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O Cantor e o Escriba

Tomás Eloy Martínez em imagem de 2002. Foto de Gonzalo Martínez/Divulgação

>>> NOTA DO EDITOR: Espero que todos vocês tenham lido hoje na página 8 do Caderno Cultura de Zero Hora um texto no qual o jornalista argentino Edgardo Litvinoff faz o elogio do crítico, jornalista e romancista argentino Tomás Eloy Martínez (foto acima,), autor de Santa Evita e O Romance de Perón, entre outros, morto no último domingo, dia 31 de janeiro, depois de um longo tempo de batalha contra o câncer.

Pois aqui abaixo vai outro texto, belíssimo, escrito pelo editor do caderno, o jornalista Luiz Antônio Araújo, celebrando a memória do Martínez, a quem conheceu pessoalmente durante um curso em Buenos Aires.  É uma elegante elegia de um autor por si só já conhecido como um sinônimo de elegância –na prosa e na vida. No texto, que vocês podem ler abaixo, Araújo relata um encontro entre Martínez e o tanguero Luis Cardei, que mais tarde seria usado pelo escritor como modelo para o romance O Cantor de Tango. Sem mais, deixo vocês com a crônica do Araújo. E lá no fim do post, vocês podem ver um breve video de uma apresentação de Cardei, realizada no Club del Vino em 1998 – dois anos antes da história relatada abaixo:

O cantor e o escriba

LUIZ ANTÔNIO ARAUJO
Editor de Cultura

Chovia e fazia calor naquela noite de maio de 2000 em que nos reunimos no bar Clásica y Moderna, centro de Buenos Aires. Éramos uma dúzia de editores latino-americanos por volta dos 30 anos, e naquela tarde havíamos terminado de assistir a um seminário de edição com Tomás Eloy Martínez. Aos 64 anos, ele viajara dos Estados Unidos para, entre outros compromissos, animar o encontro com jovens colegas patrocinado pela Fundação Latino-americana de Jornalismo. Não era segredo que sua saúde inspirava cuidados – no segundo dia do evento, teve de se ausentar em razão de uma indisposição. Nos momentos que passamos juntos, porém, revelava a lucidez, o equilíbrio e a humildade que o tornaram admirado por quem o conheceu.

Não sei quem escolheu o café no qual nos encontramos para a despedida. Ocupamos três ou quatro mesas, acompanhados por Jaime Abello Banfi, então presidente da Fundação, por Gonzalo Martínez, fotógrafo e filho de Eloy, e pelo pessoal de apoio do seminário.

Por algumas horas, jogamos conversa fora com o descompromisso que domina as confraternizações que encerram jornadas árduas. A certa altura, perguntei a Eloy a que atribuía o costume de grandes escritores argentinos – Borges, Cortázar, ele próprio – de optarem por viver no exterior.

– Talvez porque não exista aqui um mercado leitor como o de vocês _ me respondeu, acrescentando que Santa Evita, seu título mais famoso, vendeu mais no Brasil do que na Argentina.

Ele confidenciou que havia recebido de uma editora brasileira, a Objetiva, o convite para participar da coleção Plenos Pecados, na qual grandes autores revisitavam os sete pecados capitais. Ao argentino Eloy, único não-brasileiro num time em que figuravam Luis Fernando Verissimo e João Ubaldo Ribeiro, havia tocado a Soberba. A gaiatice da escolha não lhe escapava, mas ele admitiu que enfrentava dificuldades para fazer decolar o que um dia viria a ser o livro O Voo da Rainha.

É que não sou uma pessoa arrogante _ comentou.

Enquanto falávamos, apresentava-se sobre um pequeno palco o cantor de tango Luis Cardei. Baixo, claudicante – ficara sem caminhar dos oito aos 13 anos em consequência da hemofilia –, com uma vozinha de gnomo, era um monumento à debilidade. Cantando, se agigantava. Desfiava um repertório tradicionalíssimo, clássico, no qual reluziam pérolas dos anos 20 e 30 como Anclao en Paris e Barrio Viejo. Embora tivesse nascido no mundo do tango, conhecera o sucesso apenas no fim da vida. Entre uma e outra canção, se divertia contando histórias num diálogo de mão única com o parceiro a quem chamava AntonitoAntonio Pisano, virtuose do bandoneón. Um bordão marcava a passagem da anedota ao tango:

– Qué lindo!

Num intervalo, Eloy foi à mesa de Cardei cumprimentá-lo. O cantor, embora cordial, permaneceu sentado durante a breve troca de palavras. Por muito tempo, os versos de Anclao en Paris _ “Quien sabe a la noche / Me encuentre la muerte / Y ciao, Buenos Aires / No te vuelvo a ver” – foram o único rescaldo daquela noite em minha memória.

Anos depois, ao folhear um dos romances de Eloy, encontrei a passagem em que um dos personagens ouve, num café, um cantor que rememora velhas histórias e exclama:

– Qué lindo!

Cardei seria também a inspiração para o tanguero hemofílico Julio Martel em O Cantor de Tango (2004). Teria sido casual o encontro do escritor e do intérprete naquela longínqua noite de 2000? Teria Eloy aproveitado a passagem por Buenos Aires para se acercar de um personagem que lhe chamara atenção? Teria antecipado a nós, seus alunos, uma pista da direção em que se orientava sua mente de criador? Difícil saber. Cardei morreu semanas depois, em 13 de junho. Agora, Eloy também se retirou. Só Buenos Aires pode ser encontrada onde os dois a deixaram.

+++

A meu pedido, o jornalista argentino Edgardo Litvinoff aceitou gentilmente escrever o artigo “O Evangelho Segundo Tomás” que aparece na página 8 do Cultura deste sábado. Além de ter presenciado o encontro de Eloy e Cardei em 2000, Litvinoff voltou a encontrar e entrevistar o escritor muitas vezes desde então.

 

>>> ADENDO DO EDITOR: Para quem não conhece o trabalho de Luis Cardei e ficou curioso, deixo abaixo um breve video de uma apresentação do cantor, realizada no Club del Vino em 1998 – dois anos antes da história relatada por Araújo.

 

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Duas Noites

“Passamos aquele verão em Torres, onde fiz vãs tentativas para começar a escrever o último volume da trilogia, O Arquipélago.
Foi durante esse veraneio que produzi o livro mais controvertido de minha carreira de contador de histórias.
Quando afirmo que
Noite não passou dum exercício literário, sem razões profundas em problemas pessoais – espécie de divertimento, de morceau de bravoire – alguns de meus amigos sacodem a cabeça, negando-se a aceitar a ideia. Insisto em que não escrevi essa novela para exorcizar nem mesmo cutucar fantasmas que porventura assombrassem a casa de meu ser. (Num agudíssimo ensaio sobre minha obra, o crítico Moysés Vellinho por assim dizer me “desmascara”, afirmando, principalmente a propósito de Noite, que nesse livro se pode surpreender o outro lado, o lado clandestino de minha alma…)
A verdade é que alguns leitores ficaram chocados e até indignados quando leram essa estória sombria, que passou a ser uma espécie de ovelha negra no meu rebanho literário. Escrevi-a em menos de dois meses, à beira-mar, em dias geralmente luminosos que eram a negação do espírito da novela.
A ação de
Noite se passa numa única noite, e sua personagem central é um homem que o autor apanha no momento exato em que ele perde a memória e se sente um estranho numa cidade para ele – e também para o leitor (e o novelista) – completamente desconhecida. No decorrer dessa noite o desmemoriado encontra duas estranhas figuras que se apoderam dele e o carregam para os lugares mais sórdidos da cidade e da madrugada. Como os vesperitnos noticiaram que uma mulher fora assassinada a facadas ao anoitecer daquele dia, e que seu marido, sobre o qual recaem as suspeitas, se encontra desaparecido, os dois demônios (eu escrevi demônios?) convencem o Desconhecido de que ele é o assassino. O pobre homem, confuso aceita prontamente a culpa e daí por diante fica completamente à mercê das duas sinistras aves noturnas. E o trio continua sua caminhada rumo dos confins da noite…”

No fim do ano passado, a Companhia das Letras colocou nas bancas, no seu processo de reedição integral da obra de Erico Verissimo, a novela Noite – uma gema de estranhamento, um livro cuja singularidade o torna um objeto único e sem similares na vasta obra de Erico. Como vocês puderam ler no trecho acima, retirado do primeiro volume das memórias de Erico em Solo de Clarineta, o próprio autor compartilhava desse juízo sobre sua novela “publicada – e pouco lida – no Brasil em 1954″, nas palavras de Erico. Noite ainda é, contudo, uma obra intrigante e até certo sentido antecipatória da dissolução da identidade do homem contemporâneo. Aproveitando o gancho da reedição de Noite, republico aqui, além da análise do próprio Erico sobre a obra, que vocês leram acima, um texto do escritor Tailor Diniz sobre a novela, escrito em 2005 para a série Erico e os Escritores, que celebrava o centenário de nascimento do autor de O Tempo e o Vento. O Texto está sendo republicado, é lógico, com a gentil concordância de Diniz:

O reverso da identidade
Tailor Diniz

Um bom livro é também aquele que a realidade se encarrega de atualizar, independentemente de tempo ou espaço. Quem, recentemente, não ouviu ou leu algo sobre o pianista, aquele sujeito sem memória que apareceu numa praia da Inglaterra, de terno e gravata, caminhando ao léu, sem saber de onde veio nem para onde vai? Se invertêssemos os tempos, poderia se dizer que Erico Verissimo se inspirou nessa história real para escrever Noite, novela que se passa em poucas horas, na qual um homem vaga pela cidade, debatendo-se para recuperar a memória, em meio a um ambiente hostil e num cenário que, embora estranho, pode estar, a cada esquina, ocultando a chave de sua identidade.

Noite não é um livro sobre a falta de identidade, como se poderia supor, por ter como protagonista um homem sem memória, cercado de criaturas sem nomes circulando pelas ruas sem nome de uma cidade também sem nome. Erico trata do assunto identidade por um outro viés, oposto ao visto em Um Certo Capitão Rodrigo, por exemplo. Ali, logo na primeira frase (”Toda a gente tinha achado estranha a maneira como o cap. Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé.“), já se antecipa o contraste que vai marcar o conflito futuro, entre a personalidade do capitão e a moral intrínseca ao espaço onde passará a viver.

Se em Santa fé a tradição dos sobrenomes Terra, Amaral e Cambará dispensaria maiores explicações sobre o perfil de sua gente, em Noite ocorre o contrário, é a ausência de nomes próprios que põe em relevo a engrenagem formadora do ambiente e suas circunstâncias. Se em Um Certo Capitão Rodrigo o capitão não dá por finalizada uma briga sem antes gravar com ponta de faca a inicial de seu nome no inimigo, com o personagem de Noite a questão identidade tem caminho inverso. Ao invés de marcar, ele se empenha numa renhida luta consigo mesmo em busca de algo que lhe restitua a marca. E é por meio de um olhar perplexo diante de tipos característicos do submundo (cafetões, gigolôs, prostitutas, políticos e demais figuras que, durante o dia, longe dos tentáculos da noite, são alcunhadas de ilustres) que o autor vai lhe sugerindo, aos poucos, um passado atormentado.

Com algumas passagens bem-humoradas e outras próximas do sarcasmo, os personagens de Noite são criaturas marcantes. Como esquecer das lágrimas derramadas por uma viúva quando o Mestre, sentado sobre a cama do casal e diante de outros parentes, faz uma apologia à memória de um morto sem mesmo saber quem ele é? Está aí uma das chaves de Noite: não há necessidade de se conhecer a identidade de um cadáver para lhe ser atribuído um passado de glórias e virtudes.

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Lembrando Ulisses

Já que estamos no dia 2 de fevereiro, data que marca não apenas o nascimento do escritor irlandês James Joyce (em 1882) como a publicação da primeira edição, em Paris, de sua obra Ulisses (editada pela lendária Sylvia Beach da mais lendária ainda Shakespeare & Co. depois de uma porrada de rejeições editoriais de outras “boas casas do ramo”), vai lá o trecho inicial do romance, na tradução mais recente para o português, de Bernardina da Silveira Pinheiro. Imagino que a maioria aí esteja ciente do que trata o livro, considerado a suprema obra do modernismo literário e o romance mais revolucionário do Século XX. Em uma linguagem que vai do cômico ao poético, com neologismos e monólogos que intercalam atos e pensamentos dos personagens, Joyce escreveu o épico moderno: 24 horas de um dia comum na vida
do judeu Leopold Bloom, um sujeito banal que atravessa a cidade de Dublin e encontra durante essa jornada com um jovem e atormentado poeta, Stephen Dedalus, de formação católica e ex-aluno de um seminário jesuíta. A tradução de Bernardina desmente, um pouco, a fama de ilegível do texto, recuperando alguns elementos de coloquialidade e humor presentes no original e deixando de lado a algo rebarbativa riqueza vocabular da versão de Antônio Houaiss. Divirtam-se:

Majestoso, o gorducho Buck Mulligan apareceu no topo da escada, trazendo na mão uma tigela com espuma sobre a qual repousavam, cruzados, um espelho e uma navalha de barba. Um penhoar amarelo, desamarrado, flutuando suavemente atrás dele no ar fresco da manhã. Ele ergueu a tigela e entoou:
- Introibo ad altare Dei.
Parado, ele perscrutou a escada sombria de caracol e gritou asperamente:
- Suba, Kinch! Suba, seu temível jesuíta!
Solenemente ele avançou para a plataforma de tiro. Olhou à volta e seriamente abençoou três vezes a torre, o terreno à volta e as montanhas que despertavam. Em seguida, avistando Stephen Dedalus, ele se inclinou em direção a ele e fez cruzes rápidas no ar, gorgolejando na garganta e sacudindo a cabeça. Contrariado e sonolento, Stephen Dedalus apoiou os braços no último degrau da escada e olhou friamente para o rosto sacolejante e gorgolejante que o abençoava, para a cabeça eqüina e os cabelos claros sem tonsura, tingidos e matizados como carvalho descorado.
Buck Mulligan espreitou por um instante por baixo do espelho e depois cobriu a tigela rapidamente.
- De volta pro quartel! - disse implacavelmente.
E acrescentou em tom sacerdotal:
- Pois isto, meus bem-amados, é a verdadeira cristina: corpo e alma e sangue e feridas. Música lenta, por favor. Fechem os olhos, senhores. Um momento. Um pequeno problema com esses corpúsculos brancos. Silêncio, todos.
Ele olhou de soslaio para cima e soltou um longo e lento assobio de chamada, depois fez por um momento uma pausa em atenção enlevada, com seus dentes iguais e brancos brilhando aqui e ali pontilhados de ouro. Crisóstomo. Dois fortes assobios estridentes responderam através da calma.
- Obrigado, meu velho - gritou vivamente. - Isto é o bastante. Desligue a corrente, está bem?
Saltou fora da plataforma de tiro e olhou seriamente para o seu observador, juntando em volta das pernas as dobras soltas de seu penhoar. A cara rechonchuda e sombria e a queixada oval e taciturna lembravam um prelado, patrono das artes na idade média. Um sorriso agradável desabrochou em seus lábios.
- A ironia das coisas! - disse ele alegremente. - Seu nome absurdo, um grego antigo!
Ele apontou com o dedo num gesto amigável e se encaminhou para o parapeito rindo consigo mesmo. Stephen Dedalus se aproximou, acompanhou-o e a meio caminho cansado se sentou na beira da plataforma de tiro, observando-o enquanto ele apoiava o espelho no parapeito, molhava o pincel na tigela e passava a espuma na face e no pescoço.
A voz alegre de Buck Mulligan prosseguia.
- Meu nome também é absurdo: Malachi Mulligan, dois dátilos. Mas soa helênico, não soa? Saltitante e radioso como o próprio cervo. Nós precisamos ir a Atenas. Você vem se eu conseguir que a tia me dê vinte libras?
Ele pôs o pincel de lado e, rindo com prazer, gritou:
- Será que ele vem? O jesuíta subnutrido!
Parando, ele começou a fazer a barba com cuidado.
- Diga-me, Mulligan - falou Stephen tranqüilamente.
- Sim, meu anjo?
- Quanto tempo Haines vai ficar nesta torre?
Buck Mulligan mostrou um rosto barbeado por cima do ombro direito.
- Meu Deus, ele não é horrível? - disse francamente. - Um saxão enfadonho. Ele não acha que você seja um cavalheiro. Meu Deus, esses malditos ingleses! Estourando de dinheiro e indigestão. Porque ele vem de Oxford. Você sabe, Dedalus, você tem o verdadeiro estilo de Oxford. Ele não consegue entender você. Ó, meu nome para você é o melhor: Kinch, a lâmina-de-faca.
Ele raspou cautelosamente o queixo.
- A noite inteira ele esbravejou em sonho a respeito de uma pantera negra - disse Stephen. - Onde é que está o estojo da arma dele?
- Um miserável lunático! - disse Mulligan. - Você ficou apavorado?
- Fiquei - Stephen disse energicamente e com um medo crescente. - Aqui no escuro com um homem que eu não conheço esbravejando e ameaçando aos gemidos atirar numa pantera negra. Você salvou homens de afogamento. Porém eu não sou um herói. Se ele ficar aqui eu estou fora.
Buck Mulligan franziu a testa ao olhar para a espuma em sua navalha. Ele saltou de seu poleiro e começou a dar apressadamente uma busca nos bolsos de sua calça.
- Droga! - bradou guturalmente.
Ele veio para a plataforma de tiro e, enfiando a mão no bolso superior de Stephen, disse:
- Faça-nos empréstimo de seu traponasal para limpar minha navalha.
Stephen suportou que ele puxasse para fora e exibisse erguido por uma das pontas um lenço amarrotado e sujo. Buck Mulligan limpou a lâmina da navalha cuidadosamente. Em seguida, lançando um olhar por cima do lenço, disse:
- O traponasal do bardo! Uma nova cor artística para os nossos poetas irlandeses: verdemeleca. A gente quase pode sentir o gosto, não é?

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Jogo arriscado

Aproveitando que Invictus, o filme de Clint Eastwood, está em cartaz aqui na Capital (na foto, vocês veem Morgan Freeman como Nelson Mandela e Matt Damon como o capitão da seleção sul-africana de rúgby François Pienaar), republico abaixo o texto escrito pelo nosso colega Luiz Zini Pires, titular da coluna e do blog Bola Dividida, sobre o livro que deu origem ao filme. Bom proveito:

A Grande Jogada de Mandela

John Carlin, 56 anos, é autor de Conquistando o Inimigo: Nelson Mandela e o Jogo que Uniu a África do Sul (Sextante, 272 páginas, R$ 29,90), mãe do filme Invictus. Mãe não. Madrasta.

Tivesse a mesma garra do livro de John Carlin, o filme do quase sempre perfeito Clint Eastwood seria candidato ao Oscar. Não que o filme seja ruim. Não é. Decepciona pela falta de esforço do diretor, pela sua mão politicamente correta. Mas no fim o filme sempre ajuda o livro - o contrário nunca acontece. Talvez ajude você.

Os mais apressados podem começar a sua viagem pela África do Sul, país da próxima Copa, em 132 exatos dias, por Invictus. Eu começaria pelo livro. Conheço o autor, John Carlin, um inglês de pai escocês diplomata) e mãe espanhola, que já morou em Buenos Aires, gosta de Porto Alegre e vive em Barcelona, onde escreve no jornal El País. Carlin é um grande papo. Formado em Oxford, passou 25 anos trabalhando em mais de 40 países. Cobriu todo tipo de conflito. Falei com ele semanas atrás. Ele estava ansioso com a estreia do filme.

Carlin viveu na África do Sul como chefe dos correspondentes locais do melhor jornal britânico, o The Independent, nos anos 1990. Esteve várias vezes com Nelson Mandela em diferentes situações. Na prisão e no chá das cinco do então novo presidente.

- Mandela é uma pessoa que combina generosidade com astúcia. Nobreza com pragmatismo. Mandela tem um tremendo encanto pessoal. Ele é um gênio da política. Como Mozart com a música, como Einstein na ciência, Pelé com o futebol - ele me disse, por telefone, da Espanha.

Carlin contou (e o livro mostra) que Mandela, primeiro, liberou o seu povo de uma terrível tirania.Logo, cimentou as bases para uma democracia real e estável. A África do Sul tem seus problemas, como outros países, mas ninguém duvida que é uma democracia absolutamente autêntica. Mandela também evitou uma guerra. Claro, é terreno hipotético, mas quando Mandela saiu da prisão, existiam todos os elementos para que eclodisse uma terrível guerra civil entre brancos e negros. É, assim, um libertador.

Hoje, a África do Sul poderia ser outro Afeganistão. Não é, e é isto que Mandela deixou. A África do Sul é um país democrático, estável economicamente, bastante forte e capaz de celebrar uma Copa do Mundo com novos estádios, com o maior orgulho, sem terrorismo, mas ainda com sérios problemas de criminalidade - como o Brasil - e um crônico buraco no seu sistema de transportes (o que seguramente atrapalhará o óbvio
vaivém dos torcedores).

O livro dá mais sobre a África do Sul, o filme dá menos. Os dois podem se ajudar. Ganha a nossa cultura.

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No ritmo do jazz

Alguns livros são roteiros acabados de filmes. Outros dão ótimas peças de teatro. Visões de Cody, uma das duas obras póstumas de Jack Kerouac lançadas no ano passado, jamais poderia ganhar adaptação audiovisual. Porque assim como toda sua literatura, Visões é jazz. Jazz bebop. Jazz bebop de fim de noite, enfumaçado, concentrado e aditivado. Assim, ora com fraseados rápidos e sincopados, ora em solos intermináveis, quase sempre improvisando, sobrepondo camadas e texturas, conduzido por um fio de ideia suficiente apenas para manter o ouvinte/leitor respirando, Kerouac atinge o ápice de seu estilo radiografando o amigo e inspirador Neal Cassady - ou, como ele mesmo define a empreitada, “um estudo vertical e metafísico de Cody e sua relação com a ‘América’ em geral”.

As quase 500 páginas de Visões foram repartidas em cinco atos - seis, contando com o elogioso posfácio do amigo Allen Ginsberg. Nos dois primeiros, o autor exercita sem miséria o fluxo de (in)consciência que o tornaria famoso mais tarde em On the Road (na época escrito, mas ainda inédito), narrando sua ânsia por encontrar o velho parceiro de estrada, a viagem até ele e um pouco da vida pregressa de Cassady. E há o terceiro capítulo.

Nele, está a principal visão de Cody. A visão em primeira pessoa, crua, sem cortes, de cinco noites estupefacientes de conversas gravadas em fita magnética entre Cassady e Kerouac - com uma ou outra participação de amigos e namoradas. O papo registra mais que as impressões da dupla sobre o universo de valores dúbios que os cerca, devaneios monstruosos (não são raros os parágrafos de página e meia), digressões ainda maiores e trechos inteiros onde nada aparentemente faz sentido. É aí, entre uma fita e outra - e isso é o ouro - que surge um Glenn Miller, um Charlie Parker ou um Dizzy Gillespie para esclarecer o leitor que ainda procura algum sentido literal. É jazz. É Neal Cassady.

Fica claro pela devoção de Kerouac que toda a literatura beat - quiçá o movimento - girou em torno deste sujeito, protótipo do anti-herói americano. O alucinado que anos mais tarde seria flagrado por Tom Wolfe dirigindo o ônibus psicodélico de Ken Kesey, “homenageado” por Ginsberg em Uivo, o vagabundo iluminado de On the Road que morreria de maneira lendária ao tentar contar os dormentes de uma estrada de ferro num deserto mexicano – história essa contada pelo tradutor Eduardo Bueno.

Por isso, cabe ressaltar que, assim como o jazz bebop, este não é um livro recomendado para neófitos na escrita de Kerouac. Para eles, chega ao mesmo tempo E os Hipopótamos Foram Cozidos em seus Tanques, parceria de Jack com William S. Burroughs. Escrito em 1945, gira em torno da mesma turma, lugares e temas que iriam compor (e abastecer) o universo beat durante as décadas seguintes, mas escrito em prosa corrida e fácil, a meio caminho dos estilos que ambos forjariam mais tarde. A metáfora da viagem já começava a ser utilizada, assim como o uso de pseudônimos, escrita em primeira pessoa e a base da narrativa em fatos reais. Em E os Hipopótamos…, a dupla narra os dias que antecederam um assassinato que chocaria a sociedade da década de 1940 - e deixaria o livro inédito até 2007.

O mais importante, no entanto, é sua relevância como polaroide de um tempo anterior à explosão beatnik, antes da turma embarcar na grande viagem que os alçaria a pais da contracultura. Na época, os EUA ainda não haviam ganho a II Guerra, não existia a prosperidade que o Plano Marshall traria junto com a reafirmação do american way of life. Justamente os valores contra o qual os beats surgiriam como antítese. E tendo Neal Cassady como seu grande protagonista.

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O que aconteceria se…

Há um tipo peculiar de ficção que nos quadrinhos Marvel ganhou o nome clássico de “O que aconteceria se”, e que na literatura se poderia chamar de “histórico-alternativa”. A fórmula sobre a qual esse tipo de narrativa se assenta é simples: o livro vai até um momento no passado, que pode ser crucial, ou a uma situação aparentemente sem maiores consequências. Ali, a narrativa recria esse momento histórico particular e imagina o que teria acontecido se ele tivesse se desenrolado de outra forma.

Um dos melhores exemplos pode ser encontrado no clássico de Philip K. Dick O Homem do Castelo Alto, no qual o autor apresentava sua visão alternativa da história humana se o eixo, e não os aliados, houvesse vencido a Segunda Guerra Mundial. Vencedores, os japoneses ocupam os Estados Unidos, a Alemanha instaura o seu sonhado Império europeu e pelos anos seguintes a Guerra Fria se dá entre os antigos aliados alemães e os japoneses (que estão tecnologicamente bem atrasados em relação a seus amigos chucrutes, uma vez que a migração de cientistas do Reich que se sucedeu ao fim da Guerra – e que alavancou muito do progresso tecnológico de Rússia e EUA – não teria acontecido naquela realidade).

Esse tipo de narrativa não é empregada apenas por escritores da injustamente criticada ficção científica. Autores de aclamação crítica unânime também recorrem a ele. Provavelmente o maior nome da ficção americana ainda vivo, Philip Roth também andou se exercitando nesse gênero, com Complô contra a América, ao mesmo tempo um romance histórico escrito a partir de um fato que nunca aconteceu e um romance de formação em que o jovem protagonista - o próprio Roth - não se torna um adulto melancólico, e sim um sujeito assustado. O romance se passa entre junho de 1940 e outubro de 1942, e elege como o “ponto alternativo” de sua trama a eleição para a presidência norte-americana disputada entre Franklyn Delano Roosevelt,  o presidente que reergueu os Estados Unidos após a Grande Depressão, tentando um terceiro mandato contra o heróico Charles A. Lindbergh, pioneiro da aviação que em 1927, aos 25 anos, realizou o primeiro vôo sem escalas sobre o Atlântico. No mundo extraliterário, Lindbergh, um notório antissemita com opiniões simpáticas ao regime nazista, nunca se candidatou a presidente dos Estados Unidos, embora tenha sido realmente cortejado pelos republicanos para enfrentar Roosevelt. Na realidade imaginada por Roth, Lindbergh vence as eleições e, em vez de se aliar à Inglaterra e à Rússia no esforço de guerra contra o eixo, assina um pacto de não-agressão com a Alemanha de Hitler e começa a pôr em prática na América uma série de programas de recolocação da população judaica semelhantes aos dos guetos nazistas na Polônia e em outros territórios ocupados.

O mais recente exemplo é Associação Judaica de Polícia (Tradução de Luis Antônio de Araújo. Companhia das Letras, 472 páginas), do romancista norte-americano Michael Chabon, publicado por aqui no ano passado. Chabon é também o autor de As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay, provavelmente o primeiro romance em prosa a ganhar aclamação crítica lidando com o universo dos quadrinhos - o romance ganhou o Prêmio Pulitzer de 2000 contando a história de dois artistas judeus que, durante e após a II Guerra (olha ela aí de novo), tornam-se figuras de destaque na ainda incipiente indústria americana de quadrinhos. Muito do livro é inspirado na biografia dos criadores do Super-Homem, Jerry Siegel e Joe Schuster - e assim como eles, ambos também criam um personagem bastante popular, O Escapista. O livro deu a Chabon também prestígio para ser um dos roteiristas do segundo filme do Homem-Aranha. E o Escapista foi parar realmente nos quadrinhos, pelas mãos de autores consagrados do gênero como Howard Chaykin, Roy Thomas, Bill Sienkiewicz e Mike Mignola. Não que isso tenha a ver com o tema central do post, mas também agora pintou a notícia de que as histórias do Escapista finalmente ganham versão no Brasil pela editora Devir como você pode ler neste post do blog Quadriteca. Mas não era disso que eu estava falando, sigamos adiante.

Em Associação Judaica de Polícia, Chabon elege como objeto de sua “história do avesso” o Estado de Israel. Imagina o que teria acontecido se, em 1948, a guerra que se seguiu à criação do país judaico no Oriente Médio tivesse sido vencida pelos árabes. As migrações para Israel se interrompem, o território é ocupado pela Palestina e a ONU tem outra vez o problema de milhões de judeus espalhados por aí sem pátria. A fim de evitar mais estragos e para afastar a sombra de um Holocausto ainda recente, os Estados Unidos oferecem, ainda que a contragosto, o território do Alasca em concessão por 50 anos.  Após o fim da II Guerra, isso realmente foi cogitado, mas a iniciativa foi barrada por um congressista do Alasca - no livro, o político morre atropelado e a concessão ocorre sem entraves. Os judeus então instalam uma nação provisória em pleno Alasca, e o que se segue é a mesma coisa que se viu no deserto, dessa vez trocado pela neve: migrações judaicas, hostilidade dos locais, reclamações de esbulho contra a população autóctone (os “índios”, como os yids os chamam).

Tudo isso vai sendo desdobrado, contudo, como um habilidoso pano de fundo, porque quando a história começa, em 2007, o foco é outro. Há no ar um clima estranho, porque está chegando a hora da “reversão” do território aos americanos, o que de novo deixará os judeus sem um país. “É uma época estranha para ser judeu”, diz o protagonista, um detetive de polícia melancólico e em decadência, Meyer Landsman. Landsman é acordado pelo gerente do hotel vagabundo em que mora. Um viciado em heroína foi encontrado morto naquele mesmo prédio, e Landsman, embora não tenha necessidade por não ser seu turno, se oferece para assumir a investigação - os motivos são os mesmos de sempre, ele está na pior, separou-se da mulher, não sabe o que fazer da vida, aquelas coisas. Como companheiro na investigação, Landsman conta com seu primo, colega policial e melhor amigo Berko Schemetz, um gigante mestiço de judeu e esquimó. Logo, Landsman também se vê sob as ordens da nova supervisora de seu distrito, encarregada de zerar o mais rápido possível os trabalhos do distrito antes da iminente reversão: sua própria ex-mulher, Bina Gelbfish. O que prende em Associação Judaica de Polícia, contudo, é a montagem desse cenário histórico alternativo e a imaginação delirante de Chabon. A trama que o detetive vai deslindando logo o põe em contato com a máfia e com um plano secreto, ainda que delirante, para a reconquista militar de Jerusalém. Vai abaixo um trechinho:

Landsman observa o avanço de Eliyah, o profeta, na nevasca, e planeja sua própria morte. Esta é a quarta estratégia que desenvolveu quando está indo sumidouro abaixo. Mas é claro que precisa tomar cuidado para não exagerar. Filho e neto paterno de suicidas, Landsman viu seres humanos se despacharem deste mundo de todas as maneiras possíveis, da inepta à eficaz. Sabe o que se deve e o que não se deve fazer. Saltar da ponte e mergulhar da janela do hotel: pitoresco, mas incerto. Pular no buraco da escada: pouco confiável, uma decisão impulsiva, demasiado parecida com uma morte acidental. Cortar os pulsos, com ou sem a popular, mas desnecessária, variante da banheira: mais difícil do que parece, com laivos de um amor donzelesco pelo dramalhão. Destripamento ritual com uma espada de samurai: trabalho difícil, requer ajudante, e denunciaria um quê de afetação se praticado por um yid. Landsman nunca viu a coisa feita desse modo, mas conheceu um noz que jurava ter visto.

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Morre Tomás Eloy Martínez

A informação vem da DPA e da versão online do La Nación. Morreu na noite de ontem o escritor e jornalista argentino Tomás Eloy Martínez (foto, . Ele estava com 75 anos e vinha travando uma difícil batalha contra o câncer. Um dos grandes nomes do jornalismo argentino, com passagens por La Nación, pelo El País espanhol e pelo americano The New York Times, Martínez era mais conhecido no Brasil como escritor, por obras como O Romance de Perón, Santa Evita e O Cantor de Tango, entre outras.

Martínez nasceu em 1934, na província de Tucumán, e lá começou uma exitosa carreira na imprensa, com atuação como repórter, colunista, crítico de cinema e literatura e homem de televisão.  Além de ter sido o primeiro diretor do telejornal Telenoche, participou da equipe que formou o lendário Página 12 e esteve, nos anos 1960, à frente do semanário Primeira Plana, outra publicação fundamental do país. Nos anos 1970, passou por outras revistas e jornais como Panorama (entre 1970 e 1972) e La Opinión (1972 _ 1975). A ditadura militar argentina o levou a exilar-se na Venezuela, onde viveu até 1982 também com atuação em jornais como El Nacional e O Diário de Caracas.

Já nessa época havia feito sua estreia na literatura, com destaque para La Pasión Según Trelew, de 1974, mas seu nome seria plenamente reconhecido como romancista só uma década mais tarde, com O Romance de Perón, publicado em 1995. Na obra, originalmente gestada como uma reportagem biográfica sobre o político argentino Juan Domingo Perón, Martínez já praticava o estilo que o tornaria conhecido: uma curiosa e instigante mistura entre jornalismo e literatura, com a estrutura de uma investigação mas com um narrador que o tempo todo comentava as incongruências do relato e a dificuldade de escolha de uma única versão dos fatos, mesmo para uma história que se anunciava como fictícia.

A forma se repetiria no livro que é provavelmente o mais conhecido de Martínez: Santa Evita, de 1995, no qual Martínes mescla uma narrativa biográfica da mulher de Perón, onipresente no imaginário argentino, como também discutia a criação da imagem de Evita, de moça pobre a mito. O livro partia da reconstituição de um episódio real: o roubo do cadáver mumificado de Evita, e seu transporte, ao longo de meses, de esconderijo em esconderijo.

Nos últimos anos, Martínez vivia nos Estados Unidos por conta de uma bem-sucedida carreira acadêmica. Desde os anos 1990 era professor na Universidade Rutgers, em Nova Jérsei, onde atuava como diretor de um Programa de Estudos Latino-americanos. Também foi agraciado com o título de doutor honoris causa pela Universidade John F. Kennedy, de Buenos Aires e pela Universidad de Tucumán, sua província natal. Ele também recebeu em 2009 o Prêmio Ortega y Gasset pelo conjunto de sua obra. Ele havia visitado a Feira do Livro de Porto Alegre em 2004 para lançar O Cantor de Tango, romance no qual contava a história de um mítico intérprete de tango que se recusava a gravar discos e era perseguido por um pesquisador obcecado por entrevistá-lo. Nessa ocasião, ele concedeu a entrevista que eu reproduzo abaixo. O que ficou na minha memória dessa conversa foi uma impressão das melhores. Martínez era um conversador elegante e um entrevistado de grande gentileza. O cavalheiro que o porte altivo de sua figura já insinuava. Deixo vocês com as palavras dele:

Mi Buenos Aires Perdido

Residente nos Estados Unidos, Tomáz Eloy Martínez confessa que, a cada vez que volta a Buenos Aires, a cidade parece mudar. O que dirá ele então de Porto Alegre, que não visita desde 1966, quando passou uma noite e um dia na capital gaúcha e – se recorda - comeu frango? Martínez, autor de Santa Evita e O Romance de Perón, chega hoje à cidade para uma palestra sobre seu novo romance, O Cantor de Tango. Seguida
por uma sessão de autógrafos. Por telefone, ele concedeu a seguinte entrevista:

Zero Hora - O Cantor de Tango lembra Santa Evita: um pesquisador busca um personagem mítico e assim elabora um mosaico de histórias sobre a identidade argentina.
Tomáz Eloy Martínez -
Isso porque o pesquisador, o investigador, é um elemento constante em muitos romances. Há um pesquisador que recorda o passado no Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, há um investigador em alguns romances de Dickens. Há um ponto de vista em todos os romances, e muitas vezes esse ponto de vista é o de um pesquisador.

ZH - O senhor vive nos Estados Unidos, e no entanto a Argentina ainda é objeto de sua ficção. É característico do escritor sul-americano essa “reflexão no exílio”?
Martínez -
O que ocorre é que nós latinoamericanos estamos à margem do mundo, mesmo que seja em um país continental, como o Brasil. Se não falarmos de nós mesmos, não haverá ninguém que fale. Portanto sim, tenho uma obsessão em narrar meu país e, em geral, como afirmou um crítico alemão, em minhas obras estou completando a narração da história da Argentina no século 20.

ZH - O senhor intercala histórias que formam um panorama de Buenos Aires.
Martínez -
Em verdade, esses episódios dialogam com fragmentos da própria literatura argentina. Por exemplo, Borges e O Aleph estão recontados na figura do bibliotecário Bonorino, que vive no porão, em um mundo fantástico de fichas de papel, como uma toupeira cega, e de algum modo é uma metáfora do próprio Borges. Ou a história de duas mulheres judias em Mataderos. Elas são uma reescritura de El Matadero, o primeiro conto argentino, de Esteban Echeverría.

ZH - Outro ponto de contato com Borges é a apresentação da Buenos Aires como um gigante mítico, um labirinto.
Martínez -
Sim, mas os labirintos de Borges eram espaciais. No meu romance o labirinto está no tempo. Você está em um lugar e em um minuto tudo mudou. É uma metáfora para mostrar também as enormes mudanças que a pobreza impôs a Buenos Aires.

ZH - O romance brinca com os limites da realidade. Era sua intenção criar uma atmosfera mágica?
Martínez -
Mais onírica do que mágica. Na última vez em que estive em Buenos Aires passei por uma esquina que conheço há muito tempo e ela me pareceu outra completamente diferente, as fachada das casas, tudo mudara como se eu estivesse em outro lugar, em outro planeta. Sonho muito com essa Buenos Aires mítica, e por isso a cidade do meu romance parece com a de meus sonhos.

ZH - Julio Martel, o “Cantor de Tango” do título, é inspirado em um personagem real?
Martínez -
Vagamente em Luis Cardei, a quem eu conhecia muito bem e ouvi muitas vezes, mas a hemofilia de Martel é o único ponto de contato. Cardei era hemofílico e morreu de Aids, e Martel não tem Aids. Cardei tinha uma voz fraca, débil, e a voz do meu personagem é potente, porque me pareceu interessante pôr uma voz poderosa em um corpo doente. Pedi permissão à família de Cardei para reproduzir no personagem aspectos da enfermidade dele.

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Nélida de las Américas

Foram anunciados na manhã de hoje os vencedores do Prêmio Casa de Las Américas. E a escolhida na categoria Literatura Brasileira foi Nélida Piñon, com o livro de ensaios Aprendiz de Homero, um mapa afetivo e intelectual de suas influências como autora e leitora. Primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras e autora de uma obra que abrange nove romances, uma novela infanto-juvenil e coletâneas de contos, a carioca Nélida Piñon desbrava em Aprendiz de Homero as praias do ensaio - sem abrir mão de um toque narrativo. Nélida estreou na literatura em 1961, com o romance Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, e é hoje uma das grandes autoras em atividade no Brasil e já havia sido contemplada com o Jabuti em 2005 pelo romance Vozes do Deserto, premiado como Melhor Romance e Livro do Ano

Aprendiz de Homero (Record, 368 páginas, R$ 38) reúne 24 textos, entre ensaios sobre arte, estética, a convivência pessoal da autora com grandes nomes da literatura de nossa época e os discursos de agradecimento feitos pela escritora ao receber os prêmios Astúrias e Menéndes Pelayo. Em comum, a preocupação em pensar, mais do que o mundo das letras, a maneira como as letras se apropriam do mundo. Na época do lançamento do livro, em 2008, entrevistamos  Nélida Piñon concedeu, por telefone, uma entrevista a este repórter de Zero Hora – entrevista essa que vale a pena recuperar agora, e que vocês podem ler clicando aqui.

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Adeus, recluso

Às dez e meia da manhã de uma segunda-feira, em novembro de 1955, Zooey Glass, um moço de vinte e cinto anos, estava sentado numa banheira com água pelas bordas e lia uma carta datada de há quatro anos atrás. Era uma carta de texto quase interminável, datilografada em numerosas páginas de papel amarelo de segunda via, e Zooey mantinha-a encostada, com alguma dificuldade, às duas ilhas secas de seus joelhos. À sua direita,  um cigarro de aspecto úmido equilibrava-se no rebordo da saboneteira de esmalte embutida na parede e, evidentemente, estava ardendo bastante bem, pois o rapaz apanhava-o, uma vez por outra, e puxava duas tragadas, sem ter que desviar os olhos da carta. A cinza caía, invariavelmente, na água da banheira, umas vezes direta, outras deslizando pelas folhas da carta. Ele parecia alheado da desarrumação ambiente. No entanto, parecia dar-se conta, ainda que vagamente, de que o calor da água estava começando a exercer nele um efeito desidratante. Quanto mais tempo demorava lendo, naquela postura – ou relendo, para ser mais exato – mais frequentemente e menos distraidamente usava as cosas da mão para limpar o suor da testa e do lábio superior.

O trecho acima é de Franny e Zooey, romance de J.D. Salinger, publicado pela Editora do Autor em 1970 na tradução de Álvaro Cabral, e aqui colocado para homenagear o velho reculso, cuja morte, aos 91 anos, foi anunciado agora há pouco. Salinger pode ser considerado o inventor da adolescência moderna na literatura, por motivos que estão melhor explicitados neste post, escrito para marcar a passagem de seus 90 anos.

E por que um trecho de Franny e Zooey e não de O Apanhador no Campo de Centeio? Porque desse todo mundo vai falar mesmo. Mais sobre Salinger no Cultura de Sábado e amanhã em ZH

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O cineasta por ele mesmo

Luís Bunuel, em foto de 1962 tirada por Carlos Saura

Como vocês sabem, nem sempre o titular deste blog tem tempo para atualizar esta página tanto quanto gostaria, mas sempre que pode conta com a colaboração de alguns colegas que salvam a pátria com suas leituras. É o caso do texto que vocês

vão ler agora, assinado pelo jornalista Renê Müller, do caderno Variedades do Diário Catarinense, e versado sobre um tema que eu particularmente, embora tenha interesse, não tenho tempo para ir atrás, livros sobre cinema. Divirtam-se:

Buñuel por Buñuel

RENÊ MÜLLER
Alguns livros sobre o cinema são tão imperdíveis quanto as obras-primas cinematográficas. Não são muitos. Há Hitchcock/Truffaut - Entrevistas (o diálogo do mestre Alfred com o aluno François, com edição recente em português pela Publifolha). Há Filme, a narrativa de Lilian Ross sobre as filmagens de A Glória de um Covarde (e que saiu na coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras). E há Meu Último Suspiro, a biografia de Luis Buñuel. O cineasta está ali em essência: boêmio, apaixonado pelo boxe, amigo e adversário de notáveis - o afastamento do poeta García Lorca e as brigas com Gala, mulher de Salvador Dalí, são rememorados na obra. A reedição luxuosa de Meu Último Suspiro, pela editora Cosac Naify, vem com nova tradução, de André Telles, e com a seleção de imagens feita pessoalmente por Buñuel (1900 - 1983), além de fotos de seu acervo pessoal, cedidas por seu filho Juan Luis.

A obra é assinada pelo próprio diretor, mas escrita com uma mãozinha do roteirista Jean Claude-Carrière, parceiro de Buñuel em clássicos como A Bela da Tarde e O Discreto Charme da Burguesia. O grande mestre do surrealismo foi um criador inquieto e genial da década de 1920 (Um Cão Andaluz é de 1929) até a de 1970, quando encerrou sua filmografia com Esse Obscuro Objeto do Desejo.

A iniciativa partiu de Carrière, que acreditava que o mais interessante não era um livro de memórias, mas um que servisse como um autorretrato. O charme de Meu Último Suspiro, o que o faz continuar uma obra tão vibrante hoje como há 30 anos, quando foi lançado, é conter a mente de um artista superlativo, o modo como ele se relaciona com as coisas do mundo, desde as mais prosaicas, como tabaco e drinques, às mais abstratas, como a passagem do tempo e a energia criativa. Ou com os acontecimentos mais drásticos (guerra, censura e repressão), os quais influenciaram diretamente a vida e a produção do espanhol.

Curiosamente, Buñuel não coloca em destaque seus filmes. Por conta disso, o livro torna-se justamente um saboroso complemento aos seus trabalhos. A prosa passa de leve por clássicos como Cão Andaluz, ao lembrar que a cena mais discutida de sua filmografia (a nuvem que corta a lua, e a lâmina que rasga um olho humano) surgiu de um sonho que narrou ao amigo Salvador Dalí. Embora fosse um criador organizado e que dava grande atenção aos roteiros, o cineasta não gostava da arte da escrever - quando iniciante, não tinha paciência. “Não sou homem de escrita”, diz ele, ao explicar, na apresentação de Meu Último Suspiro, como a obra foi concebida.

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