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Posts na categoria "Biografia"

As várias faces de Paulo Leminski

13 de maio de 2014 0

leminski_orlando_azevedoFoto: Orlando Azevedo / Divulgação

O escritor e jornalista paranaense Domingos Pellegrini cultivou uma amizade regada a longas conversas com o poeta Paulo Leminski. A partir dessas memórias, escreveu Minhas Lembranças de Leminski, que está chegando agora às livrarias. O livro é uma biografia não autorizada e, como o projeto de lei referente aos textos biográficos foi aprovado recentemente pela Câmara dos Deputados, fiz uma entrevista com o autor sobre este tema para o Segundo Caderno. É claro que aproveitamos para falar sobre Leminski e suas múltiplas facetas – é a partir delas que se dividem os capítulos deste lançamento. Para os leitores deste blog, foram guardados alguns trechos desta conversa nos quais Pellegrini fala sobre o poeta. Confira:

Estoicismo
Leminski ganhou muito pouco dinheiro em vida porque optou por fazer arte. Isso não é um demérito, e sim um mérito. Foi sua escolha, sua missão. Era uma pessoa aprofundamente honesta com sua vocação. Decidiu ser poeta, tradutor… Para isso, precisava de tempo. Tempo para ler, pesquisar, gerar suas coisas. Ele era um grande redator de publicidade: se estivesse afim de ganhar dinheiro, ganharia muito. Mas aí não escreveria como escreveu.
Quando jovem, eu costumava ir três ou quatro vezes por ano para Ilha do Mel. Sempre que fazia isso, passava pela casa dele, em Pilarzinho, na ida e na volta. Eu chegava às 8h, a Alice (Ruiz, poeta, viúva de Leminski) saia para trabalhar, e a gente ficava até as 20h conversando. Era uma conversa intensa. Às 20h, ele já estava cansado, se enrolava nele mesmo e dormia no chão da sala. Aí eu ia embora.

Origens
Ele tinha orgulho de ser mestiço. Quando ele falou para mim que era mestiço, pensei que ele estivesse de gozação: “Sou filho de negra com polonês, cara!”. Ele não tinha nenhum traço negro aparente, pensei que fosse brincadeira. Depois que morreu, descobri que era verdade, lendo a biografia do Toninho Vaz (O Bandido Que Sabia Latim, Record, 2001).

Morte
Leminski nunca teve medo da morte. Ele tinha medo de atravessar a rua em São Paulo, isso tinha, uma bobagem assim. Mas medo da morte ele não tinha. Assim como não tinha medo de ter opiniões políticas, de ser um anarquista militante que nem carteira de identidade tinha. Tanto que na biografia do Toninho Vaz, aparece o Rodrigo Garcia Lopes ao lado dele na ambulância dizendo “vai ficar tudo bem, cara”, e ele responde: “Que tudo bem o quê, pode chamar o gaiteiro!” (risos). Ele enfrentou a morte. Não reclamou nunca. Outro dia conversei com o Ademir Assunção, que conviveu com ele em São Paulo, ele me falou: “O Leminski jamais se queixava”. Estava sempre de bom humor, mesmo sendo corroído pela cirrose, uma corrosão lenta e inexorável.

Capa de "Minhas Lembranças de Leminski"

Capa de “Minhas Lembranças de Leminski”

Minhas Lembranças de Leminski
Domingos Pellegrini
Geração Editorial
Biografia, 200 páginas, R$ 34,90

 

 

Tradução e escravidão

17 de fevereiro de 2014 3
Chiwetel Ejiofor em cena de "12 Anos de Escravidão". Foto: Fox Searchlight, divulgação

Chiwetel Ejiofor em cena de “12 Anos de Escravidão”. Foto: Fox Searchlight, divulgação

Como já escreveu a jornalista Raquel Cozer, da Folha de S. Paulo, neste texto do último dia 10 de fevereiro, vivemos, e já há alguns anos, um momento em que as editoras parecem se guiar muito mais pelo possível sucesso de uma adaptação cinematográfica do que no valor intrínseco de uma obra para desovar uma tradução no Brasil. Um dos exemplos citados por ela é a obra Twelve Years a Slave, de Solomon Northup. Publicada originalmente em 1853, em domínio público, portanto, a narrativa autobiográfica do negro livre que foi raptado e vendido como escravo ganhará não uma, mas duas chances no mercado nacional – já que o filme de Steve McQueen estrelado por Chiwetel Ejiofor tem boas chances de ganhar o Oscar e de ser um sucesso de bilheteria.

A Companhia das Letras lança 12 Anos de Escravidão pelo selo Penguin, em edição com tradução de Caroline Chang e prefácio do mesmo Steve McQueen que assina a adaptação para o cinema. Em uma estratégia para associar ainda mais o livro e o filme, a capa foge do padrão da série usando a imagem do cartaz do filme. A segunda edição está saindo pela editora Seoman, parte do grupo Pensamento, e é creditada a alguém nomeado estranhamente apenas como Drago. Dado que fazia horas que não rolava uma comparação tradutória aqui no blog, acho que essa é uma circunstância mais do que apropriada para nos dedicarmos a isso.

Vamos, então, começar com a versão de Caroline Chang. Caroline é jornalista, editora da L&PM e tem em seu currículo traduções, entre outras, de A Longa Marcha, de Sun Shuyun (Arquipélago Editorial); As Filhas Sem Nome, de Xinran (Companhia das Letras); Janela para a Morte, de Raymond Chandler (L&PM) e A Resposta, de Kathryn Stockett (Bertrand Brasil) – este último, curiosamente, também um “livro de Oscar”, uma vez que foi publicado por aqui na mesma época em que sua adaptação cinematográfica, Histórias Cruzadas, chamava a atenção por indicações ao prêmio. Como nosso intuito com esta série é mais lúdico e menos técnico, selecionei para fins de comparação os primeiros dois parágrafos, em uma seleção arbitrária. Não é um trecho especialmente fácil ou difícil, é só o trecho que abre o livro:

12_anos_de_escravidao“Tendo nascido um homem livre, por mais de trinta anos gozado da bênção da liberdade em um estado livre e sido, ao final desse período, sequestrado e vendido como escravo, assim permanecendo até ser felizmente resgatado no mês de janeiro de 1853, após uma servidão de doze anos, foi sugerido que um relato da minha vida e de minhas desventuras não seria desprovido de interesse para o público. Desde meu retorno à liberdade não deixei de perceber o crescente interesse nos estados do Norte quanto ao assunto da escravidão. Trabalhos de ficção, prometendo retratar suas características mais amenas bem como as mais repugnantes, circularam de forma sem precedentes e, a meu ver, criaram um tópico rico para comentários e discussões.
Posso falar sobre a escravidão apenas na medida em que foi por mim observada – apenas na medida em que a conheci e vivenciei em minha própria pessoa. Meu objetivo é dar uma declaração simples e verdadeira dos fatos: repetir a história de minha vida, sem exageros, deixando para outros determinarem se as páginas da ficção apresentam um retrato de uma maldade mais cruel ou de uma servidão mais severa.”

O interesse pelo livro – e também por outra obra contemporânea deste, A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe – dá mostras de como a escravidão começava a ser tornar um tema central no norte “ilustrado”. Já começava-se a sentir o inevitável choque entre a escravidão no Sul, institucional, e as pretensões civilizadas do Norte industrializado, que desembocaria na Secessão na década seguinte, após os Estados sulistas formarem uma confederação e declararem a separação dos demais. O trecho que vemos acima serve como uma sinopse do livro, ao mesmo tempo em que tenta marcar sua diferença para com as obras de ficção. Este é um depoimento. Tem a validade de haver sido testemunhado e vivido. Vamos ver, agora, como esse trecho foi passado para o português pelo tradutor Drago, de quem não conheço a biografia e cujos outros trabalhos na área parecem ter sido todos realizados para a mesma editora Seoman, como O Homem que Amava Muito os Livros, de Allison Hoover Bartlett, e a biografia de Lance Armstrong editada pela mesma casa.

12-Anos-de-Escravidão-seoman“Tendo nascido um homem livre e desfrutado, por mais de trinta anos, das bênçãos da liberdade em um Estado livre e, ao término desse período, tendo sido sequestrado e vendido como escravo – condição na qual permaneci até ser, felizmente, resgatado no mês de janeiro de 1853, após doze anos de servidão – foi-me sugerido que um relato da minha vida e dos acasos que a pontuaram não poderia deixar de atrair o interesse do público.
Desde a minha volta à liberdade, não pude deixar de notar o crescente interesse pelo tema da Escravidão, em todos os Estados do Norte. Obras de ficção que pretendem retratar os aspectos mais agradáveis – tanto quanto os mais repugnantes – do assunto têm circulado, com uma abrangência e uma aceitação popular sem precedentes; o que, segundo creio, contribui para o estabelecimento de um proveitoso tópico de comentários e discussões.
Posso discorrer sobre a Escravidão apenas até o ponto em que tive oportunidade de observá-la; até o ponto em que a conheci e experimentei-a pessoalmente. Meu objetivo é fornecer um testemunho sincero e verdadeiro sobre os fatos: recontar a história de minha vida, sem exageros, deixando aos outros a tarefa de decidir se mesmo páginas de ficção contenham descrições mais equivocadas ou rigorosas de como foi a Escravidão.”

Cá estamos, então. Há, como seria de se esperar, pequenas diferenças que se referem não à tradução, mas à edição. A mais estranha para mim é a adoção daquela maiúscula na palavra Escravidão. Quando se usa uma letra maiúscula em uma palavra como essa, está-se falando do período histórico a que ela alude, e não à indústria infamante da escravidão de um modo mais genérico. Mas aí algo não encaixa, para mim, por dois motivos: 1) o Brasil teve seu próprio período histórico de Escravidão, que não coincide com o retratado no livro, e 2) o livro fala da escravidão tanto no sentido histórico quanto no sentido geral, embora Northup ressalte que está dando um testemunho pessoal. Também é digna de menção outra alteração gráfica, esta promovida pela Companhia: a transformação dos três parágrafos desse trecho em dois, algo cujo motivo não entendi muito bem. Mas claro que isso não tem a ver com o tradutor, então vamos adiante.

Drago lança mão do recurso de delimitar uma das frases da longa sentença inicial entre travessões para torná-la mais clara e inteligível. É um recurso que, ao menos na edição que eu encontrei de 12 Years a Slave, o original também usa, embora aplicado em uma frase diferente daquela que o tradutor resolveu apartar do restante. Nesse sentido, acho que a tradução de Caroline Chang para a Companhia é mais eficiente em conseguir preservar o ritmo da longa frase original sem precisar de parênteses ou travessões. É interessante notar que ao longo do trecho todo Drago parece optar por um andamento mais entrecortado por pronomes e conetivos.

O fim da primeira frase na edição da Seoman também me parece alterar sutilmente o original. Fiel ao tempo em que foi escrita, a prosa de Northup é mais cheia de circunlóquios, menos afirmativa, mais cheia de ressalvas, o que se percebe na forma indireta como ele afirma que o motivo da escrita do livro é o interesse público. No original ele escreve que seu relato ” would not be uninteresting to the public“. “Não seria desinteressante para o público”, literalmente, e nesse sentido o “não seria desprovido de interesse” da tradução de Caroline Chang parece mais preciso do que o “não poderia deixar de atrair o público”. Não ser desprovido de interesse e não poder deixar de atrair são duas coisas diferentes. Algo pode não ser desinteressante e ainda assim não atrair interesse algum, se é que me entendem.

Em outro ponto, Northup se refere ao quadro da escravidão montado pelas obras de ficção que se dedicaram ao tema. E aí admito que a opção de Drago por traduzir “their more pleasing as well as more repugnant aspects” por “os aspectos mais agradáveis – tanto quanto os mais repugnantes – do assunto” me provoca certa estranheza desconfortável, porque parece apelar a um sentido inadequado do “pleasing” original. Ao menos em português, a ideia de que a escravidão tenha um aspecto “agradável”, que “agrada”, parece fora do lugar.

São aspectos extremamente subjetivos, claro, mas confesso minha predileção pela tradução de Caroline Chang. A caixa de comentários fica, portanto, aberta a novas contribuições e à discordância – fundamentada, claro. Para encerrar, vamos ao trecho original, em inglês, para que vocês mesmos aí possam fazer sua própria análise:

“Having been born a freeman, and for more than thirty years enjoyed the blessings of liberty in a free State – and having at the end of that time been kidnapped and sold into Slavery, where I remained, until happily rescued in the month of January, 1853, after a bondage of twelve years — it has been suggested that an account of my life and fortunes would not be uninteresting to the public.
Since my return to liberty, I have not failed to perceive the increasing interest throughout the Northern States, in regard to the subject of Slavery. Works of fiction, professing to portray its features in their more pleasing as well as more repugnant aspects, have been circulated to an extent unprecedented, and, as I understand, have created a fruitful topic of comment and discussion.
I can speak of Slavery only so far as it came under my own observation—only so far as I have known and experienced it in my own person. My object is, to give a candid and truthful statement of facts: to repeat the story of my life, without exaggeration, leaving it for others to determine, whether even the pages of fiction present a picture of more cruel wrong or a severer bondage.”

Mandela nos livros

06 de dezembro de 2013 0

Foi através do teatro que, pela primeira vez na minha vida, nos anos 60, ouvi falar de Nelson Mandela. Estudante, depois professor de direito internacional e, desde o início, militante do anticolonialismo e do anti-racismo, eu me opunho ao apartheid, mas o homem que liderava a luta ainda não tinha um rosto para mim. No Festival de Nancy, encontre Jean Guiloineau, diretor do Grupo de Teatro Antigo da Sorbonne, que ia apresentar Ajax, de Sófocles. Grande conhecedor da África do Sul, ele traçou para mim o retrato de Mandela, cujas memórias viria a traduzir muitos anos depois. Sua admiração pelo prisioneiro de Robben Island me impressionou muito. Talvez tenha sido a forma como se deu esse primeiro encontro o que me levou a perceber dede o início o gosto que o líder africano manifestou durante toda sua vida pela cultura e pelo teatro. E a colocar minha narrativa sob a invocação da dramaturgia universal, de Sófocles a Corneille e de Shakespeare a Cesaire.
Aparementemente, a paixão pela arte não é uma característica importante de Nelson Mandela. Os analistas a negligenciam, com frequência, mas eu acho que se trata de uma das chaves de sua personalidade. Quando ele era estudante, representou, numa companhia amadora, o papel de assassino do presidente Lincoln. “Meu papel era pequeno, mas eu era o elemento motor da moral da peça, segundo a qual os homens que assumem grandes riscos devem estar preparados para as pesadas consequências daí decorrentes.” Ele continuou sendo o elemento motor o resto da vida.

Como a esta hora a maioria de vocês já ficaram sabendo, morreu ontem o líder sul-africano Nelson Mandela, um dos personagens que com sua vida e atuação resumem parte do século 20. Em sua condição de símbolo planetário, Mandela sempre foi alvo de grande atenção pública – primeiro com a comunidade internacional protestando contra seu confinamento, depois, ao provar na prática que poderia ser o governante de um tempo em que as pesadas e infames feridas do Apartheid pudessem cicatrizar – ainda que demoradamente, em um processo que não acabou até hoje.

Um personagem dessa dimensão não poderia, portanto, deixar de ser alvo de um bom número de biografias. Já deve andar perto da centena o número de livros publicados sobre o ex-prisioneiro que se tornou presidente e símbolo de uma das vitórias da Humanidade contra a Barbárie (infelizmente elas são menos do que gostaríamos). Muitas delas já têm tradução no país – Mandela é provavelmente uma das personalidades estrangeiras com o maior número de histórias de sua vida editadas por aqui. Uma delas é o livro de onde foi extraído o trecho que vocês leram acima: Mandela – uma Lição de Vida, de Jack Lang (Tradução de  Rubia Prates Goldoni, Mundo Editorial, 240 páginas) – um livro que tem lá seu tom de particularidade interessante porque Lang não é um biógrafo comum, é o ex-ministro da Cultura da França, e estrutura sua biografia de Mandela como quatro atos correspondentes a mitos históricos da dramaturgia ocidental: Antígona no primeiro; Espártaco no segundo; Prometeu acorrentado no terceiro e o sonhador Próspero de Shakespeare no quarto. O quinto o apresenta como o protótipo do rei sábio presente em muitas culturas.

Menos ambiciosa intelectualmente, mas com maior poder de comoção talvez seja Mandela, Retrato Autorizado, de Mac Marahaj e Ahamed Kathrada (Tradução de Alexandre Moschella e Joana Canedo. Editora Alles Trade, 356 páginas) – um livro que, como seu título já anuncia, é um texto autorizado pelo próprio Mandela e que trabalha para construir a imagem épica do estadista africano, seja por meio de narrativa de sua vida em tons elevados, seja com depoimentos de personalidades que conheceram Mandela, como o bispo sul-africano Desmond Toutou, o presidente dos Estados Unidos Bill Clinton e o cantor Bono Vox ou ainda por uma ampla coleção de imagens da trajetória de Mandela. É o Mandela “oficial” dos livros de história, o líder aclamado por um mundo abismado com a força de sua trajetória e de seu exemplo.

MandelaA mais recente biografia de Mandela a aportar nas livrarias brasileiras é Mandela: O Homem, a História e o  Mito, de Elleke Boehmer (Tradução de Denise Bottmann, L&PM, 224 páginas). É uma biografia que tenta avançar além da biografia de estilo jornalístico, mesclando os relatos sobre a vida de Mandela com interpretações históricas e acadêmicas sobre sua trajetória. É um dos textos desta série mais sólidos em analisar as circunstâncias e o pano de fundo da trajetória de Mandela para além do binômio “homem x mito” estabelecido pela persona pública do político sul-africano após a sua libertação. Não se tem aqui nem o herói admirável nem o militante de atuação controversa. Mandela é mostrado – a certa altura, em paralelo com Gandhi – como um personagem que lutava contra o imperialismo que, a seu modo, o tornou possível. Após décadas de domínio opressor, formou-se, a duras penas, uma massa crítica de figuras de proa nascidas no país com vontade de questionar o sistema em que viviam. Uma boa biografia para quem quer mergulhar em um panorama geral de Mandela e seu tempo.

mandela (1)Outra biografia, esta narrada por meio das próprias palavras do estadista sul-africano é Mandela: Conversas que Tive Comigo (Tradução de Ângela Lobo de Andrade, Nivaldo Montingelli Jr. e Ana Deiró. Rocco, 415 páginas), compilação de cartas e documentos pessoais de Mandela, gravações e depoimentos reunidos pela fundação que leva seu nome e reúne reflexões do personagem sobre o lado íntimo de seu sofrimento: a ausência na vida da família por quase três décadas de prisão imposta pelo regime racista do apartheid; os conflitos de uma vida dividida entre a luta política e a família – essa oposição, em configurações diferentes, levaria ao fim de dois casamentos, com Evelyn Mase ( 1944 a 1957) e Winnie Mandela (1957 – 1996). Embora o material tenha sido compilado por uma instituição oficial ligada a Mandela, o tom não é celebratório ou condescendente. Há diversas passagens em que Mandela faz uma autoanálise bastante dura sobre seus anos de juventude – e fala muito, também, sobre a dor de quase três décadas de encarceramento. Um texto sobre o livro pode ser lido aqui:

Esse é apenas um dos livros em que se pode ler a vida de Mandela pelas palavras dele próprio. Como menciona o biógrafo Lang no texto citado, Mandela foi também um um esteta além de estadista. Suas memórias foram publicadas nos Brasil também há duas décadas, pela Globo, com o nome de Nelson Mandela: A Luta é a Minha Vida - mas hoje duvido que se ache fora de sebo ou da Estante Virtual. E há uns dois anos a Martins Editora publicou uma coletânea de contos infanto-juvenis escolhidos pelo próprio Mandela, com o nome de Meus Contos Africanos (Tradução de Luciana Garcia, 156 páginas, R$ 54,80), reunindo histórias tradicionais do continente.

Há ainda Conquistando o Inimigo: Nelson Mandela e o Jogo que Uniu a África do Sul, de John Carlin, que inspirou o filme Invictus, de Clint Eastwood, e sobre o qual já publicamos um texto aqui.

Luta pela vida em meio à guerra

12 de novembro de 2013 0
Cena da graphic novel O Boxeador, de Reinhard Kleist

Cena da graphic novel O Boxeador, de Reinhard Kleist

Texto de Cristina Duarte 

Vem dos ringues a mais recente graphic novel do quadrinista alemão Reinhard Kleist. Em O Boxeador – A História Real de Hertzko Haft, descobrimos um aspecto pouco conhecido da crueldade dos campos de concentração da II Guerra Mundial.

Os prisioneiros eram obrigados a participar de lutas de boxe para a diversão dos oficiais nazistas. Foi em um desses campos que o judeu polônes Haft descobriu a vocação para o esporte. Publicado este ano no Brasil, a obra foi lançada na Bienal do Rio com a presença do autor, que também assina o livro Johnny Cash – Uma Biografia.

Toda em preto e branco, a narrativa elaborada por Kleist a partir da biografia Um Dia Eu Contarei Tudo: a História de Sobrevivência do Boxeador Judeu Hertzko Haft, de Alan Scott Haft, ainda inédita no Brasil, comove pela crueza com que a vida do prisioneiro é apresentada. Diante da perversidade do contexto da guerra, na narrativa da história real do pugilista não poderia faltar as muitas dores: a separação forçada da família, a tortura cotidiana nos campos de concentração, o desespero pela sobrevivência, a fome e ainda a saudade de um amor juvenil nunca vivido com a mesma intensidade com que era lembrado.

Amor esse que era a motivação de vida do boxeador após o término do conflito, quando viaja para os Estados Unidos atrás da namorada. Haft torna-se então um pugilista profissional na esperança de que a fama e as aparições nos jornais cheguem até sua amada, também imigrante na América.

A obra é a quarta graphic novel do autor lançada pela 8INVERSO Graphics – linha editorial dedicada aos quadrinhos. O livro recebeu o Prêmio Peng! 2013 do Festival de Quadrinhos de Munique como melhor álbum em língua alemã, o grande prêmio 2013 do Festival de Quadrinhos de Lyon e o recente e mais prestigiado Prêmio Alemão de Literatura Juvenil, na categoria não ficção. Este último veio em um momento em que os quadrinistas alemães fazem um movimento para que o HQ seja incluído na categoria arte, independente da literatura.

A Alemanha é o país homenageado na 59ª Feira do Livro de Porto Alegre. O Boxeador… pode ser encontrado na banca 8Inverso.

boxeador capa frente real

Top 5 - Biografias

03 de novembro de 2013 0

E como biografia parece o assunto do mês, vai aqui uma lista de cinco bons exemplares do gênero no Brasil:

biopoeta1Vinícius: O Poeta da Paixão
Esta obra de José Castello não ficou isenta de polêmicas, uma vez que foi alvo de críticas de uma das filhas (que considerou o retrato de seu pai dissoluto muito ameno) e da irmã de Vinicius (que considerou que o relato pesa a mão em aspectos menos nobres do personagem, principalmente o alcoolismo). Continua, entretanto, a ser a principal fonte sobre a vida e a obra do “poetinha”.

 2  – Sinfonia de Minas Gerais
Só recentemente o escritor goiano Alaor Barbosa conseguiu a liberação na justiça de uma das mais completas obras sobre a vida e a literatura de Guimarães Rosa. Descontentes com o papel assumido no livro pela segunda esposa de Rosa, Aracy, as duas filhas de seu primeiro casamento, com Lygia,  acionaram a Justiça tentando impedir a circulação da obra.

 3 – Machado de Assis: Vida e Obra
O maior escritor do Brasil ainda precisa de uma moderna e consistente biografia – a de Daniel Piza, lançada há alguns anos, não alcançou esse patamar. Por isso, o que de melhor ainda se tem é este trabalho de fôlego de R. Magalhães Júnior, em 4 volumes.

bioanjo4 _ O Anjo Pornográfico
Uma das melhores obras de Ruy Castro, um dos responsáveis pelo amadurecimento do gênero biográfico no Brasil, consegue contornar a dificuldade de escrever sobre a vida de Nelson Rodrigues, um autor que tanto já havia escrito sobre sua própria vida.

 5 _ Chatô: O Rei do Brasil
Por vezes, parece que Fernando Morais se embrenhou tanto na vida do magnata da imprensa nacional Assis Chateaubriand que não quis deixar nada de fora, o que justifica a extensão desta obra – apesar disto, completa como biografia e como fascinante recorte de um período da História nacional.

Sobre as vidas dos outros

03 de novembro de 2013 0
Biografias tem atraído interesse do público na Feira. Foto: Carlos André Moreira

Biografias tem atraído interesse do público na Feira. Foto: Carlos André Moreira

Quando parece que ninguém mais aguenta falar sobre a polêmica das biografias, um fato novo reacende o debate, como foi o caso do artigo de Caetano Veloso no Globo deste domingo criticando a aparente mudança de postura de Roberto Carlos. Ambos integram o Procure Saber, que tem se posicionado a favor da manutenção dos artigos do Código Civil que exigem autorização do biografado para publicar biografias.

Na Praça, um dos efeitos insuspeitados da polêmica parece ter sido uma procura maior do público justamente por… biografias. Embora o ramo do gênero dedicado a artistas pop sempre tenha atraído o interesse, a procura parece agora ser mais ampla.

– Sempre vendo bem biografias de músicos de rock. Há anos que a do Michael Jackson é muito procurada. Figuras da realeza também costumam despertar interesse. Mas este ano tem muita gente vindo atrás do Getúlio ou de qualquer biografia, independente de gênero – diz o livreiro Vitor Zandomeneghi, da livraria Terceiro Mundo.

Na Praça, é fácil encontrar um bom punhado de biografias não autorizadas publicadas no estrangeiro, principalmente nos EUA, onde a biografia não oficial é praticamente um gênero editorial próprio. Há desde a história do Led Zeppelin,
Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra, que praticamente encerrou a amizade entre Mick Wall e o guitarrista Jimmy Page depois de publicada, até mais de uma dedicada a Justin Bieber (o tempora…) e a algo chamado The Wanted, que julgo ser um grupo musical, mas não tenho certeza.

Justamente pela natureza candente da discussão no Brasil, é mais difícil encontrar biografias não autorizadas nacionais. Há, é claro, a de José Dirceu escrita por Otávio Cabral, e não muito mais. Gilberto Gil, uma das vozes do grupo Procure Saber, pode ser encontrado em Gilberto Bem Perto – biografia autorizada pelo músico e escrita em colaboração com Regina Zappa. Há a biografia de Tim Maia  escrita por Nelson Motta e autorizada pela família do “síndico”. É impossível, em um rápido passeio pela Praça, não lembrar de uma declaração de Paulo César Araújo, autor da recolhida Roberto Carlos em Detalhes: do jeito que o Procure Saber apresenta a coisa, parece que há uma indústria inteira de biografias não autorizadas a acossá-lo de todos os lados. Pelo que se vê nas bancas da Feira, a impressão não se confirma.

O Sabbath nas origens do Metal

09 de outubro de 2013 0
Fonte: Castle Communications

O Black Sabbath com sua formação original: Ward, Butler, Ozzy e Iommi

Texto de Roberto Jardim

Death, thrash, black, doom ou qualquer outro ritmo pesado e rápido completado pela palavra metal tiveram como um de seus marcos fundadores a banda Black Sabbath. Com show anunciado para este dia 9 de outubro em Porto Alegre, um dos maiores grupos de metal em atividade é tema do recém-lançado livro de Joel McIver, Sabbath Bloody Sabbath.  McIver começa seu relato pela infância de Ozzy Osbourne – John, quando criança. O autor lamenta não ter tido acesso direto a Ozzy. Mas a extensa pesquisa, que inclui dezenas de entrevistas do cantor a jornais, revistas, rádios e redes de TV, ajuda a montar o cenário no qual o vocalista e os outros três integrantes do grupo – o baterista Bill Ward, o baixista Geezer Butler e o reverenciado guitarrista Tony Iommi – se conheceram, formaram e formataram o som que marcou o heavy metal e seus subgêneros.

Os quatro integrantes originais da banda nasceram em Aston, um subúrbio de Birmingham, na Inglaterra, e o grande mérito de McIver é mostrar como o som do Black Sabbath foi moldado por aquele ambiente sem perspectivas, onde o futuro dos moradores era trabalhar horas a fio nas indústrias locais e beber nos pubs. Uma saída para diminuir o estresse de crescer entre brigas familiares, encrencas e violência era a música. O peso do som do Black Sabbath Earth na origem, o grupo foi rebatizado com o nome de um filme de terror que passava em um cinema em frente ao local onde os quatro se reuniam para ensaiar – também vem de um acidente vivido por Tony. Às vésperas de estrear como guitarrista profissional, aos 17 anos, ele trabalhava como operador de prensa e ficou com a mão direita presa na máquina.  Resultado: teve partes dos dedos médio e anular amputados. Para voltar a tocar,o que só aconteceu meses depois, improvisou dedais, feitos de garrafas plásticas derretidas, para fazer as notas no braço da guitarra – Tony é canhoto. Só que, para não forçar as cordas e arrebentá-las, deixou a afinação da sua guitarra mais grave, tornando o som mais pesado.

A história da banda é contada em três partes. A primeira, entre os anos de 1948 e 1978, mostra as origens de cada integrante – com as mudanças de formação, o mesmo é feito com os novos membros, falando da infância e da experiência musical até entrarem no grupo. A segunda parte enfoca os anos entre 1979 e 1992: são relatadas as inúmeras trocas de formações, com o acompanhamento, em paralelo, da carreira solo de Ozzy Osbourne, que, em certos momentos, chega a ter mais sucesso do que o grupo. Por fim,a parte três traz os anos de 19932011, quando foi planejada uma volta da formação original – no show que passará pela Capital.

Em 31 capítulos, McIver percorre as gravações de cada disco, analisa a repercussão dos trabalhos e relata o troca-troca de integrantes nas mais de 10 formações da banda desde a saída de Ozzy – o único a se manter sempre no grupo foi Tony Iommi. O autor, porém, poderia ter o mesmo zelo ao detalhar as desavenças que levaram à separação da formação original. Na parte do sexo e drogas, também deixa a desejar, relatando só de passagem os problemas que os membros do Sabbath enfrentaram. Peca ainda ao listar apenas os lançamentos de discos no Reino Unido – antes da internet,os grupos tinham lançamentos diferenciados em cada país. Falta, principalmente, uma lista de vídeos e documentários sobre uma banda fundadora do heavy metal.

O Livro Sabbath Bloody Sabbath, de Joel McIver

O Livro Sabbath Bloody Sabbath, de Joel McIver

Anatomia de um fim

29 de novembro de 2012 0

Texto de Cláudio Rabin

Quando Christopher Hitchens morreu, em 15 de dezembro de 2011, a notícia se espalhou pela internet com a mesma força das palavras que um dia ele fora capaz de expressar. Agora, a voz do jornalista britânico volta a se projetar nas livrarias brasileiras com o lançamento do livro Últimas Palavras (editora Globo Livros, 96 páginas), que reúne seus artigos derradeiros publicados na revista americana Vanity Fair (todos disponíveis em inglês no site da publicação), nos quais narra a descoberta e o tratamento de um agressivo câncer no esôfago.

As palavras finais do jornalista britânico não foram de esperança nem de autocomiseração ou arrependimento. Foram fiéis ao autor: provocativas, céticas e coerentes com sua trajetória intelectual. Hitchens não pediu água ao além, a divindades ou a qualquer religião – objetos de ataques e ironias frequentes do autor de Deus Não é Grande.

Antes: aspectos da própria mortalidade (aliás, o título do livro em inglês é Mortality), e o que representou seu encontro com o câncer em termos físicos e morais é o principal assunto dos ensaios. Ironiza eufemismos médicos como “equipe de gestão de dor”, quando narra as consequências de um tratamento de ponta que lhe permite viver um pouco mais, mas que parece uma forma de tortura. A memória da dor, ele escreve, o fez repensar se teria optado pelo tratamento caso soubesse pelo que passaria. O paradoxo, o jornalista pondera, é que a recusa significaria a própria extinção.

Provavelmente é uma misericórdia que a dor seja impossível de descrever de memória. Também é impossível alertar contra ela“, registra, deixando impresso na memória do leitor o nível de sofrimento físico que uma doença terminal pode causar.

Pela verborragia agressiva, rapidez na escrita e capacidade de intelectual, Hitchens lembra, de certo modo, Paulo Francis. Sua origem e seu talento, porém, são distintos: longe de ser um ensaísta ou cronista, ele segue a tradição do também inglês George Orwell (seu grande ídolo) de estar onde os conflitos acontecem e se guiar por uma moral política sem ceder ao partidarismo.

Foi assim que Hitch (apelido dado pelo escritor e amigo Martin Amis) surpreendeu os que acompanhavam sua carreira ao decidir, por exemplo, apoiar a Guerra do Iraque. Ele havia visto pessoalmente as covas coletivas criadas por Saddam Hussein depois de testar armas químicas na população curda. Por coerência, acreditou que o tirano deveria ser chutado do poder.

O apoio ao poder jamais seria acéfalo. Quando os Estados Unidos se engajaram no debate sobre tortura de prisioneiros acusados de terrorismo, o inglês se submeteu ao procedimento de waterboarding (um método de afogamento), apontou o dedo para as forças armadas americanas e escreveu um artigo cujo título era óbvio mas emblemático: “Acredite em mim, é tortura“. Na sua última coletânea de artigos, ele relembra a experiência e compara o medo que sentiu com alguns tipos de tratamento a que foi submetido.

Com o avanço da doença, se aproxima do fim sua persona. A voz sempre pronta para o debate, para a conversa, para o discurso, acompanha sua saúde e se esvai. “Certamente é morrer mais que um pouco“, relata no quinto capítulo. O cabelo, a massa muscular, a barba mal feita e até os pelos do nariz, vão embora juntos com suas forças.

O maior medo de Hitchens, ao receber uma dose de analgésico para reduzir a dor nas mãos, ele relata em um dos melhores momentos do livro, é não poder mais escrever. É a forma que este jornalista encontrou para existir no mundo. O silêncio forçado, portanto, era uma forma de morrer.

O capítulo final do livro é uma metáfora trágica do momento: não é um artigo como os anteriores. Suas últimas palavras são um conjunto de frases, referências e ideias que Hitchens, muito debilitado pelo câncer, não conseguiu completar. Quando não pôde mais escrever ou falar, quando não foi mais capaz de projetar suas palavras para o mundo, a chama se extinguiu.

Um trecho para hoje - Getúlio

06 de novembro de 2012 0

Uma visão retrospectiva dos fatos ajudaria a mostrar que, de fato, Getúlio se encontrava em considerável dívida política com Borges de Medeiros. Em 20 de fevereiro de 1921, fora reeleito para a Assembleia dos Representantes, com 78.381 votos (sexto colocado) e a necessária chancela do chefe do PRR. No ano seguinte, em outubro de 1922, tivera seu nome apontado, por decisão do mesmo Borges, para a Câmara Federal. Com a ajuda da máquina estadual republicana, foi confirmado nas urnas, por uma eleição extraordinária, para cumprir um mandato-tampão. Iria completar o período de pouco mais de um ano que restava do mandato pertencente originalmente ao deputado federal rio-grandense Rafael Cabeda, falecido em 12 de setembro de 1922. Portanto, Getúlio estava perto de trocar o Rio Grande do Sul pelo Rio de Janeiro.
“A esta hora estás eleito deputado federal, e tuas virtudes, lato sensu, reconhecidas e proclamadas”, escreveu-lhe Érico Ribeiro da Luz, ex-intendente de São Borja. “Bem se diz – e uma vez me repetiste – que para vencer, às vezes, basta esperar”, alegrava-se o amigo na carta a Getúlio.
É inegável que a escolha do nome de Getúlio Dornelles Vargas para a Câmara obedecia a uma série de conveniências do borgismo. A rigor, pela lera exata da lei, Getúlio – ou qualquer outro filiado ao PRR – não poderia sequer ter concorrido ao carto de deputado federal naquele momento. Isso porque o partido comandado por Borges já dispunha de quatro das cinco cadeiras relativas ao terceiro distrito eleitoral do Rio Grande. Como a quanta cadeira pertencera ao oposicionista Cabeda e a Constituição Federal assegurava o direito de representação das minorias, a vaga teria que obrigatoriamente ser preenchida por outro representante dos federalistas.
“O candidato apresentado pelo Partido Republicano Rio-grandense é um verdadeiro intruso, um pretendente à usurpação dos direitos da minoria”, protestou a posição, em ofício às mesas eleitorais.
A reclamação foi ignorada e Getúlio, declarado eleito. Havia poucos meses, ainda no fim de 1921, ele seguira a orientação ditada por Borges de Medeiros, quando da campanha pela sucessão do então presidente da República, Epitácio Pessoa. O candidato oficial do Catete para as eleições presidenciais de 1922, apoiado por Minas Gerais e São Paulo, fora o mineiro Artur Bernardes, conforme o figurino de alternância do poder entre os dois estados mais poderosos na nação. Pessoa, a despeito de ser paraibano e apelidado pela imprensa de “Patativa do Norte”, recebera apoio dos cafeicultores paulistas, ao defender medidas de valorização permanente do produto no mercado internacional. Era, portanto, a vez de Minas dar as cartas, mantendo os termos do pacto inalterados. O gaúcho Borges de Medeiros, contudo, resolveu insurgir-se contra a hegemonia da conhecida “República do café com leite”.Borges aderiu à Reação Republicana, aliança que tentava construir um eixo alternativo de poder, composto pelo Rio de Janeiro e pelas oligarquias da Bahia e Pernambuco, estados que, um dia poderosos no Império, haviam aos poucos perdido relevância econômica e se tornado forças políticas periféricas após o advento da República, com a ascensão do baronato paulista do café. Ao somar-se a esse bloco, o emergente Rio Grande do Sul, por meio da resolução de Borges de Medeiros, declarou apoio oficial ao candidato oposicionista, o fluminense Nilo Peçanha, que durante a campanha pregou ardorosamente contra o “imperialismo dos grandes estados” e acenou com a promessa de “arrancar a República das mãos de alguns para as mãos de todos”.
João Francisco, a Hiena do Cati, voltou à cena  para recriminar a opção eleitoral de Borges: “Parece mentira mas é verdade! Borges de Medeiros está agora abraçado com o algoz de Pinheiro Machado”, escreveu, alardeando de novo a teoria conspiratória de que Nilo Peçanha estava por trás do assassinato do senador gaúcho. “Eu conhecia bem a hipocrisia do sr. Medeiros e sabia que ele e seus íntimos se sentiram melhor e até se regozijaram com o desaparecimento de Pinheiro Machado”, denunciou a Hiena. “Quando Pinheiro Machado caiu atravessado pelo punhal de um miserável sicário ao serviço de miseráveis políticos, Medeiros chorou lágrimas de crocodilo”, acusou João Francisco.
Getúlio, ainda líder do governo estadual na Assembleia dos Representantes, evitou uma resposta direta às acusações de João Francisco contra Nilo Peçanha, mas na sessão de 30 de novembro de 1921 partiu em defesa da candidatura presidencial abraçada por Borges de Medeiros, opção duramente criticada pela oposição interna dos federalistas rio-grandenses.
“Quando queremos a eleição de um nome nacional, escolhido em uma convenção livre, sem compromissos prévios, os federalistas se rebelam, opinando por um desconhecido”, condenou Getúlio, que julgava Artur Bernardes, governador de Minhas Gerais, uma insondável e perigosa incógnita.
Contra Bernardes havia um episódio rumoroso, no qual cartas atribuídas a ele desacatavam um ícone da caserna, o marechal Hermes da Fonseca, referido nas tais mensagens como um “sargentão sem compostura”, paparicado por oficiais que não passariam de um “canalha” que precisava “de uma reprimenda para entrar na disciplina”. As cartas, soube-se logo depois, eram escandalosamente falsas. Mas o estrago em relação à imagem de Bernardes junto aos militares já estava feito.
Não era isso, entretanto, que sustinha o discurso de Getúlio Vargas contra o candidato oficial ao Catete. Getúlio alegava que Bernardes não teria a expressão política e o conhecimento da questão nacional de Nilo Peçanha, já testado na presidência da República, mesmo brevemente, entre junho de 1909 e novembro de 1910, ao assumir, como vice, após a morte do então titular Afonso Pena.
“Vossas Excelências assinaram um cheque em branco para descontar no banco do Catete, em troca de favores oficiais”, acusou Getúlio em discurso na Assembleia dos Representantes, levantando desconfianças em torno dos reais motivos da preferência dos adversários federalistas pela candidatura de Artur Bernardes.

O trecho acima foi retirado das páginas 176, 177 e 178 do primeiro volume da biografia Getúlio, do jornalista Lira Neto (leia resenha do livro aqui). Também biógrafo de Padre Cícero, de José de Alencar e de Maysa, Lira Neto lançou em maio a biografia do maior personagem político do Brasil no século 20. Volta a Porto Alegre agora para participar de Feira em um dia lotado de atrações sobre a história remota ou recente do Brasil. Lira Neto conversa às 19h, na Sala dos Jacarandás do Memorial do Rio Grande do Sul, com a historiadora Mary Del Priore, que vem autografar em Porto Alegre seu recente estudo A Carne e o Sangue, sobre o triângulo amoroso entre Dom Pedro I e suas mulheres Imperatriz Leopoldina e Domitila de Castro e Canto Melo (leia entrevista com a autora aqui).

O dia também tem debate entre os jornalistas Leonencio Nossa, autor da reportagem Mata!, sobre a guerrilha do Araguaia, e Mario Magalhães, que vem lançar na Feira a biografia do líder guerrilheiro Carlos Marighella.

Maldito Fruto

11 de setembro de 2012 0

A diva Billie Holiday

Texto e entrevista de Cauê Marques

O ano é 1939. Com os Estados Unidos prestes a encarar a Segunda Guerra Mundial, crimes contra pessoas negras – abusos de autoridade, linchamentos e segregação social – eram comuns no país. Billie Holiday, a primeira grande diva do jazz, grava uma música que seria um divisor na história recente da música. Strange Fruit – Billie Holiday a Biografia de uma Canção, do jornalista americano David Margolick (Tradução de José Rubens Siqueira. Cosac Naify, 138 páginas, R$ 39,90), trata deste importante capítulo da carreira da intérprete americana.

Escrita por Abel Meeropol, um professor nova-iorquino, branco e judeu, Strange Fruit fala de um linchamento ocorrido no interior dos EUA, no estado de Indiana, em que os corpos de dois homens negros foram fotografados depois de um enforcamento público. A letra da canção, que descrevia em tristes versos a terrível situação, foi gravada por Billie Holiday em 1939 e acabou se tornando um dos símbolos da luta contra o preconceito nos EUA. Em todos os seus shows a partir desta data, Billie teria em Strange Fruit um elemento que a completava enquanto artista. Negra e de origem humilde, Billie parecia encarnar a tristeza da canção na sua voz. A história da música e a adoção dela por Holiday são o foco do livro. Lançada no Brasil pela editora Cosac Naify, a obra trata da influência e da amplitude que a mensagem da música alcançou com a ajuda de Billie Holiday. David Margolick explica como o compositor judeu nova-iorquino acabou conhecendo a maior cantora de jazz da época (e de todos os tempos), encontro que fez com que a luta pelos direitos dos negros na sociedade norte-americana fosse pauta de discussão dos grandes jornais das décadas de 1930/1940.

A pesquisa de Margolick sobre como surgiu Strange Fruit é minuciosa e alguns detalhes quase colocam o livro a perder em um dos capítulos, mas passadas essas páginas, o que o leitor encontra é uma série de depoimentos sobre como Holiday, que no início da década de 1940 já enfrentava problemas com álcool e heroína, arrebatou plateias com a canção-denúncia. O livro, com acabamento caprichado, é mais um documento da biografia da primeira grande voz feminina do jazz, além de contextualizar a importância da arte como parte das mudanças sociais.

Leia abaixo entrevista com o autor do livro, concedida por telefone, e ao fim do post assista a uma rara filmagem de Billie Holiday interpretando a canção:

Mundo Livro – Por que o senhor quis pesquisar sobre a canção? Quando começou seu interesse pela música Strange Fruit e a história com Billie Holiday?
David Margolick – Eu me interessava pelo assunto havia anos. Sabia da música, sempre fui curioso sobre a história. Eu escrevi um artigo sobre o filho de Abel Meeropol, autor da música, para o jornal norte-americano “The New York Times” durante os anos 1990. Tive a oportunidade de conhecer Robbie Meeropol e me lembro de ter conversado com ele sobre a música. Ele me deu um livro de poesias do seu pai naquela situação. Então, este assunto ficou na minha cabeça durante anos antes de eu escrever o livro. Gosto de jazz e de música, mas sou bastante interessado sobre a história dos direitos civis, e a história da América – da história dos judeus e do radicalismo americano. Todos esses tópicos se encontram na história da música.

Mundo Livro – Casos de músicas que mudam o pensamento das pessoas ou abraçam uma causa ainda são possíveis nos dias de hoje?
Margolick –
Acho que a consciência do público está saturada nos dias atuais. Acho que é muito mais difícil de afirmar algo com uma música do que era antigamente, a indústria da música é muito mais restrita atualmente do que naqueles tempos. Ela era controlada por poucas pessoas. Era muito mais fácil de se destacar com uma música antigamente. Atualmente, em termos musicais, já se discutiu quase tudo. Chocar as pessoas hoje seria mais difícil.

Mundo Livro – O trabalho de Billie em StrangeFruit inspirou outros artistas que vieram depois dela?
Margolick –
Bem, esta canção é um elemento estranho na carreira dela. Era completamente atípico para a época, e ela não fez nada parecido em toda a sua carreira, mas ao mesmo tempo parecia que aquilo havia se tornado a vida dela. Ela personificou a música, a tristeza de Strange Fruit parecia ser a tristeza vivida por Billie. Ela nunca foi uma ativista política, mas essa música e a vida dela falavam por si.

Mundo Livro – Os artistas negros de hoje ainda enfrentam preconceito como Billie enfrentava?
Margolick
– Não sou especialista neste assunto, mas entendo que em nações com muitas misturas étnicas, como os Estados Unidos ou o Brasil, o preconceito nunca desaparecerá por completo. É o tipo de coisa que pode afetar qualquer pessoa de outra etnia. E é por isso que músicas como Strange Fruit são simbólicas – não porque ainda existam linchamentos acontecendo nas ruas, mas porque o preconceito de que fala a música é o tipo de coisa com que a humanidade terá de lutar continuamente ao longo da história, é o tipo de coisa que nunca desaparecerá definitivamente.

Veja abaixo Billie Holiday interpretando a canção Strange Fruit: