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Posts na categoria "Amores Expressos"

O diabo na rua, no meio do labirinto

22 de julho de 2013 0

O escritor Daniel Pellizzari. Foto de Renato Parada, divulgação

Daniel Pellizzari publicou recentemente seu romance Digam a Satã que o Recado foi Entendido (Companhia das Letras, 180 páginas, R$ 37), resultado do projeto Amores Expressos. Com o lançamento, o escritor interrompe um silêncio literário que se prolongava desde 2005, com Dedo Negro com Unha (embora, nesse meio tempo, não tenha parado, efetivamente, e sim trabalhado em um projeto de quadrinhos ainda inédito com Rafael Grampá e em um bom número de traduções – a mais recente delas a ganhar edição é a coletânea de ensaios Pulphead, de John Jeremiah Sullivan, vertida para o português por Pellizzari e por Chico Mattoso, autor de outro romance do Amores Expressos, Nunca Vai Embora).

Pellizzari foi enviado a Dublin para uma temporada de um mês em 2007, da qual deveria voltar com o único compromisso de escrever um romance ambientado no local. Quem vem acompanhando o trabalho do escritor desde seus primeiros trabalhos (como os contos de Ovelhas que Voam se Perdem no Céu ou O Livro das Coisas que Acontecem) achou a escolha muito natural (só Moscou pareceria mais apropriado, mas isso talvez resultasse em uma mera repetição do que o autor já havia feito em Dedo Negro com Unha, que tem um terço de sua narrativa ocupado por um pastiche de romance russo). O próprio Pellizzari pensava assim, como relata neste texto postado no blog da Companhia das Letras. Desde cedo havia se interessado pelo folclore, pela cultura, pela história da cidade e pensava que voltaria de lá com o romance praticamente pronto. Na prática não foi bem assim. Embora tivesse já personagens delineados em sua cabeça, Pellizzari precisou de algumas sessões de tentativa e erro para dar forma ao romance que desejava – ou, ao menos, ao romance que desejava assinar.

Digam A Satã que o Resultado foi Entendido continua sendo um livro de Daniel Pellizzari, uma vez que rejeita a forma linear de narrativa e se espraia pela psique de um mosaico de personagens e episódios entre o cômico e o delirante, mas o próprio escritor comenta que sua ênfase desta vez era outra, mais centrada nas angústias e reviravoltas internas de seus personagens (o livro dispensa a voz narrativa em terceira pessoa, cheia de truques, de Dedo Negro com Unha, e entrega a condução da trama aos personagens, em primeira pessoa – com exceção de uma sequência hilária de diálogo durante uma tentativa de roubo). Em Dublin, Magnus Factor, um imigrante sem pouso fixo, resolve ficar atraído pelo que considera “o milk shake perfeito” e pela relação que estabelece com uma linda garçonete eslovena. Monta, então, uma firma que elabora roteiros turísticos falsos explorando fantasiosas histórias de assombração da cidade – há roteiros assim de verdade em Dublin, mas a versão dos personagens difere por só realizar suas excursões durante o dia e não aceitar clientes locais, uma providência necessária, já que eles inventam todas as histórias que apresentam a seus fregueses.

Em volta de Magnus giram seus parceiros de pilantragem Zbigniew e Barry, também narradores, além de Laura, jovem com quem Factor se envolve após ser abandonado por sua garçonete eslovena e que o apresenta a um grupo anarquista chamado Trevo Negro. Na outra ponta do romance (metaforicamente falando, já que as histórias se intercalam mais do que se opõem), está Patrícia, adolescente que fantasia com a própria morte no alto de uma montanha, mas, a caminho de sua morte sonhada, cruza com uma seita de místicos interessados em fazer um sacrifício de sangue para despertar um antigo deus serpente. Em volta de Patrícia, outro centro gravitacional do romance, orbitam Demetrius Vindaloo, o líder do grupo, e Siobhan, uma de suas mais fervorosas adeptas.

O mosaico de trajetórias que se cruzam na Dublin imaginada por Pellizzari amarra suas pontas (talvez até demais) ao fim – e por isso mais não se falará da trama. Conversei com Pellizzari via chat para elaborar a matéria que saiu no Segundo Caderno sobre o livro (leia aqui). Posto aqui a íntegra da entrevista (preservei o tom informal das perguntas e respostas, embora tenha editado uma que outra coisa em benefício da clareza do raciocínio):

Zero Hora – Primeiramente, eu já havia começado a ler o livro quando publicaram o teu texto lá no blogue da Companhia. E estava justamente vendo o livro como o menos “hermético” na tua produção. E ali naquele texto tu comenta que queria dialogar com pessoas, não mais só com a literatura, o que pareceu confirmar essa impressão. O que levou a essa mudança de abordagem?
Daniel Pellizzari
– Eu poderia ficar elucubrando um bom tempo sobre isso, mas acho que no fundo foi mesmo isso: uma vontade de estar mais próximo do leitor, de transmitir e formar alguma conexão emocional. E ao mesmo tempo uma necessidade súbita de explorar personagens (ou seja, pessoas). Comecei a me dar conta de que era isso que eu gostava em boa parte dos meus livros prediletos, mas que por algum motivo (medo, imaturidade, empáfia juvenil) eu tinha evitado nos meus livros anteriores.

ZH – O uso da literatura, das referências, da estrutura intrincada, das citações de modelos e reapoveitamento dos gêneros antes talvez fosse, por essa perspectiva, uma forma de defesa, então? Não que tu não esteja fazendo isso aqui neste livro, mas, como tu disse, o foco agora são os personagens.
Pellizzari
– Acho que eu não tinha encontrado ainda uma forma de falar de uma forma mais direta sobre o que é estar vivo (e que talvez fosse um reflexo de ainda não ter encontrado uma forma mais direta de viver). Então era o que eu conseguia fazer na época, tinha outras preocupações na vida e na literatura. Não renego o Dedo Negro com Unha, não é isso, gosto bastante dele. Mas é um livro escrito por outra pessoa, alguém de certo modo mais fechado em si. Eu mudei e minha literatura mudou (ainda que isso tenha precisado de um bom tempo de ajuste, nos dois casos).

ZH – Me parece que um dos “grandes temas” deste teu romance é a invenção das tradições, e a tradição como invenção. E como, nos dois casos, uma coisa e outra parecem disfarçar um fundo de violência e até mesmo absurdo. A certa altura, a personagem Patrícia reflete sobre algo parecido, e Magnus e seu grupo de picaretas inventam e improvisam as histórias “fantásticas” de Dublin para turistas. O próprio Magnus comenta como a espontânea ilegalidade de um bando de moleques parece repetir tradições muito antigas da cidade. Tu concorda com essa avaliação?
Pellizzari
– Sim. (Obrigado por perceber). A invenção (de tradições, de crenças, acima de tudo de identidades, que engloba tudo isso) e o ímpeto que leva a ela, por conta de um senso entranhado de inadequação, de que existe algo faltando. E que talvez exista um modo de o indivíduo ter, de fato, alguma agência nesse processo. Aí se colocam os dois polos opostos, que são o Magnus (que é um sujeito passivo, mas que começa o livro tomando uma decisão) e a Patricia (que no início do romance está desistindo de viver, mas que vai se mostrando alguém muito ativo, disposta a tomar as rédeas e criar as regras da própria vida).

ZH – É interessante tu teres mencionado essa questão do senso de inadequação, porque uma das formas de tu tocar nisso é construir um romance que, para além dessa oposição que assinalaste, parece brincar muito e até satirizar às vezes o impulso gregário. Há uma série de grupos e pequenas “comunidades” no livro (a seita do deus serpente, o Trevo Negro, a “empresa” de Magnus e Barry). Ao discutir o lugar do indivíduo tu satirizas o grupo?
Pellizzari
– De certo modo eu quis mostrar o quanto um grupo, por mais homogêneo que pareça de fora, e por mais que exista um discurso unificador, é formado por pessoas muito diversas – mesmo aquelas que mais tentam se adequar ao grupo, aceitar as regras. E que as percepções que as pessoas de um grupo têm sobre as outras são sempre incompletas e muitas vezes totalmente equivocadas. No fim das contas todo mundo está sozinho. Não é possível viver sozinho, não é possível realmente se encaixar num grupo, o que é possível, então? Algo por aí.

ZH – Foi essa mudança de vida e de literatura a responsável pelo tempo decorrido entre a viagem e o livro? Tu estavas aprendendo que novo escritor tu era?
Pellizzari –
Sim, é o que comentei no texto do blog da Companhia. Precisei de um tempo para me reajustar, tanto na vida quanto como escritor. Depois de um período ficou claro o tipo de livro que eu queria escrever, mas ao mesmo tempo descobri que eu não sabia como fazer isso. Tinha a técnica, mas não sabia ao certo como colocar a danada a serviço do romance. Aí se seguiu uma história acidentada de crises e reavaliações e tentativas em falso, até as coisas se encaixarem e tudo dar mais certo do que eu imaginava. Assim como os personagens, eu também passei por esse processo de reavaliação e criação de uma identidade, no caso, a de escritor. Que tipo de escritor eu não queria mais ser, o escritor que eu preferia me tornar, como fazer isso, até onde isso seria possível. Desisti de tudo dezenas de vezes ao longo desse tempo, o que não foi muito fácil.

ZH – Não deixa de ser simbólico que isso ocorra em um romance sobre a Irlanda, também, em que questões de identidade também fazem parte da, digamos, “imagem pública” do país.
Pellizzari –
É, eu brinquei um pouco com essas questões de identidade irlandesa com a história dos sequestros de símbolos nacionais.Que englobam tanto símbolos de fato, como a harpa e o livro de Kells, quanto coisas mais aleatórias e/ou turísticas, como as múmias da St. Michans ou a estátua do Oscar Wilde.

ZH – Sim, embora tu estejas lidando com as questões de identidade, tu sempre trata no livro as identidades mais “estabelecidas” com humor e sarcasmo. Os monólogos nacionalistas e chauvinistas em mais de um sentido de Barry, o roubo dos objetos que representam essa nacionalidade, e como eles são realizados por um grupo que é descrito de modo meio mambembe. É como se o romance sinalizasse que, embora lide com questões de identidade, não vê no nacionalismo ou em sectarismos semelhantes a solução para elas.
Pellizzari
– Tradições são resultados de longos processos históricos, mas ao mesmo tempo esses processos são detonados e levados adiante por indivíduos tão confusos quanto quaisquer outros. Então, no fundo, dá no mesmo: uma tradição é uma idiossincrasia socialmente aceita que teve tempo para se estabelecer. Quanto à ideia de nação/nacionalidade, acho que aí transparece um pouco minha opinião pessoal de anarquista, que é: acho uma bobagem sem tamanho.

ZH – Não tenho conhecimento de misticismo o bastante, então posso estar interpretando errado, mas quando o foco narrativo é o Demetrius, ele começa a recitar os fundamentos de seu credo, que devem estar de algum modo baseados em conhecimento esotérico real. Mas o tom da narrativa me parecia cômico, patético, como se Demetrius fosse um Ignatius Reilly do misticismo, com aquela crença levada ao paroxismo e tornada, portanto, ridícula. Essa é a ligação entre o escritor de antes e o de agora? Não o místico, mas o humorístico?
Pellizzari
– Claro, no livro isso é levado às últimas consequências porque o Demetrius é esquizofrênico, mas de certo modo ele e a Siobhan são uma colagem de pessoas que conheci no meio esotérico/ocultista – as pessoas mais frágeis e mais doentes, sim, mas não por isso menos reais. Mas quanto ao humor: eu gosto bastante de humor em literatura, e acho lamentável que se considere uma forma inferior de expressão. Até porque o trágico pode ser comunicado de forma muito eficaz através do humor, o próprio Ignatius é um exemplo (e espero que meus personagens também). Mas – e aí é o meu ponto de vista, claro, que não tem como ser exato – acho que meu humor tem sempre um pouco de melancolia. Tem muito de humor negro e também do que chamam de gallows humor em inglês, o humor do condenado em frente ao patíbulo. Gosto de trabalhar o humor como forma de lidar com situações extremas, com desesperança – boa parte dos deprimidos crônicos desenvolvem um senso de humor aguçado.

ZH – Tu usa também a doença com elemento no livro: Demetrius é esquizofrênico, Zbigniew também sofre ataques de um distúrbio psicológico. A doença é também um componente da identidade. Ou tudo isso foi uma tentativa de dificultar ainda mais as cartas, uma vez que estavas lidando com personagens em busca de uma identidade e o elemento da doença tornava o desafio mais alto porque havia condições que tornavam para eles essa tarefa mais complicada?
Pellizzari –
Foi uma tentativa de tentar entender (e comunicar) o que é “doença”, creio. Porque apesar de alguns sintomas serem inequívocos e de causarem sofrimento real e prejuízo à vida de quem tem que viver com eles, até que ponto alguém “doente” é tão diferente assim, em termos fundamentais, de alguém mais “ajustado”? O que define os limites entre uma coisa e outra? É possível decidir o que fazer com isso, viver normalmente, ter uma existência satisfatória? Se sim, como? Se não, o que fazer?

ZH – Tais questões de identidade parecem estar também no fato de que é um dos poucos livros dessa série que não é protagonizado pelo “olhar brasileiro sobre a paisagem”, embora muitos dos personagens sejam estrangeiros em Dublin. É outra camada da tua tentativa de encontrar a humanidade dos personagens, independente das circunstâncias externas?
Pellizzari
– Todo mundo é estrangeiro em qualquer lugar. Pelo menos os meus personagens, e eu também me sinto assim no mundo, logo é a experiência que consigo (ou tento) comunicar e que busco compreender.

A arte em Praga e em Havana

30 de junho de 2011 7

Em 2007, um projeto de nome Amores  Expressos enviou 16 escritores a diferentes cidades do mundo para que voltassem de lá com um romance na bagagem. Depois de haver lançado os livros passados em Buenos Aires, São Petersburgo, Lisboa, Cairo e Tóquio, a coleção chega agora ao sexto e sétimo volumes, com Nunca Vai Embora, de Chico Mattoso, passado em Havana, e O Livro de Praga, de Sérgio Sant’Anna. São obras que representam polos distintos da produção contemporânea. Sérgio Sant’Anna é um veterano respeitado pela solidez de sua obra pregressa, como O Voo da Madrugada e Um Romance de Geração. Mattoso é uma “jovem promessa”, como se costuma dizer. Teve sua estreia no romance, Longe de Ramiro (Editora 34), indicada ao Jabuti, em 2007. Em que pesem as óbvias diferenças, contudo, ambos os romances parecem comungar de uma certa pressa na execução – estranha quando se pensa que foram publicados quatro anos após as respectivas viagens.

Sérgio Sant’Anna narra O Livro de Praga valendo-se de um artifício metaficcional: o protagonista é, como o autor, um escritor brasileiro em viagem de 45 dias por Praga com o compromisso de produzir um romance em sua volta ao Brasil. A jornada tem o patrocínio de um jovem“bastante rico, bem-humorado e que gosta de seu trabalho” chamado “Roberto” — referência provável ao idealizador do projeto, Rodrigo Teixeira, e às críticas que o Amores Expressos recebeu quando foi anunciado, por pleitear recursos da Lei Rouanet. Devido à enxurrada de críticas, Teixeira desistiu da captação de recursos públicos e financiou todo o Amores Expressos com patrocínio privado. A mim enquanto leitor, contudo, ficou a dúvida de por que Sant’Anna fica no meio do caminho com sua narrativa metaficcional, uma vez que o personagem é claramente calcado na sua situação como autor visitante em Praga mas Sant’Anna não assume seu próprio nome, preferindo batizar seu artista em trânsito como Antônio Fernandes.

Em O Livro de Praga (Companhia das Letras, 144 páginas, R$ 37,50), Fernandes vivencia uma jornada sexual ao longo de seus 45 dias na cidade. Em uma visita ao Museu Kampa, assiste a uma inusitada apresentação musical de uma pianista que logo se transforma de experiência estética em erótica. Contemplando as estátuas que ornam a ponte do Rio Moldávia após ouvir um poema sinfônico com o mesmo nome do rio, Fernandes encontra uma jovem com pretensões suicidas a quem tentará salvar – outra experiência destinada a ser uma exaltação da carne. O livro é estruturado em sete capítulos interligados mas autônomos. Em todos, uma experiência artística é seguida de um intenso encontro erótico, variando apenas o caráter das parceiras – não apenas mulheres mais ou menos problemáticas, mas também visões beatíficas e objetos inanimados. A estrutura formulaica do conjunto, contudo, logo torna a leitura dos episódios repetitivos, permanecendo de interessante o clima kafkiano temperado com humor desbragado de algumas passagens.

Em Nunca Vai Embora (Companhia das Letras, 128 páginas, R$ 34), o paulistano (nascido na França) Chico Mattoso também se vale de um pretexto artístico para pôr a trama em andamento e justificar a presença de seu protagonista, um dentista brasileiro, em Havana. Sobre isso, uma nota curiosa: de todos os livros até agora publicados pela série Amores Expressos que este seu blogueiro leu (ou seja, todos menos o livro de João Paulo Cuenca passado em Tóquio), apenas Bernardo Carvalho em O Filho da Mãe ousou contar sua história pela voz de habitantes locais. Todos os  demais apostaram na transcrição de seu olhar de estrangeiro por meio de um personagem brasileiro transferido para a cidade retratada por um pretexto qualquer (um lançamento de livro em Cordilheira, uma migração em busca de melhores possibilidades em Estive em Lisboa e Lembrei de Você, duas viagens em busca de obsessões em Do Fundo do Poço se Vê a Lua).

Mas voltando ao livro de Mattoso: Renato, um jovem dentista, namorado de Camila, uma estudante de cinema, é convencido por ela a acompanhá-la até Havana, onde ela pretende dirigir um “documentário-verdade” impregnado dos conceitos sobre a “legitimidade da narrativa documental” e “ética do olhar cinematográfico” à moda de Eduardo Coutinho. Enquanto ela filma pelas ruas da cidade, ele caminha sem rumo, e as visões conflitantes de ambos, a jovem cineasta engajada artística e politicamente, e o profissional liberal classe média de mentalidade burguesa convencional, não demoram a entrar em conflito. Na única vez em que ele a encontra no
decorrer de uma filmagem e conhece seus companheiros de produção, o abismo entre ambos se aprofunda pelo senso de deslocamento e pelo ciúme dele em relação aos interessantes amigos artistas que ajudam Camila em seu filme.

A partir desse encontro e de seus desdobramentos desagradáveis para a relação do casal, Nunca Vai Embora (título que remete a uma fala de Jack Nicholson em A Chave do Enigma, continuação de Chinatown, único elo comum nos gostos cinematográficos de ambos) se concentra em um pastiche vertiginoso de romance policial no qual Renato não busca apenas a resolução de um mistério, mas seu próprio lugar naquele universo. A resolução (ou antes irresolução), contudo, se dá de modo abrupto – o epílogo posto lá mais como uma justificativa enfraquece o mistério do conjunto, tornando este mais um livro no meio do caminho, indeciso entre abraçar o pesadelo absurdo que desenha da metade em diante ou continuar a narrativa mais convencional mas bastante interessante que havia armado na primeira metade.

A mocidade e seus acidentes

14 de setembro de 2010 1

NOTA DO SEU EDITOR: Talvez alguns de vocês, amigos leitores, lembrem-se da nossa jovem colega Tássia Kastner, que, no longínquo maio de 2009, começou a colaborar aqui no  blog com a leitura de alguns clássicos indicados pelo editor com vistas a uma série (que terminou virando um post só porque a Tássia se enrolou e depois saiu da Zero para trabalhar em uma editora, razão pela qual interrompemos o projeto).

Pois ela me escreveu comentando o livro mais recente do projeto Amores Expressos: o romance de J.P. Cuenca intitulado O Único Final Feliz para uma História de Amor é um Acidente (“Melhor título dos últimos tempos (e mais anti-twitter tb)“, foi assim que Tássia o descreveu). Como gostei bastante do comentário, partilho abaixo, com os leitores do Mundo Livro. Enjoy:

O Único Final Feliz para uma História de Amor É um Acidente. Se pelo título você não quiser devorar o livro de J.P. Cuenca, tampouco este texto irá convencê-lo. Com sorte, alguns elementos por assim dizer curiosos da história deem uma forcinha.

Para quem gosta da cultura oriental, o romance é ambientado no Japão – uma encomenda da Cia. das Letras para a série Amores Expressos -, e de lá Cuenca traz a tradição do peixe fugu, tóxico se não for preparado adequadamente.

Já para quem tem os hormônios em ebulição ou desejos pela literatura libertina, estão pelas páginas uma boneca-robô feita sob medida (olhos castanho-escuros (Pantone 4975C), pele aperolada #5, seios modelo senoide 220 g com 92,5 cm de diâmetro, umbigo com 0,9 cm de profundidade e vagina extrapequena #2, com pelos púbicos em corte vertical, profundidade de 8 cm e 4 cm de circunferência), e uma romena alta, grande, loira e de olhos azuis, como as típicas mulheres do leste europeu – que divide uma (provocante?) cena com uma dançarina japonesa de formas perfeitas e cabelos meticulosamente lisos, escuros, alcançando a cintura.

Mas o centro do romance é uma história de amor: o acidentado relacionamento de Shunsuke com a garçonete romena Iulana Romiszowska (loira, alta, grande… vocês entenderam, não?). Seria simples, não fosse Shunsuke espionado pelo Sr. Lagosta Okuda. Seria tranquilo, não houvesse a Sala do Periscópio, o Submarino e uma ainda mais conturbada relação pai (Lagosta) e filho (Shunsuke).

A repetição de cenas (menos aquela das duas garotas) e de frases conduz a história. Porque, no final das contas, nós também somos fruto daquilo que reproduzimos dia a dia: nossos caminhos, lugares e os pedidos no café. E dessas recorrências, ora tiramos a obviedade da vida, ora acabamos simplesmente percebendo que, se o gesto se repete, a cena vivida nunca é a mesma. E é o quase igual que pode fazer tudo parecer um acidente. Mas quem acredita em acidentes?

Texto de Tássia Kastner

O fundo do poço é no Egito

16 de junho de 2010 5

Tivesse sido contratado para escrever um livro-reportagem a respeito do Egito, o escritor Joca Reiners Terron teria feito um belíssimo trabalho. O grosso do seu recém-lançado Do Fundo do Poço Se Vê a Lua tem tudo para ser classificado como jornalismo literário, esse gênero que gosta de transformar o simples e objetivo em grande evento. Tudo certo, se Terron não tivesse que entregar um romance ou coisa que o valha. E aí sua caudalosa prosa desanda.

Do Fundo do Poço é mais um dos livros escritos a partir do projeto Amores Expressos, bancado em parte pela Companhia das Letras e que levou 17 autores para passar um mês em cidades do mundo com a promessa de voltarem com um história de amor ambientada nesses lugares. Daí já saíram obras que se passam em Lisboa (Estive em Lisboa e Lembrei de Você, de Luiz Ruffato), Buenos Aires (Cordilheira, de Daniel Galera) e São Petersburgo (O Filho da Mãe, de Bernardo Carvalho).

Terron foi para o Cairo, capital egípcia. E pela descrição pormenorizada que faz de cenários, pessoas, hábitos, histórias e lendas, a impressão não foi das melhores. É possível se imaginar castigado pelo vento incessante que enche todas as mucosas de areia enquanto taxistas, comerciantes e toda sorte de malandros de rua tentam, o tempo todo, te ludibriar de alguma forma.

Uma filial do inferno, não há dúvida, mas é para onde segue William, um dos protagonistas da trama. Ele está atrás do irmão gêmeo, Wilson, travesti desaparecido há vinte anos e com o qual nutre uma relação que se revelará mortal. Se revelará entre aspas, porque o leitor experimentado em tramas de mistério não terá dificuldade em entender o que está acontecendo logo nos primeiros capítulos e será capaz de desenhar um final que cumprirá sem muita margem de erro suas expectativas.

Com exceção das soluções criadas aparentemente no desespero, como personagens secundários que tornam-se pivôs de grandes reviravoltas, deixando o leitor se perguntando onde foi que ele deixou escapar alguma evidência. Mas não deixou, porque não existem evidências nesse caso. Ou a solução é óbvia ou ela surge como que por magia para resolver a questão.

O próprio Egito entra na história de maneira um tanto canhestra: Wilson é obcecado pela Cleópatra de Elizabeth Taylor desde a puberdade. Por isso, vai para o Cairo. Simples assim. Se ao invés do filme de Joseph Mankiewicz o rapaz tivesse saído do armário com a Liza Minnelli de Cabaret, a história se passaria em Berlim sem maiores problemas.

O que por outro lado não é um demérito, já que a intenção de Terron parece ter sido a de trabalhar a questão da identidade independente de lugar ou tempo. Só que não consegue competir com o belo livro-reportagem sobre o deserto.

De Ruffato e de ficção

30 de março de 2010 0

Desacorçoado, gastei outros dois dias trancado no quarto, sem ânimo nem pra comer, o sol numa preguiça danada pra esquentar, tomar banho, de jeito maneira, os beiços rachados, o nariz estilando, as mãos e os pés doendo de gelados, rondava de um lado pro outro arqueado, como se carregasse um saco de sessenta quilos na cacunda, e fustigava, besta!, quem mandou seguir a cabeça dos outros!, bem que minha santa mãe, que Deus a tenha!, me dizia, se conselho fosse bom, ninguém dava, vendia, me martirizava por causa daquela bobajada, e agora, fazer o quê?, confesso que pensei até em arrumar as coisas e regressar, admitir que aquele empreendimento não era pra minha estatura não, que importava se rissem do meu fracasso?, não havia sido assim até o momento?, se quisesse fechar a conta, calcular o deve e o haver da minha existência, o saldo ia ser negativo, não tem como despistar a verdade, depois de uma fase, motivo de chacota da cidade inteira, talvez mesmo da região, outras estupidezes mais curiosas iam aparecer, as pessoas esqueciam, o que sustenta a piada é a novidade, um ano e ninguém mais ia recordar a minha desastrada viagem, mas aí boiavam os compromissos assumidos com o povo, as lembrancinhas pra um e outro, a palavra empenhada com o Ivan Cachorro Doiro de humilhar aquele corretor metido a sabichão, a promessa de ajudar a pagar a faculdade do Léo, meu sobrinho (se ele por acaso quisesse manter estudando), e principalmente o desejo de cevar uma poupança pro Pierre, quando perguntassem, “E seu pai, Pierre?”, ele podia responder, peito estufado de orgulho, “Em Portugal, cuidando do meu futuro!”, ah, isso sim me empurrava pra frente, e então, refeito, desci, recostei numa das duas poltronas da recepção, bem encolhido pra dona Palmira, se aparecesse, nem me notar, e buscando tomar pé da situação, distraía a cabeça olhando o tapete no assoalho, o quadro com uma moça vestida à antiga pastoreando ovelhas, a parede descascada, o vaso de flor pisando macio a toalhinha-de-renda na mesa-de-centro, e um recipiente, perto da porta, que, descobri, serve pra botar guarda-chuva (cheguei da rua debaixo de um aguaceiro, fechei o guarda-chuva e, pensando em expor ele no quatro para secar, subi a escada ligeiro, deixando pra trás um rastro molhado, quando a dona Palmira, feita caninana, num bote me acercou, braços em cruz, sibilando, impedindo a passagem, gritando coisas que eu não entendia direito, um escarcéu, até surgir o seu Seabra berrando pra mulher calar, pegou o guarda-chuva, enterrou no recipiente, que nem uma colher na gelatina, e, bravo, agitado, xingando, falou pra, vindo da rua, deixasse o chapéu-de-chuva ali, sempre, porque se não a diaba perdia a cabeça, instalava a arruaça, “Ela é louca, senhor Sampaio, não vê?), e de repente um suejtio me cumprimentou simpático, levantei, “Você é brasileiro?”, confirmou, e, satisfeito, eu disse, “Puxa vida, que bom encotnra alguém que fala a mesma língua da gente”, apertamos as mãos…

Depois de retratar as vítimas do Brasil industrial, o escritor Luiz Ruffato, um dos nomes centrais da ficção contemporânea, agora lida com os exilados pelo fracasso nacional. Seu romance Estive em Lisboa e Lembrei de Você retrata as esperanças frustradas de brasileiros que migram com o sonho de refazer a vida em um país menos desigual. O romance é o resultado da visita de um mês que Ruffato fez a Lisboa como parte do projeto Amores Expressos, no qual 17 autores passaram 30 dias em cidades espalhadas ao redor do mundo com o compromisso de, na volta, escrever uma história de amor ambientada no local. O romance é o terceiro produzido dentro do polêmico projeto. Daniel Galera lançou em outubro de 2008 Cordilheira, resultado de sua estada em Buenos Aires, e a visita de Bernardo Carvalho a São Petersburgo gerou O Filho da Mãe, publicado em março de 2009. Os próximos volumes da série estão previstos para este ano: o livro de Lourenço Mutarelli ambientado em Nova York e o de João Paulo Cuenca passado em Tóquio.

O livro de Ruffato transforma o amor que estava na origem da proposta em um elemento lateral em um panorama conciso das agruras enfrentadas pelos imigrantes nacionais: pobreza, depressão, preconceito, exploração e uma possibilidade cada vez mais remota de voltar à terra natal. Seu personagem central, Sérgio Sampaio, até encontra amor físico, mas o que está no foco da narrativa é a luta diária pela sobrevivência e como essa pugna um tanto desigual esmigalha minuciosamente as ilusões deslumbradas que ele, em sua aventura de imigrante, forjara ao tentar a sorte em Portugal: sim, ele consegue um emprego, em uma tasca (uma das características gráficas do livro é destacar em negrito as palavras peculiares de uso cotidiano em Portugal para designar coisas que nomeamos com outro termo aqui no Brasil. Tasca é uma taberna).

Ruffato consegue com este romance algo raro em projetos de encomenda. Estive em Lisboa e Lembrei de Você atende às demandas do projeto e ao mesmo tempo mantém-se rigorosamente dentro da linha temática e formal que o autor vem desenvolvendo há cinco anos na série Inferno Provisório: um panorama em cinco volumes que pretende cobrir, por meio da ficção, a trajetória errante do proletariado industrial brasileiro. Breve e conciso se comparado a seus antecessores (Mamma Son Tanto Felice, O Mundo Inimigo, Vista Parcial da Noite e O LIvro das Impossibilidades), Estive em Lisboa e Lembrei de Você partilha com eles alguns elementos fundamentais. A história começa na cidade natal de Ruffato, Cataguases, também um dos cenários dos romances de Inferno Provisório. O livro novo, contudo, leva um pouco mais longe (literalmente) a análise da figura do imigrante que deixa sua terra em busca de melhores condições materiais.

Se nos anteriores os personagens iam se dispersando pelo Brasil em direção a São Paulo e Rio de Janeiro, aqui o protagonista Serginho decide viajar a Lisboa picado pelas descrições entusiasmadas do português Oliveira, dono do bar local, de Portugal como uma terra de oportunidades. É Ruffato tratando com uma ironia melancólica brasileiros buscando uma vida melhor na Europa de onde tantos partiram com o mesmo objetivo um século antes em direção ao Brasil.

As mães e a guerra

01 de abril de 2009 5

Ruslam é checheno, filho de mãe russa, Anna, que acompanhou o marido até a terra natal deste e, tão logo teve a criança, fugiu de volta para São Petersburgo, largando por lá o filho e o marido (que por sua vez havia largado a universidade na Rússia para voltar para casa por ela e não tinha mais como voltar). Depois de perder o pai e os demais parentes nas duas guerras da Chechênia, a avó de Ruslam faz um último sacrifício no campo de refugiados para garantir ao neto condições de subornar um oficial e embarcar para São Petersburgo. Vai em busca da mãe, a quem nunca viu, e que hoje, casada com um oficial de inteligência, tem nova família.

Andrei é russo, filho de um biólogo brasileiro ex-comunista exilado em Moscou. A mãe e o pai separaram-se quando ele nasceu, o pai voltou para o Brasil. Andrei está alistado no exército do país, aquartelado em São Petersburgo. Tentou escapar do serviço militar por todos os meios possíveis para um rapaz de classe média-baixa, o que incluem o estudo, a corrupção, o suborno e um falso atestado médico. Quando estava prestes a conseguir, foi contrariado pelo padrasto, oficial da marinha, para quem a experiência do exército era necessária para “formar o caráter” de um russo de verdade. A mãe de Andrei, embora toda lamentosa com seu destino, é fraca, covarde, e seu amor filial é insuficiente para contrariar seu macho — e Andrei é deixado à própria sorte e tem de se alistar.  Em um exército sem investimentos oficiais e desmantelado, o jovem recruta tem seu “caráter” lapidado (impressionante como esse papo nunca se preocupa com a espécie de caráter que está sendo formado) servindo como pivô em um comércio torpe que garante um dinheiro extra e clandestino para as despesas do quartel.

Esses dois personagens, suas dolorosas sagas paralelas de violência e abandono e seu encontro desesperado pelas ruas de uma Sâo Petersburgo em que a corrupção e o crime são a tônica são os eixos do magistral O Filho da Mãe (Companhia das Letras, 208 páginas, R$ 39), romance de Bernardo Carvalho, o segundo resultante do polêmico projeto Amores Expressos (o primeiro foi Cordilheira, de Daniel Galera). Carvalho passou um mês em São Petersburgo e desenvolveu uma paranoia com o lugar depois de duas ocasiões em que foi vítima de uma tentativa de roubo, uma paranoia que perpassa todo o livro, um romance ao mesmo tempo de amor e de abandono, de guerra e de mães — colocadas ambas, as guerras e as mães, lado a lado, por obedecerem a um impulso primal de clã e família.

Leia abaixo a íntegra da conversa que tive por telefone com o autor, na qual ele fala de sua carreira, do projeto e do livro dele resultante:

Zero Hora — A determinada altura de seu romance o senhor cita Pais e Filhos, de Turguêniev. O Filho da Mãe seria o seu Mães e Filhos?
Bernardo Carvalho —
Não, na verdade não. O livro do Turguêniev trata de pais e filhos na Rússia do Século 19 como uma questão geracional, uma questão política de relação com aquela sociedade, como uma geração reagia e como a outra vai reagir. É mais um conflito de gerações, e isso não tem nada a ver com meu livro. O Turguêniev é citado um pouco na brincadeira, talvez. Originalmente eu havia pensado em chamar esse livro de Mães e Filhos, mas já existe um outro livro com esse mesmo nome, de um autor irlandês se não me engano [Colm Tóibín], que foi publicado recentemente pela Companhia, então eu deixei isso de lado. Mas ficou a citação sem nenhuma relação especial. A questão principal do meu livro, da qual eu fui tomando consciência ao longo da escrita, é a ambiguidade do amor materno, que é ao mesmo tempo absoluto, incondicional, que não tem a ver com convenções, é instintivo, e como esse amor pode estar na origem de todos os males. As mães defendem os filhos das guerras, e as guerras na verdade podem ser causadas pela defesa da corporação, do clã, da família, contra tudo o que é exterior. É uma espécie de círculo vicioso desse amor que ao mesmo tempo é paradoxal, ao mesmo tempo em que é absoluto, engendra monstruosidades também.

ZH — O senhor escreveu o romance depois de uma visita a São Petersburgo como parte do projeto Amores Expressos. Quanto dessa visita influiu no livro?
Carvalho —
Uma experiência foi fundamental pro livro: no terceiro dia em São Petersburgo eu sofri uma tentativa de assalto. Eu não falo russo, estava totalmente sozinho na cidade. E foi uma tentativa de assalto estranha, não tinha arma nem nada, mas foi violenta para mim. Eu estava totalmente sozinho e três caras tentaram me roubar na rua, pegaram meu computador, eu peguei o computador de volta, acabaram não me levando nada. Mas essa situação me pôs numa espécie de estado de pânico que se manteve ao longo de minha estada inteira lá, porque eu estava absolutamente sem nenhum contato com ninguém. E eu acho que esse pânico determinou muito a minha visão da cidade. Não só da cidade mas o estado dos personagens, que são marginais, outsiders, não fazem parte daquela cidade, não funcionam, não têm lugar para eles ali e eles estão tentando escapar, arranjar um passaporte. Acho que tanto a minha visão dessa cidade, em príncípio romântica, bonita, e que para mim acabou virando um pesadelo, como a criação dos personagens, do que eles podem sentir absolutamente sozinhos em um lugar inóspito, tudo isso veio de minha experiência em São Petersburgo, que foi um negócio não planejado. A viagem foi planejada, mas parece que quando eu fui para lá as coisas começaram a conspirar a meu favor. Acho que se eu não tivesse essa experiência traumática na cidade provavelmente não teria conseguido escrever esse livro, teria escrito outro livro, acho que teria sido pior — para o livro, não para mim. Para mim a experiência foi terrível, mas para o livro foi ótimo.

ZH — Uma forte atmosfera de medo perpassa o livro inteiro. Ela é também resultado dessa experiência traumática com a cidade?
Carvalho —
Acho que sim. Na verdade eu sempre gostei do medo. É engraçado, eu sou um cara muito covarde, mas apesar disso eu me aventuro em situações que vão produzir medo, e eu faço isso de propósito, de modo deliberado. E é estranho, porque eu faço isso quando eu quero escrever um livro, estou em processo de romance, por exemplo, quando estava escrevendo o Nove Noites, eu fui para a tribo da etnia lá onde o personagem antropólogo se matou, e eu acabei vivendo uma experiência de pânico que era totalmente alucinada. Não havia nenhum dado real que me levasse a sentir o pânico que eu senti na aldeia. Mas eu achei que eles estavam me procurando para fazer uma cerimônia, e eu entrei em uma espécie de pânico imaginário, alucinado, mas que era importante para mim, quando escrevi o livro, para experimentar um pouco a vulnerabilidade desse personagem. Então acho que o medo me põe numa situação de vulnerabilidade mas ao mesmo tempo me torna mais permeável. É contraditório isso, em princípio você acha que com o medo vai se afastar das coisas, mas acho que o medo me deixa perceber melhor no entorno coisas que eu não perceberia se não fosse essa relação alucinada de pavor. Agora pensando nisso, não sei se não engendrei inconscientemente esse medo. Porque ele é desproporcional ao que aconteceu. Eu venho do Brasil, que é um país violento pra caramba, já estive em lugares muito violentos no Brasil, vou para São Petersburgo, que é uma cidade em princípio calma, sofro uma tentativa de assalto e isso desencadeia um estado de pânico. Não sei o quanto não tinha de projeto inconsciente, porque eu já tinha ideia dos personagens que eu queria ter, um desertor do exército, tinha a coisa da guerra da Chechênia, um negócio meio inesperado, um pesadelo, havia talvez uma vontade de me pôr nesse lugar e  a realidade conspirou a meu favor.

ZH — Além do medo, é fácil identificar em seu romance também uma abordagem crua da violência, tanto física quanto psicológica. A violência é um dos seus eixos temáticos?
Carvalho —
Acho que eu tenho a tendência natural a ver a violência no mundo. Até em uma situação de calma, de tranquilidade, de aparente paz, a minha impressão é que a violência está se armando por trás, nos bastidores, que a coisa está se preparando, que o ataque está em andamento. Parece que não existe paz, que na verdade a guerra, a violência, são estados permanentes, e que há uma espécie de capa civilizatória que faz a gente não ver essa violência em andamento. Acho que inevitavelmente isso teria que estar presente em todos os meus livros, porque é assim que eu vejo o mundo. No caso de O Filho da Mãe a Rússia me despertou para uma realidade sobre a qual eu não tinha a menor consciência. O Brasil é um país violentíssimo, desigual para caramba, mas a gente vive como se fôssemos criacinhas, numa espécie de jardim de infância, com um dado de inconsciência, de esperança, que faz a vida da gente ser muito melhor. Não chega a ser agradável, porque a gente vê coisas terríveis acontecendo, intui que a coisa não tá boa, mas quer acreditar que o bem vai vencer, a gente tem esperança. E isso em todas as áreas. Isso ajuda a viver. E o que eu tive a impressão, talvez eu tenha visto a Rússia por um olhar distorcido, talvez por estar sozinho, parece que pelo acúmulo de sofrimento, de séculos de regimes sanguinolentos, não há inocência. É uma consciência absoluta que cria um pragmatismo e um individualismo muito terríveis, é um círculo vicioso. Eu vi na Rússia um lugar que, embora não seja mais violento que aqui, talvez seja igual, ninguém tem esperança de nada, a prioridade é ganhar o dia seguinte. Se você for um milionário, um daqueles oligarcas, você vai torrar sua grana comprando diamante, casaco de pele para a mulher, porque você não sabe se no dia seguinte você não vai ser assassinado. Isso torna a sociedade mais difícil de ser vivida. Isso torna a violência muito visível, pelo menos do meu ponto de vista de estrangeiro solitário. Então talvez essa ideia de violência por trás das coisas que eu tinha nos outros livros tenha se tornado mais evidente neste.

ZH — O Filho da Mãe toca em outro ponto presente em seus outros livros, uma sensação muito forte de desenraizamento. Mas ao mesmo tempo há a grande contradição de esse deslocamento se dar em um país de cultura milenar. Um eixo de oposição corta o seu livro?
Carvalho —
Acho que sim, e não só nesse mas nos precedentes. Nessa questão do desenraizamento tem um âmago muito contraditório: o desenraizamento cria uma noção de mal estar, de desconforto, sofrimento, mas ao mesmo tempo me parece que uma literatura de verdade, e um próprio olhar mais verdadeiro sobre o mundo, só existe pelo deslocamento. É como se ao se desenraizar você saísse dos consensos, das congregações, das corporações, e conseguisse ter uma distância que permitisse um olhar mais verdadeiro. É ambíguo porque tem essas duas coisas. Porque cria um mal-estar, mas parece que só de dentro  desse mal-estar alguma coisa nova, importante ou verdadeira pode surgir. E isso se aplica a todas as coisas, nas tradições, por exemplo. Ao mesmo tempo em que não ter tradição, laços, família, cria-se um desconforto, me parece que só na ruptura e nesse deslocamento que você poderia ter uma vida, uma ação verdadeira, seja na arte seja na vida cotidiana. Não saberia te dizer mais do que isso, mas acho que tem esse movimento ambíguo, contraditório e paradoxal entre querer pertencer e saber que a verdade só pode estar no não-pertencimento. Então acho que isso tem a ver com as viagens, a inquietude permanente com o lugar em que você está, a desconfiança com qualquer nação.

ZH — Como em seus outros livros, O Filho da Mãe mostra tentativas não muito bem sucedidas de refazer a trajetória de um outro personagem, quando não se tem como ter conhecimento total dessas trajetórias. Seus romances são antipoliciais?
Carvalho —
Acho que tem a ver. Tem a consciência do que se deveria fazer e a impossibilidade disso. São sempre tentativas, e acho que para mim meus livros são um pouco a imagem que eu tenho da literatura. Você não consegue chegar a lugar nenhum. Como você falou, é o romance antipolicial, não tem uma solução, é um processo uma tentativa paradoxal que não te leva a lugar nenhum. Só te dá uma vontade de sair. Um personagem de O Filho da Mãe deixa uma carta na qual fala que São Petersburgo tem 300 pontes que não levam a lugar nenhum. E ao mesmo tempo o romance inteiro é a tentativa de sair do lugar. Acho que nesse romance fica bem clara essa loucura do movimento que é impossível, embora se saiba que só no movimento se vá conseguir alguma coisa.

ZH — O senhor diz que já partiu daqui com a ideia de um romance de guerra. Por que?
Carvalho —
Quando me chamaram para os Amores Expressos, eles que escolheram qual seria a cidade. Eu não tinha relação nenhuma com São Petersburgo. Eles me ofereceram, eu aceitei e comecei imediatamente a ler muito sobre a Rússia contemporânea. E foi inevitável ler os livros daquela jornalista que foi assassinada, Anna Politkovskaya, foi morta um pouco antes da minha viagem. E ela foi uma das poucas jornalistas que cobriu com muita ênfase a guerra da Chechênia durante os anos Putin. A primeira coisa que me encantou nos livros dela foi o Comitê das Mães dos Soldados, que eu não sabia que existia. Aquilo potencialmente me pareceu muito dramático. Achei que eu tinha de usar aquilo de alguma forma, e pensei em usar uma mãe daquelas como narradora do livro, algo que eu depois abandonei mas mantive uma mãe como personagem. Mas acho que fiquei impregnado da ideia da guerra, e aí me dei conta de que São Petersburgo, a cidade que foi criada em nome da razão, para tirar a Rússia do atraso, como uma abertura para a Europa iluminista, os 300 anos dessa cidade seriam comemorados no auge da segunda Guerra da Chechênia, e achei que dramaticamente essa simultaneidade das datas era muito rica. Então eu saí daqui querendo falar da guerra, pensar na guerra e fazer dessa cidade uma espécie de aparência. Porque os russos não têm contato com a guerra, a Chechênia é um inferno distante, é um recalque, é como se não fizesse parte da vida das pessoas em São Petersburgo. E eu quis trabalhar com esse contraponto. A única coisa é que eu queria ter um personagem estrangeiro, até para ter uma imagem, um reflexo meu naquela sociedade, de alguém que não faz parte da vida russa, que não tem lugar ali, e eu em um primeiro momento não me dei conta de que deveria ser um checheno. Fiquei pensando todos os tipos de estrangeiros que teriam algum contato com o mundo soviético, um vietnamita, um cubano, um mongol, para me dar esse olhar do estrangeiro que me deixaria mais à vontade, e só lá me dei conta que o estrangeiro tinha de ser um checheno, que é próximo, não é de verdade um estrangeiro, o checheno é uma espécie de nordestino da Rússia.

Cruzando a Cordilheira

24 de outubro de 2008 2

O taxista que me levou para o hotel no centro de Buenos Aires era um velhinho magricela e careca que fumou o tempo todo enquanto dirigia. As cinzas de seu Marlboro voavam para o banco traseiro. O primeiro cigarro ele acendeu sem maiores cerimônias, mas antes de acender o segundo lhe ocorreu perguntar se me incomodava. Respondi que não e decidi abrir a janela e acender um também. Trocamos apenas um punhado de frases curtas e resmungos, mas tive a impressão de que me viraria bem falando português e ouvindo espanhol. Depois de meia hora numa auto-estrada, passamos por uma grande placa pregando a reconquista das Malvinas e entramos na cidade. Já estava escuro e o cenário não me provocou nenhum estranhamento inicial, pelo menos até chegarmos, após demorado percurso por ruas engarrafadas, à região central onde amplas avenidas, prédios públicos imponentes de arquitetura neoclássica afrancesada, obeliscos e alguns marcos turísticos me deram certeza de estar noutro país. O Hyde Park Hotel era um três-estrelas no Microcentro, área que minhas prévias fuçadas internéticas tinham revelado ser o centro financeiro e administrativo de Buenos Aires, um amontoado de quarteirões regulares divididos por ruas estreitas que às sete horas da noite eram como gargantas barulhentas e luminosas ladeadas por prédios altos, entupidas de gente, comércio, veículos e uma concentração nauseante de partículas de carbono no ar.

A voz que narra o episódio acima é a de Anita, jovem escritora que já não quer mais saber de literatura e a trocaria sem pestanejar pelo seu objetivo prioritário, o de ter um filho. Problema é encontrar um pai. Anita é a protagonista de Cordilheira, o quarto livro e terceira narrativa longa de autora de Daniel Galera. Prometi este trecho no blog na quarta-feira, na verdade, e só estou cumprindo agora, para vocês verem como a coisa anda complexa pro meu lado.

Para quem também não viu que Galera e o seu Cordilheira foram o tema de nossa central de livros de quarta-feira, mando abaixo a resenha/matéria que publiquei sobre o livro no jornal. E aguardem, que vem aí a Feira do Livro com uma grande cobertura que incluirá este blog.

O amor como troca de interesses, a maternidade como um desejo de sentido para a vida e a própria vida como uma contrafação da ficção — ou vice-versa, de acordo com o Ângulo.

São estes alguns dos temas centrais de que é feita a narrativa de Cordilheira, o terceiro romance do escritor Daniel Galera, paulista de nascimento, gaúcho por formação e hoje um habitante das areias catarinenses. Cordilheira é também o primeiro romance que surge como resultado do projeto turístico-literário Amores Expressos.

Elaborado no ano passado, o Amores Expressos levou 16 autores brasileiros para 16 cidades ao redor do mundo para que, depois de um mês no lugar, produzisse uma história de amor na volta ao Brasil. Quer dizer, mais ou menos. O livro de Galera, que inaugura a coleção, é mais uma história de desamor — passada na Buenos Aires que o escritor visitou, mas também em São Paulo e na Terra do Fogo.

— Ser uma história de amor era uma sugestão, mas havia muita liberdade para os envolvidos no projeto. Não era um compromisso contratual — explica.

Em Cordilheira somos apresentados a Anita, jovem escritora que, aos 25 anos, publicou um livro muito bem recebido por público e crítica e que lhe garantiu um lugar na assim chamada “cena literária”, um lugar que a própria Anita não quer mais. Desligada do livro que escreveu, Anita agora tem a obsessão de ter um filho com o namorado Danilo _ algo que ele não quer para tão logo. Essa divergência de opiniões e a tentativa de suicídio de uma amiga — e o suicídio concretizado de outra — levam a jovem paulistana a romper com o namorado e a aceitar o convite de sua editora para uma viagem a Buenos Aires para o lançamento na Feira do Livro local da tradução espanhola de seu romance — aquele mesmo do qual ela não quer mais ouvir falar.

Narrado em primeira pessoa pela própria Anita _ o que pode fazer o leitor relevar como da própria personagem alguns tropeços no clichê como “Julie era minha irmã desde os tempos de colégio, a irmã que nunca tive” — o romance se passa em Buenos Aires, mas não faz dessa localização um elemento central de sua narrativa, e sim as pessoas que Julie encontra, entre elas o misterioso Holden, um fã do romance que ela publicou. À medida que vai se envolvendo com o homem e conhecendo a vida dele — e de seu sombrio grupo de amigos, sujeitos obcecados por viver sua vida de maneira idêntica à de personagens de romances que escreveram —, Anita percebe que Holden pode ser útil para sua obsessão por maternidade — assim como ela pode vir a ser útil para ele em um plano que um tanto de fantasioso e algo de doentio.

O livro tem a qualidade de apresentar uma voz feminina crível, delineada com sensibilidade. Está na figura de Anita a chave do que o romance tem de melhor, uma personalidade complexa, com desejos conflitantes e que reflete à perfeição um dos temas centrais da obra de Galera até agora, a falta de um sentido para uma geração jovem sem interesse em cumprir as expectativas alheias, algo que já se via em Até o Dia em que o Cão Morreu e em Mãos de Cavalo.