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Posts na categoria "Cultura Pop"

Luta pela vida em meio à guerra

12 de novembro de 2013 0
Cena da graphic novel O Boxeador, de Reinhard Kleist

Cena da graphic novel O Boxeador, de Reinhard Kleist

Texto de Cristina Duarte 

Vem dos ringues a mais recente graphic novel do quadrinista alemão Reinhard Kleist. Em O Boxeador – A História Real de Hertzko Haft, descobrimos um aspecto pouco conhecido da crueldade dos campos de concentração da II Guerra Mundial.

Os prisioneiros eram obrigados a participar de lutas de boxe para a diversão dos oficiais nazistas. Foi em um desses campos que o judeu polônes Haft descobriu a vocação para o esporte. Publicado este ano no Brasil, a obra foi lançada na Bienal do Rio com a presença do autor, que também assina o livro Johnny Cash – Uma Biografia.

Toda em preto e branco, a narrativa elaborada por Kleist a partir da biografia Um Dia Eu Contarei Tudo: a História de Sobrevivência do Boxeador Judeu Hertzko Haft, de Alan Scott Haft, ainda inédita no Brasil, comove pela crueza com que a vida do prisioneiro é apresentada. Diante da perversidade do contexto da guerra, na narrativa da história real do pugilista não poderia faltar as muitas dores: a separação forçada da família, a tortura cotidiana nos campos de concentração, o desespero pela sobrevivência, a fome e ainda a saudade de um amor juvenil nunca vivido com a mesma intensidade com que era lembrado.

Amor esse que era a motivação de vida do boxeador após o término do conflito, quando viaja para os Estados Unidos atrás da namorada. Haft torna-se então um pugilista profissional na esperança de que a fama e as aparições nos jornais cheguem até sua amada, também imigrante na América.

A obra é a quarta graphic novel do autor lançada pela 8INVERSO Graphics – linha editorial dedicada aos quadrinhos. O livro recebeu o Prêmio Peng! 2013 do Festival de Quadrinhos de Munique como melhor álbum em língua alemã, o grande prêmio 2013 do Festival de Quadrinhos de Lyon e o recente e mais prestigiado Prêmio Alemão de Literatura Juvenil, na categoria não ficção. Este último veio em um momento em que os quadrinistas alemães fazem um movimento para que o HQ seja incluído na categoria arte, independente da literatura.

A Alemanha é o país homenageado na 59ª Feira do Livro de Porto Alegre. O Boxeador… pode ser encontrado na banca 8Inverso.

boxeador capa frente real

Construindo o Chefão

15 de março de 2012 7

James Caan como Sonny e Marlon Brando como Don Vito. Divulgação: Paramount

Como vocês podem ler hoje na central do Segundo Caderno de Zero Hora, fizemos uma matéria especial para marcar os 40 anos da primeira exibição pública de O Poderoso Chefão, o primeiro título da famosa trilogia mafiosa do diretor Francis Ford Coppola. Nossa matéria não apenas registra a passagem das quatro décadas desde o lançamento do filme, hoje considerado um clássico, como também discute a influência do livro nestes últimos 40 anos, não apenas sobre a cultura pop e o cinema, mas sobre a própria Máfia retratada no livro.

Mais até do que o best-seller de Mario Puzo que lhe deu origem, O Poderoso Chefão, com seu apelo épico, seu lirismo e sua violência extremamente estilizada, forneceram um código visual e simbólico para a própria Mafia. Para discutir o que faz ainda hoje o sucesso de O Poderoso Chefão, entrevistamos dois escritores estrangeiros que já escreveram direta ou tangencialmente sobre a produção e/ou sobre a Máfia como organização.

O primeiro deles é Peter Biskind, autor de Easy Riders, Raging Bulls: Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’n’Roll Salvou Hollywood (Intrínseca, 2009, tradução de Ana Maria Bahiana). O livro é um alentado e minucioso relato de como , a partir dos 1960 e indo até os anos 1980, uma geração de jovens e irrequietos cineastas alimentados pelo cinema de autor europeu e pelo espírito urgente da contracultura começou a fazer filmes que atingiram novamente o grande público, pondo em questão valores e assuntos que interessavam ao espectador jovem, que Hollywood vinha perdendo ano a ano com filmes artificiais, engessados pelo esquema dinossáurico dos grandes estúdios.

Biskind relata a formação e as primeiras experiências em Hollywood da geração de Coppola, que incluía ainda, entre outros, Peter Bogdanovich, Martin Scorsese, Paul Schrader, Brian De Palma, William Friedkin, Steven Spielberg e George Lucas – sem falar de outros personagens importantes, como o produtor Bob Evans, da Paramount. Biskind passeia com segurança e com um texto impecável por um elenco de dezenas de personagens – além de se concentrar nos diretores, também aborda os jovens atores que também surgiram na época, em sintonia com as propostas de realismo cru e autêntico dos cineastas: Robert De Niro, Al Pacino, Margot Kidder. Com tanta gente e tanta coisa acontecendo, Biskind não perde o fio de sua história e ainda entrega um dos mais vigorosos relatos sobre os bastidores do cinema.

Um dos capítulos mais extensos do livro é justamente dedicado ao Poderoso Chefão – um filme que, segundo o autor, foi concebido no acaso e gestado em meio ao completo caos. Evans comprou os direitos diretamente de Mario Puzo, que ainda não havia escrito o romance completo, e precisava de um dinheiro adiantado para pagar algumas dívidas a um pessoal perigoso (Puzo sempre negou essa versão da história, Biskind ressalta). Só depois que o livro foi publicado e decolou na lista de best-sellers foi que a Paramount percebeu que precisava usar os direitos que comprara – filmes de Máfia não andavam muito populares depois que uma produção com Kirk Douglas filmada em 1968 foi um fracasso completo. Coppola aceitou dirigir o filme, uma adaptação literária, porque estava esgoelado por dívidas – mas nem o estúdio confiava muito nele. A formação de Coppola, de um cinema de improviso e energia, colidiu com a visão do iluminador mais conservador Gordon Willis

Um caos que se mostrou capaz de gerar um dos mais influentes filmes do cinema. E é sobre isso que conversamos com Peter Biskind na entrevista abaixo:

Mundo Livro – Quarenta anos  passados de seu lançamento, O Poderoso Chefão é, mais do que  um grande filme, um fenômeno  cultural e popular. Na sua opinião, o que tornou o filme tão grande e influente no imaginário pop?
Peter Biskind –
Às vezes  não há resposta para essa pergunta. É apenas uma confluência feliz de circunstâncias, uma “tempestade perfeita”, que reúne um ótimo roteiro, um grande elenco, composto em grande parte por atores ávidos e inexperientes, um diretor de fotografia brilhante –  Gordon Willis – e um diretor com grandes instintos que ainda assim teve de ser arrastado gritando e se debatendo para um projeto que não queria fazer. Politicamente, o filme veio na hora certa, bem no fim da Guerra do Vietnã, pouco antes de Watergate, quando grande parte do país estava desiludida com o governo americano. A Máfia, de certa forma, ecoava esse sentimento. Para eles, o governo ou era irrelevante ou era o inimigo. Os políticos que apareciam no filme eram venais e facilmente corrompidos. O mesmo vale para a polícia. Assim,  O Poderoso Chefão se adequou ao estado de espírito do país como uma luva.

Mundo Livro – Em certos aspectos, O Poderoso Chefão mudou tudo o que havia sido feito no cinema:  a iluminação, o sistema de distribuição, até mesmo os extras,  contratados entre os moradores ítalo-americanos nas locações. Olhando agora, é uma grande surpresa ler em seu livro que a produção foi um caos completo, com discussões violentas entre  Coppola e Gordon Willis ou entre Coppola e Bob Evans. Mesmo o elenco era uma razão para divergências acaloradas. E no final, funcionou. Isso também o surpreende?
Biskind
– Na época,  os jovens diretores de Hollywood estavam se rebelando contra o sistema dos grandes estúdios e a artificialidade dos seus filmes – todos feitos em estúdio com  atores que pareciam todos iguais. Coppola fez parte desse movimento, e inteligentemente insistia em usar  locações reais e atores italianos. Mesmo que as imagens sejam estilizadas e líricas, essa decisão emprestou um contrapeso de autenticidade ao filme. Quanto ao caos, há um ditado em Hollywood que diz que filmagens felizes resultam em filmes ruins, e isso era certamente verdadeiro no caso de O Poderoso Chefão. Coppola  estava à beira de um colapso, a Paramount queria demiti-lo, metade dos atores  queria sair, o diretor de fotografia ameaçou sair, e Coppola teve até de se esconder no banheiro. Mas os conflitos muitas vezes geram criatividade, que certamente foi o caso aqui.

Mundo Livro – O senhor relata em seu livro a áspera rivalidade entre  Francis Ford Coppola e Bob  Evans, cada um dizendo ser o responsável real pelo sucesso artístico e comercial do filme. Na sua opinião, quanto credito merece cada um deles?
Biskind –
Isso é realmente impossível de determinar. É uma situação “Ele disse, ela disse”. Já diz o ditado que “O sucesso tem muitos pais, o fracasso é órfão.” Ambos os homens tinham egos gigantes, e cada um deles reivindicava crédito por tudo. Dito isto, acho que eu daria meu voto a Coppola.

Mundo Livro – Coppola disse uma vez em uma entrevista que o grande diferencial de O Poderoso Chefão sobre outros filmes da Máfia antes dele era retratar os mafiosos como pessoas reais, falando, comendo, celebrando, e não como malucos sempre disparando uma metralhadora _ mesmo com toda a violência que há no filme. O senhor concorda?
Biskind –
Bem, em algum grau ele de fato os retratou da maneira que disse, embora houvesse certamente tiroteios e violência o suficiente na tela. Mas eu acho que a realidade é que a Mafia não era realmente muito parecida com o que foi mostrado no filme. Na verdade, muitas vezes os mafiosos voltaram-se para Hollywood, para os filmes que os romantizavam, em busca de suas sugestões do que vestir e de como se comportar.

Mundo Livro – O senhor conta em Easy Riders, Raging Bull como O Poderoso Chefão mudou o sistema de distribuição da indústria, criando os blockbusters contemporâneos.  O estúdio impôs seus termos para lançar o filme. O sucesso do livro foi o responsável por toda a agitação que cercava a  adaptação para o cinema?
Biskind
Frank Yablans, que era o diretor de marketing da Paramount, foi o responsável por quebrar o chamado sistema “gradual”, pelo qual as cadeias de exibidores insistiam que apenas um cinema em uma determinada área geográfica poderia receber um filme na primeira rodada de exibições. Os cinemas estavam tão desesperados para obter O Chefão que abriram mão de algum poder para os estúdios – e nunca conseguiram tomá-lo de volta. O Poderoso Chefão estreou em cinco cinemas em Manhattan, em vez de apenas em um ou dois.

Mundo Livro –  E por último: O senhor tem um filme favorito dentre os da trilogia? Qual?
Biskind –
Bem, O Poderoso Chefão 3 foi uma grande decepção, por isso, fica entre o 1 e o 2, uma escolha difícil, porque ambos são filmes fantásticos. Chefão 1 tem Brando; Chefão 2 tem De Niro e Lee Strasberg, e assim por diante. Acho que, embora eu ame o segundo filme, tenho que escolher o primeiro, porque é um filme quase perfeito e preparou o terreno para o segundo.

Um dia na vida

22 de junho de 2011 0


Primeiro veio a curiosidade: um anúncio publicitário de meia página na Piauí reunia elogios rasgados ao best-seller Um Dia, de David Nicholls, como se fosse um livro absolutamente imperdível. Depois veio a opinião de um amigo, em cujo gosto confio: “Não consegui passar das 30 primeiras páginas. Muito chato“.

E só então cheguei ao livro, preparada para me decepcionar com o quedeveria ser mais um fenômeno vazio do mercado editorial. De fato, as primeiras páginas, talvez não as 30 primeiras, um pouco menos, eram mesmo um pouco chatas. Estão lá, na madrugada de 15 de julho de 1988, depois de uns amassos na festa da formatura da faculdade, dois velhos estereótipos, o da guria com conteúdo e um tanto desajeitada, escondendo suas fragilidades com tiradas irônicas, e um cara bonito, o popular da turma, com um charme meio superficial e arrogante. Eles jamais haviam se aproximado antes daquela noite, véspera do começo do resto da vida de cada um, que para ela terá início em subempregos em Londres, e, para ele, em uma viagem pelo mundo. São opostos, enfim, que para o bem das comédias românticas, combinam-se e criam situações inusitadas e, geralmente, diálogos meio artificiais.

Mas a partir daí, Emma Morley e Dexter Mayhew, ganham mais e mais vida e a capacidade de desconcertar, divertir, enternecer e tocar o leitor, seguindo a estrutura do livro que mostra, a cada capítulo, como eles estão, o que pensam e como se relacionam um com o outro nos próximos dias 15 de julho, por 20 anos. E aqui cabe avisar o leitor deste blog que esta não é uma resenha que se pretende puramente analítica, ou melhor, talvez nem seja uma resenha, e sim apenas um depoimento de uma leitora desconcertada e enternecida.

Fora alguns achados, o texto não prima pelo brilhantismo, não carrega ambiguidades, tudo está dito claramente: o narrador despe os personagens, revela seus pensamentos, mesmo os mais mesquinhos ou inconfessáveis. Insegura, desfazendo da própria beleza, frustrada por passar de aluna promissora a garçonete em um restaurante mexicano, Emma ama Dexter em segredo, ironiza seus maneirismos de playboy, desculpa seus cartões-postais lacônicos. Ele flana pela vida, sem saber muito para onde, até se ver como uma celebridade na condição de apresentador de um programa B na TV, às vezes julga se Emma ainda combina com seu estilo de vida, outras precisa desesperadamente dela. Mas, a cada ano/capítulo, o que se vê é mais do que um amor que ainda não se definiu (tomando emprestada a expressão de Erico Verissimo). Esse relacionamento travestido de amizade é o fio condutor para narrar como as miudezas do cotidiano, os imprevistos, a doença, as escolhas equivocadas levam a nossa vida para longe das nossas expectativas ou dos ideais dos tempos da formatura. Aquilo que não é narrado nas elipses de tempo fica, assim, subentendido.

A cada ano, os personagens se encaram no espelho e tentam entender como mesmo foram parar ali, se há tempo para uma virada ou se é hora de simplesmente continuar em frente. Questões que ecoam principalmente naqueles que, como Emma e Dexter, estão na idade em que se julgam velhos demais para se reinventar mas ainda novos demais para se conformar com isto.

Se você leu até aqui, é preciso fazer um reparo. O livro é em muitos momentos (talvez a maioria) solar, bem-humorado, com algumas boas tiradas (Emma queria mesmo ser escritora, ao rascunhar ideias em seus elegantes cadernos de capa dura ou, como ela mesma se pergunta, era apenas alguém com fetiche por papelaria?), mas permeado por melancolia, dúvidas, inseguranças e alguns arrependimentos. Assim, como é a vida.

No desfecho, muitos dirão – e acho que eu concordo -, o livro apela para o nosso lado mais sentimentaloide (chorões, preparem seus lenços para a versão que está sendo feita para o cinema, com Anne Hathaway). Mas, terminada a trama, menos do que em Emma e Dexter, pensei em mim e tentei lembrar o que exatamente eu pensava fazer do futuro, naquele 2 de abril, data da minha formatura. E o que gostaria (e teria tempo?) para reinventar hoje passados… bem, muitos anos. E esta, acho, é uma das razões por que se diz que um livro é um bom livro: quando, ao fim, ele nos faz refletir sobre a nossa própria vida.

Mas não, este não será o livro da sua vida, como parecem prometer os anúncios. Mas vou dizer ao meu amigo que vale a pena passar da 30ª página.

Mortos que andam

09 de junho de 2011 4

Confesso que não me entusiasmei quando li Apocalipse Z – O Princípio do Fim, livro de zumbis do espanhol Manel Loureiro. Ao final da leitura de suas quase 400 páginas, fiquei mesmo foi bravo com a maneira como ele tratou um determinado acontecimento da história que, ao meu ver, era importante demais para merecer o que considerei pouco caso _ sem contar aquela horrível sensação de “fui enganado”. Nem uma mísera resenha eu me animei a fazer, de tão pistola que estava com o autor.

O autor Manel Loureiro em um… cemitério

Mas passados alguns dias da conclusão da cruzada do sujeito (sem nome) que assiste ao mundo ser devorado por um vírus que transformar os vivos em mortos-vivos (ou não vivos, como Manel prefere), outros aspectos da história ficaram maiores que essa primeira má impressão e me animaram a ler sua continuação, o recém-lançado Apocalipse Z – Os Dias Escuros.

E digo que Manel está construindo _ tomara que ele continue, há franca abertura para tanto _ uma das melhores sagas de zumbis com que me deparei. A começar pelo protagonista, um advogado na faixa dos 30 anos que sai de sua casa em busca de ajuda como um John Wayne às avessas, vestido com um roupa de mergulho de neoprene, um arpão cruzado nas costas e seu gato persa a tiracolo. Nem herói, nem anti-herói, apenas um suburbano qualquer, assustado e perdido, tentando sobreviver (e se acostumar) a um mundo em ruínas.

Eis aqui outro lado explorado com vigor e vitória por Manel: como seriam as coisas após um apocalipse zumbis? Pouquíssimos filmes ou livros mostram com tanta clareza o limbo que o planeta se tornaria no caso do desaparecimento dos seres humanos — ou na sua substituição por criaturas em estado semi-catatônico. Que fim levariam os serviços essenciais? Como se comportariam os ambientes onde sempre existiu — para o bem ou para o mal — a intervenção do homem? Qual o perfil dos sobreviventes e que tipo de arquitetura social tentariam erguer?

O autor não é otimista em nenhuma das respostas que oferece, isso pode ser adiantado. Para Manel, o homem será lobo do homem até o fim dos tempos ou durante ele. Em muitos momentos, os protagonistas se questionam se não estariam melhores entre os não mortos do que sob a “proteção” dos vivos. Mesmo assim, há espaço para humor negro involuntário e até um lampejo de flerte.

O primeiro livro foi escrito em sistema de diário — começa no computador e depois, por razões óbvias, passa para um livro. O segundo abandona esse artifício e parte pra simples narrativa, ora em primeira pessoa _ quando o protagonista está no comando — ora em terceira pessoa — quando a ação é vista pelos olhos de outros, incluindo os de um zumbi. Mas em ambos reinam o suspense, o horror e a sensação de que tudo, dali por diante, sempre está por uma mordida contaminada. Os parágrafos acabam funcionando como esquinas tapadas por espigões: não dá pra saber o que iremos encontrar até dobrarmos e, quando o fizermos, estaremos por nossa conta e risco, como os personagens de Manel.

As duas brochuras também tem o mesmo (talvez único) problema: o tamanho. O autor às vezes exagera nas minúcias e gasta linhas demais descrevendo o estado de putrefação de um zumbi — coisa de quem leu muito Stephen King, acredito. É OK para, por exemplo, mostrar o quanto de tempo se passou desde que se transformaram — alguns estão completamente nus e encardidos, outra coisa que dificilmente é sugerida em histórias do gênero —, mas cansa quando se trata de um simples contato visual. Faz realmente diferença saber quantos dentes restam ao monstro se arrastando numa esquina qualquer de Madri? Ou se o braço está inteiro ou pendurado por um tendão? É pura curiosidade mórbida misturada a um certo cacoete cinematográfico: deixe o leitor imaginar, livro não é cinema, ora essa…

Mesmo assim, a leitura de Apocalipse Z é recomendada com força. Ainda mais em tempos da retomada das filmagens de The Walking Dead

A vida rolante de Keith Richards

25 de março de 2011 1

Keith Richards em sua biblioteca em Connecticut - Reprodução do livro

Keith Richards jura, na recém-lançada autobiografia Vida, que não esqueceu de nada. Claro que nem tudo são memórias claras ao longo das mais de 600 páginas do livro. Mas o relato do guitarrista e fundador dos Rolling Stones é um generoso compêndio de histórias do mais puro espírito roqueiro ainda vivo. Keith, 67 anos completos no último dia 18, era um dos personagens da cultura pop de quem mais se esperava um livro de memórias. Desde que os Stones surgiram, nos anos 60, sua índole rebelde, seu estilo musical rascante, suas brilhantes parcerias com Mick Jagger e seu apetite por álcool e drogas vêm alimentando lendas. Vida deixa algumas delas em aberto — sobre a famosa história de que o guitarrista teria trocado todo o seu sangue, por exemplo, Keith conta que foi ele mesmo quem lançou o boato à imprensa.

O conteúdo de Vida vem de entrevistas de Keith com o jornalista americano James Fox, amigo do músico desde os anos 70. As conversas não seguiram ordem cronológica, e o protagonista não é um narrador linear. Entre seus tantos causos, há muitos devaneios, o que às vezes resulta em reflexões brilhantes – por exemplo, quando o discorre sobre as origens de seu próprio jeito de fazer rock –, embora eventualmente deixe a narrativa meio truncada. Mas está tudo ali, da epifania do primeiro show com os Stones, em 1962 (“tem um momento em que você realmente sente que saiu do planeta por um instante“), ao tombo de uma árvore nas ilhas Fiji, em 2006, que resultou em uma cirurgia para remoção de coágulos do cérebro e determinou o fim da relação de Keith com a cocaína (“eu já cheirei tanto pó na vida que não senti a menor falta“). O assédio das fãs, os casos amorosos — o mais notório foi com Anita Pallenberg, iniciado quando ela ainda namorava o outro guitarrista original dos Stones, Brian Jones —, as sessões de gravação que duravam dias seguidos, as noitadas de alto teor químico, a dor da abstinência nos dias do abandono da heroína, no fim dos anos 70.

Há cenas impactantes,como a do telefonema – minutos antes de um show em Paris – em que Keith soube que seu filho Tara, então com pouco mais de dois meses, havia morrido. O guitarrista pensou um instante e resolveu não cancelar o show (“isso seria a pior coisa que eu poderia fazer, já que não tinha nenhum outro lugar para ir“). Nessa época, era o filho mais velho, Marlon, quem acordava o pai na hora de ir para o palco com os Stones. A banda ocupa boa parte das páginas de Vida — em especial, a relação com Mick Jagger. Amigo de Keith desde o colégio, um de seus grandes comparsas na paixão pelo blues, coautor de clássicos como Satisfaction e Jumpin’Jack Flash, Mick torna-se, ao longo do texto, objeto de alguma amargura. Desde que Jagger teve um caso com Anita, no fim dos anos 60, a relação entre os Glimmer Twins teve turbulências, e hoje Keith lamenta a distância entre eles, atribuída ao caráter dominador de Mick. Pelo menos, nada disso impediu que eles ficassem quase 50 anos na estrada – uma trajetória que Keith não parece disposto a terminar tão cedo:

“Eu só vou conseguir me aposentar quando morrer”, garante no livro.

Texto de Luís Bissigo

KEITH RICHARDS SOBRE:

MICK JAGGER
Eu percebi que havia um lado da minha vida como junkie que agradava a Mick: o lado que me impedia de interferir nos negócios. Agora eu estava ali, livre da heroína. Eu havia chegado com uma atitude do tipo “Muito obrigado, Mick. Agora eu posso aliviar você dessa carga (…)”. Eu nunca tinha deixado a peteca cair; eu havia dado a ele músicas maravilhosas para cantar. (…) Acho que eu esperava que ele se mostrasse grato, aliviado (…). Mas em vez disso ele veio com uma atitude do tipo “‘Sou eu quem manda nesta merda”
‘.

CHARLIE WATTS
Uma vez, no final de 1984, Charlie deu um de seus raros socos de baterista (…) no Mick. (…) Voltamos ao hotel às cinco da manhã e Mick decidiu ligar para o Charlie. Eu disse: “É melhor você não ligar para ele a essa hora”. Mas ele ligou assim mesmo e disse: “Onde está o meu baterista?”. Ninguém respondeu. (…) Uns vinte minutos depois, escutamos alguém bater na porta, e lá estava Charlie Watts hiper-bem-vestido. (…) Quando abri a porta, ele nem me olhou, passou direto, foi até onde Mick estava sentado e disse: “Nunca mais me chame de seu baterista”. Então Charlie o levantou pela lapela e deu um gancho de direita nele.

PAUL MCCARTNEY
“Exatamente um ano antes disso (por volta de 2005), quando eu estava andando no litoral, escalando umas pedras ao longo da praia, Paul McCartney apareceu (…). Certamente aquele era um lugar muito estranho para nos encontrarmos depois de tantos anos, mas era também o melhor, porque ambos tivemos tempo de conversar (…). Nós nos entrosamos instantaneamente, conversando sobre o passado. Nós chegamos até a começar a compor uma música juntos (…), cuja letra ficou pendurada na parede por várias semanas.”

JOHN LENNON
John podia ser bem direto. A única coisa desagradável que lembro de ele ter me dito foi sobre meu solo no meio de
It’s All Over Now. Ele achou uma bosta. (…) Mas só o fato de ele ter-se dado ao trabalho de ouvir mostrava que estava bem interessado. Ele era muito aberto.Vindo de qualquer outro, me deixaria bem embaraçado. Mas John tinha um olhar tão honesto que você aceitava isso dele. Ele também era uma pessoa intensa. Um cara único. Como eu.

A mãe de todas as armas

10 de março de 2011 0

Kalashnikov com sua invenção. Foto de Stefan Thomas, AFP, 25/07/2002

Mikhail Timofeevich Kalashnikov derrotou os americanos na Coreia e no Vietnã, serviu de símbolo para bandeiras, moedas e monumentos, frequenta o cancioneiro pop, é idolatrado por Hollywood e virou mobília descolada. Tudo isso, segundo ele mesmo, pelo motivo errado: em vez do fuzil de assalto AK-47, Kalashnikov queria mesmo era ter inventado um cortador de grama. Mas esta reflexão viria tarde, como mostra o jornalista norte-americano Larry Kahaner no livro AK-47: a Arma que Transformou a Guerra (tradução de Mário Pina, Record, 266 páginas, R$ 44,90). Atual apesar do lançamento tardio no Brasil (a primeira edição nos EUA é de 2007), a história de ascensão e predomínio da AK nos campos de batalha pós-Guerra Fria é narrada com detalhes e ajuda a entender o próprio conceito de combate moderno criado pelo projeto de Kalashnikov.

Hoje com 91 anos, Kalashnikov só conheceu o tamanho da fama (e do estrago) de sua criação na década de 1990, quando a União Soviética veio abaixo. Até então, o ex-piloto de tanque, que desenvolveu numa cama de hospital a mais perfeita arma de matar, estava convicto de que suas intenções eram legítimas e voltadas para manter a paz em seu país. A Avtomat Kalashnikova modelo 1947 — ou AK-47 — havia sido concebida para derrotar os nazistas durante a II Guerra. Com a queda de Hitler antes do lançamento oficial, ela serviria, então, para dar baixa nos imperialistas liderados pelos EUA durante a Guerra Fria. Serviu bem a esse propósito: levou à vitória os norte-coreanos na Guerra da Coreia e  os vietcongues durante a Guerra doVietnã. Nesta última, além infligir uma vergonhosa derrota ao exército norte-americano, obrigou os EUA à primeira revisão do seu arsenal em quase um século. Segundo relatos de oficiais, o fuzil soviético usado pelo inimigo funcionava mesmo depois de meses enterrado na lama,enquanto os M16 americanos “precisavam ser limpos em um hospital ou então emperravam”.

Segurança, confiabilidade e durabilidade estavam, de fato, no projeto de Kalashnikov — além do baixo custo de produção e facilidade de manutenção e manuseio. Mas a arma oficial do Exército Vermelho era também moeda política e acabou liberada, sem custos, para ter versões produzidas pelas nações do Pacto de Varsóvia — mais China e Cuba, aliadas dos soviéticos — que precisavam se armar para o inevitável conflito entre EUA e URSS. Só que a guerra não aconteceu, a União Soviética ruiu e os Estados comunistas, sem dinheiro e com os paióis abarrotados, não viram outra alternativa a não ser soterrar o mercado negro de armas com milhões de Kalashnikovs. A oferta era tanta que, na primeira metade dos anos 1990, era possível comprar uma AK-47 por até US$ 10 — ou trocá-la por um saco de arroz, dependendo do nível de carência da nação onde ela seria usada.

E foi justamente nas nações mais miseráveis  de Oriente Médio, América Latina e África que ela virou um símbolo — primeiro de liberdade e depois de genocídio e barbárie. Suas propriedades a tornaram a arma preferida para conflitos urbanos, usada tanto pelos exércitos oficiais que defendiam ditaduras sanguinárias quanto pelas milícias que queriam derrubá-los (para depois instaurar novos regimes de terror). Estes, junto a traficantes e terroristas, foram tão diligentes no uso da AK-47 que a inscreveram no rol da infâmia ao descobrir que crianças podiam utilizá-la. Sua fama cruzou os campos de batalha e ela virou estrela em letras de rap – 50 Cent, AkonNAS e funkeiros cariocas exaltam a AK-47 em suas canções. No cinema, Quentin Tarantino a celebrizou em Jackie Brown (1997) na fala do traficante de armas vivido por Samuel L. Jackson: “Ak-47. A melhor que há. Quando você precisa matar absoluta e positivamente todos os filhos-da-puta no recinto, não aceite substitutos“.  Nicolas Cage a elege como principal item de exportação da Rússia em O Senhor das Armas (2005): “Após a Guerra Fria, a AK-47 se tornou o maior produto de exportação da Rússia. Depois vinham vodca, caviar e escritores suicidas.“.  Até um caríssimo abajur dourado ela virou, criação do designer francês Philippe Starck. Com Kalashnikov gostando ou não de tudo isso, é difícil imaginar tamanha influência de um cortador de gramas.

Os cúmplices

10 de fevereiro de 2011 1


Patti e Roberth na saída de incêndio do apartamento do casal em Nova York,por volta de 1972


Juramos que nunca mais nos separaríamos de novo, até que os dois soubéssemos que estávamos prontos para aguentar sozinhos. E essa promessa, apesar de tudo que ainda passaríamos, nós mantivemos.

Cumplicidade. Nenhuma palavra descreve melhor a relação de Patti Smith e Robert Mapplethorpe contada em Só Garotos (Companhia das Letras, 280 páginas, tradução de Alexandre Barbosa de Souza) pela própria Patti. O livro de memórias, uma “dívida” da poeta com seu amor, é o relato de como duas pessoas constroem um tipo de intimidade rara e compartilham a vontade de “dar certo”.

Por dar certo, entenda-se dois falidos aspirantes a artistas vivendo em Nova York, e que estão dispostos a fazer qualquer coisa pelo sucesso – e para pagar o aluguel. Eram dois “tramposos”, que frequentavam lugares não compatíveis com o orçamento apenas para tentar amizades com pessoas endinheiradas ou famosas:

Nas semanas seguintes contamos com a generosidade dos amigos de Robert para nos acolher, especialmente Patrick e Margaret Kennedy, em cujo apartamento da Waverly Avenue passamos nossa primeira noite. Nosso quarto era um sótão com um colchão, os desenhos de Robert pendurados nas paredes e suas pinturas enroladas em um canto e apenas minha mala zadrez. Tenho certeza de que não foi fácil para esse casal nos acolher, pois nossos recursos eram mínimos e eu era desajeitada socialmente. À noite era uma sorte poder desfrutar da mesa dos Kennedy. Dividíamos nosso dinheiro, cada centavo era guardado para um lugar só para nós. Eu trabalhava o dia inteiro na Brentano e deixava de almoçar. Fiquei amiga de outra funcionária, chamada Frances Finley. Ela era deliciosamente excêntrica e discreta. Percebendomeu apuro, me deixava Tupperwares com sopa caseira na mesa do vestiário de funcionários. Esse pequeno gesto ajudou a me fortalecer e selou uma amizade para a vida toda.

Por isso, não espere uma grande história de como eles se tornaram artistas de sucesso, ele com a fotografia, ela com a música. Menos ainda, leia em busca de um panorama da “cena” (como detesto essa expressão, mas OK) punk nova-iorquina – especialmente, segundo o editor deste blog, se você leu Mate-me Por Favor (L&PM POCKET, em dois volumes).

Só Garotos, lembre-se sempre, é antes de tudo um retrato do amor pela arte e do amor um pelo outro. De como alugaram apartamentos e se mudaram, como dividiram um minúsculo quarto do hotel Chelsea, ainda que não soubessem bem como fariam para pagar a conta todo mês, e de como mostravam um ao outro cada trabalho que produziam com a mesma intensidade que contavam as moedas para comprar bolachas velhas (que eram mais baratas).

Sentei-me ao lado dele em silêncio. A luz do Hotel Chelsea pareceu diferente ao incidir sobre nossos poucos pertences, não era uma luz natural, espalhava-se desde o abajur e da lâmpada do teto, intensa e implacável, ainda que parecesse repleta de uma energia única. Robert estava deitado confortavelmente e disse a ele para não se preocupar, que eu voltaria logo. Precisava ficar com ele. Tínhamos nossa promessa.

A história segue em ordem cronológica, começa com um pouco de infância e adolescência dos dois, como se conhecem em Nova York, até as fases em que se divide o relacionamento. Se num primeiro momento eles eram o legítimo casal de namorados, a volta é o retrato de um sólido casamento, no qual se faz concessões  em nome da vida social.

Essa linearidade toda pode angustiar os menos românticos, como se faltasse literatura e sobrasse um diário adolescente. Talvez Patti tenha guardado de Robert o amor da juventude. Talvez, se o nobre leitor me permite um final fácil, eles tenham sido, entre os dois, só garotos mesmo.

Texto de Tássia Kastner

Casas literárias

18 de outubro de 2010 4

NOTA DO EDITOR: Nossa jovem talento Tássia Kastner (lembram dela?), ora frilando para o setor de Economia do jornal, me ofereceu um texto que havia sido inspirado por uma recente passagem da moça por São Paulo e pela sua Bienal. Como gosto dos textos da Tássia, é claro que topei. E gostei do texto. Espero que vocês também gostem:

Com que Livro você Construiria sua Casa?

Bienal é o tipo de coisa que tu vai sabendo que pode encontrar várias coisas bem bizarras, e que vai invariavelmente pensar se o problema de não entender o lance ou achá-lo idiota é teu ou de todo o resto (que tá fazendo aquela cara de óóóóó para tentar parecer inteligente).
Pois eu encarei a Bienal de SP e, lá no Parque do Ibirapuera, entre trabalhos bem legais e outros polêmicos (como o do Nuno Ramos e seus urubus, Gil Vicente e seus assassinatos), o visitante encontra Longe daqui, aqui mesmo, de Marilá Dardot e Fábio Morais. A obra é também um espaço conceito dessa edição da bienal, que tem a proposta de fazer a transição entre os andares e dar um descanso para o cérebro, abarrotado de tudo o que viu.
Acontece que Longe daqui… carrega, provavelmente, o questionamento mais direto de todas as obras lá expostas: com que livro você construiria sua casa?
Para explicar, basta dizer que o espaço emula uma casa/biblioteca, com as paredes e portas revestidas por capas e lombadas de livros. No centro, um espaço para manusear alguns exemplares e até espreguiçadeiras para quem quiser curtir o momento e a leitura. Eu, que sou apenas admiradora (e não uma entendedora) das artes, me abstenho de tentar interpretar o trabalho dos artistas.
E por que eu tô dizendo isso tudo?
Quando eu tuitei a pergunta-mote do trabalho, o ilustre editor deste blog respondeu: teria de ser um bem grande.
Então me propus a pensar de verdade em alguns livros/autores que dariam boas casas.

— Uma casa de quadrinhos como Peanuts, Mafalda e Macanudo seriam um misto de desencanto, inocência e sagacidade infantil. Uma boa casa para se viver, eu diria.

— Um lar com muitas personagens femininas, tipo Capitu (de Dom Casmurro), Emma Bovary (de Madame Bovary) ou outras mulheres dessas cheias de crises típicas do século XIX seria inóspito. Mulheres demais sob o mesmo teto não costuma dar muito certo.

— Uma casa de contos seria legal. Apenas cômodos pequenos, nos quais os móveis seriam todos planejados de forma ainda mais cuidadosa do que em um romance de fôlego, e na qual tudo se encaixaria perfeitamente.

– Tenho certeza que muitos morariam numa casa construída com paredes de nosso velho safado Buko — suja, ordinária, mas sem nunca faltar uma garrafa de álcool e uma companhia mais ou menos —, ou então em uma habitação cheia das loucas pirações de Kerouac… naturalmente, os motivos para viver lá seriam as loucas pirações do indivíduo…

— Os clássicos como Goethe, Dostoiévski, Victor Hugo, Balzac … (preencha aqui com o autor que você considera clássico) … formariam imponentes e consistentes moradas.

— Sem perder a piada fácil, a casa mais sólida seria formada de poesia concreta.

Texto de Tássia Kastner

Como já tem gente na fila...

06 de outubro de 2010 1

Embora John Lennon, por ter frequentado uma escola de arte e, mais tarde, trabalhado em experimentalismos com Yoko Ono (como Revolution 9, no Álbum Branco, de 1968) tivesse a reputação de ser o vanguardista dos Beatles, foi McCartney o pioneiro a desempenhar esse papel. Já havia algum tempo que se interessava pela música de vanguarda, estudava e ouvia compositores modernistas como Karlheinz Stockhausen, Luciano Berio e John Cage e assistia aos shows do Pink Floyd e do Soft Machine no vigoroso Spontaneous Underground. Segundo Barry Miles, McCartney contou a Lennon sobre suas extraordinárias ideias musicais e Lennon o estimulou a seguir nessa direção; aquilo soava meio pretensioso, mas também sinalizava audácia. “Mas Paul”, observa Miles, “procurava fazer as coisas devagar e tinha cuidado em não afugentar os fãs com muitas esquisitice. Contemplava a possibilidade de fazer um álbum solo, com o título Paul McCartney Goes Too Far [Paul McCartney vai longe demais], mas nada disso foi concretizado” McCartney estava de fato questionando a divisão entre a alta cultura (no caso, música clássica romântica e moderna) e a cultura de massa (rock e outras formas de música pop), e essa ambição, como tudo o mais em Sgt. Pepper, teria consequências significativas.
Com essa iniciativa, McCartney ganhou mais espaço nos Beatles. Ele já fora o responsável pelos toques vanguardistas em
Revolver, o que ajudou a dar densidade a canções sobre ressentimento, solidão, futilidade, abandono, alienação e morte. Mas, com Sgt. Pepper, escreveu o engenheiro de som Geoffrey Emerick, McCartney emergiu como o “produtor de fato” da banda. Lennon mais tarde concordaria: “Eu estava muito  deprimido durante a gravação do Sgt. Pepper, e sabia que Paul estava numa boa. Ele se sentia confiante. Eu queria matar o cara” (George Martin também sentiu que Lennon pode ter ficaro enciumado por causa da atenção que o produtor dava às ideias e à música de McCartney.) Apesar da crise pessoal de Lennon – estava insatisfeito com sua vida particular e confuso sobre seus propósitos artísticos –, ele continuava entusiasmado e queria, tanto quanto McCartney, alargar fronteiras conceituais. Richard Lush, na época engenheiro de som nos estúdios da Abbey Road, disse à Mojo em 2007 que o que Lennon buscava diariamente no projeto era fugir da normalidade. “Quero um som diferente hoje, nada igual ao que fizemos ontem”, dizia, como Lush se recorda. Os Beatles também insistiam em que ninguém tivesse acesso às gravações. Raramente recebiam visitas, com receio de que suas ideias fossem copiadas.
Paul McCartney teve um papel considerável ao dar forma à obra mais conhecida dos Beatles. Os outros três nunca o desculpariam pelo domínio que exerceu em 1967, mesmo que aquele tenha sido o momento mais importante da banda. Anos mais tarde, os Beatles, com exceção de McCartney, se distanciariam de
Sgt. Pepper de várias maneiras. George Harrison e Ringo Starr disseram que tinham pouco a fazer no estúdio, além de tocar a parte deles (isso apesar de o trabalho de Ringo no álbum ter de fato redefinido o som e a arte da bateria no rock). Quanto a Lennon, foi particularmente veemente, ao comentar, diante de McCartney, que Sgt. Pepper era “a maior bobagem que os Beatles já tinham feito”. Meses depois da gravação do álbum. Lennon já não queria fazer nada parecido outra vez. Em 1968, ao discutir os métodos de Sgt. Pepper com George Martin, Lennon disse: “Para mim, isso aí não é rock, George. Rock é uma coisa mais simples, uma música legal”. As músicas de Sgt. Pepper, ele tinha decidido, não eram legais, eram desonestas.

Já que, como vocês podem ler aqui neste link, já tem fã doido acampando na frente do Beira-Rio desde a tarde de hoje para garantir seu ingresso para o show do Paul McCartney, e já que não se fala de outra coisa em boa parte da cidade, resolvi publicar aqui no blog o trecho acima, extraído do saboroso e recém-lançado livro Ponto Final: Crônicas sobre os Anos 1960 e suas desilusões (Companhia das Letras, tradução de Oscar Pilagallo). O livro reúne 18 textos publicados pelo jornalista Mikal Gilmore na revista Rolling Stone sobre figuras centrais da música e da contracultura dos anos 1960. Embora o subtítulo do livro use o termo “crônica”, os artigos publicados no livro são na verdade grandes reportagens, perfis alentados sobre personagens e episódios cruciais da década de 1960. Estão lá a visão mística muito peculiar de Allen Ginsberg, a doideira de Timothy Leary, a trajetória barra-pesada de Johnny Cash, os longos períodos de depressão de Leonard Cohen e uma tentativa de explicar o que o levou a largar tudo no que parecia o melhor momento de sua carreira e se entocar num mosteiro budista por anos.

Um bom pedaço da obra, como não poderia deixar de ser, é dedicado aos Beatles. Há um perfil de George, um perfil de Lennon e a reportagem da qual extraí o excerto acima, sobre os bastidores da produção do disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (publicado em 2007, para marcar os quarenta anos do álbum). Nada que está no livro é realmente novo, o que é particularmente verdade no que diz respeito às figuras mais conhecidas. O perfil de Dylan, por exemplo, não surpreende quem já leu a biografia escrita por Howard Sounes (Editora Conrad), e a vida de Johnny Cash narrada em boa parte do artigo sobre o “homem de preto” parece uma versão resumida do que o próprio Cash escreveu em suas duas autobiografias – ou uma versão em prosa da HQ Cash: Uma Biografia, do alemão Reinhard Kleist (8Inverso). O grande atrativo do livro de Gilmore é mesmo a maneira como ele escreve, com uma proximidade cúmplice de quem conheceu os personagens que aborda.

Hornby e a Estrada do Trovão

03 de maio de 2010 3

Este post não é necessariamente uma resenha, até porque ainda não terminei a leitura do livro mais recente de Nick Hornby lançado no Brasil, Juliet Nua e Crua. Até onde avancei, o que deve ser umas 50 páginas, estou achando tudo muito divertido, Hornby fazendo humor ao caricaturar um obcecado fã de música e sua paixão por um artista que abandonou a carreira no auge, nos anos 1980 (se é que alguma carreira musical nos famigerados anos 1980 pode ter chegado ao auge). Como se Hornby satirizasse os personagens que ele próprio tornou hegemônicos na literatura de atmosfera pop produzida na última década, desde o advento de Alta Fidelidade. Mas é prematuro saber se algo sairá daí ou não.

Alguns criticam Hornby, um pouco com razão, por ter criado um padrão repetido de forma desmedida, com direito a blogueiros do início dos anos 2000 relatando a “trilha sonora” do que ouviam enquanto escreviam seus posts (sim, crianças, a distribuição dadivosa de informações pessoais irrelevantes é bem anterior ao tuiíter). Mas um ponto é inegável: a maneira como o protagonista de Juliet Nua e Crua se relaciona com a música, colocando-a no centro de sua existência, embora caricata, reflete um espírito de época. A música está presente no cotidiano dos viventes, e, portanto, isso também precisa aparecer na literatura – afinal, quando Erico Verissimo mostrava Rodrigo Terra Cambará encomendando seus discos de gramofone de registros operísticos feitos por Caruso estava usando a cena para retratar uma circunstância histórica específica: o personagem pertencia a uma elite rural rio-grandense com grana para importar os bens culturais que lhe interessavam, ligados a valores culturais de época que colocavam aquilo como o que alguém ilustrado e de bom gosto devia ouvir. Então porque a música não pode aparecer num romance contemporâneo quando não se consegue andar na rua sem tropeçar em alguém encastelado nos fones de ouvido de seu I-Pod?

Mas essas considerações todas surgiram da leitura de Juliet Nua e Crua, que, como já comentei, traz como protagonista um sujeito que definiu sua vida pela música que ouve – o que, é claro, é visto de forma crítica. Mas há também o papel representado pela esposa do sujeito, que simplesmente ouve a música que gosta pelo simples ato de gostar. O que me fez pensar em 31 Canções, obra na qual Hornby exercita seu lado não ficcionista (que vem a ser aquele com o qual eu mais simpatizo, diga-se) em 31 ensaios impressionistas sobre sua relação com músicas de diferentes épocas da história do pop. Um livro que, na época do lançamento por aqui, em 2005, eu li com muito interesse (Hornby escreve com humor e com uma leveza que só quem nunca tentou alcançar acha fácil) mas com pouca apreciação, porque das 31 canções citadas por ele eu não conhecia ou não curtia um bom número (não a metade, umas 10, talvez) – já se baixava música adoidado nessa época, claro, e eu poderia ter feito isso, mas dowload nunca foi a minha praia. Mas o advento do Youtube me fez reler esse livro esses tempos procurando clipes ou registros para algumas das faixas e aquilo fez todo o sentido (não é à toa que a edição estrangeira do livro vinha com um disco com a seleção, algo que nosso mercado brasileiro de terceiro mundo não conseguiu bancar). E porque esse fim de semana rolou a coincidência de eu estar lendo o Juliet… de madrugada e aquele programa Lab Classicos da MTV tocou exatamente uma das canções que está no disco, Thunder Road, de Bruce Springsteen, achei bacana partilhar um trecho do livro – com o devido vídeo da canção lá no fim para vocês sacarem do que o sujeito está falando (o ano da apresentação que postei lá no fim é o mesmo ano citado por Hornby, data em que o disco Born to Run, no qual a música foi gravada como lado 1, faixa 1, veio a público). E por que isto aqui está num blog de livros? Porque é o trecho de um livro, óbvio, e porque Hornby, como vocês verão, não isola a música. Ele a faz dançar com outras coisas que são importantes na vida. Até mesmo a literatura:

Lembro de ter ouvido e adorado essa canção em 1975; lembro de tê-la ouvido e adorado de maneira quase idêntica bem recentemente, há poucos meses. (E, sim, eu estava em um carro, embora provavelmente não estivesse dirigindo, e com certeza não estava dirigindo por uma estrada, nem por uma highway ou freeway, e o vento não estava soprando nos meus cabelos, porque não tenho conversível, muito menos cabelos. Não foi como naquela versão de Springsteen.) Assim, já faz um quarto de século que amo essa canção e a escutei mais do que qualquer outra coisa, com a possível exceção de… A quem estou querendo enganar? Não existem outros competidores. Veja, o que eu ia fazer aqui era amenizar o impacto, encaixar algo negro e/ou mais cool (possivelmente Let’s Get it On, que considero a melhor gravação de pop já feita e que facilmente entraria na minha lista das 20 canções mais tocadas, mas não como a número 2. A número 2 – e estou tentando ser honesto aqui – provavelmente seria algo como (White Man) in Hammersmith Palais, do Clash, mas estaria muito, muito atrás. Digamos que eu tenha ouvido Thunder Road umas 1.500 vezes (apenas uma vez por semana durante 25 anos, o que parece mais ou menos correto, levando-se em conta as repetidas execuções dos primeiros anos); (White Man)… teria rodado tipo umas quinhentas vezes. Em outras palavras, não existe uma real competição.
Para mim é engraçado que
Thunder Road tenha sobrevivido, enquanto muitas outras canções que talvez sejam melhores – Maggie May, Hey Jude, Gode Save the Queen, Stir it Up, So Tired of Being Alone, You’re a Big Girl Now – tenham ficado menos atraentes à medida que fiquei mais velho. Não é que eu não consiga ver as flahas dela: Thunder Road é exagerada, tanto na letra (conforme ressaltou o Prefab Spour, existem mais coisas na vida do que carros e garotas e certamente a palavra “redenção” deve ser evitada como a peste quando você está escrevendo canções sobre redenção) quanto musicalmente – afinal de contas, seus quatro minutos e quarenta e cinco segundos permitiram alavancar uma carreira completa para Jim Steinman e Meatloaf. Também é pomposa, de um jeito que o próprio Springsteen não é, e, se o malfadado romantismo não era piegas em 1975, certamente hoje, é.
Mas às vezes, muito ocasionalmente, canções, livros, filmes e fotografias expressam perfeitamente quem você é. E não fazem isso necessariamente por palavras ou imagens; a associação é muito mais complicada que isso. Quando comecei a escrever para valer, li
Almoço no Restaurante da Saudade, de Anne Tyler, e de repente fiquei sabendo o que eu era e o que eu queria ser, para o bem e para o mal. É um processo meio parecido com o de se apaixonar. Você não escolher necessariamente a melhor pessoa ou a mais sábia ou a mais bonita; rola uma outra coisa. Uma parte de mim preferiria ter se apaixonado por Updike ou Kerouac ou DeLillo – por alguém do sexo masculino, pelo menos, talvez alguém um pouquinho mais opaco e, com certeza, que usasse mais palavrões – e, embora eu tenha admirado esses escritores em várias fases de minha vida, admiração é uma coisa muito diferente do tipo de transferência de que estou falando. Estou falando de entender – ou pelo menos sentir que entendo – cada decisão artística, cada impulso, a alma do trabalho bem como a de seu criador. “Isso sou eu”, foi o que tive vontade de dizer ao ler o suntuoso, triste e adorável romance de Tyler. “Não sou um personagem, não sou como a autora, não passei pelas experiências sobre as quais ela escreve. Mas, mesmo assim, é como me sinto por dentro. É assim que teria vontade de soar, se encontrasse uma voz.” E enfim encontrei uma voz e era minha, não dela; todavia, o processo de identificação foi tão poderoso que ainda não sinto que tenha me expressado tão bem, tão completamente, quanto Tyler fez por mim daquela vez.
Desse modo, embora eu não seja americano, já não seja jovem e odeie carros e possa perceber por que tanta gente acha Springsteen bombástico e histriônico (mas não por que o acham machão, xenófobo ou burro – o tipo de julgamento ignorante que perseguiu Springsteen durante um enorme período de sua carreira, feito por gente que na verdade é muito mais burra do que ele jamais foi),
Thunder Road de alguma forma consegue falar por mim. Isso acontece em parte – e talvez vergonhosamente – porque muitas canções de Springsteen desse período são sobre ficar famoso ou pelo menos alcançar algum tipo de reconhecimento público por meio de sua arte; o que mais deveríamos pensar quando o último verso da canção é: “I’m pullin out of here to win” (“Estou caindo fora daqui para vencer”), a não ser que ele venceu, simplesmente em virtude de tocar a canção, noite após noite, para uma multidão cada vez maior? (E o que mais devemos pensar quando, em Rosalita, ele canta com alegria comovente, engraçada e inocente: “Cos the record company, Rosie, just gave me a big advance” a não ser que a gravadora acaba de dar um grande adiantamento para ele?”) Esse sonho de fama jamais é censurável ou ofensivo, pois origina-se de um ímpeto artístico incansável e incontrolável – ele sabe que tem talento para estourar e a recompensa adequada, ele parece sugerir, seria os recursos financeiros para chegar lá – em vez de um interesse na celebridade por si só. Apresentar um programa de TV ou assassinar um presidente de modo algum aplacaria a fissura.

* Este post foi escrito na redação de Zero Hora, ao som de música alguma, a não ser a dos telefones tocando