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Posts na categoria "Arte"

Todorov discute a obra de Goya

16 de maio de 2014 0
Quatro "Três de Maio de 1808", de Goya

Quatro “Três de Maio de 1808″, de Goya. Reprodução, ZH

Em uma de suas pinturas mais famosas, Três de Maio de 1808 em Madrid (imagem acima), o artista espanhol Francisco de Goya (1746 – 1828) usa a luz de forma quase sobrenatural para atrair a atenção do espectador para o personagem central. A cena é dramática: diante de um pelotão de fuzilamento, um homem levanta os braços, como o duplo de um Cristo crucificado. Soldados sem rosto, corpos ensanguentados no chão e o olhar de desespero de seus companheiros completam a cena. No ambiente de horror e trevas que cerca o condenado, sua camisa imaculadamente branca explode na tela como um clamor silencioso pela paz – e pela própria luz.

Em Goya – À Sombra das Luzes (Companhia das Letras, 281 páginas, R$ 49,50), Tzvetan Todorov, que esteve em Porto Alegre há dois anos no seminário Fronteiras do Pensamento, investiga luz e sombra na obra do pintor, mas não no sentido concreto do jogo cromático. As luzes, aqui, são as do Iluminismo, e as sombras, a obra “secreta” do pintor, criada à margem da atividade como artista oficial da corte que durante anos garantiu seu sustento.

A grande guinada de sua carreira, de pintor convencional a artista que retratava as angústias e os pesadelos de sua época (e de todas as épocas), acontece depois de uma doença que o acometeu por volta dos 40 anos. Seus quadros, antes repletos apenas por reis e rainhas em trajes de gala, passam a exibir também loucos, prisioneiros, velhos, crianças abandonadas, mulheres violentadas.

Interessa a Todorov apontar o diálogo desta vertente clandestina da obra de Goya – que ele cria para si mesmo e não para ganhar dinheiro ou para exibir ao público – com os ideais iluministas da sua época. Para o autor, Goya promoveu uma espécie de revolução pictórica ao colocar o homem comum no lugar de heróis, figuras religiosas ou representações mitológicas.

Retratando o humano no que ele tem de trágico e patético e o cotidiano da guerra do ponto de vista dos derrotados, Goya tornou-se eterno e universal. Como constatou certa vez o crítico de arte Fred Licht: “Quem quer que tenha olhado, mesmo apressadamente, os jornais do último meio século constatatará que as notícias mais significativas tinham sido ilustradas por Goya há mais de 150 anos”.

Pedras da Memória

09 de janeiro de 2013 0

Alguns netsuquês da coleção de Edmund de Waal, tema do livro. Fotos: reprodução

Estudos recentes mostram que a memória não é como os filmes, que são sempre iguais. Nossas lembranças assemelham-se mais a uma peça de teatro: parecem sempre as mesmas, mas cada vez que são evocadas são reconstruídas do zero – eventualmente incorporando alguns detalhes e abandonando outros. O livro A Lebre com Olhos de Âmbar (Tradução de Alexandre Barbosa de Souza. Editora Intrínseca, 318 páginas), escrito por Edmund de Waal, mostra que a memória também pode ser lapidada com a sutileza e riqueza de detalhes de um artesão que talha peças de marfim do tamanho de uma caixa de fósforos.

De Waal é um ceramista célebre no Reino Unido. Durante cinco anos, colocou seu trabalho em segundo plano para dedicar-se a investigar a história da família e de uma magnífica coleção de 264 netsuquês (pequenas esculturas japonesas, talhadas em madeira ou marfim, como na imagem que ilustra o post), adquirida por um antepassado no final do século 19 – quando o orientalismo virou mania entre artistas e colecionadores.

Com formação em literatura em Cambridge, o autor construiu um livro extraordinário, que combina relatos de viagens (visitou todas as cidades que hospedaram a coleção da família ao longo de mais de cem anos), reportagem, história (a narrativa acompanha desdobramentos de episódios como o Caso Dreyfus, na França, e a I e a II Guerras, além de mencionar figuras como Renoir, Proust e Rilke) e ensaio cultural. “Eu quero saber qual a relação entre esse objeto de madeira que giro entre meus dedos – duro, surpreendente e japonês – e os lugares onde esteve. Quero ser capaz de entrar em cada cômodo onde este objeto viveu, de sentir o volume do espaço, de conhecer os quadros nas paredes, de saber como era a luz que vinha das janelas. E quero saber em quais mãos esteve”, anuncia no prefácio do livro.

A narrativa se inicia na Paris de 1871, onde o milionário Charles Ephrussi (1849 – 1905), judeu de origem russa, compra a coleção de netsuquês de uma só vez. Ephrussi era amigo dos impressionistas e comprava seus quadros antes mesmo de serem pintados. Sob sua encomenda, Manet pintou o quadro Une Botte d’Asperges, e Renoir chegou a incluí-lo no fundo de uma pintura, O Almoço dos Remadores, na qual aparece de cartola. Dândi sofisticado, impressionou tanto o jovem Marcel Proust que se tornou uma das fontes de inspiração para o Charles Swann de Em Busca do Tempo Perdido.

De Paris, a coleção migra para um palacete da Viena do começo do século 20, como presente de casamento do tio Charles para o sobrinho Viktor Ephrussi (1860 – 1945). Ali a coleção é instalada em um quarto de vestir, já que os netsuquês já não estão tão na moda assim, e viram brinquedo nas mãos dos filhos de Viktor. Ao longo dos anos, a poderosa família judia vê o antissemitismo ganhar forças lentamente até tornar-se uma ameaça terrivelmente concreta. Com a anexação da Áustria pela Alemanha, em 1938, Viktor e a mulher são obrigados a deixar tudo que têm para trás, inclusive a preciosa coleção de esculturas – e a forma como ela é resgatada para a próxima geração é uma das encantadoras surpresas do livro que não vale a pena estragar aqui. Um dos filhos de Viktor, Ignace (1906 – 1994), tio de De Waal, é o próximo herdeiro da coleção, que leva consigo para o Japão, onde fixa residência depois do final da II Guerra. É em Tóquio que o autor do livro vai encontrar a coleção de netsuquês pela primeira vez, durante uma temporada de estudos nos anos 1990.

De Waal (1964) é o atual guardião da coleção. Os objetos foram instalados em sua casa em Londres – em uma estante de bronze com prateleiras de vidro e portas sempre destrancadas, para que seus filhos possam brincar com as estatuetas. A história da coleção continua. Esse delicado e precioso livro, narrado com elegância e riqueza de detalhes, terá igualmente longa sobrevida na memória dos leitores – muito além da última página.

A poeta e a performance

10 de janeiro de 2011 1

Telma Scherer. Foto de Adriana Franciosi/ZH

 

Acompanho mais de perto o trabalho de Telma Scherer desde 2008, quando ela veio à redação de ZH com um exemplar de Rumor da Casa, seu segundo livro, uma coletânea de poemas que havia sido lançada naquele ano e que fora gestada ao longo de de seis anos de performances artísticas e poéticas em lugares
variados (livrarias, bares, bibliotecas, comunidades carentes), nas quais Telma se deixava contaminar pela interação com o público, uma conexão circular que mais tarde voltava aos poemas, retrabalhados até a forma final apresentada no livro. O resultado eram versos que trabalhavam com oposições entre silêncio e rumor, entre carne e espírito, solidão e erotismo, e tinham filiação assumida com Virginia Woolf, Ana Cristina César e Clarice Lispector. A “casa” do título também faz referência ao feminino, recuperando em epígrafe versos de João Cabral de Melo Neto que já faziam essa comparação entre a sedução feminina e a sedução da casa, moradia e abrigo. Há também uma conexão com “casa da família”, com poemas que fazem referência direta a uma vó que narra histórias enquanto tece seu crochê. A performance artística e seus elos entre o poema, as artes plásticas e as artes dramatúrgicas estava já há tempos no centro do trabalho da autora – que fala um pouco mais sobre seu trabalho nesta entrevista concedida ao blog em maio do ano passado.

Durante a Feira do Livro do ano passado, acompanhei como repórter a performance que Telma apresentava na área central da Praça da Alfândega para falar sobre a figura do artista no sistema literário atual.  Depois de não conseguir nem pagar o apartamento em que morava em Porto Alegre, obrigando-a a se mudar para Florianópolis, nem concluir o livro no qual trabalhava, um romance que seria a reescritura de Clarissa, de Erico Verissimo, Telma apresentou-se aos transeuntes da Feira amarrada a uma casa de cachorro repleta de contas em seu nome. A performance em um primeiro momento pareceu incomodar, os responsáveis pela segurança da Feira se aproximaram e pediram que ela se retirasse, mas nenhuma iniciativa mais dura foi tomada e a performance se encerrou após quase uma hora em que Telma declamou poemas, falou com o público, apresentou as contas em seu nome como cartões de visitas. Voltei para a redação e redigi uma nota sobre o evento. Só quando já saía da redação fiquei sabendo que a performance seguinte de Telma, que seria realizada meia hora depois em um dos corredores da Feira, ao lado da banca da editora com que Telma estava acertada para publicação de seu próximo livro, terminou com a Brigada Militar recolhendo a poeta para o posto da BM que fica ali próximo ao Mercado Público (para quem conhece Porto Alegre). Vocês podem ver as imagens da detenção no vídeo incorporado abaixo:

Como se pode imaginar, a falta de tato com que o assunto foi conduzido repercutiu nacionalmente: a detenção de uma poeta que se apresentava em uma praça em que ocorria uma feira de livro (e apesar da Câmara do Livro ter se manifestado em um tom no qual se eximia da responsabilidade por haver chamado a BM, é bastante clara no vídeo a presença de integrantes da equipe de apoio da Feira que não apenas acompanham a ação sem dizer nada como tomam o partido da BM quando ela é levada). Depois desse episódio, acertei durante algum tempo com Telma, que já havia voltado para Santa Catarina, uma entrevista por e-mail no qual ela avaliaria o episódio depois de passado algum tempo –  a entrevista finalmente se desenrolou depois de alguns atrasos da parte dela e da minha em fazer o papo acontecer. Uma versão editada foi publicada hoje no Segundo Caderno, e compartilho com vocês agora a íntegra da entrevista.

Zero Hora – Passado algum tempo, qual a sua avaliação do episódio de sua detenção na Feira?
Telma Scherer  –
Passou o choque, ficou a memória. A memória nem sempre é passiva e geralmente está grávida de outros acontecimentos. A vida gerou sofrimentos, o sofrimento gerou textos. Depois da performance, pude acompanhar um pouco dos desdobramentos, de longe, observando as reações que ela gerou na sociedade. Passei, portanto, de falante a ouvinte a fim de acompanhar a repercussão, que não cabe a mim controlar, desejar ou julgar. Meu papel, como artista, foi realizado durante a elaboração da performance e na sua execução. O que veio depois é outra coisa. Penso que não é da minha alçada avaliar o acontecimento, já que estou muito envolvida nele e, por isso, não me é possível fazê-lo de forma imparcial ou desinteressada, o que seria de se exigir de uma “avaliação”. Posso falar dos meus sentimentos, idéias e opiniões do ponto de vista da poeta e performer, sem retirar ou despir da minha voz essas marcas características. Escrevi bastante a respeito do que aconteceu no blog: www.telmascherer.blogspot.com.
Os acontecimentos foram divulgados pela imprensa, pessoas que estiveram presentes filmaram e postaram cenas no youtube. De posse das informações, cabe a quem se interesse pelo caso fazer a sua avaliação. Minha performance não teve a intenção de criticar nenhuma pessoa ou instituição em particular, e sim a de propor reflexões sobre o sistema literário. Fico contente com as reflexões geradas. Algumas são brilhantes. Nenhuma instituição controla esse sistema, que é complexo e formado por muitos e variados atores. Um deles, o que é geralmente o menos privilegiado, é o escritor. É do ponto de vista deste que estou falando. Senti um apoio e uma solidariedade muito fortes da parte dos escritores, e também do público leitor. Pude perceber, de imediato, uma recepção interessada e sensível da parte do público que estava presente no momento da performance. As pessoas se manifestaram prontamente, seja me abraçando, elogiando, fazendo perguntas, declarando que haviam se identificado. Algumas falaram seus poemas ou pediram que eu apresentasse os meus versos a elas. Isso demonstra o interesse dos leitores pela poesia e a simpatia que eles têm em relação a ela. Também percebi que na era dos reality shows e das revistas de fofoca, da supervalorização do ter sobre o ser, da redução das pessoas ao seu poder de compra, e da baixeza estética vigente, criar e executar uma performance em praça pública é algo visto como um ato de coragem. Não calculei quantas vezes ouvi e li essa palavra nas últimas semanas, porém de todos os emails recebidos e textos lidos sobre o assunto, ela é a que mais se repetiu, até agora. Saída da voz de professores, de comunistas, de escritores ou de um padre. Dizem que fui protagonista de ato de “coragem”. Isso me preocupa. Há trabalhos muito mais radicais do que o meu, na história ou na arte contemporânea. Nenhum artista deveria precisar de “coragem” para fazer uma intervenção na praça, ainda que polêmica ou mordaz. Não era meu objetivo questionar a liberdade de expressão, mas é para este ponto que se direcionam muitos dos comentários.

Telma durante a perfomance. Foto: Jefferson Bottega/ZH

 

ZH – Você se apresentou amarrada a uma casinha de cachorro recheada de contas em seu próprio nome. Qual era o objetivo da performance?
Telma –
Os objetivos da performance foram anunciados previamente no release da atividade, que publiquei em meu blog dias antes. O release contém uma descrição da performance e os motivos de sua realização, e foi gentilmente divulgado em sites como o Artistas Gaúchos, circulando antes por email: www.telmascherer.blogspot.com. Apresentei uma imagem poética formada por uma combinação de elementos, todos eles escolhidos com vagar, após estudo e preparação. Como imagem poética, a minha performance é radicalmente plurissignificativa e não tenho qualquer controle sobre a recepção e reação, que são sempre livres. Do ponto de vista da intenção criadora, meu objetivo era o de proporcionar aos espectadores a visão de uma cena forte e inquietante, que convidasse-os à reflexão. A intenção da escolha dos elementos foi a de trazer à tona aspectos do processo criativo dos escritores que ficam geralmente à margem, desvanecidos e ocultados pela finalização desse processo e o conseqüente oferecimento (à compra e venda) de um produto, o livro. Quis mostrar o quanto existe de vida real, sofrimento e danação por trás da feitura dos “objetos transcendentes” (como canta o Caetano). Uma gota de sangue em cada página? Muito mais. Penso em Fernando Pessoa escrevendo cartas para pedir dinheiro aos amigos, em Qorpo-Santo gritando “Rebanho!” da sua janela na Praça da Alfândega, em Quintana cambaleando pelas esquinas depois de algumas doses. Penso no “intelectual do ânus“, como se audodenominou Roberto Piva, que morreu entre pedidos de doação. Nada disso parece assunto polêmico, e pouco disso chegará para o grande público, e o mercado do livro poderá utilizar esses incidentes como motivos para o seu lucro. Os escritores aparecem sorrindo nas capas das revistas bacanas, entre prêmios e contratos para filmagem dos seus grandes sucessos. Vivemos, hoje, a Ditadura da Felicidade - e os escritores são aqueles que tem de chafurdar o lodo dos homens, conhecê-los por dentro para manipular as personagens, viver o escuro da existência para proferir um estado humano, humano. Escritores são malabaristas de sentimentos, eles equilibram no ar todo tédio e toda ruína, o êxtase e a loucura – porque, enfim, o cidadão comum, quando procura um livro, quer vivenciar através dele tudo o que não lhe é possível na vida comezinha de todo dia. Emoções: nosso material de trabalho. E é a partir das minhas experiências pessoais que eu crio meus poemas e minhas performances. Misturando aspectos de literalidade (para dar consistência de realismo e comunicabilidade com o cidadão comum) a aspectos de irrealidade, fantasia, complexidade lógica e absurdo. Absurdo, sim. Sem o que os russos chamaram de “estranhamento” nenhuma literatura tem graça, e sou muito influenciada pelo chamado “teatro do absurdo” (nomenclatura que nem tem muita pertinência, mas procura abarcar uma estética em que a quebra com a racionalidade linear pode causar impactos. Por exemplo: um homem amarrado a uma coleira). Esperando Godot é uma referência direta para a minha performance – na qual vivenciei, como Lucky de Beckett, a experiência de estar acorrentada, tolhida, humilhada, sub-humanizada. Lucky, na peça, foi o senhor do senhor que hoje lhe escraviza, porém vive amarrado a uma corda que o enorme Pozzo segura e comanda. Pozzo declara, no segundo e último ato, que aprendeu tudo o que sabe com Lucky. Eu às vezes me considero uma sortuda.
Essa performance surgiu, como idéia, há meses, quando eu encaixotava todas as minhas coisas a fim de deixar o apartamento onde residi nos últimos quatro anos. Com três meses de aluguel não pagos, muitas dívidas, alguns trabalhos agendados, um filme e um romance em fase de finalização, eu fazia uma triagem em minha morada, procurando selecionar o que seria vendido, o que seria doado, o que seria guardado na casa de meus pais. Quando deparei com aquele conjunto de papéis inúteis – boletos bancários, avisos de cobrança, cartas do SPC e Serasa – comecei a formular uma idéia que se transformaria posteriormente na performance. A idéia foi maturada em esboços consecutivos, estudei várias possibilidades e conversei com outros performers. Assim como o compositor faz um samba para se aliviar, ou o autor sente a necessidade de escrever porque um poema ou um conto assim o obrigam (Cortázar o declarou muitas vezes), um poeta-performer também tem, às vezes, o seu chamado imperioso e inegável. Senti a necessidade de criar e realizar essa performance, cuja temática dialoga com a vida cotidiana de milhões de pessoas e, penso, tem um caráter urgente. A partir de elementos da minha própria vida e dos recentes acontecimentos, com meu nome e meu corpo em cena.

ZH — Você já sabe quem chamou a BM para interromper a apresentação?
Telma —
Não.

ZH — Depois da sua detenção houve comentários de que o real motivo teria sido a presença, durante a performance, de uma garrafa de bebida alcoólica que você estaria oferecendo ao público. O que você tem a dizer sobre isso?
Telma —
Não alimente o escritor” ofereceu, como imagem poética complexa, uma gama de signos misturados, colocados em cena a partir de uma escolha refletida e intencional e, nesse sentido, houve um motivo artístico para a escolha de tudo o que estava em cena. O critério de escolha dos elementos foi o poder de criarem, enquanto signo e em conjunto, uma cena forte, impactante, capaz de gerar questionamentos. Para falar aos transeuntes, chocá-los e provocá-los, foi preciso utilizar de contundência, não apenas beleza; escândalo, e não só suavidade.
Havia um conjunto extenso de elementos:
1. os objetos (cobertor vermelho, casa de cachorro, coleira, corrente, contas e boletos bancários em meu nome, placa com a frase “Não alimente o escritor”, copo e garrafa de rum barato com as palavras “Carta Branca“, espelho de mão, bolhas de sabão, caleidoscópio, pote de comida recheado de comprovantes de banco, bloco de anotações com leão na capa, borracha de dez centímetros com frase grafada: “Para grandes erros, BORRACHINHA de Itu“, e lousa a giz com as informações da obra: “Telma Scherer – performance – 2010“);
2. meu corpo em cena (vestido preto retrô com colar preto, maquiagem com olheiras, meu aspecto físico: olhos, cabelos, altura, idade, tom de voz, etc.);
3. minha atuação (minhas expressões faciais e vocais, a manipulação dos objetos, a  interação com o público e as conseqüências delas em meu corpo, como é típico da arte da performance).
A interpretação que isola a bebida alcoólica dos outros elementos e julga o todo pela parte é, no mínimo, redutora. O público não estava incomodado, pelo contrário; ele exigiu que eu continuasse, não se distanciou de mim mesmo com a presença dos policiais e me defendeu sem que eu pedisse. Dizer que o público estava incomodado por causa da presença de bebida alcoólica é fingir que os outros elementos não estavam lá e que mais nada estava acontecendo. Se alguém interpreta a minha performance desse modo, não interpreta a minha performance. Lembro de Barthes em Mitologias. Tomar o signo por um de seus significantes é a forma mais fácil de impor a ele outros significados, exteriores, que geralmente são impostos por critérios extra-linguísticos (ideológicos ou políticos). Por que reduzir uma performance cheia de signos contundentes a uma garrafa de rum? Se se enuncia: “uma escritora alcoolizada” já temos, no mínimo, dois elementos para tecer uma reflexão. Pode-se pensar o “alcoolizada” juntamente a “uma escritora“, e quem sabe a partir disso tecer juízos que tragam à tona a história da escrita e suas relações com o alcoolismo (desde os primórdios da arte performática, com os rituais a Dionísio, a bebida esteve relacionada aos processos criativos, até o exemplo mais próximo a nós das anedotas sobre a embriaguez freqüente de Mario Quintana). Quando se diz uma dessas coisas em separado, de forma isolada, é muito diferente. Por que ignorar os outros elementos, qual a intenção por trás de uma fala que deixa no silêncio justo os elementos que poderiam evidenciar diretamente a temática crítica, os questionamentos? Que tipo de intenção está por trás de uma interpretação como essa e em qual contexto ela se insere? Há várias versões para o “real motivo” do que aconteceu. Eu estaria “prejudicando as vendas”, “atrapalhando a feira”, “obstruindo a passagem”, “oferecendo bebida alcoólica” e, até mesmo, “gritando muito”. Mesmo os policiais que me abordaram deram informações díspares a respeito do que estava acontecendo. O fato é que não houve prisão, não fui fichada, não foi registrada queixa contra mim e o próprio Capitão Fernandes, que me recebeu na delegacia, assegurou-me de que eu não estava cometendo nenhum crime.

ZH — Como você avalia a atuação da Câmara Rio-Grandense do Livro no episódio?
Telma —
Prefiro não fazer qualquer avaliação, e deixo como sugestão a leitura da nota que a Câmara do Livro lançou sobre o acontecimento, publicada junto da matéria de ZH, do dia 13 de novembro. Informo apenas que meu nome figurou na programação do evento desde o ano de 2001, quando apresentei a minha primeira performance, “Pôiesis-Desconjunto“. Desde lá, tive muitas ocasiões de contato com a Feira que, embora negociasse valores, nunca rejeitou minhas propostas de atividades nem me excluiu de sua programação. Nas últimas edições, tive sempre variadas atividades: saraus, performances, oficinas. Na 55a, 2009, ministrei uma oficina de três dias no Centro Cultural CEEE, apresentei um recital na Tenda de Pasárgada e fiz três performances no Feira Fora da Feira (atividade da Câmara que leva o evento aos bairros da cidade). É um trabalho que demanda muita energia do escritor, com público numeroso e heterogêneo, espaços às vezes muito ruidosos e dificuldades estruturais inerentes a um grande evento. Este ano, não enviei propostas, mas estive no Feira Fora da Feira, para três apresentações, a convite da própria Câmara, e com pagamento de cachê. Estranhei a abordagem da nota, na qual a Câmara não parece ciente da minha relação com a Feira. Procurei a produção do evento para conversar sobre isso, porém a conversa não me proporcionou o reconforto que eu imaginara.

ZH — A prisão de uma artista durante uma perfomance em praça pública gerou uma grande discussão no Estado e fora dele. Pela discussão, valeu o episódio?
Telma —
A minha performance surtiu muitos efeitos. O primeiro foi o encanto do público, que esteve ao meu lado, interagindo, pensando, identificando-se, perguntando, emocionando-se com a performance. Esse, para mim, é o mais importante dos efeitos. O mais terrível foi o incidente daquela noite com a Brigada e a Câmara do Livro, um incidente indesejável que, em alguns momentos, eu gostaria muito de esquecer. Todas as manifestações de apoio foram muito importantes para mim, e vieram dos espaços mais próximos e mais longínquos, partindo de poetas, leitores, jornalistas, artistas, políticos (houve uma moção de solidariedade proposta pela vereadora Fernanda Melchionna e aprovada na Câmara de Vereadores)… Recebi emails de alguns dos criadores que mais admiro no país, e ainda não consegui responder a todos os contatos. A reação das pessoas se sobrepõe à minha vontade, extrapola a minha alçada; dela sou uma observadora curiosa e motivada, pois fico contente com as reflexões não apenas como artista mas como cidadã. Alguns dos textos publicados (tanto aqui quanto em São Paulo) destrincham o sistema literário de uma forma que considero pertinente e brilhante. Cada um que se manifesta sobre a performance e o incidente propõe uma nova visada e isso é muito bom. Instalou-se um debate, um debate que é urgente para muitos – ele tomou proporções coletivas e apenas utilizou o caso como motivação. Estou ciente de que raras vezes, quando falam sobre o ocorrido, estão falando realmente sobre a minha performance. Como escreveu Wilde no prefácio de um romance cuja temática o levaria à prisão: “A mais elevada, como a mais baixa, das formas de crítica é uma espécie de autobiografia“. Esse prefácio ainda vem ao caso. Se estão falando sobre o mundo, sobre as suas vidas, sobre os contextos onde lemos, escrevemos e procuramos sobreviver, isso é ótimo. Demonstra apenas que a arte ainda tem essa potência. Há um fluxo constante de relações entre o artista e seu meio (como propôs a curadoria da última Bienal, com os conceitos de grito e escuta). É nessa dialética, sim, que podemos criar. Farei outras performances, muitas, e pretendo continuar utilizando os espaços públicos. Espero que os artistas que assim o desejarem possam continuar celebrando a sua arte nos espaços públicos. É da natureza da arte e das pessoas. A minha performance foi a catalisadora de um grito inaudível a muitos que já se fazia soar. Ela foi uma condensadora de sentidos e uma disparadora de processos, e é justo por isso, justo por isso que havia um espelho em cena.


Casas literárias

18 de outubro de 2010 4

NOTA DO EDITOR: Nossa jovem talento Tássia Kastner (lembram dela?), ora frilando para o setor de Economia do jornal, me ofereceu um texto que havia sido inspirado por uma recente passagem da moça por São Paulo e pela sua Bienal. Como gosto dos textos da Tássia, é claro que topei. E gostei do texto. Espero que vocês também gostem:

Com que Livro você Construiria sua Casa?

Bienal é o tipo de coisa que tu vai sabendo que pode encontrar várias coisas bem bizarras, e que vai invariavelmente pensar se o problema de não entender o lance ou achá-lo idiota é teu ou de todo o resto (que tá fazendo aquela cara de óóóóó para tentar parecer inteligente).
Pois eu encarei a Bienal de SP e, lá no Parque do Ibirapuera, entre trabalhos bem legais e outros polêmicos (como o do Nuno Ramos e seus urubus, Gil Vicente e seus assassinatos), o visitante encontra Longe daqui, aqui mesmo, de Marilá Dardot e Fábio Morais. A obra é também um espaço conceito dessa edição da bienal, que tem a proposta de fazer a transição entre os andares e dar um descanso para o cérebro, abarrotado de tudo o que viu.
Acontece que Longe daqui… carrega, provavelmente, o questionamento mais direto de todas as obras lá expostas: com que livro você construiria sua casa?
Para explicar, basta dizer que o espaço emula uma casa/biblioteca, com as paredes e portas revestidas por capas e lombadas de livros. No centro, um espaço para manusear alguns exemplares e até espreguiçadeiras para quem quiser curtir o momento e a leitura. Eu, que sou apenas admiradora (e não uma entendedora) das artes, me abstenho de tentar interpretar o trabalho dos artistas.
E por que eu tô dizendo isso tudo?
Quando eu tuitei a pergunta-mote do trabalho, o ilustre editor deste blog respondeu: teria de ser um bem grande.
Então me propus a pensar de verdade em alguns livros/autores que dariam boas casas.

— Uma casa de quadrinhos como Peanuts, Mafalda e Macanudo seriam um misto de desencanto, inocência e sagacidade infantil. Uma boa casa para se viver, eu diria.

— Um lar com muitas personagens femininas, tipo Capitu (de Dom Casmurro), Emma Bovary (de Madame Bovary) ou outras mulheres dessas cheias de crises típicas do século XIX seria inóspito. Mulheres demais sob o mesmo teto não costuma dar muito certo.

— Uma casa de contos seria legal. Apenas cômodos pequenos, nos quais os móveis seriam todos planejados de forma ainda mais cuidadosa do que em um romance de fôlego, e na qual tudo se encaixaria perfeitamente.

– Tenho certeza que muitos morariam numa casa construída com paredes de nosso velho safado Buko — suja, ordinária, mas sem nunca faltar uma garrafa de álcool e uma companhia mais ou menos —, ou então em uma habitação cheia das loucas pirações de Kerouac… naturalmente, os motivos para viver lá seriam as loucas pirações do indivíduo…

— Os clássicos como Goethe, Dostoiévski, Victor Hugo, Balzac … (preencha aqui com o autor que você considera clássico) … formariam imponentes e consistentes moradas.

— Sem perder a piada fácil, a casa mais sólida seria formada de poesia concreta.

Texto de Tássia Kastner

Os livros pela capa

18 de maio de 2010 3

Claro que há alguma verdade na velha e surrada expressão “julgar o livro pela capa”, mas ela funciona muito mais como metáfora edificante do que propriamente como juízo aplicado à literatura. Livros são fetiche de consumo, é claro que são, o que inclui, obviamente, o deleite visual e tátil que advém de olhar uma capa bacana ou folhear uma edição bem cuidada em papel de boa textura – e é inevitável que seja cada vez mais assim numa época em que o conteúdo de um livro está lá no computador para ser baixado numa caixinha eletrônica que mais parece um gameboy de gente grande.

Já discutimos capas bregas e apelativas de uma época em que o mercado nacional parecia mais interessado em tornar o livro uma versão sem figuras da Playboy, e um que outro leitor já me perguntou porque eu não fazia alguns posts sobre capas de livros que eu tenha achado bacanas, em vez de bregas. A ideia é boa, claro, mas como a maioria das boas ideias já tem alguém lá fora a pondo em prática com mais qualidade, como é o caso do escritor e designer Samir Machado de Machado, que mantém o blog Sobrecapas,  no qual analisa as capas que considera mais bacanas da produção nacional. Não que eu não vá falar de capas de vez em quando, mas tirando o fato de saber desenhar um pouquinho, não tenho lá muito o que acrescentar em termos de linguagem gráfica. Minha apreciação é mais na linha do gostei ou não gostei, como gostei – e muito, das capas que ilustram este post.

Elas pertencem à coleção Penguin Ink, iniciativa da editora Penguin para comemorar seus 75 anos. A casa selecionou seis livros de seu catálogo, Grana, de Martin Amis; À espera dos Bárbaros, de J.M. Coetzee; O Diário de Bridget Jones, de Helen Fielding; From Rússia With Love, de Ian Flemming; The Bone People, de Keri Hulme e The Broom of the System, de David Foster Wallace, e encomendou para eles novas capas, cada uma produzida por um tatuador ou ilustrador. Confesso minha ignorância quanto ao nome e ao valor dos sujeitos escolhidos, mas o resultado, que você pode conferir neste link, dispensa considerações. Tá certo que, ao menos para mim, parece um recurso muito sofisticado para uma naba como o livro da Bridget Jones ou para um típico pulp de espionagem como o livro de Flemming, mais uma aventura do espião 007. Mas é certo que o resultado ficou belíssimo.

Mais um gol da mesma editora que já havia criado maravilhas na coleção Penguin Classics Deluxe Edition, também chamada de Penguin Graphic Classics, que tinha uma ideia semelhante à da Penguin Ink: trazer para a arte das capas de alguns de seus livros profissionais renomados na indústria dos quadrinhos. O que resultou em coisas como Frank Miller criando a capa de O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon, Art Spiegelman fazendo a da Trilogia de Nova York, de Paul Auster, e Dan Clowes responsável pela capa de Frankenstein, de Mary Shelley. A série completa pode ser conferida aqui, no Flickr do diretor de arte da coleção, Paul Buckley

O Clone

26 de maio de 2008 3

Reparem na capa logo abaixo. É de um estudo publicado há algum tempo pelo acadêmico inglês (é serio, inglês mesmo, apesar do nome) A. Alvarez, traduzido e editado no Brasil pela Companhia das Letras.

O Deus Selvagem é uma densa e ao mesmo tempo poética reflexão sobre o impulso do suicídio, seja na sociedade seja na literatura – o famoso mote de Camus segundo o qual o suicídio é o único problema filosófico real é o norte do livro. Cruzando história, crítica literária e antropologia, Alvarez vai dos suicídios rituais em sociedades como as japonesas a um dos estudos mais reveladores sobre a obra da poetisa norte-americana Sylvia Plath, símbolo do artista atormentado que dá fim à própria existência.

Agora, reparem na outra capa mais abaixo, de um livro que está saindo por aqui pela editora Mundo Editorial. É a coletânea Contos Indiscretos, do brasileiro Sergio Keuchgerian, histórias que investem em uma descrição sensorial e desesperada do mal estar atual da modernidade, da solidão, da entrega física como signo de carência.

Editoras diferentes, autores diferentes, temas diferentes, formato diferente, mas olhem a capa.

Não se trata de um plágio de imagem, obviamente, mas de uma coincidência (in)fortuita. A imagem, tomada praticamente no mesmo detalhe e no mesmo ângulo nas duas capas (a mulher enrolada na toalha rosa não aparece no primeiro livro, por exemplo) é uma famosa pintura do americano Edward Hopper, um dos artistas visuais que melhor dotaram a luz de tristeza. Há sempre muita luz nas obras de Hopper, às vezes provenientes de janelas abertas – signos constantes  nas pinturas do homem –, mas essa luz não ilumina os seres e os ambientes, despojados e estéreis. Pelo contrário, a luminosidade brutal reveste a imagem de uma sensação de solidão, desamparo e náusea que, obviamente, dialoga com as duas obras aqui mostradas. Mas, obviamente, também, representa ou uma conexão inconsciente e poderosa entre os autores das duas capas (no livro da Mundo Editorial o projeto gráfico está creditado a José Costa e Teco de Souza, sem crédito específico para a capa. Na edição da Companhia a capa é de Sílvia Ribeiro) ou, o que parece mais simples, falta de imaginação mesmo.

Pra quem teve curiosidade, vai abaixo a imagem da pintura inteira. É um óleo sobre tela de 1928 e chama-se Night Windows. Está exposta no MoMA de Nova York: