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Posts na categoria "Crônica"

Diálogos impossíveis do ano

14 de novembro de 2013 0
Verissimo em sua casa em Porto Alegre. Foto: Fernando Gomes, ZH

Verissimo em sua casa em Porto Alegre. Foto: Fernando Gomes, ZH

Com um novo livro na Praça, Os Últimos Quartetos de Beethoven, Luis Fernando Verissimo recebeu a notícia ontem de que seu livro Diálogos Impossíveis foi escolhido o Livro do Ano de Ficção no Jabuti, o mais tradicional prêmio literário brasileiro. É uma boa oportunidade para republicar aqui entrevista feita com o autor há um ano, na época em que ele, como agora, participou de uma mesa na Feira do Livro de Porto Alegre. Na papo que reproduzimos aqui, e que foi publicado no  caderno da Feira de 2012, Verissimo fala sobre o livro agora premiado, que reúne alguns dos “diálogos impossíveis”imaginados por ele entre figuras históricas e da cultura pop.

Zero Hora – Como surgiu a ideia da série“ diálogos impossíveis”?
Luis Fernando Verissimo – O Arthur Dapieve, da editora Objetiva, fez a seleção das crônicas e notou que um tema reincidente em algumas delas era o de diálogos imaginários. Foi ele que deu o título ao livro.

ZH – Com os “diálogos”, sua intenção é usar o humor provocado pelo anacronismo ou pela liberdade da imaginação para fazer deles comentários de nossa época e de seus personagens?
Verissimo – A intenção era imaginar como seria, por exemplo, um encontro do Pablo Picasso com o Goya e, por meio do diálogo dos dois, dizer algumas coisas sobre eles, suas semelhanças e diferenças, e alguma coisa sobre a arte. A motivação foi sempre a de aproveitar a liberdade que a imaginação nos dá para fazer esses encontros impossíveis.

ZH – Como se dá seu processo de seleção de crônicas para uma publicação em livro? É o senhor quem organiza e seleciona, ou mesmo apresenta uma ideia que os unifique, como este Diálogos Impossíveis, ou há alguém na editora que o ajuda nesse trabalho?
Verissimo – As crônicas são selecionadas entre as publicadas em jornais, no caso na Zero Hora e no Estadão, e  o obviamente entre as que não são topicais e perderiam o sentido sem a referência ao fato passageiro. A seleção é da editora, sujeita a minha revisão, claro.

dialogosimpossZH – Neste seu novo livro, os textos são historietas, contos humorísticos, narrativas de humor às vezes nonsense. É um livro eminentemente narrativo. Essa seleção foi determinada pela natureza ficcional dos próprios diálogos?
Verissimo – Na verdade, os “diálogos impossíveis” são poucos no livro. As outras crônicas não me parecem muito diferentes das que têm saído em livros, pelo menos na minha opinião. Mas sempre gostei de diálogos, de contar uma história ou revelar personagens e sua relação usando só diálogos.

ZH – O senhor é continuamente apontado como o maior cronista em atividade no Brasil. Quem são os cronistas atuais que acompanha e definiria como os melhores atualmente?
Verissimo – Acho que o Arnaldo Jabor escreve muito bem. Gosto do Zuenir Ventura, do Milton Hatoum como cronista, do Antonio Prata. E temos os nossos David Coimbra, Claudia Laitano, Carpinejar, Martha Medeiros… Além da meia-dúzia que estou esquecendo…

ZH – Em mais de um texto de seu novo livro, o senhor fala de circunstâncias absurdas ou vontades mal interpretadas em velórios. Seus textos têm abordado mais a ideia de finitude? 
Verissimo – Pois é. Não sei por que, mas acho que velórios dão boas histórias. Se isso vem de uma preocupação com a minha própria finitude,que é constante,não sei. Sei que não quero ninguém rindo no meu velório.

ZH – O senhor parece hoje comentar com menos constância o cenário político, como fez em outros momentos de sua carreira. Por quê? É um otimista ou se sente desencantado com muito do que aconteceu na política brasileira nos últimos anos, inclusive os escândalos envolvendo o governo Lula?
Verissimo – Acho que há muito o que criticar no governo Lula, mas a oposição ao PT no poder tem sido tão preconceituosa e desonesta que é preciso cuidar para não ser cúmplice da reação. Quanto às condenações pelo escândalo do mensalão, acho que só se pode dizer dos juízes do Supremo o que disse o Marco Antonio sobre os assassinos de Cesar, na peça do Shakespeare, sem sua ironia: que são todos homens honrados. Acreditar que foram condicionados pelo clima  político ou pela imprensa é desacreditar em tudo o mais e cair num vácuo moral. Prefiro a condenação do PT ao vácuo. Mas não deixa de ser estranha a indiferença às origens da prática do mensalão, para favorecer o PSDB em Minas, e na compra de votos para reeleger o Fernando Henrique.

ZH – Que lugar o humor ainda tem em uma sociedade como a brasileira, que parece um tanto mais indignada e agressiva? O brasileiro está perdendo o humor?
Verissimo – O humor é uma maneira de dizer, e com ele se diz tudo. Com humor, pode-se comentar até a falta de humor. E pode haver humor até em velório.

Jornada (ao) interior

04 de dezembro de 2012 0

Carpinejar em aventuras pelo Interior. Foto: Adriana Franciosi, ZH

Durante o ano de 2011, o escritor, jornalista e poeta Fabrício Carpinejar dedicou-se a viajar pelo interior do Estado, levantando fatos pitorescos, inusitados, belos, poéticos e cômicos do que via nos municípios em que chegava. O resultado foi uma série de 52 semanas publicada em Zero Hora sob o título de Beleza Interior. A série, que rendeu fãs e desafetos ao autor gaúcho, sai agora em livro pela Arquipélago Editorial. Beleza Interior, a coletânea tem sessão de autógrafos marcada para esta quarta-feira, às 19h30min, na Livraria Cultura (Túlio de Rose, 80). Por e-mail, de São Paulo, Carpinejar concedeu a seguinte entrevista sobre os bastidores da série:

Zero Hora – Seu trajeto para a série não seguiu um traçado necessariamente geográfico, assemelhando-se mais a um ziguezague pelo Estado. Como era feita a escolha das cidades visitadas para a série? Você partiu de um plano com um número predeterminado e depois foi improvisando?
Fabrício Carpinejar
– Parti apenas de Caxias, minha cidade natal, e fui perseguindo histórias divertidas e personagens interessantes. Não havia um mapa traçado previamente. A série foi se fazendo semana a semana, a partir de sugestões de leitores e palpites de amigos. Houve o desejo de abraçar as regiões de modo igualitário. Vivi a adrenalina da aventura: de repente viajar e não achar nada de relevante. Corria o risco de errar. Era um jornalismo romântico, entrar nas cidades, conversar, descobrir se havia algo novo e peculiar, explorar os costumes e me infiltrar nos causos. A curiosidade foi minha bússola. se algo fugia do normal, me interessava. Como em Lagoa dos Três Cantos, uma padaria vendia 1, 6 mil cucas, o mesmo número dos habitantes da cidade?

ZH _ Qual a história da série que mais o marcou?
Carpinejar
– Felicidade, a última protagonista das reportagens, moradora de Livramento. Nunca imaginei que terminaria todo o longo roteiro com uma lavadeira que é pura alegria, de 106 anos, despachada, independente, morando sozinha. Ela é um tapa na cara da preguiça. Um exemplo de como superar as adversidades e não se acomodar na vitimização da velhice.

ZH _ Qual foi a descoberta mais surpreendente que você fez ao longo da série? Algo que não tinha a menor ideia e que encontrou durante as viagens?
Carpinejar
_ Os tipos humanos me comovem. O vendedor de rapadura de porta em porta que sustentou seis filhos na universidade, por exemplo, encarnando a teimosia generosa dos pequenos comerciantes. Tudo me fez crescer, me inspirou, errar o caminho significava desvendar novos pontos. Nossa coragem estava em fugir da cobertura tradicional do jornalismo, enfrentar o mistério e falar com locais que nunca saíram no jornal. Remontamos um On the Road pampiano. Viajei a Alecrim, mais de 400 km, sem saber o que tinha lá, somente pela sonoridade do nome. Localizei um inacreditável festival de canção de terceira idade, onde as pessoas envelhecem com gosto para poder subir ao palco. Fiquei com a impressão de que Beleza Interior nunca teria fim. De pergunta a pergunta, localizaria enredos fantásticos e sobrenaturais. O realismo mágico é monótono diante do Rio Grande do Sul.

ZH _ Em que cidade você viveu a situação mais estranha ou engraçada ao apurar o material?
Carpinejar
– Fui expulso de um salão de beleza em Alegrete, por tentar fazer as unhas. O Nauro Júnior (fotógrafo de Zero Hora) pode testemunhar a meu favor. A dona do espaço disse que não faria unha de homem, isso não cheirava bem. Eu respondi que iria cheirar igual a acetona. Ou quando uma moradora de Alpestre queria que eu depenasse uma galinha. Ou quando fiz concurso de estátua com o chefe da Polícia de Sério. Ou quando ganhei um coelho empalhado de presente de um dos entrevistados e terminei pego por uma blitz do exército contra tráfico de animais.

ZH _ Qual foi a cidade em que o trabalho foi mais difícil, que você demorou mais a encontrar o tom ou o aspecto que gostaria de retratar?
Carpinejar
– Nosso papel não era fazer turismo. Viajávamos – eu, o motorista e o fotógrafo da ZH – para resgatar um estado diferente do habitual, apresentar cidades fora de seus clichês. Evitamos os municípios que são conhecidos, como Gramado, Canela e Nova Petrópolis ou os muito próximos da capital como Canoas, Viamão e Alvorada. Enfrentei dificuldade ao desmistificar localidades, que esperavam o fácil elogio comercial e não entenderam a natureza literária do projeto.

ZH _ Neste mesmo ano você publicou uma coletânea em que convidada autores a escrever contos sobre cidades brasileiras de nomes sugestivos. Este projeto tem alguma relação ou inspiração com as viagens da série “Beleza Interior”?
Carpinejar
_ Houve uma convergência. A antologia Bem-Vindo (leia mais aqui), que reúne dez contistas abordando cidades de batismo poético, surgiu antes de Beleza Interior. Mas é um processo complementar. Mostrar o país a partir da imaginação de seus moradores.

ZH _ Há alguma cidade que, finda a série, você gostaria de ter ido mas não foi?
Carpinejar _
Nossa, haveria cancha para mais quatro séries, no mínimo. Escrevi sobre 52, mas fizemos vídeos de mais de 70 cidades. Uruguaiana é uma delas. Victor Graeff, outra. Bah, o mapa do estado está dobrado em minha mesa como se fosse minha camisa predileta.

As crônicas de Scliar

23 de outubro de 2012 0

O escritor Moacyr Scliar

Leon Tolstói (1828 – 1910) foi não apenas um grande escritor, foi um tipo humano fascinante que, sob alguns aspectos, antecipou formas de pensamento e estilos de vida que depois viriam a caracterizar o século XX. Podemos dizer que foi, senão o primeiro, pelo menos um dos primeiros hippies, o resultado de uma trajetória intelectual e espiritual em que não faltaram momentos surpreendentes. O centenário de seu nascimento está sendo lembrado em todo o mundo este ano. De família rica e tradicional, filho de um conde, Tolstói nasceu em 1828 em Iásnaia Poliana, grande propriedade familiar. Frequentou a universidade, estudando Direito e idiomas, mas, aluno rebelde, abandonou o curso. Passava muito tempo em Moscou e em São Petersburgo,levando uma vida boêmia e acumulando pesadas dívidas de jogo. Talvez para escapar a esta situação, alistou-se no exército e começou a escrever. Resultou daí uma notável obra, expressa em contos, em romances, como Anna Kariênina e Guerra e Paz, em ensaios. Seus textos conquistaram a admiração de escritores como Flaubert, Dostoiévski e Tchekhov, e tornaram-no famoso.
Aos poucos, Tolstói foi optando por um caminho que, filosoficamente e politicamente, caracterizava a sua independência e sua rebeldia. Depois de presenciar uma execução pública em Paris, concluiu que o Estado “é uma conspiração para explorar e corromper cidadãos”. Embora influenciado pelo anarquista Pierre-Joseph Proudhon (de quem copiou o título de um livro,
La Guerre et la Paix), não aderiu ao anarquismo; mas resolveu dedicar-se à gente pobre, comum. Em Iásnaia Poliana, fundou várias escolas que proporcionavam um ensino livre, democrático. Era um cristão fervoroso, mas não convencional, que buscava sua própria interpretação dos livros sagrados. Admirador de Buda e de São Francisco de Assis, acabou excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa, e, numa época, era vigiado pela polícia do tsar. Pacifista convicto, influenciou o líder hindu Mahatma Gandhi, que, através do movimento de resistência não-violenta, conseguiu que a Índia se tornasse independente da Grã-Bretanha. Achava que a aristocracia era opressora, opunha-se à propriedade privada e ao casamento; valorizava a castidade, não bebia nem fumava, era vegetariano e usava roupas simples de camponês, renunciando inclusive à sua riqueza e até aos direitos autorais (um escritor que era, portanto, o sonho dos editores).
A família (era casado com a filha de um famoso médico e teve com ela 13 filhos) não aceitava o que era considerado um extravagante modo de vida. Aos 82 anos, Tolstói decidiu fugir de casa; fê-lo de trem, em gélidos vagões de terceira classe. Contraiu pneumonia e morreu em 20 de novembro de 1910, na estação ferroviária de Astapovo. Àquela altura era uma personalidade universal e, apesar de não ter nada a ver com o comunismo, foi prestigiadíssimo na finada União Soviética. Para os hippies dos anos 1960, tornou-se um modelo, e havia até colônias com seu nome. Certamente no musical Hair, celebração desse movimento, ele teria um papel importante. Basta lembrar uma única frase dele,que aparece no começo de Anna Kariênina: “Todas as famílias felizes são iguais, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Bota sabedoria nisso.”

Durante quase 40 anos, entre o início dos anos 1970 e janeiro de 2011, o escritor Moacyr Scliar (1937 – 2011) publicou crônicas regularmente em Zero Hora. Os assuntos eram os mais variados possíveis: das questões de saúde abordadas no caderno Vida aos temas mais leves desenvolvidos no caderno Donna, passando pelos assuntos cotidianos da cidade e do Estado reservados para a coluna das terças-feiras na página 2 do jornal.

Está chegando às livrarias a coletânea A Poesia das Coisas Simples (Companhia das Letras, 256 páginas, R$ 29,50), organizada e prefaciada pela professora Regina Zilberman, reúne 82 dessas crônicas, escritas entre outubro de 1977 e novembro de 2010. Dividido em três grandes eixos temáticos (Leituras, Livros, Literatura, Pessoas e Personagens – de onde saiu a crônica reproduzida acima  – e Outras Histórias) organizados em ordem cronológica, o livro revela pelo menos três temas que seriam recorrentes ao longo de toda a trajetória do escritor como cronista: a paixão pela literatura, o legado da cultura judaica e as lembranças familiares da infância no Bom Fim.

Scliar escreveu mais de 70 livros em gêneros como romance, conto, ensaio, crônica e ficção infantojuvenil, mas, paralelamente à produção extensa e variada, fazia questão de manter uma vida literária intensa e movimentada. Viajava pelo mundo todo para congressos de literatura, mas não recusava os convites das pequenas Feiras do Livro do interior do Estado. Entre os textos selecionados, há saudações à Jornada de Passo Fundo e à vindoura Feira do Livro de Porto Alegre, assim como o registro de encontros com celebridades literárias internacionais como Gabriel García Márquez e relatos sobre a convivência com escritores como Erico Verissimo, Jorge Amado e Antonio Callado.

O título do livro foi retirado de um texto sobre outro escritor com o qual Scliar conviveu e a quem dedicou uma cordial despedida em dezembro de 1990, quando Rubem Braga morreu. Falando sobre o cronista mais celebrado da literatura brasileira, aquele que, ao contrário do próprio Scliar, dedicou-se a um único gênero, o escritor gaúcho acaba fazendo o elogio do texto breve que exercitou durante toda sua vida literária: “Há quem julgue o jornal um veículo inadequado para a literatura: o livro, diz-se, tem permanência (mesmo que esta permanência por vezes só beneficie as traças) ao passo que o jornal é um objeto descartável (…). Braga, porém, nunca acreditou nesta lógica ‘macluhanesca’. Preferiu seguir o caminho de Machado e de Lima Barreto, e transformou o cotidiano em matéria-prima para um trabalho literário de primeira grandeza”.

Feminino e agridoce

04 de junho de 2012 4

Se, como dizem – e até muitas mulheres o dizem –, o feminino é o gênero dos detalhes, faz sentido que o retrato que o cronista Joaquim Ferreira dos Santos faz dele nos textos breves de Minhas Amigas (Editora Objetiva, 207 páginas, R$ 39,90) seja fragmentário. O livro reúne uma centena de textos sobre mulheres contemporâneas e suas desventuras sentimentais e amorosas.

Todos os textos começam, como um refrão, com a frase “tenho uma amiga” – artifício que remete, voluntariamente ou não, ao recentemente lançado Uma Mulher, coletânea de contos breves do húngaro Péter Esterházy que também aborda inúmeras variações da identidade feminina e na qual todos os fragmentos se iniciam com “Há uma mulher”, seguido da variação entre “ela me ama” e “ela me odeia”. Também como na obra do húngaro, não fica claro no emaranhado de textos de Joaquim Ferreira dos Santos se ele está se referindo a uma centena de mulheres diferentes ou aborda a cada vez novos aspectos de um grupo menor de mulheres. As comparações entre ambas as obras, contudo, terminam por aí. Se o livro de Esterházy é um apanhado lírico, abismal, por vezes claustrofóbico de uma infinidade de situações conjugais, Joaquim Ferreira dos Santos não trai sua vocação de cronista e encharca seus pequenos retratos de leveza mesmo quando os pinta em tons agridoces.

Cronista de O Globo e autor de Em Busca do Borogodó Perdido e da biografia Leila Diniz: Uma Revolução na Praia, Ferreira é um colunista de imprensa declaradamente tributário do estilo manemolente e cheio de gingado da grande crônica carioca (tenham seus autores nascido no Rio ou não, como o recifense Nelson Rodrigues). É esse estilo entre o alegre e o compassivo que o autor usa para cem breves histórias de mulheres não nomeadas, indo do estereótipo mais recorrente (a ciumenta incurável que cheira as camisas do marido em busca de uma hipotética traição; a que perdoa traições recorrentes e ainda casa com o amado infiel) até ternuras sutis e insuspeitadas extraídas da voragem do mundo contemporâneo (a que topa qualquer swing mas tenta na verdade converter o companheiro à perversão extrema da monogamia que assiste à TV no sofá)

Ferreira dos Santos tem a manha de escrever um texto que se lê como se tivesse sido fácil escrevê-lo, e trata suas amigas, reais e imaginárias, com evidente carinho – não isento de um certo sexismo involuntário em algumas de suas caracterizações. Ao fim da leitura, contudo, alguns dos retratos permanecem não pelo que tragam de específico, mas porque, como um competente esboço, seus traços amplos deixam espaços em branco suficientes para que leitoras se identifiquem – e leitores as reconheçam na centúria de idiossincrasias apresentadas, compondo um painel afetuoso da mulher contemporânea.

Chuva, sol, literatura e gente

30 de outubro de 2011 0

Catiucia Porto (à esquerda) e Fabíula Cenci comparam leituras na Praça. Foto: Jean Schwartz

Depois de um primeiro dia de encher os olhos, com sol e céu azul, o sábado foi de tempo algo enfarruscado na Praça da Alfândega, um céu entre o cinza e o branco a todo momento ameaçando chuva – e às vezes cumprindo, mas nunca em tal volume que espantasse o bom público que esteve no local para conhecer não apenas os descontos da Feira como a nova disposição das bancas na renovada Praça da Alfândega.

Mostrando que não é apenas a área infantil que atrai o interesse da criançada, no corredor da Sete de Setembro o garoto Fabrício Kierner Leote, de oito anos, revirava caixas de saldos mas voltava sempre à mesma edição de Drácula, de Bram Stoker, pela Ediouro, que havia encontrado no balaio. De acordo com os pais, Micael Rodrigues de Freitas, 30 anos, professor, e Karime de Souza Kierner, estudante de pedagogia, 26 anos, ele ainda não leu o livro do pai de todos os vampiros.

- Mas já leu uns quantos filhotes, aqueles vampiros meio emos que estão na moda hoje – brincava Micael.

Outra pequena apaixonada pelos livros na Praça era Eduarda Ribeiro, sete anos e meio. Recém alfabetizada, quase ao fim da 1ª série do ensino fundamental, ela se encantou com a réplica gigante de uma edição de Incidente em Antares que está posicionada próximo ao Banrisul, no fim do corredor da Rua da Praia. Pediu aos pais, Charles Elesbão e Cristina Ribeiro, para ler o que estava escrito na página – uma breve biografia de Erico Verissimo, que acompanhou atentamente, passando o dedo linha por linha até o final.

- A gente a traz para a Praça desde os dois anos. E neste ocorreu uma coisa engraçada. Sempre compramos livros infantis com texto, que líamos em casa para ela. Neste ano que ela já está aprendendo a ler e escolheu o primeiro livro, ela preferiu um livro só com ilustrações, para inventar a história sozinha – conta Charles.

Apesar do tempo instável, não faltou quem escolhesse o aprazível espaço da praça ao ar livre para comentar suas recém adquiridas novas leituras. As amigas Fabíula Cenci, 26 anos, e Catiucia Porto, 27, ex-colegas de cursinho, foram à Praça com um plano já bem traçado: comprar livros para depois espiá-los durante um café em algum dos estabelecimentos da Praça. Enquanto Fabíula folheava um volume de bolso de O Ovo Apunhalado, coletânea de Caio Fernando Abreu, Catiucia lia um exemplar antigo de Carta Sobre a Anistia: A Entrevista do Pasquim, editado pela Codecri em 1979 com uma entrevista concedida por Fernando Gabeira ao jornal após oito anos de exílio. Encontrado em uma banca na Rua da Praia, o volume mostrou que manteve intacto seu potencial revolucionário, quase gerando uma altercação entre Catiucia e outro comprador.

- Eu achei na caixa e pus de lado. Chegou outro comprador e já ia passando a mão e eu disse: peralá que esse aqui é meu. – lembrava ela, diante dos cafés que ambas já haviam terminado.

Faraco, reedições e lágrimas

28 de setembro de 2011 1

Sergio Faraco tem duas novas edições de livro saindo do prelo. A L&PM vai botar outra vez no mercado a coletânea Contos Completos, reunindo toda a obra contística do autor, e um de seus livros mais conhecidos, A Dama do Bar Nevada – acrescido, nesta edição, do subtítulo Cenas Urbanas. Ambos os livros vêm com quatro contos inéditos, é o que diz a editora no material de divulgação que enviou, embora não esclareça se os inéditos são os mesmos para os dois livros (pela lógica, teria que ser. Lançar quatro inéditos no Dama no Bar Nevada e deixá-los de fora do Contos Completos tornaria incompleto este volume de completos, se é que me explico). A notícia, ainda assim, é ótima, uma vez que Faraco, um dos maiores contistas do Brasil, não lança nenhum conto novo há uma década, desde Rondas de Escárnio e Loucura (nesse período ele lançou vários livros temáticos, sobre sinuca e automóvel, por exemplo, coletâneas de crônicas, organizou antologias e fez até uma cronologia minuto a minuto do que aconteceu a bordo do Titanic em sua primeira e única trágica viagem). Uma pena, dada a qualidade que Faraco obtém em sua prosa, resultado de uma obsessão minuciosa pela clara expressão da escrita (como se pode ler neste trecho de um depoimento concedido por Faraco ao professor Ruy Carlos Ostermann)

A notícia chega, por coincidência, ao mesmo tempo que a jovem jornalista e colaborada deste blog Maria Rita Horn me enviou um e-mail com um texto seu chamando atenção para um detalhe de outro livro de Faraco, Lágrimas na Chuva, que recentemente também saiu em nova edição, em formato pocket (leia uma entrevista com o autor sobre o livro aqui neste link). Aproveito para juntar as duas coisas e publico abaixo a resenha enviada pela Maria Rita:

E era tudo verdade
Maria Rita Horn

Curiosidade, às vezes fantasia, outras indiferença. Pequena marca de uma página onde impera o espaço em branco, os agradecimentos de um livro já atraíram minha atenção de diferentes maneiras.
Em Lágrimas na Chuva – Uma Aventura na URSS, livro autobiográfico de Sergio Faraco, a dedicatória “Para Jaime” é a prova antes da dúvida, um não fictício que me passou quase despercebido.
A saída do Brasil para um curso na antiga União Soviética, a perseguição dos colegas de curso no Instituto Universal de Ciências Sociais, em Moscou, a paixão pela russa Nina, o hospício, a fuga de volta ao país natal. Na narrativa do livro, tão improvável quanto essa sucessão biográfica de fatos é Jaime, o amigo dominicano de Faraco que se oferece despropositadamente em tempos difíceis. Pés que servem de apoio na neve, costas que sustentam o corpo fraco. Jaime não pede nada em troca além de que Faraco seja forte e não tome as pílulas.
… Eu não sabia que ainda era capaz de chorar. A emoção, contudo, era o desafogo de outros sentimentos. Como não me dera conta de que estava, à minha frente, com o cálice no ar, o amigo que tanto buscara?“, disse o autor no ano-novo que passou em um hospital, ao lado do amigo, mas longe de todo o resto que importava.
Mais de 20 capítulos depois, retomei aquela confissão de carinho que estava ali, nas primeiras páginas. Aquela despercebida. Tão fantasticamente contada e dolorida, a experiência de Faraco parece mesmo invenção. Mas “Para Jaime” não é inventado. É como se fosse Faraco a provocar os incrédulos: “E não é que é tudo verdade?

Padecimentos de um leitor que perambula

19 de julho de 2011 5

Kiera Knightley como Elizabeth na versão de "Orgulho e Preconceito"

Ainda na adolescência, em São Gabriel, desenvolvi a habilidade – que mais tarde seria muito útil – de ler andando, ou de caminhar lendo, como queiram. Desde então, a maioria das pessoas de minhas relações (parentes, namoradas, amigos, colegas de trabalho e até um que outro desconhecido que simplesmente passou por mim na rua) condenou a temeridade do procedimento e vaticinou para muito breve o dia em que eu seria vítima desse estranho hábito: cairia em um buraco, meteria o pé num bueiro, seria atropelado, bateria em algum obstáculo do caminho (e isso que na época nem havia os contêineres esses da Prefeitura), seria vítima de um batedor de carteira, seria vítima de um assaltante, etc. Ainda não aconteceu, felizmente para mim.

Ler caminhando não é tão difícil quanto parece depois que se pega a prática, e cada um terá seu próprio método para ajustar o ritmo das passadas ao da leitura. No meu caso, como leio enquanto venho a pé para a Zero Hora, carregando minha pasta de trabalho dependurada  no ombro, mantenho as mãos livres o máximo possível, mas seguro o livro com apenas uma delas, geralmente a direita. A lombada do livro se acomoda na mão na concha formada pelos dedos e pela palma enquanto o polegar faz pressão sobre as páginas no interior do livro, mantendo-o aberto. Para virar as páginas, usa-se a outra mão, ergue-se o polegar como se fosse uma cancela e depois da folha virada retorna-se o dedo à mesma posição. Depois de algum tempo e dependendo de alguns fatores como a antiguidade do livro, a qualidade do papel e a umidade relativa do ar, é possível também virar a página apenas com o polegar que se está usando para manter o livro aberto.

Enxergar o caminho enquanto se lê, obviamente, é impossível, por isso é bom manter os demais sentidos alertas aos ruídos da rua – que identificam se uma aglomeração de pessoas vem na tua direção, se o som dos carros está ficando mais intenso, indicando aproximação da esquina. E, claro, pontualmente dar uma leve conferida erguendo o olhar do livro por alguns instantes e memorizando os obstáculos dos próximos metros. Com essa nesga do caminho memorizada, é só observar o caminho com a visão periférica e o canto de olho para tentar reconhecer os potenciais perigos avistados quando do conferes preventivo.

Não, ao contrário do que os desavisados possam pensar, não são as dificuldades inerentes a andar em cabra cega os maiores obstáculos à leitura ambulante. É, sim o grande número de tijolões literários lançados no último ano. Segurar o livro com uma mão só, mantendo-o aberto com o concurso único e exclusivo do polegar pode até dar certo com os livros mais recentes do Rubem Fonseca, por exemplo, os dois com menos de 200 páginas (e sobre os quais teremos textos em Zero Hora até a semana que vem) ou com as menos de 300 de Orgulho e Preconceito (cuja adaptação cinematográfica ilustra este post e, além de uma leitura sensacional, é um livro curto e direto sem abrir mão da complexidade). Agora, já tentaram fazer isso com as 900 páginas de Sangue Errante, de James Ellroy; as 700 de Freedom, de Jonathan Franzen; as 1000 da biografia de Hitler, as 850 de 2666 de Roberto Bolaño, as 500 de A Viúva Grávida, de Martin Amis, as 700 cada volume de A Guerra dos Tronos?  Portanto, esse é o único conselho que posso dar para quem pretende dominar as artes arcanas da leitura ambulante: escolham livros curtos, sob pena de destroncarem um dedo.

Carpinejar: o homem do lar

25 de abril de 2011 0

Carpinejar e a esposa Cínthya Verri em sua casa. Foto: Adriana Franciosi, ZH

“O marido mais torturador é o metido a faxineiro. Não vem com o caminhão de mudança, é o caminhão demudança. Aquele que entra em sua casa como namorado e, na primeira semana, promove uma limpeza geral,com o objetivo de recuperá-la dos vícios.Trata-se de um escorpiano ou um dominador.Ou os dois. A disposição é tanta que passa a temer sua intenção de preparar a salada de maionese do churrasco. (…)

Você (…) mal entra na sala, enxerga o piso brilhando, encerado, e bate o pavor: as pilhas de papéis importantes estão guardadas não se sabe onde, quer cortar a unha e a tesourinha desapareceu da mira, o prontuário de receitasrepousa em uma caixinha anônima na lavanderia.(…).E nem pode reclamar,nem pode xingar.Porque os piores atos são feitos para o bem.E isso é um costume do amor.”

Se como poeta de ofício Fabrício Carpinejar já se admitia um fingidor, é em suas crônicas que o autor vem se entregando a uma recriação ficcional metódica de si mesmo. Depois de cantar a doçura de um canalha e fazer o elogio do ciúme, agora Carpinejar se dedica a apresentar-se como um legítimo “homem da casa” no seu livro mais recente, Borralheiro (Bertrand Brasil, 256 páginas, R$ 29), que ele autografa hoje.

Borralheiro segue um projeto que Carpinejar vem pondo em prática em seus livros de crônicas: apesar de escritos e publicados um a cada dia no site que o escritor mantém na internet (www.carpinejar.blogspot.com), quando reunidos em livro os textos seguem uma linha temática, como se cada coletânea contasse uma história. Canalha!, o livro que valeu ao escritor o Jabuti de crônica em 2009, apresentava a visão masculina sobre amor e sexo. Mulher Perdigueira fazia o elogio do amor arrebatado, por vezes possessivo, mas sempre intenso.

Agora, como se levasse o personagem de suas crônicas (ele mesmo) a uma etapa posterior de sua vida, Carpinejar exalta com humor a inversão tradicional de papeis em um casamento: as mulheres lá fora, nas chefias de escritórios, empresas, até na presidência da República. Os homens, cansados do exercício cotidiano do poder, dedicando-se às atividades domésticas. Como o autor escreve na crônica Do Lar, incluída no novo livro:

“O que pretendemos é ser do lar. Não conhecemos nenhuma dona de casa que foi processada; é mais seguro. Já temos prática em lavar carro; aprontar o quarto é moleza.
O que nos atrai neste milênio é preparar o jantar consultando um livro de receitas.”

Como em obras anteriores, Carpinejar faz questão de borrar os limites do que, em sua prosa, é confessional e do que é ficcional. O cotidiano que o escritor inventa nas crônicas do livro é parte invenção, parte decalce de situações vividas no casamento com a médica e escritora Cínthya Verri – sim, no arranjo doméstico é ele quem faxina, estende roupas e lava a louça, enquanto ela troca chuveiros, aparafusa estantes e até conserta o carro. Para criar a narrativa desse cotidiano, Carpinejar não se furta de usar qualquer elemento pessoal:

– As crônicas são minha autobiografia inventada, eu chamo essas crônicas de minhas “conficções”, um misto de confissão e ficção. Às vezes eu estou numa DR com a Cínthya e começo a pensar que aquilo pode render uma crônica– brinca o autor

A partir de maio, Carpinejar assumirá como cronista titular às terças-feiras na página 2 de Zero Hora, espaço antes ocupado por Moacyr Scliar.

– É algo que me emociona muito, porque o Scliar sempre me encontrava em viagens e eventos e me dava recados do meu pai, colega dele na ABL. O Scliar era meu pai em trânsito.

Sessenta anos este mês

09 de março de 2011 2

Contaram-me que, no fundo do sertão de Goiás, numa localidade de cujo nome não estou certo, mas acho que é Porangatu, que fica perto do rio de Ouro e da serra de Santa Luzia, ao sul da Serra Azul — mas também pode ser Uruaçu, junto do rio das Almas e da serra do Passa Três (minha memória é traiçoeira e fraca; eu esqueço os nomes das vilas e a fisionomia dos irmãos; esqueço os mandamentos  as cartas e até a amada que amei com paixão) — mas me contaram em Goiás, nessa povoação de poucas almas, as casas são pobres e os homens pobres, e muitos são parados e doentes e indolentes, e mesmo a igreja pequena, me contaram que ali tem — coisa bela e espantosa — um grande sino de ouro.
Lembrança de antigo esplendor, gesto de gratidão, dádiva ao Senhor de um grã-senhor — nem Chartres, nem Colônia, nem S. Pedro ou Ruão, nenhuma catedral imensa com seus enormes carrilhões tem nada capaz de um som tão lindo e puro como esse sino de ouro, de ouro catado e fundido na própria terra goiana nos tempos de antigamente.
É apenas um sino, mas é de ouro. De tarde seu som vai voando em ondas mansas sobre as matas e os cerrados, e as veredas de buritis, e a melancolia do chapadão, e chega ao distante e deserto carrascal, e avança em ondas mansas sobre os campos imensos, o som do sino de ouro. E a cada um daqueles homens pobres ele dá cada dia sua ração de alegria. Eles sabem que de todos os ruídos e sons que fogem do mundo em procura de Deus — gemidos, gritos, blasfêmias, batuques, sinos, orações, e o murmúrio temeroso e agônico das grandes cidades que esperam a explosão atômica e no seu próprio ventre negro parecem conter o germe de todas as explosões – eles sabem que Deus, com especial delícia e alegria, ouve o som alegre do sino de ouro perdido no fundo do sertão. E então é como se cada homem, o mais mesquinho e triste, tivesse dentro da alma um pequeno sino de ouro.
Quando vem o forasteiro de olhar aceso de ambição, e propõe negócios, fala em estradas, bancos, dinheiro, obras, progresso, corrupção — dizem que esses goianos olham o forasteiro com um olhar lento e indefinível sorriso e guardam um modesto silêncio. O forasteiro de voz alta e fácil não compreende; fica, diante daquele silêncio, sem saber que o goiano está quieto, ouvindo bater dentro de si, com um som de extrema pureza e alegria, seu particular sino de ouro. E o forasteiro parte, e a povoação continua pequena, humilde e mansa, mas louvando a Deus com sino de ouro. Ouro que não serve para perverter, nem o homem nem a mulher, mas para louvar a Deus.
E se Deus não existe, não faz mal. O ouro do sino de ouro é neste mundo o único ouro de alma pura, o ouro no ar, o ouro da alegria. Não sei se isso acontece em Porangatu, Uruaçu ou outra cidade do sertão. Mas quem me contou foi um homem velho que esteve lá; contou dizendo: “eles têm um sino de ouro e acham que vivem disso, não se importam com mais nada, nem querem mais trabalhar; fazem apenas o essencial para comer e continuar a viver, pois acham maravilhoso ter um sino de ouro”.
O homem velho me contou isso com espanto e desprezo. Mas eu contei a uma criança e nos seus olhos se lia seu pensamento: que a coisa mais bonita do mundo deve ser ouvir um sino de ouro. Com certeza é esta mesmo a opinião de Deus, pois ainda que Deus não exista, ele só pode ter a mesma opinião de uma criança. Pois cada um de nós quando criança tem dentro seu sino de ouro que depois, por nossa culpa e miséria e pecado e corrupção, vai virando ferro e chumbo, vai virando pedra e terra, e lama e podridão.

Comprei no último fim de semana a coletânea 200 Crônicas Escolhidas de Rubem Braga (Record, 2007), edição que já não é das mais recentes e provavelmente por isso estava com um preço ridículo abaixo de 20 pilas, o que me fez feliz e, mais do que isso, um feliz comprador. Reúne crônicas garimpadas nas coletâneas em livro que Braga publicou ao longo da vida (a que vocês leram acima estão no volume A Borboleta Amarela, mas há textos de O Conde e o Passarinho; Ai de Ti, Copacabana!; A Traição das Elegantes, entre outras). Uma seleção que abrange, devidamente datadas, crônicas de Janeiro de 1935 (Sentimento do Mar) até abril de 1977 (Os Sons de Antigamente).

E quando, na leitura, cheguei a essa crônica específica transcrita acima, não pude deixar de estacar por um momento e ficar à espreita de um fio de pensamento que teimava em fugir. O Sino de Ouro, que vocês leram ali em cima, traz a data de março de 1951. Cinquenta Sessenta anos. Mais de meio século, palavras mais velhas do que eu, mais velhas do que muita gente que eu conheço, chegando até mim pela imortalidade da obra de um dos homens que elevou a crônica a peça literária no Brasil – e um dos responsáveis indiretos pela profusão obscena de “cronistas do cotidiano” na imprensa nacional, mas isso é já outro papo (a nascente não tem culpa do entulho que polui o curso d’água mais adiante).

A bem da verdade eu já havia lido O Sino de Ouro no colégio, antigo 1º Grau. Assim como outras crônicas reunidas no livro: Aula de Inglês, Ai de Ti, Copacabana!, Um Pé de Milho, Conversa de Abril. Mas na época a data em si não me impressionava. Talvez fosse jovem demais para reparar no tempo, não sei, o fato é que por algum motivo essa circunstância fortuita à qual estou dando uma significação assumidamente arbitrária despertou-me curiosidade pelo sino de ouro. Não deixa de ser uma crônica que faz o elogio de algo que eu particularmente não defendo, o embevecimento paralisante da transcendência religiosa, mas como é… bonito.

E como ressoa ainda hoje, pensando bem. Certa vez, em Brasília, ouvi um profissional classe média local usar o termo “goiano” em sentido pejorativo para se referir a migrantes de baixas instrução e renda, o mesmo sentido que em São Paulo ouvi certa vez aplicado a “baiano” ou que aqui no Rio Grande do Sul cansei de escutar como “nordestino” — idiotas de qualquer região sempre acham que o problema é o outro, que a diferença do outro os torna de algum modo inferiores e que essa inferioridade justifica seus próprios pensamentos preconceituosos acéfalos.  “Goiano” ser um termo pejorativo em Brasília, cidade que se empanturra de abuso de poder e corupção até explodir, maior equívoco socio-político do Brasil (e que também já passou de meio século), me pareceu… simbolicamente apropriado. Simbolismo de um Brasil que ainda busca conciliar uma nostalgia de fé e inocências perdidas (e imaginárias) com um Brasil para quem o progresso material a qualquer custo é acenado como panaceia. E a mim pareceu que 50 60 anos depois o Brasil ainda não passou da fase de fazer essas duas matrizes, a fé e a ambição, de alguma forma conviverem, quanto mais funcionarem juntas (algumas correntes evangélicas conseguem uni-las para seus propósitos, a fé e a ambição material, mas delas é melhor nem falar).

Sei lá. Pode ser um otimismo bobo achar que algo aponta um caminho melhor porque dura 50 anos – num país ainda em formação como o nosso é muito, muito tempo.

Mas por algum motivo que eu não consigo expressar, eu acho.


Os livros que ganhei

01 de fevereiro de 2011 2

Li neste fim de semana Os Livros e os Dias, do crítico e historiador da leitura argentino (e cidadão canadense) Alberto Manguel, comprado durante a Feira do Livro do ano passado. Publicado em 2004 lá fora, o livro acompanha um ano de leituras (ou melhor, de releituras) de Manguel, entremeando aspectos da vida pessoal do autor com considerações e reflexões sobre os livros lidos, pautadas mais pela associação do que pela linearidade. Em outras palavras, é um livro no qual Manguel mistura um diário pessoal com um diário de leituras de um livro a cada mês durante um ano, de junho de 2002 a maio de 2003. As escolhas dos livros recaíram sobre obras que Manguel já havia lido e que de alguma forma faziam parte de seu patrimônio afetivo – e que estavam, portanto, de alguma forma associadas com memórias que pudessem ser evocadas no texto.

É do cruzamento entre os livros lidos, as lembranças de episódios no passado de alguma forma ligados aos mesmos livros e as circunstância em que a obra está sendo relida enquanto Manguel escreve que se forma a tessitura de Os Livros e os Dias – uma barafunda de reminiscências, acuradas investigações sobre a condição do leitor e a atividade da leitura, notas e digressões, insights valiosos sobre determinados livros que logo são abreviados devido ao caráter necessariamente fragmentário da forma “diário” escolhida pelo autor. A releitura de A Invenção de Morel, três décadas depois do primeiro contato com a obra, coincide com uma viagem de Manguel à Buenos Aires em que ele e Bioy Casares, autor do romance nasceram. E é inevitável que a visita à Argentina orgulhosa porém alquebrada pela crise econômica de 2001 desperte no crítico sensações semelhantes às da leitura de Morel, “o relato de um homem encalhado numa praia aparentemente habitada por fantasmas”.  A Ilha do Doutor Moreau, de Wells, desperta as lembranças do verão em que o livro foi lido pela primeira vez, quando Manguel tinha 12 anos, ao mesmo tempo em que sua releitura coincide com uma palestra que Manguel vai proferir em Londres. Instalado em um pequeno hotel no Soho, em um quarto que dá para uma rua “inacreditavelmente ruidosa”, Manguel não tarda, em influenciado pela leitura do livro, identificar um “aspecto animal” no ruído entra pela janela.

O que motivou a escrita deste post, contudo, foi o texto de Manguel sobre o romance Kim, de Rudyard Kipling. A determinado momento, Manguel comenta que tem vários exemplares diferentes de obras de Kipling, dois dos quais objetos de especial carinho: um exemplar de Sob os Cedros do Himalaia publicado na Índia em 1933 e um volume de bolso comprado por Jorge Luís Borges em 1925 e dado de presente a Manguel nos anos 1970 – a amizade de Manguel com Borges já foi narrada em um dos comoventes textos de No Bosque de Espelhos, outro belo livro de ensaios. Partindo do pretexto desse presente dado por Borges, Manguel afirma que “uma espécie de autobiografia poderia ser escrita seguindo os objetos que me foram dados por amigos.” e passa a listar uma página e meia de objetos presenteados – curiosamente, nenhum deles é um livro.

A sugestão de uma breve autobiografia formada por uma relação de ítens presenteados por amigos me provocou aquele tipo de impressão cálida que só as ideias lúdicas e vagamente inúteis proporcionam  até porque a leitura do livro de Manguel foi feita concomitante com a de outro livro, o volume de crônicas de viagem Psycho Too, escrito por Will Self, que ganhei de presente há algumas semanas de meu amigo hoje residente em Paris Gabriel Brust. Uma biografia dessa natureza fugiria um pouco de seu padrão, porque não seria exatamente uma autobiografia, e sim uma “autobiografia social” – isso Manguel não ventila em seu texto, mas arrisco dizer aqui que uma lista de livros recebidos de presente sempre diz tanto ou mais sobre quem presenteou do que sobre a pessoa que os recebeu. Foi ao percorrer minhas estantes para retirar de seus lugares os livros presenteados por pessoas próximas ou amigos (sim, sim, eu tenho amigos, e isso não deixa de ser algo que me surpreende tanto quanto a vocês) que confirmei um pouco dessa impressão. Outra impressão que tristemente confirmei é que à medida que fui ficando velho fui ganhando cada vez menos livros – já me explicaram que isso se deve ao fato de meus amigos nunca terem certeza se eu já tenho ou não um livro. Não contam nessa lista, claro, os livros que recebi de autores na qualidade de crítico literário.

* Meu amigo e ex-colega de Zero Hora, Gabriel Brust, professa uma visão de mundo crítica e vezes ácida. É um cínico, ainda que um cínico de coração mole. Em sua última passagem por Porto Alegre, para as festas de fim de ano, me presenteou com um exemplar em inglês do livro Psycho Too, do inglês Will Self, também ácido e cínico ele próprio. São mais de 50 textos, misto de ensaios e crônicas de viagem com ilustrações belíssimas de Ralph Steadyman.

* No Natal de 2000, minha amiga Adriana Irion, com quem trabalhei por anos na editoria de Polícia de Zero Hora e uma das melhores repórteres que conheço, me presentou, apropriadamente, com um livro-reportagem de fôlego: Corações Sujos, de Fernando Morais. Um gesto doce numa época particularmente difícil, pelo que sou grato a ela até hoje, de coração limpo. No meu aniversário de 1998, ela, leitora voraz de romances policiais, já havia me dado uma edição recente de Impressões e Provas, livro do escritor americano John Dunning, protagonizado por um ex-policial bibliófilo às voltas com um caso de mortes e supostos suicídios envolvendo uma edição rara e exclusiva de O Corvo, de Edgar Allan Poe. Embora eu seja um apreciador também de policiais desde a cada vez mais longínqua juventude, foi ela quem me apresentou o trabalho de Dunning, me emprestando alguns meses antes o primeiro livro do personagem lançado no Brasil: Edições Perigosas.

* Em 1994, uma então namorada, em início de relacionamento, e sabendo de minha predileção por Rubem Fonseca – a quem ela detestava por achar muito violento – ainda assim me deu os Contos Reunidos que a companhia estava editando com toda a produção contística do autor até ali, numa bela e sóbria edição de solene capa dura ornada apenas com o título e a reprodução da assinatura manuscrita do autor.  A dedicatória é tão sóbria como ela era. Dois anos mais tarde,em 1996, quando eu e ela já morávamos juntos, a minha então sogra me deu A Ilha do Dia Anterior, de Umberto Eco. Digamos que o relacionamento – que mais tarde acabou –, ao menos me deixou dois bons livros.

* Em 2007, meu irmão, pastor evangélico e personalidade política deveras conservadora, me deu de presente um romance gospel passado no tempo das perseguições de Nero aos cristãos…

* Em 2002, comprei os primeiros dois volumes da série de Élio Gaspari sobre a ditadura militar, As Ilusões Armadas. Fui completar a série com a ajuda posterior de minha senhoura, que, advogada e apaixonada estudiosa de períodos de exceção no Brasil e no mundo, presenteou-me com outros dois em 2006.

* Meu amigo historiador Paulo Alcaraz, hoje residente em Santa Catarina, depois de muitas noitadas em que discutimos em mesas de bar o Dicionário Filosófico, de Voltaire, certa vez, creio que em 2004, me presenteou com uma “raridade de família”. Um exemplar do Dicionário, em francês, brochura, capa das mais simples, apenas com a tipografia do nome do autor e da obra, editada pela Flammarion em 1932, num coleção de livros de bolso a baixo preço chamada Les Meilleurs Auteurs Classiques. De acordo com ele, pertenceu a um tio, se minha memória não me trai. Desnecessário dizer que ainda tenho o livro guardado com todo o cuidado.