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Posts na categoria "Bairrismo? Conta Outra"

Bairrismo? Conta Outra - Ricardo Silveira

16 de junho de 2012 0

A Série Bairrismo? Conta Outra foi criada para veicular a cada 15 dias críticas detalhadas sobre a extensa produção contística de autores gaúchos ou no Rio Grande do Sul radicados. A ideia é pegar livros que tenham sido lançados num período de até 12 meses antes, que não tenham sido alvo de resenha anterior (ao menos neste blog) e oferecer uma leitura crítica minuciosa até onde for possível dessas obras. Como já comentamos antes, a sistemática obedece a dois postulados básicos:

Sem (muito) spoiler
Nestes textos, tento não entregar muito da trama, mas as histórias, obviamente, serão comentadas para além do mero resumo. Quem achar que até isto afetará seu prazer de leitura, pare agora.

Eu não peço desculpas…
Ninguém precisa entrar no blog retrucando que algo comentado nestas resenhas é só uma opinião minha. Não vou ficar toda hora usando fórmulas que amenizem o fato de que, em uma resenha assinada por mim, é claro que qualquer opinião é minha – salvo no caso de citações de terceiros, que serão identificadas como se deve.

Delicadamente Feio, o livro escolhido para a edição de hoje do Bairrismo? Conta Outra é curtinho (96 páginas), mas precisei de duas leituras até chegar a este texto que você está lendo. Porque na primeira, fui induzido, pelo título, a ter uma ideia errada do que esperar nas páginas da coletânea de 12 contos de Ricardo Silveira editada pela Dublinense no ano passado (o volume foi finalista do Açorianos de Literatura 2011 na categoria Conto, a propósito). O livro é o volume de estreia de Ricardo Silveira – coincidentemente, também médico de formação, como o Olavo Amaral do anterior Correnteza e Escombros, mas só fui ler a minibio do autor na orelha depois que já havia quase terminado o livro, então decidi que não era mais hora de trocar.

Fui ver quem era mais detalhadamente o autor porque a leitura das primeiras histórias produziu uma leve decepção. O nome do livro me levou a pensar que os contos misturariam delicadeza e feiúra, brutalidade e ternura – o que poucas narrativas da coletânea fazem de fato. Em muitas das histórias não parecia haver também aquela vertigem essencial que o conto exige em sua brevidade. Notei apenas brutalidade tratada com uma ligeireza inconsequente, em mais um autor contemporâneo repisando pela enésima vez, ainda que a título sincero de homenagem, os passos de Rubem Fonseca.

Mas à medida que avançava nas páginas, percebi que minha expectativa inicial podia estar enganada – Delicadamente Feio não busca delicadeza na feiúra, não é “uma rosa furando o asfalto”, como no poema de Drummond, está mais para uma série de breves comédias de humor negro escritas em ritmo ágil e burilado – e com isso em perspectiva, voltei aos contos anteriores, um a um, percebendo qualidades que na primeira passada não tinham me chamado a atenção.

Isso significa que você precisa ler o livro duas vezes? Ou que você deva, já que está lendo este texto até aqui, lê-lo enquadrado por essa definição? Não, não significa nada disso. Quem quiser fazê-lo, que faça. quem não quiser, está tudo bem, também. Como são 12 histórias (o livro anterior tinha nove), creio que ainda conseguiremos nos deter sobre cada uma delas – embora o problema de como escrever mais detidamente sobre livros com um número maior de narrativas do que esse vá inevitalmente se apresentar no futuro:

Delicadamente Feio, conto a conto:

Partenomancia
Um jovem descendente de ciganos recebe como herança familiar a habilidade de determinar, por meio de ligeiro exame visual, se uma mulher é virgem ou se já teve algum tipo de experiência sexual – mesmo das que não deixam marcas evidentes. Após alugar suas habilidades para afiançar a virgindade de uma jovem a um empresário que pretende comprar a primeira noite com ela, o personagem é recomendado a uma sinistra confraria e se vê envolvido em uma trama de sequestro e violência. Um conto assombrado pelo fantasma de Rubem Fonseca em praticamente todos os seus aspectos: na descrição pormenorizada e em tom de especialista de um ofício divinatório exótico (Fonseca tem um conto chamado Copromancia); na pegada “pulp” da narração; na agilidade cortante dos diálogos e na erupção súbita da violência no final. Lido como uma sátira de humor negro, torna-se engraçadíssimo por ressaltar características risíveis do próprio Fonseca, como as secretas confrarias sexuais (a Confraria dos Espadas do autor mineiro encontra eco na Confraria dos Defloradores que pretende contratar os serviços do protagonista)

Qualquer Coisa
Um belo conto. Um dos que ajudaram a estender minha confusão com o livro no início, uma vez que casa a delicadeza e a feiúra prometidas no título. Um homem que chega ao departamento da empresa em que trabalha é vítima de um aparente trote quando seu chefe e outro colega lhe entregam uma caixinha que supostamente contém um pedaço do juízo do protagonista, perdido no banheiro. A caixa contém algo extremamente malcheiroso, a ponto de o personagem ser olhado com asco em todo o lugar que vai com o embrulho no bolso, até o momento em que, desesperado, abre a caixa para ver o que contém. É uma narrativa que foge da lógica tradicional da narração naturalista até o final em que poesia, nojo e picardia se mesclam. Já na segunda história, pode-se verificar uma unidade de estilo no trabalho de Silveira: frases curtas e sincopadas, diálogos diretos ao ponto, prosa sem rebuscamentos, veloz e incisiva.

Açúcar, Farinha e Gesso
Uma enfermeira (ou uma auxiliar de enfermagem, embora o conto diga, indiscriminadamente, que ela terminou um “curso de enfermagem” aos 18 anos) se emprega em uma casa com a atribuição de cuidar de um idoso. Nos intervalos de suas atribuições, lê com voracidade livros de uma caixa trazidos pelo sobrinho do doente. Da leitura, passa à escrita, enquanto aguenta os aspectos mais problemáticos do trabalho. Descobre Clarice Lispector em sua rotina de leituras e, ao ouvir dizer que a escritora (o conto se passa provavelmente em 1966, embora não haja indicação temporal) sofreu um acidente doméstico que a deixou com queimaduras, resolve se apresentar como enfermeira da autora.
Embora Clarice seja uma presença literal, aparecendo como personagem, o que temos aqui é, novamente, o universo de Clarice visto com os olhos de Rubem Fonseca. Tanto o tom da narrativa como o mote central lembram muito A Matéria do Sonho e O Livro dos Panegíricos, dois contos de Fonseca que acompanham o mesmo personagem trabalhando como enfermeiro em dois momentos distintos de sua vida. Clarice é uma presença mais pelo aproveitamento pontual de elementos de sua biografia e obra, e é interessante vislumbrar essa aproximação entre dois universos literários completamente díspares mas, a seu modo, focados na crueldade humana. O problema é que a protagonista é um tipo plano, parece mais dominada pelas intenções que o autor quis aplicar na trama do que por uma espécie de verdade íntima. Mesmo o final, no qual a protagonista realiza um gesto extremado, parece mais servir para cruzar a obra de Clarice com o conto do que por alguma revolução íntima da personagem expressa na obra – por isso, o olhar lançado sobre Clarice, tão atenta aos motivos e epifanias de suas criaturas, não vai além da superfície.

Os Engolidores de Fogo
Outro belo conto. Em uma pausa das atividades na rua, dois engolidores de fogo que trabalham nas sinaleiras de Porto Alegre travam um diálogo no qual repassam em um diálogo conduzido com dinamismo causos e dificuldades de quem se vira como pode para garantir uns trocados nas avenidas da metrópole. Um conto que se liberta do modelo fonsequiano que era tão patente até aqui e voa em um retrato ao mesmo tempo ácido e delicado do cotidiano de dois homens vivendo à margem do mundo do trabalho _ circunstância sublinhada com sutileza pelo fato de que, mesmo para voltar para casa, ambos fazem hora, esperando a aglomeração de trabalhabores à espera de ônibus diminuir um pouco. Depois de conduzir o conto quase inteiro com diálogos, o autor restitui, no final, a palavra a um narrador em terceira pessoa que consegue produzir um fecho emocionante e belo.

A Civilização Ocidental
Em outro conto estruturado basicamente em torno de um diálogo, um homem é chamado para uma conversa cara a cara com o marido traído da mulher com quem vem mantendo um caso. Pode-se dizer a esta altura do livro que Silveira estreia com um domínio do diálogo escrito raro em autores de primeiro livro. A tensão ao longo da narrativa é mantida habilmente, e a crítica bem bolada à civilização ocidental que dá nome à história é engraçada, mas o final frouxo não faz jus ao conjunto, a descompressão, aqui, soa a anticlímax.

Delicadamente Feio
O conto que dá nome ao livro aborda uma mulher que, feia, inescapavelmente feia desde a juventude, se torna uma profissional bem-sucedida devido à eficácia e inteligência, e que desenvolve o hábito de dar porres temperados com drogas em homens nos quais está interessada. Anulando a resistência do alvo, ela está livre para fazer o que quiser com eles. É uma peça cômica bastante engraçada – ainda que uma guinada quase sentimental ao fim, que aborda literalmente questões de olhar e poder, pareça não encaixar de modo satisfatório no que se viu até ali. Ainda assim, é uma das histórias que fazem jus ao título do conjunto.

Uma Viagem
Sentado em um ônibus, ao lado de uma jovem que amamenta um bebê, o protagonista hesita em atender às constantes tentativas da jovem de estabelecer um diálogo – só o que ele quer é viajar em silêncio, se possível dormir parte do trajeto. Quando cede à conversa triste e desamparada da jovem, vê-se tragado para uma situação desesperadora. Outro belo conto – no que parece ser um padrão do livro, narrativas com algo que não funciona alternadas com ótimos exemplares do gênero. Apesar de alguns tropeços de linguagem, como ceder à frase vazia “logo eu, um mau-humorado de carteirinha” (p. 56), a prosa da história progride em um crescendo de tensão que, em seu clímax, agride as entranhas do leitor. O final também é construído para promover uma descompressão, como ocorrera em A Civilização Ocidental, mas aqui o artifício funciona perfeitamente – porque o contraste  abismal entre o que o leitor sentira poucos minutos antes, acompanhando o protagonista, e o que o protagonista confessa sentir ao fim da narrativa nos dá um vislumbre competente de sua subjetividade.

A Decisão
Enquanto realizam um trabalho cuja natureza vai sendo revelada aos poucos, dois irmãos gêmeos, Ademir e Ademar, discutem um dilema vivido por este último: ir no domingo seguinte ao futebol de várzea de todo fim de semana ou à primeira comunhão de um sobrinho da esposa. Novamente um conto sustentado majoritariamente no diálogo, com intervenções pontuais, quase vinhetas, de uma narração em terceira pessoa que vai ajudando a desvelar o que ambos fazem no lugar em que estão, criando uma tensão entre a atividade lúdica da qual Ademar não quer abrir mão no fim de semana e a indiferença entediada com que realizam um ofício moralmente chocante. Essa contraposição algo tarantinesca entre preocupações de um cotidiano comezinho e a natureza do trabalho que os gêmeos estão realizando é o que o conto tem de melhor, embora o final abandone o humor negro sutil usado até ali para encerrar com uma piada ineficiente.

Uma Semana no Rosa
Durante férias litorâneas com uma namorada (que, a julgar pela frequência com que o casal briga, não estão indo lá muito bem), um jovem testemunha um afogamento, lança-se ao mar para tentar salvar uma criança em perigo e acaba precipitando sua morte (permito adiantar esta parte porque não estou contando aqui nada que já não esteja expresso claramente na contracapa do livro). O conto, claro é isso e mais: descreve com agilidade a tentativa de salvamento, o desespero momentâneo, a culpa posterior e os efeitos no relacionamento do protagonista, Marcos, com a namorada, significativamente chamada Marina. Em um primeiro momento, a maneira abrupta como a história se interrompe parece mais matar a história no meio do que concluí-la, mas o corte da narrativa justamente no ponto escolhido pelo autor (após uma tensa conversa entre Marina, Marcos e a polícia) cristaliza a dissociação entre discurso idealizado e realidade. Marina havia até ali encenado uma entrega românticia incondicional renegada à primeira contrariedade. O descompasso entre discurso e gesto também afeta Marcos, que correu para um resgate e no momento decisivo acabou por provocar a morte de quem pretendia resgatar, transformando o impensado gesto heróico no seu exato contrário. A leitura me fez pensar se Silveira não faria melhor em se dedicar a contos mais longos, não tão ressecados. Os melhores do livro são justamente os mais extensos.

Mocorongo
Um mendigo bêbado, destratado pelos donos de uma birosca, resolve se vingar e precipita uma tragédia. Um conto breve e cortante, no qual outra nota de humor ao fim da história sinaliza para um dos artifícios recorrentes do volume:  o humor como elemento que desconcerta o clima de tragédia até ali construído pela narrativa.

Aneurisma
Executivo que se dirigia ao trabalho em seu carro oferece carona para uma bela jovem em uma parada de ônibus. Ela aceita mas sofre o rompimento de um aneurisma no meio do caminho, deixando ao protagonista a dúvida sobre o que deve fazer. É quase como uma repetição a sério de uma situação antes insinuada por Uma Viagem. Não foi um conto que tenha me comovido particularmente, talvez porque, como o personagem é, outra vez, mais um tipo do que de uma personalidade, não tive elementos para aceitar as decisões que ele toma do meio para o fim da história. Depois de ensaiar com o grotesco, nem o personagem nem o autor o levam até às últimas consequências, o que compromete o conto, leia-se ou não a história como comédia.

Travessia
Um livro que começou com emulações constantes de Rubem Fonseca (das quais só fez bem em se libertar ao longo do volume) encerra com um aceno a Guimarães Rosa, numa boa peça cômica. Um acadêmico, após defender uma tese de doutorado sobre o olhar feminino na obra de Guimarães Rosa, encontra, em um prostíbulo, uma moça que fala como se fosse uma personagem roseana. Uma bem bolada sátira não isenta de alguma delicadeza: o acadêmico não consegue compreender aquilo em que, em tese, é especialista quando depara com uma representação em carne e osso de seu objeto de estudo. A sátira também pode ser lida como um comentário humorado ao clichê crítico segundo o qual Rosa reinventa “a fala das gerais” – porque colocado em um contexto urbano no conto, o falar de Rosa, a garota de programa, soa como hilária afetação. No conjunto, Silveira é um autor seguro de seus recursos e com tramas que partem de situações nas quais se vê uma rica imaginação trabalhando. Nem sempre o ajuste fino das peças convence, e o volume é irregular no conjunto, mas seus pontos altos produzem impacto.

Ufa. Este post foi longo. Ficamos por aqui. Teremos mais Bairrismo? Conta Outra em 15 dias.



Bairrismo? Conta outra – Olavo Amaral

01 de junho de 2012 3

O escritor Olavo Amaral. Foto: Ney Amaral, Divulgação

Como prometi na semana passada, inauguro hoje nossa nova série do blog: Bairrismo? Conta Outra (o título era provisório, mas como não me ocorreu nada melhor durante a semana, acaba de se tornar definitivo). De 15 em 15 dias, vamos publicar aqui uma resenha de algum recente livro de contos de autor nascido ou radicado no Rio Grande do Sul.
Inauguramos a série com o volume Correnteza e Escombros, de Olavo Amaral (7letras, 140 páginas, 2012).

Acho que escolhemos um bom objeto de estreia, porque o grande problema de se falar tão detalhamente sobre livros de contos recentemente lançados é que os leitores, ou seja, a maioria de vocês aí do outro lado, provavelmente não terão lido o tal livro para matizar a minha leitura com suas próprias interpretações (lembrem-se de que esta série tem justamente o intuito de apresentar leituras de obras que podem ter sido alvo apenas de notas ou textos curtos por aí afora). Mas no caso de Correnteza e Escombros, o livro está disponível para leitura online.

Amaral estreou na literatura com a coletânea Estática, publicada pelo Instituto Estadual do Livro como parte de sua Coleção 2000. Médico de formação e nascido em Porto Alegre, hoje é radicado no Rio de Janeiro. Correnteza e Escombros foi lançado este ano em papel (sob o selo Creative Commons) e está na rede, na íntegra, para leitura online no endereço www.olavoamaral.com.br. A ideia do autor é que os leitores apareçam por lá, leiam o livro e façam comentários, postem imagens e vídeos que dialoguem com os nove contos da obra. Logo, quem quiser ler antes ou depois desta resenha, esse é o caminho.

Um último par de esclarecimentos antes de irmos adiante, logo abaixo:

1 - Vou tentar não entregar muito da trama, mas numa leitura atenta, as histórias, obviamente, serão comentadas para além do mero resumo. Quem achar que isto afetará seu prazer de leitura, leia o livro primeiro, já que, ao menos neste caso, há essa opção.

2 - Não vou ficar toda hora escrevendo “na minha opinião” ou “ao menos para mim, como leitor” neste texto. Esta é uma resenha assinada por mim, então é claro que qualquer opinião é minha _ salvo no caso de citações de terceiros.

Correnteza e Escombros, conto a conto:

A primeira coisa a se ressaltar é a maturidade técnica de Olavo Amaral. Correnteza e Escombros apresenta nove narrativas nas quais a prosa, segura e consistente, engendra situações perturbadas por elementos suprarreais _ algumas se enquadrariam no que se poderia chamar de “fantástico”, outras são apenas histórias que fogem do realismo sem fazer disso um projeto, e portanto qualificar o livro todo de “fantástico” seria um erro. Vamos nos deter brevemente conto a conto:

Antes dos contos nomeados no índice, o livro abre com uma vinheta de duas páginas em que se lê o relato de uma enchente a tomar a cidade, derramando-se e inundando de tal modo que o narrador (o conto é em primeira pessoa) e sua amada também nela se dissolvem, no fim. Primeiro ela. Depois ele, que se entrega à enchente como uma tentativa de encontrá-la. No tom seguro entre o lírico e o fantástico, o texto apresenta ecos de Mergulho I, conto de Caio Fernando Abreu incluído no livro Pedras de Calcutá – e que apresenta um mote semelhante. A dissolução do humano é um mote que voltará em outros contos.

Superfície
O conto abre com um súbito despertar de um personagem em meio a um ambiente que parece desconhecer:
Viu-se cercado de repente pelo terror do movimento. Não chegava a compreender ainda o que deixara do outro lado do vidro, mas olhar de volta para dentro do aquário trazia um misto de dor e nostalgia encharda de algo que ficava para trás.
O protagonista é exatamente isso: uma criatura de um aquário de exibição que certo dia se vê do lado de fora, tornado homem, observando o mundo silencioso e lento que deixou para trás inexplicavelmente. Sem muito traquejo, por instinto, vai incorporando a vida humana que lhe coube, mas sempre volta ao aquário com uma saudade funda do mundo que já habitou. O conto se passa em Paris, e é, ao revés, uma releitura de Axolotl, conto de Júlio Cortázar incluso na coletânea Final de Jogo, escrita quando o autor de O Jogo da Amarelinha vivia na capital francesa. Na história original, um homem se vê impelido todos os dias a ir ao mesmo aquário do Jardin des Plantes olhar os axolotl (uma espécie de salamandra mexicana, como na imagem abaixo)
Superfície é também é um conto belissimamente narrado, com uma prosa sólida e segura, mas o final, que deveria ser epifânico, parece diluir o impacto da atmosfera brilhantemente construída – talvez porque não deixa de ser uma reapresentação, ainda que muito competente, do clichê recorrente da arte como saída para a condição de “peixe fora d’água”, exatamente o inverso do que ocorria na história original. É um conto-homenagem que cresce ao se fazer uma leitura cruzada com a obra de Cortázar – e diminui bastante se encarado sozinho.
Uma curiosidade: o conto foi publicado na edição de 13 de fevereiro de 2010 no  Caderno Cultura da Zero Hora, e na época tinha outro título: Ltoloxa – a forma inversa de Axolotl, reforçando o conto de Amaral como espelho do de Cortázar. Também não sei por que motivo o autor o alterou, se pelo enigma estranho da palavra parecer pouco acessível ao público ou justamente por não querer vincular sua narrativa textualmente como um espelho do original – nada que eu não pudesse perguntar para ele por e-mail, também, mas aqui só registro o fato.

Trezentos e Um
Conto do gênero fantástico que aproveita um mote recorrente na literatura de horror, o do aposento que, aparentemente vazio, na verdade esconde uma armadilha à qual o protagonista é atraído. Um homem se hospeda em um hotel e é perturbado e intrigado pelos ruídos animais de um casal transando no quarto de cima, o “301″ do título. Já falei que Olavo Amaral narra muito bem, não? Aqui temos a comprovação desse fato, uma vez que as primeiras páginas criam uma tensão que o autor alimenta habilmente. Talvez seja justamente essa habilidade consciente a responsável pelo fato de que, apesar de bem urdido, é um conto que parece se estender além do necessário e perde força a meio do caminho por dilatar em demasia a situação original. Mas seu desfecho é impactante.
Foi um conto que me fez pensar, também, no quanto um livro de histórias avulsas depende diretamente de sua edição e ordenamento. Demorei a ser convencido pela proposta de Trezentos e Um porque ele começa de um modo tão semelhante ao conto anterior que soa repetitivo. Se em Superfície o protagonista se vê em tumulto em um ambiente estranho, em Trezentos e Um a primeira frase é “Acordou Cansado” – e a repetição de situações de “despertar” logo nos dois primeiros contos provoca uma impressão de narrativa formulaica que se revela injusta com o decorrer do livro, mas naquele momento foi inescapável.

Orinoco
Em um ano indeterminado do passado remoto das Américas, dois exploradores europeus naufragam na foz do Orinoco e são recebidos como deuses por uma tribo indígena local devido ao poder de fogo de suas armas (um conto recorrente dos primeiros contatos entre brancos e ameríndios). Aos poucos, um deles vai naufragando na loucura de assumir para si a divindade que os índios lhe atribuem. Também um conto longo, mas conduzido de modo mais seguro que o anterior. Ele ao mesmo tempo compartilha com o anterior Trezentos e Um um esqueleto básico: ambos narram, ao fim, a tragédia de um personagem que, mesmo contra a própria preservação, busca compreender uma situação que o aflige e o intriga – uma compreensão que só se oferecerá quando o protagonista for aniquilado como indivíduo e assimilado a uma força sobrenatural.

Precisamos seguir em frente
O tema do naufrágio retorna neste conto no qual dois náufragos, um homem e uma mulher, percorrem a costa ignota onde foram jogados com os destroços de seu barco. A história, contudo, não é o mais importante em uma narrativa na qual os dois personagens servem como signos metafóricos da condição humana. Estão ambos presos a um local ao qual chegaram sem que tivessem planejado por isso, ensaiam fugas inefetivas por meio de escaladas e caminhadas que os exaurem ou à entrega desesperada ao sexo como um intervalo fugaz dentro da necessidade constante de seguir adiante.

Voadores
Aqui o tom também é o de uma fábula metafórica, em uma das narrativas mais bem realizadas do livro. Duas cidades não nomeadas são localizadas em margens opostas de um desfiladeiro. Na cidade do narrador, os prédios são rente ao chão e os dias santos são comemorados em transes coletivos em cavernas que cortam a montanha que se ergue sobre o povado. Na margem oposta, a cidade dos “voadores” se ilumina e lança homens em balões aos céus para comemorar os mesmos dias santos. Um dia o narrador, um adolescente, encontra um bilhete no seu lado do abismo, enviado por alguém do outro lado, e ambos começam uma troca urgente de correspondências enviadas sobre o abismo. A relação de ambos e as vicissitudes impostas aos dois pela relação tumultuada de suas cidades espelha, em tom simbólico, as etapas da atração afetiva: fascínio, tentativa de contato e comunicação, decepção, animosidade levada pelas circunstâncias externas, violência, paz resignada e também decepcionante. Apesar do tom fabular, é na descrição profundamente humana dos sentimentos que o narrador vai descobrindo pelo estranho correspondente que reside o ponto forte do conto – e um dos momentos elevados do livro como um todo.

Dias do Plexo Solar
A temática da solidão e da perda é retomada neste tableau perturbador em que um homem rememora dias idílicos em que ele e a mulher amada viviam dias despreocupados em um galpão, dormindo, transando, nadando em curso d’água e se alimentando do leite dadivoso de uma vaca. Como nas histórias precedentes, a insanidade não tarda a se manifestar e transformar em escombros o fluir tranquilo da correnteza cotidiana (esse é um mote recorrente no livro, e essa unidade subjacente justifica plenamente o nome e o próprio projeto da obra). Devo, no entanto, confessar que as minhas próprias circunstâncias pessoais também interferem em minha apreciação da história. Li Dias do Plexo Solar em um momento particularmente tumultuado conciliando o fechamento de texto que precisava preparar para o jornal, e remei para chegar ao fim. A irrupção da insanidade do protagonista e seu gesto extremado ao fim da história não fizeram o menor sentido para mim, e tributo esse atropelo também às circunstâncias.

O Grande Teatro do Desejo
Se tive problemas para concluir o conto anterior, apesar de sua prosa de grande beleza, com este foi exatamente o contrário. Aponto esta narrativa como o grande conto do livro. Uma gema com elementos de ficção científica e narrativa erótica, mescla muito bem realizada de Philip K. Dick e Georges Bataille. Num futuro em que cidadãos pagam para realizar fantasias eróticas virtuais em células high tech no “Teatro do Desejo”, duas cápsulas apresentam um defeito que faz com que o homem e a mulher em seu interior vislumbrem a fantasia um do outro – um conto em que o tema da impossibilidade de comunhão com o objeto desejado ecoa O Erotismo, de Bataille (obra que, curiosamente, Daniel Galera também cita a sua maneira na cena inicial de seu Até o Dia em que o Cão Morreu). Há uma cena extraída diretamente de A História do Olho, do mesmo autor. O conto casa de modo orgânico e equilibrado o erótico de feição clássica com o mote da ficção científica, tem ritmo, sensualidade e humor. E imagens poderosas. Após terminar a leitura, fechei o livro para permanecer mais tempo com suas impressões reverberando em mim e só fui voltar às outras duas narrativas faltantes no dia seguinte.

Hidrocor
É um belo conto. A seu modo, menos ambicioso do que o anterior – e vem depois da melhor história do livro, então seu efeito acabou amenizado em minha leitura. Um jovem estende um mapa sobre a mesa da sala de jantar e vai traçando com hidrocor azul os seus caminhos habituais pela Cidade Baixa, bairro boêmio de Porto Alegre. À medida que o traço avança no mapa, também o protagonista avança pelas ruas do bairro até encontrar o risco em hidrocor vermelho representado por uma garota. É uma peça na qual o destaque é a capacidade de Olavo Amaral de realizar descrições de grande plasticidade e beleza – embora em alguns momentos do conto eu, que morei na Cidade Baixa por cinco anos e a frequentei regularmente por uma década, tenha me perdido em certos torneios do trajeto. Outro ponto incongruente é o momento em que, logo no início, o narrador abre o mapa de Porto Alegre sobre a mesa:
“Percorres os nomes dos bairros devagar, alinhando o centro da cidade ao da mesa.
Ora, Porto Alegre não tem o centro urbano localizado no centro do mapa – a cidade tem a conformação de um leque aberto, com o centro no vértice, e portanto vai ter mapa caindo da mesa, por um lado, e metade da mesa livre, pelo outro.

Arte
O último conto fecha um círculo com o primeiro, amarrando com firmeza e propriedade as narrativas do volume. Um artista plástico consagrado, cínico e misantropo, tenta disfarçar com divagações ácidas sobre o status quo do circuíto artístico o nervosismo que sente enquanto espera o anúncio, naquele dia, do resultado de um prêmio para o qual foi indicado. Ele acorda, bebe, cochila, espia os vizinhos pela janela, tudo isso enquanto critica outros artistas, a imprensa, a má formação dos jornalistas da área, equiparando coquetéis, instalações, bienais, os eventos e rituais da vidinha de circuito artístico a representações esvaziadas de sentido que acabam por substituir a arte verdadeira – uma noção de fundo que o final da história reitera. Um olhar algo ingênuo, redimido pela construção do personagem, um homem ao mesmo tempo aziago, decadente e vulnerável, retrato em tintas precisas. E a visão da arte como algo fora da vida artística complementa, a seu modo, o primeiro conto, no qual a arte é a solução para o desamparo do axolotl tornado homem – embora, para ser justo, este arranjo particular venha do conto original de Cortázar.
O início e o fim, um ecoando no outro, formam um conjunto superior a seus elementos individuais, coroando o livro como uma obra madura e interessante.

Ok, senhores, por hoje era isto. Teremos novo Bairrismo? Conta Outra, no dia 15 de junho.

Arranjando mais trabalho

24 de maio de 2012 0

Obra "Leitura", de Iberê Camargo

Estive em Erechim recentemente, para um encontro intitulado “Partilhando leituras”, atendendo ao gentil convite dos organizadores, os professores Gerson Severo e Paulo Bittencourt, do campus local da Universidade Federal da Fronteira Sul (quem quiser ter um relato de como foi, clique aqui, no blog do projeto, e leia um texto escrito por Andrei Vanin). Uma das coisas que me foram perguntadas e sobre as quais falei durante a conversa é o critério que usamos para que um livro seja matéria no Segundo Caderno.

Ao responder, comentei que tentamos um equilíbrio entre o interesse jornalístico e o literário. Um livro que se torna um fenômeno precisa ser lido em algum momento. Um autor de reconhecida importância, nacional e internacional. E que, dada a ênfase que a Zero Hora dá ao cenário local, buscamos sempre, quando o espaço, o tempo, as circunstâncias assim permitem, falar de autores locais.  A ideia é achar um equilíbrio entre o autor estrangeiro publicado por editora blockbuster com mídia em massa e o escritor que está começando agora, não tem uma poderosa estrutura de divulgação e tem, portanto, menor possibilidade estatística de receber uma leitura pública em jornal ou revista. Porque a leitura é uma parte essencial do processo de um livro.

Voltei de Erechim com essa explicação na cabeça.  E me lembrei de um projeto que cheguei a acalentar há dois anos e que havia posto na geladeira por um tempo devido ao surgimento do Gaúchão de Literatura, que no fundo tinha proposta semelhante.Acho que entusiasmado pela acohida recebida em Erechim, resolvi tirá-lo da gaveta.

Sabe quantos livros de contos são publicados a cada ano? Eu não sei, mas ajudei o Rodrigo Rosp e a Lu Thomé a fazer no levantamento prévio dos concorrentes do Gauchão no ano de 2010, e chegamos a uns 60 livros no período de dois anos  – provavelmente deixando passar uns quantos. É uma produção caudalosa que é impossível de acomodar em qualquer lugar, ainda mais no espaço restrito do jornal de papel. Ainda mais que o conto hoje é uma forma literária que passa provavelmente por uma saturação semelhante à que se seguiu ao boom dos grandes contistas dos anos 70 e 80. Muita coisa sendo produzida, etc.

Daí vou tentar dar minha contribuição pessoal aqui no blog. Com este post, anuncio que damos início à série “Bairrismo? Conta outra” - o título é provisório. De 15 em 15 dias publicarei aqui neste espaço uma resenha detalhada de um livro de contos escrito por autor gaúcho de publicação recente.  Vamos às inevitáveis perguntas:

Por que contos? pelos motivos explicitados anteriormente, contos não parecem ter tanto espaço quanto romances – inclusive no meu próprio trabalho, como percebi analisando o blog. Logo, vamos dar um espaço para essa contarada toda.

Por que de 15 em 15 dias? Você leria um livro em menos tempo do que isso? Com certeza. Você leria um livro em menos tempo do que isso sem interromper todas as coisas que você precisa fazer numa jornada de oito horas de trabalho e ainda tendo que ler vários outros livros no processo tentando não perder sua vida nisso? Duvido.

Por que no blog e não no jornal? No blog eu tenho mais espaço e depende só de mim.

Quem é que vai ler isso? Não sei. Talvez só o autor do livro, talvez nem ele.  Talvez você que tenha curiosidade por saber o que anda sendo produzido.

Fiquem atentos então à semana que vem, quando publicarei a primeira resenha.