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As melhores adaptações não estão no Oscar

18 de fevereiro de 2014 0
Cena da adaptação de Piotr Dumala para "Crime e Castigo"

Cena da adaptação de Piotr Dumala para “Crime e Castigo”

Como não é segredo para ninguém que é estatísticamente mais provável Uwe Böll dirigir uma obra prima do que alguém ter uma ideia original em Hollywood, há muito tempo que uma das usinas que garante a matéria-prima para roteiros na indústria do cinema é o mercado literário. Já foram feitos filmes baseados em grandes clássicos da literatura; em livros de não ficção; em biografias e memórias (dois dos principais concorrentes ao Oscar deste ano, por exemplo, 12 Anos de Escravidão e O Lobo de Wall Street se incluem nesta categoria). Há até livros baseados em artigos e reportagens de revistas como New Yorker ou Rolling Stone. Muitas vezes confrontado com a pergunta sobre quais são as melhores adaptações literárias que eu conhecia, sempre respondia pela tangente, porque esse é o tipo de comparação esquisita entre dusa linguagens que muitas vezes não encontram tradução perfeita de uma para a outra.

Porém, esses dias cheguei à conclusão de que algumas das melhores adaptações literárias que já havia visto por aí não eram longas-metragens com o apoio de um grande estúdio, mas sim curtas de animação que conseguem, com seu sistema de produção muitas vezes perto do artesanal, sustentar-se de pé como obras autônomas, preservar o espírito do original e ainda oferecer algo extremamente original e novo em termos da linguagem do próprio cinema. Antes da existência da arca de maravilhas da internet, muitos dos filmes aí abaixo eram bem pouco conhecidos, lia-se sobre eles em revistas de cinema, via-se o nome nos indicados a prêmios como o Oscar ou o Globo de Ouro, mas ter conhecimento dos trabalhos era bem mais difícil. Dado que hoje o Youtube tem quase tudo, resolvi preparar uma breve e muito rápida lista com exemplares de grandes adaptações literárias feitas em curtas de animação (quando possível, publiquei versões legendadas em português, mas nem sempre as encontrei).

O Velho e o Mar (1999)
O artista russo Aleksandr Petrov desenvolveu esta pequena gema adaptando a novela de Ernest Hemingway utilizando-se da técnica de desenhar em pranchas de vidro, apagando e repintando detalhes das cenas a cada mudança de quadro. Ele também não usa pincéis, e sim os próprios dedos, o que dá à imagem um tom onírico e impreciso. Contrariando um pouco a minha chamada um tanto provocativa para este post, este filme esteve sim no Oscar, e venceu o prêmio na categoria melhor curta de animação. Petrov já garimpou outras riquezas da literatura, para suas animações, como A Sereia (baseado em Púchkin) e Sonho de um Homem Ridículo (baseado em Dostoiévski).

O Coração  Denunciador (1953)
Uma adaptação do conto de mesmo nome de Edgar Allan Poe que usa sombras, fusões, sobreposições e texturas para criar um padrão visual semelhante às cenografias surreais criadas por Eugène Berman para o Metropolitan Opera, de Nova York, nas quais pode-se reconhecer mais do que um leve toque do trabalho de Salvador Dalí. A sombria história do assassino que se vê compelido a confessar seu crime para não ouvir mais as batidas fantasmagóricas do coração de sua vítima é narrada, adverte o curta em um cartão de texto, “pelos olhos de um louco, que, como todos nós, crê que é são”. Por isso os ângulos distorcidos e as sombras assustadoras de um desenho que foge ao tradicional casa tão bem com o espírito da obra. A voz do personagem principal – que, como no conto,  narra em primeira pessoa – é dublada por James Mason, e foi o primeiro cartum a receber indicação etária recomendada apenas para adultos na Inglaterra. O curta é produzido pelo estúdio UPA (United Productions of America) e dirigido por Ted Parmelee.

The Man With the Beautiful Eyes (1999)
Jonathan Hodgson é um artista baseado em Londres e que já trabalhou dirigindo sequências de animação para a série de TV Da Vinci Demon’s, de David S. Goyer – passa num dos canais da TV a cabo, embora eu não me lembre exatamente qual. Mas isso, dado que a série é bem meia-boca, não deve servir como demérito ao currículo do homem. Hodgson é o autor deste belo curta que adapta um poema de mesmo nome de Charles Bukowski, sobre um grupo de crianças que se  mostram fascinadas pelo mistério selvagem de um vagabundo alcóolatra visto em uma casa aparentemente abandonada na vizinhança em que moram. Com um traço e um uso nervoso da cor, aplicando palavras na tela e buscando uma representação tão estilizada que chegue a uma espécie de moldura do objeto (preste atenção na cena final, na qual os carros e as pessoas que passam diante da vitrine são apenas formas que não a encobrem). Um filme que arrebanhou prêmios em vários festivais internacionais, incluindo o Bafta, o mais importante da Grã-Bretanha.

A Alegoria da Caverna (2008)
Este não é um livro especificamente, mas um dos trechos mais conhecidos de uma das obras fundadoras da cultura ocidental, A República, de Platão. A representação da realidade física como uma caverna em que vemos apenas as sombras das coisas, sem atentar para seu significado verdadeiro, é um dos mitos mais conhecidos da história da filosofia, e aqui ganha uma muito breve versão na técnica stop-motion que, em inglês, é conhecida como “claynimation”, trocadilho entre “argila” e “animação” que é usada para definir o tipo de filme que aqui conhecemos por “massinha”. O filme é uma produção do diretor Michael Ramsey e do artista animador John Gribsby.

Um Médico de Aldeia (2007)
Uma versão do premiado diretor japonês Koji Yamamura para este alucionatório conto de Franz Kafka. O clima opressivo do original, uma pérola da juventude do autor tcheco, é traduzido por meio de um desenho nervoso e de uma variação constante das proporções e das perspectivas na obra animada.

Nicholas Era… (2010)
Em seu livro Fumaça e Espelhos, o inglês Neil Gaiman, autor de Sandman, conta a origem deste um breve conto sombrio natalino. Não estou com o livro em mãos para a citação literal, mas basicamente a história surgiu como um cartão de Natal, um pequeno conto/poema de 100 palavras invertendo a lógica benevolente das atribuições do Papai Noel. O texto foi caligrafado e ilustrado pelo amigo de Gaiman, e parceiro em Sandman, Dave McKean, e enviado como cartão a amigos e conhecidos (Gaiman admite na introdução do livro que a ideia veio após se sentir miseravelmente humilhado e sem talento por receber todo ano cartões de Natal feitos pelos seus talentosos amigos ilustradores). Seguindo a mesma lógica, o estúdio animado 39 Degrees, baseado em Pequim, adaptou o conto em uma animação de Natal em 2010.

Crime e Castigo (2000)
Assim como o Aleksandr Petrov mencionado lá no início, Piotr Dumala é um mestre russo da animação, e tem seu próprio método de produção tão sofisticado e trabalhoso quanto as pranchas de vidro do primeiro. Cada quadro nas animações de Dumala é obtida raspando com uma agulha uma prancha totalmente coberta de tinta preta. Fotografada para o filme, a prancha é então coberta de preto outra vez para o quadro seguinte, e assim por diante. Com isso, o trabalho resultante é de um contraste muito forte entre os raros pontos iluminados e a escuridão do restante do quadro. Um tipo de trabalho que parece ajustado à perfeição para ilustrar a opressiva atmosfera de Crime e Castigo, de Dostoiévski. O vídeo abaixo não tem legendas, mas como Dumala criou uma versão expressionista da narrativa, não há diálogos na animação, tornando-a passível de ser entendida por todos nós. É uma versão com ares de pesadelo, não seguindo necessariamente o livro ao pé da letra.

Ricardo III (1994)
Entre 1992 e 1994 a BBC levou ao ar uma série de episódios de aproximadamente meia hora cada, cada um apresentando uma versão animada de uma peça de William Shakespeare a cargo de um animador russo diferente. Uma das versões mais legais, na minha modesta opinião, é a que se vê abaixo , dirigida por Natalya Orlova, com base na sangrenta peça de Shakespeare sobre o perverso nobre deformado que empilha uma montanha de corpos em seu caminho até o trono (e a inevitável desgraça):

Kashtanka (2004)
Quem chegou até aqui já deve ter percebido sem que eu precise dizer que a tradição russa de desenhos animados é uma das mais ricas do mundo. Aqui temos outra prova disso, uma versão de um dos contos mais singelos de Tchékhov, sobre a cadela de um carpinteiro bêbado que, após se perder de seu dono após a passagem de uma parada militar, é recolhida por outro homem e levada para uma casa com animais treinados para o circo, entre eles um ganso e um gato. A versão abaixo é uma das disponíveis, tem legenda em inglês e espanhol, e é assinada pela mesma Natalya Orlova do desenho anterior.

A Maior Flor do Mundo (2007)
Uma animação do diretor espanhol (nascido no Uruguai) Juan Pablo Etcheverry baseada em um conto para crianças de José Saramago. Lançado quando o escritor ainda vivia, o filme é narrado pela voz do próprio Saramago, que a apresenta no início e faz uma breve aparição no fim. Para encerrar falando português…

Tradução e escravidão

17 de fevereiro de 2014 3
Chiwetel Ejiofor em cena de "12 Anos de Escravidão". Foto: Fox Searchlight, divulgação

Chiwetel Ejiofor em cena de “12 Anos de Escravidão”. Foto: Fox Searchlight, divulgação

Como já escreveu a jornalista Raquel Cozer, da Folha de S. Paulo, neste texto do último dia 10 de fevereiro, vivemos, e já há alguns anos, um momento em que as editoras parecem se guiar muito mais pelo possível sucesso de uma adaptação cinematográfica do que no valor intrínseco de uma obra para desovar uma tradução no Brasil. Um dos exemplos citados por ela é a obra Twelve Years a Slave, de Solomon Northup. Publicada originalmente em 1853, em domínio público, portanto, a narrativa autobiográfica do negro livre que foi raptado e vendido como escravo ganhará não uma, mas duas chances no mercado nacional – já que o filme de Steve McQueen estrelado por Chiwetel Ejiofor tem boas chances de ganhar o Oscar e de ser um sucesso de bilheteria.

A Companhia das Letras lança 12 Anos de Escravidão pelo selo Penguin, em edição com tradução de Caroline Chang e prefácio do mesmo Steve McQueen que assina a adaptação para o cinema. Em uma estratégia para associar ainda mais o livro e o filme, a capa foge do padrão da série usando a imagem do cartaz do filme. A segunda edição está saindo pela editora Seoman, parte do grupo Pensamento, e é creditada a alguém nomeado estranhamente apenas como Drago. Dado que fazia horas que não rolava uma comparação tradutória aqui no blog, acho que essa é uma circunstância mais do que apropriada para nos dedicarmos a isso.

Vamos, então, começar com a versão de Caroline Chang. Caroline é jornalista, editora da L&PM e tem em seu currículo traduções, entre outras, de A Longa Marcha, de Sun Shuyun (Arquipélago Editorial); As Filhas Sem Nome, de Xinran (Companhia das Letras); Janela para a Morte, de Raymond Chandler (L&PM) e A Resposta, de Kathryn Stockett (Bertrand Brasil) – este último, curiosamente, também um “livro de Oscar”, uma vez que foi publicado por aqui na mesma época em que sua adaptação cinematográfica, Histórias Cruzadas, chamava a atenção por indicações ao prêmio. Como nosso intuito com esta série é mais lúdico e menos técnico, selecionei para fins de comparação os primeiros dois parágrafos, em uma seleção arbitrária. Não é um trecho especialmente fácil ou difícil, é só o trecho que abre o livro:

12_anos_de_escravidao“Tendo nascido um homem livre, por mais de trinta anos gozado da bênção da liberdade em um estado livre e sido, ao final desse período, sequestrado e vendido como escravo, assim permanecendo até ser felizmente resgatado no mês de janeiro de 1853, após uma servidão de doze anos, foi sugerido que um relato da minha vida e de minhas desventuras não seria desprovido de interesse para o público. Desde meu retorno à liberdade não deixei de perceber o crescente interesse nos estados do Norte quanto ao assunto da escravidão. Trabalhos de ficção, prometendo retratar suas características mais amenas bem como as mais repugnantes, circularam de forma sem precedentes e, a meu ver, criaram um tópico rico para comentários e discussões.
Posso falar sobre a escravidão apenas na medida em que foi por mim observada – apenas na medida em que a conheci e vivenciei em minha própria pessoa. Meu objetivo é dar uma declaração simples e verdadeira dos fatos: repetir a história de minha vida, sem exageros, deixando para outros determinarem se as páginas da ficção apresentam um retrato de uma maldade mais cruel ou de uma servidão mais severa.”

O interesse pelo livro – e também por outra obra contemporânea deste, A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe – dá mostras de como a escravidão começava a ser tornar um tema central no norte “ilustrado”. Já começava-se a sentir o inevitável choque entre a escravidão no Sul, institucional, e as pretensões civilizadas do Norte industrializado, que desembocaria na Secessão na década seguinte, após os Estados sulistas formarem uma confederação e declararem a separação dos demais. O trecho que vemos acima serve como uma sinopse do livro, ao mesmo tempo em que tenta marcar sua diferença para com as obras de ficção. Este é um depoimento. Tem a validade de haver sido testemunhado e vivido. Vamos ver, agora, como esse trecho foi passado para o português pelo tradutor Drago, de quem não conheço a biografia e cujos outros trabalhos na área parecem ter sido todos realizados para a mesma editora Seoman, como O Homem que Amava Muito os Livros, de Allison Hoover Bartlett, e a biografia de Lance Armstrong editada pela mesma casa.

12-Anos-de-Escravidão-seoman“Tendo nascido um homem livre e desfrutado, por mais de trinta anos, das bênçãos da liberdade em um Estado livre e, ao término desse período, tendo sido sequestrado e vendido como escravo – condição na qual permaneci até ser, felizmente, resgatado no mês de janeiro de 1853, após doze anos de servidão – foi-me sugerido que um relato da minha vida e dos acasos que a pontuaram não poderia deixar de atrair o interesse do público.
Desde a minha volta à liberdade, não pude deixar de notar o crescente interesse pelo tema da Escravidão, em todos os Estados do Norte. Obras de ficção que pretendem retratar os aspectos mais agradáveis – tanto quanto os mais repugnantes – do assunto têm circulado, com uma abrangência e uma aceitação popular sem precedentes; o que, segundo creio, contribui para o estabelecimento de um proveitoso tópico de comentários e discussões.
Posso discorrer sobre a Escravidão apenas até o ponto em que tive oportunidade de observá-la; até o ponto em que a conheci e experimentei-a pessoalmente. Meu objetivo é fornecer um testemunho sincero e verdadeiro sobre os fatos: recontar a história de minha vida, sem exageros, deixando aos outros a tarefa de decidir se mesmo páginas de ficção contenham descrições mais equivocadas ou rigorosas de como foi a Escravidão.”

Cá estamos, então. Há, como seria de se esperar, pequenas diferenças que se referem não à tradução, mas à edição. A mais estranha para mim é a adoção daquela maiúscula na palavra Escravidão. Quando se usa uma letra maiúscula em uma palavra como essa, está-se falando do período histórico a que ela alude, e não à indústria infamante da escravidão de um modo mais genérico. Mas aí algo não encaixa, para mim, por dois motivos: 1) o Brasil teve seu próprio período histórico de Escravidão, que não coincide com o retratado no livro, e 2) o livro fala da escravidão tanto no sentido histórico quanto no sentido geral, embora Northup ressalte que está dando um testemunho pessoal. Também é digna de menção outra alteração gráfica, esta promovida pela Companhia: a transformação dos três parágrafos desse trecho em dois, algo cujo motivo não entendi muito bem. Mas claro que isso não tem a ver com o tradutor, então vamos adiante.

Drago lança mão do recurso de delimitar uma das frases da longa sentença inicial entre travessões para torná-la mais clara e inteligível. É um recurso que, ao menos na edição que eu encontrei de 12 Years a Slave, o original também usa, embora aplicado em uma frase diferente daquela que o tradutor resolveu apartar do restante. Nesse sentido, acho que a tradução de Caroline Chang para a Companhia é mais eficiente em conseguir preservar o ritmo da longa frase original sem precisar de parênteses ou travessões. É interessante notar que ao longo do trecho todo Drago parece optar por um andamento mais entrecortado por pronomes e conetivos.

O fim da primeira frase na edição da Seoman também me parece alterar sutilmente o original. Fiel ao tempo em que foi escrita, a prosa de Northup é mais cheia de circunlóquios, menos afirmativa, mais cheia de ressalvas, o que se percebe na forma indireta como ele afirma que o motivo da escrita do livro é o interesse público. No original ele escreve que seu relato “ would not be uninteresting to the public“. “Não seria desinteressante para o público”, literalmente, e nesse sentido o “não seria desprovido de interesse” da tradução de Caroline Chang parece mais preciso do que o “não poderia deixar de atrair o público”. Não ser desprovido de interesse e não poder deixar de atrair são duas coisas diferentes. Algo pode não ser desinteressante e ainda assim não atrair interesse algum, se é que me entendem.

Em outro ponto, Northup se refere ao quadro da escravidão montado pelas obras de ficção que se dedicaram ao tema. E aí admito que a opção de Drago por traduzir “their more pleasing as well as more repugnant aspects” por “os aspectos mais agradáveis – tanto quanto os mais repugnantes – do assunto” me provoca certa estranheza desconfortável, porque parece apelar a um sentido inadequado do “pleasing” original. Ao menos em português, a ideia de que a escravidão tenha um aspecto “agradável”, que “agrada”, parece fora do lugar.

São aspectos extremamente subjetivos, claro, mas confesso minha predileção pela tradução de Caroline Chang. A caixa de comentários fica, portanto, aberta a novas contribuições e à discordância – fundamentada, claro. Para encerrar, vamos ao trecho original, em inglês, para que vocês mesmos aí possam fazer sua própria análise:

“Having been born a freeman, and for more than thirty years enjoyed the blessings of liberty in a free State – and having at the end of that time been kidnapped and sold into Slavery, where I remained, until happily rescued in the month of January, 1853, after a bondage of twelve years — it has been suggested that an account of my life and fortunes would not be uninteresting to the public.
Since my return to liberty, I have not failed to perceive the increasing interest throughout the Northern States, in regard to the subject of Slavery. Works of fiction, professing to portray its features in their more pleasing as well as more repugnant aspects, have been circulated to an extent unprecedented, and, as I understand, have created a fruitful topic of comment and discussion.
I can speak of Slavery only so far as it came under my own observation—only so far as I have known and experienced it in my own person. My object is, to give a candid and truthful statement of facts: to repeat the story of my life, without exaggeration, leaving it for others to determine, whether even the pages of fiction present a picture of more cruel wrong or a severer bondage.”

Gonçalo Tavares e a máquina da cidade

14 de fevereiro de 2014 0
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Gonçalo M. Tavares na Feira do Livro de Caxias do Sul, em 2013.
Foto: Diogo Sallaberry, Agência RBS

A obra do português Gonçalo M. Tavares conquistou, ao longo de apenas uma década, um reconhecimento crítico que costuma levar bem mais tempo para ser obtido. Autor de Jerusalém, romance que venceu o Prêmio Portugal Telecom, e de uma inventiva série chamada O Bairro, na qual os personagens, identificados com nomes de artistas e intelectuais, representam ideias abstratas em situações que vão da lógica à comicidade, Tavares está lançando no Brasil seu romance Matteo Perdeu o Emprego (Foz Editora, 160 páginas, R$ 49) – publicado originalmente em 2010 em Portugal . Trata-se de um livro de difícil classificação. Metade da obra é constituída por uma reunião de fragmentos narrativos em que cada personagem serve de ponte para o protagonista da história seguinte. A outra metade é um posfácio crítico do autor à própria obra, puxando os fios de interpretações possíveis sobre os elementos reunidos na ficção. Leia aqui o texto publicado hoje no Segundo Caderno de Zero Hora. E confira abaixo a entrevista com o autor, concedida por telefone desde Lisboa, onde o autor português nascido em Angola reside:

Zero Hora – Por lidarem com a tradição de um modo um tanto elíptico, seus livros sempre despertam muitas leituras críticas bastante imaginativas. Neste livro o senhor apresenta uma leitura crítica do livro no próprio livro. Foi para orientar a leitura?
Gonçalo M. Tavares – Penso que não. Penso que é realmente uma segunda parte na qual eu faço uma reflexão sobre o texto narrativo. Mas eu espero que esse ensaio final abra ainda mais leituras e mais interpretações. É também um comentário, uma reflexão muito elíptica, que dá uma interpretação mas também abre um espaço. Como você disse bem, eu quando escrevo tento ser tanto mais sintético quanto possível. E essa síntese, essa tentativa de escrever com o mínimo possível de palavras faz com que, espero eu, aumente a densidade do texto. Eu busco essa densidade como uma característica quase física da matéria: como a matéria que ocupa pouco espaço mas contém muito mais energia. Espero que o meu ensaio final em Matteo Perdeu o Emprego também tenha essa característica. É o leitor que vai, de certa maneira, desdobrar em vários metros quadrados essa energia densa que ocupa pouco espaço. E portanto, eu na segunda parte também não dou muitas explicações.

ZH – O senhor estrutura a história como um círculo organizado de personagem a personagem seguindo a ordem alfabética, uma ordem que, no ensaio, o senhor define como uma escolha arbitrária. Por que, então, o título, que poderia ser sobre qualquer personagem, é justamente sobre o último, o que “perde o emprego”? É seu comentário sobre a crise econômica cujos efeitos ainda são sentidos na Europa?
Tavares – Talvez não tanto, porque o livro é não realista, todos os episódios são bizarros. Eu, por norma, não escrevo sobre o que está a acontecer em termos concretos. Agora, é evidente, o desemprego é qualquer coisa de muito atemporal. E sobre dar ao livro a ordem do alfabeto, uma das coisas importantes para mim foi realmente a ideia de que o alfabeto é qualquer coisa de muito aleatório. Por exemplo, se pensarmos na enciclopédia, com os temas ordenados pelo alfabeto, o que é impressionante é que a ordem alfabética é quase surrealista de tão absurda. Pode-se juntar na letra C a palavra “comboio” com a palavra “costura”… Ou seja, só por ser a mesma letra, palavras que nada têm a ver uma com a outra podem estar juntas ou em uma sequência. E a esta lógica absurda do alfabeto, não sei por que, respeitamo-la como uma lógica qualquer, forte, como se fosse quase uma lógica divina, e não humana. E nesse sentido, no Matteo Perdeu o Emprego, o fato de essas personagens interligadas terem nomes que se ordenam por ordem alfabética dá como que um sentido no meio dessa estranheza. Quanto à história que dá título ao livro, é uma história de alguém que precisa trabalhar, e eu diria que é uma narrativa mais da perversidade humana, que se confunde com a perversidade sexual. Acho que essa característica está muito presente, além da questão do emprego.

ZH – Assim como em outros romances que o senhor escreveu, neste os nomes dos personagens têm um estranho papel simbólico. Em sua série O Bairro, os personagens têm nomes de artistas e pensadores. Em seu ciclo O Reino os nomes têm uma vaga referência ao leste europeu. Neste livro, a maioria dos personagens têm nomes judaicos. Para o senhor o nome de um personagem é escolhido para ancorá-lo em um espaço ficcional próprio?
Tavares – O nome dos meus personagens é quase como o nome de um livro. Há uma parte que é racional na escolha, mas há outra parte que é, eu não diria que do acaso, mas de qualquer coisa que é diferente da racionalidade. Ou seja, eu não escolho o nome de forma consciente. Em outro livro que eu escrevi, chamado Uma Viagem à Índia, a escolha dos nomes têm a ver às vezes com a sonoridade. E nesse caso de Matteo Perdeu o Emprego, o ponto de partida foi um conjunto de fotografias que eu vi de um vendedor de campas. Não eram campas no cemitério, eram apenas as pedras, lisas, não tinham nem data de nascimento ou de morte, porque eram para vender, e nessas campas tinham alguns dos nomes que aparecem em Matteo Perdeu o Emprego, muitos deles judeus. E não sei explicar, eu não penso, quando escrevo, em uma determinada mensagem, nem quero situar a narrativa espacial e temporalmente. Acho que meus livros, no geral, não estão situados nem no espaço nem no tempo. Então, a escolha do nome se dá pela narrativa que ele incita. Eu consigo ver quase como se o nome “Goldman” me atirasse para uma história, por exemplo. Há qualquer coisa que tem a ver com o nome, e se eu usasse o nome “Maria”, isso me atiraria para um tipo de história completamente diferente. Ou seja, o nome não é algo que seja neutro, ele tem já uma história. Quando eu uso um nome judeu, por exemplo, não é apenas o nome de uma pessoa, é como se pudéssemos ver parte da história do mundo através do nome de uma pessoa.

ZH – Matteo Perdeu o Emprego tem um determinado número de temas e signos que aparecem ao longo de todo o livro quase como refrões ou motivos musicais. Não apenas a circularidade da trama espelha outros “círculos” espalhados pelo romance (que começa em uma rótula, ou rotunda, no português lusitano), mas também há uma recorrência à questão do lixo, central em várias das histórias.
Tavares – Interessava-me pensar a questão do círculo. Há outras rotundas que aparecem no livro, e é como se elas espelhassem a própria forma da obra, como se o próprio livro fosse uma rotunda, ainda que mal feita, no sentido de que não termina no mesmo ponto em que começou. Mas no lixo eu não havia pensado nele surgindo tanto assim, mas é verdade. A questão principal era adequar os episódios como se fossem peças de dominó, ou seja, a partir do momento em que se começa a contar a primeira história, aquela primeira personagem cruza-se com uma segunda, a segunda cruza-se com uma terceira, a terceira fala de uma quarta… Matteo Perdeu o Emprego é um pouco a história das ligações possíveis entre diferentes histórias. Não me interessava aqui um personagem concreto ou um tema concreto. Talvez o tema chave seja a questão da circunferência. Mas realmente esses episódios envolvendo o lixo são para mim muito significativos. A mim me interessa muito a ideia do lixo, e que está também em outro dos meus romances, Aprender a Rezar na Era da Técnica. O lixo é uma coisa interessante, porque muitas vezes não temos a consciência de que uma casa de uma pessoa é como se fosse um imenso organismo. Uma experiência interessante seria se filmássemos e pesássemos tudo o que entra de alimento pela porta de uma casa, e depois víssemos o lixo que sai. O lixo é qualquer coisa que atiramos para longe, mas se ficássemos com todo o lixo produzido por uma casa durante um mês, ficaríamos com algo de um peso gigantesco. E é quase como se fossem dejetos do próprio organismo. A ideia do lixo me interessa muito, e cruza-se com a ideia de cidade. A cidade tem muitas funções, e uma delas é fazer desaparecer o lixo. Fazer com que as pessoas não se apercebam que produzem diariamente quilos de lixo, e isso é interessante. Porque esconder o que é sujo, o que cheira mal, é uma imagem que pode ser pensada para outras situações: a cidade quer esconder a pobreza, quer esconder o que é feio, e a cidade às vezes quer esconder a deficiência. E aqui há um instinto da cidade que eu considero muito perigoso: crer apenas em fachadas limpas. Dar uma ideia da cidade que seja apenas, digamos, a sua parte iluminada. Mas a cidade tem várias outras sombras, e o lixo simbolicamente é isso. Aquele episódio do livro de um homem que aproveita o lixo para fazer alguma coisa é algo que me interessa muito, bem como a arte contemporânea, que lida com os restos que a cidade vai deixando.

ZH – Em outro episódio do livro uma escola vai sendo progressivamente soterrada por pilhas de lixo acumulados no pátio após uma greve de lixeiros. Quando o lixo começa a invadir a sala, apenas uma turma permanece. É também um comentário sobre a produção do lixo, e sobre esse peso que o senhor falou?
Tavares – Para mim não há uma interpretação concreta, como disse, há várias interpretações, mas realmente há ali qualquer coisa que tem a ver com a racionalidade, com a pessoa manter a sua inteligência e manter-se aprendendo apesar de mais ou menos atacado pelo lixo. São temas que me interessam, e o Matteo Perdeu o Emprego está cheio de pequenos episódios, de situações um bocado bizarras que têm a ver com a cidade. É possível dizer que o livro é sobre a lógica da cidade, também.

ZH – Caminhos também são um signo recorrente no romance. Ele começa em uma rótula, uma via para automóveis, na qual um homem é atropelado. Há uma outra rótula projetada em um cruzamento quadrado. Há dois homens que se perdem em um labirinto turístico. É também um romance sobre trajetórias?
Tavares – Sim, parte da cidade é basicamente uma rede de cruzamentos sucessivos. Matteo Perdeu o Emprego é realmente sobre essa questão dos caminhos, de ir pela esquerda ou pela direita. Eu vejo a cidade como se fosse uma máquina composta por vários cruzamentos que mais não fazem do que separar as pessoas. Por exemplo, em Lisboa eu ando muito de metrô. E uma das coisas que gosto é de ver, em uma estação de metrô, aquelas centenas e centenas de pessoas a saírem de uma mesma estação. E a estação tem duas saídas. E logo de imediato, se tivermos ali mil pessoas, 500 vão por uma saída e 500 vão pela outra. É o primeiro cruzamento, aquela saída de metrô. E depois, as 500 que foram para um lado vão andando e chegam a outro cruzamento. Ali, 200 vão para a esquerda, 100 vão em frente e 200 seguem à direita. E daqueles 200, depois vão 100 para um lado e 100 para o outro. Vão aparecendo cruzamentos sucessivos e o que eu sinto é que os vários caminhos, os vários cruzamentos, são maneiras de ir separando multidões. Até o ponto em que, a certa altura, restam duas pessoas caminhando lado a lado, uma vai para a esquerda e outra dobra para a porta de seu apartamento, abre a fechadura, deita-se na sua casa, na sua cama, uma daquelas mil pessoas que saíram da estação de metrô todas juntas. E isso é a grande máquina da cidade, é como um conjunto de canais de água que consegue transportar uma pessoa para seu local individual, a sua casa, a sua cama. De certa maneira os conflitos na cidade aparecem quando duas pessoas estão no mesmo espaço e não deveriam estar.

ZH – Matteo Perdeu o Emprego parece fundir elementos de seus projetos anteriores: os romances da série O Reino, com um corte mais sério e realista, e os livros da série O Bairro, na qual o senhor cria variações sobre temas mais abstratos e fantásticos. O senhor o vê como uma síntese?
Tavares – Eu diria realmente que, se pensarmos nos romances, Jerusalém, Aprender a Rezar… são do mundo mais realista. E as narrativas d‘O Bairro são mais da fantasia. Histórias como a do Senhor Valéry são uma ficção em um mundo paralelo à realidade. Este Matteo Perdeu o Emprego é ao mesmo tempo um livro realista e fantasioso, bizarro. E, portanto, é uma mistura entre qualquer coisa que poderia acontecer mas que era muito improvável acontecer, era estranho. Há uma coisa no livro que me interessa muito, que é o contraste entre este tom por vezes estranho, quase no limite da irracionalidade que marca as histórias, e depois o tom muito racional e reflexivo que marca o posfácio interpretativo. Me interessava escrever as histórias, ligá-las e depois pensar como escrever racionalmente, reflexivamente, sobre histórias que têm um tom não realista. Isso é também interessante, porque podemos pensar sobre histórias realistas ou pensar sobre a realidade, mas a partir de histórias não realistas. Matteo Perdeu o Emprego é qualquer coisa que eu não sei bem definir, mas ocupa um espaço intermédio entre a realidade e esse mundo paralelo da ficção.

matteo

 

Ricardo Alexandre e a música dos últimos 20 anos

24 de janeiro de 2014 0
Raimundos ainda com sua formação original, com o vocalista Rodolfo

Raimundos ainda com sua formação original, com o vocalista Rodolfo

Como jornalista Ricardo Alexandre acompanhou de perto as últimas duas décadas do cenário musical brasileiro. Passou pelas redações das revistas Bizz, General, Superinteressante, Carta Capital, Capricho, Revista MTV e dos jornais Folha de São Paulo e Estadão. Foi também gerente de conteúdo do site Somlivre.com e diretor de redação na última fase da revista Bizz, em meados dos anos 2000. É também reconhecido como autor de Dias de Luta, um dos melhores levantamentos jornalísticos sobre a música do Brasil, uma grande reportagem abrangente sobre a chegada do rock ao Brasil e o estouro do gênero a partir dos anos 1980. Considerado ainda uma referência após uma década, o livro foi relançado em edição comemorativa no ano passado pela editora gaúcha Arquipélago (leia entrevista aqui).

Agora, Ricardo Alexandre retorna à música como tema no seu novo livro, Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar (Arquipélago Editorial, 256 páginas, R$ 34,90). O tom, contudo, é outro. Se Dias de Luta era uma reportagem com apuração intensa, Cheguei Bem a Tempo… assemelha-se mais a um livro de memórias. Não é Ricardo Alexandre contando a história de um período musical, mas relatando sua própria história como um coadjuvante no universo da música – ainda assim, apresentada com um detalhado pano de fundo. O novo livro abre os trabalhos exatamente no ponto em que Dias de Luta parou. E, em 50 textos curtos, perpassa a música brasileira dos anos 1990 e 2000: a entrada em cena de bandas nacionais que mudaram o panorama da música, como Skank, Raimundos, Charlie Brown Jr; a dominação da indústria por uma visão mercadológica e padronizada; a queda final do rock e de parte da imprensa musical com ele – inclusive a Bizz que Ricardo Alexandre dirigia. Por telefone, Ricardo Alexandre concedeu a seguinte entrevista a Zero Hora:

Zero Hora – Embora esse livro não seja estritamente uma continuação, pelo viés mais pessoal adotado, em que momento veio a ideia de fazer um novo livro abordando o período posterior àquele vislumbrado em Dias de Luta
Ricardo Alexandre – Eu acho que a ideia desse livro me rondava desde que o Dias de Luta foi lançado, mas era uma coisa que me parecia distante e muito pouco provável. Essa ideia voltou com uma certa força quando eu comecei a pensar no relançamento do Dias de Luta, quando houve a possibilidade de o livro sair em uma edição comemorativa dos 10 anos do livro, e essa ideia começou a ser conjecturada e surgiu uma editora interessada, a Arquipélago, aí de Porto Alegre. Aí essa sequência ganhou sentido para mim. O passo seguinte foi pensar no formato, de fato que fosse ao mesmo tempo relevante para o leitor mas totalmente diverso do Dias de Luta. Aí chegamos a esse formato de posts, o livro funciona como uma coleção de postagens, tanto que surgiu a ideia de ele estrear primeiramente em um blogue.

ZH – Sim, ele foi publicado como um blog no portal do Msn.
Alexandre – Sim, eu ainda mantenho o blog, publicando agora coisas mais atuais, mas o contrato com o msn foi formado por conta do projeto do livro.

ZH – O fato desses anos abordados em Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar coincidirem com seu período de atuação na imprensa musical foi o que o levou a escolher um formato mais pessoal, mais aparentado com o depoimento e menos com a grande reportagem que era o livro anterior?
Alexandre – Sem dúvida, foi exatamente isso que me manteve longe da ideia por esses anos todos. Porque o formato que me vinha na cabeça era o mesmo usado no Dias de Luta. Só considerei a possibilidade de fazer outro formato quando esta prestes a completar 20 anos de carreira, quando eu comecei a ser mais acionado ou requisitado para falar a respeito dessa geração dos anos 1990. Aí eu vi que de alguma maneira eu também fazia parte daquela história e que fazia sentido esse formato mais pessoal.

ZH – Ao mesmo tempo, este é um dos primeiros livros em português a tentar elaborar uma crônica das radicais transformações no ramo da música nos últimos 20 anos: a digitalização da música, o virtual desaparecimento do CD, a dúvida sobre como
Alexandre – Sem dúvida isso me despertou como assunto, mas não foi a fagulha inicial. Eu arriscaria dizer que essa fagulha foi tentar discutir a mídia, o meu papel como jornalista. É uma movimentação que considero muito interessante e que tem começado a surgir de uns anos para cá: algo que me chamou a atenção foi o trabalho do jornalista Paulo Nogueira no blog Diário do Centro do Mundo. O Paulo é uma pessoa com quem já trabalhei, eu o cito no livro e tudo, eu vi ali um esforço dele em tentar colocar a mídia como um objeto a ser discutido, assim como os objetos que a mídia discute. Isso foi uma coisa que me influenciou bastante, a possibilidade de discutir o ambiente em que eu estava inserido, o ambiente das redações, da MTV, e o interesse que há em torno disso ficou muito claro com os comentários sobre o final das trasmissões da MTV, o interesse pela revista Bizz… A fagulha original para que o livro tivesse essa toada foi essa. E no meio do caminho eu percebi que esse trabalho dizia muito respeito aos bastidores da indústria cultural como um todo, e aí entra de tudo: festivais, indústria fonográfica.

ZH – O título, Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar, alude a um episódio real que você acompanhou. Mas também pode ser lido, metaforicamente, como uma alusão ao cenário musical, as gravadoras, a indústria do CD. Esse é o “palco que desabou”?
Alexandre – Sim, claro. Mas eu acho que a minha mente talvez esteja mais focada na parte do “cheguei bem a tempo” do que na do palco desabando. É quase uma paráfrase daquela frase que eu cito no livro: “cheguei muito tarde para um mundo muito velho”, eu acho que eu me coloco um pouco ali. O fato de eu fazer parte de uma espécie de última geração que ainda viveu o charme de escrever e trafegar no mundo musical. As pessoas têm reforçado bastante esse aspecto melancólico do livro, de tal maneira que eu acredito que ele acabe traduzindo uma certa frustração. Por outro lado, eu acredito que tudo é cíclico e que a gente deve passar em algum momento por um período de maior recuperação desse charme de escrever.

Os mineiros do Skank

Os mineiros do Skank

ZH – Quando conversamos por ocasião do relançamento de Dias de Luta, no ano passado, você comentou que a sua impressão é que o cenário musical hoje é menos uma arena pública e mais um conjunto de tribos ligadas por gostos afins, o que fazia com que artistas não precisassem mais passar por um circuito que os faria tocar para um grupo de pessoas que não tinham motivo para gostar de seu trabalho. Lendo o livro de agora, você parece descrever a banda Los Hermanos como uma espécie de marco desse cenário, ao cercar-se de um grupo de fãs que os veneram acriticamente, como um culto.
Alexandre – Interessante. Nunca tinha pensado no Los Hermanos desse jeito que você descreveu tão bem. Acho que de fato é uma banda que se alicerçou sobre um culto que eles mesmos alimentaram. Cara, é que eu vejo esse período retratado no meu livro com uma dobra ali muito clara, o momento em que o Brasil se torna um grande mercado de discos. Ali eu acho que algma coisa se rompe, eu acho que aquele romantismo, aquela naturalidade que havia nos anos 1980 começa a se perder. A gente começa a ver a indústria se tornando muito mais “industrial” mesmo. E esses processos mais naturais de amadurecimento da arte começam a ficar truncados. Essa característica de o artista ter de enfrentar um público que não é o seu acaba se perdendo, e eu acho que até meados dos anos 1990 isso ainda existia. Eu me lembro de muita clareza do Skank no palco do Hollywood Rock, ou os Raimundos tocando pela primeira vez na Globo… Ainda havia esse sabor do breakthrough, de você romper um estágio para entrar em outro… Mas acho que depois, quando os departamentos de marketing tomam as músicas pelas mãos, não só essa característica, mas várias outras ligadas ao amadurecimento do artista ficaram muito embaralhadas.

livrochegueiZH – O formato mais pessoal parece ter dado mais liberdade para exercitar uma veia opinativa que faz declarações por vezes polêmicas e por vezes inusitadas.
Alexandre – É que na verdade, e eu gostaria que isso tivesse ficado claro, ou ao menos mais claro do que eventualmente ficou, essa é a minha história. Talvez essa seja a grande diferença do Dias de Luta. O Dias de Luta tem uma pretensão de ser um retrato com mais acuidade das proporções dos anos 1980. E este livro não tem essa pretensão. Alguém me chamou a atenção: “cara, você não falou nada do Sepultura“. E é verdade, eu não falei, porque eles não fizeram parte da minha vida, e o que eu talvez precisasse dizer sobre o Sepultura já estava lá no Dias de Luta. Cheguei a pensar, depois, que devesse ter falado, mas o fato é que, se eles não vieram à mente em um primeiro momento, é porque o formato do livro os excluiu naturalmente. Por outro lado, bandas irrelevantes, como a Catedral, têm um espaço generoso no livro, porque teve a ver com a minha história. Então acho importante esclarecer isso para o leitor para ele não levar gato por lebre.

ZH – Seu livro fala sobre a retomada da Bizz, mas ao analisar as questões que levaram ao segundo e definitivo fim da publicação, você em nenhum momento menciona também que essa segunda fase da revista foi aquela em que ela precisou enfrentar a concorrência da Rolling Stone, que chegou no Brasil na mesma época.
Alexandre – Na minha opinião, as questões da Bizz estavam muito ligadas ao DNA daquela operação, não tinham muito a ver com o mundo exterior. Pelo contrário. Como eu já disse em algumas entrevistas, o surgimento da Rolling Stone veio confirmar algumas teorias que eu defendia ali dentro da Abril. Como o fato de que a revista precisava ter mais opção em banca, mais investimento em marketing, que precisava custar um pouco mais barato. Isso acabou não entrando no livro por questões de espaço, mas uma capa da Rolling Stone com o Coldplay foi o que me fez dormir tranquilo. Porque a capa era idêntica à da Bizz, as chamadas de capa eram idênticas, as matérias em paralelo eram semelhantes, e eu particularmente acredito que a nossa reportagem sobre a vinda do Coldplay era mais interessante. E no entanto, eles venderam 10 vezes mais. Por quê? Tenho convicção de que não foi por motivos editoriais, porque no editorial ambas eram muito semelhantes. A Rolling Stone em nenhum momento me desestimulou.

ZH – A cena roqueira de Porto Alegre também ganha muito mais destaque neste livro do que em Dias de Luta. É nos anos 1990 que você começa a tomar mais conhecimento dela como jornalista?
Alexandre – Eu tinha uma predileção pessoal pelo que acontecia aí. Eu sempre gostei do rock dos anos 1960, que era uma influência muito comum aí em Porto Alegre para as bandas dos anos 1990. E também porque eu via aí uma espécie de peça de resistência da profissionalização marquetológica da música. Aí a gente ainda conseguia focos de pessoas que trabalham com viés artístico. Me parecia que aí ainda havia se preservado algumas características do romantismo do rock brasileiro dos anos 1980. Então foi por isso. É um cenário que eu acompanhei muito de perto e do qual gosto muito até hoje.

A utopia como caso de polícia

14 de janeiro de 2014 0
À esquerda, Ramón Mercader. Nas imagens seguintes, Trosky (com a esposa ao centro e uniformizado à direita). Divulgação, Boitempo

À esquerda, Ramón Mercader del Río na época da Guerra Civil Espanhola
Nas imagens seguintes, Trosky (com a esposa ao centro e uniformizado,
como líder do Exército Vermelho, à direita). Divulgação, Boitempo

Nos interstícios entre dois gêneros de formas bem demarcadas, o romance policial e o de espionagem, o livro O Homem que Amava os Cachorros, do escritor cubano Leonardo Padura, retrata a degradação de uma das principais utopias do século 20. O romance, a obra mais ambiciosa de um escritor que fez nome como respeitado autor de literatura de crime, monta uma complexa rede narrativa para retratar as trajetórias paralelas do líder revolucionário soviético Leon Trotsky (1879 – 1940) e do homem que o assassinou a mando de Josef Stalin (1879 – 1953), o militante espanhol Ramón Mercader del Río (1913 – 1978).

O Homem que Amava os Cachorros  (Tradução de Helena Pitta, Boitempo Editorial, 590 páginas, R$ 69) pega seu nome emprestado de um conto de Dashiell Hammett (incluído na coletânea Assassino na Chuva, publicada pela L&PM). Essa filiação já declara tacitamente a proposta de Padura: mesclar um romance de ficção histórica com uma narrativa em ritmo de thriller, para reconstituir: o instável quadro político da primeira metade do século 20; as sucessivas quedas e expurgos de soviéticos à medida que a tirania de Stalin se tornava mais paranoica e cruel; a cambiante política de alianças dos comunistas submetidos à autoridade de Moscou e, principalmente, a trajetória errante de Trotsky, um dos homens que fizeram a Revolução Russa, como um exilado indesejável em boa parte do mundo.

No centro da trama está o complô para matar Trotsky – consolidado, em 1940, quando Mercader, ex-combatente da luta contra Franco na Espanha, assassinou o soviético em seu último pouso, no México, com um golpe de picareta. Até o desenlace fatal, o romance acompanha alternadamente o exílio de Trotsky, de 1928 até sua morte, e a transformação de Mercader de guerrilheiro em agente infiltrado. À parte as vidas paralelas de ambos, Padura Fuentes – que, curiosamente, é identificado apenas como Leonardo Padura na edição do romance pela Boitempo – acrescenta um terceiro elemento que serve como a voz contemporânea a avaliar os resultados dos esforços de ambos, um escritor cubano chamado Iván Marturell. Após um bem recebido livro de contos, Marturell cai em desgraça junto ao regime dos irmãos Castro e passa por diversas etapas de aniquilação pessoal em conflito com a marcha da História na Ilha.

Marturell gradualmente abandona a literatura enquanto seu caráter lentamente se degrada à medida que cumpre funções burocráticas para o regime. Seu irmão, homossexual forçado a esconder sua condição, desaparece após tentar fugir de Cuba em uma balsa improvisada que naufraga. Desiludido com a marcha da revolução cubana que se tornou autoritarismo, ele encontra na Havana dos anos 1970 um misterioso estrangeiro que parece saber tudo sobre o complô stalinista para matar Trotksy – algo bem pouco conhecido na Cuba alinhada com a política oficialista da União Soviética. O relato, uma espécie de lado B da utopia comunista defendida pela propaganda oficial da ilha, será fundamental para que ele tente recuperar a literatura que havia abandonado.

Embora o foco se divida, a rigor, entre três personagens, Trótsky, Mercader e Marturell, são combinações binárias entre temas e motivos especulares que sustentam o romance. A derrisão da identidade de Trotsky provocada pela perseguição de Stálin (de líder comunista a voz de oposição, de dissidente perigoso até um homem solitário transformado em bicho-papão da utopia) encontra seu reflexo nas várias trocas de identidade do próprio Ramón ao longo de sua preparação, de militante comunista movido por paixão genuína a um agente cheio de dúvidas que mesmo assim executa sua missão (Mercader também muda de nome ao longo da sua preparação, até assumir a identidade de Jacques Mornard Vandendreschs, um belga envolvido em negócios no México, que se aproxima do círculo de confiança de Trosky).

Em outro caso de temas que se refletem, Trotsky, embora esteja sempre em cena, se constitui, na narrativa de Padura, em uma figura com a qual Stálin, ausente das cenas mas presente nas sombras, estabelece uma relação simbiótica. Para que Stálin se erga como o líder e guardião incontestável dos valores da Revolução, precisa transformar Trotsky em um líder dissidente de igual poder, capaz de complôs e alianças com os mais perigosos inimigos dos soviéticos, como os nazistas – embora Trotsky tivesse um prestígio cada vez mais restrito e um grupo cada vez menor de seguidores, sua apresentação pela propaganda comunista como um grande conspirador fornecia a cobertura necessária para as tramas que o próprio Stálin tecia, inclusive um acordo com os mesmos nazistas que Trotsky foi acusado de apoiar em certo momento.

Também as trajetórias de duas revoluções se espelham na forma como Padura urde sua trama: a Russa, matriz da Cubana, ambas corrompidas pelo autoritarismo e pela politicagem. Os expurgos e os desmandos de Stálin, que resultam em perseguições e fome para a população, têm eco na forma como a própria revolução cubana vai se deteriorando, da utopia sustentada pelo dinheiro soviético nos anos 1970 e 198o até a pobreza extrema dos anos 1990, agravada pela queda do comunismo e pelo embargo norte-americano.

Autor de policiais bastante apreciados pelos fãs do gênero, como Camaradas em Miami ou Adeus Hemingway, Padura se vale de sua habilidade adquirida no ofício e tem sucesso em criar uma atmosfera de suspense e interesse para um episódio real cujo fim é hoje amplamente conhecido. O que deixa a desejar é justamente o território novo que o escritor tem a desbravar em uma trama tão extensa e ambiciosa: a construção psicológica dos personagens. O retrato íntimo de Trotsky como um homem exilado e perseguido contrapõe- se com eficiência à imagem demoníaca que Mercader forma do adversário depois da doutrinação stalinista (em mais uma elegante construção especular). Mas, como o retrato esboçado por Padura é abertamente simpático a um Trotsky derrotado e sem poder, são reduzidas algumas contradições importantes de seu comportamento como um dos comandantes revolucionários, ele próprio responsável por fuzilamentos durante os primeiros anos da Revolução. Até se menciona de passagem esse episódio, mas a voz de Trotsky, colada à do narrador, é rápida em justificar que as circunstâncias de seus fuzilamentos eram outras e nao se volta a esse tema.

Ao menos no início, é uma obsessão amorosa o grande motivo para que Mercader embarque em sua missão de morte, a paixão por Africa de las Heras, uma militante stalinista radical e totalmente devotada às ordens do Kremlin (e outra personagem real, a propósito). Ainda que o romance possa ter base histórica, o destaque que Padura dá a esse caso de amor é uma solução pouco imaginativa, que de algum modo enfraquece o universo interior, moral e ideológico de Mercader, melhor apresentado em A Segunda Morte de Ramon Mercader, de Jorge Semprun, por exemplo, que também aborda o mesmo episódio.  Á medida que os destinos de Trotsky e Mercáder convergem, contudo, O Homem que Amava os Cachorros cresce, na forma como consegue interligar a estrutura especular habilmente montada à história real, montando um grande painel de vidas levadas de roldão pela História, essa abstração pela qual tanto se matou e morreu.

O corpo em que ela nasceu

06 de janeiro de 2014 0

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Texto de Alexandre Lucchese

Escrever sobre si mesmo já se tornou algo corriqueiro, e basta dar uma rápida olhada nas redes sociais para perceber que cada vez mais gente o faz sem pudor, com desenvoltura e, por vezes, até mesmo graça. No entanto, aventurar-se no discurso sobre o eu sem cair no narcisismo estéril não é tarefa simples. Com boas doses de autoironia e humor, a mexicana Guadalupe Nettel deu conta desse desafio, conseguindo tocar o leitor e construindo um verdadeiro testemunho geracional nas mais de 200 páginas autobiográficas de O Corpo em que Nasci (Tradução: Ronaldo Bressane, Rocco, 224 páginas).

Publicado originalmente em 2011, este é o segundo romance de Guadalupe, e marca sua estreia no Brasil. Nele, a autora, que ainda tem quatro livros de contos, desnuda sua infância e adolescência para uma psicanalista. Carregando um curativo sobre um de seus olhos durante a maior parte do dia em seus primeiros anos escolares, como terapia para curar o estrabismo, a jovem Guadaluppe cedo se transforma em uma outsider entre os colegas de classe. Mais tarde, ela enfrentará a separação dos pais, e uma mudança repentina para um bairro de estrangeiros e delinquentes no Sul da França, onde passa a viver com o irmão e a mãe enquanto esta desenvolve seu doutorado.

O leitor acompanha o relato como quem espia uma sessão de psicanálise, ambiente ideal para encarar os mais decisivos episódios da história da protagonista sem os filtros da vaidade ou da auto-piedade. É fácil de identificar com a frágil jovem, que, mesmo diante de suas limitações físicas e da desestruturação familiar, nutre uma curiosidade ilimitada em conhecer o mundo que se revela em torno de si, e conta com sarcasmo e graça a respeito de seus próprios erros e insucessos, assim como de seus encontros e escolhas que possibilitaram melhor conhecer e aceitar a si mesma – o encontro com o “corpo em que nasci” do título.

Com 40 anos, Guadaluppe demonstra ser uma escritora madura, já que, depois deste profundo mergulho íntimo, consegue emergir com um relato que transcende o âmbito pessoal. A inépcia e as contradições dos jovens pais influenciados pela contracultura dos anos 1970, pretensamente libertária, para educarem seus próprios filhos; as transformações, nos anos 1980, da Europa, onde a protagonista já adolescente encontra uma sociedade desigual e preconceituosa; e uma América Latina pouco consciente de si mesma, que tenta imitar padrões de comportamento externos, perceptível no retorno da jovem ao México: tudo isto fica ricamente ilustrado na prosa da autora.

Mesmo com todas as dificuldades que a personagem/autora encontra em seu caminho, este não é um livro rancoroso ou vingativo. Como exemplo, é possível citar seu juízo sobre a agitação cultural que influenciou seus pais nos anos 1970. Ainda criança, a protagonista vai visitar três irmãs que eram suas amigas e se surpreende com a cena dos pais destas transando sem qualquer embaraço num cômodo sem portas nem cortinas, não se constrangendo com as pequenas que assistiam à televisão ao lado. A cena é descrita modo bem-humorado, mas é logo seguida do comentário: “Dizem que a mudança tão conservadora que originou a geração a que pertenço se deve em grande medida à aparição da AIDS, eu estou segura de que nossa atitude é em boa parte uma reação à forma tão experimental com que nossos pais encararam a vida adulta.

Ainda assim, a crítica acima não faz de Guadaluppe alguém insensível ao que o movimento hippie da geração anterior á sua pode ter de bom. Ao contrário: o título O Corpo em que Nasci é retirado de de um poema de Allen Ginsberg, guru da contracultura e um dos poetas preferidos da autora. A edição brasileira do livro faz parte da coleção Otra Língua, esforço capitaneado pelo escritor Joca Reiners Terron para fazer conhecidos autores contemporâneos de língua espanholas ainda obscuros nestas terras. Dentre os títulos publicados, estão Asco, do salvadorenho Horacio Moya, Deixa Comigo, do uruguaio Mario Levrero, e Os Lemmings e os Outros, do argentino Fabián Casas.

 

O amálgama ético de Rubem Fonseca

09 de dezembro de 2013 0

CAPA Amálgama

Há anos que Rubem Fonseca deixou de ser o profeta do apocalipse social brasileiro. Agora, o autor de 88 anos prefere ser o comentarista sarcástico da desagregação nacional, como se vê nos 34 contos de Amálgama, seu novo livro.

Apesar de o título sugerir um material físsil tornado uma massa homogênea, Amálgama na verdade se aproxima muito de um exercício literário cubista que lança mão de variações temáticas e formais de obsessões antigas do autor. O Filho, o primeiro conto, narra o conflito entre uma mãe e sua filha grávida, ambas interessadas em vender o bebê recém-nascido. A última narrativa, intitulada singelamente Foda-se, versa sobre um homem impotente que tenta redescobrir sua virilidade exercendo o desapego. Entre um e outra,as histórias, a maioria muito breves, desfilam situações que se repetem como variações sinfônicas de um pesadelo: crianças nascidas com deformidades; rejeições paternas e maternas; seduções grotescas; vinganças que parecem um pastiche sarcástico de histórias de folhetim. E,claro,anões e mulheres deslumbrantes “de corpo perfeito”, como mais de uma delas é descrita pelos protagonistas masculinos do autor  – muitos deles também variações de uma mesma voz a percorrer o livro.

Rubem Fonseca foi um artista profético ao longo de uma carreira que completou meio século neste ano (seu primeiro  livro, Os Prisioneiros, é de 1963). Suas obras trouxeram para a literatura brasileira não apenas a temática urbana expressa em uma linguagem urgente, mas flagraram a ascensão de uma violência disseminada e impessoal, consequência do crescimento das cidades em um país como o Brasil. Em um processo que talvez fosse inevitável, a profecia perdeu força depois de realizada. A violência e a crueldade que Fonseca elaborou como ficção nos anos 1960 e 1970 – motivo de choque e censura – hoje são o cenário contemporâneo no qual vivemos,o que talvez ajude a explicar a irregularidade de muitas de suas obras recentes, embora o autor não tenha propriamente se desviado de seus temas.

Amálgama consegue ser um conjunto mais coeso do que muitas das coletâneas de contos publicadas por Fonseca neste breve século 21, como Ela e Outras Mulheres (2006) e Axilas e Outras Histórias Indecorosas (2011). Em Amálgama, ainda estão lá a brutalidade nas relações e a violência de ares cada vez mais grotescos, mas o que parece ser a tônica do novo trabalho é justamente uma indistinção de seus motivos e de uma alternativa. Se contos clássicos como Passeio Noturno e O Cobrador traziam embutidos uma dimensão de denúncia social, a obra mais recente de Fonseca põe a denúncia em segundo plano: não há o que denunciar quando o pior já aconteceu. Ele exercita, então, o riso amargo e o sarcasmo ao contemplar o bem e o mal – amalgamados ambos.

Mandela nos livros

06 de dezembro de 2013 0

Foi através do teatro que, pela primeira vez na minha vida, nos anos 60, ouvi falar de Nelson Mandela. Estudante, depois professor de direito internacional e, desde o início, militante do anticolonialismo e do anti-racismo, eu me opunho ao apartheid, mas o homem que liderava a luta ainda não tinha um rosto para mim. No Festival de Nancy, encontre Jean Guiloineau, diretor do Grupo de Teatro Antigo da Sorbonne, que ia apresentar Ajax, de Sófocles. Grande conhecedor da África do Sul, ele traçou para mim o retrato de Mandela, cujas memórias viria a traduzir muitos anos depois. Sua admiração pelo prisioneiro de Robben Island me impressionou muito. Talvez tenha sido a forma como se deu esse primeiro encontro o que me levou a perceber dede o início o gosto que o líder africano manifestou durante toda sua vida pela cultura e pelo teatro. E a colocar minha narrativa sob a invocação da dramaturgia universal, de Sófocles a Corneille e de Shakespeare a Cesaire.
Aparementemente, a paixão pela arte não é uma característica importante de Nelson Mandela. Os analistas a negligenciam, com frequência, mas eu acho que se trata de uma das chaves de sua personalidade. Quando ele era estudante, representou, numa companhia amadora, o papel de assassino do presidente Lincoln. “Meu papel era pequeno, mas eu era o elemento motor da moral da peça, segundo a qual os homens que assumem grandes riscos devem estar preparados para as pesadas consequências daí decorrentes.” Ele continuou sendo o elemento motor o resto da vida.

Como a esta hora a maioria de vocês já ficaram sabendo, morreu ontem o líder sul-africano Nelson Mandela, um dos personagens que com sua vida e atuação resumem parte do século 20. Em sua condição de símbolo planetário, Mandela sempre foi alvo de grande atenção pública – primeiro com a comunidade internacional protestando contra seu confinamento, depois, ao provar na prática que poderia ser o governante de um tempo em que as pesadas e infames feridas do Apartheid pudessem cicatrizar – ainda que demoradamente, em um processo que não acabou até hoje.

Um personagem dessa dimensão não poderia, portanto, deixar de ser alvo de um bom número de biografias. Já deve andar perto da centena o número de livros publicados sobre o ex-prisioneiro que se tornou presidente e símbolo de uma das vitórias da Humanidade contra a Barbárie (infelizmente elas são menos do que gostaríamos). Muitas delas já têm tradução no país – Mandela é provavelmente uma das personalidades estrangeiras com o maior número de histórias de sua vida editadas por aqui. Uma delas é o livro de onde foi extraído o trecho que vocês leram acima: Mandela – uma Lição de Vida, de Jack Lang (Tradução de  Rubia Prates Goldoni, Mundo Editorial, 240 páginas) – um livro que tem lá seu tom de particularidade interessante porque Lang não é um biógrafo comum, é o ex-ministro da Cultura da França, e estrutura sua biografia de Mandela como quatro atos correspondentes a mitos históricos da dramaturgia ocidental: Antígona no primeiro; Espártaco no segundo; Prometeu acorrentado no terceiro e o sonhador Próspero de Shakespeare no quarto. O quinto o apresenta como o protótipo do rei sábio presente em muitas culturas.

Menos ambiciosa intelectualmente, mas com maior poder de comoção talvez seja Mandela, Retrato Autorizado, de Mac Marahaj e Ahamed Kathrada (Tradução de Alexandre Moschella e Joana Canedo. Editora Alles Trade, 356 páginas) – um livro que, como seu título já anuncia, é um texto autorizado pelo próprio Mandela e que trabalha para construir a imagem épica do estadista africano, seja por meio de narrativa de sua vida em tons elevados, seja com depoimentos de personalidades que conheceram Mandela, como o bispo sul-africano Desmond Toutou, o presidente dos Estados Unidos Bill Clinton e o cantor Bono Vox ou ainda por uma ampla coleção de imagens da trajetória de Mandela. É o Mandela “oficial” dos livros de história, o líder aclamado por um mundo abismado com a força de sua trajetória e de seu exemplo.

MandelaA mais recente biografia de Mandela a aportar nas livrarias brasileiras é Mandela: O Homem, a História e o  Mito, de Elleke Boehmer (Tradução de Denise Bottmann, L&PM, 224 páginas). É uma biografia que tenta avançar além da biografia de estilo jornalístico, mesclando os relatos sobre a vida de Mandela com interpretações históricas e acadêmicas sobre sua trajetória. É um dos textos desta série mais sólidos em analisar as circunstâncias e o pano de fundo da trajetória de Mandela para além do binômio “homem x mito” estabelecido pela persona pública do político sul-africano após a sua libertação. Não se tem aqui nem o herói admirável nem o militante de atuação controversa. Mandela é mostrado – a certa altura, em paralelo com Gandhi – como um personagem que lutava contra o imperialismo que, a seu modo, o tornou possível. Após décadas de domínio opressor, formou-se, a duras penas, uma massa crítica de figuras de proa nascidas no país com vontade de questionar o sistema em que viviam. Uma boa biografia para quem quer mergulhar em um panorama geral de Mandela e seu tempo.

mandela (1)Outra biografia, esta narrada por meio das próprias palavras do estadista sul-africano é Mandela: Conversas que Tive Comigo (Tradução de Ângela Lobo de Andrade, Nivaldo Montingelli Jr. e Ana Deiró. Rocco, 415 páginas), compilação de cartas e documentos pessoais de Mandela, gravações e depoimentos reunidos pela fundação que leva seu nome e reúne reflexões do personagem sobre o lado íntimo de seu sofrimento: a ausência na vida da família por quase três décadas de prisão imposta pelo regime racista do apartheid; os conflitos de uma vida dividida entre a luta política e a família – essa oposição, em configurações diferentes, levaria ao fim de dois casamentos, com Evelyn Mase ( 1944 a 1957) e Winnie Mandela (1957 – 1996). Embora o material tenha sido compilado por uma instituição oficial ligada a Mandela, o tom não é celebratório ou condescendente. Há diversas passagens em que Mandela faz uma autoanálise bastante dura sobre seus anos de juventude – e fala muito, também, sobre a dor de quase três décadas de encarceramento. Um texto sobre o livro pode ser lido aqui:

Esse é apenas um dos livros em que se pode ler a vida de Mandela pelas palavras dele próprio. Como menciona o biógrafo Lang no texto citado, Mandela foi também um um esteta além de estadista. Suas memórias foram publicadas nos Brasil também há duas décadas, pela Globo, com o nome de Nelson Mandela: A Luta é a Minha Vida - mas hoje duvido que se ache fora de sebo ou da Estante Virtual. E há uns dois anos a Martins Editora publicou uma coletânea de contos infanto-juvenis escolhidos pelo próprio Mandela, com o nome de Meus Contos Africanos (Tradução de Luciana Garcia, 156 páginas, R$ 54,80), reunindo histórias tradicionais do continente.

Há ainda Conquistando o Inimigo: Nelson Mandela e o Jogo que Uniu a África do Sul, de John Carlin, que inspirou o filme Invictus, de Clint Eastwood, e sobre o qual já publicamos um texto aqui.

Don DeLillo do lado de fora da vida

02 de dezembro de 2013 0

O-Anjo-Esmeralda

Texto de Luiza Piffero

Os personagens de Don DeLillo não fazem muito mais do que contemplar o que acontece ao seu redor, como se assistissem à vida se desenrolar ao largo deles. Quando encontram alguma coisa ou alguém para se agarrar, o fazem de maneira obsessiva.

Embora os nove contos da coletânea O Anjo Esmeralda cubram mais de três décadas na carreira de DeLillo – mais conhecido por romances como Ruído Branco e Submundo – e seus personagens habitem mundos tão diversos quanto o espaço sideral e uma ilha caribenha, eles mantêm esse forte traço em comum. O autor escolhe protagonistas que não estão presos no fluxo cotidiano da cidade e não precisam orientar seus dias pelo relógio: um viajante, um astronauta, um presidiário, um desempregado que passa as suas horas frequentando cinemas. Desde seus primeiros contos, fica claro que DeLillo, um dos autores norte-americanos mais festejados da atualidade, não estava interessado em histórias com início, meio e fim, mas na fabricação de personagens complexos e narrativas imbuídas de um mistério que cativa sem causar sobressaltos. Por esse motivo, ele presta especial atenção aos diálogos e jamais desperdiça palavras em descrições longas. Prefere a concisão.

Ler um conto seu é desacelerar e sentir a sensação de viver fora da urgência das cidades. Seus personagens têm tempo de sobra para refletir sobre si mesmos ou o que se passa diante deles. Por isso, acabam formulando pensamentos delicados, coisas secretas que um dia todos pensamos sem dar maior  importância e, na sua mão, viram um trampolim para questionamentos profundos. Obcecados por essas impressões,distanciam-se da realidade.

Esse desacelerar não quer dizer correr o risco de pegar no sono. O texto de DeLillo alcança um ritmo e é arquitetado de uma forma tal que o leitor é deixado sempre em estado de alerta. Esse traço o rendeu o apelido de“xamã da escola paranoica da ficção americana” e alguns críticos apontam nele o talento para absorver a atmosfera de medo e insegurança que se instalou nos Estados Unidos pós-11 de setembro.

O cuidado com as estruturas dos textos, muito mais dinâmicas do que as histórias, aparece bem em O Corredor. Nesse conto, DeLillo descreve a ação de maneira a colocar o leitor a correr junto do protagonista, que se exercita em um parque, arfando e respirando o mesmo ar, assistindo à paisagem mudar a cada passo. As sensações do personagem
são revezadas com as visões fragmentárias do espaço e de um episódio insólito que ele testemunha. Os personagens de DeLillo passam tanto tempo contemplando o mundo, excluídos, que, tal como escritores, passam a inventar suas próprias versões dele. Nas entrelinhas de cada conto, DeLillo parece sussurrar que, quando o mundo não faz mais sentido, a ficção é única saída.

Dois sentidos de execução

28 de novembro de 2013 0

quintateste

Um dos principais autores policiais em atividade, Michael Connelly produz muito e rapidamente. E não raro ancora suas tramas na realidade imediata, transformando-as em comentários da contemporaneidade. É o que faz em seu mais recente lançamento no Brasil, A Quinta Testemunha, no qual usa as consequências da crise financeira internacional como pano de fundo para um romance de crime.

Em A Quinta Testemunha, o protagonista é o advogado Michael Haller – que já havia aparecido em outros romances, como O Poder e a Lei, transformado, em 2011, num filme estrelado por Matthew McConaughey. Especialista criminal, Haller é forçado pela crise a mudar de ramo, atuando como defensor de alguns dos milhares de americanos que estão tendo suas hipotecas executadas pelos bancos. Com o desenrolar do romance, no entanto, ele se vê outra vez diante de um júri criminal depois que uma de suas principais clientes, uma ruidosa ativista, é acusada de executar – no sentido físico – o gerente de execuções – no sentido jurídico – do banco que tentava tirar- lhe a casa.

Uma das características que dotam de valor a obra de alguns grandes romancistas policiais contemporâneos é o equilíbrio delicado entre a manutenção de uma forma que é mais ou menos a mesma desde o século 19 (afinal, um romance de crime faz parte de um gênero bastante demarcado) e a subversão dessa mesma forma. É o truque dos grandes autores de suspense da contemporaneidade, como Fred Vargas, Dennis Lehane, Ian Rankin: desenvolver um estilo pessoal reconhecível no meio do que é, essencialmente, uma receita formulaica.

Connelly também faz parte desse time. Seus livros, embora tragam histórias fechadas e independentes, têm o hábito balzaquiano de fazer com que personagens de uma narrativa apareçam como coadjuvantes em outras, montando um grande painel da sociedade americana. Mas, em A Quinta Testemunha, ele é menos bem-sucedido. Diferentemente dos livros de Connelly protagonizados pelo detetive Harry Bosch, as histórias em que Michael Haller é o centro têm de lidar, ainda, com outra fórmula (bem típica do mercado editorial americano): o romance de tribunal.

Em A Quinta Testemunha, é aí que Connelly desaponta.  Embora trate de um tema candente do momento, como a crise econômica, o foco do romance no julgamento (também um teatro com regras demarcadas) não se afasta muito do modelo de autores como John Grisham ou Scott Turrow. Dado o que Connelly já fez antes, não é o bastante.