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Posts na categoria "Clássicos"

As melhores adaptações não estão no Oscar

18 de fevereiro de 2014 2
Cena da adaptação de Piotr Dumala para "Crime e Castigo"

Cena da adaptação de Piotr Dumala para “Crime e Castigo”

Como não é segredo para ninguém que é estatísticamente mais provável Uwe Böll dirigir uma obra prima do que alguém ter uma ideia original em Hollywood, há muito tempo que uma das usinas que garante a matéria-prima para roteiros na indústria do cinema é o mercado literário. Já foram feitos filmes baseados em grandes clássicos da literatura; em livros de não ficção; em biografias e memórias (dois dos principais concorrentes ao Oscar deste ano, por exemplo, 12 Anos de Escravidão e O Lobo de Wall Street se incluem nesta categoria). Há até livros baseados em artigos e reportagens de revistas como New Yorker ou Rolling Stone. Muitas vezes confrontado com a pergunta sobre quais são as melhores adaptações literárias que eu conhecia, sempre respondia pela tangente, porque esse é o tipo de comparação esquisita entre dusa linguagens que muitas vezes não encontram tradução perfeita de uma para a outra.

Porém, esses dias cheguei à conclusão de que algumas das melhores adaptações literárias que já havia visto por aí não eram longas-metragens com o apoio de um grande estúdio, mas sim curtas de animação que conseguem, com seu sistema de produção muitas vezes perto do artesanal, sustentar-se de pé como obras autônomas, preservar o espírito do original e ainda oferecer algo extremamente original e novo em termos da linguagem do próprio cinema. Antes da existência da arca de maravilhas da internet, muitos dos filmes aí abaixo eram bem pouco conhecidos, lia-se sobre eles em revistas de cinema, via-se o nome nos indicados a prêmios como o Oscar ou o Globo de Ouro, mas ter conhecimento dos trabalhos era bem mais difícil. Dado que hoje o Youtube tem quase tudo, resolvi preparar uma breve e muito rápida lista com exemplares de grandes adaptações literárias feitas em curtas de animação (quando possível, publiquei versões legendadas em português, mas nem sempre as encontrei).

O Velho e o Mar (1999)
O artista russo Aleksandr Petrov desenvolveu esta pequena gema adaptando a novela de Ernest Hemingway utilizando-se da técnica de desenhar em pranchas de vidro, apagando e repintando detalhes das cenas a cada mudança de quadro. Ele também não usa pincéis, e sim os próprios dedos, o que dá à imagem um tom onírico e impreciso. Contrariando um pouco a minha chamada um tanto provocativa para este post, este filme esteve sim no Oscar, e venceu o prêmio na categoria melhor curta de animação. Petrov já garimpou outras riquezas da literatura, para suas animações, como A Sereia (baseado em Púchkin) e Sonho de um Homem Ridículo (baseado em Dostoiévski).

O Coração  Denunciador (1953)
Uma adaptação do conto de mesmo nome de Edgar Allan Poe que usa sombras, fusões, sobreposições e texturas para criar um padrão visual semelhante às cenografias surreais criadas por Eugène Berman para o Metropolitan Opera, de Nova York, nas quais pode-se reconhecer mais do que um leve toque do trabalho de Salvador Dalí. A sombria história do assassino que se vê compelido a confessar seu crime para não ouvir mais as batidas fantasmagóricas do coração de sua vítima é narrada, adverte o curta em um cartão de texto, “pelos olhos de um louco, que, como todos nós, crê que é são”. Por isso os ângulos distorcidos e as sombras assustadoras de um desenho que foge ao tradicional casa tão bem com o espírito da obra. A voz do personagem principal – que, como no conto,  narra em primeira pessoa – é dublada por James Mason, e foi o primeiro cartum a receber indicação etária recomendada apenas para adultos na Inglaterra. O curta é produzido pelo estúdio UPA (United Productions of America) e dirigido por Ted Parmelee.

The Man With the Beautiful Eyes (1999)
Jonathan Hodgson é um artista baseado em Londres e que já trabalhou dirigindo sequências de animação para a série de TV Da Vinci Demon’s, de David S. Goyer – passa num dos canais da TV a cabo, embora eu não me lembre exatamente qual. Mas isso, dado que a série é bem meia-boca, não deve servir como demérito ao currículo do homem. Hodgson é o autor deste belo curta que adapta um poema de mesmo nome de Charles Bukowski, sobre um grupo de crianças que se  mostram fascinadas pelo mistério selvagem de um vagabundo alcóolatra visto em uma casa aparentemente abandonada na vizinhança em que moram. Com um traço e um uso nervoso da cor, aplicando palavras na tela e buscando uma representação tão estilizada que chegue a uma espécie de moldura do objeto (preste atenção na cena final, na qual os carros e as pessoas que passam diante da vitrine são apenas formas que não a encobrem). Um filme que arrebanhou prêmios em vários festivais internacionais, incluindo o Bafta, o mais importante da Grã-Bretanha.

A Alegoria da Caverna (2008)
Este não é um livro especificamente, mas um dos trechos mais conhecidos de uma das obras fundadoras da cultura ocidental, A República, de Platão. A representação da realidade física como uma caverna em que vemos apenas as sombras das coisas, sem atentar para seu significado verdadeiro, é um dos mitos mais conhecidos da história da filosofia, e aqui ganha uma muito breve versão na técnica stop-motion que, em inglês, é conhecida como “claynimation”, trocadilho entre “argila” e “animação” que é usada para definir o tipo de filme que aqui conhecemos por “massinha”. O filme é uma produção do diretor Michael Ramsey e do artista animador John Gribsby.

Um Médico de Aldeia (2007)
Uma versão do premiado diretor japonês Koji Yamamura para este alucionatório conto de Franz Kafka. O clima opressivo do original, uma pérola da juventude do autor tcheco, é traduzido por meio de um desenho nervoso e de uma variação constante das proporções e das perspectivas na obra animada.

Nicholas Era… (2010)
Em seu livro Fumaça e Espelhos, o inglês Neil Gaiman, autor de Sandman, conta a origem deste um breve conto sombrio natalino. Não estou com o livro em mãos para a citação literal, mas basicamente a história surgiu como um cartão de Natal, um pequeno conto/poema de 100 palavras invertendo a lógica benevolente das atribuições do Papai Noel. O texto foi caligrafado e ilustrado pelo amigo de Gaiman, e parceiro em Sandman, Dave McKean, e enviado como cartão a amigos e conhecidos (Gaiman admite na introdução do livro que a ideia veio após se sentir miseravelmente humilhado e sem talento por receber todo ano cartões de Natal feitos pelos seus talentosos amigos ilustradores). Seguindo a mesma lógica, o estúdio animado 39 Degrees, baseado em Pequim, adaptou o conto em uma animação de Natal em 2010.

Crime e Castigo (2000)
Assim como o Aleksandr Petrov mencionado lá no início, Piotr Dumala é um mestre russo da animação, e tem seu próprio método de produção tão sofisticado e trabalhoso quanto as pranchas de vidro do primeiro. Cada quadro nas animações de Dumala é obtida raspando com uma agulha uma prancha totalmente coberta de tinta preta. Fotografada para o filme, a prancha é então coberta de preto outra vez para o quadro seguinte, e assim por diante. Com isso, o trabalho resultante é de um contraste muito forte entre os raros pontos iluminados e a escuridão do restante do quadro. Um tipo de trabalho que parece ajustado à perfeição para ilustrar a opressiva atmosfera de Crime e Castigo, de Dostoiévski. O vídeo abaixo não tem legendas, mas como Dumala criou uma versão expressionista da narrativa, não há diálogos na animação, tornando-a passível de ser entendida por todos nós. É uma versão com ares de pesadelo, não seguindo necessariamente o livro ao pé da letra.

Ricardo III (1994)
Entre 1992 e 1994 a BBC levou ao ar uma série de episódios de aproximadamente meia hora cada, cada um apresentando uma versão animada de uma peça de William Shakespeare a cargo de um animador russo diferente. Uma das versões mais legais, na minha modesta opinião, é a que se vê abaixo , dirigida por Natalya Orlova, com base na sangrenta peça de Shakespeare sobre o perverso nobre deformado que empilha uma montanha de corpos em seu caminho até o trono (e a inevitável desgraça):

Kashtanka (2004)
Quem chegou até aqui já deve ter percebido sem que eu precise dizer que a tradição russa de desenhos animados é uma das mais ricas do mundo. Aqui temos outra prova disso, uma versão de um dos contos mais singelos de Tchékhov, sobre a cadela de um carpinteiro bêbado que, após se perder de seu dono após a passagem de uma parada militar, é recolhida por outro homem e levada para uma casa com animais treinados para o circo, entre eles um ganso e um gato. A versão abaixo é uma das disponíveis, tem legenda em inglês e espanhol, e é assinada pela mesma Natalya Orlova do desenho anterior.

A Maior Flor do Mundo (2007)
Uma animação do diretor espanhol (nascido no Uruguai) Juan Pablo Etcheverry baseada em um conto para crianças de José Saramago. Lançado quando o escritor ainda vivia, o filme é narrado pela voz do próprio Saramago, que a apresenta no início e faz uma breve aparição no fim. Para encerrar falando português…

Best-seller, ideológico, perigoso...

31 de janeiro de 2013 0

Já que Os Miseráveis, o filme, está por estrear no cinema, é bom apontar que o romance de Victor Hugo (1802– 1885) é um marco fundador para toda uma corrente de representação da sociedade – Auerbach, em seu clássico Mímesis (Perspectiva, 1998), aponta Victor Hugo como a chave pioneira, ainda que embrionária, da escola realista, por quebrar com a estética clássica anterior que afastava o espírito trágico ou sublime da vida cotidiana. A popularidade da obra não é de hoje. Adaptado para várias mídias, o livro foi best-seller em seu tempo, e seu autor, tachado de perigoso. Victor Hugo não foi apenas um titã literário (posição que alcançou ainda em vida por esforços conscientes, ainda que muitas vezes tenha sido contestado, por seus contemporâneos e pelos pósteros, pela forma autocomplacente como ele insistia em impor tal condição ao mundo ). Ele foi, também, um autor com impecável senso de marketing.

A primeira sinopse para o livro, então chamado de As Misérias, foi vendida a seus editores em 1845, mas a ideia o assombrava desde os anos 1820. Já consagrado quando finalmente terminou sua magnum opus,em 1861, o escritor vivia no exílio na ilha de Guernsey, no Canal da Mancha, pela oposição feroz que havia feito a Napoleão III (a quem chamava de “Napoléon, Le Petit”). A preparação do romance, portanto, foi feita por correspondência, com provas enviadas para o escritor por navio: “Todos os dias, durante oito horas, ele fazia correções, acrescentando mais do que riscava, aguilhoado pelo horário do Correio e o penacho de fumaça expelido pelo paquete postal no porto embaixo.”, escreve seu biógrafo Graham Robb em Victor Hugo: uma Biografia (Record, 2000).

Além de enlouquecer os tipógrafos tendo sempre algo a acrescentar a seu romance já imenso, Victor Hugo também comandou, de sua ilha rochosa, a estratégia, bastante moderna, de divulgação da obra. Aconselhou seus editores a fazerem propaganda maciça na França sobre o papel na trama da batalha de Waterloo, ferida nacional que marcou a derrota definitiva de Napoleão Bonaparte. Como escreveu a seu editor, em carta citada por Robb na mesma biografia:

Expõe o lado nacionalista do livro, joga com o sentimento patriótico, faze Persigny [ministro do Interior] sentir vergonha antecipada por proibir uma obra em que Ney [o marechal], avô de sua mulher, é finalmente justificado. Torna-lhes impossível confiscá-lo, dizendo que se trata da batalha de Waterloo ganha pela França”.

Outros anúncios foram espalhados pela Europa e até mesmo no Império do Brasil: “Publicou-se a primeira parte de Les Miserables (Fantine) em seguida a uma monumental campanha publicitária m Paris, Londres, Bruxelas, Leipzig, Roterdã, Madri, Milão, Turim, Nápoles, Varsóvia, Pest, São Petersburgo e Rio de Janeiro”. O resultado foi que milhares de exemplares se esgotaram quando o livro foi publicado, de abril a junho de 1862, em 10 volumes. Em Bruxelas, a obra vazou antes do lançamento para gráficas piratas, e havia 21 edições não autorizadas apenas um mês após a publicação do primeiro do primeiro volume – Victor Hugo foi um dos primeiros escritores profissionais ao estilo contemporâneo: vivia do que escrevia, negociava contratos com ferocidade leonina e tinha um entendimento profundo do mercado editorial de seu tempo. Se a isso for aliada a amplitude de seu público, não é de estranhar que seu autor tenha sido considerado um homem perigoso e o livro tenha sido julgado por seu conteúdo ideológico desde o momento em que foi publicado, por contemporâneos como os Goncourt ou Perrot de Chezelles, ou por críticos tardios como Litton Strachey – mesmo um realista como Stendhal considerava Hugo um ídolo que tinha de derrubar antes de estabelecer seu projeto literário.

O que havia de tão “perigoso” na obra, afinal? A poderosa visão de mundo de seu autor, uma forma particular e reformista de socialismo, que acreditava mais na convivência colaborativa entre as classes, mediada por uma espécie de espectro moral humanista – e não o “espectro do comunismo” de seus contemporâneos Marx e Engels, que Hugo, político de carreira, identificaria com a anarquia. Sua visão da sociedade em que vivia, contudo, dialoga com muitas noções modernas ainda vigentes no pensamento social: seus personagens “miseráveis” não são maus por si só, mas criaturas empurradas para o crime e a degradação em busca da sobrevivência em meio à miséria em que vivem.

Pela extensão de Os Miseráveis, as adaptações para outras linguagens normalmente enxugam a história até o osso. Fantine, por exemplo, mãe de Cosette, ocupa, na obra, um espaço pequeno, aparece apenas na primeira parte, enquanto costuma ser levada pelos filmes até a metade da produção. Foi assim com a interpretada por Uma Thurman nos anos 1990, imagino que seja também assim com a de Anne Hathaway. Javert é sempre retratado em qualquer uma dessas adaptações como um homem de tal modo obcecado em prender outra vez o fugitivo Jean Valjean que se torna um vilão maniqueísta – quando seu retrato no livro é menos o de um homem perverso, e mais o de um homem virtuoso que coloca sua retidão a serviço de algo que está viciado desde a origem: o próprio sistema.

Também são comuns, inclusive no Brasil, edições adaptadas, enxugando as 3,1 mil páginas do original para um tamanho mais administrável – o que deita por terra muitas das longuíssimas digressões que Victor Hugo usava para dar um quadro geral da gananciosa sociedade francesa, e apontá-la como a verdadeira responsável pelo crime,por empurrar milhares à miséria. Po aqui, a mais recente edição integral foi publicada pela CosacNaify, em dois volumes, com tradução de Frederico Ozanam Pessoa de Barros. Uma boa adaptação francesa, em quadrinhos, com roteiro de Daniel Bardet e desenhos de Bernard Capo, foi lançada recentemente pela L&PM. E finalmente, temos o filme que está chegando aos cinemas, que não é uma adaptação do livro especificamente, mas do musical de sucesso para os palcos norte-americanos – com uma partitura bem pouco inventiva, diga-se. Na dúvida, já que alguns de vocês aí   estão em férias, por que não ir direto ao livro?

Os livros na novela Avenida Brasil

29 de maio de 2012 0

As cenas que ilustram esse post andam cada vez mais frequentes no horário nobre da TV brasileira.

Na novela das nove, Avenida Brasil, o personagem Tufão (Murilo Benício) está se tornando um homem letrado. Influenciado por Nina (Débora Falabella), o ex-jogador tem se interessado pela leitura e já devorou cinco livros indicados pela cozinheira (veja abaixo as sinopses das obras).

E os títulos sugeridos pela empregada não são aleatórios.

— Tem a ver com a fase do personagem, com a trama e com as intenções de Nina. É uma forma de ela dar “toques” sobre a forma como ele conduz sua vida, a infidelidade de Carminha (Adriana Esteves) e outros temas — conta o autor João Emanuel Carneiro.

Ex-jogador virou amante da literatura
graças à cozinheira Nina,
que tenta com as obras
abrir seus olhos sobre a vida que leva

Como Tufão não imagina as reais intenções de Nina, ele está aproveitando a oportunidade para se tornar um homem melhor.

— Nina levou um frescor para aquela casa. Ela, por si só, já intriga os moradores na mansão e instiga a curiosidade. Tufão caiu nessa teia. O interesse pela leitura é uma prova concreta desse efeito emocional e psicológico. Ele está tentando se tornar uma pessoa mais interessante, quer se aproximar de Nina, ao menos intelectualmente — analisa o autor, que acena com a possibilidade de o exjogador começar a escolher os livros que gostaria de ler.

No caderno TV Show de Zero Hora, publiquei há duas semanas uma matéria sobre o assunto. Os leitores do caderno e telespectadores da novela mandaram emails comentando que adoram essa iniciativa do autor da trama, pois ajuda também a divulgar a literatura no horário nobre. Por isso, o blog Mundo Livro lista os clássicos que já foram citados na novela.

MADAME BOVARY
De Gustave Flaubert

Mulher que aprendeu a ver a vida através da literatura sentimental se casa com médico apaixonado, mas entediante. Muito angustiada e frustrada, busca no adultério a forma de achar a liberdade e a felicidade. Uma busca fadada a tragédia e decadência. O livro provocou escândalo quando de seu lançamento, em 1857, e levou seu autor Gustave Flaubert (1821-1880) aos tribunais, processado por obscenidade. No Brasil, há mais de uma tradução disponível em livrarias ou sebos: a de Fúlvia L. Moretto para a editora Nova Alexandria; a de Sérgio Duarte para a antiga coleção de bolso da Ediouro; a de Ilana Heinelberg para a coleção de bolso da L&PM. A mais recente é a de Mário Laranjeira para a Companhia das Letras, publicada no selo Penguin da editora. Clique aqui para ler uma comparação entre algumas delas aqui mesmo no blog Mundo Livro.

A METAMORFOSE
De Franz Kafka
Jovem que sustentava a família trabalhando como vendedor acorda certo dia e se vê transformado em um grande inseto. Na história, a nova condição do personagem vai além da modificação física – que impede o jovem Sansa de se comunicar com sua família. O protagonista vai se transformando inteiro em um inseto, com alteração de comportamentos, atitudes e sentimentos, e de outrora o provedor da família vai se tornando um peso para os parentes, mesmo para a irmã de quem tanto gostava. A tradução mais conhecida é a de Modesto Carone para a Companhia das Letras, mas há também a de Celso Cruz, para a Hedra e a de Marcelo Backes, para a L&PM.

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS
De Machado de Assis.
Já morto, um homem de família rica decide escrever a sua autobiografia ao além-túmulo, do enterro até a sua infância e juventude. Livre das convenções sociais e dos pruridos de consciência devido à morte, Brás Cubas não tem pejo de esmiuçar o que havia de mais patético em sua vida e de ser cruel e irônico consigo próprio e com todos os que o cercaram ao longo da vida. Sátira impiedosa com um protagonista que, mesmo fruto da melhor elite nacional, vive uma vida medíocre que passa sem deixar grandes marcas devido à leniência e à acomodação do personagem em vida.

DOM CASMURRO
De Machado de Assis.
Amargurado e recolhido a um casarão que transformou em uma cópia exata de sua casa de infância, um homem rancoroso repassa a história de sua vida e a sua paixão por uma vizinha de infância, Capitu, com quem o rapaz, um filho mimado de família rica, casa apesar da má-vontade inicial da mãe. Após a morte do melhor amigo, Bentinho, o protagonista, começa a desconfiar de que Capitu e o falecido eram amantes. Consumido pelas suspeitas, o protagonista supõe, inclusive, que o próprio filho seja fruto da traição da mulher – o que contribui para o isolamento derrotado em que o leitor o encontra no início da história. Outra das obras-primas que tornaram Machado de Assis um dos maiores escritores brasileiros. Como se encontra em domínio público, a obra tem edição por praticamente todas as grandes editoras brasileiras: L&PM, Globo, BestBolso, Nova Fronteira (na imagem ao lado, com comentários dirigidos ao estudante assinados por Maria Helena Rouanet)

A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS
De Sigmund Freud
O psicanalista afirma que os sonhos podem ser entendidos, contrariando a teoria científica de sua época, que admitia que ossonhos ocorrem a partir do registro mental do indivíduo, mas são ininteligíveis.

O próximo título a ser incluído nas leituras de Tufão será O PRIMO BASÍLIO, de Eça de Queiroz, mais uma dica de Nina para o patrão. Em crise com Carminha, após descobrir que ela é mãe biológica de Jorginho (Cauã Reymond) e o jogou no lixão, Tufão diz à vilã que a obra “é sobre uma mulher que traía o marido, mas acaba perdoando ela no final”. A megera, esperta, aproveita a deixa: “Tá vendo como todo casal passa por crises imensas? Se existe amor de verdade, não importa o erro que o outro cometeu“.

A Anna deles e a minha...

18 de março de 2012 2

Tolstoi assim descreve Anna Karênina a certa altura de seu monumental romance de mesmo nome, em uma cena ocorrida em um baile. Em tempo, para quem não leu o romance: Anna Arkadiévna é a Anna do título mesmo, nomeada com o prenome de batismo e o patronímico (compreensivelmente, o mesmo de seu irmão Stiépan Arkadiévitch). No contexto da cena a seguir, a jovem Kitty citada no texto, que vê em Anna, grande dama chegada de Petersburgo, um modelo de elegância e cosmopolitismo, é a futura noiva do infausto Conde Vronsky, um belo e arrojado jovem que terminará se apaixonando pela protagonista. O amor de ambos precipitará uma tragédia (quem reclamar de spoiler com este comentário a respeito de um livro que está por aí há “só” 139 anos será desconsiderado, desculpe). Mas eu falava de Anna. Eis como ela é descrita na cena do baile:

Korsunski fez uma reverência, empertigou-se e ofereceu-lhe o braço para conduzi-la até junto de Anna Arkadievna. Kitty, corando, um pouco aturdida, afastou a cauda do vestido dos joelhos de Krivine e voltou os olhos em busca de Ana. Esta não estava vestida de lilás, como tanto teria desejado Kitty. Uma toilette de veludo preto, muito decotada, desnudava-lhe os ombros esculturais, como esculpidos em velho marfim, assim como o colo e os braços roliços, de pulsos finos. Rendas de Veneza guarneciam-lhe o vestido. Nos cabelos negros, sem postiços, ostentava uma grinalda de amores-perfeitos, combinando com outra que lhe adornava a fita preta do cinto, rematada por rendas brancas Estava penteada com muita simplicidade. Apenas alguns caracóis de cabelo frisado na nuca e nas fontes se lhe eriçavam rebeldes. Em volta do pescoço bem torneado brilhava um fio de pérolas.

Leitores de Anna Karênina - falo por mim mesmo, mas já tive corroborada a impressão por um ou outro dos leitores devotos da obra – tendem a se apaixonar pela personagem, o que talvez seja o motivo pelo qual os mesmos leitores tendem a torpedear sem piedade as transposições da história para o cinema – muitas vezes com a maior das razões, como no filme de 1997, uma das adaptações literárias mais equivocadas de todos os tempos. Ao saber, portanto, que Joe Wright se preparava para filmar mais uma versão, em pós-produção neste momento em que escrevo, fiquei desconfiado. Wright já provou ser bom em reconstituição de época e adaptação literária, mas tem o péssimo hábito (compartilhado por vários diretores de elenco, sei lá por quê) de escalar Keira em papéis de época na primeira oportunidade que aparece. Keira Knightley, com seus braços de espaguete, se houvesse um mínimo de acurácia histórica, seria mais apropriada para viver uma tuberculosa terminal em algum sanatório saído de Os Miseráveis, mas eles insistem. Daí por que, mesmo sabendo que a moça tem um rosto bonito e muito clássico, não consegui me convencer a abrir espaço na Anna da minha imaginação para a que ela representa nas primeiras imagens do filme, como a divulgada abaixo:


Keira Kightley como Anna. Foto: Laurie Sparham, Focus Features, Divulgação


O Mágico de Oz

06 de outubro de 2006 1


Sim, você deve ter lido o artigo de hoje do Caderno Patrola no qual indicamos quatro livros pertencentes a uma série de clássicos infanto-juvenis, traduzidos e adaptados em uma linguagem mais simples por autores brasileiros. O que apontamos como curiosidade é que os quatro livros citados (justamente alguns dos mais recentes lançamentos a coleção, que inclui outras obras) eram de autores do Século XIX, o que abre uma questão interessante: o que havia nesse período em particular que produziu obras capazes de instigar até hoje?

São do século XIX clássicos de aventura e fantasia como os citados Moby Dick, Tom Sawyer, obras de Júlio Verne como a Ilha Desconhecida citada no caderno ou o próprio O Mágico de Oz (e esse eu aposto que muita gente não sabia que era um livro antes de virar filme), que a propósito terá uma versão musical em Porto Alegre algum dia desses.

O Mágico de OZ é a história de uma menina que é colhida por um ciclone e vai parar num mundo imaginário, dividido entre bons e maus (há uma bruxa malvada e uma bruxa bondosa, há macacos alados servos da bruxa boa e anões alegres que recepcionam a pequena Dorothy com simpatia no início de sua jornada) e governado pelo misterioso Oz, que vive na cidade esmeralda e sustenta a magia do lugar com seu domínio – ou não.

Apesar de ser um produto do século da razão e da eletricidade, O Mágico de Oz, escrito pelo americano L. Frank Baum (1856 – 1919) é uma fábula à moda antiga. Dorothy se sente desajustada e infeliz na fazenda em que vive, no Kansas, e procura fugir. Quando finalmente se afasta, tudo o que pretende é voltar para lá, e para isso ganha no caminho a ajuda de um ser mágico que lhe oferece um artefato dotado de um poder que ela só vai compreender no final: os sapatos de rubi que ela calça durante toda sua estadia na terra de Oz e que poderiam tê-la levado para casa desde o começo.

O mágico, que tanto medo impõe e que é visto como o salvador da condição de Dorothy e de seus amigos, na verdade se revela uma fraude, e ela descobre que desde o início só podia contar com algo que estava nela mesma. Quer mais fábula do que isso? Não admira que tenha se prestado à perfeição para um dos grandes musicais do cinema (já que a alternância entre música e diálogo na estrutura dos grandes musicais corresponde, por estranho que pareça, à alternância que cada um sempre realiza entre seu diálogo com o mundo externo e a conversa consigo mesmo, marcad nos musicais pelas canções que demarcam o mundo interior do personagem).