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Posts na categoria "Contos da Quinzena"

Concisão e equilíbrio

30 de outubro de 2008 3

Aproveitando o clima de Feira que já se sente no ar, calhou de o nosso autor desta já habitualmente atrasada quinzena estar no elenco de escritores com sessão de autógrafos marcada para o maior evento literário do Estado. Nosso Conto da Quinzena traz uma história de Leonardo Brasiliense, que, apesar do sobrenome, é gaúcho – e além de tudo meu conterrâneo, mas juro que não foi isso que pautou minha escolha desse escritor em particular para esta semana.

QUEM É?: Brasiliense é de São Gabriel, que vem a ser também a minha cidade natal (o que é irrelevante) e a do ganhador do Prêmio Portugal Telecom de Literatura em 2005 Amilcar Bettega (o que já é interessante). Nascido em 1972, tem formação em Medicina pela UFSM e atualmente trabalha na Receita Federal. À parte isso, tem desenvolvido uma obra que se pauta pela investigação da brevidade, com livros recentes que investem no conto e no formato ainda mais conciso do miniconto.

O QUE JÁ FEZ? Ex-aluno da oficina de criação literária do escritor Luiz Antônio de Assis Brasil, Brasilense estreou na literatura de ficção em 2000, com a publicação de Meu Sonho acaba Tarde, coletânea dividida em duas seções bem demarcadas de conto e miniconto, que ganhou edição pela WS editora. O segundo livro de contos de Brasiliense, Des(a)tino, saiu em 2002, pela Sulina, e seu livro mais recente de narrativas curtas na literatura adulta de ficção é a também coletânea de contos Olhos de Morcego, que tem autógrafos na Feira do Livro no dia 1º, às 20h30min, no Pavilhão de Autógrafos da Feira do Livro. À parte essa produção direcionada para adultos, Brasiliense escreveu também um livro infanto-juvenil, Adeus Conto de Fadas, editado pela 7Letras, mesma casa publicadora do Olhos de Morcego. Com Adeus Conto de Fadas, dedicado a retratar a voz e as características do adolescente moderno por meio de micro-histórias, Brasiliense recebeu em 2007 o Jabuti, o mais tradicional prêmio literário do Brasil, na categoria Melhor Livro Juvenil.

E A OBRA, QUALÉ? Acho que você já me perguntou isso antes, mas mesmo assim vamos lá. Como eu havia comentado de passagem ali em cima, Brasiliense faz investigações sobre a brevidade, testando os limites expressivos da narrativa extremamente curta. Sua produção transita entre a vinheta, o corte seco do miniconto, e contos um pouco mais extensos, nos quais há uma grande preocupação com o desenho de uma psique do personagem em contraposição a uma situação ou ambiente. A linguagem é elegante, direta, sem tantos vôos experimentais em termos de forma, mas com achados que se manifestam em uma inventividade do enredo e no acompanhamento minucioso, por vezes descarnado, do que vai no íntimo dos seus personagens.

E ONDE EU ACHO ISSO? Adeus Conto de Fadas e Olhos de Morcego, por serem os mais recentes, estão ainda no catálogo da editora 7Letras, e podem ser obtidos em qualquer livraria. Para se chegar aos dois primeiros, contudo, sugiro uma visita ao site da editora WS, por exemplo, para ter um vislumbre de como obter Meu Sonho Acaba tarde, primeiro livro do autor, de onde, inclusive, saiu o conto que apresentaremos aqui neste espaço. O autor tem um site pessoal, e ali pode ser um bom caminho para ter acesso ao escritor e descobrir como anda a disponibilidade de seus dois primeiros livros de ficção.

Agora, abaixo, vai nosso Conto da Quinzena- de novo atrasado. Chama-se Lili e o Monstro, e foi adaptado para o cinema em um curta-metragem de 2003 pelo diretor Sérgio Assis Brasil. Como disse o próprio autor no e-mail em que gentilmente autorizou a publicação,“É o primeiro conto do Meu sonho acaba tarde, e não por acaso é o primeiro conto que escrevi (depois de passar os dois primeiros anos só escrevendo minicontos)”.

O prócimo Conto da Quinzena, a propósito, sai dia 10 de novembro (oremos…).

* * *

Lili e o monstro

Gente que vive só há muito por aí. É o que mais se vê, quando se olha a sério, sem fingir que a sombra do outro exclua a solidão, ou que isso tenha alguma coisa a ver com felicidade.

Uns assim andam por gosto. Outros também, como Lili.

Era uma vez Lili, portanto, que vivia só, faz de conta que o destino o quis.

Morava numa pequena casa de dois cômodos. Havia a sala-cozinha, apertada, onde Lili seguidamente batia-se de ficar roxa, em quinas, trambolhos, tranqueiras – suas pernas eram de cima a baixo esverdeadas. Havia mais o quarto-lavatório, menor, sem guarda-roupas por não caber, servindo-se a tanto sua mala embaixo da cama, e nem muito cheia.

Havia, sobretudo, os sons de Lili respirando, andando, abrindo o armário, a porta e às vezes falando para si própria.

Foi numa noite, já alta noite e chuvosa, que se deu início à história.

Precisamente, na sala-cozinha.

Começou com morte. Não a morte em si, na hora e testemunhada, mas apareceu o corpo de uma barata, seco, no chão. As pernas para cima, semi-encurvadas, como sempre morre humilhada a barata.

E Lili, que fazer? Varrer para fora não ia, tarde da noite e com chuva, o cadaverzinho seco, exclamativo. Deixava para o outro dia. Para ela não faria diferença, para a barata não faria diferença. Agora tinham isso em comum. De manhã, não havia corpo de barata onde quer que se procurasse. Lili olhou por toda a casa – coisa não muito difícil, com franqueza. Mas fez uma busca, sim, por todos os dois cômodos, até dentro da mala.

Na dúvida, pensou primeiro que o inseto estivesse vivo. Mas pose de barata quando morre é inconfundível! Teria varrido o bicho e não lembrava? Seria novidade; uma das poucas não-decepções de si era a memória, infelizmente.
Sem nada mais a pesar, considerou o assunto por de menor importância. Suspirou e seguiu o dia, mais um dia, véspera de outro dia.

Não interessa dizer com exatidão quanto tempo, para dar relevância ao fato, posto que no realizar da vida de Lili, pouco e arrastado, qualquer coisa, pequena que fosse, valia a narrativa… Mas ia tempo, algum tempo, e passara-se o seguinte: Lili arrumava a cama e ouviu um remexe na sala-cozinha: estrebuchava um rato gordo, decerto comera o veneno deixado no biscoito-chamariz, embaixo da mesa, e morria por ali. Animal roliço e, via-se, guloso; de pernas tortas, tamanho o peso, um ratazão.

Lili cansada, pronta a se deitar, teve preguiça: “Amanhã recolho o coitado e ponho no lixo, amanhã, só amanhã”. Sequer teve nojo, até o nojo deixava para amanhã.
Madrugadinha, ela se levantava para trabalhar. Como sempre, saiu da cama para lavar o rosto e tirou remela ainda se acordando. Quando o Sol apontasse, já contaria meio caminho da cidade. Era assim de segunda a sábado. Às vezes, cochilava no ônibus; às vezes, a cabeça pendida sobre o ombro ou escorada no vidro sujo do ônibus, ela sonhava.

Antes de ir, porém, havia o rato…

Que rato que nada! Qual o espanto, não ver nem pêlo que sobrasse do dito, nada, o chão limpo.

Lembrou a barata, ela também desaparecida no mistério, no desconhecido nefasto mistério, ao qual Lili não dera nenhuma importância na época. Mas agora precisava reconsiderar, carecia lembrar a barata…

Tomada por uma frouxura, sentou-se pesada – o quanto era possível a seu corpo mínimo -, sentou-se numa cadeira, cadeira de palha gasta felpuda. Zonza, avistou a si mesma no vidro do armarinho: sua cara distorcida, menos gente no reflexo; fiel, contudo, ao que vinha do espírito: o medo.

Medo de não estar sozinha. Ou pior: medo de estar sozinha. Medo de espiar a tranca da porta. Cerrada. Não entrara ninguém, não saíra ninguém. Medo.
Que pavor lhe incutia a idéia de uma companhia, um bicho escondido em sua casa, comendo os animais deixados mortos na sala-cozinha; e grande haveria de ser, comera o rato gordo, muito gordo; monstruoso, esse bicho, escondido sabe-se onde naquela casinha tão diminuta, que não havia mesmo lugar de esconderijo na casinha pequenininha de Lili. E que pavor lhe incutia este outro pensamento: sonambulara, ela, ou pordeus, enlouquecera? Seria possível que não o bicho, o monstro, mas ela própria tivesse comido o rato e também a barata, num desatino, e protegido isso da mais tênue lembrança?

Súbito, uma gargalhada veio-lhe desde o ventre e foi presa na boca, Lili mordendo a língua. Saiu daí suspirada uma lágrima, o que a deixou furiosa: não era certo chorar. Não estava triste. Porque o choro é filho da tristeza, e ela não estava triste. Estava era com medo. Teve raiva do seu choro errado. Quem chora ou ri numa hora errada, quando o mundo em volta pede o contrário, está louco. Teve medo de ter enlouquecido, e de repente subia outra gargalhada e maior, e Lili mordeu a língua.

* * *
Mi, mi, mi… Chovia demais. Lili colocara um pires com leite no degrau da porta, chamava o gatinho marrom da vizinha. Ele se protegia da chuva sob a escada, os olhinhos brilhavam arregalados e redondos. Mi, mi, mi, ela o chamava.
Com os olhares cruzando-se, o engodo era mais difícil. Esses bichos enxergam dentro da nossa alma. Ela teria que o conquistar. Então sorriu, sorriu com sinceridade.

Agora o gato lambia o leite, e Lili fazia-lhe cafuné.

Pegou-o no colo e entraram. Ele bocejando, enfastiado.

Anoiteceu.

Lili, sentada na cama, observava o gatinho passar da sala-cozinha ao quarto-lavatório e voltar à sala-cozinha, como perguntando – se é que não o fazia – onde estava e por quê. Ora ele se esfregava em suas pernas. Ora pulava sobre a cama. Miava, retornando à sala-cozinha.

O gato miava muito e, com a barriga cheia, não era de fome. Mas qual diferença? Lili não se importava. Talvez nem estivesse ouvindo. Na verdade, botava-lhe atenção no tamanho: animalzinho pouco, ela ponderava, não serviria. Precisava de um maior.

Em momento algum ela teve pena do gatinho. Se o soltou foi porque não lhe servia. Precisava de um bicho maior.

No dia seguinte, deitada na cama, sem remorso ela contemplava o esforço duma tarde inteira. Faltara ao trabalho, obstinada. Sentia as carnes doídas, tamanha a força gasta no desvario. Força maior do que imaginava ter, maior que ela.

Era satisfeita, ao menos, no quê da experiência: queria saber do quanto era capaz o bicho, o monstro, medir-lhe em todo aspecto, seu porte, sua fome, e tinha ali para tanto um belo e enorme cachorro. Chamara-o para dentro de casa com mais facilidade que o gato, bastou estalar os dedos. Quebrara-lhe o pescoço numa luta feia e demorada, saíra com marcas, arranhões nos braços e no rosto. De sua cama, tinha os olhos fixos no cachorro estendido no chão da sala-cozinha, donde os outros desapareceram. Esperaria a noite toda para ver o monstro. Se preciso, esperaria o resto da vida, pacientemente, fixamente, tão imóvel quanto o cachorro morto.

Três, quatro horas, quatro-e-meia… piscava… ainda havia o cachorro, lá estava ele, estendido… ela esperaria… o encontro… piscava… quatro-e-quarenta-e-cinco…

Anda por uma rua cheia de gente. Todos vêm no sentido contrário. Esbarram nela. É uma tarde de sol intenso. Há muita gente nessa rua. Difícil caminhar assim. Ele está no meio dessa gente. Lili sente sua presença, olha para todos os lados e não o vê. Mas ele está ali, ela sente, provavelmente observando-a. E ser observada, reconhecida, faz com que ela sinta-se gente no meio daquela gente, pela primeira vez. Mais: ele sabe até o que ela pensa. “Por que não aparece? Por que se esconde?” Ela corre, bate-se nas pessoas, tropeça e cai. Não há mais ninguém na rua. Silêncio. A calçada é quente. Ela está caída, com a bochecha na calçada quente, os olhos fechados. Ele se aproxima. Ela sente que ele se aproxima, e não tem coragem de abrir os olhos. Sente que ele está bem à sua frente. Mas não tem coragem…

Pula da cama já amanheceu não há o cachorro mais.

Lili chora.

Assim, chorando, vai à sala-cozinha.

E se deita.

Estica braços e pernas, bem abertos.

***

Gente que vive só há muito por aí. E a solidão, mesmo quando regra, consegue, em alguns momentos, ser maior.

O eros da criação poética

16 de outubro de 2008 1

Não, não vai virar hábito, é que a coisa está periclitante, se tudo der certo antes do fim do ano informo por quê. Mas eu ia me desculpando porque outra vez atrasei a publicação do Conto da Quinzena, desta vez finalmente com a escritora que eu havia prometido faz lá umas duas quinzenas. É um nome conhecido e se tornou bastante comentada e discutida pela boa recepção crítica de seus últimos três livros, um infanto-juvenil, um de contos e um romance. Falo de Cíntia Moscovich, pessoa de quem este repórter se confessa amigo de antemão – trabalhamos juntos aqui na parte de livros de Zero Hora, por uns dois anos, até que a Cíntia resolveu se dedicar a uns frilas esporádicos e a sua carreira – uma decisão que está se provando muito acertada. É de Cíntia o nosso conto da quinzena.

QUEM É? Cíntia nasceu em Porto Alegre, em 1958, e é jornalista por formação com mestrado em Teoria Literária com uma dissertação sobre o conto e a teoria do subtexto postulada por Ricardo Piglia (outra hora a gente fala mais disso). Tem mais de uma década de carreira literária. Além de ter trabalhado como editora de literatura aqui na Zero, como já mencionei, foi também diretora do Instituto Estadual do Livro, órgão ligado à Secretaria de Estado de Cultura e que se dedica à promoção do livro e ao incentivo a novos autores. Cíntia é também um dos nomes da nova literatura produzida por aqui com melhor e mais constante trânsito fora do Estado, e foi uma das primeiras autoras daqui a ser contratada pela Record, do Rio, no recente movimento de “descoberta” dos autores gaúchos pelas editoras dos grandes centros.

O QUE JÁ FEZ? Publicou seu primeiro livro em 1996, com financiamento do Fumproarte, a coletânea de contos O Reino das Cebolas_ um detalhe: na mesma leva dos aprovados desse ano estavam Adriana Lunardi, com As Meninas da Torre Helsinque, e Max Mallmann Souto Pereira, com Mundo Bizarro. O Reino das Cebolas depois figurou entre os indicados do Prêmio Jabuti de literatura da categoria naquele ano. Dois anos depois, em 1998, ela lançou a novela Duas Iguais, sobre uma história de amor impossível entre duas jovens. Ganhou o Açorianos por esse texto. Em 2000, veio a público outra coletânea de contos, Anotações durante o Incêndio, que lhe valeu mais um Açorianos. Em 2004, publicou outra coletânea de narrativas curtas, Arquitetura do Arco-Íris, terceiro lugar na categoria conto do Jabuti e indicado ao Portugal Telecom. Em 2006, o reconhecimento nacional em maior escala, com a boa recepção do doloroso Por que sou gorda, mamãe?, romance no qual uma mulher faz um ajuste de contas com o passado e com a presença de sua mãe nele à medida que faz um regime para perder peso por motivos de saúde. E finalmente, no fim do ano passado, lançou seu primeiro livro infanto-juvenil, a novela Mais ou menos normal, pela Publifolha.

E A OBRA, QUALÉ? Oh, interessante questão, meu jovem. De modo geral, duas linhas de força se cruzam na obra de Cíntia Moscovich. Uma delas é a reflexão sobre a condição judaica que a torna aparentada com outros escritores que escrevem sobre o tema no mundo todo, desde Isaac Bashevis Singer e Philip Roth até Moacyr Scliar. Os textos de Cíntia são escritos do ponto de vista de alguém que pertence, de maneira inescapável, a uma comunidade na qual a busca da identidade é crucial, a reflexão sobre o que se é e por quê. E isso se reflete no questionamento constante que os personagens de Cíntia se fazem sob as coisas que estão vivendo ou presenciando, e no momento mesmo do que acontece. A segunda linha central das narrativas de Cíntia passa por inquietações que dizem respeito à condição feminina, como o amor pensado minuto a minuto, a ânsia de racionalização dos sentimentos e da sentimentalização das razões. Esses temas são tratados por Cíntia com um domínio narrativo inatacável e com um trabalho de elaboração e cuidado com a linguagem que a torna capaz de imagens e frases desconcertantes, beirando (e dialogando com) a poesia.

E ONDE EU ACHO ISSO? O Reino das Cebolas tem edição de bolso, recente, pela L&PM. Arquitetura do Arco-Íris e Por que sou Gorda, Mamãe?fazem parte do catálogo recente da editora Record. Assim como Duas Iguais eAnotações Durante o Incêndio, que foram relançados pela mesma editora (a capa que você vê nesta página é a da edição da L&PM, a que eu tenho, e que eu acho particularmente muito mais bonita do que a da edição nova). Mais ou Menos normal é editado pela Publifolha.

Agora, abaixo, vai nosso Conto da Quinzena atrasado. Chama-se Morte de Mim e toca no tema amoroso que já mencionamos — e revisita o próprio tema de Duas Iguais com um outro olhar, fantástico. É o terceiro da segunda parte do livro Anotações Durante o Incêndio (dividido em duas seções: Fumaça e Fogo) E, como eu já fiz questão de ressaltar antes com outras histórias aqui publicadas, é um texto de forte carga erótica, ainda que descrito de forma nunca leviana ou vulgar. Quem ainda assim achar-se um tanto suscetível para esse tipo de coisa, que não leia e espere o próximo.

O próximo Conto da Quinzena, a propósito, sai dia 26 de outubro (sai mesmo, eu prometo).

****

Morte de Mim

Pois eu, no instante, invejava as ambas categorias: os mortos, por se aparentarem à perfeição dos desertos; os nascituros, por disporem do inteiro futuro – Mia Couto

Naquela noite, portanto, as horas me percorriam. O calor de janeiro fazia desaparecer, lentamente, os cubos de gelo no copo, gelo querendo ser água, as coisas querendo persistir em seu estado, tudo retrornado à própria matéria ancestral. Eu, inerte, assistindo ao espetáculo da dissolução, coisa atraindo coisa, até que nada restasse, exceto o suor do copo – água ? na superfície transparente.
Foi quando ela veio. Era uma mulher de olhos negros e úmidos, o corpo esguio, sem nenhum outro sobressalto além dos seios e das nádegas que se insinuavam sob a roupa escura. Entrou, assim, naturalmente, eu não sabia por onde, mas não era caso de inquietar-me. Quis avisar que estava enganada, aquele não era o endereço que lhe cabia. No entanto, seu silêncio bem me alertou que ali se estava a deliberar sobre algum destino. Meu destino? Mas e de quem mais?
Sentou-se numa das cadeiras da sala, junto à mesa sobre a qual pendia a única lâmpada. A luminosidade fraca pintava-lhe as faces de cores irreais, embora eu soubesse que era o mais real e inelutável dos seres, aquele que sempre chega aos vivos. De súbito, colocou o rosto entre as mãos, e percebi que desandava num pranto novo e doloroso. Talvez chorasse pela ingrata missão, que era a de ser indesejada entre as gentes. O medo que lhe têm faz parte do miolo da vida, e quis consolá-la, estreitando-a junto a mim, num afeto que me surpreendeu. Invertidos os papéis, ajoelhei-me, acomodando a fronte em seu regaço, que transpirava um evanescente perfume de flores, mal e mal se percebia. Sentindo os dedos frágeis nos cabelos, entendi que me ligava à intrusa num amor recém-descoberto, e era como se a quisesse desde tempos imemoriais, desde o tempo que a vida e seu desenlace foram criados. Eu a amava, quis dizer-lhe isso, talvez pudesse ajudá-la, e ajudar-me. Mas o amor se trai no gesto, e eu me sentia já traída. Calei-me.
Foi quando ela se ergueu, lenta e suave, e caminhou pela sala; os pés sequer tocavam o piso, peso de plumas. Os dedos passearam pelos móveis, num afeto mole, até que o passo cedeu e ela encompridou a mirada em minha direção. Dois círculos cinzentos emolduravam os olhos, denúncia do pranto a que recém se entregara; as pupilas retiniam, pequenas florações no rosto descorado. De pé, ainda, contou-me sua história remotíssima, variantes da verdade que me davam o prazer do fingimento. Simulei acreditá-la, estimulando-a na fantasia. Horas a fio, como um infante, sempre a pergunta: e depois?
Depois, como se a isso tivesse vindo, aproximou-se de mim, eu que continuava sentada no parquê, braços apoiados no assento da cadeira, face descansando sobre o dorso das mãos. Afagou-me novamente os cabelos, no mesmo descompromisso com que acariciara os móveis. Ajudou-me a levantar e segurou meu rosto, os dedos pressionando as têmporas, eu em entrega, o tempo imóvel ou escoando-se na lentidão da noite quente e no contato da pele morna.
Não era medo o que eu sentia, era puro fascínio, pois a amara de chofre. Porque ela me sabia, beijou-me os lábios miudamente. Sua boca era gelada, eu já antecipara. E como se repetíssemos algo de que fizéramos costume, pegou de minha mão e levou-me até o quarto. Sentei na borda da cama e admirei-a. Despiu-se, revelando uma nudez de anjo. Fantasmagoricamente bela, linda como a aparição que era. Veio até mim e apertou meu rosto contra o ventre, rijo como pedra, caroável em seus muitos músculos. Subi-lhe os dedos pelas coxas, a carne tenra oferecendo-se, o perfume evanescente de flores. Tinha poucos pêlos, sempre a carnação branda e lisa, sempre, e sempre aquela fragrância que deveria ter vindo de algum paraíso. Céu e terra se encontraram quando estirou o corpo sobre a cama. Eu ali, parada, minha mão ainda queimando do contato cândido, as narinas impregnadas com o aroma selvagem. Deitei-me sobre ela, esmagando os seios mimosos contra os meus, a corte celeste pairando sobre o retângulo dos lencóis. Procurou-me a boca com a boca fria, a língua evoluindo em torno da minha, os dentes chocando-se vez que outra no sem pressa que antecede a fúria dos amores. Abraceia-a e quis estar com ela assim até que viesse o desígnio que iria me tocar no fim de meu próprio tempo. No entanto, ela se inquietava, a pele incendiando-se no que era tíbio. Beijei-lhe as glória dos ombros, o torneado exato dos seios, afundando-me no ventre cheio de promessas. Foi quando encontrei o aroma de leveduras, ácido, mas, ainda assim, doce e desejável. Esqueci-me e quis morrer no meio de suas pernas, duas colunas, amimando-a, locupletando-me no visgo transparente, indício do desejo que brotava e que estava ali, à superfície. Ela se diluía sem cor, borbotões copiosos, água abençoada dos seres, eu e ela querendo ser o que sempre fôramos, poços fundos de anseios, matéria ancestral dos indivíduos, parte indivisível da humanidade. Eu nascia dela; ela, um pedaço fraterno de mim. Ouvi a respiração dificultosa, o tronco alteando-se em contrações, as coxas abraçando-me a cabeça com fúria de desespero. O prazer tornava-a, enfim, humana, ela, a súcuba mensageira, e eu sabia que se gratificava com isso. A mim bastava que submergisse em si mesma; eu me afogava no meu futuro, aquele que iria me caber. Agora eu sabia.
Quando percebi que se aquietara, subi a mirar-lhe as feições. Os olhos estavam cerrados, os círculos cinzentos se haviam ido, a tranqüilidade irmanava-a às esferas distantes. Os braços pendiam para fora da cama, abertos como uma crucificação sem sofrimento. Voltei a deitar sobre ela, senti-lhe as mãos nos ombros e nas costas, as pernas que enlaçavam as minhas, a tepidez aquosa do sexo: revivia. E, nessa ressureição, contagiava-me com o sopro inicial. Rocei-lhe o ventre e as coxas, estros pulsáteis, primeiro com candura, depois com a urgente premência, mais e mais, até a desmedida. Veio o tempo de meu desfalecimento, e os lábios frios tocaram os meus quando já me estava indo. Beijou-me na hora de minha pequena morte.
Depois, porque houve um depois, vestiu-se lentamente, as roupas avaras escondendo o corpo de demoníacas volições. Tentei mantê-la um pouco mais em meus domínios, quis que me contasse sua antiga história, que me desse o gosto do fingimento; perguntei-lhe: e agora? Mas ela sequer respondeu. Eu tinha consciência de que sentiria mórbidas saudades quando partisse, o amor não cumpre na hora seus deveres. Foi-se, assim como veio, em passos líquidos, mal e mal tocando o chão.
Inútil foi a espera nas noites que se seguiram. A intrusa não mais me surgiu, e me comprazia a evocá-la em pensamentos nas horas tardias, as mãos nos nervos dos seios, os dedos em mim como se fossem os dela. Entendi, com o passar dos tempos, que não era sobre meu destino que se deliberava quando ela apareceu por ali. Não viera por mim, senão que estava de passagem, ato transitivo de ponto a outro. A meio caminho em busca de alma alheia, viera propiciar-me o prazer do corpo e o beijo frio, apenas isso. E avisar-me que as coisas retornam sempre a seu estado ancestral.
Eu, depois disso, na certeza do amor pela morte que viria, passava as madrugadas inerte, as horas me percorrendo, assistindo ao espetáculo da dissolução, coisa atraindo coisa, até que nada restasse, exceto o suor do corpo – água – na superfície transparente.

Olhares críticos e a história

01 de outubro de 2008 3

Sim, eu sei, estou atrasado com a publicação deste ítem, mas juro que foi por uma boa causa. Conforme havia avisado no Conto da Quinzena anterior, já tinha na manga, pronto para publicação, um conto de uma escritora um pouco mais conhecida do grande público, mas a Feira do Livro chegando me fez pensar em uma correção de rumo e eu decidi fazer esta edição com o patrono da Feira em pessoa, o escritor, professor e ensaísta Charles Kiefer, que nos permitiu gentilmente a publicação por aqui de uma história de sua coletânea mais recente de narrativas curtas: Logo Tu Repousarás Também. Com trinta anos de atividade literária, Kiefer não se enquadra, como dissemos, no perfil dos escritores “mais novos” que vínhamos apresentando até aqui, mas creio que o fato de termos uma edição especial Feira do Livro é mais do que justificável para que seja dele o conto desta quinzena — que na verdade já está avançando na seguinte.

QUEM É? Nascido em Três de Maio em 1958 (vai completar 50 anos em plena Feira do Livro), Kiefer tem uma produção que transita igualmente pelo conto, pelo romance, pela poesia, pela crítica e pelo ensaio. Sem falar na atividade de professor de uma das oficinais literárias mais antigas e tradicinais em atividade no Estado. Ouso afirmar que dos escritores recentes uma parcela realmente pequena não passou em algum momento ou pela oficina de Charles Kiefer ou pela de Assis Brasil. Com mestrado em Literatura Brasileira e Doutorado em Teoria da Literatura, é também professor universitário, na PUCRS.

O QUE JÁ FEZ? Embora tenha publicado antes uns dois ou três livros, o próprio Kiefer considera sua estréia literária a novela Caminhando na Chuva, uma novela de formação publicada em 1982, continuamente reeditada e que já vendeu cerca mais de 100 mil exemplares ao longo desses 26 anos. Daí em diante, seguiram-se livros de poesia, de contos, e romances, com destaque para a novela O Pêndulo do Relógio, os romances Valsa pra Bruno Stein (1986 – recentemente transformado em filme com Walmor Chagas no papel principal), A Face do Abismo (1988), Quem Faz Gemer a Terra (1991), os contos de Dedos de Pianista (1989) e Um Outro Olhar (1992) e os infanto-juvenis Aventura no Rio Escuro (1984) e Você viu meu Pai por aí (1986). Claro, essa é uma seleção tímida para uma obra com mais de 30 títulos. Sugiro que vocês pesquisem o resto no site pessoal do escritor, (www.charleskiefer.com.br). Lá saberão também que Kiefer já recebeu duas vezes o tradicional prêmio Jabuti, por O Pêndulo do Relógio e por Um Outro Olhar. Kiefer também participou de muitas antologias, e recentemente as tem editado com freqüência, como os livros 101 que Contam, 102 que Contam, 103 que Contam e Brevíssimos, todos da Editora Nova Prova e todos com textos de ex-alunos da oficina literária que Kiefer ministra.

E A OBRA, QUALÉ? Ok, a obra. Desta vez, vou passar a responsabilidade de falar da obra para outra pessoa. No caso, estou reproduzindo aqui o que escreveu Juracy Ignez Assmann Saraiva no Pequeno Dicionário da Literatura do Rio Grande do Sul, um livro assaz instrutivo, organizado por Regina Zilberman, Luiz Antonio de Assis Brasil e Maria Eunice Moreira e publicado em 1999 pela editora Novo Século, que depois virou Leitura XXI: “A saga do povoamento da região Noroeste do Estado, suas transformações – que evoluem da degradação imposta ao ambiente natural às mazelas da civilização urbana -, e uma visão de mundo alimentada pela ascendência germânica fazem-se presentes na obra de Charles Kiefer. (…) A obra de Charles Kiefer caracteriza-se por certa circularidade, evidenciada na reiteração temática, na recorrência às mesmas personagens e na inserção freqüente das narrativas no espaço romanesco da cidadezinha de Pau D`Arco. A experimentação formal, no que tange ao processo enunciativo, e a auto-referencialidade do código literário também são aspectos evidentes em algumas narrativas. A produção do escritor gaúcho é significativa do ponto de vista da realização literária, pois articula a dimensão individual ao processo sócio-histórico da formação do Estado gaúcho, exigindo do leitos um olhar crítico orientado para a realidade histórica e para a representação estética da inserção do homem nessa realidade”.

E ONDE EU ACHO ISSO? Três livros de Charles Kiefer foram recentemente reeditados pela Editora Record, que comprou a obra pregressa inteira do autor e pretende relançá-la. Estão disponíveis nessas edições recentíssimas da Record Valsa para Bruno Stein, Quem Faz Gemer a Terra e o thriller O Escorpião das Sextas-feiras. Também pela Record saiu o livro mais recente do autor, o já mencionado Logo Tu Repousarás também.

Agora, abaixo, vai nosso Conto da Quinzena atrasada. Chama-se Morte Súbita, e, como é a terceira história que publicamos aqui, é também a terceira do livro. Não, o critério não foi esse, é que eu gosto dela e ela é curta o bastante para o blog.
O próximo Conto da Quinzena sai dia 12 de outubro.

Morte Súbita

Pensei coisa ruim quando vi os carros, as bicicletas e as carroças no pátio da nossa casa. Eu tinha doze anos e voltava da escola, as aulas haviam sido suspensas por causa da copa do mundo. Lembrei da mãe, da doença lá dela, magra feita um caniço, os olhos fundos e arroxeados, a boca desdentada. Me deu um nó na garganta, uma vontade muito grande de chorar. Há um ano atrás, meu avô também falecera. Agora, eu ia sentir, de novo, o cheiro enjoativo das flores murchas e do sebo das velas. Não lembro se perguntei à mãe o significado do ritual fúnebre, mas ainda posso ouvi-la, com sua voz de passarinho molhado, a chama do círio significa a fragilidade da vida, qualquer ventinho pode apagá-la. Era professora primária, a minha mãe. E fazia questão de conjugar os verbos com precisão, para dar o exemplo. Nisso, nas tempestades da doença, ela também deu o exemplo. Resistiu, até a manhã daquele dia, quando me serviu o último café, sem uma reclamação, um gemido, um momento de desespero. Subi a escada da varanda, lento, zonzo, com dor no peito e nas pernas. Parei no topo, fiquei de costas para a porta. A estrada de chão batido deslizava até a vila, onde a mãe gostava de me levar para passear, tomar sorvete, espiar a vitrine das lojas, como ela dizia, que o dinheiro era contado, mal dava para as necessidades mais urgentes. Nunca mais, eu pensei, e aí sim, aí não consegui mais segurar, chorei como se vomitasse, como se expelisse de minhas entranhas todas as lembranças, todos os afagos, todas as ternuras. Era doce, a minha mãe. De uma doçura serena, como o arroz-de-leite que ela fazia aos domingos. Eu nunca me cansava de comer. E agora, morta. Nunca mais ela polvilharia pó de canela sobre o meu arroz de leite, nunca mais. Ouvi, à distância, meio abafado, meio brumoso, o hino nacional. Não sei se era uma patriota fanática, mas minha mãe gostava das coisas do Brasil. Nas paradas de 7 de setembro, lá estava ela na avenida, com a bandeirinha, me saudando. Eu marchava teso, engomado. Não sabia bem o que era aquilo, o diretor da escola exigia a participação no desfile cívico, todos obedeciam. Minha mãe me ajudava a decorar longos poemas, que eu declamava no dia da bandeira, no dia do índio, no dia do descobrimento. Na hora do grêmio literário, lá estava ela, na primeira fila do auditório, balbuciando versos mais difíceis, eu não me perdia nunca, a gente treinava leitura labial em casa, antes das apresentações. O hino cessou, abri a porta, atravessei a cozinha. A sala estava abarrotada, meus tios, meus primos, os parentes mais distantes, os vizinhos, todos em silêncio, todos com esse profundo silêncio dos vivos diante dos mortos. Não pedi licença, fui empurrando aqui e ali, pisando os pés de tias e primas, sem me desculpar, eu só queria vê-la, eu precisava vê-la. E, de repente, meu Deus, eu a vi. Linda, quieta, sentadinha, enroladinha num cobertor, a olhar fixamente para um ponto no canto da sala. Enfim, o pai comprara o televisor que ela tanto queria. Na tela, Rivelino, Pelé, Tostão, e aqueles outros craques que nunca mais esquecemos, iniciavam um caminho pontilhado de extraordinárias vitórias.

Afetos na miséria humana

13 de setembro de 2008 3

Façam de conta que eu viajei e estou com um fuso-horário de duas horas para curtir o segundo autor que estrela nossa série Contos da Quinzena. Quando comecei a pensar em quem seria o personagem desta seção durante este fim de semana, fiquei com a possibilidade de apresentar um autor que recentemente lançou seu primeiro romance e uma autora já bem conhecida. Como a idéia aqui também é apresentar o material do pessoal mais recente, optei pelo autor mais novo e deixei a autora para daqui a duas semanas. A idéia é o quanto possível alternar nomes que estejam em diferentes etapas de sua trajetória, do cara que começou a publicar nos anos 2000 até quem tem vinte anos de carreira ou mais, por exemplo.

QUEM É? Porto-alegrense nascido em 1977, Ítalo Ogliari equilibra a produção literária, a pesquisa acadêmica e o cinema (não que ele saia da pesquisa e vá ao cinema ver filmes, embora provavelmente ele também faça isso). Ele é sócio de uma produtora independente chamada Construção Filmes, responsável por alguns filmes em super-8 como Diariamente, de 2002, e O beijo, de 2004. Como um bom número de escritores hoje em atividade no Estado, Ogliari cursou a oficina literária de Luiz Antonio de Assis Brasil em 2002. Ele é também professor (no curso de Letras da Ulbra de Gravataí), mestre em literatura pela PUCRS e doutorando pela mesma universidade. É autor de dois livros de contos e lançou seu primeiro romance por uma grande editora no ano passado.

O QUE JÁ FEZ? Seus primeiros textos vieram a público na coletânea Contos de Oficina 30, que reunia os alunos da já mencionada oficina do Assis. Em 2004, saiu pela WS Editor, casa publicadora daqui de Porto Alegre, seu primeiro volume de contos, A Mulher que comia Dedos. No ano seguinte, lançou pela Coleção 2000, iniciativa do Instituto Estadual do Livro em parceria com a Caixa para apresentar novos autores, outra coletânea de narrativas curtas, Ana Maria não tinha um braço. Em 2007, saiu pela 7Letras a enxuta novela Um Sete Um.

E A OBRA, QUALÉ? Ah, obrigado por lembrar disso. Tanto os contos quanto a mais recente novela são escritos em uma linguagem que procura sintonizar-se com o ritmo e a prosódia da fala de seus personagens: seca, direta, por vezes agressiva, plena de gírias e com uma dicção arrevesada. Também há experimentações com o tempo narrativo, com a concisão, com os subtextos, muitas vezes com a própria estrutura literária. A atração pelo lado escuro ou menos “estético” da realidade também está presente, em tramas que se debruçam sobre a violência das relações, agravadas pela pobreza e pela falta de perspectivas, como, no caso dos contos de Ana Maria não tinha um braço, o texto Não Vejo Esperança em Renata Letícia Miranda. Mas os personagens de Ogliari também querem desesperadamente criar um espaço afetivo, mesmo no abandono, como se vê em Vem cá Anjinho ou até no romance Um Sete Um, no qual o protagonista narra sua história para um mendigo que tem certeza de ser o pai que o abandonou na infância.

E ONDE EU ACHO ISSO? O romance da 7Letras ainda está em catálogo. Os demais, como tinham tiragens reduzidas e foram publicados por editoras pequenas, sugiro que entrem em contato com o autor em seu site oficial. Clica aqui.

Agora, abaixo, vai nosso Conto da Quinzena. Chama-se O Círculo, e, a exemplo do que aconteceu com a história do Galera, é a primeira do livro, Ana Maria não tinha um braço. Não por planejamento, mas por sugestão do próprio autor, a quem este blog agradece por permitir a publicação de seu texto. Vocês verão neste excerto alguns aspectos sobre os quais já falamos, como as experimentações com o tempo narrativo e a linguagem direta, por vezes crua, característica do autor.

O próximo Conto da Quinzena sai dia 27 de setembro.

***

O círculo

Eu estava no shopping. Apaguei aquele cigarro de vinte e poucos anos e peguei-a pela mão.
— Eu te amo, Lúcia — disse.
Ela riu. Falou que era bobagem, Se amasse, não faria aquilo. Eram oito horas da noite. Olhei mais uma vez para ela.
O velho estava em casa. Eu conhecia todo o seu ritual de banho. Ele ligava o chuveiro, ainda vestido, e voltava ao quarto.
— É sério, Lúcia — eu disse. — Só mais uma chance. Juro que te amo.
Ela olhou para o chão. Bom sinal. Quando as pessoas olham para o chão é porque o coração amolece. Então ela ergueu a cabeça e me beijou.
Amoleceu, também, os músculos do velho com os anos. No quarto ele se despia e colocava o roupão. Acendia um cigarro e ia à sacada. Para esquentar o banheiro, dizia sempre.
Com o beijo de Lúcia, notei que ela realmente gostava de mim. Convidei-a para um chope e umas batatas. Ela chorava. Medo, talvez. Mas prometi a ela. Serei uma boa pessoa o resto da vida.
Para sempre.
E o cigarro do velho queimava lento. Ninguém podia reclamar de contas caras. Quem pagava luz e água era ele. E aquele cigarro, que sempre parecia eterno, apagou-se. Tinha de se apagar. Um dia apagaria.
Nada é para sempre.
Dei uma carona para Lúcia até sua casa.
— Quer entrar? — ela perguntou.
Concordei.
A água morna corria pelo corpo mole e rígido do velho. Fora sempre assim. Rígido. Os olhos parados e a boca séria. E aquela muralha cansada camuflava-se com o vapor do banheiro, escondendo o ressentimento de uma vida triste sem reais motivos. E depois de quarenta minutos, o chuveiro desligava-se.
Na casa de Lúcia, desligaram-se as luzes. Tirei sua roupa e beijei suas costas. Deitei-a no sofá. Passei as mãos em seus peitos pequenos e colei o rosto em seu umbigo. Desci mais e encontrei o calor e a umidade que desejava.
E na umidade do banheiro, o velho deu um passo em direção à porta. A perna fraca precisou logo da outra para ganhar firmeza, que respondeu à necessidade, mas o pé não fora suficientemente firme. Escorregou. O vapor não deixou que o reflexo velho encontrasse a pia para apoiar-se. O corpo todo caiu. Num tombo, o corpo mais rígido se machuca mais. E a cabeça do velho encontrou a louça branca da privada. O estalo foi seco. Houve um só gemido. O sangue espalhou-se rápido.
Eu, no sofá da casa de Lúcia, também gemi.
Lúcia engravidava,
O velho morria.
Mamãe foi ao enterro do velhou. Chorou. Não sei o motivo. Chegamos lá mais tarde, Lúcia e eu. Assistimos a tudo, quietos. Quatro meses depois, casamos. Lúcia nem tinha muita barriga.
Mamãe foi ao nascimento de meu filho. Chorou.
Foi também ao seu primeiro aninho. E ao segundo e ao terceiro. Depois morreu. O menino hoje está grande. Lúcia está igual. Só mais velha. Uma boa pessoa, nada mais.
As coisas são iguais e diferentes. Meu filho não fuma, mas está, agora, num shopping qualquer, se reconciliando com a namorada que, por algum motivo bobo, levou um tapa dele.
Eu, sim, continuo fumando. E daqui, da sacada, ouço o chuveiro. O cigarro chega ao seu fim. Parecia eterno, mas não é.
É apenas a hora de tomar o banho.

Lirismo entre escombros

30 de agosto de 2008 5

Nosso primeiro autor gaúcho na série Contos da Quinzena tecnicamente é paulista, mas passou a maior parte da vida em Porto Alegre e sua obra, principalmente seus primeiros livros, reflete de modo indubitável essa ligação com a cidade.

QUEM É? Nascido em 1979 em São Paulo, Daniel Galera é autor de um livro de contos, dois romances (ou uma novela e um romance, se quiserem entrar em tecnicidades de forma que não levam a lugar nenhum) e um bom número de traduções. Como estamos em um blog, e blog normalmente é freqüentado por quem navega na internet (jura? dããã), seu nome não deve ser novidade para a maioria dos leitores, dado que dentre os autores de sua geração Galera é um dos mais conhecidos e comentados.
Seu nome começou a circular há uma década, como integrante do staff de COLunistas do Cardosonline, formado basicamente por uma turma de amigos que incluía ainda Daniel “Mojo” Pellizzari, Clarah Averbuck e o próprio criador e identidade do zini, André “Cardoso” Czarnobai, todos mais tarde autores publicados.

O QUE JÁ FEZ? No início dos anos 2000, em sociedade com Pellizzari e com o artista plástico Guilherme Pilla, fundou a Livros do Mal, editora pela qual publicou Dentes Guardados (2001), até agora sua única coletânea de contos, e a primeira edição da novela Até o dia em que o cão morreu, mais tarde adaptado para o cinema com o nome de Cão Sem Dono, mas aí já é outra história, estamos falando de livros.
Em 2006, saiu pela Companhia das Letras, sua atual editora, o romance Mãos de Cavalo, que depois ganhou edição na Itália, na Argentina e em Portugal. Seu próximo livro, com o título de Cordilheira, pode ser esperado para depois de novembro, mas ainda sem uma data daquelas, cravada, na bucha.

E A OBRA, QUALÉ? Gentil de sua parte ter perguntado isso. Relendo o livro Dentes Guardados para escolher um conto para esta seleção, já com a leitura do que ele publicou depois, percebi uma série de camadas sutis que na época do lançamento confesso que haviam me escapado. Uma delas é um certo tom alegórico, simbólico, que Galera foi paulatinamente abandonando nos contos para centrar-se numa representação mais aparentada à representação realista em suas narrativas longas seguintes. Seus contos em Dentes Guardados guardam uma unidade não muito fácil de encontrar em livros de estréia – e coletânea de contos, ainda por cima, que muitas vezes resulta em balaio de gatos. Há uma série de histórias que tratam da entrega ao sexo como mais um meio de buscar sentido a uma existência oprimida pelas tensões e pressões de quem é chamado a ingressar de uma vez no moedor de carne do mundo do trabalho. Não no sentido da entrega ao sexo como o apresenta Henry Miller, esse é só um elemento. Há também essa busca na bebida, na vida noturna, na violência, na aniquilação, pessoal ou alheia. E há contos que tratam de dilemas sentimentais das ligações afetivas modernas. Alguns deles profundamente líricos, como o belo Dafne Adormecida, ou o doloroso Alguma Psicologia.

E ONDE EU ACHO ISSO? Para sua felicidade, o primeiro livro, esgotado, está disponível na íntegra, para dowload gratuíto, no site oficial do escritor. Clica aqui. Os demais têm edição recente da Companhia, então te vira.

Agora, abaixo, está nosso Conto da Quinzena. Chama-se Amor Perfeito, é a história que abre a coletânea e sua escolha foi sugestão do próprio Galera, no e-mail em que gentilmente autorizou sua publicação neste espaço. Por tudo o que você leu antes, poderá ver que Galera é um autor que não tem medo da linguagem cotidiana aplicada ao corpo e suas interações, portanto aqueles que têm uma sensibilidade um pouco mais exacerbada para representações das paixões da carne, por favor, ou não leiam e esperem o próximo ou mantenham a discussão na caixa de comentários em alto nível.

O próximo Conto da Quinzena sai dia 14 de setembro.

Amor Perfeito
Ele tirou a minha virgindade. Transamos no meu quarto, noite suarenta de sábado em que meus pais estavam no sítio, uma penetração indolor, lenta e gostosa, e pelo resto da madrugada ele acariciou incansável o meu corpo, venerando tudo, meus peitos que eu temia serem pequenos demais, minha bunda que eu achava mole, meus pés com dedos tortos, eu tinha medo de como os homens julgariam meu corpo, era minha única ansiedade e ele desmentiu-a logo em nossa primeira noite de cama. Na primeira vez que fizemos sem camisinha, estranhei a sensação de ter aquela porra dentro de mim, sentei-me sobre os tornozelos pra que tudo escorresse de uma vez para fora, me sentindo ridícula, ele pôs um lenço de papel na palma da mão e colocou-a entre as minhas pernas, dizendo Ei assim tu vai manchar o teu edredon. Os gestos dele me surpreendiam, trazendo calma e conforto, sempre iam a favor das minhas expectativas. Dia desses num bar uma menina chegou vendendo rosas, e por um instante temi que ele fosse me oferecer uma rosa, atitude que eu teria considerado estúpida, odeio flores e odeio babaquices românticas, mas não, ele recusou a rosa e ainda me disse Eu espero que tu nunca espere que eu te dê rosas. Não concordamos em tudo, na verdade temos gostos muito antagônicos para várias coisas, filmes e marcas de cerveja, por exemplo, mas ele nunca mostrou-se preocupado em mudar minhas opiniões, aceitando minha personalidade, meus erros e meus estados de espírito com absoluta tolerância, anulando a vergonha que tive certa vez por chorar na frente dele com o gesto de lamber meu rosto e engolir minhas lágrimas, compartilhando meus momentos de angústia com abraços silenciosos, e numa noite em que saí sozinha e traí ele pela primeira vez, percebi que tinha uma chance de testar sua tolerância. Contei tudo, e para meu espanto ele apenas moveu as pálpebras macias e me disse que achava natural o desejo fora do relacionamento, que estava chateado mas que minha traição não influía no seu amor por mim. Insisti, descrevi detalhes do rapaz, dos beijos e carícias na pista de dança e isto, ao invés de abalá-lo, excitou-o. Acabamos transando, e eu gostei. Foi a partir daquele dia que a tolerância dele tornou-se irritante. Me convenci de que eu devia provocá-lo, eu necessitava de um pouco de ódio, tumulto, nosso amor era certo demais. Só que não funcionou: aturou meus porres escandalosos, meus arrotos em público, respondeu minhas agressões verbais à altura, acatou todos os meus comportamentos. Porque me amava. Me tratava tão bem, reagia tão perfeitamente às minhas expectativas, que o amor dele passou a me dar tédio, tornou-se irritante de tão pleno, de tão incorrigível. Daí resolvi terminar, mandei ele à merda. É claro que até nisso ele foi compreensivo. Eu estava prestes a acender o terceiro cigarro quando ele finalmente reagiu, e foi para me dar um abraço. Respeitou meus sentimentos, disse entender que seu amor incondicional me agredisse. Mas não era pra ele entender!, não era pra aceitar, porra!, era pra sentir ódio, pra me odiar, parti pra cima daquele filhodaputa, atirei telefone, copos, livros, cadeira, tudo pra cima dele, ele devolveu, me bateu com força, me xingou, e cada tentativa minha de machucá-lo ele respondeu, cuspi nele e ele me cuspiu, aranhei o rosto dele com ferocidade, ele me chutou pelo chão da sala, senti dor, berrei como uma porca e percebi horrorizada que até mesmo naquele momento, por deus, ele estava fazendo o que eu esperava dele, ele estava me dando o que eu queria.