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Posts na categoria "Biografia"

Anatomia de um fim

29 de novembro de 2012 0

Texto de Cláudio Rabin

Quando Christopher Hitchens morreu, em 15 de dezembro de 2011, a notícia se espalhou pela internet com a mesma força das palavras que um dia ele fora capaz de expressar. Agora, a voz do jornalista britânico volta a se projetar nas livrarias brasileiras com o lançamento do livro Últimas Palavras (editora Globo Livros, 96 páginas), que reúne seus artigos derradeiros publicados na revista americana Vanity Fair (todos disponíveis em inglês no site da publicação), nos quais narra a descoberta e o tratamento de um agressivo câncer no esôfago.

As palavras finais do jornalista britânico não foram de esperança nem de autocomiseração ou arrependimento. Foram fiéis ao autor: provocativas, céticas e coerentes com sua trajetória intelectual. Hitchens não pediu água ao além, a divindades ou a qualquer religião – objetos de ataques e ironias frequentes do autor de Deus Não é Grande.

Antes: aspectos da própria mortalidade (aliás, o título do livro em inglês é Mortality), e o que representou seu encontro com o câncer em termos físicos e morais é o principal assunto dos ensaios. Ironiza eufemismos médicos como "equipe de gestão de dor", quando narra as consequências de um tratamento de ponta que lhe permite viver um pouco mais, mas que parece uma forma de tortura. A memória da dor, ele escreve, o fez repensar se teria optado pelo tratamento caso soubesse pelo que passaria. O paradoxo, o jornalista pondera, é que a recusa significaria a própria extinção.

"Provavelmente é uma misericórdia que a dor seja impossível de descrever de memória. Também é impossível alertar contra ela", registra, deixando impresso na memória do leitor o nível de sofrimento físico que uma doença terminal pode causar.

Pela verborragia agressiva, rapidez na escrita e capacidade de intelectual, Hitchens lembra, de certo modo, Paulo Francis. Sua origem e seu talento, porém, são distintos: longe de ser um ensaísta ou cronista, ele segue a tradição do também inglês George Orwell (seu grande ídolo) de estar onde os conflitos acontecem e se guiar por uma moral política sem ceder ao partidarismo.

Foi assim que Hitch (apelido dado pelo escritor e amigo Martin Amis) surpreendeu os que acompanhavam sua carreira ao decidir, por exemplo, apoiar a Guerra do Iraque. Ele havia visto pessoalmente as covas coletivas criadas por Saddam Hussein depois de testar armas químicas na população curda. Por coerência, acreditou que o tirano deveria ser chutado do poder.

O apoio ao poder jamais seria acéfalo. Quando os Estados Unidos se engajaram no debate sobre tortura de prisioneiros acusados de terrorismo, o inglês se submeteu ao procedimento de waterboarding (um método de afogamento), apontou o dedo para as forças armadas americanas e escreveu um artigo cujo título era óbvio mas emblemático: "Acredite em mim, é tortura". Na sua última coletânea de artigos, ele relembra a experiência e compara o medo que sentiu com alguns tipos de tratamento a que foi submetido.

Com o avanço da doença, se aproxima do fim sua persona. A voz sempre pronta para o debate, para a conversa, para o discurso, acompanha sua saúde e se esvai. "Certamente é morrer mais que um pouco", relata no quinto capítulo. O cabelo, a massa muscular, a barba mal feita e até os pelos do nariz, vão embora juntos com suas forças.

O maior medo de Hitchens, ao receber uma dose de analgésico para reduzir a dor nas mãos, ele relata em um dos melhores momentos do livro, é não poder mais escrever. É a forma que este jornalista encontrou para existir no mundo. O silêncio forçado, portanto, era uma forma de morrer.

O capítulo final do livro é uma metáfora trágica do momento: não é um artigo como os anteriores. Suas últimas palavras são um conjunto de frases, referências e ideias que Hitchens, muito debilitado pelo câncer, não conseguiu completar. Quando não pôde mais escrever ou falar, quando não foi mais capaz de projetar suas palavras para o mundo, a chama se extinguiu.

Um trecho para hoje - Getúlio

06 de novembro de 2012 0

Uma visão retrospectiva dos fatos ajudaria a mostrar que, de fato, Getúlio se encontrava em considerável dívida política com Borges de Medeiros. Em 20 de fevereiro de 1921, fora reeleito para a Assembleia dos Representantes, com 78.381 votos (sexto colocado) e a necessária chancela do chefe do PRR. No ano seguinte, em outubro de 1922, tivera seu nome apontado, por decisão do mesmo Borges, para a Câmara Federal. Com a ajuda da máquina estadual republicana, foi confirmado nas urnas, por uma eleição extraordinária, para cumprir um mandato-tampão. Iria completar o período de pouco mais de um ano que restava do mandato pertencente originalmente ao deputado federal rio-grandense Rafael Cabeda, falecido em 12 de setembro de 1922. Portanto, Getúlio estava perto de trocar o Rio Grande do Sul pelo Rio de Janeiro.
"A esta hora estás eleito deputado federal, e tuas virtudes, lato sensu, reconhecidas e proclamadas", escreveu-lhe Érico Ribeiro da Luz, ex-intendente de São Borja. "Bem se diz – e uma vez me repetiste – que para vencer, às vezes, basta esperar", alegrava-se o amigo na carta a Getúlio.
É inegável que a escolha do nome de Getúlio Dornelles Vargas para a Câmara obedecia a uma série de conveniências do borgismo. A rigor, pela lera exata da lei, Getúlio – ou qualquer outro filiado ao PRR – não poderia sequer ter concorrido ao carto de deputado federal naquele momento. Isso porque o partido comandado por Borges já dispunha de quatro das cinco cadeiras relativas ao terceiro distrito eleitoral do Rio Grande. Como a quanta cadeira pertencera ao oposicionista Cabeda e a Constituição Federal assegurava o direito de representação das minorias, a vaga teria que obrigatoriamente ser preenchida por outro representante dos federalistas.
"O candidato apresentado pelo Partido Republicano Rio-grandense é um verdadeiro intruso, um pretendente à usurpação dos direitos da minoria", protestou a posição, em ofício às mesas eleitorais.
A reclamação foi ignorada e Getúlio, declarado eleito. Havia poucos meses, ainda no fim de 1921, ele seguira a orientação ditada por Borges de Medeiros, quando da campanha pela sucessão do então presidente da República, Epitácio Pessoa. O candidato oficial do Catete para as eleições presidenciais de 1922, apoiado por Minas Gerais e São Paulo, fora o mineiro Artur Bernardes, conforme o figurino de alternância do poder entre os dois estados mais poderosos na nação. Pessoa, a despeito de ser paraibano e apelidado pela imprensa de "Patativa do Norte", recebera apoio dos cafeicultores paulistas, ao defender medidas de valorização permanente do produto no mercado internacional. Era, portanto, a vez de Minas dar as cartas, mantendo os termos do pacto inalterados. O gaúcho Borges de Medeiros, contudo, resolveu insurgir-se contra a hegemonia da conhecida "República do café com leite".Borges aderiu à Reação Republicana, aliança que tentava construir um eixo alternativo de poder, composto pelo Rio de Janeiro e pelas oligarquias da Bahia e Pernambuco, estados que, um dia poderosos no Império, haviam aos poucos perdido relevância econômica e se tornado forças políticas periféricas após o advento da República, com a ascensão do baronato paulista do café. Ao somar-se a esse bloco, o emergente Rio Grande do Sul, por meio da resolução de Borges de Medeiros, declarou apoio oficial ao candidato oposicionista, o fluminense Nilo Peçanha, que durante a campanha pregou ardorosamente contra o "imperialismo dos grandes estados" e acenou com a promessa de "arrancar a República das mãos de alguns para as mãos de todos".
João Francisco, a Hiena do Cati, voltou à cena  para recriminar a opção eleitoral de Borges: "Parece mentira mas é verdade! Borges de Medeiros está agora abraçado com o algoz de Pinheiro Machado", escreveu, alardeando de novo a teoria conspiratória de que Nilo Peçanha estava por trás do assassinato do senador gaúcho. "Eu conhecia bem a hipocrisia do sr. Medeiros e sabia que ele e seus íntimos se sentiram melhor e até se regozijaram com o desaparecimento de Pinheiro Machado", denunciou a Hiena. "Quando Pinheiro Machado caiu atravessado pelo punhal de um miserável sicário ao serviço de miseráveis políticos, Medeiros chorou lágrimas de crocodilo", acusou João Francisco.
Getúlio, ainda líder do governo estadual na Assembleia dos Representantes, evitou uma resposta direta às acusações de João Francisco contra Nilo Peçanha, mas na sessão de 30 de novembro de 1921 partiu em defesa da candidatura presidencial abraçada por Borges de Medeiros, opção duramente criticada pela oposição interna dos federalistas rio-grandenses.
"Quando queremos a eleição de um nome nacional, escolhido em uma convenção livre, sem compromissos prévios, os federalistas se rebelam, opinando por um desconhecido", condenou Getúlio, que julgava Artur Bernardes, governador de Minhas Gerais, uma insondável e perigosa incógnita.
Contra Bernardes havia um episódio rumoroso, no qual cartas atribuídas a ele desacatavam um ícone da caserna, o marechal Hermes da Fonseca, referido nas tais mensagens como um "sargentão sem compostura", paparicado por oficiais que não passariam de um "canalha" que precisava "de uma reprimenda para entrar na disciplina". As cartas, soube-se logo depois, eram escandalosamente falsas. Mas o estrago em relação à imagem de Bernardes junto aos militares já estava feito.
Não era isso, entretanto, que sustinha o discurso de Getúlio Vargas contra o candidato oficial ao Catete. Getúlio alegava que Bernardes não teria a expressão política e o conhecimento da questão nacional de Nilo Peçanha, já testado na presidência da República, mesmo brevemente, entre junho de 1909 e novembro de 1910, ao assumir, como vice, após a morte do então titular Afonso Pena.
"Vossas Excelências assinaram um cheque em branco para descontar no banco do Catete, em troca de favores oficiais", acusou Getúlio em discurso na Assembleia dos Representantes, levantando desconfianças em torno dos reais motivos da preferência dos adversários federalistas pela candidatura de Artur Bernardes.

O trecho acima foi retirado das páginas 176, 177 e 178 do primeiro volume da biografia Getúlio, do jornalista Lira Neto (leia resenha do livro aqui). Também biógrafo de Padre Cícero, de José de Alencar e de Maysa, Lira Neto lançou em maio a biografia do maior personagem político do Brasil no século 20. Volta a Porto Alegre agora para participar de Feira em um dia lotado de atrações sobre a história remota ou recente do Brasil. Lira Neto conversa às 19h, na Sala dos Jacarandás do Memorial do Rio Grande do Sul, com a historiadora Mary Del Priore, que vem autografar em Porto Alegre seu recente estudo A Carne e o Sangue, sobre o triângulo amoroso entre Dom Pedro I e suas mulheres Imperatriz Leopoldina e Domitila de Castro e Canto Melo (leia entrevista com a autora aqui).

O dia também tem debate entre os jornalistas Leonencio Nossa, autor da reportagem Mata!, sobre a guerrilha do Araguaia, e Mario Magalhães, que vem lançar na Feira a biografia do líder guerrilheiro Carlos Marighella.

Maldito Fruto

11 de setembro de 2012 0

A diva Billie Holiday

Texto e entrevista de Cauê Marques

O ano é 1939. Com os Estados Unidos prestes a encarar a Segunda Guerra Mundial, crimes contra pessoas negras – abusos de autoridade, linchamentos e segregação social – eram comuns no país. Billie Holiday, a primeira grande diva do jazz, grava uma música que seria um divisor na história recente da música. Strange Fruit – Billie Holiday a Biografia de uma Canção, do jornalista americano David Margolick (Tradução de José Rubens Siqueira. Cosac Naify, 138 páginas, R$ 39,90), trata deste importante capítulo da carreira da intérprete americana.

Escrita por Abel Meeropol, um professor nova-iorquino, branco e judeu, Strange Fruit fala de um linchamento ocorrido no interior dos EUA, no estado de Indiana, em que os corpos de dois homens negros foram fotografados depois de um enforcamento público. A letra da canção, que descrevia em tristes versos a terrível situação, foi gravada por Billie Holiday em 1939 e acabou se tornando um dos símbolos da luta contra o preconceito nos EUA. Em todos os seus shows a partir desta data, Billie teria em Strange Fruit um elemento que a completava enquanto artista. Negra e de origem humilde, Billie parecia encarnar a tristeza da canção na sua voz. A história da música e a adoção dela por Holiday são o foco do livro. Lançada no Brasil pela editora Cosac Naify, a obra trata da influência e da amplitude que a mensagem da música alcançou com a ajuda de Billie Holiday. David Margolick explica como o compositor judeu nova-iorquino acabou conhecendo a maior cantora de jazz da época (e de todos os tempos), encontro que fez com que a luta pelos direitos dos negros na sociedade norte-americana fosse pauta de discussão dos grandes jornais das décadas de 1930/1940.

A pesquisa de Margolick sobre como surgiu Strange Fruit é minuciosa e alguns detalhes quase colocam o livro a perder em um dos capítulos, mas passadas essas páginas, o que o leitor encontra é uma série de depoimentos sobre como Holiday, que no início da década de 1940 já enfrentava problemas com álcool e heroína, arrebatou plateias com a canção-denúncia. O livro, com acabamento caprichado, é mais um documento da biografia da primeira grande voz feminina do jazz, além de contextualizar a importância da arte como parte das mudanças sociais.

Leia abaixo entrevista com o autor do livro, concedida por telefone, e ao fim do post assista a uma rara filmagem de Billie Holiday interpretando a canção:

Mundo Livro – Por que o senhor quis pesquisar sobre a canção? Quando começou seu interesse pela música Strange Fruit e a história com Billie Holiday?
David Margolick – Eu me interessava pelo assunto havia anos. Sabia da música, sempre fui curioso sobre a história. Eu escrevi um artigo sobre o filho de Abel Meeropol, autor da música, para o jornal norte-americano “The New York Times” durante os anos 1990. Tive a oportunidade de conhecer Robbie Meeropol e me lembro de ter conversado com ele sobre a música. Ele me deu um livro de poesias do seu pai naquela situação. Então, este assunto ficou na minha cabeça durante anos antes de eu escrever o livro. Gosto de jazz e de música, mas sou bastante interessado sobre a história dos direitos civis, e a história da América – da história dos judeus e do radicalismo americano. Todos esses tópicos se encontram na história da música.

Mundo Livro – Casos de músicas que mudam o pensamento das pessoas ou abraçam uma causa ainda são possíveis nos dias de hoje?
Margolick –
Acho que a consciência do público está saturada nos dias atuais. Acho que é muito mais difícil de afirmar algo com uma música do que era antigamente, a indústria da música é muito mais restrita atualmente do que naqueles tempos. Ela era controlada por poucas pessoas. Era muito mais fácil de se destacar com uma música antigamente. Atualmente, em termos musicais, já se discutiu quase tudo. Chocar as pessoas hoje seria mais difícil.

Mundo Livro – O trabalho de Billie em StrangeFruit inspirou outros artistas que vieram depois dela?
Margolick –
Bem, esta canção é um elemento estranho na carreira dela. Era completamente atípico para a época, e ela não fez nada parecido em toda a sua carreira, mas ao mesmo tempo parecia que aquilo havia se tornado a vida dela. Ela personificou a música, a tristeza de Strange Fruit parecia ser a tristeza vivida por Billie. Ela nunca foi uma ativista política, mas essa música e a vida dela falavam por si.

Mundo Livro – Os artistas negros de hoje ainda enfrentam preconceito como Billie enfrentava?
Margolick
– Não sou especialista neste assunto, mas entendo que em nações com muitas misturas étnicas, como os Estados Unidos ou o Brasil, o preconceito nunca desaparecerá por completo. É o tipo de coisa que pode afetar qualquer pessoa de outra etnia. E é por isso que músicas como Strange Fruit são simbólicas – não porque ainda existam linchamentos acontecendo nas ruas, mas porque o preconceito de que fala a música é o tipo de coisa com que a humanidade terá de lutar continuamente ao longo da história, é o tipo de coisa que nunca desaparecerá definitivamente.

Veja abaixo Billie Holiday interpretando a canção Strange Fruit:

Venda casada

31 de agosto de 2012 0

Texto de Marcelo Perrone

É um pacote recorrente esse do veja o filme e leia o livro e vice-versa. A bola da vez é o filme francês Intocáveis, fenômeno de público em seus país (20 milhões de espectadores, a segunda maior audiência de um filme nacional em todos tempos), que repete o sucesso mundo afora – fez mais de 10 milhões de público em outros países da Europa e estreou recentemente nos EUA, tendo como maior divulgadora Madonna, que alugou um cinema para exibi-lo a amigos. A versão americana, lógico, já foi anunciada, com Colin Firth como protagonista.

O filme assinado por Olivier Nakache e Eric Toledano adapta O Segundo Suspiro, o livro de memórias de Phillippe Pozzo di Borgo, um milionário de linhagem aristocrática que ficou tetraplégico após um acidente de parapente em 1993. Phillippe narra sua relação de amizade com o argelino Abdel Sellou, ex-detento que se tornou seu cuidador, assistente e grande amigo, apesar das grande diferenças sociais e culturais entre eles. Você pode ler mais mais sobre o filme clicando aqui. Di Borgo lançou O Segundo Suspiro em 2001, relançado no embalo de Intocáveis – a edição com a providencial capa que reproduz o cartaz do filme é a que chegou ao Brasil, pela Intrínseca.

Agora chega às livrarias brasileiras, poucos meses depois de sair na França, Você Mudou a Minha Vida, da Record, versão da mesma história sob o ponto de vista de Sellou Di Borgo assina o prefácio. Até chegar lá, Sellou revela na primeiro metade do livro passagens de sua vida até o encontro com o milionário. Nascido em Argel, ele chegou com a família a Paris em 1975 e cresceu na periferia da cidade, flertando com a marginalidade, caminho que, por vias tortas, o levou ao encontro que mudou sua vida.

Os vícios do ego e seus excessos

12 de julho de 2012 0

Jagger e Brian Jones em foto de Mark Hayward. Divulgação: Cosac Naify

Texto de Marcos Espíndola

Verbete Rolling Stones remete ao superlativo. Aos olhos dos próprios, isso cintila ainda mais ao largo da modéstia. Eles podem! Se o mundo não acabar, como preveem os fatalistas, em 2012 a banda completa meio século de atividade.
A Cosac Naify antecipou-se (não ao fim do mundo!) e lançou em janeiro no Brasil According To The Rolling Stones, vigoroso compêndio biográfico, abrindo as comemorações do cinquentenário dos stones.

É, como o título sugere, "a banda conta a sua história", com depoimentos dos três integrantes da formação original – Mick Jagger, Keith Richards e Charlie Watts – e do guitarrista Ron Wood, que integrou-se ao império em 1975. São 12 capítulos, muito bem ilustrados com fotos de arquivos pessoais e de bambas que acompanham a banda ao longo das décadas: de David Bailey ao "fashionista" Mario Testino, passando por Anton Corbijn, Norman Seef, Jim Marshall,Val Wilmer, Gered Mankowitz e Terry O'Neill.

Uma biblioteca nunca está completa, e According To The Rolling Stones está longe de ficar em exposição na mesa de centro acompanhando aqueles livros coxinhas de arte. Apesar da edição luxuosa, é para ser lido, relido e rodado com a discoteca básica. Em 12 capítulos, a obra apresenta, cronologicamente, a evolução daqueles garotos aficionados por blues e rhythm'n'blues até os tempos da consagração planetária. Cada um pincela a sua visão sobre o sucesso e seus ardis para superar os vícios do ego e dos excessos.

Não incorra no erro de pular as partes comentadas pelo guitarrista Keith Richards. É sempre excitante ler seus relatos sobre como se forjou o código genético dos Rolling Stones e a reverência recorrente ao pianista Ian Stewart. No livro, Richards afirma que a banda se formou em torno da vontade de Stu, que acabou "demitido" pelo empresário "porque era feio demais". Ainda assim, foi incorporado ao staff e acompanhou o grupo até a sua morte, em 1985. Não por menos ficou conhecido como o "sexto Rolling Stone".

História que ganha tempero com a adição de comentários de parceiros do showbiz, como o fundador da gravadora Atlantic, Ahmet Ertegun, que diz só tê-los fisgado porque já não havia chances deles assinarem com a mítica
Chess Records.

O banquete do Bill

12 de julho de 2012 0

Bill Geman entre Keith Richards e Ron Wood. Foto: Divulgação, Nova Fronteita

Texto de René Müller

Bill German era o editor da que tenha sido, talvez, a mais bem-sucedida fanzine já editada. A Beggars Banquet era produto de seu esforço pessoal, solitário. Detalhe: o garoto tinha apenas 16 anos quando transformou sua devoção
pelos Rolling Stones em um informativo periódico. O que fez a publicação vingar foi o fato de que, assim como três dos stones, German estava em Nova York quando a proximidade com os ídolos importava. Era um típico jovem do subúrbio, que precisava pegar o trem para conseguir cruzar com Keith Richards e Ron Wood na entrada e saída de casas noturnas ou de shows. Isso não impediu que, aos poucos, fosse se tornando amigo dos dois. E aí está o cerne de seu fantástico livro, que acaba de sair no Brasil.

Para quem lê a orelha, ou presta atenção no subtítulo de Under Their Thumb - Como um bom garoto se misturou com os Rolling Stones e sobreviveu para contar (Trad. Renato Rezende e Aline Cordeiro. Nova Fronteira. 448 págs. R$ 44,90)-, a impressão que fica é a de que Bill teve a sorte de conviver com o grupo por algum motivo meio banal, e resolveu faturar uma grana em cima do privilégio. É uma impressão que logo se mostra errada. Bill escreve e edita na raça uma publicação para fãs. Consegue contatos quentes. Pouco depois, está entregando exemplares da Beggars Banquet na mão de Keith e Woody - e pode comprovar que eles estão lendo seu fanzine. Cria uma boa amizade com os dois, uma relação tensa, quase sempre distante com Mick Jagger, e não consegue se aproximar de Charlie Watts.

Por um momento, os Stones e sua organização perceberam que a fanzine era uma ótima maneira de promoção entre seus fãs – ela tinha milhares de assinantes no mundo. Quando lançaram Undercover, em 1983, a Beggars Banquet tornou-se parte da máquina promocional oficial do grupo. Uma relação temporária que, para o editor German, acabou tendo muitas desvantagens, como a falta de autonomia. Todas as edições da publicação tinham de ser previamente aprovadas pelos músicos, e muito do que havia para ser publicado era vetado.

O autor teve acesso à intimidade dos dois guitarristas no momento mais delicado do grupo – as gravações e a promoção de Dirty Work (1986), quando a animosidade entre Keith e Jagger chegou perto do intolerável – e também no que considera a virada não apenas da banda, como do modelo do showbiz: a turnê de Steel Wheels (1989), em que os Stones tornaram-se basicamente uma grande corporação impessoal, máquina de vender ingressos, diga-se, com preços quintuplicados).

Páginas que rolam

12 de julho de 2012 0

Os Stones no começo. Foto: Mark Hayward e Philip Townsend, Divulgação

Na semana que se comemora o Dia Mundial do Rock, coincidentemente também completam cinquenta anos de atividade os ícones mais longevos do ritmo: os Rolling Stones. Como uma das maiores bandas do planeta e há tanto tempo em atividade, os Stones não apenas produziram horas de canções, mas foram o tema de quilômetros de palavras impressas e são um dos temas mais abordados por jornalistas, fotógrafos e escritores em um ramo do mercado editorial que já é sólido lá fora há tempos, mas que por aqui ganhou força apenas nos últimos anos: o das obras biográficas, ensaísticas ou históricas sobre grandes astros da música. Por falar nisso, em um Dia Mundial do Rock anterior elaboramos uma "Biblioteca Básica Roqueira" com alguns dos bons exemplares do gênero publicados aqui no Brasil. Confira aqui.

Os Stones, dizia-se, já foram alvo de praticamente toda e qualquer abordagem literária, das mais sérias às mais sensacionalistas: já teve história da banda, história de um único disco gravado pela banda, biografia autorizada de integrante da banda, biografia não autorizada de integrante da banda, depoimento de roadie, depoimento de amigo, depoimento de namorada de integrante da banda, livros de fotos icônicas, livros de fotos íntimas desmontando a imagem icônica... Nos Estados Unidos e na Inglaterra daria para construir uma casa usando como tijolos os volumes que já se editaram sobre os Stones.

E algo desse material vem saindo aqui no Brasil. Por isso, para marcar este cinquentenário dos Stones, vamos publicar neste e nos próximos dois posts três resenhas sobre importantes obras recentemente reeditadas para partilhar com os leitores aqui do blog, um delas escrita pelo colega Francisco Dalcol, aqui da Zero, uma assinada pelo René Müller e outra pelo Marcos Espíndola, ambos do Diário Catarinense. Folheia que isso aí é rock'n'roll:

A verdade de um sobrevivente
Texto de Francisco Dalcol

O que faria você ler mais de 600 páginas sobre a história de um velho roqueiro? Muitos são os motivos, considerando que o personagem é Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones, e que o livro, Vida (Editora Globo, 640 páginas, R$ 40 em média) é uma autobiografia que traz, segundo o próprio, 100% de conteúdo verdadeiro. Sem contar o fino humor que acompanha cada página.

Tudo o que se contou e especulou a respeito de Richards criou uma espécie de curiosidade mórbida sobre como ele sobreviveu a tantos anos de abusos. No livro, ele conta tudo: sua relação com os narcóticos, suas inúmeras quase-overdoses e a forma como conseguiu (e garante) ter se livrado de tudo. Richards revela que, durante boa parte de sua vida, dormiu apenas duas noites por semana. O que significa que ficou acordado por "pelo menos três vidas". Seu recorde de resistência foram nove dias acordado. O livro relata dezenas de prisões e problemas com a polícia, cada um mais engraçado que o outro.

Mick Jagger não é poupado. Do começo, como grande parceiro, ele chega ao meio do livro como uma espécie de traidor, na visão de Richards, com seu deslumbre pela fama, suas tentativas de assumir o controle da banda e, em função disso, aumentar gradativamente seu distanciamento do restante da banda. Vida deixa clara toda a paixão de Richards pelo blues de Junior Wells, John Lee Hooker e Muddy Waters. E para os músicos, chega a ser arqueológico quando ele fala dos segredos da afinação aberta em sol, com cinco cordas no instrumento, técnica que redefiniu o som dos Stones no fim dos anos 60.

Em linha do tempo 3D, explore a história da banda:

Erico e Jorge no topo do mundo

06 de junho de 2012 0

Ainda no projeto de reeditar a obra completa de Jorge Amado, a Companhia das Letras lançou recentemente uma nova edição de Navegação de Cabotagem, ou, como o próprio autor baiano definia com graça no subtítulo da obra: Apontamentos para um Livro de Memórias Que Jamais Escreverei. O livro, de fato, não é uma autobiografia estrita, e tampouco é um relato de memórias como as que tornaram Pedro Nava um dos maiores nomes do gênero no Brasil. Navegação de Cabotagem reúne na verdade fragmentos biográficos, pequenas anedotas, causos, croniquetas, todas formando um mosaico de Jorge, seu olhar baiano sobre uma vida cosmopolita.

Não há uma ordem rigidamente cronológica, a disposição de cada fragmento parece seguir a linha irregular da memória de um contador de causos, da juventude do autor nos anos 1920 até seus dias como escritor celebrado internacionalmente, nos anos 1980 e início dos 1990 – o livro foi publicado em 1992, quando Jorge completou 80 anos.

Um desses fragmentos é a graciosa história que segue:

Milão, 1949 - Il piu noto
Diante da vitrine de uma livraria, na grande galeria no centro de Milão, Zélia, alvoroçada, aponta para um livro: olhe! Vejo um exemplar da edição de Terras do Sem Fim (Terre del Finimondo, Bompiani, Milão), meu primeiro livro traduzido em italiano, a capa atraente reproduz cerâmica de Picasso.
– Veja o cartaz! - Zélia assanhadíssima.
O cartaz não é propriamente um cartaz, apenas um cartão retrangular ao pé do volume, informando sobre o autor:
Il piu noto escrittore brasiliano. Zélia lê em voz alta, repete: Il piu noto. Vamos em frente, repletos.
Logo adiante, outra livraria, paramos em frente à vitrine em busca de
Terras. Em vez, deparamos com a tradução de um livro de Erico Verissimo, Olhai os Lírios do Campo, se bem me lembro. Ao pé do exemplar, um cartaz, ou seja, um retângulo de cartão, a informação sobre o autor; Il piu noto escrittore brasiliano.
Rimos, Zélia e eu, desinflamos. No quiosque da esquina compro um cartão-postal e os selos competentes e o endereço para Erico em Porto Alegre, conto-lhe o ocorrido: "Durante cinco minutos e vinte metros, fui "il piu noto", passei-te a faixa."

Uma curiosidade que sempre vem a calhar: esse era um dos livros de Jorge Amado com edição mais recente pela Record, a casa publicadora anterior, antes de a obra do autor baiano passar para a Companhia. Num comparativo que sempre diz bastante sobre como anda a economia do livro no Brasil, Navegação de Cabotagem havia ganhado uma edição especial pela Record em 2006, quando a Festa Internacional de Literatura de Parati (FLIP) anunciou Jorge Amado como seu autor homenageado. Na época, a edição da Record, em brochura, mas muito bonita, tinha 546 páginas e custava R$ 59,90. A edição recente da Companhia, com capa dura e caderno de imagens, tem 608 páginas e agora custa R$ 89.

A história do Metallica

30 de maio de 2012 9

Para o bem e para o mal, o Metallica tornou-se a maior banda de rock pesado do mundo, levando o heavy metal a rincões nunca antes explorados por um gênero de nicho. Agora, em Metallica – A Biografia (Editora Globo, 472 páginas, R$ 49,90), de Mick Wall, ela tem sua história contada por um sujeito que a conhece desde os primeiros ensaios, quando os então pirralhos James Hetfield e Lars Ulrich decidiram unir os riffs dos ingleses da NWOBHM (New Wave of British Heavy Metal) com a virulência do punk rock, até a explosão mundial nos anos 1990 e a polêmica com o Napster nos 2000.

Apesar da pompa de testemunha ocular que ele faz questão de ressaltar o tempo todo, Wall não poupa nada nem ninguém. Nem Ulrich, amigo pessoal do autor, escapa de ser o tempo todo referido como frio, manipulador e ganancioso _ ao mesmo tempo em que é apontado, com razão, como o maior responsável por levar o Metallica ao Olimpo da música. Wall já havia demonstrado postura semelhante em seu livro anterior, uma detalhista e elogiada reconstituição da trajetória do Led Zeppelin: Quando os Gigantes  Caminhavam Sobre a Terra (Larousse, 526 páginas, 2009. Tradução de Elvira Serapicos). Amigo de Jimmy Page por anos, Wall foi cortado das relações do guitarrista depois que o livro foi publicado. A tradução de Metallica – A Biografia é de Daniela Pires, Leandro Woyakoski e Marcelo Barbão.

>>> Leia mais sobre lançamentos recentes com a história de ídolos do rock aqui mesmo no Mundo Livro

O Getúlio de Lira Neto

29 de maio de 2012 3

Getúlio Vargas em seu gabinete no Palácio Piratini. Foto de Sioma Breitman

Getúlio Vargas (1882 – 1954) é um personagem tão invulgar no horizonte da política brasileira que praticamente qualquer grande biografia sobre figuras do Brasil no século 20 esbarra, em algum momento, no homem ou em seu legado. Getúlio tem amplo destaque em Chatô e Olga, de Fernando Morais. Também está em O Anjo Pornográfico, de Ruy Castro, entre tantas outras trajetórias. Textos já foram escritos defendendo o Brasil contemporâneo como um produto de Getúlio e sua trajetória. Agora que ele ganha nova biografia, escrita pelo jornalista Lira Neto, o enfoque do primeiro volume (de três previstos) é, a seu modo, diverso. O Brasil criado por Getúlio ficará para os próximos volumes, já que, neste capítulo inaugural, Lira Neto prefere enfocar Getúlio ele próprio como um produto do Rio Grande do Sul.

Getúlio, 1882 - 1930: Dos Anos de Formação à Conquista do Poder (Companhia das Letras, 664 páginas, R$ 52,50) concentra-se na primeira fase da vida do político de São Borja, do nascimento em 1882 à vitória na Revolução de 1930. O Vargas que emerge da biografia, escrita com a ginga narrativa que o autor já mostrou em Padre Cícero e O Inimigo do Rei, não é (ainda) o ditador do Estado Novo, o populista do "retrato do velho", o industrializador, o homem envelhecido e acuado dos anos 1950. É o Vargas do Partido Republicano, ligado a uma família de históricas raízes castilhistas, filho de um rigoroso positivista – personagem cauteloso que, talvez por sua tendência à procrastinação, começará a se projetar nacionalmente mais tarde.

Lira Neto compõe a biografia de Getúlio em forma de mosaico. Embora siga de modo quase linear sua trajetória, o texto se aproveita de uma consequência da centralidade de Getúlio na história. Para dar um panorama multifacetado, o texto contrapõe relatos de dezenas de fontes sobre Getúlio: familiares, como Lutero e Alzira Vargas; relatos de opositores, como o general Gil de Almeida, comandante militar do Rio Grande destituído pela Revolução de 1930; depoimentos de aliados com quem manteve relações turbulentas, como João Neves da Fontoura; e os diários e cartas de Getúlio Vargas, também já publicados – embora a maior parte do material já tenha circulação em livro, há documentos inéditos. Isso atenua, ainda que não muito, a falta de grandes novidades.

– A ausência de testemunhas oculares ainda vivas foi suplantada pelo arquivo monumental do biografado e de pessoas próximas, como Oswaldo Aranha, todos sob a guarda do CPDOC da FGV.  Muita coisa ali, por incrível que possa parecer, ainda é inédito - diz Lira Neto.

Antes de virar ele próprio um substantivo, Getúlio foi destacado integrante das hostes do castilhismo e do borgismo – e Lira Neto esmiúça as relações políticas que o cercavam. Getúlio cresceu em uma família historicamente ligada aos republicanos – seu pai, o general Manuel Vargas, lutou de lenço branco no pescoço na Revolução Federalista. O temperamento conciliador se desenvolve em um Estado marcado por revoltas e pelas ditaduras positivistas de Castilhos e Borges. Talvez para o leitor do Rio Grande do Sul, imerso na história contada, já repisada em incontáveis livros, de ficção ou não, a impressão de falta de novidades se acentue, embora o livro valha como um novo ponto de vista expresso em um texto sedutor.

Um biógrafo trabalha com o que tem à disposição. No caso de Getúlio,o material para um voo sobre sua psique é restrito. Getúlio começou a escrever seus diários quando irrompeu a Revolução de 1930 – sabia, portanto, que àquela altura estava redigindo as atas de uma trajetória histórica. Suas cartas, também fonte da biografia, mostram um político tão hábil quanto dúbio. O que mostra por que escritores de ficção têm se sentido mais à vontade para invadir a mente de Getúlio do que seus biógrafos.