Texto de Cláudio Rabin
Quando Christopher Hitchens morreu, em 15 de dezembro de 2011, a notícia se espalhou pela internet com a mesma força das palavras que um dia ele fora capaz de expressar. Agora, a voz do jornalista britânico volta a se projetar nas livrarias brasileiras com o lançamento do livro Últimas Palavras (editora Globo Livros, 96 páginas), que reúne seus artigos derradeiros publicados na revista americana Vanity Fair (todos disponíveis em inglês no site da publicação), nos quais narra a descoberta e o tratamento de um agressivo câncer no esôfago.
As palavras finais do jornalista britânico não foram de esperança nem de autocomiseração ou arrependimento. Foram fiéis ao autor: provocativas, céticas e coerentes com sua trajetória intelectual. Hitchens não pediu água ao além, a divindades ou a qualquer religião – objetos de ataques e ironias frequentes do autor de Deus Não é Grande.
Antes: aspectos da própria mortalidade (aliás, o título do livro em inglês é Mortality), e o que representou seu encontro com o câncer em termos físicos e morais é o principal assunto dos ensaios. Ironiza eufemismos médicos como "equipe de gestão de dor", quando narra as consequências de um tratamento de ponta que lhe permite viver um pouco mais, mas que parece uma forma de tortura. A memória da dor, ele escreve, o fez repensar se teria optado pelo tratamento caso soubesse pelo que passaria. O paradoxo, o jornalista pondera, é que a recusa significaria a própria extinção.
"Provavelmente é uma misericórdia que a dor seja impossível de descrever de memória. Também é impossível alertar contra ela", registra, deixando impresso na memória do leitor o nível de sofrimento físico que uma doença terminal pode causar.
Pela verborragia agressiva, rapidez na escrita e capacidade de intelectual, Hitchens lembra, de certo modo, Paulo Francis. Sua origem e seu talento, porém, são distintos: longe de ser um ensaísta ou cronista, ele segue a tradição do também inglês George Orwell (seu grande ídolo) de estar onde os conflitos acontecem e se guiar por uma moral política sem ceder ao partidarismo.
Foi assim que Hitch (apelido dado pelo escritor e amigo Martin Amis) surpreendeu os que acompanhavam sua carreira ao decidir, por exemplo, apoiar a Guerra do Iraque. Ele havia visto pessoalmente as covas coletivas criadas por Saddam Hussein depois de testar armas químicas na população curda. Por coerência, acreditou que o tirano deveria ser chutado do poder.
O apoio ao poder jamais seria acéfalo. Quando os Estados Unidos se engajaram no debate sobre tortura de prisioneiros acusados de terrorismo, o inglês se submeteu ao procedimento de waterboarding (um método de afogamento), apontou o dedo para as forças armadas americanas e escreveu um artigo cujo título era óbvio mas emblemático: "Acredite em mim, é tortura". Na sua última coletânea de artigos, ele relembra a experiência e compara o medo que sentiu com alguns tipos de tratamento a que foi submetido.
Com o avanço da doença, se aproxima do fim sua persona. A voz sempre pronta para o debate, para a conversa, para o discurso, acompanha sua saúde e se esvai. "Certamente é morrer mais que um pouco", relata no quinto capítulo. O cabelo, a massa muscular, a barba mal feita e até os pelos do nariz, vão embora juntos com suas forças.
O maior medo de Hitchens, ao receber uma dose de analgésico para reduzir a dor nas mãos, ele relata em um dos melhores momentos do livro, é não poder mais escrever. É a forma que este jornalista encontrou para existir no mundo. O silêncio forçado, portanto, era uma forma de morrer.
O capítulo final do livro é uma metáfora trágica do momento: não é um artigo como os anteriores. Suas últimas palavras são um conjunto de frases, referências e ideias que Hitchens, muito debilitado pelo câncer, não conseguiu completar. Quando não pôde mais escrever ou falar, quando não foi mais capaz de projetar suas palavras para o mundo, a chama se extinguiu.


















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