Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts na categoria "Autores Gaúchos"

Memórias baguais do cárcere

07 de junho de 2013 0

Marcelo Backes. Foto: Bel Pedrosa, Divulgação

Futebol e a construção de uma identidade fraturada entre o isolamento e a amplitude são os temas centrais de O Último Minuto (Cia. das Letras, 224 páginas, R$ 38,50), memórias do cárcere de um grosso missioneiro, terceiro romance de Marcelo Backes.

O Último Minuto é um romance que se vale do recurso de uma voz narrativa emitida do cárcere. Outros livros já utilizaram esse tipo de artifício para criar um tipo de estrutura ideal da enunciação narrativa. O encarcerado tem à sua frente uma sucessão de dias iguais sem mudanças significativas no horizonte, não se move, não se desloca, então todo seu esforço enquanto narrador está condensado na tentativa de compreensão da situação que o levou até a cadeia. Contar também é uma forma de fazer as horas escorrerem. O prisioneiro, na literatura, é uma voz lançada sempre ao passado para tentar tornar menos intenso o fardo do presente, seja pela sublimação do tempo seja pela compreensão e reconfiguração da discrepância entre ele e o regime que o encarcerou.

Como o herói encarcerado é também um "homem revoltado", muitas vezes os livros que o tornam protagonista são contundentes denúncias de regimes opressores, como o magnífico O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler. Se denúncia há no romance de Backes, ao qual não falta raiva em sua superfície, é uma denúncia ao isolamento da província e às ilusões sem base da grande cidade. O prisioneiro criado por Backes é Yannick Nasyniack, apelidado de João, o Vermelho, descendente de alemães e russos e natural da comunidade de Linha Anharetã, no interior missioneiro – a mesma localidade fictícia da qual partem (e às vezes para a qual retornam) os personagens de Backes desde Estilhaços (2006). Trancafiado em um presídio no Rio devido a um crime que se delonga em revelar, Yannick, conversando com um jovem missionário católico, revisita sua vida na pequena Anharetã. O lugar é retratado nas memórias do prisioneiro como um rude enclave no qual a dureza inerente do campo engendra uma vida em que, apesar da aparente solidez da ética silenciosa do trabalho, a violência é vista com naturalidade.

Como já fizera nos romances anteriores, maisquememória e Três Traidores e uns Outros, Backes trabalha com o choque nada ameno entre os mundos do cosmopolitismo e da rústica ética agrária do trabalho. Fascinado com a possibilidade de viver na Europa, Yannick não hesita em abandonar mulher e filho e migrar para a Suíça como trabalhador braçal. Por lá, sua nacionalidade brasileira e sua experiência breve como ex-jogador de várzea abrem portas para que se torne técnico de futebol – profissão com a qual retorna ao Brasil.

É na voz de Yannick que reside o centro da narrativa e o principal desafio apresentado ao leitor por Backes. Embora filtrada pelo missionário, que se deixa contaminar por ela a todo momento, a voz de Yannick é a de um homem inteligente escondido atrás de uma armadura de rudeza tão afetada e desagradável como verdadeira. Menos interessado na trajetória de Yannick do que em sua visão de mundo, o romance se espraia com gosto pelas digressões do personagem, pontuadas por ditos populares e tiradas do futebol como metáfora. Aqui reside um dos desafios: uma das explicações para uma suposta ausência do futebol na literatura é sua onipresença no discurso cotidiano. De poucos assuntos se escreve tanto no Brasil, e muitas das diatribes e invectivas de Yannick não se elevam acima do uso desgastado de sempre de expressões recorrentes da crônica esportiva. Bem como suas manifestações a respeito de seus conterrâneos, da mulher, do filho, dos jogadores que treinou ou treina e mesmo a respeito do missionário com quem está interagindo são discursos de um conservadorismo exagerado ao limite da sátira. A linha demarcatória, no entanto, é sutil.

Só a partir da segunda metade do livro vê-se o homem contraditório que é Yannick, dotado de insuspeitada humanidade e mais disposto ao diálogo com o jovem religioso que termina por se tornar já no fim uma voz em contraponto. Nesse processo de aproximação entre o missioneiro e o missionário, fica claro que o centro do romance é, na< verdade,a relação conflituosa que Yannick tem com o filho que abandonou e jamais recuperará. E se o futebol fracassa em providenciar essa aproximação redentora com o filho (perna de pau que o pai insiste em tentar manter na titularidade do time que treina), será a ponte entre os dois interlocutores que conduzem o narrado – o missionário só começa a ser aceito pelo condenado quando aparece vestindo a camiseta vermelha do time para o qual Yannick torce.

As heranças precárias de Sidnei Schneider

27 de maio de 2013 0

Com uma carreira consolidada como poeta e tradutor, o porto-alegrense Sidnei Schneider lançou, no fim do ano passado, sua estreia na prosa literária, Andorinhas e Outros Enganos, coletânea que reúne 12 contos. O livro mescla trabalhos inéditos com contos já publicados.

Composto por narrativas já editadas em antologias e jornais e abrangendo a produção contística de Schneider desde os anos 1990, o livro não tem uma unidade de tema, e sim três seções com diferenças de estilo e tratamento bem demarcadas. Na primeira, duas histórias sobre mulheres e sexualidade. Destaque para Marie, a dos Gansos, conto no qual uma jovem cega descobre que sua falta de visão pode ter a ver com a precariedade de seu conhecimento sobre a experiência do desejo.

A segunda parte, mais extensa, traz seis contos com um olhar mais masculino, centrado em elementos da própria tradição literária como mote – em mais de um deles, a escrita de um livro está no centro da trama ou o personagem é um escritor. O que pode explicar os ecos – às vezes incômodos – de outros autores como Rubem Fonseca, Charles Bukowski e John Fante em algumas das narrativas, sobre experiências do artista na selva urbana. São também as histórias mais carregadas de humor negro e sarcasmo.

Na terceira seção, situam-se as gemas do conjunto. Quatro histórias que parecem costurar o lirismo da primeira parte com o olhar aguçado da segunda, além de apresentarem finais desconcertantes, de inspiração mítica. Que se Danem as Pombas faz de uma caçada a introdução de um garoto no universo adulto – consequentemente, no reino da morte. Uns Pezinhos é não a comédia, mas a tragédia de um erro. Proposta de Casamento troca o urbano pelo rural com um conto de violência e cobiça em campos do interior do Rio Grande. E Pratos é uma delicada reconstrução da jornada de uma família de origem alemã mudando-se das colônias germânicas do Estado para a Capital. Um serviço de pratos de louça passa de geração a geração como signo da herança precária dos migrantes.

O que você está lendo, Fernando Ramos?

20 de março de 2013 0

Fernando Ramos, organizador da Festipoa Literária. Foto: Mauro Vieira, ZH

Aqui estamos de novo, fazendo de tudo para não perder o pique e dar continuidade à série O Que Você Está Lendo?, que pergunta a escritores, professores, intelectuais e críticos que leitura estão curtindo e gostariam de partilhar conosco, fomos questionar Fernando Ramos, editor do jornal literário Vaia, publicação que existe há 12 anos. Fernando é também idealizador e organizador da Festa Literária de Porto Alegre, a FestiPoa (www.festipoaliteraria.blogspot.com), um dos eventos mais bacanas dedicados à cultura no primeiro semestre, na Capital. Não esqueça, a série vai ao ar às quartas-feiras

Então, Fernando Ramos, o que você anda lendo?

Estou relendo o segundo livro da Angélica Freitas, Um útero é do tamanho de um punho. A poesia da Angélica me agrada muito, seus poemas são do tipo que surgem da inquietação e perplexidade diante da condição humana. Dessa inquietação, naturalmente, brotam perguntas (“Quem manda, de fato, no corpo da mulher?”) que renderam os 35 poemas reunidos nesse livro que chega para abalar algumas falsas noções de gênero e comportamentos atuais.
A poesia é sempre uma aventura, uma experiência estética marcante, não se presta para teses ou discursos. Angélica sabe disso, consegue fazer do poema essa experiência e transmitir esse acontecimento ao leitor.
Para Angélica, o poema é uma espécie de arma, ou punho fechado a golpear com sarcasmo desestabilizador (
num útero cabem capelas/ cabem bancos hóstias crucifixos/ cabem padres de pau murcho/ cabem freiras de seios quietos/ cabem as senhoras católicas/ que não usam contraceptivos); com ironia afiadíssima (uma pessoa já coube num útero/ não cabe num punho/ quero dizer, cabe/ se a mão estiver aberta/ o que não implica gênero/ degeneração ou generosidade); e com auto-ironia, portanto sem se excluir do embate (não diz coisa com/ coisa nem escreve nada/ que preste/ não alivia as massas/ nem seduz as cobras/ se reduz a isso/ a palhaça/ toca fagote/ com a boca cheia/ de colgate).
Um útero é do tamanho de um punho é leitura divertida, capaz de provocar boas gargalhadas, embora os poemas sejam mais ásperos e densos que os de Rilke Shake, seu livro anterior. Há muita musicalidade, leveza e fluência nos versos, como se a linguagem ganhasse uma linha melódica aliciadora e fosse envolvendo nossa sensibilidade de leitor numa espécie de canção.
Embora correndo risco de deslizar para uma poesia discursiva e de protesto ao abordar as temáticas de gênero e identidade com tamanha virulência, o sarcasmo, o nonsense e, sobretudo, a força estética e o humor dos poemas fizeram com que os disparos fossem no alvo. Poesia direta e límpida. Angélica é poeta das maiores.


Uma família pelos avessos

13 de janeiro de 2013 0

Seria o adulto uma criança que, ao perder a mágica de fantasiar, torna-se alguém incapaz de enxergar o que acontece diante do próprio nariz? Essa pergunta é um dos eixos a percorrer O Tigre na Sombra (Record, 128 páginas), novo romance de Lya Luft, primeira ficção longa da autora desde O Ponto Cego (1999).

Aclamada como romancista desde sua estreia, com As Parceiras (1980), Lya diversificou as vertentes de sua obra nos anos 2000, publicando literatura infantil (como a série da Bruxa Boa), crônicas (Em Outras Palavras) e ensaios (Perdas & Ganhos, Pensar É Transgredir, Múltipla Escolha e A Riqueza do Mundo). A ficção foi brevemente resgatada em O Silêncio dos Amantes, coletânea de contos de 2008, mas o retorno ao romance se dá apenas agora, 13 anos depois do último. De acordo com ela, um dos motivos é que seus livros vão se fazendo à medida que as ideias aparecem, não em um plano determinado:

– Não sou o tipo de escritor disciplinado que elabora todas as etapas do livro antes de começar. O Erico (Verissimo, de quem Lya foi amiga) planejava tudo, desenhava as pessoas. Eu escrevo o livro quando o tenho na cabeça. Escrever é meu barato particular,não é uma obrigação.

O Tigre na Sombra é centrado na figura de Dolores, filha mais nova de uma mãe amarga e um pai dócil e aparentemente dominado. Nascida com uma perna mais curta do que a outra, Dolores cresce sem o afeto da mãe (para quem a deformidade da filha é quase uma ofensa) ligada às figuras fascinantes da avó – uma mulher romântica que incentiva as fantasias infantis da neta – e do avô, um ex-marinheiro cheio de maravilhas para contar. É uma abordagem que, se lembra um pouco a de O Ponto Cego, narrado pelo prisma da infância, também retorna a dois elementos chave da obra de Lya: o ponto de vista feminino (no romance anterior, a voz era a de um menino) e a formação de uma identidade feminina em uma família problemática.

– Todas as relações são difíceis, e as mais próximas se tornam mais árduas. Tive uma família maravilhosa, mas, como escritora, sou fascinada pelo avesso. Escrevo sobre família disfuncionais, com parentes que não se gostam ou se torturam. Escrevo sobre famílias que são como a família não deveria ser – diz Lya.

Dolores é chamada por toda a família de Dôda. Cresce como uma criança solitária, propensa a ver o mundo com olhar mágico: o barulho do mar, ensina o avô, é o murmúrio do mundo; faz amizade com um garoto que não existe; e, finalizando, certo dia encontra nos fundos do pátio, um filhote de tigre de olhos azuis. A própria narrativa escolhe não afirmar se sua imaginação inventa o que não existe ou se a infância tem, na verdade, acesso a um território mágico que se torna interdito na vida adulta. Quando cresce e consegue driblar o desamor materno e o defeito físico, Dôda se torna vulnerável a um golpe que o leitor parece imaginar bem antes dela – a senhora dos mistérios não vê mistérios onde deveria.

– Quando somos crianças vemos o mundo de um jeito que, depois de sermos educados, desaparece – comenta a autora.

Algumas notas barbudas

26 de dezembro de 2012 0

1 – O primeiro motivo de alguma reflexão para este leitor de Barba Ensopada de Sangue, novo livro de Daniel Galera, foi o título. Um título, principalmente se escolhido pelo autor do livro, é um cartão de apresentação, quase um manifesto de intenções. E Barba Ensopada de Sangue é uma frase de sonoridade brutal, violenta, com ressonâncias grotescas que remetem a um thriller ou a um livro de horror. E embora Galera enverede pelo mistério neste seu novo romance, não é isso o que o livro oferece. O título pensado anteriormente para esta narrativa, já li em algum lugar, acho que na própria Granta, era Apneia (foi esse o nome dado a um dos capítulos iniciais do romance, publicado na seleção da revista americana com "os melhores escritores brasileiros sub-30 40"). A este leitor, é um título que se ajusta muito mais ao que se lê no livro, porque Galera trabalha o romance buscando no ritmo e no encadeamento da prosa e dos sucessos da narrativa uma cadência de respiração suspensa. Pouca coisa acontece de fato em boa parte da narrativa, e muito do que ocorre está comprimido nos últimos e acelerados capítulos - como se a narrativa segurasse o fôlego até o limite e então bracejasse sofregamente em busca de ar tentando encontrar a superfície atropelando o que estiver na frente (o que serve também para posicionar melhor no conjunto do enredo a explosão final de violência). Tudo isso combinaria bastante com a ideia de apneia, presente, além disso, em um bom número de páginas do romance (o avô do protagonista é citado como um homem com capacidade pulmonar sobre-humana. O jovem professor de educação física tenta imitar tal capacidade do avô e conclui que não a herdou - até que, em uma cena chave, é obrigado a provar a si mesmo e ao leitor que estava errado). Já Barba Ensopada de Sangue é uma frase colocada em uma das cenas do clímax - e parece ter sido inserida ali para justificar o título, e não o contrário. Não que isso seja assim tão importante, mas o título é uma apresentação, já mencionei, e neste livro, ao menos, a impressão que fica é análoga à que temos ao encontrar uma pessoa com um nome que não combina em nada com sua aparência – o que talvez seja mais importante do que se pensa em um livro no qual a discrepância entre nome e rosto está no centro da narrativa.

2 – Criar um personagem que se sustente por si só equivale a construir, mais do que uma persona, uma psique. E essa psique inclui elementos que devem ser moldados de forma cuidadosa se o que se pretende é uma representação adequada em um contexto realista – e, apesar da inclusão de algumas pajelanças que sugam o leitor do contexto realista para uma atmosfera em que o mágico se imiscui na rotina opressiva do personagem, o livro se estrutura na descrição o mais minuciosa e detalhista da realidade possível. Criar um personagem concreto em seus gestos e em sua formação intelectual e emocional também pressupõe uma certa honestidade com os propósitos da narrativa. Honestidade talvez soe pesado demais. Convergência, talvez fique melhor. E o fato é que, dentre as mais de 400 páginas do livro de Daniel Galera, um bom número delas é dedicado à construção da visão de mundo do personagem, e em certos momentos e diálogos, Galera praticamente tece um romance de ideias. E foi por isso que usei o termo "honestidade" tão pouco confortável. Porque calcar uma narrativa tão extensa na visão de mundo de alguém que não tem ou finge não ter os recursos intelectuais para discuti-la é um truque que permite ao autor esquivar-se dos pontos mais espinhosos do pensamento de seu personagem. Em um diálogo particularmente crucial, no fim do livro, o protagonista e a mulher que foi seu grande amor discutem a oposição determinismo x livre arbítrio. O debate é importante para este romance em particular porque, dependendo da posição que se adote, isso pode mudar o entendimento de um episódio crucial: a ex-namorada, o amor perdido do protagonista, hoje é casada com o irmão do personagem, motivo para uma relação cheia de arestas entre ambos e que contamina a família como um todo. A mulher insiste para que o protagonista perdoe seu irmão, uma vez que o próprio personagem já admitiu que, na hora do vamos ver, o poder de escolha da humanidade é menor do que se pensa, e tudo está vagamente interligado – o personagem tem até sonhos e visões premonitórias. Se o que vai acontecer é passível de ser previsto, isso diminuiria, pela lógica, a responsabilidade do agente individual, mas o personagem teima birrentamente em afirmar o contrário: 
"Ninguém escolhe nada e mesmo assim a responsabilidade é nossa. É assim. Não sei explicar por quê", diz ele à página 419. 
Pressionado pela insistência da ex-namorada, o sujeito não joga a toalha, mas invoca o fato de que não é um homem de leituras e não tem recursos para desenvolver o raciocínio e provar seu ponto de vista.
É esse um dos pontos em que Galera parece procurar a solução fácil: há um determinado número de ideias circulando no livro, mas como o personagem é meio burro ou se faz de, a incongruência da argumentação pode ser deixada de lado dentro da narrativa.

3 – Se na construção do universo mental do personagem Galera por vezes deixa a desejar pela anomia do sujeito, sua representação do universo físico é impecável. Muito se falou nos últimos anos sobre o quanto a literatura brasileira parecia ter renunciado, manietada pelo canto da sereia das teorias acadêmicas da crise de representação, à tarefa de colocar o país, um aspecto dele que seja, em suas páginas. Concordo apenas em parte, porque também para que um romance abarque um pouco que seja da realidade circundante, é necessário um talento e um trabalho pesado aparentemente além das possibilidades de muitos autores, que correm o risco de escorregar no didatismo ou comprometer a unidade da narrativa ao inserir trechos inteiros de "contextualização histórica e social" totalmente discrepantes do material narrativo propriamente dito. A maneira como Galera se desincumbe dessa missão tem algo de um drible de Garrincha: não tem nada de realmente novo, ele já fez antes e vai lá e faz de novo, e é bonito, funciona e encanta. O personagem principal sofre de uma doença que o impede de fixar o rosto de uma pessoa na memória, e portanto ele é minucioso em elencar os detalhes que possam ajudá-lo a lembrar da pessoa no futuro sem o rosto: peso, altura, gestos característicos, penteado, voz. Com esse recurso, Galera sente-se livre para recorrer às abundantes descrições do entorno e do ambiente que já estavam presentes lá atrás, em Mãos de Cavalo, um estilo de escrita tributário da prosa contemporânea em inglês, Ian McEwan, por exemplo, e, em especial, David Foster Wallace – há até o recurso às notas de rodapé para "dar voz" ao que escrevem outras personagens para o protagonista por meio de bilhetes, torpedos, e-mails. A forma como Galera retrata um balneário turístico fora de temporada como um lugar suspenso no tempo, sujeito a uma pesada melancolia, também casa muito bem com a busca central do personagem pela própria identidade (resolver o crime do avô é um pouco encontrar a si mesmo, uma vez que todos dizem que o protagonista é extremamente parecido com o parente assassinado).
Galera também se vale de um recurso que domina muito bem, o diálogo, para incluir na história temas candentes que cumprem a função desse "esboço de realidade brasileira". É por meio dos diálogos que se fala da migração em massa de gaúchos para o litoral catarinense nos anos 1960; dos conflitos daí resultantes; do passado da localidade, atrelado à caça da baleia; do desaparecimento melancólico de um ofício ancestral, como o da pesca, cada vez mais ameaçada pela voracidade dos grandes pesqueiros e seus métodos industriais; da estagnação econômica de uma comunidade voltada para o turismo. São todos retratos absolutamente vívidos de um naco saboroso e ignorado da realidade nacional, dispostos de modo atraente e orgânico à narrativa, e saúdo Galera por isso, pela coragem de assumir uma visão precariamente totalizante em vez de enveredar pela tediosa circunvolução de seus próprios processos, como um cachorro correndo atrás do próprio rabo – é o que Elvira Vigna sugere que o autor deveria ter feito neste ensaio sobre o livro, e como é exatamente o que ela faz em seu maneirista Foi o que Deu para Fazer em Matéria de História de Amor, o conselho não me surpreende em nada.

4 – Uma nota pessoal: li o livro, coincidentemente, durante alguns dias de férias passados na Pinheira, bem ali próximo do cenário em que tudo ocorre, e foi de fato uma experiência de extrema e bela sinergia ver Galera descrevendo na ficção a região em que eu estava, também em um momento fora da alta temporada. É um toque de brilhantismo adicional o fato de que Galera cria a narrativa de um homem dedicado de forma maníaca a encontrar a sua própria identidade em um lugar que ele próprio padece da esquizofrenia inescapável do turismo sazonal: passada a alta temporada, o litoral catarinense se fecha em uma atmosfera provinciana que parece desconectada do que é no auge do verão. Mérito total de Galera. Dentre os livros que li recentemente, acho que só O Terceiro Reich, de Roberto Bolaño, retrata de modo mais acurado essa melancolia de um lugar turístico que se transforma em um vilarejo sombrio com o fim da estação.

5 – A trama, a essa altura, é bem conhecida, mas se pode recapitulá-la em duas linhas e não vai fazer mal: um personal trainer se muda para Garopaba, no litoral catarinense, buscando entender a fixação que sente pela trajetória do próprio avô, que viveu na comunidade décadas antes e que teria sido brutalmente assassinado durante um baile. Mais do que isso, faça o favor de ler a matéria do Caue Fonseca sobre o livro, aqui.

6 – A crítica que o jornalista de Veja Jerônimo Teixeira fez ao livro era deliberadamente irônica, ao falar da "atmosfera viril" do romance e encerrar a apreciação com um provocador "coisa de macho". Li esse texto antes de ler o livro. Não sabia, portanto, se havia justiça ou não no tom algo debochado com que a resenha era tecida. O que me surpreendeu ao ler o livro, tendo em mente os trabalhos anteriores de Galera, foi que havia sim, uma certa justiça no irônico "coisa de macho", mas não pelos motivos apontados por Jerônimo, e sim pelo retrato misógino, voluntariamente ou não, das personagens femininas na narrativa. A mãe do personagem é uma figura desagradável, dando provas de futilidade exasperantes. Jasmin, uma moça com quem o protagonista se envolve durante sua temporada na praia, é uma bela mulher, universitária, pesquisadora, ciente da história e da mentalidade dos balneários litorâneos catarinenses, mas que um belo dia surta, surta às ganhas, diante da evidência concreta de que um sonho premonitório supersticioso da cultura local possa ter validade. Não serei mais específico porque já estou entregando muita coisa. Outra jovem com quem o cara se envolve, uma garçonete, é uma mãe solteira mostrada como desmiolada e irresponsável perante o filho pequeno – felizmente nosso herói está lá para forjar com esse filho um laço genuíno e fornecer uma representação paterna que a narrativa parece entender necessária, ao menos é assim que ela se estrutura. Outra das mulheres da narrativa é uma prostituta alvo da ternura bêbada do protagonista, em uma representação bastante clichê de uma fantasia masculina de redenção da pobre mulher decaída. Mesmo a personagem que parece ter uma voz autônoma na narrativa, Viv, a ex, é uma pessoa de antemão estabelecida como indigna de confiança por haver trocado um irmão pelo outro, sendo desleal a dois paradigmas aparentemente sagrados: o da família e o da relação homem-mulher. Talvez não fosse essa a intenção do autor, não discuto, apenas elenco o quanto o acúmulo desse tipo de representação resulta em um romance que, mais do que masculino, o que em si não apresenta problema algum, resvala na caricatura machista.

7 – Li ou ouvi mais de uma pessoa manifestar cansaço pelo andamento vagaroso da narrativa ao abordar o cotidiano do personagem no balneário fora de temporada. Não concordo de modo algum. Em uma prova de segurança e domínio textual que desde já o confirmam como um dos poucos grandes autores de sua geração, Galera mantém o interesse (ao menos manteve o meu) durante toda a longa temporada na qual a estagnação do personagem afundado na própria melancolia – pelo descorno do abandono da ex, pela perda do pai, pela dificuldade das ligações estabelecidas por sua doença – vai corroendo sua sanidade. O que me incomodou foi exatamente o contrário. O quanto, ao movimentar o personagem no fim do livro, Galera parece mover o romance inteiro em direção ao seu fim com coincidências difíceis de engolir, todas elas orquestradas para uma explosão de violência catártica que parece estar ali apenas para que alguma coisa de fato aconteça. Enquanto o personagem tateia no inverno catarinense, sem saber muito bem o que vai fazer ou o que vai acontecer, a narrativa é um prazer. Quando ele se põe em movimento, em uma excursão decidida de última hora pelos morros da região debaixo de uma das piores chuvas já registradas em Santa Catarina, a coisa é de uma gratuidade tão estranha que o subsequente vaudeville de acontecimentos e coincidências assume uma aparência farsesca que de modo algum combina com o tom da narrativa, sempre solene, mirando no caráter mítico de uma epifania masculina de violência e perseverança que retoma como duplo o mito do avô que ele foi procurar na cidade.

Os vencedores do Prêmio Açorianos 2012

11 de dezembro de 2012 0

A Coordenação do Livro e Literatura da Secretaria Municipal de Porto Alegre divulgou ontem, na Noite do Livro, a lista dos vencedores do Prêmio Açorianos de Literatura.  O Livro do Ano eleito pelo júri foi a coletânea de ensaios Afrontar Fronteiras, de Donaldo Schüler, que retoma em artigos algumas das discussões trazidas a Porto Alegre pelos convidados do projeto Fronteiras do Pensamento – do qual Donaldo Schüler é curador cultural.

O vencedor na categoria Criação Literária, que todo ano premia um original de algum gênero não publicado com um montante em dinheiro e com a edição da obra em livro, protagonizou uma nota curiosa. O prêmio este ano contemplava livros de poesia. O vencedor, entrechos ou valas do silêncio, de Guto Leite, também já havia vencido o concurso do IEL para ser editado pela Coleção Originais do Instituto, a mesma que lançou nove títulos recentemente de nomes como Nei Duclós ou Lourenço Cazarré. Nos exemplares da coleção, inclusive, ainda consta o nome do livro de Guto Leite como uma das obras ainda por publicar na série. De acordo com a diretora do IEL, a escritora Laís Chaffe, não havia nada nos editais da Coleção Originais que exigisse que os livros inscritos não pudessem ser apresentados a outros concursos semelhantes. Agora, o livro de Leite será publicado como vencedor no Açorianos, e não sairá mais pela coleção do Instituto.

Veja abaixo a lista dos vencedores do Açorianos 2012, com um link para resenhas de alguns deles quando já abordamos o livro aqui no blog:

LIVRO DO ANO
Afrontar Fronteiras, de Donaldo Schüler (Movimento).

NARRATIVA LONGA
Neptuno, de Leticia Wierzchowski (Record)

CONTO
Enquanto Água, de Altair Martins (Record)

CRÔNICA
Borralheiro: Minha Viagem pela Casa, de Fabricio Carpinejar (Bertrand Brasil)

POESIA
A Chama Azul, de Maria Carpi (AGE)

INFANTIL
Maria Teresa e o Javali, de Gustavo Finkler (Projeto)

INFANTOJUVENIL
Decifrando Ângelo, de Luís Dill (Scipione)

CAPA
Juliana Dischke por A Primeira Vez que Vi Meu Pai (Artes e Ofícios), de Márcia Leite.

PROJETO GRÁFICO
Joãocaré e Juliana Dischke, por A Primeira Vez que Vi Meu Pai (Artes e Ofícios), de Márcia Leite.

ENSAIO DE LITERATURA E HUMANIDADES
Afrontar Fronteiras, de Donaldo Schüler (Movimento).

ESPECIAL
O Tempo e o Rio Grande nas Imagens do Arquivo Histórico do RS, organização de Rejane Penna (IEL)

CRIAÇÃO LITERÁRIA - POESIA
entrechos ou valas do silêncio, de Guto Leite.


Jornada (ao) interior

04 de dezembro de 2012 0

Carpinejar em aventuras pelo Interior. Foto: Adriana Franciosi, ZH

Durante o ano de 2011, o escritor, jornalista e poeta Fabrício Carpinejar dedicou-se a viajar pelo interior do Estado, levantando fatos pitorescos, inusitados, belos, poéticos e cômicos do que via nos municípios em que chegava. O resultado foi uma série de 52 semanas publicada em Zero Hora sob o título de Beleza Interior. A série, que rendeu fãs e desafetos ao autor gaúcho, sai agora em livro pela Arquipélago Editorial. Beleza Interior, a coletânea tem sessão de autógrafos marcada para esta quarta-feira, às 19h30min, na Livraria Cultura (Túlio de Rose, 80). Por e-mail, de São Paulo, Carpinejar concedeu a seguinte entrevista sobre os bastidores da série:

Zero Hora – Seu trajeto para a série não seguiu um traçado necessariamente geográfico, assemelhando-se mais a um ziguezague pelo Estado. Como era feita a escolha das cidades visitadas para a série? Você partiu de um plano com um número predeterminado e depois foi improvisando?
Fabrício Carpinejar
– Parti apenas de Caxias, minha cidade natal, e fui perseguindo histórias divertidas e personagens interessantes. Não havia um mapa traçado previamente. A série foi se fazendo semana a semana, a partir de sugestões de leitores e palpites de amigos. Houve o desejo de abraçar as regiões de modo igualitário. Vivi a adrenalina da aventura: de repente viajar e não achar nada de relevante. Corria o risco de errar. Era um jornalismo romântico, entrar nas cidades, conversar, descobrir se havia algo novo e peculiar, explorar os costumes e me infiltrar nos causos. A curiosidade foi minha bússola. se algo fugia do normal, me interessava. Como em Lagoa dos Três Cantos, uma padaria vendia 1, 6 mil cucas, o mesmo número dos habitantes da cidade?

ZH _ Qual a história da série que mais o marcou?
Carpinejar
– Felicidade, a última protagonista das reportagens, moradora de Livramento. Nunca imaginei que terminaria todo o longo roteiro com uma lavadeira que é pura alegria, de 106 anos, despachada, independente, morando sozinha. Ela é um tapa na cara da preguiça. Um exemplo de como superar as adversidades e não se acomodar na vitimização da velhice.

ZH _ Qual foi a descoberta mais surpreendente que você fez ao longo da série? Algo que não tinha a menor ideia e que encontrou durante as viagens?
Carpinejar
_ Os tipos humanos me comovem. O vendedor de rapadura de porta em porta que sustentou seis filhos na universidade, por exemplo, encarnando a teimosia generosa dos pequenos comerciantes. Tudo me fez crescer, me inspirou, errar o caminho significava desvendar novos pontos. Nossa coragem estava em fugir da cobertura tradicional do jornalismo, enfrentar o mistério e falar com locais que nunca saíram no jornal. Remontamos um On the Road pampiano. Viajei a Alecrim, mais de 400 km, sem saber o que tinha lá, somente pela sonoridade do nome. Localizei um inacreditável festival de canção de terceira idade, onde as pessoas envelhecem com gosto para poder subir ao palco. Fiquei com a impressão de que Beleza Interior nunca teria fim. De pergunta a pergunta, localizaria enredos fantásticos e sobrenaturais. O realismo mágico é monótono diante do Rio Grande do Sul.

ZH _ Em que cidade você viveu a situação mais estranha ou engraçada ao apurar o material?
Carpinejar
– Fui expulso de um salão de beleza em Alegrete, por tentar fazer as unhas. O Nauro Júnior (fotógrafo de Zero Hora) pode testemunhar a meu favor. A dona do espaço disse que não faria unha de homem, isso não cheirava bem. Eu respondi que iria cheirar igual a acetona. Ou quando uma moradora de Alpestre queria que eu depenasse uma galinha. Ou quando fiz concurso de estátua com o chefe da Polícia de Sério. Ou quando ganhei um coelho empalhado de presente de um dos entrevistados e terminei pego por uma blitz do exército contra tráfico de animais.

ZH _ Qual foi a cidade em que o trabalho foi mais difícil, que você demorou mais a encontrar o tom ou o aspecto que gostaria de retratar?
Carpinejar
– Nosso papel não era fazer turismo. Viajávamos - eu, o motorista e o fotógrafo da ZH - para resgatar um estado diferente do habitual, apresentar cidades fora de seus clichês. Evitamos os municípios que são conhecidos, como Gramado, Canela e Nova Petrópolis ou os muito próximos da capital como Canoas, Viamão e Alvorada. Enfrentei dificuldade ao desmistificar localidades, que esperavam o fácil elogio comercial e não entenderam a natureza literária do projeto.

ZH _ Neste mesmo ano você publicou uma coletânea em que convidada autores a escrever contos sobre cidades brasileiras de nomes sugestivos. Este projeto tem alguma relação ou inspiração com as viagens da série "Beleza Interior"?
Carpinejar
_ Houve uma convergência. A antologia Bem-Vindo (leia mais aqui), que reúne dez contistas abordando cidades de batismo poético, surgiu antes de Beleza Interior. Mas é um processo complementar. Mostrar o país a partir da imaginação de seus moradores.

ZH _ Há alguma cidade que, finda a série, você gostaria de ter ido mas não foi?
Carpinejar _
Nossa, haveria cancha para mais quatro séries, no mínimo. Escrevi sobre 52, mas fizemos vídeos de mais de 70 cidades. Uruguaiana é uma delas. Victor Graeff, outra. Bah, o mapa do estado está dobrado em minha mesa como se fosse minha camisa predileta.

As crônicas de Scliar

23 de outubro de 2012 0

O escritor Moacyr Scliar

"Leon Tolstói (1828 – 1910) foi não apenas um grande escritor, foi um tipo humano fascinante que, sob alguns aspectos, antecipou formas de pensamento e estilos de vida que depois viriam a caracterizar o século XX. Podemos dizer que foi, senão o primeiro, pelo menos um dos primeiros hippies, o resultado de uma trajetória intelectual e espiritual em que não faltaram momentos surpreendentes. O centenário de seu nascimento está sendo lembrado em todo o mundo este ano. De família rica e tradicional, filho de um conde, Tolstói nasceu em 1828 em Iásnaia Poliana, grande propriedade familiar. Frequentou a universidade, estudando Direito e idiomas, mas, aluno rebelde, abandonou o curso. Passava muito tempo em Moscou e em São Petersburgo,levando uma vida boêmia e acumulando pesadas dívidas de jogo. Talvez para escapar a esta situação, alistou-se no exército e começou a escrever. Resultou daí uma notável obra, expressa em contos, em romances, como Anna Kariênina e Guerra e Paz, em ensaios. Seus textos conquistaram a admiração de escritores como Flaubert, Dostoiévski e Tchekhov, e tornaram-no famoso.
Aos poucos, Tolstói foi optando por um caminho que, filosoficamente e politicamente, caracterizava a sua independência e sua rebeldia. Depois de presenciar uma execução pública em Paris, concluiu que o Estado “é uma conspiração para explorar e corromper cidadãos”. Embora influenciado pelo anarquista Pierre-Joseph Proudhon (de quem copiou o título de um livro,
La Guerre et la Paix), não aderiu ao anarquismo; mas resolveu dedicar-se à gente pobre, comum. Em Iásnaia Poliana, fundou várias escolas que proporcionavam um ensino livre, democrático. Era um cristão fervoroso, mas não convencional, que buscava sua própria interpretação dos livros sagrados. Admirador de Buda e de São Francisco de Assis, acabou excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa, e, numa época, era vigiado pela polícia do tsar. Pacifista convicto, influenciou o líder hindu Mahatma Gandhi, que, através do movimento de resistência não-violenta, conseguiu que a Índia se tornasse independente da Grã-Bretanha. Achava que a aristocracia era opressora, opunha-se à propriedade privada e ao casamento; valorizava a castidade, não bebia nem fumava, era vegetariano e usava roupas simples de camponês, renunciando inclusive à sua riqueza e até aos direitos autorais (um escritor que era, portanto, o sonho dos editores).
A família (era casado com a filha de um famoso médico e teve com ela 13 filhos) não aceitava o que era considerado um extravagante modo de vida. Aos 82 anos, Tolstói decidiu fugir de casa; fê-lo de trem, em gélidos vagões de terceira classe. Contraiu pneumonia e morreu em 20 de novembro de 1910, na estação ferroviária de Astapovo. Àquela altura era uma personalidade universal e, apesar de não ter nada a ver com o comunismo, foi prestigiadíssimo na finada União Soviética. Para os hippies dos anos 1960, tornou-se um modelo, e havia até colônias com seu nome. Certamente no musical Hair, celebração desse movimento, ele teria um papel importante. Basta lembrar uma única frase dele,que aparece no começo de Anna Kariênina: “Todas as famílias felizes são iguais, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Bota sabedoria nisso."

Durante quase 40 anos, entre o início dos anos 1970 e janeiro de 2011, o escritor Moacyr Scliar (1937 – 2011) publicou crônicas regularmente em Zero Hora. Os assuntos eram os mais variados possíveis: das questões de saúde abordadas no caderno Vida aos temas mais leves desenvolvidos no caderno Donna, passando pelos assuntos cotidianos da cidade e do Estado reservados para a coluna das terças-feiras na página 2 do jornal.

Está chegando às livrarias a coletânea A Poesia das Coisas Simples (Companhia das Letras, 256 páginas, R$ 29,50), organizada e prefaciada pela professora Regina Zilberman, reúne 82 dessas crônicas, escritas entre outubro de 1977 e novembro de 2010. Dividido em três grandes eixos temáticos (Leituras, Livros, Literatura, Pessoas e Personagens – de onde saiu a crônica reproduzida acima  – e Outras Histórias) organizados em ordem cronológica, o livro revela pelo menos três temas que seriam recorrentes ao longo de toda a trajetória do escritor como cronista: a paixão pela literatura, o legado da cultura judaica e as lembranças familiares da infância no Bom Fim.

Scliar escreveu mais de 70 livros em gêneros como romance, conto, ensaio, crônica e ficção infantojuvenil, mas, paralelamente à produção extensa e variada, fazia questão de manter uma vida literária intensa e movimentada. Viajava pelo mundo todo para congressos de literatura, mas não recusava os convites das pequenas Feiras do Livro do interior do Estado. Entre os textos selecionados, há saudações à Jornada de Passo Fundo e à vindoura Feira do Livro de Porto Alegre, assim como o registro de encontros com celebridades literárias internacionais como Gabriel García Márquez e relatos sobre a convivência com escritores como Erico Verissimo, Jorge Amado e Antonio Callado.

O título do livro foi retirado de um texto sobre outro escritor com o qual Scliar conviveu e a quem dedicou uma cordial despedida em dezembro de 1990, quando Rubem Braga morreu. Falando sobre o cronista mais celebrado da literatura brasileira, aquele que, ao contrário do próprio Scliar, dedicou-se a um único gênero, o escritor gaúcho acaba fazendo o elogio do texto breve que exercitou durante toda sua vida literária: “Há quem julgue o jornal um veículo inadequado para a literatura: o livro, diz-se, tem permanência (mesmo que esta permanência por vezes só beneficie as traças) ao passo que o jornal é um objeto descartável (...). Braga, porém, nunca acreditou nesta lógica ‘macluhanesca’. Preferiu seguir o caminho de Machado e de Lima Barreto, e transformou o cotidiano em matéria-prima para um trabalho literário de primeira grandeza”.

Um rosto de infância

25 de setembro de 2012 0

A escritora Marcia Tiburi. Foto: Rubens Martins Chaves, divulgação

Em seu último ensaio publicado, Olho de Vidro (2011), a filósofa e escritora Marcia Tiburi refletia sobre a onipresença da imagem na cultura contemporânea. Em seu novo romance, Era Meu Esse Rosto, é a ausência de uma imagem que norteia a busca do protagonista por si mesmo.

Era Meu Esse Rosto é o quarto romance de Marcia Tiburi, publicado após a conclusão de sua Trilogia Íntima: Magnólia (2005), A Mulher de Costas (2006) e O Manto (2009). Em comparação com os demais, o novo romance preserva a prosa limítrofe com a poesia, um narrar mais de sensaçõesdo que de situações. Há, contudo,um elemento diverso: é a primeira vez que a literatura de Marcia lida com um narrador masculino. Um recurso que,a própria autora admite, foi adotado para antepor um certo distanciamento do material mais pessoal e autobiográfico deste romance.

– Criei um homem que eu ficcionalizei neste livro. Talvez eu tenha feito isso para poder me distanciar da minha própria história. A gente sempre se inspira na realidade, porque a literatura é verossimilhança, tem a ver com o que poderia ter acontecido, e isso é o que vai sustentar o que chamamos de literatura. Há uma referência a um possível, e às vezes este “possível” é muito mais próximo do acontecimento vivido – diz a autora, em entrevista por telefone.

Era Meu Esse Rosto divide-se em duas linhas narrativas: a descrição, poética e exacerbada, das memórias de infância do narrador/protagonista em uma cidade do interior (nomeada apenas como V., como a Vacaria natal de Marcia), entremeadas com o relato de uma viagem do mesmo protagonista, já adulto, até a cidade da Itália de onde veio sua família (também batizada apenas de V., com a descrição imprecisa de uma metrópole mediterrânea com canais, como Veneza).

O personagem cumpre essa jornada de V. a V. para tentar encontrar na Itália, a pedido de uma parente, um retrato de seu avô, já morto e sepultado sob uma lápide sem foto. Essa busca por uma imagem fugidia é narrada em blocos de texto entre parênteses (transformando o presente do personagem em uma interrupção da infância na qual residem suas sensações e memórias mais vívidas). A jornada é também uma chave para o estilo elusivo e denso do romance.

– O personagem busca uma imagemque não está disponível, então a objetividade também não está disponível. O que sobra para ele? A tangência, a busca, um caminho que vai se construindo no próprio processo – comenta Marcia.

A busca pela imagem física, fotográfica, não é o centro da narrativa, e sim as evocações de uma infância em companhia das irmãs e dos nonnos: a avó, mais pragmática, o avô, uma figura marcante, contador de histórias e, aos olhos do neto, artífice de maravilhas.

– O que é a memória senão impressão? Essa memória de infância mais ainda, porque está misturada com uma sensação da infância que, para quem vive depois de adulto, é só uma sensação perdida. Uma sensação carregada de pureza, de uma ausência de mediação. Agora, o que vivemos é mediado por nossa história, currículo, formação, cultura, família, exigências sociais. Mas, para a criança, tudo é descoberta, tudo se imprime com mais força. E nunca mais será tão forte.

Erico, o solo e o tempo

21 de setembro de 2012 0

Neste sábado publicaremos um caderno Cultura especial para marcar os 50 anos da conclusão de O Tempo e o Vento, a obra máxima de Erico Verissimo, que foi encerrada em 1962 com a publicação do último tomo de O Arquipélago. Aproveitando a oportunidade, republicamos aqui uma "entrevista imaginária" elaborada com o autor.

A história dessa pequena conversa que nunca houve entre este repórter e Erico pode ser remontada ao ano de 2005, quando se completaram 100 anos do nascimento do autor, transformando-o em um dos personagens mais festejados do país. Data daquela época também o começo da republicação integral da sua obra pela Companhia das Letras. O Caderno Donna, hoje editado pela Mariana Kalil, que mantém o blog Por Aí (acesse Por Aqui, hãn, sacaram?) naquela época estava sob o comando de Milena Fischer (ela também tem um blog), e trazia a cada semana uma entrevista na Contracapa – eram feitas a entrevistados diferentes sempre as mesmas perguntas, inspiradas no famoso "questionário de Proust". Aí surgiu a ideia de elaborar, para aquele final de semana em que se completavam os cem anos do escritor (17 de dezembro), respostas possíveis de Erico a perguntas do questionário, que se chamava "Auto-retrato", sem o "r dobrado naqueles tempos pré-acordo ortográfico.

Escolhi respostas de Erico pinçadas de trechos dos dois volumes de Solo de Clarineta. Essa opção foi tomada porque esses dois livros reúnem memórias assinadas por Erico, e portanto eram frase e opiniões dele, e não interpretações delirantes recortadas de seus trabalhos de ficção, onde o autor gostava de ser "imparcial", ou seja, dava aos seus personagens voz e ideias próprias, mesmo quando não concordava com elas. Abaixo, quem fala é o próprio Erico - para esta republicação, busco as respostas na íntegra (em 2005 o material precisou ser cortado):

Mundo Livro – Qual seu maior ídolo na adolescência?
Erico Verissimo
– Uma das maiores descobertas literárias de meus dez ou onze anos foi a dum livro encadernado que encontrei um dia no fundo duma gaveta. Sua capa, com desenhos em negro sobre um fundo vermelho, mostrava à esquerda uma jiboia enroscada numa bananeira, ao pé da qual estava sentado um leão que parecia olhar para um veleiro desarvorado e encalhado numa praia. Num céu escuro subia um balão. No alto da capa li um nome: Júlio Verne. Pouco abaixo, estas palavras: Viagens Maravilhosas. Contra a encosta dum rochedo, o título do romance: a casa a vapor. (...) Passei a ser um admirador fidelíssimo de Júlio Verne.

ML – Onde passou férias inesquecíveis?
Erico
– ...um certo anoitecer de fevereiro de 1959, em Portugal. Tinha acabado de descer do automóvel de meu editor português em Conímbriga, nas proximidades de Coimbra. Íamos ver ruínas romanas. O céu, onde cintilava  a estrela vespertina, e o ar, que o frio hálito da noite embalsamava, pareciam feitos do mesmo translúcido cristal azulado. (...) Mafalda estava a meu lado, seu braço no meu braço.(...) Pensei: “Eis um momento que jamais poderei esquecer...”

ML – Qual a sua lembrança de infância mais remota?
Erico –
Vejo-me ou, melhor, sinto-me deitado num berço, num quarto em penumbra. Sentada numa cadeira a meu lado, minha mãe me aplica uma cataplasma de linhaça que me queima o peito, ao mesmo tempo que um odor acre me entra pelas narinas. Noutra ocasião, as mãos maternas me esfregam as costas com um linimento de cheiro penetrante. Mas há outro momento ainda mais nítido na minha memória. É noite, D. Bega me canta uma canção de ninar, e eu com o indicador e o polegar da mão direita seguro sua aliança, fazendo-a rolar dum lado para outro no dedo dela, como quem dá corda a um relógio. Fazia isso todas as noites para conseguir encontrar a porta do sono. Imagino que nesse tempo eu não teria mais de dois anos de idade.

ML – Qual a palavra mais bonita da língua portuguesa?
Erico
– li (...) um livro sobre Portugal, impresso em papel esponjoso e grosso, com muitas ilustrações em cor, uma das quais mostrava uma árvore com flores vermelhas, tendo por baixo a legenda: olaias em flor. A palavra "olaia" me agradou tanto aos olhos como ao ouvido. Quarenta anos mais tarde, visitando Portugal pela primeira vez numa fria mas luminosa primavera, procurei as olaias como quem procura amigos de infância há muito perdidos.

ML – Que filme você sempre quer rever?
Erico
Os Últimos dias de Pompéia, que vimos com considerável atraso em Cruz Alta, causou-me profunda impressão.

ML – Que livro você mais cita?
Erico
– Eu lia e traduzia Rabindranath Tagore.  Vejo agora aqui a meu lado, tirada do fundo duma gaveta quase esquecida, uma tradução que fiz de passagens do livro Pássaros Extraviados

ML – Que música não sai da sua cabeça?
Erico –
... uma frase musical duma esquisita e inesperada beleza, que me enfeitiçou: a viola desenhava a linha melódica dum andante, cuja melodia me ficou gravada na memória. Que era tocada por um quarteto de cordas, não havia a menor dúvida. também eu estava certo de que não ouvia a voz de Mozart nem a de Beethoven. Brahms, quem sabe?Não. A música me falava francês e não alemão, italiano ou qualquer outra língua. A frase do quarteto me perseguiu obsessivamente durante todo aquele fim de 1930. Parecia descrever musicalmente o meu estado de espírito naquela época de minha vida: doce e preguiçosa melancolia e ao mesmo tempo um hesitante desejo de fuga ou, melhor, de ascensão... Só quatorze anos mais tarde, quando já liberto da ópera — para ser preciso em 1944, em San Francisco da Califórnia — é que vim a saber que a frase mágica era o Andantino Doucement Expressif do Quarteto de Cordas em Sol Menor, de Claude Debussy.

ML – Um hábito de que não abre mão.
Erico –
Nossa casa está sempre de portas abertas. Nunca se sabe quem por elas vai entrar nem quando. Mafalda e eu podemos estar à noite completamente a sós, lendo ou escutando música, e minutos depois termos conosco dez, quinze, vinte pessoas — amigos e às vezes até desconhecidos, que aparecem para uma prosa, sem nenhum motivo relacionado com o calendário ou qualquer convite especial.

ML – Um hábito de que você quer se livrar
Erico –
....eu diria que é uma curiosa combinação de preguiça – física emental – e timidez. Tenho passado avida a combater ambas, muitas vezescom o mais positivo sucesso.

ML – Um elogio inesquecível.
Erico
– Alegra-nos [a ele e a sua mulher,Mafalda] saber que as pessoasgeralmente sentem-se bem em nossa casa.

ML – Em que situação você perde a elegância?
Erico – ...é muito desagradável, além de absurdo, quando um escritor passa a ser tratado mais como um assunto, uma notícia, do que como um ser humano. Reajo com a maior veemência, procurando manter o meu copyright individual e evitando cair em domínio público.

ML – Em que outra profissão consegue se imaginar?
Erico
– ...o pintor e o poeta frustrados que coexistem em mim com o romancista.

ML – Eu sou...
Erico
– Palavra de honra, não sei e acho que tenho medo de saber.