de Allen Ginsberg (Poesia, L&PM Pocket, 224 páginas, R$ 18,90)

Poesia Total, de Wally Salomão (Poesia, Companhia das Letras, 540 páginas, R$ 49)

Roseanna, de Maj Sjowall e Per Wahloo (Romance policial, Record, 256 páginas, R$ 35)

O Horror da Guerra, de Niall Ferguson (História Geral, Planeta do Brasil, 768 páginas, R$ 89,90)

Os Maias, de Eça de Queirós (Romance, edição comentada e ilustrada, Zahar, 576 páginas, R$ 64,90)

O Rei de Amarelo: Genealogia do Horror

23 de maio de 2014 0

Capa de O Rei de Amarelo

O Rei de Amarelo, do escritor americano Robert W. Chambers (1865 – 1933), foi publicado em 1895, mas foi preciso uma série de sucesso na TV mais de cem anos depois para que ele ganhasse uma chance no mercado livreiro nacional. As referências a um “Yellow King” no programa True Detective, exibido pela HBO, despertaram o interesse sobre esta obra considerada um clássico do horror e uma influência para nomes como H.P. Lovecraft e Robert E. Howard, anos mais tarde.

A própria leitura de O Rei de Amarelo (Tradução de Edmundo Barreiros, Intrínseca, 256 páginas, R$ 19, 90) é uma boa oportunidade para leitores chegados em genealogias, uma vez que por suas páginas desfilam, como em uma síntese, elementos que Chambers pega emprestado de seus precursores mais diretos (incluindo mestres do gótico na literatura) e coisas que foram amplamente aproveitadas por escritores que vieram depois – à “metaficção” que é moda em estudos pós-modernos.

A obra se estrutura em 10 contos ligados entre si por um “livro dentro do livro”: uma peça em dois atos chamada O Rei de Amarelo, “terrível em sua simplicidade, irresistível em sua verdade”. O texto da peça, do qual Chambers sabiamente fornece apenas versos isolados e vislumbres, tem o perturbador efeito de levar quem o lê à loucura, pelo horror retratado em suas páginas.

Chambers pega emprestado nomes e conceitos de Ambrose Bierce; a representação do “Rei de Amarelo” como uma figura encapuzada coberta de trapos deve um pouco a Edgar Allan Poe no conto A Máscara da Morte Rubra. O tom de neurastenia e pesadelo do conjunto também vem diretamente de Poe. Já a ideia de um “livro amaldiçoado” influenciaria H.P. Lovecraft na criação do terrível Necronomicon, o “livro dos nomes mortos”.

Chambers mistura o horror com algo de ficção científica, ao imaginar, logo no primeiro conto, um futuro no qual os Estados Unidos se tornaram uma suposta “utopia” nacionalista, sem negros e na qual o “problema dos índios” foi resolvido e o governo providencia “câmaras de suicídio” para os que não suportam mais a vida naquela comunidade (ecos dessa ideia  no programa Futurama não devem ser coincidência). As demais narrativas, contudo, enfocam em sua maioria estudantes de arte em Paris às voltas com sombrias aparições, sonhos perigosos e fórmulas químicas inacreditáveis. Com essa mudança, o conjunto vai gradualmente se tornando desigual. O mérito de Chambers está na poderosa imaginação, mas a cadência de seu texto por vezes carrega nas tintas excessivas da prosa romântica do período.

Três perguntas para Marcelino Freire, homenageado da 7ª FestiPoa

19 de maio de 2014 0

marcelinoFoto: Virginia Ramos / Divulgação

Nesta segunda-feira começa mais uma FestiPoa Literária! Até domingo, bate-papos e leituras com atrações nacionais e internacionais ocorrem em diferentes pontos da cidade. O homenageado da vez é o escritor pernambucano Marcelino Freire. Reconhecido contista, o autor lança em Porto Alegre seu primeiro romance, Nossos Ossos (Record, 128 páginas, divulgação). A sessão de autógrafos será logo na primeira noite da Festa, às 20h, no Instituto Goethe, depois de mesa de debate com o escritor iniciada às 18h30min (confira aqui a programação completa). Carlos André Moreira, editor do PrOA e deste blog, preparou três perguntas sobre a homenagem para Marcelino. Confira as respostas na íntegra:

Você é um participante frequente de encontros literários – já veio mais de uma vez à FestiPoa, à Feira do Livro, à jornada de Passo Fundo, apenas para ficar no Rio Grande do Sul. Você é um escritor meio cigano?
Agora mesmo eu respondo a essa pergunta do aeroporto Santos Dumont no Rio de Janeiro. Os voos todos sofreram atraso metereológico. Eta danado! Eu sou até um escritor cigano, mas às vezes o céu não está para brigadeiro. Ave nossa! Cabra, eu vou aonde sou chamado. Assim: para falar daquilo que eu amo, eu sou capaz de cruzar fronteiras, a pé, a nado, eternamente. Até dezembro irei para umas dezenas de cidades pelo Brasil. Sou cigano, camelô, repito, o que for preciso para, cangaceiramente, fisgar o leitor à unha.

Você é um autor com menos de 50 anos. Soa de algum modo engraçado ser “autor homenageado” tão jovem?
Acho que o meu fim está próximo, tão moço que sou. No mesmo dia em que fui avisado da homenagem da FestiPoa, recebi o convite para ser o homenageado da Bienal do Livro de Pernambuco do ano que vem. Aceitei com carinho, e até susto, essas duas homenagens. Assisto, na página no Facebook da FestiPoa, a depoimentos lindos a meu respeito. Fico emocionado e me perguntando se, de fato, mereço. De minha parte, fecho os olhos e agradeço. Espero estar vivo até lá (se o avião deixar, por exemplo) para abraçar os amigos e bebemorar.

O que você espera do encontro com o público da Festipoa Literária?
Eu amo o Rio Grande do Sul. Sempre fui muito bem recebido pelas bandas daí. Tenho vários amigos, leitores queridos, gente que abriu o coração para o meu trabalho. Pessoalmente vou beijar a mão de todo mundo, brindar e brindar. Como homenageado, acho que vou beber mais do que os outros. Já preparei o meu peito, já reservei o que ainda resta do meu fígado.

Todorov discute a obra de Goya

16 de maio de 2014 0
Quatro "Três de Maio de 1808", de Goya

Quatro “Três de Maio de 1808″, de Goya. Reprodução, ZH

Em uma de suas pinturas mais famosas, Três de Maio de 1808 em Madrid (imagem acima), o artista espanhol Francisco de Goya (1746 – 1828) usa a luz de forma quase sobrenatural para atrair a atenção do espectador para o personagem central. A cena é dramática: diante de um pelotão de fuzilamento, um homem levanta os braços, como o duplo de um Cristo crucificado. Soldados sem rosto, corpos ensanguentados no chão e o olhar de desespero de seus companheiros completam a cena. No ambiente de horror e trevas que cerca o condenado, sua camisa imaculadamente branca explode na tela como um clamor silencioso pela paz – e pela própria luz.

Em Goya – À Sombra das Luzes (Companhia das Letras, 281 páginas, R$ 49,50), Tzvetan Todorov, que esteve em Porto Alegre há dois anos no seminário Fronteiras do Pensamento, investiga luz e sombra na obra do pintor, mas não no sentido concreto do jogo cromático. As luzes, aqui, são as do Iluminismo, e as sombras, a obra “secreta” do pintor, criada à margem da atividade como artista oficial da corte que durante anos garantiu seu sustento.

A grande guinada de sua carreira, de pintor convencional a artista que retratava as angústias e os pesadelos de sua época (e de todas as épocas), acontece depois de uma doença que o acometeu por volta dos 40 anos. Seus quadros, antes repletos apenas por reis e rainhas em trajes de gala, passam a exibir também loucos, prisioneiros, velhos, crianças abandonadas, mulheres violentadas.

Interessa a Todorov apontar o diálogo desta vertente clandestina da obra de Goya – que ele cria para si mesmo e não para ganhar dinheiro ou para exibir ao público – com os ideais iluministas da sua época. Para o autor, Goya promoveu uma espécie de revolução pictórica ao colocar o homem comum no lugar de heróis, figuras religiosas ou representações mitológicas.

Retratando o humano no que ele tem de trágico e patético e o cotidiano da guerra do ponto de vista dos derrotados, Goya tornou-se eterno e universal. Como constatou certa vez o crítico de arte Fred Licht: “Quem quer que tenha olhado, mesmo apressadamente, os jornais do último meio século constatatará que as notícias mais significativas tinham sido ilustradas por Goya há mais de 150 anos”.

As várias faces de Paulo Leminski

13 de maio de 2014 0

leminski_orlando_azevedoFoto: Orlando Azevedo / Divulgação

O escritor e jornalista paranaense Domingos Pellegrini cultivou uma amizade regada a longas conversas com o poeta Paulo Leminski. A partir dessas memórias, escreveu Minhas Lembranças de Leminski, que está chegando agora às livrarias. O livro é uma biografia não autorizada e, como o projeto de lei referente aos textos biográficos foi aprovado recentemente pela Câmara dos Deputados, fiz uma entrevista com o autor sobre este tema para o Segundo Caderno. É claro que aproveitamos para falar sobre Leminski e suas múltiplas facetas – é a partir delas que se dividem os capítulos deste lançamento. Para os leitores deste blog, foram guardados alguns trechos desta conversa nos quais Pellegrini fala sobre o poeta. Confira:

Estoicismo
Leminski ganhou muito pouco dinheiro em vida porque optou por fazer arte. Isso não é um demérito, e sim um mérito. Foi sua escolha, sua missão. Era uma pessoa aprofundamente honesta com sua vocação. Decidiu ser poeta, tradutor… Para isso, precisava de tempo. Tempo para ler, pesquisar, gerar suas coisas. Ele era um grande redator de publicidade: se estivesse afim de ganhar dinheiro, ganharia muito. Mas aí não escreveria como escreveu.
Quando jovem, eu costumava ir três ou quatro vezes por ano para Ilha do Mel. Sempre que fazia isso, passava pela casa dele, em Pilarzinho, na ida e na volta. Eu chegava às 8h, a Alice (Ruiz, poeta, viúva de Leminski) saia para trabalhar, e a gente ficava até as 20h conversando. Era uma conversa intensa. Às 20h, ele já estava cansado, se enrolava nele mesmo e dormia no chão da sala. Aí eu ia embora.

Origens
Ele tinha orgulho de ser mestiço. Quando ele falou para mim que era mestiço, pensei que ele estivesse de gozação: “Sou filho de negra com polonês, cara!”. Ele não tinha nenhum traço negro aparente, pensei que fosse brincadeira. Depois que morreu, descobri que era verdade, lendo a biografia do Toninho Vaz (O Bandido Que Sabia Latim, Record, 2001).

Morte
Leminski nunca teve medo da morte. Ele tinha medo de atravessar a rua em São Paulo, isso tinha, uma bobagem assim. Mas medo da morte ele não tinha. Assim como não tinha medo de ter opiniões políticas, de ser um anarquista militante que nem carteira de identidade tinha. Tanto que na biografia do Toninho Vaz, aparece o Rodrigo Garcia Lopes ao lado dele na ambulância dizendo “vai ficar tudo bem, cara”, e ele responde: “Que tudo bem o quê, pode chamar o gaiteiro!” (risos). Ele enfrentou a morte. Não reclamou nunca. Outro dia conversei com o Ademir Assunção, que conviveu com ele em São Paulo, ele me falou: “O Leminski jamais se queixava”. Estava sempre de bom humor, mesmo sendo corroído pela cirrose, uma corrosão lenta e inexorável.

Capa de "Minhas Lembranças de Leminski"

Capa de “Minhas Lembranças de Leminski”

Minhas Lembranças de Leminski
Domingos Pellegrini
Geração Editorial
Biografia, 200 páginas, R$ 34,90