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Posts na categoria "Contos"

A revolução e os náufragos da história

28 de dezembro de 2015 0
Capa de A Estrada, de Vassili Grossman

Capa de A Estrada, de Vassili Grossman

Dada a energia que a União Soviética empregou ao longo do século 20 para silenciar os escritores “contrarrevolucionários” (senha para “ideologicamente inconvenientes”), o caso de Vassili Grossman (1905 – 1964), um dos autores mais sistematicamente proibidos do regime, não é, infelizmente, incomum. Incomum é o fato de que a melhor parte de sua obra tardia, suprimida, proibida e ameaçada de destruição durante toda a vigência do Império Soviético, tenha de algum modo sobrevivido e alcance hoje ressonância internacional.

Grossman é o autor de Vida e Destino, romance monumental que, inspirado desde o título por Guerra e Paz, de Tolstoi, recompõe a escala humana das dificuldades enfrentadas pelo povo russo durante os embates da II Guerra, em um carrossel de vozes que vão dos campos de prisioneiros nazistas ao front desabastecido, passando pela burocracia desumana a que estão submetidos os cidadãos nas sitiadas cidades. O livro constava como obliterado, mas apareceu e foi publicado em 1980, e se tornou um romance consagrado após a queda do comunismo soviético. Publicado finalmente no Brasil no ano passado, o livro abriu caminho para outros trabalhos do autor, como os contos, ensaios e reportagens reunidos neste recente A Estrada (Tradução de Irineu Franco Perpetuo. Objetiva, 336 páginas, R$ 54,90).

Compilados pelo tradutor inglês da obra, Robert Chandler, e pelo especialista russo Yuri Bit-Yunan, os textos vêm distribuídos em cinco seções, abrangem desde Na Cidade de Berdítchev, publicado em 1934, uma das primeiras obras de Grossman a angariar reconhecimento crítico (merecido, comprova a leitura desa poderosa reflexão sobre o dilema revolução-vida familiar que afligiu parte dos mais fervorosos soviéticos), até cartas de despedida que escreveu para a mãe já morta há muitos anos (fuzilada pelos nazistas em 1941, com outros 12 mil judeus, na Berdítchev natal do autor).

Sobressai nos contos, desde os poucos do início da carreira até os mais tardios, o caráter compassivo da prosa de Grossman. Ao contrário da fascinação com a violência revolucionária que permeia desde um autor plenamente alinhado com os  soviéticos, como Máximo Górki, até uma vítima do regime, como Isaac Bábel, Grossman se preocupa menos com os grandes tornados da História do que com as vidas que adernam à sua passagem. Não é à toa que ele tenha sido um dos primeiros, já em 1944, a retratar o horror de um campo nazista, em O Inferno de Treblinka, incluído neste volume.

Os documentos de Alejandro Zambra

18 de dezembro de 2015 0
O escritor chileno Alejandro Zambra

O escritor chileno Alejandro Zambra

Texto de Fernanda Grabauska

“Eu não sabia nada do mundo, nada.” É assim, em uma mistura de nostalgia infantil com adulta confissão, que o chileno Alejandro Zambra ensaia fragmentos de uma ficção autoarqueológica em seu primeiro volume de contos, o adequadamente intitulado Meus Documentos (Tradução de Miguel del Castillo. Cosac Naify, 222 páginas, R$ 32,90). Mas se o pronome possessivo do título deixa o leitor com a impressão de que a voz única é a do autor-narrador, esta se rompe já na largada: os documentos não são de uma pessoa apenas, mas de toda uma geração, desejosa de questionar-se sobre seu passado.

Agraciado em 2010 com um lugar entre os 22 melhores escritores da língua espanhola com menos de 35 anos pela revista Granta e consagrado no gênero romance com títulos como Bonsai (2006), A Vida Privada das Árvores (2007) e Formas de Voltar para Casa (2011), Zambra incursiona pelos contos com a mesma prosa sensível para retornar à experiência de crescer no Chile de Pinochet e de ver-se, anos depois, em meio a uma geração cada vez mais atrelada aos computadores.

Ele está longe, contudo, de falar exclusivamente aos chilenos – cada fragmento de memória ecoa, também, naqueles que cresceram nas décadas de 1980 e 90. Em qualquer lugar, foram eles os únicos, talvez, a escutar as teclas das máquinas de
escrever paternas, que rascunharam seus primeiros textos literários em blocos de nota e que, finalmente, formataram-nos
em arquivos para deixá-los, muitas vezes esquecidos, na pasta Meus Documentos do Windows.

Toda essa nostalgia, por vezes humana – como no conto que dá nome ao livro –, por vezes tecnológica _ como em Lembranças de um Computador Pessoal –, é captada por Zambra e descrita com sutileza e ironia. Seja no momento da malograda tentativa do autor (famoso pela velocidade em que emenda um cigarro no outro) de abandonar o tabagismo em Eu Fumava Muito Bem, seja na ambivalência familiar de Verdadeiro ou Falso, a tônica de Meus Documentos é clara e universal: não importa o quanto voltemos ao passado, difícil mesmo é o presente.

Capa do livro Meus Documentos, de Alejandro Zambra

Capa do livro Meus Documentos, de Alejandro Zambra

O amálgama ético de Rubem Fonseca

09 de dezembro de 2013 1

CAPA Amálgama

Há anos que Rubem Fonseca deixou de ser o profeta do apocalipse social brasileiro. Agora, o autor de 88 anos prefere ser o comentarista sarcástico da desagregação nacional, como se vê nos 34 contos de Amálgama, seu novo livro.

Apesar de o título sugerir um material físsil tornado uma massa homogênea, Amálgama na verdade se aproxima muito de um exercício literário cubista que lança mão de variações temáticas e formais de obsessões antigas do autor. O Filho, o primeiro conto, narra o conflito entre uma mãe e sua filha grávida, ambas interessadas em vender o bebê recém-nascido. A última narrativa, intitulada singelamente Foda-se, versa sobre um homem impotente que tenta redescobrir sua virilidade exercendo o desapego. Entre um e outra,as histórias, a maioria muito breves, desfilam situações que se repetem como variações sinfônicas de um pesadelo: crianças nascidas com deformidades; rejeições paternas e maternas; seduções grotescas; vinganças que parecem um pastiche sarcástico de histórias de folhetim. E,claro,anões e mulheres deslumbrantes “de corpo perfeito”, como mais de uma delas é descrita pelos protagonistas masculinos do autor  – muitos deles também variações de uma mesma voz a percorrer o livro.

Rubem Fonseca foi um artista profético ao longo de uma carreira que completou meio século neste ano (seu primeiro  livro, Os Prisioneiros, é de 1963). Suas obras trouxeram para a literatura brasileira não apenas a temática urbana expressa em uma linguagem urgente, mas flagraram a ascensão de uma violência disseminada e impessoal, consequência do crescimento das cidades em um país como o Brasil. Em um processo que talvez fosse inevitável, a profecia perdeu força depois de realizada. A violência e a crueldade que Fonseca elaborou como ficção nos anos 1960 e 1970 – motivo de choque e censura – hoje são o cenário contemporâneo no qual vivemos,o que talvez ajude a explicar a irregularidade de muitas de suas obras recentes, embora o autor não tenha propriamente se desviado de seus temas.

Amálgama consegue ser um conjunto mais coeso do que muitas das coletâneas de contos publicadas por Fonseca neste breve século 21, como Ela e Outras Mulheres (2006) e Axilas e Outras Histórias Indecorosas (2011). Em Amálgama, ainda estão lá a brutalidade nas relações e a violência de ares cada vez mais grotescos, mas o que parece ser a tônica do novo trabalho é justamente uma indistinção de seus motivos e de uma alternativa. Se contos clássicos como Passeio Noturno e O Cobrador traziam embutidos uma dimensão de denúncia social, a obra mais recente de Fonseca põe a denúncia em segundo plano: não há o que denunciar quando o pior já aconteceu. Ele exercita, então, o riso amargo e o sarcasmo ao contemplar o bem e o mal – amalgamados ambos.

Don DeLillo do lado de fora da vida

02 de dezembro de 2013 0

O-Anjo-Esmeralda

Texto de Luiza Piffero

Os personagens de Don DeLillo não fazem muito mais do que contemplar o que acontece ao seu redor, como se assistissem à vida se desenrolar ao largo deles. Quando encontram alguma coisa ou alguém para se agarrar, o fazem de maneira obsessiva.

Embora os nove contos da coletânea O Anjo Esmeralda cubram mais de três décadas na carreira de DeLillo – mais conhecido por romances como Ruído Branco e Submundo – e seus personagens habitem mundos tão diversos quanto o espaço sideral e uma ilha caribenha, eles mantêm esse forte traço em comum. O autor escolhe protagonistas que não estão presos no fluxo cotidiano da cidade e não precisam orientar seus dias pelo relógio: um viajante, um astronauta, um presidiário, um desempregado que passa as suas horas frequentando cinemas. Desde seus primeiros contos, fica claro que DeLillo, um dos autores norte-americanos mais festejados da atualidade, não estava interessado em histórias com início, meio e fim, mas na fabricação de personagens complexos e narrativas imbuídas de um mistério que cativa sem causar sobressaltos. Por esse motivo, ele presta especial atenção aos diálogos e jamais desperdiça palavras em descrições longas. Prefere a concisão.

Ler um conto seu é desacelerar e sentir a sensação de viver fora da urgência das cidades. Seus personagens têm tempo de sobra para refletir sobre si mesmos ou o que se passa diante deles. Por isso, acabam formulando pensamentos delicados, coisas secretas que um dia todos pensamos sem dar maior  importância e, na sua mão, viram um trampolim para questionamentos profundos. Obcecados por essas impressões,distanciam-se da realidade.

Esse desacelerar não quer dizer correr o risco de pegar no sono. O texto de DeLillo alcança um ritmo e é arquitetado de uma forma tal que o leitor é deixado sempre em estado de alerta. Esse traço o rendeu o apelido de“xamã da escola paranoica da ficção americana” e alguns críticos apontam nele o talento para absorver a atmosfera de medo e insegurança que se instalou nos Estados Unidos pós-11 de setembro.

O cuidado com as estruturas dos textos, muito mais dinâmicas do que as histórias, aparece bem em O Corredor. Nesse conto, DeLillo descreve a ação de maneira a colocar o leitor a correr junto do protagonista, que se exercita em um parque, arfando e respirando o mesmo ar, assistindo à paisagem mudar a cada passo. As sensações do personagem
são revezadas com as visões fragmentárias do espaço e de um episódio insólito que ele testemunha. Os personagens de DeLillo passam tanto tempo contemplando o mundo, excluídos, que, tal como escritores, passam a inventar suas próprias versões dele. Nas entrelinhas de cada conto, DeLillo parece sussurrar que, quando o mundo não faz mais sentido, a ficção é única saída.

Afetos e insetos de Monique Revillion

03 de novembro de 2013 0
Monique Revillion em sua casa em Porto Alegre. Foto: Emílio Pedroso, ZH

Monique Revillion em sua casa em Porto Alegre. Foto: Emílio Pedroso, ZH

Monique Revillion fez uma estreia de luxo na literatura em 2006, com o elogiado volume de contos Teresa, que Esperava as Uvas. Na época, em entrevista a Zero Hora, a autora comentou que demorava muito para escrever, apegada ao cuidado da palavra. Talvez isso explique os sete anos que separaram a estreia do segundo livro, O Deus dos Insetos (Dublinense, 96 páginas, R$ 32), que ela autografa nesta segunda-feira, às 20h, na Praça de Autógrafos da Feira do Livro.

O novo título mostra Monique trilhando com mais afinco as veredas que abriu com seu primeiro livro, em especial no uso de uma linguagem sólida, poética, flagrando momentos definidores na vida de um personagem – a ação nas 11 histórias é muito mais interna, situada no universo de sensações dos personagens. Assim como já havia feito em seu livro de estreia, Monique sustenta o conjunto das narrativas de O Deus dos Insetos em dois eixos: epifanias íntimas de clara inspiração clariceana, por um lado, unida, por outro (embora nem sempre) a um olhar compassivo mas implacável sobre aqueles que se chamaria de “desvalidos”.

É justamente dessa segunda linha de força que saem os melhores textos do livro, talvez pela contenção demonstrada pela autora no manejo da linguagem – nos contos epifânicos, ela voa mais, com mais resultados sublimes e mais vales de afetação. Já no primeiro livro, alguns dos melhores textos vinham justamente dessa segunda vertente, como o angustiante Presente. Neste O Deus dos Insetos, o fenômeno se repete, e as gemas da obra estão nas histórias que dedicam um olhar atento para as armadilhas em que se veem presos os que já têm muito pouco.

É esse o caso do belo e imensamente triste Atravessar Oceanos, no qual um menino pobre vê, em uma peneira de futebol, a chance de ter condições de ir atrás do pai desconhecido que inventou para si mesmo. Em Jônatas, outro menino pobre, também marcado pela paternidade ausente, se vê praticamente compelido a inventar um pai para não se sentir diminuído diante de um garoto classe média que encontra no outro lado de uma grade. Nem sempre, contudo, a atmosfera imprecisa buscada pela autora funciona a contento, como em Memorial, no qual o final impactante se dilui pela concatenação algo confusa dos eventos – um risco da linguagem escolhida pela autora. Mas é sempre um elogio identificar um autor que se propõe a correr riscos.

insetos

 

Uma incursão pelos cabarés

14 de setembro de 2013 0

vidadificil

Texto de Klécio Santos

O cenário é Jaguarão, à época em que a fronteiriça cidade vivia a epopeia da construção da ponte internacional Mauá, inaugurada em 1930. O agito durante o dia, de marinheiros e operários, contrasta com a noite, quando a cena é dominada pelas prostitutas e a cidade submerge até o amanhecer em um silêncio cúmplice dos segredos de alcova. É nesse passado boêmio que o escritor, tradutor e professor Aldyr Garcia Schlee mergulhou para escrever Contos da Vida Difícil (Editora ARdoTEmpo, 184 páginas, R$ 35), seu mais recente livro, lançado na centenária Bibliotheca Pública Pelotense.

A cidade era rota do tráfico de mulheres provenientes de Montevidéu e Buenos Aires. Uma escala enquanto aguardavam o embarque para o Rio de Janeiro por meio do porto de Rio Grande. É pelos cabarés de luxo que fizeram a fama das cidades siamesas que os personagens de Schlee transitam. Ou mesmo pelos pardieiros – chamados de “peixe” – na orla da praia, junto à curva do rio Jaguarão. As histórias estão interligadas por certa dose de melancolia, impedindo a separação entre um conto e outro. Schlee muitas vezes recorre,com um exagero proposital, à repetição de trechos como forma de prender o leitor aos detalhes e à nostalgia daqueles tempos em que a prostituição era assunto proibido. Histórias que o perseguiam desde a infância e o começo da adolescência, como a do tio que largou tudo e se enfiou no chinaredo de uma cafetina uruguaia para viver com a louca Ignez. Sobre a cama, palco do tórrido romance, a faixa carnavalesca com os dizeres: “Viva eu, viva ela, viva o rabo da cadela”. Em outros momentos, Schlee recorre a personagens de antigos contos como Artigas Guinchón, que aparece em Linha Divisória, também ambientado na fronteira.

Em Contos da Vida Difícil, famosos proxenetas, mafiosos e cafetinas ganham nome e sobrenome graças à tese da historiadora Yvette Trochon: Las Rutas de Eros – La Trata de Blancas en el Atlántico Sur. Argentina, Brasil y Uruguay (1880 – 1932). A obra, impressa em Montevidéu (Taurus, 2006), serviu para Schlee enriquecer o imaginário em torno daquelas mulheres polacas com rosto de bonecas de louça, frequentadoras do cabaré do Tomazinho. O lugar é o palacete com sacadas para a rua, porta em relevo e platibanda ornada que hoje é sede do Clube Instrução e Recreio, no centro de Jaguarão.

Mas não há glamourização do tema. Pelo contrário. As misérias da chamada vida fácil estão latentes em contos como R.S., em que a decadente Sara vive sozinha, velha e embriagada, agarrada em uma garrafa de licor de anis Carabanchel, cultivando apenas a lembrança do seu grande amor, Ruby, adolescente americana que, como ela, trabalhava como corista pelos cabarés do Brooklyn. Um tempo, como diz o autor, em que a “clandestinidade do gim libertava a paixão de mulheres por mulheres”. Ruby se tornou uma estrela de Hollywood, uma imagem que Sara só podia ver na tela quando cruzava a ponte Barão de Mauá para ir ao Cine Rio Branco. Schlee não diz de forma explícita, mas, ao listar filmes como Noites da Broadway e Mulher Sem Algemas, revela que a atriz é Barbara Stanwyck, nascida Ruby Stevens.

O livro é um convite para penetrar no universo dessas mulheres. Há desde a traída pelo marido que resolve se prostituir no famoso Mangacha, em Rio Grande, até a atriz decadente, uma misteriosa ruiva que se apresentou no Teatro Esperança, interpretando um tango sofrível e que, nas horas vagas, era oferecida para uma sessão de sexo privê. Enfim, um retrato fiel de um tempo que o autor testemunhou, mesmo que com a inocência do guri que comia cascudo e um dia tropeçara nas pernas de uma diva. Ao final, Schlee engata em sequência três contos em homenagem à musica, ao teatro e ao cinema, com personagens como Violeta, que soam como pastiche de alguma marafona gorda da Broadway citada em Longa Jornada Noite Adentro,de Eugene O’Neill, ou como remissões de um filme de Pietro Germi, Seducida y Abandonada, que o autor aproveita para discutir o tabu da virgindade. Prestes a completar 79 anos, em novembro, Schlee vem produzindo em um ritmo frenético desde o romance épico Dom Frutos (2010), história do caudilho uruguaio José Fructuoso Rivera (1784 – 1854) narrada em mais de 500 páginas. Lançou, em 2009, Os Limites do Impossível, a partir da ideia estarrecedora de que o nascimento de Carlos Gardel ocorreu em Tacuarembó, no Uruguai, fruto de incesto e estupro. Neste ano, teve reeditada a coletânea de contos O Dia em que o Papa foi a Melo.

Atualmente, Schlee divide seu tempo ora com palestras sobre a obra de Simões Lopes Neto, ora se divertindo ao comparar várias versões – até o original latino – de A Arte de Amar, do poeta romano Ovídio. Já estão a caminho dois outros livros, um deles, Contos com Espelhos, um ambicioso diálogo com a ficção de Jorge Luis Borges, a partir de uma referência da passagem do famoso escritor por Jaguarão. Desde a publicação de Dom Frutos, contudo, se diz mais seguro,  com os personagens sob sua rédea, ou melhor, controle, uma luta que encara com prazer em seu sítio no Capão do Leão, nos arredores de Pelotas, diante de uma imensa maquete de zinco da ponte Mauá, presente que ganhou aos 10 anos.

As heranças precárias de Sidnei Schneider

27 de maio de 2013 0

Com uma carreira consolidada como poeta e tradutor, o porto-alegrense Sidnei Schneider lançou, no fim do ano passado, sua estreia na prosa literária, Andorinhas e Outros Enganos, coletânea que reúne 12 contos. O livro mescla trabalhos inéditos com contos já publicados.

Composto por narrativas já editadas em antologias e jornais e abrangendo a produção contística de Schneider desde os anos 1990, o livro não tem uma unidade de tema, e sim três seções com diferenças de estilo e tratamento bem demarcadas. Na primeira, duas histórias sobre mulheres e sexualidade. Destaque para Marie, a dos Gansos, conto no qual uma jovem cega descobre que sua falta de visão pode ter a ver com a precariedade de seu conhecimento sobre a experiência do desejo.

A segunda parte, mais extensa, traz seis contos com um olhar mais masculino, centrado em elementos da própria tradição literária como mote – em mais de um deles, a escrita de um livro está no centro da trama ou o personagem é um escritor. O que pode explicar os ecos – às vezes incômodos – de outros autores como Rubem Fonseca, Charles Bukowski e John Fante em algumas das narrativas, sobre experiências do artista na selva urbana. São também as histórias mais carregadas de humor negro e sarcasmo.

Na terceira seção, situam-se as gemas do conjunto. Quatro histórias que parecem costurar o lirismo da primeira parte com o olhar aguçado da segunda, além de apresentarem finais desconcertantes, de inspiração mítica. Que se Danem as Pombas faz de uma caçada a introdução de um garoto no universo adulto – consequentemente, no reino da morte. Uns Pezinhos é não a comédia, mas a tragédia de um erro. Proposta de Casamento troca o urbano pelo rural com um conto de violência e cobiça em campos do interior do Rio Grande. E Pratos é uma delicada reconstrução da jornada de uma família de origem alemã mudando-se das colônias germânicas do Estado para a Capital. Um serviço de pratos de louça passa de geração a geração como signo da herança precária dos migrantes.

Nos bares da vida

06 de março de 2013 0

Cena de "Uma História Radicalmente Condensada...". Foto: Cris Lyra, divulgação

Quando foram apresentados, ele fez uma piada, esperando ser apreciado. Ela riu extremamente forte, esperando ser apreciada. Depois, cada um voltou para casa sozinho em seu carro, olhando direto para a frente, com a mesma contração no rosto.
O homem que apresentou os dois não gostava muito de nenhum deles, embora agisse como se gostasse, ansioso como estava para conservar boas relações a todo momento. Nunca se sabe, afinal, não é mesmo não é mesmo não é mesmo.

O texto acima é a íntegra (sim, a íntegra) do conto Uma História Radicalmente Condensada da Vida Pós-Industrial, praticamente um cruzamento entre vinheta e epigrama que o autor defunto David Foster Wallace publicou em sua coletânea de contos Breves Entrevistas com Homens Hediondos. É o primeiro texto da coletânea, que contém alguns dos melhores contos de Wallace, como Para Sempre Em Cima e A Pessoa Deprimida.

Publico aqui porque a mesma companhia paulista que há um ou dois anos apresentou aqui em Porto Alegre uma peça adaptada com o mesmo título do livro agora apresenta uma nova produção retirada do livro de Wallace, chamada justamente Uma História Radicalmente Condensada da Vida Pós-Industrial. O espetáculo é montado em bares, com os pagantes recebendo um fone para escutar a conversa do elenco durante a peça, enquanto a casa funciona normalmente atendendo outros frequentadores que podem nem saber o que está acontecendo ali.

A peça será apresentada em Porto Alegre em um dos pontos tradicionais da boemia da Cidade Baixa, o Van Gogh (Na Lima e Silva, esquina com João Pessoa). As apresentações serão realizadas nos dia 8, 9 e 10 de março (sexta e sábado, às 21h; domingo, às 20h). Os ingressos estão à venda no próprio bar, a partir de duas horas antes de cada performance. Achei que seria um bom pretexto para publicar a história de Wallace

Tarantino por escrito

31 de janeiro de 2013 0

Depois de voltar do cinema onde havia assistido a Django Livre, de Quentin Tarantino, uma ideia para um post me fez correr até a até a estante (na verdade não corri coisa nenhuma, cheguei em casa, larguei a pasta em cima do sofá e olhei com toda a calma do mundo para a estante bem ao lado dele). Com Tarantino outra vez alvo de  atenções no momento em que nos aproximamos das duas décadas de Pulp Fiction, ocorreu-me que havia um motivo para falarmos em Tarantino aqui no blog de livros – em vez de no de cinema. É que Tarantino já foi um dos chamarizes de uma coletânea noir publicada aqui no Brasil no fim dos anos 1990. Sim, em livro.

Noir Americano é uma antologia de contos policiais publicada como parte da Coleção Negra da editora Record e organizada por Peter Haining — um antologista que chegou a ser constante nas prateleiras do Brasil na década de 1990. A Imago publicou na época outra compilação, O Livro dos Assassinatos, em três volumes, reunindo um século de histórias policiais dos mestres do gênero suspense.

Três é também um número chave para Noir Americano, no qual Haining organiza em três partes 20 histórias curtas de grandes nomes do policial feito nos Estados Unidos. Em Detetives Durões, a primeira seção, predominam histórias dos detetives particulares, esses sujeitos vistos com desconfiança pela polícia e com desprezo pelos civis que cruzam seu caminho. A segunda parte, Tiras e Agentes, dedica espaço a contos nos quais os protagonistas são homens da lei, violentos ou não, corruptos ou incorruptíveis, mas sempre lidando com o que de pior floresce nas fímbrias da sociedade (essa era, inclusive, a grande crítica do teórico Ernst Mandel ao gênero policial: o crime era mostrado como evento isolado da estrutura social. Como Mandel era marxista, para ele a própria sociedade capitalista tinha o crime na essência).

A terceira e última parte do livro é Gângsters, com histórias contadas do ponto de vista do elemento que faltava para termos o clássico tripé de personagens recorrentes nesse tipo de história: o criminoso. Ao todo, o livro reúne alguns dos melhores nomes estadunidenses na arte do crime por escrito: James Ellroy, Dashiell Hammett, Raymond Chandler, Ross McDonald, Elmore Leonard, Coornell Woolrich, Ed McBain, Mickey Spillane, James M. Cain, James Hadley Chase, Jim Thompson e David Goodis, entre outros. No meio desses, outros três que podem ser considerados excentricidades postas de contrabando: Stephen King, aqui trocando o sobrenatural pelo noir, mas ainda com pitadas do horror psicológico característico de sua obra; e dois sujeitos mais conhecidos como diretores de cinema. São eles Samuel Fuller e… Quentin Tarantino.

Fuller até se explica, ele foi um dos mais jovens repórteres da cidade de Nova York em sua época, e passou boa parte dos anos 1930 escrevendo histórias de assassinato e mistério para as mesmas revistas pulp que garantiam o sustento de Chandler e Hammett. Mas a inclusão de Tarantino provavelmente foi devida ao sucesso estrondoso que o à época jovem diretor havia obtido com seu segundo longa, de 1994, Pulp Fiction, ele próprio uma homenagem às histórias de crimes publicadas em papel vagabundo.

O fato é que a participação de Tarantino  na coletânea nada mais é do que a versão em prosa, com algumas sutis alterações e o título de O Relógio, do monólogo do militar Koons interpretado por Christopher Walken em Pulp Fiction (que vocês vêem em cena do filme na foto que ilustra este post) quando vai entregar um objeto valioso ao filho de um companheiro de armas (que, no filme, se tornará o boxeador adulto Bruce Willis). O trecho, extraído, funciona como um conto autônomo, a bem dizer, mas a estranheza principal está em sua localização no livro, na terceira parte. O narrador é um militar falando de outro militar, seu colega de prisão em Hanói, e não parece haver implicações criminosas imediatas no relato, e ainda assim ele está na seção dedicada aos “gângsters”.

Como o conto é curtinho, partilho por aqui – alertando para o fato de que a linguagem, bastante tarantinesca, a seu modo, tem lá suas expressões pesadas e palavrões. A tradução é de Alves Calado.

O Relógio
Quentin Tarantino

Oi, rapazinho. Garoto, ouvi falar um bocado de você.
Veja só, fui muito amigo do seu pai. Ficamos mais de cinco anos juntos naquele buraco do inferno em Hanói.
Espero que você nunca tenha uma experiência assim. Mas quando dois sujeitos estão numa situação igual à que seu pai e eu vivemos, durante o tempo em que vivemos, a gente assume algumas responsabilidades pelo outro.
Se fosse eu que não tivesse sobrevivido, seu pai estaria falando agora com meu filho, Jim. Mas do jeito que a coisa aconteceu, sou eu que estou falando com você, Butch.
Tenho uma coisa para você.
Esse relógio aqui foi comprado pelo seu bisavô. Foi comprado durante a Primeira Guerra Mundial, numa lojinha de Knoxville, Tennessee.
Foi comprado pelo soldado de infantaria Ernie Coolidge no dia em que ele foi para Paris. Era o relógio de guerra do seu bisavô, feito pela primeira empresa que fabricou relógios de pulso. Veja só, até então as pessoas só usavam relógios de bolso.
Seu bisavô usou o relógio durante todos os dias em que esteve na guerra. Depois, quando terminou o tempo de serviço, ele foi para casa, para a sua bisavó, tirou o relógio do pulso e colocou numa velha lata de café.
E o relógio ficou naquela lata até que seu avô Dane Coolidge foi convocado pelo país para atravessar o oceano e lutar mais uma vez contra os alemães. Dessa vez, deram o nome de Segunda Guerra Mundial. Seu bisavô presenteou o relógio ao seu avô, para dar boa sorte.
Infelizmente a sorte de Dane não foi tão boa quanto a do pai. Seu avô era fuzileiro e foi morto com todos os outros fuzileiros na Batalha de Wake Island.
Seu avô estava diante da morte e sabia disso. Nenhum dos rapazes tinha qualquer ilusão de que deixaria vivo aquela ilha.
Por isso, três dias antes de os japoneses ocuparem a ilha, seu avô, que estava com vinte e dois anos, pediu que um artilheiro chamado Winocki, que trabalhava num avião de transporte da Força Aérea e que ele nunca encontrara antes na vida, entregasse o relógio de ouro ao filho bebê, que ele nunca vira em carne e osso.Três dias depois seu avô foi morto.
Mas Winocki manteve a palavra. Quando a guerra terminou, ele fez uma visita à sua avó e entregou o relógio de ouro ao seu pai, que era um bebê. Este relógio.
Este relógio estava no pulso do seu pai quando ele recebeu um tiro em Hanói. Ele foi capturado e posto num campo de prisioneiros no Vietnã.
Bom, seu pai sabia que se os vietcongues vissem o relógio ele seria confiscado. Seu pai achava que o relógio era seu, por direito de nascença. E ele não admitiria que nenhum cabeça-de-bagre pusesse as mãos amarelas e sujas no que era de seu menino por direito de nascença.
Por isso escondeu-o no único lugar onde poderia esconder alguma coisa. No cu.
Durante cinco longos anos ele usou este relógio no cu. E quando morreu de disenteria, me deu o relógio. Eu escondi esse pedaço de metal desconfortável no meu cu durante dois anos. E então, depois de sete anos como prisioneiro, fui mandado para casa e para minha família.
E agora, rapazinho, eu lhe entrego o relógio

Descongelando os subzeros - parte 3

13 de dezembro de 2012 0

Mesmo com todo o calor que andou fazendo nos últimos meses, ainda não havíamos concluído nossos planos de completar o “descongelamento” da Geração Subzero.

Ok, esta foi uma piada fraquinha para justificar nosso atraso em concluir esse projeto e continuar a vida normal do blog, como retomar a regularidade das seções O Que Você Está Lendo ou Bairrismo? Conta Outra. Peço paciência aos leitores e apresento apenas minhas humildes desculpas: estivemos numa desabalada carreira nos últimos tempos para fechar o Especial Erico Verissimo (você leu?) e aí, na sequência, foi divulgada a programação da Feira do Livro, depois veio a própria Feira, em si,  aí entrei em férias e então faltou tempo para completar a redação do terceiro e do quarto posts encerrando a série de resenhas conto a conto do livro Geração Subzero. Mas voltamos ao trabalho para garantir o fim do projeto. Vamos diretamente, então, ao livro:

O Preço de uma Escolha, de Ana Cristina Rodrigues
Este texto de Ana Cristina Rodrigues faz um bem bolado cruzamento entre dois gêneros bem demarcados: a ficção científica e o policial. Em um futuro não muito bem estabelecido, no qual “o Brasil havia deixado para trás a sua histórica corrupção e a transparência da vida pública era protegida a qualquer custo” (não é FC, é utopia, pensei ao chegar neste trecho), a população convive com mutantes, batizados de Neo-Humanos, que desenvolveram habilidades extraordinárias e superpoderes. Os NHs, como também são conhecidos, devem se registrar junto a um departamento específico do governo – levando ao próximo passo lógico da questão: os que não cumprem essa norma estão cometendo um crime, mas  perseguir criminosos com esse perfil e um elenco de habilidades super-humanas exige um novo tipo de polícia, e é esse o cenário da trama, protagonizada por um delegado chamado Marcos Batista, responsável pela caçada humana a um Neo-Humano extremamente poderoso, um fugitivo que outrora fora um respeitado policial, e com quem Batista já trabalhou. O conceito e o entorno desenvolvidos por Ana Cristina são muito interessantes – eu poderia ler um romance inteiro ambientado no universo fictício da autora, mas o desenvolvimento deste conto em particular me pareceu apressado. Ana Cristina cria um caso policial que, para um desdobramento mais natural, necessitaria de mais páginas e de uma investigação policial por parte do protagonista um pouco mais elaborada antes do confronto final. Há uma grande revelação no fim da história, mas ela também não comove porque a narrativa tem de dar conta de muita coisa no intervalo exíguo de um conto: apresentar o mundo futurístico criado pela autora, explicar o que mudou no mundo com o surgimento de mutantes, criar um passado coerente para o universo retratado e ainda estruturar a investigação policial e trabalhar a relação entre os personagens principais. Esse último elemento é falho no livro, o que impede que o leitor seja impactado pelo destino das criaturas ficcionais criadas por Ana Cristina.

Polaco, de Júlio Rocha
Não havia ainda lido nada de Júlio Rocha, mas, no tocante à simples forma, ao estilo, à maneira como uma palavra se segue à outra, ele é uma das boas descobertas deste volume. Um jovem empregado de uma loja em Cordeiro, no interior do Rio, é enviado para a capital do Estado para substituir um lojista de outra filial da empresa. Vai com a cabeça cheia de expectativas por um Rio que, para ele, significa “praias, garotas de topless, bailes funk e outras cenas vistas nas novelas desde menino“. Entusiasmado, chega ao Rio querendo descobrir “onde as coisas acontecem”. Ao se apresentar na filial da loja, no Cordovil, recebe de seu gerente a informação de que a empresa não precisará dele antes do dia seguinte, e portanto ele tem a tarde de folga. Ainda curioso pelo que pretende encontrar do seu Rio imaginado, ele resolve aproveitar a noite para tentar conhecer um baile funk. Pega o endereço com uma colega e, enquanto mofa numa parada em uma rua deserta à espera de um ônibus, é apresentado a outro clichê recorrente sobre o Rio contemporâneo: sua bandidagem. Homens em um Chevette passam pelo ponto de ônibus, confundem-no com um criminoso chamado Polaco e o raptam.
O ritmo da prosa é ágil, o que colabora para a boa estruturação do suspense engendrado pela narrativa a respeito do destino que terá o protagonista confrontado com homens que estão decididos a matá-lo tomando-o por um traficante em desacerto com outros criminosos:
Quando caiu no banco de trás do Chevette, Matias chorava. O careca pegou sua camisa e levantou até a cabeça, deixando seu rosto coberto. Alguns minutos depois, estava dentro de um barraco. Frente a frente como Balanagulha, o chefe da área segundo o careca.
Tal agilidade estilística torna o conto enxuto: é um dos mais curtos da antologia, e seus eventos se sucedem vertiginosamente, os acontecimentos se avolumando não página a página, mas quase parágrafo a parágrafo. A sacada de fazer um homem sedento pelo Rio de Janeiro estereotipado da televisão encontrar não o que foi buscar, mas o outro extremo desse estereótipo também é bem pensada. O senão fica por conta da resolução para uma história que soube prender o interesse: a conclusão decepciona ao lançar mão de um pouco crível deus ex-machina.

Para Sempre em um Dia, de Helena Gomes
Uma fantasia medieval na qual Urraca, uma adolescente portuguesa, é brutalizada e assassinada por um grupo de soldados cristãos provavelmente lutando para retomar parte da península Ibérica nas mãos do invasor mouro.  Só que Urraca não perece junto com os demais habitantes de sua aldeia destruída. Sem explicação, tanto para ela quanto para o leitor (o que é um ponto positivo do conto, uma vez que uma explicação diminuiria o impacto da narrativa), Urraca permanece consciente. Não sente fome, frio, e, depois de costurar o talho na garganta deixado pela lâmina de seus degoladores, também não sente cansaço, podendo caminhar longas distâncias. Um dia, ela encontra um nobre cavaleiro que se dedica a “caçar monstros”, ferido e com os olhos arrancados por uma versão medieval de uma vampira. Urraca ajuda o rapaz que, mordido pela sanguessuga que caçava, torna-se um vampiro. Como um caçador cego não pode se virar sozinho, ambos se tornam um casal de predadores, com a desmorta ajudando o vampiro cego a caçar vítimas de quem se alimentar. 
Não é, como já apontamos, o primeiro conto desta coletânea a transplantar o gênero do horror para um contexto narrativo antigo – o próprio Vianco, um dos autores mais conhecidos e populares dentre os selecionados, tentou fazer isso neste livro, sem muito sucesso. Helena Gomes cumpre bem o desafio ao ambientar na Idade Média o que é basicamente a história de amor de um vampiro com uma zumbi. Mesmo o andamento da prosa emula com dignidade o conto medieval, uma narrativa marcada, como Calvino já havia comentado e posto em prática, pelo olhar para a ação que sucede a outra ação, fazendo a trama avançar em ritmo musical:
“Eles vieram. Cercaram a floresta pelas bordas e, em investidas certeiras, começaram a caçar um a um os membros da família de Urraca. Ela desesperou-se com cada perda, traçou estratégias de ataque e defesa, ajudou a matar um e ouro caçador. Para sua surpresa, o rapaz não reagiu como deveria.”
A prosa, a propósito, apesar de repisar gêneros e ideias, demonstra um cuidado, uma atenção ao detalhe e à precisão da palavra que tem sido pouco vistos nesta coletânea até aqui.

Outra Vez na Escuridão, de Carolina Munhóz
Este é um conto particularmente longo no conjunto da coletânea. O problema é que a prosa é tão truncada que suas 24 páginas parecem dobrar de tamanho. A história parte de um amálgama promissor entre o conceito de musa – grego na origem, como sabemos todos – e o  da “fada-amante” do folclore gaélico, a Leanan Sídhe. Basicamente, a história é uma biografia disfarçada da cantora Amy Winehouse casada a um conto de fadas sombrio. A protagonista é uma cantora chamada Jade que, nascida com um peculiar e luminoso talento musical, passa a ser alvo da atenção de uma fada chamada Sophia, que a seduz sexual e afetivamente, inspira suas canções e seu trabalho e suga a alma da artista quanto mais famosa a jovem se torna. O fim é, como foi o fim de Amy, trágico. 
A história de Carolina carrega no DNA um mote que está na origem da própria literatura ocidental, está lá na Poética de Aristóteles: a queda, no ponto mais alto de sua trajetória, de um personagem coberto das mais gloriosas benesses da vida humana. A Virtude e o Poder, na tragédia grega antiga, transformadas em Juventude, Talento e Fama no mundo das celebridades e da indústria cultural contemporânea. Há também um toque faustiano bastante promissor, uma vez que a fada fornece aquilo que a jovem acha que quer, a chance de ter suas canções ouvidas, sem informar o preço que ela terá que pagar por isso – um agravamento da melancolia que sempre esteve latente na garota.
O problema está justamente na condução dessa ideia. Para começo de conversa, a mistura de conto de fada com o universo do rock consegue gerar apenas uma fábula complacente como muitas outras histórias já publicadas sobre rock’n’roll (a que me vem mais imediatamente à cabeça é a novela 27, do alemão Kim Frank). Quando retratada por escrito, a ambição e a queda de um artista de rock parece apenas o movimento de um espírito mimado que não consegue articular de modo satisfatório seu vazio essencial, o mesmo que o impulsiona a buscar o amor das multidões de fãs, quebrando a cara no processo. É o que acontece com a Jade do conto. Talvez por ficar demasiadamente atrelada ao modelo da vida real, a psicologia atormentada da garota, como descrita no conto, parece sempre aquém, pouco crível, perdida em meio a uma prosa ao mesmo tempo pomposa e insuficiente, que tropeça em juízos sentenciosos, redundâncias e metáforas de um sentimentalismo derramado. Vamos dar uma olhada apenas no primeiro parágrafo para ilustrar:
Muito antes de os humanos conviverem com internet, celulares e televisões, sábios pressentiam quando uma estrela nascia. Uma força diferente reinava sobre a Terra, indicando que alguém especial iniciava sua jornada. Não se importavam se os chamassem de bruxos, malfeitores ou criaturas negras. Para os sábios, a bênção de sentir o poder de uma nova estrela já parecia ser o suficiente. Mal sabiam que outras criaturas mágicas também sentiam a força pulsando no mundo, feito um coração selvagem no peito de uma mulher apaixonada. Seres poderosos, mas que usavam essas estrelas para brilhar em seu céu particular. Apenas em um céu. Ato egoísta para criaturas assim…”
Há mais casos em que a prosa não cumpre o objetivo de carregar adiante as ideias que deveria veicular:
“Afinal, se todos os humanos que tocassem algum instrumento fossem inspirados uma musa, não haveria metade da população viva. Todos teriam morrido sugados pelas Leanans. O irônico era que ninguém perceberia. Afinal, quem conseguiria notar um padrão em mortes como aquelas? Algumas das vítimas não aguentavam a pressão de perder a fada e se atiravam de enormes edifícios ou davam tiros certeiros na cabeça”.
Tiros “certeiros” na cabeça? Embora nem todo tiro na cabeça seja “fatal”, quão difícil é acertar um tiro na própria cabeça para que ele precise ser qualificado de “certeiro”?

A Sabedoria de Clementina, de Vera Carvalho Assumpção
Um texto enxuto no qual a autora conta uma história ambientada na São Paulo dos tempos da Marquesa de Santos, “ex-amante do Imperador” – ou seja, em algum momento do século XIX entre 1829, quando a marquesa e Dom Pedro I romperam, e 1867, quando a dama morreu. Faço essa conta apenas para fins de datação, porque a história em si não tem nada a ver com a marquesa. Aliás, essa seria uma falha a apontar no conto: mesmo tão enxuto que parece ter quase o tamanho exato e ponderado, seu primeiro parágrafo ainda é excessivamente didático, valendo-se da enumeração de fatos de época como em um artigo enciclopédico para construir o entorno da narrativa:
“Desde que se instalara a Academia de Ciências Sociais e Jurídicas do Largo de São Francisco, eram os resquícios das estripulias dos estudantes o que mais alvoroçava a conversa. Na pacata e garoenta São Paulo, os moços revolucionavam os costumes e renovavam as fantasias, entregando-se a orgias e excessos físicos de toda espécie. Da Europa vinham ecos da era vitoriana, em São Paulo reinava a Marquesa de Santos, ex-amante do Imperador, mantenedora da maior fortuna da cidade e senhora do melhor salão. Era ela a promover saraus onde autoridades e estudantes exibiam seus dons declamatórios”.
Descontado esse senão, contudo, a história funciona muito bem. Clementina, a lavadeira negra alforriada que dá título ao conto, testemunha em suspense, como toda a população da cidade, uma série de “milagres noturnos inexplicáveis” envolvendo uma grande cruz preta posicionada na Sé. Todas as noites, algum habitante da cidade vê a cruz se deslocando pelas ruas, como se animada de vida, até as casas de determinados nobres senhores. A suspeita é que a cruz indique locais em que morem donzelas virtuosas e exemplos de fé, filhas dos proprietários. Obcecada com a ideia de ser abençoada pela visita da cruz, Clementina certo dia monta guarda até testemunhar o milagre com seus próprios olhos e compreender sua noção mais profunda. 
É um bom conto, com uma história de razoável simplicidade mas que é conduzida de modo a cativar o leitor e empurrá-lo até o fim, porque, como eu disse ali em cima, o texto é conciso, do tamanho certo para provocar aquele impacto e aquela unidade de efeito essenciais dos bons contos. É, definitivamente, um dos textos que cumpre o que, em tese, a coletânea promete desde sua concepção: a de apresentar uma história interessante que faça o leitor querer saber seu final e não se decepcione com sua conclusão.

Ufa, ficou comprido. Em breve, vamos para o último bloco de resenhas da coletânea.

Veja aqui os demais blocos de resenhas sobre a coletânea Geração Subzero:

>>> Descongelando os Subzeros, parte 2

>>> Descongelando os Subzeros, parte 1