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Posts na categoria "Confrades de Língua Portuguesa"

Gonçalo Tavares e a máquina da cidade

14 de fevereiro de 2014 1
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Gonçalo M. Tavares na Feira do Livro de Caxias do Sul, em 2013.
Foto: Diogo Sallaberry, Agência RBS

A obra do português Gonçalo M. Tavares conquistou, ao longo de apenas uma década, um reconhecimento crítico que costuma levar bem mais tempo para ser obtido. Autor de Jerusalém, romance que venceu o Prêmio Portugal Telecom, e de uma inventiva série chamada O Bairro, na qual os personagens, identificados com nomes de artistas e intelectuais, representam ideias abstratas em situações que vão da lógica à comicidade, Tavares está lançando no Brasil seu romance Matteo Perdeu o Emprego (Foz Editora, 160 páginas, R$ 49) – publicado originalmente em 2010 em Portugal . Trata-se de um livro de difícil classificação. Metade da obra é constituída por uma reunião de fragmentos narrativos em que cada personagem serve de ponte para o protagonista da história seguinte. A outra metade é um posfácio crítico do autor à própria obra, puxando os fios de interpretações possíveis sobre os elementos reunidos na ficção. Leia aqui o texto publicado hoje no Segundo Caderno de Zero Hora. E confira abaixo a entrevista com o autor, concedida por telefone desde Lisboa, onde o autor português nascido em Angola reside:

Zero Hora – Por lidarem com a tradição de um modo um tanto elíptico, seus livros sempre despertam muitas leituras críticas bastante imaginativas. Neste livro o senhor apresenta uma leitura crítica do livro no próprio livro. Foi para orientar a leitura?
Gonçalo M. Tavares – Penso que não. Penso que é realmente uma segunda parte na qual eu faço uma reflexão sobre o texto narrativo. Mas eu espero que esse ensaio final abra ainda mais leituras e mais interpretações. É também um comentário, uma reflexão muito elíptica, que dá uma interpretação mas também abre um espaço. Como você disse bem, eu quando escrevo tento ser tanto mais sintético quanto possível. E essa síntese, essa tentativa de escrever com o mínimo possível de palavras faz com que, espero eu, aumente a densidade do texto. Eu busco essa densidade como uma característica quase física da matéria: como a matéria que ocupa pouco espaço mas contém muito mais energia. Espero que o meu ensaio final em Matteo Perdeu o Emprego também tenha essa característica. É o leitor que vai, de certa maneira, desdobrar em vários metros quadrados essa energia densa que ocupa pouco espaço. E portanto, eu na segunda parte também não dou muitas explicações.

ZH – O senhor estrutura a história como um círculo organizado de personagem a personagem seguindo a ordem alfabética, uma ordem que, no ensaio, o senhor define como uma escolha arbitrária. Por que, então, o título, que poderia ser sobre qualquer personagem, é justamente sobre o último, o que “perde o emprego”? É seu comentário sobre a crise econômica cujos efeitos ainda são sentidos na Europa?
Tavares – Talvez não tanto, porque o livro é não realista, todos os episódios são bizarros. Eu, por norma, não escrevo sobre o que está a acontecer em termos concretos. Agora, é evidente, o desemprego é qualquer coisa de muito atemporal. E sobre dar ao livro a ordem do alfabeto, uma das coisas importantes para mim foi realmente a ideia de que o alfabeto é qualquer coisa de muito aleatório. Por exemplo, se pensarmos na enciclopédia, com os temas ordenados pelo alfabeto, o que é impressionante é que a ordem alfabética é quase surrealista de tão absurda. Pode-se juntar na letra C a palavra “comboio” com a palavra “costura”… Ou seja, só por ser a mesma letra, palavras que nada têm a ver uma com a outra podem estar juntas ou em uma sequência. E a esta lógica absurda do alfabeto, não sei por que, respeitamo-la como uma lógica qualquer, forte, como se fosse quase uma lógica divina, e não humana. E nesse sentido, no Matteo Perdeu o Emprego, o fato de essas personagens interligadas terem nomes que se ordenam por ordem alfabética dá como que um sentido no meio dessa estranheza. Quanto à história que dá título ao livro, é uma história de alguém que precisa trabalhar, e eu diria que é uma narrativa mais da perversidade humana, que se confunde com a perversidade sexual. Acho que essa característica está muito presente, além da questão do emprego.

ZH – Assim como em outros romances que o senhor escreveu, neste os nomes dos personagens têm um estranho papel simbólico. Em sua série O Bairro, os personagens têm nomes de artistas e pensadores. Em seu ciclo O Reino os nomes têm uma vaga referência ao leste europeu. Neste livro, a maioria dos personagens têm nomes judaicos. Para o senhor o nome de um personagem é escolhido para ancorá-lo em um espaço ficcional próprio?
Tavares – O nome dos meus personagens é quase como o nome de um livro. Há uma parte que é racional na escolha, mas há outra parte que é, eu não diria que do acaso, mas de qualquer coisa que é diferente da racionalidade. Ou seja, eu não escolho o nome de forma consciente. Em outro livro que eu escrevi, chamado Uma Viagem à Índia, a escolha dos nomes têm a ver às vezes com a sonoridade. E nesse caso de Matteo Perdeu o Emprego, o ponto de partida foi um conjunto de fotografias que eu vi de um vendedor de campas. Não eram campas no cemitério, eram apenas as pedras, lisas, não tinham nem data de nascimento ou de morte, porque eram para vender, e nessas campas tinham alguns dos nomes que aparecem em Matteo Perdeu o Emprego, muitos deles judeus. E não sei explicar, eu não penso, quando escrevo, em uma determinada mensagem, nem quero situar a narrativa espacial e temporalmente. Acho que meus livros, no geral, não estão situados nem no espaço nem no tempo. Então, a escolha do nome se dá pela narrativa que ele incita. Eu consigo ver quase como se o nome “Goldman” me atirasse para uma história, por exemplo. Há qualquer coisa que tem a ver com o nome, e se eu usasse o nome “Maria”, isso me atiraria para um tipo de história completamente diferente. Ou seja, o nome não é algo que seja neutro, ele tem já uma história. Quando eu uso um nome judeu, por exemplo, não é apenas o nome de uma pessoa, é como se pudéssemos ver parte da história do mundo através do nome de uma pessoa.

ZH – Matteo Perdeu o Emprego tem um determinado número de temas e signos que aparecem ao longo de todo o livro quase como refrões ou motivos musicais. Não apenas a circularidade da trama espelha outros “círculos” espalhados pelo romance (que começa em uma rótula, ou rotunda, no português lusitano), mas também há uma recorrência à questão do lixo, central em várias das histórias.
Tavares – Interessava-me pensar a questão do círculo. Há outras rotundas que aparecem no livro, e é como se elas espelhassem a própria forma da obra, como se o próprio livro fosse uma rotunda, ainda que mal feita, no sentido de que não termina no mesmo ponto em que começou. Mas no lixo eu não havia pensado nele surgindo tanto assim, mas é verdade. A questão principal era adequar os episódios como se fossem peças de dominó, ou seja, a partir do momento em que se começa a contar a primeira história, aquela primeira personagem cruza-se com uma segunda, a segunda cruza-se com uma terceira, a terceira fala de uma quarta… Matteo Perdeu o Emprego é um pouco a história das ligações possíveis entre diferentes histórias. Não me interessava aqui um personagem concreto ou um tema concreto. Talvez o tema chave seja a questão da circunferência. Mas realmente esses episódios envolvendo o lixo são para mim muito significativos. A mim me interessa muito a ideia do lixo, e que está também em outro dos meus romances, Aprender a Rezar na Era da Técnica. O lixo é uma coisa interessante, porque muitas vezes não temos a consciência de que uma casa de uma pessoa é como se fosse um imenso organismo. Uma experiência interessante seria se filmássemos e pesássemos tudo o que entra de alimento pela porta de uma casa, e depois víssemos o lixo que sai. O lixo é qualquer coisa que atiramos para longe, mas se ficássemos com todo o lixo produzido por uma casa durante um mês, ficaríamos com algo de um peso gigantesco. E é quase como se fossem dejetos do próprio organismo. A ideia do lixo me interessa muito, e cruza-se com a ideia de cidade. A cidade tem muitas funções, e uma delas é fazer desaparecer o lixo. Fazer com que as pessoas não se apercebam que produzem diariamente quilos de lixo, e isso é interessante. Porque esconder o que é sujo, o que cheira mal, é uma imagem que pode ser pensada para outras situações: a cidade quer esconder a pobreza, quer esconder o que é feio, e a cidade às vezes quer esconder a deficiência. E aqui há um instinto da cidade que eu considero muito perigoso: crer apenas em fachadas limpas. Dar uma ideia da cidade que seja apenas, digamos, a sua parte iluminada. Mas a cidade tem várias outras sombras, e o lixo simbolicamente é isso. Aquele episódio do livro de um homem que aproveita o lixo para fazer alguma coisa é algo que me interessa muito, bem como a arte contemporânea, que lida com os restos que a cidade vai deixando.

ZH – Em outro episódio do livro uma escola vai sendo progressivamente soterrada por pilhas de lixo acumulados no pátio após uma greve de lixeiros. Quando o lixo começa a invadir a sala, apenas uma turma permanece. É também um comentário sobre a produção do lixo, e sobre esse peso que o senhor falou?
Tavares – Para mim não há uma interpretação concreta, como disse, há várias interpretações, mas realmente há ali qualquer coisa que tem a ver com a racionalidade, com a pessoa manter a sua inteligência e manter-se aprendendo apesar de mais ou menos atacado pelo lixo. São temas que me interessam, e o Matteo Perdeu o Emprego está cheio de pequenos episódios, de situações um bocado bizarras que têm a ver com a cidade. É possível dizer que o livro é sobre a lógica da cidade, também.

ZH – Caminhos também são um signo recorrente no romance. Ele começa em uma rótula, uma via para automóveis, na qual um homem é atropelado. Há uma outra rótula projetada em um cruzamento quadrado. Há dois homens que se perdem em um labirinto turístico. É também um romance sobre trajetórias?
Tavares – Sim, parte da cidade é basicamente uma rede de cruzamentos sucessivos. Matteo Perdeu o Emprego é realmente sobre essa questão dos caminhos, de ir pela esquerda ou pela direita. Eu vejo a cidade como se fosse uma máquina composta por vários cruzamentos que mais não fazem do que separar as pessoas. Por exemplo, em Lisboa eu ando muito de metrô. E uma das coisas que gosto é de ver, em uma estação de metrô, aquelas centenas e centenas de pessoas a saírem de uma mesma estação. E a estação tem duas saídas. E logo de imediato, se tivermos ali mil pessoas, 500 vão por uma saída e 500 vão pela outra. É o primeiro cruzamento, aquela saída de metrô. E depois, as 500 que foram para um lado vão andando e chegam a outro cruzamento. Ali, 200 vão para a esquerda, 100 vão em frente e 200 seguem à direita. E daqueles 200, depois vão 100 para um lado e 100 para o outro. Vão aparecendo cruzamentos sucessivos e o que eu sinto é que os vários caminhos, os vários cruzamentos, são maneiras de ir separando multidões. Até o ponto em que, a certa altura, restam duas pessoas caminhando lado a lado, uma vai para a esquerda e outra dobra para a porta de seu apartamento, abre a fechadura, deita-se na sua casa, na sua cama, uma daquelas mil pessoas que saíram da estação de metrô todas juntas. E isso é a grande máquina da cidade, é como um conjunto de canais de água que consegue transportar uma pessoa para seu local individual, a sua casa, a sua cama. De certa maneira os conflitos na cidade aparecem quando duas pessoas estão no mesmo espaço e não deveriam estar.

ZH – Matteo Perdeu o Emprego parece fundir elementos de seus projetos anteriores: os romances da série O Reino, com um corte mais sério e realista, e os livros da série O Bairro, na qual o senhor cria variações sobre temas mais abstratos e fantásticos. O senhor o vê como uma síntese?
Tavares – Eu diria realmente que, se pensarmos nos romances, Jerusalém, Aprender a Rezar… são do mundo mais realista. E as narrativas d‘O Bairro são mais da fantasia. Histórias como a do Senhor Valéry são uma ficção em um mundo paralelo à realidade. Este Matteo Perdeu o Emprego é ao mesmo tempo um livro realista e fantasioso, bizarro. E, portanto, é uma mistura entre qualquer coisa que poderia acontecer mas que era muito improvável acontecer, era estranho. Há uma coisa no livro que me interessa muito, que é o contraste entre este tom por vezes estranho, quase no limite da irracionalidade que marca as histórias, e depois o tom muito racional e reflexivo que marca o posfácio interpretativo. Me interessava escrever as histórias, ligá-las e depois pensar como escrever racionalmente, reflexivamente, sobre histórias que têm um tom não realista. Isso é também interessante, porque podemos pensar sobre histórias realistas ou pensar sobre a realidade, mas a partir de histórias não realistas. Matteo Perdeu o Emprego é qualquer coisa que eu não sei bem definir, mas ocupa um espaço intermédio entre a realidade e esse mundo paralelo da ficção.

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As esperanças de Pepetela

26 de fevereiro de 2013 0

O escritor angolano Pepetela. Foto: arquivo pessoal

Nos anos 1970, Artur Pestana usava o codinome “Pepetela”na guerra pela independência angolana, justamente a tradução para o umbundo de seu sobrenome “Pestana”. Com o fim do conflito, o apelido de guerra virou pseudônimo literário, e Pepetela, um dos mais reconhecidos autores de seu país. Dois de seus principais trabalhos, Mayombe (1980) e A Geração da Utopia (1992), ganham agora nova edição no Brasil. Mayombe foi escrito durante o período da guerrilha, e aborda um grupo de guerrilheiros tentando estabeleceu uma base da luta revolucionária no meio da floresta do Mayombe, nas proximidades da fronteira com o Congo. Focado na figura do valente comandante Sem Medo, o livro intercala narração e as vozes dos próprios guerrilheiros, mostrando as fissuras que cada preconceito individual provoca na utopia coletiva da luta pela independência. Utopia que é pesada e analisada em A Geração da Utopia, uma história em cinco partes que acompanha três décadas da história angolana, dos estudantes universitários que moravam na Casa do Estudante Africano em Lisboa, de onde saíram muitos dos luminares da luta pela independência, a um novo olhar sobre a guerra de libertação até o isolamento de um de seus personagens mais centrais e idealistas. Por telefone, de sua casa em Luanda, Pepetela falou a Zero Hora:

ZH – Em Mayombe, há dois procedimentos narrativos. Um narrador em terceira pessoa segue os guerrilheiros no Mayombe, acompanhando de perto especialmente o chefe dos combatentes, Sem Medo. E, a intervalos, há discursos em primeira pessoa em que alguns indivíduos da guerrilha dão voz a paixões e preconceitos, a diferenças tribais e animosidades. Foi sua forma de apresentar as tensões do movimento coletivo com o preconceito individual?
Pepetela –
Isso nasceu muito por acaso. Quando eu estava escrevendo, o primeiro personagem que aparece em primeira pessoa, o Teoria, se impôs, bem no gênero do personagem que diz ao autor: “Peraí, eu pego na palavra, sou eu que vou falar”. Achei interessante. E depois mais tarde pensei: isto está muito arriscado, cá estou eu fazendo inovações a mais. Mas depois concluí: quem não arrisca não consegue nada, então vou experimentar esse método. E o fui aperfeiçoando. Um leitor atento notará que nas primeiras vezes um personagem pega na palavra três vezes, outro, duas vezes, depois passam a ser só uma vez, uma vez, uma vez. E que os personagens que mais têm voz durante o livro, que são o comandante e o comissário, esses não precisam falar, não aparecem como narradores. Exceto no fim, o comissário, mais como um epílogo do que outra coisa. Foi assim uma ideia que me surgiu e, agora, claro, com o tempo, com estudos que foram feitos, pessoas que interpretam de uma maneira ou de outra, vai haver uma teorização, mas ela veio depois. Eu não tinha na ocasião a ideia de usar essa técnica narrativa para outra coisa qualquer. O que me surgiu foi que o personagem queria falar. Acho que resultou em parte que muita gente, muitas vozes diferentes se tenham exprimido naquele livro, e vozes que eram conflitantes. Essas falas realmente tocam naquilo que nós chamávamos de tribalismo, hoje é um apalavra que está ultrapassada realmente, chamar-se ia etnicismo ou qualquer coisa assim do gênero. Mas era um problema que existia, essa questão das diferentes etnias, diferentes culturas, as pessoas se chocavam um pouco ainda com isso. E com a própria luta, o próprio contato, foi se esboroando um pouco. Não quer dizer que tenha desaparecido totalmente, mas o sentimento nacional, uma identidade própria que liga todas as pessoas tornou-se mais forte do que essas diferenças.

ZH – Esse processo é também o do próprio próprio grupo de guerrilheiros em Mayombe, já que a resolução das quizilas tribais se dá no fim da narrativa depois de um combate e de um sacrifício de um combatente para salvar outro, independentemente da etnia.
Pepetela –
Exatamente. Há uma superação dessas diferenças e desconfianças, que vai se fazer pela práxis, pelo fato de conviverem e lutarem todos juntos, o sentimento de união e unidade acaba por ultrapassar essas diferenças. De fato, era também o grande objetivo do livro.

ZH – Mayombe é uma narrativa na qual a noção de comunidade dos combatentes suplanta as divergências regionais e étnicas. É uma postura bem mais otimista do que a de A Geração da Utopia. Em uma das partes de A Geração…, o senhor retorna à guerra de independência, mas desta vez pelo ponto de vista de um soldado solitário e delirante no meio da savana, sempre prestes a desistir e a pensar só em si. É uma espécie de reavaliação dos rumos da guerrilha?
Pepetela –
É, digamos que o autor foi aprendendo ao mesmo tempo em que a realidade também foi mudando. O tempo do Mayombe, quando a luta não era bem inicial, mas via-se um futuro, era de uma certa crença. Apesar de já no primeiro livro haver uma série de avisos pelas palavras do comandante Sem Medo, que declara que não serviria para uma Angola independente, porque dali a algum tempo os burocratas iam tomar conta da situação. Já havia em Mayombe alguns avisos, mas torna-se muito mais evidente a realidade, a fragilidade do próprio movimento político em A Geração da Utopia. Agora, também é preciso dizer que essa parte do livro que você citou foi escrita muito antes de todo o resto. Foi redigida ainda bem antes da independência, poucos anos depois de haver escrito Mayombe. Só que depois, quando escrevi A Geração da Utopia, integrei isso, com algumas modificações para poder enquadrar, como a segunda parte do livro. O espírito ainda é um pouco esse espírito da luta, mas em uma fase absolutamente decadente, que era o que se passava, na realidade. Que foi uma fase muito má que passamos antes que a guerra contra os portugueses terminasse, estivemos em um período bastante difícil. Então o estado de espírito é bem diferente. Em um, ainda há esperança, em outro, há muito menos. E depois da Independência, a guerra civil que a sucedeu terminou por retirar tudo o que havia de esperança na tal de utopia.

ZH – E esse capítulo escrito antes estava inserido em que espécie de projeto literário? Era uma espécie de continuação do tema da guerrilha abordado em Mayombe? Ele fazia parte de que projeto e como ele se alterou?
Pepetela –
Escrevi essa parte como se fosse uma história independente. Depois achei que, como história, só aquilo não servia, precisava de mais. Só aquela parte acabaria por parecer demasiado negativo, quase apocalíptico. De maneira que não quis publicar, escrevi outros livros, até que, quando resolvi escrever A Geração da Utopia, percebi que aquele texto que havia escrito anos antes encaixava muito bem no conjunto. Foi isso.

ZH – Esses dois livros parecem formar um tríptico, ainda que informal, com um de seus romances mais recentes, Predadores. Em A Geração da Utopia, seus personagens discutem que tipo de capitalismo e de empresariado se poderia formar em uma sociedade como a Angola recém-independente e recém-pacificada. Predadores, sobre a corrupção e a voracidade endêmica da economia local, parece ser uma resposta a essa questão.
Pepetela – É, de fato há uma ligação desses três livros. Não foi procurada, sobretudo entre Mayombe e A Geração da Utopia, porque, quando escrevi Predadores, já tinha os outros dois, e portanto aí talvez já haja uma maior reflexão partindo dos pressupostos que existiam nesses livros anteriores. E os três podem sem dúvida alguma ser apresentados como um tríptico.

ZH – A Geração da Utopia, apesar de passagens extremamente dramáticas, termina por revelar-se uma sátira a tipos nacionais como o empresário corruptor, o bispo explorador e o ministro corrompido?
Pepetela –
É uma leitura possível. Agora, essa questão da sátira está muito presente na literatura angolana, é um pouco a tradição da literatura do país, jogar com a ironia, com um certo humor, não o humor de gargalhada, mas o humor um pouco escondido. É muito típico, não apenas da literatura, que no fundo representa a população, as pessoas. Isso é muito do povo angolano. Como há esse tipo de pessoas muito frequentemente também no Brasil. Nós usamos esse aspecto, tenho usado mais em alguns outros livros do que nesse, mas é óbvio que o absurdo, os temas e alguns subtemas me levavam a usar a sátira. Há personagens que são retratados como comédia. O Elias é um personagem de comédia. Uma comédia por vezes trágica.

ZH – A esperança está presente no final dos dois livros. Em Mayombe, uma esperança otimista de integração além das diferenças tribais e locais. Em A Geração da Utopia, a esperança já é apresentada de modo mais irônico, como uma ferramenta apropriada pelo culto de uma igreja eletrônica. Sua literatura muda ao tratar da esperança?
Pepetela
_ Há um ou outro personagem que tentam transmitir qualquer esperança para o futuro, principalmente os personagens mais jovens, nesta esperança de que a nova geração vá fazer qualquer coisa melhor. Mas de fato o Mayombe, apesar de ter sido escrito bem antes da independência, aponta para um objetivo que acabou não sendo alcançado. E como às vezes o próprio comandante, do Mayombe, diz a um momento dado: se atingirmos 50% do objetivo estaremos satisfeitos. O objetivo foi 50% conseguido, que era a independência. Faltou uma sociedade mais justa, e é essa a luta atual.

ZH – Seus livros se debruçam sobre o passado de Angola oferecendo um retrato das contradições da sociedade de seu país, tanto sob o colonialismo quanto os problemas de uma nação livre. Sua literatura tinha o propósito declarado de construir uma versão da identidade angolana?
Pepetela –
Sim, até porque a história de Angola é mal conhecida. E é uma história escrita por estrangeiros, fossem portugueses ou não, há também relatos de missionários italianos, por exemplo. Sobretudo a visão angolana da história é pouco conhecida – a visão angolana hoje, já que durante a guerra não a havia. Tenho tentado tratar alguns temas do passado mostrando que há elementos do passado que ficaram preservados no inconsciente coletivo e que servem para marcar aspectos importantes da identidade nacional. E penso que é com base no uso desses elementos de uma forma consciente, trabalhada, que nós podemos ter fato uma nação orgulhosa de si própria, porque, apesar de dominada, sabia lutar, e tinha personagens, tinha pessoas com capacidade de enfrentar todas as situações. E por isso procuro essas situações no passado para minha literatura. O objetivo é esse: a procura das linhas da chamada “angolanidade”. É um movimento parecido com o que houve no Brasil, digamos, no século 19. O chamado Romantismo, no fundo, é um pouco isso, procurar a alma da nação.

ZH – O senhor acredita que o momento literário de Angola seja outro, além dessa questão da identidade?
Pepetela –
Sim, é muito variado já. Está bem diferente hoje, há muitos temas atuais, muitos deles até universais e não se fica só pela política, pela procura de identidade e pela história. Tem havido um florescer de estilos mesmo de escrita mais modernos, digamos tentativas de inovação como se passa em outras literaturas. E há muitas vozes novas, que infelizmente não são muito conhecidas fora do país.

ZH – A Geração da Utopia e Mayombe são, provavelmente, seus livros mais estudados na universidade brasileira, mas estavam há tempos esgotados no país. Uma nova edição é um prolongamento da vida das obras?
Pepetela –
Para mim é muito interessante e emocionante mesmo, sobretudo em relação ao primeiro, Mayombe, que foi lançado no Brasil no anos 1980. E realmente são dois livros que têm sido muito utilizados na academia, são objeto de teses de licenciatura, mestrado, doutora. Sempre que vou ao Brasil ouço dizer que há alunos que estão estudando esses livros, mas tem de fazer cópias porque os livros estão esgotados, não aparecem, etc. De maneira que o fato de agora a editora ter decidido publicar de novo esses livros dá sim uma nova vida. Haverá alguma procura, e gostaria que não fosse apenas na área acadêmica, e sim que houvesse um interesse maior do grande público, mas aí o problema é outro.

ZH – Mas vários autores lusófonos não brasileiros têm sido publicados por aqui. De Angola há também Luandino Vieira, José Eduardo Agualusa, Ondjaki. Tem havido progressos na interação entre os universos literários de língua portuguesa?
Pepetela
Tem havido algum. Não tanto quanto seria desejado, talvez, porque são poucos autores, mas de qualquer maneira tem havido realmente um aumento de interesse. E sobretudo há outra questão: antes essa procura era muito reduzida a um eixo Rio-São Paulo, Porto Alegre, por aí. E agora está alargado para estados do Norte e do Nordeste. Eu estive já há alguns anos na Amazônia e encontrei livros nossos nas livrarias, e isso é muito bom. Sem dúvida alguma, há um avanço no número de livros e autores, pequeno, mas há. Mas acho que o maior avanço é esse interesse estar mais espalhado, e alguns livros até entrarem no circuito escolar. Isso faz com que haja um aumento do público para livros africanos.

ZH – Já falamos de como sua literatura mudou o tratamento da esperança, como a colocou em perspectiva de acordo com cada momento. E hoje? O senhor, pessoalmente, mantém a esperança em Angola?
Pepetela –
Digamos que continuo a ser 50% otimista, 50% pessimista. Todos os dias há assuntos nos quais se dá mostras de que estamos a avançar, e depois há logo outros que aparecem que nos dão a impressão de que está tudo errado. Mas eu creio que, de qualquer modo, do ponto de vista econômico, creio que estamos avançando, sem dúvida alguma, mas isso é porque Angola tem muitos recursos. Há países com muito menos recursos, mas bem governados, que avançam mais. Portanto, não há razão para muita satisfação, mas não há razão para estarmos tragicamente a pensar que o país nunca mais avança. Está a avançar, não tão rapidamente nem tão bem como gostaríamos. Há muitas críticas a fazer, mas também é possível reconhecer que se fizeram boas coisas.

Pepetela e o outro lado das coisas

25 de maio de 2012 0

O escritor Pepetela. Foto: Sérgio Lima, Divulgação

Pepetela situa-se entre os autores que trazem consigo a sina da procura da identidade nacional, o que se coloca já a partir da “cartilha” para guerrilheiros adultos,  As aventuras de Ngunga, (1972). É o autor quem diz : “despojados que fomos da nossa História por séculos de obscurantismo, muitas vezes  nos  sonhando iguais aos outros, mas sempre temerosos da comparação, nada igualava as tradições da Europa a que tínhamos que ficar para sempre agradecidos porque  das trevas nos tirou, quando afinal as trevas vinham de lá…”

Pepetela nasceu numa região fronteiriça do reino de Benguela, onde terminava a cidade branca e começava o musseke, portanto produto, como sua própria cultura, da confluência da base africana com a influência euro-ocidental. É a partir desta posição que propõe, através de sua obra, a reescrita da história angolana, com a visão não apenas do ponto de vista da colonização, mas também daquelas populações que a viveram de fato. Trata-se da procura da identidade através da reunião dos elementos dispersos na memória coletiva. É como chegamos ao excelente livro que, agora, lança no Brasil, A Sul. O Sombreiro (Editora Leya, 364 páginas, R$ 44,90), onde volta, com um diálogo forte, tenso, irônico entre a história e a ficção. É com extrema habilidade que o autor nos conduz  ao princípio da colonização angolana, aos séculos 16 e 17, período do domínio espanhol sobre as terras lusas, construindo a urdidura sobre duas personagens, uma histórica, Manuel Cerveira Pereira, administrador do império e conquistador de Benguela, e uma ficcional, Carlos Rocha, um negro livre, talvez descendente do navegador Diogo Cão.

O primeiro, Pereira,  o legítimo representante da prepotência, da crueldade, da hipocrisia e da ganância do processo de colonização. Sabia como ninguém se movimentar entre conspirações e intrigas na corte, empolgando os reis com as grandes riquezas que lhes poderia oferecer, mas esquecendo-se de referir os lucros que teria com o comércio de escravos ou outros produtos. Na verdade, todos os colonizadores, inclusive os padres jesuítas e franciscanos, acobertados pela missão de converter as populações locais ao cristianismo, ambicionavam enriquecer rapidamente e sem grande trabalho.

O que poderia ser apenas um relato factual, ainda que interessante,  se enriquece com o cruzamento da história com o segundo personagem, Rocha, e nisso Pepetela é mestre. Esteticamente inquieto, o escritor brinca com a estrutura, no que diz respeito ao ponto de vista, o que está ligado à própria tradição oral africana, e na utilização de uma linguagem que transita  entre o Português e as línguas nacionais angolanas. É através do percurso de Carlos Rocha que a tradição emerge, quando, com o fiel Mulembe e um mosquete nas costas, abandona Luanda temendo que o pai, um alcoólatra que tudo perdera, o venda como escravo. É Carlos Rocha, ” o negro branco”, quem desvela, aos olhos do leitor, a paisagem africana e suas gentes, seus costumes, a rivalidade entre os reinos  Ndongo e Konga e os confrontos tribais e, é justamente numa tribo jaca, canibal, que ele encontra Kandalu,  a mulher a quem vem a amar e que o coloca  na divisa das diferenças culturais, seja pelo dote, um escravo a ser comido, seja pelo filho, que deveria ser morto no nascimento.

Uma figura que merece destaque é o aventureiro inglês Battell, exímio contador de histórias, que, ao voltar para a terra natal, escreve um livro de memórias. Da mesma forma, não há como ignorar o narrador que insiste em interromper a narrativa, para apresentar sua versão, crítica e irônica, da história que, então, se conta.
É como Pepetela se reafirma  em A Sul. O Sombreiro, como o maior romancista de Angola e da tradição angolana, revelando, com olhos críticos jogados no passado,  causas que nos podem iluminar o presente angolano e africano.

Texto de Jane Tutikian, escritora e diretora do Instituto de Letras da UFRGS

Entre tradições inventadas e verdades pré-moldadas

01 de setembro de 2011 0

Nota do editor: Nossa colega da editoria de Política, Letícia Duarte, partiu recentemente para uma temporada em Moçambique fazendo trabalho de campo para seua dissertação de mestrado. Antes de sua ida, sabedor de sua ligação com o país passei a ela o livro mais recente de Mia Couto, a coletânea de artigos E se Obama Fosse Africano. De lá, ela enviou hoje o seguinte texto, que divido com vocês aqui no Mundo Livro:

O título engana. Quem espera profundas digressões a partir das raízes do presidente dos Estados Unidos pode se decepcionar ao ler o livro E se Obama fosse Africano, de Mia Couto.

Em compensação, o autor escritor moçambicano oferece bem mais. Sem abandonar a prosa poética que caracteriza seus romances, apresenta nesta obra uma coleção de ensaios sobre a África contemporânea, sobre sua visão de mundo e o próprio ofício de escritor — revelando a influência de autores como Jorge Amado, “que fez pela projeção na nação brasileira mais do que todas as instituições diplomáticas juntas”, e Guimarães Rosa, “que provocou uma espécie de abalo sísmico” na sua alma, segundo suas palavras.

São reflexões que revelam a inquietação de um pensador diante do destino de um continente que escapa aos estereótipos que tentam enquadrá-lo. Ao longo dos textos, a maioria transcrições de palestras feitas pelo escritor em diferentes partes do mundo, inclusive no Brasil, Mia Couto propõe um exercício de desconstrução de verdades pré-moldadas sobre a África, criticando o sentimento de vitimização que ajuda a fecundar a pobreza, como se fosse uma semente própria das savanas africanas.

Com a legitimidade de um filho da terra, o autor analisa o choque entre a cultura tradicional, impregnada por rituais de feitiçaria, magia e curandeirismo, e a pretensão científica de resolução de problemas africanos com receitas prontas _ quase sempre estrangeiras e tecnológicas. Rejeitando a condição de refém da própria história, defende que todos são vítimas e culpados ao mesmo tempo, opondo-se à tentação de sempre colocar a culpa pelo subdesenvolvimento africano no outro – seja a escravidão, o colonialismo, o imperialismo. E adverte que até a pobreza é um conceito relativo: em algumas línguas de Moçambique, sequer existe a palavra pobre. “Um pobre é designado como sendo ‘chisiwana’, expressão que quer dizer órfão. Nessas culturas, pobre não é apenas quem não tem bens, mas é sobretudo quem perdeu a rede de relações familiares que, na sociedade rural, serve de apoio à sobrevivência. O indivíduo é pobre quando não tem parentes. A pobreza é a solidão, a ruptura com a família”, escreve. Embora o idioma oficial de Moçambique seja o português, o país tem 25 línguas, e só 12% da população tem como língua materna o alfabeto luso.

Se, para o leitor pouco familiarizado com a realidade africana, podem parecer um tanto anacrônicas as sucessivas referências ao embate entre a “modernidade” e a “tradição”, a reflexão é uma amostra significativa dos dilemas atuais do continente. Uma realidade multifacetada. Em Moçambique, por exemplo, enquanto mais de 80% da população ainda vive sem energia elétrica em casas de palha, entre a elite do país começa a se popularizar o hábito de viajar à China para comprar móveis para seus lares de alvenaria (ironicamente, boa parte dos produtos chineses é produzida com madeira extraída em Moçambique). Ao mesmo tempo em que são populares no interior do país cerimônias para pedir a chuva aos deuses, os moçambicanos são fãs de novelas brasileiras, cantam músicas de Leonardo e Zezé Di Camargo e Luciano e torcem para times de futebol europeus.

Diante de influências culturais tão distintas e entrecruzadas, o que seria autenticamente africano? Mia Couto também se questiona sobre isso, falando da armadilha da identidade, vista como uma outra forma de aprisionamento.

E defende que as tradições quase nunca são tão puras como alguns supõem. Como demonstra um anúncio de jornal em que um curandeiro oferece seus serviços em Moçambique: “Curamos asma, diabetes e borbulhas, tratamos de doenças sexuais e dores de cabeça, afastamos má sorte e… tiramos fotocópias”.  Afinal, até as tradições precisam um dia ser (re) inventadas. Seja na África ou em qualquer outro ponto do planeta.

Texto de Letícia Duarte

Uma Viagem a Passo Fundo

24 de agosto de 2011 0

Gonçalo M. Tavares chegou com o semblante cansado à Jornada de Passo Fundo, na tarde de ontem. Um dos mais importantes escritores da literatura portuguesa atual, Tavares é também um dos mais solicitados, e tem feito muitas viagens físicas para falar de uma jornada imaginária, a de seu livro Uma viagem à Índia, com o qual o autor tenta traduzir para a contemporaneidade o gênero épico versificado ao qual se filia Os Lusíadas.

Tavares falou nesta tarde em uma mesa com a participação do crítico Luiz Costa Lima (UERJ) e dos escritores Maria Esther Maciel, Nilson Luiz May e Tatiana Salem Levy. O tema é justamente o da identidade na era da globalização, um dos pontos tangenciados por Uma Viagem À Índia, que narra a viagem de um homem comum, Bloom (o homem comum arquetípico de Joyce) não apenas pelo nosso mundo físico, mas pela atmosfera do atual século. Ao mesmo tempo em que divaga e viaja muito em sua própria cabeça (e aqui a referência é a Viagem Ao Redor do Meu Quarto, de Xavier de Maïstre), Bloom também é o tema de uma reflexão sobre a própria maneira como um épico versificado pode ser composto nos dias de hoje.

– Minha ideia com esse livro foi responder à pergunta de como podemos construir uma epopeia no século 21, um épico que responda às nossas questões de hoje, focando o personagem, os defeitos e a situação absolutamente comum do personagem. Não é mais tratar das andanças de um herói como antigamente, e sim levar um homem banal, absolutamente comum, mesquinho, a uma longa viagem de Lisboa a Índia, refazendo o percurso dos Lusíadas mas em um tempo sem lugar para grandes e desconhecidas aventuras. – disse.

No fim da tarde, ele ainda conversou com um dos mediadores recorrentes da Jornada, Ignácio de Loyola Brandão, na praça de alimentação lotada do centro de convivência da universidade. E falou bastante sobre os contos surreais de sua série O Bairro, cada um protagonizada por um diferente “senhor”.

- Cada um desses livros é como uma enciclopédia de conceitos protagonizados pelos senhores. O Senhor Juarroz é o pensamento. O Senhor Vallery é a lógica.

Mãe e o patriarcado

25 de fevereiro de 2011 3

É a tese central de um dos principais livros de Raduan Nassar (e da própria literatura brasileira): quanto mais insular, mais a família se torna o terreno de uma lavoura arcaica cuja seara resultará em sangue e vício. É também uma boa chave de leitura para o romance o remorso de baltazar serapião (Editora 34, 200 páginas, R$ 37), do escritor português nascido em Angola valter hugo mãe, que está sendo lançado no Brasil.

Destaque da ficção portuguesa contemporânea, também poeta e artista plástico, valter hugo mãe (que, a exemplo do americano e.e. cummings, assina seu nome com todas as letras minúsculas, expediente que vai se repetir ao longo do romance, no qual nenhum nome própria é escrito com maiúsculas), narra em o remorso de baltazar serapião, obra vencedora do Prêmio José Saramago em 2007, uma história de tons fabulares em uma aldeia de hábitos medievais em lugar não determinado. A linguagem, bastante calcada na tradição oral, tem clara familiaridade com a reinvenção da prosódia sertaneja levada a efeito por Guimarães Rosa, mas o substrato que perpassa a história tem mais a ver com outro clássico brasileiro: Graciliano Ramos. “Você é um bicho, Fabiano.”, reflete para si mesmo a certa altura o protagonista de Vidas Secas. E o que se vê página a página do romance de valter hugo mãe é a desumanização progressiva e ininterrupta de baltazar serapião e sua família, centro gravitacional do romance.

O pai de baltazar é um homem bronco e submisso diante do senhor das terras, dom afonso, habitante do castelo que domina a aldeia com autoridade feudal. O nome do pai de Baltazar também é afonso, artifício que denuncia o quanto o homem de cabeça-baixa e chapéu na mão ao falar com seu mestre reproduz em no lar a estrutura feudal perversa em que vive, impondo-se como senhor absoluto da casa: “e nós adormecemos também, espantados com a obediência ao meu pai, discernido superiormente sobre todas as coisas da nossa vida.” A mãe arrasta-se devido às dores provocadas por um pé quebrado pelo pai muitos anos antes, marca física de ao marido: “com o pé em modos de pouco andar, ela haveria de estar sempre por ali, e mais que a fúria do meu pai pudesse acontecer um dia, à minha mãe não lhe valeria corrida alguma. haveria de estar parada por natureza, à mercê da sabedoria do marido“. A própria maneira como a família é conhecida na aldeia em que vive é um resultado de sua progressiva inumanidade. Serapião e os seus não são chamados pelo sobrenome, mas pelo apelido de “os sargas”, mesmo nome da vaca já velha e alquebrada que dorme em um dos quartos dentro da casa — e que a maledicência dos vizinhos há muito já transformou em amante do pai e provável mãe de serapião e de seu irmão aldegundes.

Rodeado por esse mundo arcaico e primitivo, bestializado pela miséria e pela posse autoritária de sua vida exercida pelo senhor dom afonso, serapião a princípio apresenta-se ao leitor como um jovem cheio de valor, apaixonado pela moça que lhe foi prometida em casamento, ermelinda. À medida que a narrativa avança, percebe-se que o personagem é tão moldado pelo ambiente que o cerca quanto todos os demais. Seu afeto pela mulher com quem se casa implica naturalmente uma ideia de posse — posse ameaçada pelo interesse do senhor das terras na beleza de ermelinda. Baltazar tem medo e raiva do que considera incompreensível nas mulheres, aversão ancestral transmitida pelos ensinamentos do pai, numa corrente de preconceito misógino patriarcal passado de pai a filho como uma herança sombria: “uma mulher é ser de pouca fala, como se quer, parideira e calada, explicava o meu pai, ajeitada nos atributos, procriadora, cuidadosa com as crianças e calada para não estragar os filhos com os seus erros“.

Para retratar um mundo de mentalidade tão arcaica no qual o mágico por vezes se confunde com o real, valter hugo mãe, também poeta e artista plástico, faz do centro de seu romance a invenção de uma linguagem elíptica que olha para o mundo de viés e usa fórmulas líricas para descrever um cotidiano paralisado e imutável. Uma linguagem, como já se disse, que tem raízes em Guimarães Rosa e aparenta-se com a moçambicano Mia Couto e a do também angolano Luandino Vieira. Uma prosódia que recupera a oralidade arcaica necessária para transmitir a visão de um mundo tão antigo. E que exige do leitor o comprometimento por antecipação, sem meios-tons. Ou embarca-se na corrente lírica da prosa ou tudo vai soar um tanto estranho e exagerado. Para os que escolherem a primeira opção, a recompensa é certa.

Conhece o Mário?

03 de fevereiro de 2011 1

Há alguns anos a Companhia das Letras publicou aqui no Brasil o romance Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto, do escritor português Mário de Carvalho – uma pérola de ácido sarcasmo de um autor que ainda é pouco ou nada conhecido no Brasil, e só recentemente vem ganhando atenção nos círculos acadêmicos nacionais. Apesar disso, Carvalho é um nome de relevância entre os atuais autores de ficção de seu país. a crítica Ana Paula Arnaut lista Carvalho como um dos autores que praticam o que se poderia chamar de “ficção pós-moderna” em Portugal, ao lado do José Cardoso Pires de O Delfim, do José Saramago de Manual de Caligrafia e Pintura e do Mário Cláudio de As Batalhas do Caia. De Mário de Carvalho, já saíram em edição nacional o mencionado Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto (2005), o romance histórico passado na Lusitânia sob domínio romano Um deus passeando pela brisa da tarde (2006), e a coletânea de contos Era uma vez um alferes e outros contos (2008), reunião de histórias curtas que em Portugal haviam sido lançadas em três volumes diferentes nos anos 1980 e 1990.

Nascido em 1944, em Lisboa, Mario de Carvalho cerrou fileiras com a resistência à  ditadura salazarista em Portugal. Integrante do Partido Comunista Português, foi preso e mais tarde exilou-se na França e na Suécia, até voltar à terra natal, como muitos de seus contemporâneos, na esteira da onda de otimismo que se seguiu à reinstauração da democracia no país após a revolução de abril de 1974. Em Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto, o escritor monta um panorama do Portugal de fins do século 20 (o romance foi publicado lá em 1995), usando de sátira, comicidade e de um narrador interferente para lançar um olhar ao que sobrou dos sonhos e utopias dessa esquerda portuguesa. Ao mesmo tempo, o livro flagra, não sem uma nota de melancolia, a ascensão de uma juventude desconectada dessa herança política e mais afeita a procedimentos individualistas, plenamente adaptada a tratar a si mesmo e a todos os aspectos de sua vida como produto em exposição no mercado, pessoal, sexual, ou profissional. Uma juventude que, passadas já duas décadas da “Revolução de Abril”, está mais preocupada com o que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman qualifica como uma “vida posta para consumo“.

O centro narrativo de Era bom que trocássemos… etc, é o protagonista Joel Strosse Neves, burocrata cinqüentão que, após anos de trabalho no setor de análise de projetos a ser patrocinados por uma entidade fictícia chamada Fundação Helmut Tchang Gomes, é atropelado pelos planos de reformulação ideados por seu superior hierárquico, um jovem recém-chegado, brandindo uma especialização irrelevante que só proporciona algum status de respeitabilidade porque feita na Suíça. O trabalho do personagem é irrelevante, redigir cartas de aprovação ou recusa para projetos de financiamento cultural – só redigir, a decisão está fora de sua alçada. Ainda assim, o personagem acredita importante o cargo que exerce, e nele dá vazão a uma inútil idiossincrasia literária: “Joel orgulhava-se de jamais ter deixado uma carta sem resposta, e de, com uma única excepção que lamentava, mas sempre omitia – e eu, portanto, respeitarei – nunca ter repetido os vocábulos de ofício para ofício, fruto de aturado labor sobre o dicionário de sinônimos. “

Strosse é transferido de cargo no início do romance sem mais justificativas que a vontade de seu superior, caricatura acabada dos métodos executivos de “reengenharia” e “otimização de recursos” em voga no capitalismo contemporâneo de mercado global. Mandado para o também quase inútil posto de bibliotecário da Fundação, Strosse Neves sente-se aviltado e é tomado de uma surda revolta que lhe dita patéticas ânsias de rebeldia e de atos de subversão hilários, porque também inúteis. A repetição do adjetivo “inútil” aqui não é gratuita, é antes uma antecipação do tom geral da obra. O sarcástico narrador ainda nos põe a par do drama doméstico que o burocrata vive, com um filho preso por tráfico de drogas – circunstância que Strosse Neves esconde dos conhecidos e colegas de trabalho contando histórias que transformam a longa ausência em viagens de estudo e trabalho ao Exterior. O personagem também se recusa a visitar o filho na cadeia, teimosia que o põe permanentemente em conflito com a mulher. Tal desordem pessoal impede que Strosse perceba os sentimentos de afeto que uma colega de Fundação nutre por ele. A vida do anti-herói do romance já começa, portanto, numa bagunça dos diabos, tornando a transferência de setor apenas um último elo em uma cadeia de frustrações pessoais.

É imbuído dessa consciência trágica de seu fracasso que Strosse decide buscar uma nova significação para sua existência por meio de uma decisão política: inspirado no heróico exemplo dos antigos colegas de faculdade que via, quase 30 anos antes, engajados na luta contra a ditadura salazarista, toma a decisão de filiar-se ao Partido Comunista Português (PCP). Uma pretensão que ganha corpo depois de o personagem encontrar por acaso, na cidade balneária na qual passa férias, o antigo colega de faculdade Jorge Matos, personagem que também assumirá importância no desenrolar do romance. Outrora um preso político, em 1973, no tempo presente da narrativa Matos é um comunista pouco militante que há tempos não comparece às despovoadas reuniões do partido. Numa desinformação que instaura o cômico por meio do absurdo, Strosse Neves ainda pensa o PCP do fim do século 20 como a organização clandestina heróica na qual cada nova filiação dependia de recomendação de alguém de confiança, e por isso pede ao antigo colega Matos que seja o fiador dessa intenção. Uma solicitação que, por sua dramaticidade anacrônica, surpreende o velho comunista, já ele próprio pouco ligado à militância do passado:

Se Joel estava embaraçado, Jorge ainda o estava mais. Que ajuda poderia ele dar? Falar em quê? Por que não havia o outro de preencher uma ficha num balcão, numa mesa ou lá como fosse? De resto, ia para mais de seis meses que não punha os pés numa reunião do Partido. Faria algum sentido aparecer um dia, pedir a palavra no ponto de “informações“ e comunicar que um fulano, seu colega de Faculdade, em tempos antigos, também queria ser militante

Uma terceira personagem vai representar uma certa oposição entre gerações: a jovem arrivista chamada Eduarda Galvão, primeiramente ex-namorada do filho encarcerado de Neves, e mais adiante amante oportunista de Matos, a quem recorre continuamente para ajudá-la a estabelecer uma carreira no jornalismo cultural – suprindo as abissais deficiências culturais da jovem (abissais mas jamais inverossímeis, o que posso tristemente garantir por trabalhar na área. Um quarto personagem tão central ao livro quanto os três mencionados anteriormente é o próprio narrador. Ele não é um dos personagens com ação física na trama, o que não quer dizer que seja uma voz neutra, pelo contrário, age muitas vezes como uma segunda consciência do narrado. A voz narrativa de Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto faz questão de que, a intervalos, o leitor tome consciência de que está acompanhando uma história, veja as costuras e emendas da tessitura narrativa e também tenha uma visão menos reverente dos próprios processos de escolha feitos para narrar o romance.

A voz narrativa não se limita a simplesmente contar, protegida pelo tom impessoal próprio da descrição em terceira pessoa costumeiramente associada ao romance realista. É interessante notar que o romance também é em terceira pessoa, apesar da sarcástica voz narrativa estar em primeira – as ações dos personagens são narradas de um ponto de vista externo. Mas o narrador assume-se como o artífice onisciente do romance e gaba-se das vantagens que esta condição lhe concede; zomba de seus próprios personagens; lamenta que determinadas expressões que desejaria usar, embora ainda disponíveis, já tenham caído na vala do lugar-comum; ironiza sua própria posição como voz narrativa do romance; formula comentários sardônicos sobre a condição de Portugal, os sonhos da antiga linhagem dos revolucionários de abril, a moderna geração crescida sem notícia da repressão política do país, o jornalismo, a burocracia, em hilariantes devaneios que a todo o momento interrompem a história propriamente dita, alguns deles até vindo a questionar o próprio estatuto do texto como exemplar do gênero romanesco, que pretende a representação da realidade. Como nos breves exemplos a seguir, nos quais é inevitável encontrar alguns ecos do Machado de Assis de Brás Cubas:

“Regresse-se a Joel Strosse que se agita ali perto e, muito enervado, passeia em círculo pela sala, com as mãos atrás das costas. Eu gostava de ter escrito ‘mede a sala a grandes passadas’, mas francamente, receio que o leitor já tenha lido isso em qualquer lado. A quem escreve, faz sombra esta barreira constante, eriçada de farpas, daquilo que outros mais expeditos ou temporãos escreveram antes. Custam-se estar vedado o uso de “Por uma noite escura e tempestuosa…” Alguém se apropriou da frase e dela se fez dono, de maneira que me vejo obrigado a criar os meus próprios lugares-comuns e Deus sabe como eles são inspirações do gênio que me falta.

O Nunes já vai atender, porque os livros não é como na vida, e as pessoas estão sempre em casa quando são precisas, à mão do autor totalitário. Também é assim nos filmes, em que os automobilistas encontram sempre um lugar a jeito para estacionar, mesmo no centro de Lisboa. Imaginem as voltas e o esforço em que eu me veria enrolado se o Nunes não estivesse disponível. Teria que repetira telefonemas, encontrar mais situações, mais ambientes, mais pretextos, mais conversa e enquanto assim ia gastando papel, com ele iria gastando também a paciência do leitor, que participa da natureza dos bens escassos. Dando-se o caso de o Vitorino se encontrar amiúde ausente, lá teria eu de reiterar, não sei quantas vezes, o diálogo: “O Vitorino está? — Não, não, já saiu! Obrigado, Tlim.”. Era uma sensaboria…

Nesses exemplos, poucos excertos de um grande número de casos semelhantes dispersos por todo o livro, a voz do narrador oferece reflexões e tiradas irônicas sobre todo o conjunto do romance, seja o caráter de um personagem, a própria estrutura que dá ao romance sua unidade formal e mesmo as verdadeiras razões das escolhas estéticas e narrativas que o autor/narrador é obrigado a tomar na feitura do romance, sempre na clave satírica que aponta o que muitas vezes é clichê e lugar-comum debaixo dos procedimentos consagrados de um narrador romanesco ao estilo realista:

“Transferido para este ambiente, eu, para ser mais rigoroso inculcador de atmosferas, nunca deveria mencionar objectos sem lhes declinar as marcas e as proveniências. A secretária, por exemplo, tem uma marca e foi comprada na loja tal, e os sapatos estão rigorosamente à moda e foram adquiridos por encomenda na casa tal e tal, da rua não sei quê, à Calçada da Estrela. E, falando no relógio e no pesa-papéis, artefactos de orgulhoso disaine, deveria também qualificá-los por esse lado. Acontece, porém, que não tenho competência para o efeito. É certo que poderia entreter-me durante uns dias a decorar marcas e etiquetas, de acordo com o princípio que aqui se anuncia em primeira mão “se não dominas um assunto, torna-te especialista nele”, mas, francamente, acho que estas personagens não merecem que se lhes faça o jeito e o leitor há-de ser poupado àquilo de que não precisa, porque, tal como eu, se está nas tintas para as emblemáticas comerciais.” 

Ao discorrer longamente sobre sua própria condição de escritor que precisa atingir a objetividade descritiva que vários teóricos (Auerbach é só o primeiro que me ocorre) aponta nas origens do romance realista moderno, Carvalho lembra que a postura com que o narrador se apresenta é de conhecimento do mundo, mas esse conhecimento é sempre “artificial”, preparado, fruto de pesquisa. Essa artificialidade se reflete no próprio narrador, uma voz que desdenha dos procedimentos consagrados de construir um romance ao mesmo tempo que os utiliza, ou que se refugia na ironia como forma de denunciar a artificialidade de tais procedimentos hoje, ou que oferece uma reflexão e uma visão de mundo que estão inevitavelmente condenados pela pretensão de totalidade, mesmo que sejam irônicos e dirigidos mais “contra” do que “para” tudo e todos.

Quem conta a história e dela mantém controle é uma voz que paira acima da realidade retratada no livro e que, embora se dirija com familiaridade ao leitor, interfere em diálogos e juízos de seus personagens o tempo todo, e não deixa leitor e personagem sozinhos um só momento. Ao pontuar cada gesto como um irônico comentarista, não permite ao leitor a ilusão de entregar-se à narrativa, e desfaz a todo momento qualquer ilusão de representação, embora a voz narrativa arvore para si laivos de representação do mundo como é na contemporaneidade, ela diz mais sobre os artifícios que um escritor precisa usar hoje para tentar – e falhar – essa representação.

E ainda assim, mesmo sem essa possibilidade de entrega, Carvalho faz de seu livro uma das experiências de leitura mais hilárias da literatura portuguesa recente.

A Outra Nação da Sereia

07 de dezembro de 2010 0

Livro ganhador do Prêmio Passo Fundo Zaffari Bourbon em 2007, o romance O Outro Pé da Sereia, do moçambicano Mia Couto, é uma narrativa complexa que se faz de travessias, de deslocamentos entre mundos (reais e metafísicos), separados pelo tempo ou pelo espaço. Duas jornadas se intercalam para compôr, como um estrado, o eixo estrutural do livro. A primeira é a da jovem Mwadia Malunga, que, no ano de 2002, ou seja, mais próximo do “presente” do leitor, viaja de Antigamente, o terreno ermo em vive com o marido, o pastor Zero Madzero, até Vila Longe, seu povoado de origem, de onde saiu primeiro para estudar em um colégio cristão no Zimbabwe e depois para viver com o marido nas solidões de Antigamente. A segunda travessia que forma o esqueleto da narrativa é a de um provincial dos jesuítas, Dom Gonçalo da Silveira, que, em 1560, a bordo do navio Nossa Senhora da Ajuda, viaja de Goa a Moçambique para, em companhia de seu subordinado Manuel Antunes, responsável pelos registros de viagem, escoltar uma imagem em tamanho natural de Nossa Senhora, esculpida em madeira. A imagem está sendo levada para o império africano do Monomotapa com o intuito de auxiliar na conversão do soberano do lugar ao cristianismo.

Entre essas duas viagens, enroscam-se outras, tributárias das primeiras, todas desembocando na África, tanto o mundo físico do passado (no caso de Dom Gonçalo) quanto o continente alegórico do presente, representado na figura de Mwadia, mulher sedutora, sábia, ousada, intrigante. Mwadia, cujo nome significa “canoa”, o transporte por excelência da África e de seus rios caudalosos, é o barco que um pouco à deriva conduz o olhar do leitor no interior da narrativa. Ela é uma peregrina em busca da verdade que não se importa de falsear um pouco transes místicos com dados buscados em antigos livros que ela e o marido encontraram à beira de um rio em uma mata sagrada. A mata que nos é apresentada logo no começo da narrativa, aonde ela e o marido vão para enterrar os restos de uma “estrela” encontrada pelo pastor Zero logo no início da história (na verdade um satélite espião caído no solo).

A representação que Mia Couto faz da África em seu livro é a de um ponto de confluências entre os dois níveis da narrativa, o cenário para o qual se dirigem personagens que representam, a seu modo, um microcosmo das relações do mundo que fala português, tanto no passado quanto no presente. Como Mwadia vai definir a determinada altura: “diversas viagens se cruzavam, a um só tempo, na velha casa”. Inclusive a narrativa do passado, representada na figura da Santa e nos escritos encontrados no baú – outrora  pertencente ao falecido Gonçalo da Silveira e no presente abandonado às margens do rio Zambeze.

Na trama que se passa no século 16, viajam a bordo do Nossa Senhora da Ajuda (o navio e sua viagem, simbolicamente, dominam a maior parte dessa linha narrativa) personagens de nacionalidades diversas, retratando a embarcação, bem como os portos do período, como a babel decorrente do comércio e do transporte marítimo. Estão no navio portugueses que assumem maior ou menor importância à medida que narrativa avança: os já citados Gonçalo da Silveira, Manuel Antunes e uma dama de nome Dona Filipa, que deixa Goa, onde passava por um tratamento de saúde, para ir ao encontro do marido, o comerciante Antônio Caiado, também português, residente no Monomotapa (registre-se para quem ficou curioso que o Monomotapa se estendia, nos séculos 15 e 16, ao longo dos territórios que hoje chamamos de Moçambique e Zimbábue). Há também o capitão da nau, homem violento e sem aptidão para o comando, nomeado por favores de um pistolão.

O navio é um ele próprio uma babel de nacionalidades. O “físico de bordo” (nosso popular médico) é um goês de nome Fernandes, que afoga no álcool o horror do que presencia durante as viagens – nas quais um terço da carga humana, leia-se os escravos no porão, não chegará viva ao destino. Mas é em um infeliz triângulo amoroso que reside o coração desse núcleo da trama, cujos vértices são o padre Manuel Antunes, o negro Nimi Nsundi e a indiana Dia Kumari, aia da nobre Dona Filipa. Nsundi, que os portugueses chamam de “cafre”, ou seja, um negro africano banto, não muçulmano, parece, à primeira vista, ser o tripulante do navio mais devotado à imagem da santa, mas ele não a vê como os sacerdotes europeus, e sim enxerga uma sereia presa naquele corpo de madeira. Será Nsundi o autor do mote que dá origem ao livro: ele serra um dos pés da imagem, e  é surpreendido antes de serrar o outro, gesto que, para ele, libertaria a sereia. Nsundi é originário do Reino do Congo (que na época englobava partes do que hoje corresponde a Angola, República do Congo e Gabão), e fora negociado como moeda de troca por mercadorias encomendadas por portugueses.

Nsundi primeiro desperta a antipatia, mais tarde a simpatia e por fim a paixão de Dia Kumari, a aia. Dia também é de Goa, mas da etnia indiana, e não dos descendentes de portugueses. Tanto Dia quanto o médico de bordo Fernandes refletem o status intermediário dos indianos na dicotomia colonial “português-africana”. A determinada altura do romance, Dia deplora a devoção de Nsundi à santa, para ele um tributo aos signos religiosos dos brancos. “Para a gente do porão, você também é branca“, responde ele. Branca para os escravos e escrava para os portugueses, Dia acaba por despertar a paixão de um homem para quem aquela viagem de navio não é apenas um deslocamento espacial, mas de identidade: o padre Manuel Antunes. Em crise de fé e horrorizado com o que testemunha no navio e na relação entre os portugueses e seus colonizados, Antunes tem certreza, à medida que se aproxima da África, que está se tornando negro.

A viagem provocará consequências que alcançarão a trama que se desenrola em 2002, apesar dos mais de 400 anos que separam as duas instâncias. Mwadia, a canoa, é responsável também por uma travessia, entre dois lugares de ressonância simbólica por demais óbvia: “Antigamente” e “Vila Longe”. O “Antigamente” que é o ponto de partida da jornada de Mwadia representa a ponte que a mulher ergue entre os vários elementos do romance: a África em que vive, o Exterior, o passado representado pelos papéis do baú de Dom Gonçalo. Também na trama contemporânea questões de identidade assumem papel central, refletindo o cenário do navio no passado, em sujeitos de variadas procedências geográficas se cruzavam no mar mas tentavam aferrar-se inutilmente à ideia que faziam de sua própria identidade. Dia era revoltada contra o domínio português que assassinou seu marido na terra natal. Gonçalo da Silveira é praticamente um fanático em sua missão europeia, civilizadora e catequizante. Nsundi carrega a terra das margens do Rio Congo como forma de viajar levando o país consigo. Também na história de 2002 veem-se tentativas infrutíferas de recuperar uma noção de identidade.

Um exemplo está nos dois recém-chegados a Vila Longe, dois personagens que aparecem no vilarejo quase ao mesmo tempo que Mwadia e que acrescentam duas novas nacionalidades ao caldo do romance: Benjamin e Rosie. Benjamin é um negro norte-americano que vai à África em busca de uma ancestralidade que ele só quer ter por lhe ter sido ensinada em sua formação nos Estados Unidos. Rosie é brasileira, casada com Benjamin. Ambos são integrantes de uma obscura organização de assistência internacional e se tornam a galinha dos ovos de ouro para a atrasada vila. Ao saber que os dois “estrangeiros” estão a caminho, um comerciante local de nome Casuarino propõe aos moradores da localidade que forjem um passado de escravidão que a vila nunca teve ou que já esqueceu, colocando a mão, assim, nos dólares dos visitantes. A África assumindo a visão que o chamado “mundo desenvolvido” tem do continente.

A diversidade do antigo mundo colonial português também é vista na família de Mwadia. Sua mãe é moçambicana, seu padrasto e a irmã deste são goeses. Os goeses repetem no presente seu status de ora deslocados, ora privilegiados que víamos no navio no passado (onde Dia era escrava mas não dormia no porão nem era tratada como cativa pelos portugueses). A única biblioteca de Vila Longe pertence ao indiano Jesuíno – embora quem mais a desfrute seja o barbeiro e ex-combatente pela independência de Moçambique Arcanjo Mistura. O já mencionado Casuarino, articulador das maquinações urdidas para depenar os crédulos afro-americanos (na verdade não tão crédulos quanto os outros supõem), também vem a ter ligações familiares com Mwadia: é seu tio.

Outros dois personagens centrais também refletem a ilusão do pertencimento. O verdadeiro pai de Mwadia era um oficial africano no exército português. Enquanto se considera aceito pelos colonizadores, é um ferrenho antinacionalista, até ser humilhado por ex-colegas e perceber que nunca será um dos portugueses. Já o marido de Mwadia, Zero, orgulha-se de pertencer a uma etnia de coragem e valentia mitológicas, os Achikundas, tribo de índole feroz e guerreira, mas essa afiliação, ironicamente, não parece serde muita valia, já que Zero é um homem supersticioso, sempre com medo quando defrontado com as ousadias de sua mulher.

Contudo, apesar de retratar a África como uma imensa passagem onde tribos e nacionalidades se encontram, Mia Couto desenha em seu romance o contrário do cosmopolitismo, que é a noção de alguém à contade em qualquer espaço. Os personagens de O Outro Pé da Sereia são antes “cosmoexilados”, viajantes perdidos na própria e impossível jornada.

O Futuro e o Passado de Agualusa

05 de outubro de 2010 1

O escritor José Eduardo Agualusa na Jornada de Passo Fundo de 2009 / Foto de Tadeu Vilani, ZH

Um dos escritores mais prolíficos da atual literatura de expressão portuguesa, tanto pela sua obra reconhecida internacionalmente quanto pelo seu papel como editor, o angolano José Eduardo Agualusa está de volta às prateleiras com um de seus grandes trabalhos, Estação das Chuvas, reeditado faz poucas semanas pela Língua Geral. Neste mesmo ano, ele já havia publicado no Brasil sua ficção mais recente, Barroco Tropical, que lançava um olhar ao futuro. Este Estação das Chuvas, por seu turno, é a construção de uma história de Angola por meio dos desvãos do passado.

Escritor angolano que administra seu tempo entre Portugal e o Brasil, Agualusa é hoje um dos nomes mais conhecidos da literatura em português feita em Angola – país com a cena literária mais madura dentre os africanos lusófonos. É também um dos sócios da própria editora Língua Geral, destinada a incrementar o trânsito de autores e livros entre os países de língua portugusa. Estação das Chuvas, que está sendo relançado, é um de seus romances mais aclamados e o terceiro a aportar nas livrarias brasileiras no período de um ano, ao lado de A Conjura (pela Gryphus, romance de 1999 reeditado no ano passado) e o novo Barroco Tropical (com edição brasileira pela Companhia das Letras).

Não deixa de ser um exercício interessante a comparação entre Estação das Chuvas e Barroco Tropical. Embora ambos partilhem o olhar inquisitivo que o escritor lança sobre a identidade angolana, formada de uma colcha de retalhos de várias nacionalidades estrangeiras, Barroco Tropical é um exercício futurista, enquanto Estação das Chuvas é uma história que vai ao passado escavar uma biografia individual como espelho da própria trajetória do país.

Barroco Tropical é um romance que reconstrói a seu modo as premissas da literatura de gênero, mesclando com toque próprio elementos do policial e da ficção científica. Na Angola de 2020, em uma noite de tempestade, o corpo de uma mulher desaba do alto de uma torre futurista, uma construção megalomaníaca, recém-edificada e já em ruínas, com os andares superiores reservados para o isolamento do ricos. A morta é uma mulher que já frequentou a cama de vários homens poderosos e despertou a animosidade de perigosos interesses, como logo descobre uma das testemunhas da queda, o escritor Bartolomeu Falcato, que se lança à investigação do crime e da história da mulher. Nessa reconstrução de uma única biografia, Agualusa vai, a exemplo do que já havia feito em O Vendedor de Passados e As Mulheres de Meu Pai, oferecer sua perspectiva da história da própria Angola.

Também a trajetória de uma mulher, construída em sua ausência, é o centro de Estação das Chuvas, romance que já havia sido lançado em 2005 no Brasil pela Gryphus e agora ganha reedição pela Língua Geral. É também por meio da busca ao passado dessa mulher que Agualusa monta um rico panorama da complexa sociedade pós-colonial. Narrado por um jornalista, o romance está montado em torno de Lídia do Carmo Ferreira, poetisa e historiadora angolana que desaparece em 1992, às vésperas da retomada da sangrenta guerra civil pós-colonial que sangrou a nação angolana independente.

O recurso se revela rico ao mesclar a trajetória da personagem fictícia com as menções a personagens reais, como Agostinho Neto, líder da luta pela independência e primeiro presidente da Angola independente. A biografia de Lídia é também a de uma geração de escritores angolanos ligados ao movimento de independência: infância em Luanda, juventude passada em estudos na Universidade de Coimbra, a militância pela causa da independência, a descoberta da literatura como um meio de expressão genuíno do país: “tiravam-nos tudo, a dignidade, as terras, os homens. E no fim o próprio rosto — disse-me Lídia —, tiravam-nos todo o passado e nós olhávamos em volta e não éramos capazes de compreender o mundo. Então começamos a escrever poesia. A poesia era um destino irreparável naquela época, para um estudante angolano“.

E se amanhã Ondjaki...

30 de setembro de 2010 1

O autor angolano Ondjaki em visita a Florianópolis em 2009. Foto de Glaicon Covre, DC

Uma das vozes mais aclamadas da literatura escrita em português no continente africano, o jovem autor Ondjaki renova em seu mais recente livro de contos, E se Amanhã o Medo (Língua Geral), uma relação amorosa e fraterna com o Brasil. O livro, dedicado ao brasileiro Raduan Nassar, incorpora boas doses de emoção sem açúcar ao lirismo no trato com a memória que o autor já havia apresentado nos anteriores Bom Dia, Camaradas e Os Da Minha Rua.

Publicado originalmente em 2005, E se Amanhã o Medo é o segundo livro de Ondjaki a chegar ao Brasil em menos de um ano – o anterior havia sido o romance Quantas Madrugadas tem a Noite, lançado no mercado nacional há alguns meses pela editora Leya. A diferença de cinco anos entre um livro e outro permite acompanhar também a maneira como o autor foi desenvolvendo sua voz literária, radicalizando procedimentos que já estavam lá desde a estreia: a frase que vai se alicerçar nas normas próprias da linguagem oral; a prosa que trata como equivalentes tanto o português do colonizador quanto o quimbundo das raízes, fazendo-os conviver na mesma sentença como se do mesmo idioma se tratassem. Também é um traço característico do autor — influência de Luandino Vieira e, ainda mais além, do brasileiro Guimarães Rosa — o uso de palavras inventadas, inusitadas inversões sintáticas e imagens desconcertantes, que deslocam o olhar do leitor fazendo-o rever poeticamente detalhes do cotidiano, em trechos como “O velho aproximou-se lentamente, chinelos inaugurando o chão da manhã” ou “a cara estava tão magra que os maxilares pareciam varandas” — ambos exemplos retirados dos contos de E se Amanhã o Medo.

Se o livro de contos ainda mostra uma dicção e um tratamento dos temas que oscila entre o poético e o narrativo, Quantas Madrugadas tem a Noite, narrativa mais recente e mais longa, dá-se o tempo de experimentar com uma prosa no limite do verso e da fala. Em um bar de Luanda, um contador de histórias, em meio a cervejas que vão e vem, vai narrando a seu silencioso interlocutor relações por vezes fantásticas entre uma série de personagens nos primeiros dias do Estado angolano independente – o professor albino Jaí, o anão BurkinaFaçam, o morto impaciente AdolfoDido e suas mulheres, disputando uma com a outra o direito de receber sua pensão, o menino de rua com uma perna defeituosa Pisa sem Gêto, que também já aparecia em um dos contos de E se Amanhã o Medo.

São situações aparentadas com o fantástico, como as que também se encontram nos contos de E Se Amanhã o Medo, ao lado de narrativas que se assemelham a observações líricas de uma determinada cena. Uma velha chega a uma determinada idade em que a velhice já não tem ação sobre ela, em A Velha. Um homem constrói um misto de jangada e bicicleta (uma janguicleta) para lançar-se ao mar em Jangada para Longe. Uma mulher deprimida, com o peito corroído pela melancolia, tem seu coração substituído por outro, de porco.

O afeto pelo Brasil, para onde Ondjaki viaja frequentemente e onde mantém grandes relações de amizade, está expresso não apenas na dedicatória do livro – Raduan Nassar é um dos autores a quem o volume é oferecido. A primeira narrativa, A Libélula, uma das melhores do livro, é a contida história de um encontro fortuito entre um médico e uma mulher que é atraída ao portão da casa do homem pela voz dolente de Adriana Calcanhoto, que o doutor estava a escutar:

— Sabe porquê que pedi água aqui na sua casa?
— Não.
— Por causa da música… Esta voz tão doce.
— Adriana.
— Como? 
— Adriana Calcanhoto, cantora brasileira
.

É um dos contos nos quais o mágico cede lugar a uma observação detalhista, miniatural. É a atmosfera formada pelos objetos de cena que constrói o cenário vivo no qual a trama, mais banal do que sublime, se desenrola rica de subtextos. E essa tensão entre o realismo lírico e o inusitado que perpassa todos os 20 contos do volume que  faz da obra um retrato vivo da sociedade africana que Ondjaki aborda.