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Posts na categoria "Autores Gaúchos"

Capparelli viaja à Calábria

20 de novembro de 2014 0
Capa de Viagem à Calábria

Capa de Viagem à Calábria

Uma viagem na idade madura se assemelha a um regresso à infância. Ao menos da forma como essa jornada é narrada em Viagem à Calábria (Record), novo romance de Sérgio Capparelli. O livro marca o retorno do escritor à prosa para adultos 20 anos após Gaspar e a Linha Dnieperpetrovski. Nessas duas décadas, o autor se concentrou na literatura para jovens, da qual é um dos principais nomes do Brasil, e à poesia. Além do romance, ele ainda tem outros dois livros a caminho – O Rapaz do Metrô: Poemas para Jovens em 8 Chacinas ou Capítulos (Record) e a coletânea de poesias Os Cavalos de Einstein (L&PM).

Viagem à Calábria acompanha as andanças pela região italiana de um personagem que empresta de Capparelli alguns elementos autobiográficos: a idade, o fato de ter passado a infância em Minas Gerais e mesmo o sobrenome – que tem origem em albaneses que migraram para a Calábria. No livro, o personagem viaja em busca de seu irmão, radicado no país, para retomar um contato interrompido meio século antes e tirar a limpo uma dúvida que corrói o personagem: teria o irmão traído e entregado o pai – um ex-seminarista sonhador perseguido pela ditadura militar?

O livro se estrutura como em um jogo de espelhos, no qual o número dois assume fundamental importância na composição especular da narrativa. O protagonista viaja na companhia do irmão não apenas pela Itália, mas pela memória de sua vida no Brasil. Sob vários pretextos, logo o seu pensamento se desgarra em direção à infância em Uberlândia, no fim dos anos 1950, na qual a dualidade está sempre presente: o bairro em que o menino vive é separado por um córrego de uma aldeia de caboclos que vivem nas ruínas de uma igreja; o garoto divide seu afeto entre a mãe, uma mulher frustrada pelo temperamento pouco prático e sonhador do marido, e Dona Sílvia, uma vizinha aparentemente abandonada pelo marido desaparecido – na verdade, um perseguido político fugindo do truculento delegado local.

Quando o golpe militar se instaura, a duplicidade engolfa também o pai do protagonista, que precisa ele próprio se esconder, caçado pelo delegado local, quase como um duplo do desaparecido marido de Dona Sílvia, a “mãe idealizada” do menino. É o desfecho dramático dessa caçada que coloca no personagem principal a dúvida a ser solucionada meio século depois, na viagem com o irmão. Outra jornada especular, dado que, quanto mais ambos avançam pela Itália, mais vigorosamente a narrativa se concentra na infância de tons fellinianos e agridoces vivida no Brasil.

Três perguntas para Veronica Stigger

17 de novembro de 2014 0
A escritora Veronica Stigger. Foto: Guto Kuerten, Agência RBS

A escritora Veronica Stigger. Foto: Guto Kuerten, Agência RBS

A escritora porto-alegrense Veronica Stigger recebeu, na semana passada, o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria estreante acima de 40anos, por seu romance Opisanie Šwiata. Ela respondeu três perguntas por e-mail. Parte desta entrevista foi publicada, com cortes, no caderno PrOA de Zero Hora deste domingo. Abaixo, segue a versão na íntegra:

Dar a um romance de estreia no Brasil um título em polonês (apesar de todo o sentido que o título assume dentro da narrativa) é, de algum modo, um gesto anticomercial?
Não é a primeira vez que dou um título em outra língua para um trabalho. Meu segundo livro saiu com o título em italiano: Gran Cabaret Demenzial. E tenho vários textos com títulos em línguas estrangeiras: “Argumentum chronologicum”, “Quand avez-vous le plus souffert?”, “L’après-midi de V. S.”, “Des cannibales” – cada um com sua razão própria de ser. Antes de ser um gesto anticomercial, é, para mim, um gesto artístico, um gesto poético. Que poesia e anticomércio, hoje em dia, acabem por coincidir é algo que talvez diga menos sobre meu romance do que sobre nossa sociedade ou nossa “vida cultural”. Com o título Opisanie Šwiata, queria produzir um estranhamento, que colocasse o leitor na posição de estrangeiro, como é a do personagem principal (o título está na língua dele). E não abriria mão deste gesto por um suposto aumento de vendas.

Seu livro dialoga com títulos brasileiros dos anos 1920 e tem até um viajado Bopp como personagem, alusão clara a Raul Bopp, autor do clássico modernista Cobra Norato. Esta aproximação explícita do modernismo é uma tentativa de dialogar com os valores estéticos desse movimento?
Sim. Vejo o Opisanie Šwiata como uma espécie de história poética do modernismo brasileiro, e não só brasileiro – uma homenagem a este período, que venho estudando bastante. Acredito que há uma vontade de experimentação, naquela fase da história artística e literária brasileira, que ainda não foi de todo esgotada. Daí eu ter buscado fazer, como dizem as anotações encontradas por Opalka no caderno de Natanael, “um livro antigo / um livro de viagens / com páginas que se desdobram”, isto é, um livro “moderno”. Às vezes, um desvio pelo passado (e não para o passado), um reencontro com aquilo que ainda permanece vivo no passado, pode ser a melhor maneira de ultrapassar os impasses estéticos do presente, a melhor maneira de seguir adiante. Por exemplo, há um modelo de ficção literária que foi se impondo ao longo dos últimos anos, que é o modelo chancelado e até mesmo promovido pela indústria editorial de língua inglesa. Este modelo, transformado em padrão por algumas editoras hegemônicas e por alguns jornais e revistas a elas associados, arriscou transformar a prosa literária brasileira contemporânea numa espécie de cover da literatura anglo-saxã. O que, convenhamos, é bastante melancólico para uma prosa que já teve um Oswald de Andrade ou uma Clarice Lispector. Todas as experiências que se contraponham, conscientemente ou não, a esse padrão, e à padronização dele resultante, contam com minha simpatia. Felizmente, posso nomear vários autores cujo sucesso (artístico, não comercial) demonstra que o padrão que se tentou e ainda se tenta impor já está em declínio: Nuno Ramos, André Sant’Anna, Marcelo Mirisola, Ricardo Lísias, João Paulo Cuenca, Paloma Vidal, Marcelino Freire, Alberto Martins, Carlos de Brito e Mello, Elvira Vigna, Evandro Affonso Ferreira, Juliano Garcia Pessanha, Vitor Ramil, Juliana Frank. Fico por aqui, mas haveria uns tantos outros nomes a citar.

O livro apresenta um cuidadoso trabalho visual, com imagens e cores que se alternam ao longo das páginas. Também Os Anões tinha um padrão gráfico sofisticado e único que emulava na forma a pequenez do título. Como foi sua participação no processo de edição visual? Você pensa seus livros como objetos artísticos?
Para mim, um livro não se resume ao texto. Costumo pensá-lo como um todo. Quando o estou escrevendo, já vou imaginando a forma que darei a ele, a organização interna dos textos, o tipo de papel, a capa, se terá ilustrações, que ilustrações etc. Por conta disso, quando entrego os originais na editora, sento-me com a equipe de design gráfico e explico toda a concepção do livro em seus mínimos detalhes. Em Opisanie Šwiata, por exemplo, há várias linhas narrativas: em primeira pessoa, em terceira pessoa, cartas, trechos de um guia de viagem, notícias, anúncios. E eu queria que cada uma dessas linhas tivesse uma diferenciação gráfica discreta, evitando recorrer ao itálico ou à mudança muito marcada de tipo de letra. Por isso, as páginas são coloridas. Além disso, imaginei a abertura do livro como a abertura de um filme, em que há uma espécie de prólogo antes dos créditos iniciais. Daí, o livro se abrir com as cartas e só depois disso apresentar seu título e minha assinatura, a dedicatória, as epígrafes.

Marcelo Almeida autografa "Thriller Andino"

13 de maio de 2014 0

thriller_andino

Marcelo Almeida autografa nesta terça-feira, às 19h30min, na Palavraria, o livro Thriller Andino (Buqui, 88 páginas, R$ 27). Esta é a estreia do autor de 27 anos no mercado editorial. Formado em Letras, Almeida é tradutor de livros e já cursou diferentes oficinas literárias.

Neste curto romance repleto de ação, um mineiro que descobriu um veio de ouro tenta fugir de um grupo de perseguidores no deserto do Atacama.

Afetos e insetos de Monique Revillion

03 de novembro de 2013 0
Monique Revillion em sua casa em Porto Alegre. Foto: Emílio Pedroso, ZH

Monique Revillion em sua casa em Porto Alegre. Foto: Emílio Pedroso, ZH

Monique Revillion fez uma estreia de luxo na literatura em 2006, com o elogiado volume de contos Teresa, que Esperava as Uvas. Na época, em entrevista a Zero Hora, a autora comentou que demorava muito para escrever, apegada ao cuidado da palavra. Talvez isso explique os sete anos que separaram a estreia do segundo livro, O Deus dos Insetos (Dublinense, 96 páginas, R$ 32), que ela autografa nesta segunda-feira, às 20h, na Praça de Autógrafos da Feira do Livro.

O novo título mostra Monique trilhando com mais afinco as veredas que abriu com seu primeiro livro, em especial no uso de uma linguagem sólida, poética, flagrando momentos definidores na vida de um personagem – a ação nas 11 histórias é muito mais interna, situada no universo de sensações dos personagens. Assim como já havia feito em seu livro de estreia, Monique sustenta o conjunto das narrativas de O Deus dos Insetos em dois eixos: epifanias íntimas de clara inspiração clariceana, por um lado, unida, por outro (embora nem sempre) a um olhar compassivo mas implacável sobre aqueles que se chamaria de “desvalidos”.

É justamente dessa segunda linha de força que saem os melhores textos do livro, talvez pela contenção demonstrada pela autora no manejo da linguagem – nos contos epifânicos, ela voa mais, com mais resultados sublimes e mais vales de afetação. Já no primeiro livro, alguns dos melhores textos vinham justamente dessa segunda vertente, como o angustiante Presente. Neste O Deus dos Insetos, o fenômeno se repete, e as gemas da obra estão nas histórias que dedicam um olhar atento para as armadilhas em que se veem presos os que já têm muito pouco.

É esse o caso do belo e imensamente triste Atravessar Oceanos, no qual um menino pobre vê, em uma peneira de futebol, a chance de ter condições de ir atrás do pai desconhecido que inventou para si mesmo. Em Jônatas, outro menino pobre, também marcado pela paternidade ausente, se vê praticamente compelido a inventar um pai para não se sentir diminuído diante de um garoto classe média que encontra no outro lado de uma grade. Nem sempre, contudo, a atmosfera imprecisa buscada pela autora funciona a contento, como em Memorial, no qual o final impactante se dilui pela concatenação algo confusa dos eventos – um risco da linguagem escolhida pela autora. Mas é sempre um elogio identificar um autor que se propõe a correr riscos.

insetos

 

Uma incursão pelos cabarés

14 de setembro de 2013 0

vidadificil

Texto de Klécio Santos

O cenário é Jaguarão, à época em que a fronteiriça cidade vivia a epopeia da construção da ponte internacional Mauá, inaugurada em 1930. O agito durante o dia, de marinheiros e operários, contrasta com a noite, quando a cena é dominada pelas prostitutas e a cidade submerge até o amanhecer em um silêncio cúmplice dos segredos de alcova. É nesse passado boêmio que o escritor, tradutor e professor Aldyr Garcia Schlee mergulhou para escrever Contos da Vida Difícil (Editora ARdoTEmpo, 184 páginas, R$ 35), seu mais recente livro, lançado na centenária Bibliotheca Pública Pelotense.

A cidade era rota do tráfico de mulheres provenientes de Montevidéu e Buenos Aires. Uma escala enquanto aguardavam o embarque para o Rio de Janeiro por meio do porto de Rio Grande. É pelos cabarés de luxo que fizeram a fama das cidades siamesas que os personagens de Schlee transitam. Ou mesmo pelos pardieiros – chamados de “peixe” – na orla da praia, junto à curva do rio Jaguarão. As histórias estão interligadas por certa dose de melancolia, impedindo a separação entre um conto e outro. Schlee muitas vezes recorre,com um exagero proposital, à repetição de trechos como forma de prender o leitor aos detalhes e à nostalgia daqueles tempos em que a prostituição era assunto proibido. Histórias que o perseguiam desde a infância e o começo da adolescência, como a do tio que largou tudo e se enfiou no chinaredo de uma cafetina uruguaia para viver com a louca Ignez. Sobre a cama, palco do tórrido romance, a faixa carnavalesca com os dizeres: “Viva eu, viva ela, viva o rabo da cadela”. Em outros momentos, Schlee recorre a personagens de antigos contos como Artigas Guinchón, que aparece em Linha Divisória, também ambientado na fronteira.

Em Contos da Vida Difícil, famosos proxenetas, mafiosos e cafetinas ganham nome e sobrenome graças à tese da historiadora Yvette Trochon: Las Rutas de Eros – La Trata de Blancas en el Atlántico Sur. Argentina, Brasil y Uruguay (1880 – 1932). A obra, impressa em Montevidéu (Taurus, 2006), serviu para Schlee enriquecer o imaginário em torno daquelas mulheres polacas com rosto de bonecas de louça, frequentadoras do cabaré do Tomazinho. O lugar é o palacete com sacadas para a rua, porta em relevo e platibanda ornada que hoje é sede do Clube Instrução e Recreio, no centro de Jaguarão.

Mas não há glamourização do tema. Pelo contrário. As misérias da chamada vida fácil estão latentes em contos como R.S., em que a decadente Sara vive sozinha, velha e embriagada, agarrada em uma garrafa de licor de anis Carabanchel, cultivando apenas a lembrança do seu grande amor, Ruby, adolescente americana que, como ela, trabalhava como corista pelos cabarés do Brooklyn. Um tempo, como diz o autor, em que a “clandestinidade do gim libertava a paixão de mulheres por mulheres”. Ruby se tornou uma estrela de Hollywood, uma imagem que Sara só podia ver na tela quando cruzava a ponte Barão de Mauá para ir ao Cine Rio Branco. Schlee não diz de forma explícita, mas, ao listar filmes como Noites da Broadway e Mulher Sem Algemas, revela que a atriz é Barbara Stanwyck, nascida Ruby Stevens.

O livro é um convite para penetrar no universo dessas mulheres. Há desde a traída pelo marido que resolve se prostituir no famoso Mangacha, em Rio Grande, até a atriz decadente, uma misteriosa ruiva que se apresentou no Teatro Esperança, interpretando um tango sofrível e que, nas horas vagas, era oferecida para uma sessão de sexo privê. Enfim, um retrato fiel de um tempo que o autor testemunhou, mesmo que com a inocência do guri que comia cascudo e um dia tropeçara nas pernas de uma diva. Ao final, Schlee engata em sequência três contos em homenagem à musica, ao teatro e ao cinema, com personagens como Violeta, que soam como pastiche de alguma marafona gorda da Broadway citada em Longa Jornada Noite Adentro,de Eugene O’Neill, ou como remissões de um filme de Pietro Germi, Seducida y Abandonada, que o autor aproveita para discutir o tabu da virgindade. Prestes a completar 79 anos, em novembro, Schlee vem produzindo em um ritmo frenético desde o romance épico Dom Frutos (2010), história do caudilho uruguaio José Fructuoso Rivera (1784 – 1854) narrada em mais de 500 páginas. Lançou, em 2009, Os Limites do Impossível, a partir da ideia estarrecedora de que o nascimento de Carlos Gardel ocorreu em Tacuarembó, no Uruguai, fruto de incesto e estupro. Neste ano, teve reeditada a coletânea de contos O Dia em que o Papa foi a Melo.

Atualmente, Schlee divide seu tempo ora com palestras sobre a obra de Simões Lopes Neto, ora se divertindo ao comparar várias versões – até o original latino – de A Arte de Amar, do poeta romano Ovídio. Já estão a caminho dois outros livros, um deles, Contos com Espelhos, um ambicioso diálogo com a ficção de Jorge Luis Borges, a partir de uma referência da passagem do famoso escritor por Jaguarão. Desde a publicação de Dom Frutos, contudo, se diz mais seguro,  com os personagens sob sua rédea, ou melhor, controle, uma luta que encara com prazer em seu sítio no Capão do Leão, nos arredores de Pelotas, diante de uma imensa maquete de zinco da ponte Mauá, presente que ganhou aos 10 anos.

O que é um "autor gaúcho"?

13 de setembro de 2013 0

1 – Trabalho em um jornal que dá alguma importância ao lugar em que o personagem nasce. É uma derivação natural da linha de perspectiva local adotada pelo veículo, mas isso, lá de vez em quando, como qualquer sistema de categorização, cria alguns problemas de nomenclatura. Quando saem os finalistas indicados por um prêmio, como o recente Portugal Telecom, por exemplo, destacamos nas páginas da Zero Hora os “autores gaúchos” – que é também uma das categorias deste blog ali na barra de cima, e que só são tão poucas porque eu simplesmente me esqueci como é que eu mexo naquilo para ampliá-las.

2 – Só que essas categorizações são difíceis, e nunca 100% eficientes – o que significa exatamente chamar alguém de “autor gaúcho”? É um autor nascido no Rio Grande do Sul ou que desenvolveu seu trabalho por aqui? Até que ponto uma informação como essa é precisa? Peguemos, primeiramente, alguns exemplos que transcendem essa questão e que são relacionados a artistas de outras paragens que também despertam esse tipo de dúvida. Italo Calvino nasceu em Santiago de Las Vegas, em Cuba. Por pura circunstância. A maior parte de sua vida foi vivida na Itália. Ele escrevia em italiano. Ele era um escritor italiano, falar qualquer outra coisa além disso é bobagem. Mas sempre deve haver espaço, claro, para incluir aí o que chamo de “fator espertinho”. O fator espertinho designa uma reação precipitada de um leitor querendo provar uma coisa que, no fundo é verdade: que o jornalista não sabe nada.

3 – Me explico: jornalistas não sabem nada. Não conhecem a maioria das coisas sobre a Terra, eles apenas sabem, e nem todos, procurar pelas informações de modo mais rápido e eficiente que a maioria. Logo, o jornalista é sim, um ignorante na maioria das coisas, até porque o primeiro ato de um jornalista deve ser não saber, para então tentar obter o conhecimento que não sabe para que possa depois levá-lo a seu público. Só que isso não significa, em todos os casos e para todo o sempre, que todos os jornalistas sejam rematados imbecis. Mas há o leitor espertinho que, ciente da primeira premissa, toma a segunda como verdadeira, e sempre caça algo que para ele é erro. Às vezes é mesmo. Às vezes não.

4 – Em um show do Milton Nascimento que fui cobrir há muitos anos, encontrei uma ex-colega de trabalho, uma fotógrafa, e a primeira coisa que ela me disse, antes mesmo de cumprimentar, foi: “Bá, que mancada, hein? Matéria de hoje dizia que o Milton Nascimento é carioca”. Só que, e aí entra essa nuança problemática da qual falávamos: dizer que o Milton Nascimento é carioca não está errado, uma vez que ele de fato nasceu no Rio de Janeiro. Talvez estivesse se disséssemos que ele é um “artista carioca”, uma vez que ele integrou uma das grandes gerações da música mineira, incluindo seus parceiros do clube da esquina Márcio e Lô Borges.

5 – Passando finalmente para o assunto que abriu a conversa, a literatura. Donaldo Schüler, há anos residente e atuante no Estado, é nascido em Santa Catarina. Celso Sisto, vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura 2011, é carioca de nascimento – como Milton –, mas vive no Estado e aqui desenvolveu sua carreira nos últimos anos. Na atual geração dos contemporâneos “autores gaúchos”, há alguns que representam desafio semelhante a uma definição geográfica concreta. Os daniéis, por exemplo, Galera e Pellizzari. Galera nasceu em São Paulo, morou um bom tempo em Porto Alegre, passou por São Paulo, Santa Catarina e andava por aí por Porto Alegre esses dias (mas já pode ter mudado de novo, vai saber). Pellizzari nasceu em Manaus, mas também morou um bom tempo em Porto Alegre – hoje vive em São Paulo. O que talvez ajude a defini-los dessa forma é que estrearam por aqui. Fizeram parte da formação do CardosOnline quando se conheceram em uma faculdade local, fundaram a Livros do Mal aqui… É isso o que os torna, para fins de nominação no jornal, “autores gaúchos”  - e, claro, esse é o tipo de detalhe que não tem relevância nenhuma, mas eu andava querendo retomar os textos neste blogue.

O diabo na rua, no meio do labirinto

22 de julho de 2013 0

O escritor Daniel Pellizzari. Foto de Renato Parada, divulgação

Daniel Pellizzari publicou recentemente seu romance Digam a Satã que o Recado foi Entendido (Companhia das Letras, 180 páginas, R$ 37), resultado do projeto Amores Expressos. Com o lançamento, o escritor interrompe um silêncio literário que se prolongava desde 2005, com Dedo Negro com Unha (embora, nesse meio tempo, não tenha parado, efetivamente, e sim trabalhado em um projeto de quadrinhos ainda inédito com Rafael Grampá e em um bom número de traduções – a mais recente delas a ganhar edição é a coletânea de ensaios Pulphead, de John Jeremiah Sullivan, vertida para o português por Pellizzari e por Chico Mattoso, autor de outro romance do Amores Expressos, Nunca Vai Embora).

Pellizzari foi enviado a Dublin para uma temporada de um mês em 2007, da qual deveria voltar com o único compromisso de escrever um romance ambientado no local. Quem vem acompanhando o trabalho do escritor desde seus primeiros trabalhos (como os contos de Ovelhas que Voam se Perdem no Céu ou O Livro das Coisas que Acontecem) achou a escolha muito natural (só Moscou pareceria mais apropriado, mas isso talvez resultasse em uma mera repetição do que o autor já havia feito em Dedo Negro com Unha, que tem um terço de sua narrativa ocupado por um pastiche de romance russo). O próprio Pellizzari pensava assim, como relata neste texto postado no blog da Companhia das Letras. Desde cedo havia se interessado pelo folclore, pela cultura, pela história da cidade e pensava que voltaria de lá com o romance praticamente pronto. Na prática não foi bem assim. Embora tivesse já personagens delineados em sua cabeça, Pellizzari precisou de algumas sessões de tentativa e erro para dar forma ao romance que desejava – ou, ao menos, ao romance que desejava assinar.

Digam A Satã que o Resultado foi Entendido continua sendo um livro de Daniel Pellizzari, uma vez que rejeita a forma linear de narrativa e se espraia pela psique de um mosaico de personagens e episódios entre o cômico e o delirante, mas o próprio escritor comenta que sua ênfase desta vez era outra, mais centrada nas angústias e reviravoltas internas de seus personagens (o livro dispensa a voz narrativa em terceira pessoa, cheia de truques, de Dedo Negro com Unha, e entrega a condução da trama aos personagens, em primeira pessoa – com exceção de uma sequência hilária de diálogo durante uma tentativa de roubo). Em Dublin, Magnus Factor, um imigrante sem pouso fixo, resolve ficar atraído pelo que considera “o milk shake perfeito” e pela relação que estabelece com uma linda garçonete eslovena. Monta, então, uma firma que elabora roteiros turísticos falsos explorando fantasiosas histórias de assombração da cidade – há roteiros assim de verdade em Dublin, mas a versão dos personagens difere por só realizar suas excursões durante o dia e não aceitar clientes locais, uma providência necessária, já que eles inventam todas as histórias que apresentam a seus fregueses.

Em volta de Magnus giram seus parceiros de pilantragem Zbigniew e Barry, também narradores, além de Laura, jovem com quem Factor se envolve após ser abandonado por sua garçonete eslovena e que o apresenta a um grupo anarquista chamado Trevo Negro. Na outra ponta do romance (metaforicamente falando, já que as histórias se intercalam mais do que se opõem), está Patrícia, adolescente que fantasia com a própria morte no alto de uma montanha, mas, a caminho de sua morte sonhada, cruza com uma seita de místicos interessados em fazer um sacrifício de sangue para despertar um antigo deus serpente. Em volta de Patrícia, outro centro gravitacional do romance, orbitam Demetrius Vindaloo, o líder do grupo, e Siobhan, uma de suas mais fervorosas adeptas.

O mosaico de trajetórias que se cruzam na Dublin imaginada por Pellizzari amarra suas pontas (talvez até demais) ao fim – e por isso mais não se falará da trama. Conversei com Pellizzari via chat para elaborar a matéria que saiu no Segundo Caderno sobre o livro (leia aqui). Posto aqui a íntegra da entrevista (preservei o tom informal das perguntas e respostas, embora tenha editado uma que outra coisa em benefício da clareza do raciocínio):

Zero Hora – Primeiramente, eu já havia começado a ler o livro quando publicaram o teu texto lá no blogue da Companhia. E estava justamente vendo o livro como o menos “hermético” na tua produção. E ali naquele texto tu comenta que queria dialogar com pessoas, não mais só com a literatura, o que pareceu confirmar essa impressão. O que levou a essa mudança de abordagem?
Daniel Pellizzari
– Eu poderia ficar elucubrando um bom tempo sobre isso, mas acho que no fundo foi mesmo isso: uma vontade de estar mais próximo do leitor, de transmitir e formar alguma conexão emocional. E ao mesmo tempo uma necessidade súbita de explorar personagens (ou seja, pessoas). Comecei a me dar conta de que era isso que eu gostava em boa parte dos meus livros prediletos, mas que por algum motivo (medo, imaturidade, empáfia juvenil) eu tinha evitado nos meus livros anteriores.

ZH – O uso da literatura, das referências, da estrutura intrincada, das citações de modelos e reapoveitamento dos gêneros antes talvez fosse, por essa perspectiva, uma forma de defesa, então? Não que tu não esteja fazendo isso aqui neste livro, mas, como tu disse, o foco agora são os personagens.
Pellizzari
– Acho que eu não tinha encontrado ainda uma forma de falar de uma forma mais direta sobre o que é estar vivo (e que talvez fosse um reflexo de ainda não ter encontrado uma forma mais direta de viver). Então era o que eu conseguia fazer na época, tinha outras preocupações na vida e na literatura. Não renego o Dedo Negro com Unha, não é isso, gosto bastante dele. Mas é um livro escrito por outra pessoa, alguém de certo modo mais fechado em si. Eu mudei e minha literatura mudou (ainda que isso tenha precisado de um bom tempo de ajuste, nos dois casos).

ZH – Me parece que um dos “grandes temas” deste teu romance é a invenção das tradições, e a tradição como invenção. E como, nos dois casos, uma coisa e outra parecem disfarçar um fundo de violência e até mesmo absurdo. A certa altura, a personagem Patrícia reflete sobre algo parecido, e Magnus e seu grupo de picaretas inventam e improvisam as histórias “fantásticas” de Dublin para turistas. O próprio Magnus comenta como a espontânea ilegalidade de um bando de moleques parece repetir tradições muito antigas da cidade. Tu concorda com essa avaliação?
Pellizzari
– Sim. (Obrigado por perceber). A invenção (de tradições, de crenças, acima de tudo de identidades, que engloba tudo isso) e o ímpeto que leva a ela, por conta de um senso entranhado de inadequação, de que existe algo faltando. E que talvez exista um modo de o indivíduo ter, de fato, alguma agência nesse processo. Aí se colocam os dois polos opostos, que são o Magnus (que é um sujeito passivo, mas que começa o livro tomando uma decisão) e a Patricia (que no início do romance está desistindo de viver, mas que vai se mostrando alguém muito ativo, disposta a tomar as rédeas e criar as regras da própria vida).

ZH – É interessante tu teres mencionado essa questão do senso de inadequação, porque uma das formas de tu tocar nisso é construir um romance que, para além dessa oposição que assinalaste, parece brincar muito e até satirizar às vezes o impulso gregário. Há uma série de grupos e pequenas “comunidades” no livro (a seita do deus serpente, o Trevo Negro, a “empresa” de Magnus e Barry). Ao discutir o lugar do indivíduo tu satirizas o grupo?
Pellizzari
– De certo modo eu quis mostrar o quanto um grupo, por mais homogêneo que pareça de fora, e por mais que exista um discurso unificador, é formado por pessoas muito diversas – mesmo aquelas que mais tentam se adequar ao grupo, aceitar as regras. E que as percepções que as pessoas de um grupo têm sobre as outras são sempre incompletas e muitas vezes totalmente equivocadas. No fim das contas todo mundo está sozinho. Não é possível viver sozinho, não é possível realmente se encaixar num grupo, o que é possível, então? Algo por aí.

ZH – Foi essa mudança de vida e de literatura a responsável pelo tempo decorrido entre a viagem e o livro? Tu estavas aprendendo que novo escritor tu era?
Pellizzari –
Sim, é o que comentei no texto do blog da Companhia. Precisei de um tempo para me reajustar, tanto na vida quanto como escritor. Depois de um período ficou claro o tipo de livro que eu queria escrever, mas ao mesmo tempo descobri que eu não sabia como fazer isso. Tinha a técnica, mas não sabia ao certo como colocar a danada a serviço do romance. Aí se seguiu uma história acidentada de crises e reavaliações e tentativas em falso, até as coisas se encaixarem e tudo dar mais certo do que eu imaginava. Assim como os personagens, eu também passei por esse processo de reavaliação e criação de uma identidade, no caso, a de escritor. Que tipo de escritor eu não queria mais ser, o escritor que eu preferia me tornar, como fazer isso, até onde isso seria possível. Desisti de tudo dezenas de vezes ao longo desse tempo, o que não foi muito fácil.

ZH – Não deixa de ser simbólico que isso ocorra em um romance sobre a Irlanda, também, em que questões de identidade também fazem parte da, digamos, “imagem pública” do país.
Pellizzari –
É, eu brinquei um pouco com essas questões de identidade irlandesa com a história dos sequestros de símbolos nacionais.Que englobam tanto símbolos de fato, como a harpa e o livro de Kells, quanto coisas mais aleatórias e/ou turísticas, como as múmias da St. Michans ou a estátua do Oscar Wilde.

ZH – Sim, embora tu estejas lidando com as questões de identidade, tu sempre trata no livro as identidades mais “estabelecidas” com humor e sarcasmo. Os monólogos nacionalistas e chauvinistas em mais de um sentido de Barry, o roubo dos objetos que representam essa nacionalidade, e como eles são realizados por um grupo que é descrito de modo meio mambembe. É como se o romance sinalizasse que, embora lide com questões de identidade, não vê no nacionalismo ou em sectarismos semelhantes a solução para elas.
Pellizzari
– Tradições são resultados de longos processos históricos, mas ao mesmo tempo esses processos são detonados e levados adiante por indivíduos tão confusos quanto quaisquer outros. Então, no fundo, dá no mesmo: uma tradição é uma idiossincrasia socialmente aceita que teve tempo para se estabelecer. Quanto à ideia de nação/nacionalidade, acho que aí transparece um pouco minha opinião pessoal de anarquista, que é: acho uma bobagem sem tamanho.

ZH – Não tenho conhecimento de misticismo o bastante, então posso estar interpretando errado, mas quando o foco narrativo é o Demetrius, ele começa a recitar os fundamentos de seu credo, que devem estar de algum modo baseados em conhecimento esotérico real. Mas o tom da narrativa me parecia cômico, patético, como se Demetrius fosse um Ignatius Reilly do misticismo, com aquela crença levada ao paroxismo e tornada, portanto, ridícula. Essa é a ligação entre o escritor de antes e o de agora? Não o místico, mas o humorístico?
Pellizzari
– Claro, no livro isso é levado às últimas consequências porque o Demetrius é esquizofrênico, mas de certo modo ele e a Siobhan são uma colagem de pessoas que conheci no meio esotérico/ocultista – as pessoas mais frágeis e mais doentes, sim, mas não por isso menos reais. Mas quanto ao humor: eu gosto bastante de humor em literatura, e acho lamentável que se considere uma forma inferior de expressão. Até porque o trágico pode ser comunicado de forma muito eficaz através do humor, o próprio Ignatius é um exemplo (e espero que meus personagens também). Mas – e aí é o meu ponto de vista, claro, que não tem como ser exato – acho que meu humor tem sempre um pouco de melancolia. Tem muito de humor negro e também do que chamam de gallows humor em inglês, o humor do condenado em frente ao patíbulo. Gosto de trabalhar o humor como forma de lidar com situações extremas, com desesperança – boa parte dos deprimidos crônicos desenvolvem um senso de humor aguçado.

ZH – Tu usa também a doença com elemento no livro: Demetrius é esquizofrênico, Zbigniew também sofre ataques de um distúrbio psicológico. A doença é também um componente da identidade. Ou tudo isso foi uma tentativa de dificultar ainda mais as cartas, uma vez que estavas lidando com personagens em busca de uma identidade e o elemento da doença tornava o desafio mais alto porque havia condições que tornavam para eles essa tarefa mais complicada?
Pellizzari –
Foi uma tentativa de tentar entender (e comunicar) o que é “doença”, creio. Porque apesar de alguns sintomas serem inequívocos e de causarem sofrimento real e prejuízo à vida de quem tem que viver com eles, até que ponto alguém “doente” é tão diferente assim, em termos fundamentais, de alguém mais “ajustado”? O que define os limites entre uma coisa e outra? É possível decidir o que fazer com isso, viver normalmente, ter uma existência satisfatória? Se sim, como? Se não, o que fazer?

ZH – Tais questões de identidade parecem estar também no fato de que é um dos poucos livros dessa série que não é protagonizado pelo “olhar brasileiro sobre a paisagem”, embora muitos dos personagens sejam estrangeiros em Dublin. É outra camada da tua tentativa de encontrar a humanidade dos personagens, independente das circunstâncias externas?
Pellizzari
– Todo mundo é estrangeiro em qualquer lugar. Pelo menos os meus personagens, e eu também me sinto assim no mundo, logo é a experiência que consigo (ou tento) comunicar e que busco compreender.

Memórias baguais do cárcere

07 de junho de 2013 0

Marcelo Backes. Foto: Bel Pedrosa, Divulgação

Futebol e a construção de uma identidade fraturada entre o isolamento e a amplitude são os temas centrais de O Último Minuto (Cia. das Letras, 224 páginas, R$ 38,50), memórias do cárcere de um grosso missioneiro, terceiro romance de Marcelo Backes.

O Último Minuto é um romance que se vale do recurso de uma voz narrativa emitida do cárcere. Outros livros já utilizaram esse tipo de artifício para criar um tipo de estrutura ideal da enunciação narrativa. O encarcerado tem à sua frente uma sucessão de dias iguais sem mudanças significativas no horizonte, não se move, não se desloca, então todo seu esforço enquanto narrador está condensado na tentativa de compreensão da situação que o levou até a cadeia. Contar também é uma forma de fazer as horas escorrerem. O prisioneiro, na literatura, é uma voz lançada sempre ao passado para tentar tornar menos intenso o fardo do presente, seja pela sublimação do tempo seja pela compreensão e reconfiguração da discrepância entre ele e o regime que o encarcerou.

Como o herói encarcerado é também um “homem revoltado”, muitas vezes os livros que o tornam protagonista são contundentes denúncias de regimes opressores, como o magnífico O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler. Se denúncia há no romance de Backes, ao qual não falta raiva em sua superfície, é uma denúncia ao isolamento da província e às ilusões sem base da grande cidade. O prisioneiro criado por Backes é Yannick Nasyniack, apelidado de João, o Vermelho, descendente de alemães e russos e natural da comunidade de Linha Anharetã, no interior missioneiro – a mesma localidade fictícia da qual partem (e às vezes para a qual retornam) os personagens de Backes desde Estilhaços (2006). Trancafiado em um presídio no Rio devido a um crime que se delonga em revelar, Yannick, conversando com um jovem missionário católico, revisita sua vida na pequena Anharetã. O lugar é retratado nas memórias do prisioneiro como um rude enclave no qual a dureza inerente do campo engendra uma vida em que, apesar da aparente solidez da ética silenciosa do trabalho, a violência é vista com naturalidade.

Como já fizera nos romances anteriores, maisquememória e Três Traidores e uns Outros, Backes trabalha com o choque nada ameno entre os mundos do cosmopolitismo e da rústica ética agrária do trabalho. Fascinado com a possibilidade de viver na Europa, Yannick não hesita em abandonar mulher e filho e migrar para a Suíça como trabalhador braçal. Por lá, sua nacionalidade brasileira e sua experiência breve como ex-jogador de várzea abrem portas para que se torne técnico de futebol – profissão com a qual retorna ao Brasil.

É na voz de Yannick que reside o centro da narrativa e o principal desafio apresentado ao leitor por Backes. Embora filtrada pelo missionário, que se deixa contaminar por ela a todo momento, a voz de Yannick é a de um homem inteligente escondido atrás de uma armadura de rudeza tão afetada e desagradável como verdadeira. Menos interessado na trajetória de Yannick do que em sua visão de mundo, o romance se espraia com gosto pelas digressões do personagem, pontuadas por ditos populares e tiradas do futebol como metáfora. Aqui reside um dos desafios: uma das explicações para uma suposta ausência do futebol na literatura é sua onipresença no discurso cotidiano. De poucos assuntos se escreve tanto no Brasil, e muitas das diatribes e invectivas de Yannick não se elevam acima do uso desgastado de sempre de expressões recorrentes da crônica esportiva. Bem como suas manifestações a respeito de seus conterrâneos, da mulher, do filho, dos jogadores que treinou ou treina e mesmo a respeito do missionário com quem está interagindo são discursos de um conservadorismo exagerado ao limite da sátira. A linha demarcatória, no entanto, é sutil.

Só a partir da segunda metade do livro vê-se o homem contraditório que é Yannick, dotado de insuspeitada humanidade e mais disposto ao diálogo com o jovem religioso que termina por se tornar já no fim uma voz em contraponto. Nesse processo de aproximação entre o missioneiro e o missionário, fica claro que o centro do romance é, na< verdade,a relação conflituosa que Yannick tem com o filho que abandonou e jamais recuperará. E se o futebol fracassa em providenciar essa aproximação redentora com o filho (perna de pau que o pai insiste em tentar manter na titularidade do time que treina), será a ponte entre os dois interlocutores que conduzem o narrado – o missionário só começa a ser aceito pelo condenado quando aparece vestindo a camiseta vermelha do time para o qual Yannick torce.

As heranças precárias de Sidnei Schneider

27 de maio de 2013 0

Com uma carreira consolidada como poeta e tradutor, o porto-alegrense Sidnei Schneider lançou, no fim do ano passado, sua estreia na prosa literária, Andorinhas e Outros Enganos, coletânea que reúne 12 contos. O livro mescla trabalhos inéditos com contos já publicados.

Composto por narrativas já editadas em antologias e jornais e abrangendo a produção contística de Schneider desde os anos 1990, o livro não tem uma unidade de tema, e sim três seções com diferenças de estilo e tratamento bem demarcadas. Na primeira, duas histórias sobre mulheres e sexualidade. Destaque para Marie, a dos Gansos, conto no qual uma jovem cega descobre que sua falta de visão pode ter a ver com a precariedade de seu conhecimento sobre a experiência do desejo.

A segunda parte, mais extensa, traz seis contos com um olhar mais masculino, centrado em elementos da própria tradição literária como mote – em mais de um deles, a escrita de um livro está no centro da trama ou o personagem é um escritor. O que pode explicar os ecos – às vezes incômodos – de outros autores como Rubem Fonseca, Charles Bukowski e John Fante em algumas das narrativas, sobre experiências do artista na selva urbana. São também as histórias mais carregadas de humor negro e sarcasmo.

Na terceira seção, situam-se as gemas do conjunto. Quatro histórias que parecem costurar o lirismo da primeira parte com o olhar aguçado da segunda, além de apresentarem finais desconcertantes, de inspiração mítica. Que se Danem as Pombas faz de uma caçada a introdução de um garoto no universo adulto – consequentemente, no reino da morte. Uns Pezinhos é não a comédia, mas a tragédia de um erro. Proposta de Casamento troca o urbano pelo rural com um conto de violência e cobiça em campos do interior do Rio Grande. E Pratos é uma delicada reconstrução da jornada de uma família de origem alemã mudando-se das colônias germânicas do Estado para a Capital. Um serviço de pratos de louça passa de geração a geração como signo da herança precária dos migrantes.

O que você está lendo, Fernando Ramos?

20 de março de 2013 0

Fernando Ramos, organizador da Festipoa Literária. Foto: Mauro Vieira, ZH

Aqui estamos de novo, fazendo de tudo para não perder o pique e dar continuidade à série O Que Você Está Lendo?, que pergunta a escritores, professores, intelectuais e críticos que leitura estão curtindo e gostariam de partilhar conosco, fomos questionar Fernando Ramos, editor do jornal literário Vaia, publicação que existe há 12 anos. Fernando é também idealizador e organizador da Festa Literária de Porto Alegre, a FestiPoa (www.festipoaliteraria.blogspot.com), um dos eventos mais bacanas dedicados à cultura no primeiro semestre, na Capital. Não esqueça, a série vai ao ar às quartas-feiras

Então, Fernando Ramos, o que você anda lendo?

Estou relendo o segundo livro da Angélica Freitas, Um útero é do tamanho de um punho. A poesia da Angélica me agrada muito, seus poemas são do tipo que surgem da inquietação e perplexidade diante da condição humana. Dessa inquietação, naturalmente, brotam perguntas (“Quem manda, de fato, no corpo da mulher?”) que renderam os 35 poemas reunidos nesse livro que chega para abalar algumas falsas noções de gênero e comportamentos atuais.
A poesia é sempre uma aventura, uma experiência estética marcante, não se presta para teses ou discursos. Angélica sabe disso, consegue fazer do poema essa experiência e transmitir esse acontecimento ao leitor.
Para Angélica, o poema é uma espécie de arma, ou punho fechado a golpear com sarcasmo desestabilizador (
num útero cabem capelas/ cabem bancos hóstias crucifixos/ cabem padres de pau murcho/ cabem freiras de seios quietos/ cabem as senhoras católicas/ que não usam contraceptivos); com ironia afiadíssima (uma pessoa já coube num útero/ não cabe num punho/ quero dizer, cabe/ se a mão estiver aberta/ o que não implica gênero/ degeneração ou generosidade); e com auto-ironia, portanto sem se excluir do embate (não diz coisa com/ coisa nem escreve nada/ que preste/ não alivia as massas/ nem seduz as cobras/ se reduz a isso/ a palhaça/ toca fagote/ com a boca cheia/ de colgate).
Um útero é do tamanho de um punho é leitura divertida, capaz de provocar boas gargalhadas, embora os poemas sejam mais ásperos e densos que os de Rilke Shake, seu livro anterior. Há muita musicalidade, leveza e fluência nos versos, como se a linguagem ganhasse uma linha melódica aliciadora e fosse envolvendo nossa sensibilidade de leitor numa espécie de canção.
Embora correndo risco de deslizar para uma poesia discursiva e de protesto ao abordar as temáticas de gênero e identidade com tamanha virulência, o sarcasmo, o nonsense e, sobretudo, a força estética e o humor dos poemas fizeram com que os disparos fossem no alvo. Poesia direta e límpida. Angélica é poeta das maiores.