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Posts na categoria "Cultura"

Secretário professor

26 de outubro de 2010 0


Luiz Antônio do Assis Brasil em 2008, na sessão de autógrafos do livro
“Vão Pensar que Estamos Fugindo”, de autoria de sua esposa, Valesca de Assis.
Foto: Dulce Helfer/ZH

Uma das críticas mais frequentes à gestão de quase quatro anos de Mônica Leal à frente da Secretaria de Estado da Cultura durante o governo Yeda era que a secretária, nas palavras de Luís Augusto Fischer em uma crônica publicada este ano no Caderno de Cultura, “não era do ramo”. Não era do ramo, nesse caso, significava que não tinha um trabalho relevante à frente do meio cultural em qualquer uma de suas múltiplas facetas: como criadora, produtora, crítica, docente, Mônica Leal nunca fora nada disso, nunca estivera intensamente ligada ao setor.

O que será uma gestão da Cultura a cargo do romancista  e professor Luiz Antonio de Assis Brasil ainda é uma incógnita, mas ao menos uma garantia já pode ser feita em comparação com a administração anterior: ninguém poderá dizer que o escritor não é do ramo.  Assis Brasil é um dos mais prolíferos romancistas do Estado, com um conjunto de 16 romances que, com a exceção da novela O Homem Amoroso, investigam o passado histórico do Rio Grande do Sul buscando na reencenação ficcional do passado ecos de questões prementes ainda hoje. Seu olhar busca, por meio da miniaturização, um contraponto a muito da construção ideológica que dota a narrativa história do Estado de tons épicos e grandiosos.

Assis Brasil é uma presença fundamental no cenário das letras rio-grandenses também por sua atuação como um transmissor de conhecimento no ofício da escrita. Ele ministra a Oficina de Criação Literária da PUCRS desde 1985, e, ao longo desses 25 anos, já passaram por lá – e lembram com respeito do antigo mestre – nomes de estilos tão díspares quanto Amílcar Bettega, Cíntia Moscovich, Daniel Galera, Daniel Pellizzari, Michel Laub. Ah, sim, eu também fui aluno da Oficina em 2001, e ao dizer isso não quero me colocar no nível dos já citados, só deixar clara uma afiliação que me liga ao personagem principal deste texto.

Se para Nelson Rodrigues o amigo Antônio Callado era “o único inglês da vida real”, pode-se parafrasear a tirada e comentar que Assis Brasil é o único gentleman da vida contemporânea. Atencioso com seus interlocutores, gentil às raias do cavalheirismo, cortês e de uma educação ímpar (uma colega de jornal certa vez foi entrevistá-lo e voltou contando que em mais de um momento pensou que o Assis a estava de algum modo sacaneando ao insistir em abrir a porta ou puxar a cadeira para ela – esse mundo realmente embrutece as jornalistas, rere). É também um homem de vida e de trabalho regrados. Não é um segredo a maneira como escreve seus romances: fazendo um longo diagrama em que planeja capítulo por capítulo, do que será contado ao ponto de vista dominante em cada etapa. Apenas depois de ter essa história toda planejada é que ele se dedica ao trabalho eminentemente braçal de  escrever e dar forma ao que já planejou. Alguns dos principais livros de Assis Brasil, a propósito, como Cães da Província, Manhã Transfigurada e Videiras de Cristal, ganharam reedição recente pela L&PM þ que também publicou seu livro Música Perdida (2007), vencedor da primeira edição da Copa de Literatura Brasileira.

Tentamos hoje falar com o secretário sobre seus planos para o futuro da pasta, mas ele comentou que prefere se manifestar apenas após se reunir com o governador Tarso Genro. Ainda não há também uma definição sobre a equipe de apoio do novo secretário. Mas ao menos uma coisa já podemos saber sobre Assis Brasil: sua ligação com os livros. Reproduzo abaixo uma entrevista feita com Assis Brasil em 2004 pelo jornalista Márcio Pinheiro e publicada na série Estante, no Caderno Cultura, que durante alguns meses ocupou a contracapa do suplemento com grandes escritores respondendo sempre às mesmas perguntas sobre livros. Com vocês, o secretário e os livros:

Assis Brasil e a Estante

Qual o seu livro inesquecível?
Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe; li-o, pela primeira vez, na juventude, época mais propícia a aceitar os suicídios por amor. Hoje restou a (boa) literatura que é.

Qual seu trecho inesquecível?
O momento em que Werther é possuído de ciúmes atrozes quando vê Charlotte cortando algumas fatias de pão a umas crianças. Uma cena que só poderia ser escrita por um homem: são ciúmes completamente ridículos.

Qual o livro que mais o perturbou?
As Confissões de Santo Agostinho, e isso porque, em sua leitura, constatei que o santo era um homem como eu mesmo, sujeito a dúvidas e ansiedades humanas. Isso o faz um precursor do existencialismo, que viria a florescer bem mais tarde.

Qual o livro que você gostaria de ter escrito?
Tous les Matins du Monde, de Pascal Quignard. Se há algo impecável, do ponto de vista da linguagem e do drama, é essa novela. Sei de cor as passagens mais importantes. E há uma bela tradução brasileira, quase com a mesma qualidade do original, do Pedro Tamen.

Qual o personagem que você gostaria de ter criado?
Não é personagem exclusivamente literário; é Dom Giovanni, da ópera de Mozart, com libreto de Lorenzo da Ponte. É uma celebração da vida e, paradoxalmente, uma apologia da morte como a suprema redentora.

Qual o maior livro da literatura brasileira?
Prefiro dizer o que mais gosto. É o Memorial de Ayres, do Machado de Assis. Serena investigação psicológica de um homem maduro, no limiar da velhice.

Qual o maior escritor da literatura brasileira?
Inúmeros: o maior é aquele escolhido pelo leitor, em dado momento de sua vida de leituras. Cada qual, a cada década, tem o seu “maior”. Não há uma consagração objetiva e unânime. Felizmente.

Qual o livro que você mais relê?
Madame Bovary, pela irretocável construção romanesca e pelo sentido da tragédia em sua versão moderna e burguesa. Já o li 14 vezes. Sou muito metódico em registrar minhas leituras.

Qual o livro mais superestimado que você conhece?
Grande Sertão: Veredas. Talvez o seja por seus aspectos lingüísticos, mas isso não é o suficiente.

Qual o livro mais subestimado que você conhece?
A Capital de Eça de Queirós. Ninguém gosta, inclusive ecianos históricos e apaixonados.

Qual livro merece ser adaptado para o cinema?
Senilidade, de Italo Svevo. É um roteiro pronto. Basta fazer os cortes e ter um bom diretor.

Qual livro foi adaptado para o cinema e o resultado foi frustrante?
Não comparo o romance com o filme. Contudo, a aproximação pode ser feita quanto ao O Nome da Rosa, de Umberto Eco. Ótimo romance, ótimo filme.

Qual o livro que você daria de presente?
Terrasse à Rome, de Pascal Quignard, publicado em 2000 e ainda não traduzido. Espero que logo alguma editora brasileira se interesse.

Qual o livro que você gostaria de ganhar?
Não é pouco: a coleção completa da Summa Theologica, de Tomás de Aquino. Tudo está lá. O mestre da Escolástica é um destes autores que nos fazem rever os tolos preconceitos contra a Idade Média.

Qual o livro que você procura e nunca encontrou?
Hoje em dia, com a Internet, encontro tudo o que procuro. Para o bem e para o mal.

Qual deve ser o maior mérito de um escritor?
Se é romancista, escrever o máximo de ação no mínimo de palavras. Na narrativa atual, escreve-se demais. Para resolver isso, basta que os escritores escrevam a literatura que gostam de ler.

Cite um grande livro de um grande autor?
Dom Quixote, de Cervantes. Não é insuperável, mas é uma das marcas de nossa paradoxal humanidade.

Cite um grande livro de um autor pouco conhecido?
Aurora, de Arthur Schnitzler, cujo título original é Spiel im Morgengrauen (algo como “Um jogo de manhã cedo”). Não sei por que traduziram esse belo título. Narra-se uma desesperada noite do tenente Wilhelm Kasda, um jogador compulsivo. Qualquer parágrafo é uma consagração da literatura.

Cite um livro que você esperava gostar e que o decepcionou?
Viagem ao Redor do meu Quarto, de Xavier de Maistre. Muito promete e pouco cumpre.

Cite um livro que você não esperava nada e que o surpreendeu?
Não costumo perder tempo com livros que não prometem nada; mas por circunstâncias profissionais, outrora li, de Alejo Carpentier, El Acoso. Foi uma revelação, e o começo do meu fascínio por esse autor cubano.



Semana de Festa na Cidade

20 de abril de 2010 0

Começa hoje e vai até domingo em Porto Alegre a Festipoa Literária, uma festa que, recém em sua terceira edição, já está se consolidando como o principal evento literário do primeiro semestre da Capital. Dezenas de atividades envolvendo literatura, música, exibição de filmes, performances artísticas, leituras, palestras, debates e sessões de autógrafos põem o livro no centro do debate público em Porto Alegre. Grande parte da programação é de entrada franca. Hoje na capa do Segundo Caderno, falamos um pouco mais sobre a festa e seu homenageado, o escritor Sergio Faraco, um dos maiores contistas em atividade no país. Para quem quiser se programar para acompanhar a festa, informamos agora a programação completa, que não coube nas páginas do jornal por motivo de espaço:

Dia 20 de abril, também conhecido como hoje:
- Na Palavraria (Av. Vasco da Gama, 165)
17h:
Cíntia Moscovich e o crítico paulista e curador de arte Jacob Klintowitz conversam com Sergio Faraco sobre produção de contos e tradução.
18h30: Maratona Literária, com leitura em voz alta, em revezamento, da coletânea de contos Dançar tango em Porto Alegre, de Sergio Faraco.
19h: Edgar Vasques conversa sobre literatura adaptada para HQ com o artista plástico e designer gráfico Fabriano Rocha e o escritor e artista gráfico Leandro Dóro.

- No CineBancários (Rua Gen. Câmara, 424)
15h, 17h e 19hs: Sessões dos filmes Ferreira Gullar, a necessidade da arte; O canto e a fúria; e Por acaso, Gullar, os três sobre a vida e o universo poético de Ferreira Gullar

No Café da Oca:
20h30 às 23h30:
Mostra artística Cabaré do Verbo: música e leituras de poemas, Diego Petrarca, Lorenzo Ribas, Karine Capiotti, Petit Poa-RS, Rádio Putzgrila, Rodolfo Ribas, Rocartê, Projeto Floco.

Dia 21 de abril: Quarta-feira (amanhã, para os íntimos):
Na Livraria Letras & Cia (Av. Osvaldo Aranha, 444):
14h: Edição especial do Papo de Artista com Marcelo Spalding, Nanni Rios e Paulo Tedesco, com o tema “As artes e a literatura na era digital”. Na ocasião será lançada a revista online Expressões Digitais, coordenada por Nanni Rios, editora de arte digital do portal Artistas Gaúchos.
15h30: Leituras com Everton Behenck e Rodrigo Rosp
16h: Debate com os escritores Simone Campos, Alexandre Rodrigues e Antonio Xerxenesky. Mediação de Luciana Thomé. Depois, Simone autografa seu livro de contos Amostragem complexa (7Letras, 2009, R$ 49,00).
18h: Pocket show com Bianca Obino.
18h30: Luis Paulo Faccioli, Luis Dill e o baiano Lima Trindade conversam sobre o conto na literatura brasileira contemporânea.

No CineBancários:
15h, 17h e 19h: Exibição do filme Um Aceno na Garoa, de Mário Nascimento, baseado em conto de Sergio Faraco.

No Pé Palito Bar
20h: Lançamento da coletânea O Melhor da Festa, volume dois (Casa Verde, 152 páginas, R$ 20,00) um livro produzido especialmente para a FestiPoa. A obra reúne poemas, contos e crônicas inéditas de 32 autores que participaram da segunda edição do evento no ano passado.
21h: Baile das Artes:Samba Grego, Nelson Coelho de Castro, Petit Poa-RS, Guto Leite, Everton Behenck e DJ Fred _ Festa

Dia 22 de abril: Quinta-feira:
No CineBancários:
15, 17h e 19h: Exibição do filme Só Dez por Cento é Mentira - desbiografia oficial de Manoel de Barros. A sessão das 19h será precedida de bate-papo e leituras de poemas de Manoel de Barros com Diego Petrarca, Cris Cubas e Andréa Laimer.

No Auditório do Espaço Cultural Casa dos Bancários (Rua Gen. Câmara, 424)
17h: João Gilberto Noll lê trechos dos seus livros Acenos e Afagos (Records/2009), Lorde e Mínimos Múltiplos Comuns (Francis).
18h: O sambista Nei Lopes lança o livro Mandingas da Mulata velha na Cidade Nova (Língua Geral, R$ 34,00) e conversa com o professor Jefferson Tenório.

Na Palavraria:
19h30: Lançamento do Campeonato Gaúcho de Literatura e um debate sobre prêmios e concursos literários com Rodrigo Rosp e Daniel Weller.

Na Sala Álvaro Moreira (Av. Érico Veríssimo, 307):
20h: Olhar de Ana Mariano sobre o mundo, a memória, o sexo e o amor: espetáculo com a atriz Sofia Salvatori, com direção de Margarida Leoni Peixoto.

Dia 23 de abril: Sexta-feira:
Na Palavraria:
16h30: Marco Cena, Samir Machado de Machado e Clô Barcelos falam sobre a criação de capas para livros.
18h: Pocket show com Felipe Azevedo.
18h30: Jorge Furtado, Pena Cabreira e Juarez Fonseca conversam sobre letras de canções na música popular brasileira.

No Espaço Cultural Casa dos Bancários
18h: Leitura de Contos da Vida Breve com Henrique Schneider.
18h30: Carlos André Moreira e Alcy Cheuiche discutem o romance histórico como gênero.

Na Sala Álvaro Moreira
20h:
Leitura da peça Diálogos Espectrais, de Ivo Bender, com Luiz Paulo Vasconcellos, Júlio Conte, Giselle Cecchini e Diones Camargo.

No Zelig:
20h30: Festa Sexta básica – dia do livro e do autor: Grupo Trilho, Cristina Moreira, Leila Teixeira, Lima Trindade, Wladimir Cazé (ES), Guilherme Darisbo, Duo HoffParú e Antonio Falcão e banda.

*Dia 24 de abril: Sábado:
Na livraria Letras & Cia:
09h30: Grupo Nos Lemos (Manuel Estivalet, Bruno Brum Paiva, Janaína Quiroga, Nelson São Bento e Tina Gonçalves); leitura encenada baseado em textos.
10h: Debate com os poetas Bárbara Lia, Wladimir Cazé e Laís Chaffe. Depois, Bárbara autografa A Última Chuva, (Mulheres Emergentes Edições Alternativas, 2007) e Cazé lança Macromundo (Confraria do Vento, 2010).

No Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano (ICBNA) (Rua Riachuelo, 1257)

11h: Projeto Bate Boca Bom: Linhas de fuga e transmigrações da poesia de língua portuguesa: painel com o português Luis Serguilha e Ronald Augusto. Mediação de Liana Timm. Depois, lançamento e sessão de autógrafo do livro Korso (Dulcineia Catadora), de Serguilha
14h: A artista plástica Lúcia Rosa fala sobre o coletivo Dulcinéia Catadora. Lançamento e sessão de autógrafo dos livros Quatro Quartos, de Monique Revillion e Duas Palavras, de Altair Martins;
16h: Exibição de minimetragens do projeto Cidade Poema e leitura de poemas com Everton Behenck, Berenice Sica Lamas, José Antônio Silva, Liana Timm e Laís Chaffe, coordenadora do projeto.
16h30: A poética do mar: da poesia de Castro Alves à canção de Dorival Caymmi, performance que une poesia e música com Marlon de Almeida e Moisés Dornelles
18h30: Vida e obra de Oliveira Silveira, com Jorge Fróes e recital de poesia com Vera Lopes e Grupo. Lançamento da Antologia de Poemas de Oliveira Silveira.

Na Palavraria:
16h: Pedro Gonzaga
conversa com José Hildebrando Dacanal sobre Riobaldo & Eu: a roça imigrante e o sertão mineiro
17h30: Leitura de trechos de Desacordo Ortográfico (Não Editora), com Reginaldo Pujol Filho;
18h: Debate com Xico Sá, Cardoso e Cláudia Tajes. Depois, lançamento e sessão de autógrafo de Chabadabadá – aventuras e desventuras do macho perdido e da fêmea que se acha (Ed. Record), de Xico Sá.

Na Praça da Alfândega, em frente ao Clube do Comércio.
16h: Oficina de pintura de capas de papelão e confecção de livros com Lúcia Rosa (coletivo Dulcineia Catadora). Os participantes pintarão as capas e escolherão o título que desejam montar. As inscrições são gratuitas e podem ser realizadas pelo e-mail jornalvaia@gmail.com ou pelo fone (51) 9892.3603.

Dia 25 de abril: Domingo:
Na Palavraria:
14h: Painel: Conto, Imagem e Construção do Invisível, com Flávio Wild, Olavo Amaral e Cássio Pantaleoni;
15h: Lançamento e sessão de autógrafos de Histórias Para Quem Gosta de Contar Histórias (8Inverso), com Cássio Pantaleoni;
16h: Bate-papo com os escritores Henrique Rodrigues e Diego Petrarca e lançamento com sessão de autógrafos da coletânea de contosComo se não houvesse amanhã (Ed. Record), organizada por Rodrigues, com vinte histórias inspiradas em músicas do grupo Legião Urbana, cada uma escrita por um autor diferente.
18h: Altair Martins conversa com Amilcar Bettega e Marcelino Freire sobre os rumos da narrativa curta.

No OX/OCIDENTE
20h: Festa de encerramento, com Marcelino Freire, Altar Martins, Monique Revillion e outros escritores convidados, além das bandas Bumblebee, Fapo e os humanóides e Suco Elétrico.

McLaren e o Punk

10 de abril de 2010 5

Os Pistols assinam novo contrato com a A&M em frente ao Palácio de Buckingham em janeiro de 1977
Da esquerda para a direita: Johnny Rotten, Steve Jones, Paul Cook (com a cara na mesa),
Syd Vicious e Malcolm McLaren (com as mãos nos bolsos)

A essa altura até o fã mais fofinho de Los Hermanos já deve ter lido em algum lugar por aí que o inglês Malcolm McLaren, o empresário dos Sex Pistols e autoproclamado pai do punk bateu os coturnos. Numa cena musical e artística marcada pelo niilismo, pelo individualismo e pelo hedonismo exacerbado, McLaren conseguia ser uma das figuras mais polêmicas justamente por ter sido o cara que transformou toda aquela energia punk em marketing e autopromoção – tanto que ainda persiste o mito do empresário, designer e performer como o “inventor” dos Sex Pistols e do próprio punk (quando McLaren sacava muito de factoides, mas não era responsável pelas músicas nem pela sonoridade. Ele foi, antes, o responsável por oferecer o pacote embalado pra consumo – e tem muita gente consumindo até hoje).

Mas as raízes do punk estavam fundadas em outros terrenos, na cena artística e alternativa que fervia em Nova York nos anos 1960 e com a qual McLaren teve contato ao tentar empresariar os New York Dolls durante uma passagem pelos Estados Unidos. Não vou contar a história toda aqui porque ela, bem como outras subtramas dessa novela pop-punk, já foi magistralmente contada em Mate-me Por Favor: a história sem censura do punk, escrita por Legs Mcneil e Gillian McCain (L&PM, tradução de Lúcia Brito). Baseado em entrevistas com os participantes daquele período de excesso, drogas, marginalidade e música, o livro é uma colagem de depoimentos, um formato muito interessante porque totalmente apropriado ao tema. Na cena individualista e anárquica do punk rock, não haveria espaço para um único discurso narrativo que tentasse condensar o que foi o movimento, e, portanto, os autores apresentam várias vozes que se contrapõem, se desmentem, numa operação irônica que mostra a força descentralizada e ao mesmo tempo paroquial que gerou um dos movimentos mais importantes da música pop na segunda metade do século. Do embrião da cena, com os New York Dolls, os Stooges e o Velvet Underground, até os heróis do estilo, Iggy Pop e os Ramones, chegando finalmente na aparição dos Sex Pistols – que, como o livro é escrito por uma dupla interessada em provar que o punk surgiu na América, é identificada com a diluição e a decadência das propostas originais de arte e independência, degenerando em violência e rebeldia adolescentes. Achei que seria oportuno desenterrrar alguns trechos que falam da relação de McLaren e dos Pistols com o movimento (a L&PM relançou o livro em dois volumes de uma edição de bolso, mas chorem, mortais, porque a que eu tenho é a primeira edição nacional, de 1997 – comprada em 1999 num sebo na Marcílio Dias –, em um único volume tamanho livro convencional e com a clássica capa laranja que ilustra o trecho abaixo e que eu acho muito mais legal):

Malcolm McLaren: Eu era pelo menos uma geração mais velho que a geração que eu empresariava. Eu não era da geração dos Sex Pistols, era da geração dos anos sessenta. Por isso minha relação com os Sex Pistols era uma ligação direta com aquela opressiva angústia existencial, motivo primordial para fazer qualquer coisa no rock& roll – abandonando a noção de carreira –, e com aquele espírito amador de faça-você-mesmo típico do rock & roll. Foi assim que cresci, com a ideia de que você podia fazer coisas.
Lá pelo começo dos anos setenta, a filosofia era de você não podia fazer nada sem um monte de dinheiro. Então minha filosofia se voltou para “foda-se, a gente não se importa se não sabe tocar e não tem instrumentos realmente bons, a gente ainda está fazendo porque acha que vocês são um bando de escrotos.”
No fundo, acho que foi isto que criou a raiva – a raiva era simplesmente por causa do dinheiro, porque a cultura tinha se tornado corporativa, porque a gente não a possuía mais, e todo mundo estava desesperado para tê-la de volta. Essa era uma geração tentando fazer isso.

Mary Harron (escritora e ex-repórter especial da revista Punk): Fui ver Malcolm McLaren na loja dele. Ele tinha um jeito meio fresco – muito teatral. Levemente afetado. Sarcástico. Mas muito legal. Conversei com ele muito rapidamente, e ele disse que ia deixar meu nome na porta pro show dos Sex Pistols no Eric’s, em Liverpool.
Como todos os eventos legendários a que assisti, o concerto dos Sex Pistols estava semivazio. Havia umas cinco pessoas vestidas como punk, e todas elas se conheciam.
Era como na época do punk em Nova York – havia cem pessoas envolvidas, e todo mundo conhecia todo mundo. O show foi ruim. Foi desleixado. Houve uma pontinha de pentelhação casual, Johnny meio que segurando o microfone e dizendo: “Foda-se o sol!” Ele era muito sarcástico e dançava de um jeito esquisito. Adorei.
Era como se algo de verdade estivesse acontecendo no palco. Era como se eles estivessem vivenciando uma coisa muito excitante. Me senti tipo: “Oh, meu, isso é um evento extraordinário da vida real!”

Bob Gruen (fotógrafo de rock e cineasta): No dia seguinte fui ao loft onde os Sex Pistols ensaiavam e fiz uma sessão de fotos com eles pra Rock Scene. Quando entrei no loft, Steve Jones disse: “Aceita um pouco de chá?”
Eu tinha ouvido falar da reputação da banda antes de chegar na Inglaterra, daí pensei: “Esses caras são completamente normais.” Sabe como é: “Onde é que está a esquisitice?” Fiquei olhando pra eles – ninguém cuspiu no chá, sabe? Não atiraram uma garrafa em mim, nem nada. Era um bando de caras totalmente comuns, sentados tomando chá numa tarde inglesa.
Daí apareceu Johnny Rotten. Ele era um pouquinho estranho porque tinha uma autêntica maldade, aquela negatividade em torno dele, como se estivesse se esforçando para conseguir aquilo. Ele dizia coisas sarcásticas e cinicas realmente surpreendentes. “Uau, me desculpe por estar na sua vida.” Mas todos os outros pareceram sociáveis e muito legais. E Johnny pareceu se acalmar um pouco.
Então comecei a tirar as fotos e sugeri fazer algumas deles tocando no lugar onde ensaiavam, no andar de baixo. Johnny Rotten tinha uma garganta sensível, então eu disse que não precisava cantar de verdade. Fotos sem som, certo? Mas Johnny começou a cantar Substitute, do Who. O que foi maravilhoso, porque eu era um grande fã do Who. Estava tirando fotos e pensando: “O que há de tão estranho nisso? Eles são apenas uma boa banda de rock & roll. Onde está o chamariz? Tipo, quando aparece a parte muito louca?”
Não captei.

Mary Harron: Eu conhecia a Inglaterra, tinha crescido lá, por isso pra mim foi como um cartum que virasse realidade. Quer dizer, não inteiramente. Havia um monte de pose naquilo. Era horripilante – havia aquela gente esquisita e desconexa perambulando por lá. Circulei pelo backstage sem problema. Eu estava muito assustada. Eu era facilmente intimidável. Afinal, era Johnny Rotten.
Mas ele era fascinante. Bem, Johnny era, os outros não. Johnny me protegeu dos outros – Steve Jones e Glen Matlock estavam bêbados e fazendo uns comentários grosseiros pra mim, e Johnny dizia: “Ela é legal, deixem pra lá.”
Eu estava usando minha camiseta da revista Punk, e ele foi muito legal comigo porque eu era uma garota de um fanzine, essencialmente do primeiro fanzine.
Eu tinha ido pra entrevista com uma comitiva, porque tinha conhecido aqueles garotos com calças emborrachadas que pareciam aterrorizantes, mas eram apenas cabeleireiros de Liverpool cujo maior sonho era conhecer os Sex Pistols. Bem, Johnny Rotten ficou meio puto com a comitiva, mas foi muito legal comigo. Ele disse: “Não, parem com isso, ela é legal, estas perguntas são interessantes”.
Lembro de pensar o quão incrivelmente esperto ele era – era uma das pessoas mais espertas que eu já tinha conhecido – alguém muito jovem que tinha um ponto de vista e por algum motivo estava absolutamente no centro desse redemoinho, porque eles personificavam o que estavam representando. Não era papo furado. eles deram respostas completamente claras, profundas, muito espertas, muito seguras, divertidas – eles viam claramente o culto do qual eram os pregadores e sabiam exatamente o que estava rolando naquilo. De todas as entrevistas que já fiz, com certeza a de John Rotten foi a mais impressionante.
Fui com um ex-namorado, que se aborreceu. Ele disse pra mim: “Sinto muito, mas essa coisa toda é um fraude – tudo não passa de onda, arquitetada por Malcolm McLaren.”
Daí ele me disse que eu era uma idiota por ter caído naquela.

Malcolm McLaren: No começo, quando achei que os Sex Pistols não estavam acontecendo, pensei: “Oh, talvez eu faça Richard Hell vir e se juntar ao Sex Pistols. Ou talvez pegue até Syl Sylvain.
Era uma ideia estúpida da minha parte, porque não haveria como Hell ou Syl se encaixar nos Pistols – as sensibilidades deles estavam anos à frente dos Sex Pistols – e os Pistols eram incrivelmente ingênuos. Eles me pareciam muito ingênuos, por isso era assim que eu os tratava. Quer dizer, provavelmente eu era o ingênuo, e aqueles caras eram muito mais informados e conscientes do que eu.
Nem trepei com nenhuma daquelas garotas da cena do punk rock, bem que eu queria ter, mas na época pensei que todas elas fossem inocentes garotinhas virgens!
Não sabia que elas estavam se picando nos banheiros e trepando com um milhão de caras. Eu costumava me virar pros entrevistadores e dizer: “Do que você está falando? Essas pessoas são virgens!” Só porque usam umas porras de umas coleiras de cachorro e eu vendo camisetas emborrachadas pra elas não significa que elas estejam trepando com um exército de caras num ponto de ônibus.”
Eu estava totalmente errado, é claro. Fiquei completamente pasmo ao descobrir quão errado, cinco anos depois daquele episódio. Eu disse: “Quer dizer que de fato você fez todas essas coisas nos banheiros enquanto do lado de fora eu tentava acertar o show? Você estava me dizendo que estava trepando com a mesma garota que Steve Jones? Não pensei que nenhum de vocês estivesse fazendo esse tipo de merda.”
Fiquei estupefato. Ainda estou chocado. Até onde iam as drogas, eu não sabia o que as pessoas estavam usando. Não tinha a menor ideia.
Eu era apenas esse sujeito estranho com aquele sonho louco. Estava tentando fazer com os Sex Pistols o que fracassar em fazer com os New York Dolls. Estava pegando as nuances de Richard Hell, a veadagem pop dos New York Dolls, a política do tédio e misturando tudo pra fazer uma afirmação, talvez a minha afirmação final. E irritar aquela cena rock& roll, era isso que eu estava fazendo.

Mônica Leal fala sobre sua gestão

06 de março de 2010 0

Mônica Leal em Caxias, em março deste ano. Foto: Daniela Xu

Como parte de nosso extenso dossiê sobre os rumos da Cultura no Estado, vamos publicar agora outro aspecto do debate. No Caderno Cultura deste sábado, vocês poderam ler o balanço que a própria secretária Mônica Leal fez de seu período à frente da Secretaria Estadual da Cultura. Por questões de espaço no jornal, a entrevista, concedida por e-mail ao colega Daniel Feix, editor do Segundo Caderno, crítico de cinema e um dos titulares do blog Cine Clube, precisou ser editada. Como prometido nas páginas do caderno, vai abaixo a íntegra da entrevista, na qual a secretária, que já anunciou sua exoneração do cargo em abril para concorrer à Assembleia Legislativa, avalia sua passagem pela Sedac:

Zero Hora – Como a senhora avalia sua passagem pela Sedac? Considera que foi boa? Pôde fazer o que queria fazer ou há algo que gostaria de ter feito que não conseguiu?
Mônica Leal –
Creio que não foi apenas passagem, pois ficará a marca indelével do choque de gestão que implementei na secretaria. O resultado obtido foi o fortalecimento da pasta através do saneamento de suas finanças, em especial a Lei de Incentivo à Cultura (LIC-RS). Os investimentos culturais não acontecem se o caixa estiver deficitário, como o encontrei. Implementei medidas saneadoras e deixei a Sedac em condições de incrementar políticas culturais, com encaminhamentos imprescindíveis como o concurso público que mudará o quadro defasado de funcionários que temos hoje, já que só houve um concurso em 1991; como o projeto de lei Pró-Cultura, que modifica, e muito, o sistema LIC e implementa o FAC (Fundo de Apoio à Cultura), democratizando e socializando os investimentos culturais; como o sistema automatizado na LIC, com mecanismos de controle ágeis e eficientes; como toda a tramitação para essa concretização, que requer processos complexos, dependentes de outros órgãos, secretarias e até de outros poderes. Ficaram muitas coisas a fazer _ algumas ações não foram possíveis de concretizar, mas tenho tranquilidade em afirmar que tudo o que estava ao nosso alcance, a partir dos nossos parcos recursos, tanto humanos como financeiros, foi feito.

ZH – Sua gestão conviveu com um corte de gastos muito grande, e com, inclusive, uma redução no número de pessoas trabalhando pela cultura, sobretudo diretores acumulando a direção de mais de uma instituição. Qual o impacto disso na implementação de uma política cultural pública no Estado?
Mônica –
A redução no custeio a partir de corte de gastos integrou um projeto maior, de política de governo, que todas as secretarias tiveram que aderir. A Cultura é a que detém o menor orçamento. Isso somado ao fato de termos poucos funcionários nos levou a preencher funções técnicas com os cargos destinados às chefias, os chamados Cargos em Comissão, razão pela qual alguns diretores de departamentos acumularam acumularam também a direção de instituições vinculadas aos mesmos. Dá para se ter uma ideia do quão árdua foi essa redução. Nesta gestão começamos, antes de tudo, com investimentos na infra-estrutura da pasta e de suas instituições vinculadas. Não se faz política cultural sem ter uma infra-estrutura consistente e uma estrutura sólida.

ZH – Que tipo de política cultural pública a senhora considera ideal para um Estado como o Rio Grande do Sul?
Mônica –
Uma política cultural acessível às diversas camadas sociais e aos diversos segmentos culturais. Isso inclui o fortalecimento da identidade através do resgate e da proteção do patrimônio cultural, fomentos às atividades culturais, estruturação e manutenção constante de equipamentos, pesquisa e difusão cultural e incentivo às manifestações culturais populares. Nesta gestão conseguimos desenvolver atividades nesta linha como o projeto Viver e Inspirar Cultura, realizado na Casa de Cultura Mario Quintana, que proporciona atividades gratuitas, e os Programas Estruturantes, constituído por atividades de teatro, fotografia e leitura que a Sedac leva a todas as regiões do Estado, além da parceria para a realização das aulas de balê para deficientes visuais, o incentivo à música gaúcha e aos novos talentos em oportunidades como o Verão Sociocultural e os shows da Expointer.

ZH – Quando a senhora assumiu, afirmou que a LIC-RS precisava de um choque de gestão para poder seguir em funcionamento. Por favor, explique que tipo de operação foi realizado.
Mônica –
Ao assumirmos a Sedac, a LIC apresentava um passivo de R$ 14 milhões (recursos a serem recebidos para a realização dos projetos e que formavam uma espécie de fila, atrasando a aprovação de novos projetos). E este era só um dos pontos de descontrole do sistema. A CAGE (Contadoria e Auditoria Geral do Estado) recomendou a suspensão do mecanismo por no mínimo oito meses. Nenhum projeto poderia ser aprovado nesse período. Foi então que a coordenação da LIC fez uma análise detalhada de cada projeto contemplado e que tinha algo a receber neste montante. Foram detectadas ações que ainda não haviam sido realizadas, outras que já haviam sido realizadas _ prescindindo os recursos da lei _ e também produtores em situação de inadimplência junto ao Setor de Tomada de Contas. Conforme tudo foi sendo regularizado e os recursos, liberados, depois de muita dedicação, em 12 de dezembro de 2007, conseguimos zerar o passivo. E garantimos que este problema não voltará, porque a aprovação de projetos pelo Conselho Estadual da Cultura, agora, está limitada à autorização mensal concedida pela Sedac, que planeja a liberação gradual para não ultrapassar o valor anual de renúncia fiscal.

ZH – Como se chegou a esta situação?
Mônica -
Aprovando, anualmente, a concessão de até R$ 80 milhões, quando a verba anual de renúncia de ICMS permitida pela lei era tão somente de R$ 28 milhões. Além disso, havia problemas de inércia administrativa: inexistia análise das prestações de contas que, em sua maioria, eram regularmente entregues após a execução dos projetos culturais. O estoque de projetos aumentava a cada mês a ponto de não haver demanda de pessoal e equipamentos para proceder as análises. Só foi possível retomar o funcionamento da LIC, depois da suspensão de oito meses, porque o então presidente do Tribunal de Contas, Sandro Pires, concedeu-nos um voto de confiança ao tomar conhecimento do nosso planejamento estratégico para sanar a lei. Apresentamos relatórios mensais ao presidente e ao então representante do Ministério Público Especial junto ao TCE, Cezar Miola.

ZH – A senhora considera que organizar as finanças da cultura foi o seu foco principal à frente da Sedac?
Mônica –
Não foquei o saneamento das finanças. Quis atender os anseios da comunidade cultural de acordo com a política do governo legitimamente eleito. Mas, da forma como encontrei a Sedac, não teria como cumprir sequer com a rotina administrativa se não arrumasse as contas. Já no primeiro mês efetuamos consertos e reparos urgentes e imprescindíveis para que algumas instituições pudessem manter as suas atividades. Posso dizer que no primeiro e segundo ano tivemos essas tarefas – arrumar, sanear, regulamentar. No terceiro ano já houve espaço e recursos para investimentos culturais. Entretanto, ocorreu a denúncia e a descoberta de uma fraude, ainda no primeiro semestre (as assinaturas de três secretários foram falsificadas buscando a liberação de recursos em falsas cartas de habilitação). Ora, eu que pauto minha conduta pela lei, tive que novamente focar em três ações urgentes: a primeira foi formalizar a denúncia ao MP e solicitar a sua atuação no sentido de apurar os fatos e os seus responsáveis. A segunda foi adotar medidas administrativas internas para coibir novas falsificações e solicitar auditoria da CAGE, que se instalou junto à Sedac por mais de três meses. E a terceira, mais demorada, foi a avaliação da atual legislação e suas normativas, diagnosticando os mecanismos passíveis de falhas. Essa avaliação redundou na necessidade de alteração da lei. Criou-se um grupo técnico de trabalho, multidisciplinar, para elaboração de um projeto de lei que mantivesse as potencialidades da legislação original, mas que alterasse os pontos nevrálgicos. O resultado foi surpreendente: o grupo propôs um Sistema Unificado de Financiamento Cultural, no qual parte dos recursos obtidos na LIC passassem a capitalizar o FAC (Fundo de Apoio à Cultura), viabilizando assim o financiamento de projetos que não possuem viés comercial. O PL-294 foi protocolado na Assembléia Legislativa em dezembro de 2008. Infelizmente interesses advindos do sectarismo político mobilizaram-se no sentido de que a lei não fosse votada. Participei de discussões, aceitei algumas alterações por meio de emendas e, mesmo assim, continuo aguardando a votação. Não por mim, já que estou saindo, mas por toda a comunidade cultural, seja o autor ou o espectador, que está sendo profundamente prejudicada com a demora na implementação.

ZH – A senhora considera que faltou dinheiro para implementar projetos ou prefere não lamentar a escassez de recursos com que teve de trabalhar?
Mônica -
O problema da falta de recursos nas pastas de Cultura não é só do Rio Grande do Sul, mas da maioria dos Estados do Brasil. Mesmo assim, sempre obtive o apoio do governo para buscar parcerias e obtive êxito em sua maioria, porém, se tivéssemos mais recursos, poderia ter investido em ações culturais. Mas não sou o tipo da pessoa que fica se lamentando. Podemos dizer que a Sedac efetivou parcerias e incentivou inúmeros projetos _ pela LIC. As instituições não ficaram paradas por falta de orçamento, pois as direções usaram de muita criatividade e contaram com o apoio das associações de amigos, que são muito comprometidas e atuantes. Frente ao quadro que encontramos de problemas físicos nas nossas casas, busquei patrocínios para a Cinemateca Paulo Amorim, para a Casa de Cultura Mario Quintana, para o Museu Júlio de Castilhos, para o Margs e o Museu de Comunicação, este com nossa contrapartida considerável advinda do Programa Monumenta (do governo federal, em parceria com a prefeitura de Porto Alegre). Com isso esses equipamentos culturais puderam continuar de portas abertas, manter suas atividades, desenvolver suas programações e receber projetos e propostas da comunidade cultural.

ZH – Por que, na sua opinião, o Rio Grande do Sul não consegue solucionar impasses fundamentais da área cultural como a finalização do Multipalco, a construção do Teatro da Ospa e a construção do novo Cais do Porto? Não me refiro especificamente à atuação da secretaria, mas ao próprio status quo da cultura no Estado, que transcende o poder público: o que faz com que esse tipo de projeto, mesmo sendo importante para o Estado, capaz de ser propulsor de um crescimento na produção cultural, não consiga superar detalhes para ser efetivamente realizado?
Mônica –
Por mais que sejamos um Estado com histórico e tradição de bons níveis de educação e cultura, parece que guardamos isso como um troféu, mas não percebemos que para mantê-los temos que mirar em direção ao futuro e não só colecionar glórias já conquistadas. Creio que falta um pouco de visão desenvolvimentista para abarcar o potencial cultural que temos, que cresce junto com a população e que precisa ser acolhido em programas e espaços. E isso está ligado também ao turismo, à cidadania, à auto-estima. Os projetos citados são o reflexo dessa necessidade que a sociedade aponta e que é condizente com esse potencial que falei. A Sedac está atenta e acompanha os andamentos de todos esses processos, que por uma questão financeira dependem de recursos de leis de renúncia fiscal, de patrocínios e da luta constante de seus administradores. Em 2009, todos esses projetos deram passos adiante: o teatro da Ospa recebeu a licença prévia da prefeitura da Capital, o Multipalco concluiu etapas com ênfase na Concha Acústica e, em relação ao Cais, o projeto que estabelece regime urbanístico para a área foi aprovado pela maioria do plenário da Câmara Municipal de Porto Alegre, em dezembro. Este último projeto, a meu ver, sofreu muito, desde a sua origem, em 1995, com o confronto e a disputa política decorrentes dos diferentes mandatos dos executivos das três esferas: municipal, estadual e federal. Considero o que ocorreu lastimável, pois a população é que perde com isso. Em 2010, creio que se continuará avançando, mesmo frente às dificuldades financeiras do Estado e os excessos de burocracia, que não podem ser superiores à mobilização da sociedade e dos gestores públicos envolvidos.

ZH – Por seus problemas na prestação de contas, o Multipalco foi o projeto que mais exigiu a sua atenção nesta gestão? Como a presidente da fundação que mantém o Theatro São Pedro, Eva Spher, a senhora também se considera decepcionada com o atraso nas obras?
Mônica –
O Multipalco é um projeto muito importante para a cultura do Rio Grande do Sul. É ousado e monumental e isso obviamente atinge um custo que supera a realidade tanto da secretaria quanto da Fundação TSP, daí a necessidade de aportes financeiros originados de formas diversas. Além de recursos orçamentários, foram necessários recursos da LIC-RS e da Lei Rouanet. A decepção de Dona Eva decorre possivelmente do fato de ela desconhecer que a LIC possui regulamentos que balizam a possibilidade de liberação de recursos. O Multipalco foi, sim, beneficiado pela LIC em parte da obra – enquanto tramitou em condições de regularidade no sistema. Ao assumir a Sedac, constatei irregularidades no projeto, o que me impediu de liberar novos aportes de recursos. Busquei todas as medidas preventivas possíveis no intuito de solucionar a questão, tendo em vista a importância desse equipamento para o nosso Estado, mas realmente não houve forma de sanar as irregularidades cometidas. Felizmente o Multipalco continuou com outros patrocínios diretos, advindos de importantes e reconhecidos parceiros e no tempo certo estará funcionando em sua plenitude, mesmo sem o aporte de incentivo fiscal estadual.

ZH – Diante da realidade financeira do Estado, instituições e projetos que ainda precisam se afirmar, como o Museu de Arte Contemporânea e mesmo o pólo de cinema há bastante tempo sonhado pela classe cinematográfica, podem ser de fato implementados?
Mônica -
A luta por um espaço mais adequado para o MAC (que está provisoriamente sediado na Casa de Cultura Mario Quintana) é uma preocupação da Sedac. O museu foi contemplado no projeto do novo Cais do Porto, que já está na prefeitura para os devidos encaminhamentos. A secretaria teve representação ativa na comissão executiva do projeto, garantido o espaço para a instalação do MAC. Com o espaço assegurado e superadas as tramitações administrativas, o MAC terá a sua sede e melhores condições de funcionamento. Quanto ao pólo do cinema gaúcho, houve avanços na questão, com um convênio interinstitucional já firmado. Invariavelmente, projetos da área de cinema, em especial a produção, envolvem, além de recursos financeiros substanciais, questões de tecnologia e mão de obra qualificada. Os aportes maiores decorrem de incentivos e subsídios federais, mas estamos atentos e abertos à discussão. A direção do Instituto Estadual do Cinema participa ativamente da divulgação, do apoio, da discussão e da pesquisa na área cinematográfica.

O Estado perde por não investir

06 de março de 2010 0

Luciano Alabarse em imagem de fevereiro de 2009. Foto: Carlos Edler

Continuamos com nossas postagens especiais sobre a atual situação da Cultura do Estado, desta vez com uma entrevista concedida por e-mail pelo coordenador do Porto Alegre em Cena e figura de destaque no teatro da Capital, Luciano Alabarse, diretor de, entre outros projetos, Hamlet e Antígona.

Zero Hora – Grandes eventos da área cultural do Estado, como o Fronteiras do Pensamento e mesmo a Feira do Livro são resultado da iniciativa privada, mesmo que financiados por leis de incentivo. O Estado abandonou seu papel de fomentador direto em benefício da isenção fiscal?
Luciano Alabarse -
Me parece que é uma característica dos tempos brasileiros, essa aproximação entre Estado e patrocínio através da renúncia fiscal, inclusive em relação a grandes eventos realizados pelo poder público. Todos sabemos que o orçamento da pasta é pequeno, o menor de todos. Então, para que grandes eventos aconteçam, esse foi um caminho encontrado. Como todo o caminho, essa relação precisa ser devidamente pavimentada, através do equilíbrio e da oportunidade de aperfeiçoamento. Que uma pasta que lida com cruciais dificuldades financeiras tente essas parcerias não me parece o problema. Problema, pra mim, é quando se cancelam projetos e benefícios sob a alegação de falta de verbas.

ZH – Em sua opinião, como o Estado chegou na atual situação na área da Cultura, sem dinheiro para investimentos, sem programa definido e com seus aparelhos culturais estagnados?
Alabarse -
Historicamente, não houve no país uma situação muito diferente da atual, talvez agravada com as sucessivas crises econômicas mundiais. O Rio Grande do Sul, há muito, vem perdendo espaço e importância dentro do panorama brasileiro, não só na área cultural. Essa idéia separatista, que nos acompanha há muito, contribui para nosso isolamento – não só geográfico. Trabalho, na parte que me toca, por um Rio Grande mais cosmopolita, menos aferrado às glórias do passado, mais dinâmico em relação às demandas do presente, menos burocrático, menos estagnado – porque, para que haja mudança, é preciso não só ter um diagnóstico realista, mas uma atitude propositiva que mude esse quadro.É muito triste ver que agimos como se nosso Estado estivesse muito bem, quando a dificuldade de produzir e mostrar a produção cultural é cada vez mais afuniladora e dificultada. Pessoas sem perfil para os cargos de liderança na área, sem dúvida, também contribuem para o agravamento desse quadro.

ZH – Houve críticas dos produtores e agentes culturais nos últimos governos a uma ausência de política na área cultural – não há sequer uma reunião com o setor em período eleitoral, ao contrário de outras áreas. Por que parece tão difícil para os governos recentes elaborar essa política? A cultura perdeu mesmo importância no planejamento de governo?
Alabarse -
Há tantos problemas e de tantas ordens que o descaso com a cultura encontra nessas dificuldades a sua legítima defesa. É um verdadeiro absurdo, porque não adianta nada termos ruas asfaltadas, esgotos e obras de infra-estrutura, programas sociais essenciais, sem que se legitime a essência e o direito do nosso público à fruição da arte e da cultura. Fica tudo muito pobre, muito lamentável sem um Estado culturalmente importante.Há uma crise generalizada de lideranças políticas nessa área, há que reconhecer isso, e chamar os políticos a uma compreensão mais exata sobre a importância da cultura na vida cotidiana do cidadão.

ZH – A crise na Cultura, mais do que política ou financeira, é de ideias?
Alabarse -
Boas idéias, sem dúvida, amenizam qualquer agrura econômica. Mas não é bom romantizar esse aspecto. Cultura pode e é uma atividade econômica extraordinária. Hollywood não nos deixa mentir. Então, é preciso compreender que a cultura precisa de verbas, de inteligência, de políticas públicas ativas. O Governo deve, sim, tratar a cultura com mais respaldo e inversão econômica. Do contrário, daqui há pouco, os artistas serão responsabilizados pela falta de investimentos. Mais dinheiro com boas idéias – eis o que poderíamos pleitear aqui.

ZH – O que, em sua opinião, deveria ser feito para que o estado recupere seu papel de fomentador? Ou esse papel não será assumido tão cedo?
Alabarse –
Não tenho paciência com gente apocalíptica, arautos da desgraça e do chororô. Então, é preciso fortalecer a idéia de que, ao não investir mais e melhor na Cultura, quem sai perdendo é o próprio Estado. A cultura é um poderoso agente turístico. Um calendário de eventos realmente significativos, apoiados sem migalhas, é o que fortaleceria e traria vigor e turistas ao Estado, o que nos revelaria ao mundo. Os artistas, os produtores culturais fazem sua parte, alguns realmente de forma expressiva, outros nem tanto. Mas que nossos políticos deveriam ter a inteligência de apostar na vida cultural e no calendário desses eventos significativos, isso é o que é urgente reivindicar. Não esmola, não quinze minutos de atenção, mas uma postura de inteligência pública a serviço de um segmento que, em outras paragens, se revela fonte segura de retorno – emocial, espiritual e econômico.

O Estado da Cultura

06 de março de 2010 1

Uma das grandes dúvidas que assaltam não apenas a mim, mas provavelmente a qualquer um de vocês interessados em Cultura é como a cada troca de governo o discurso oficial para a Cultura continua sendo o da falta de verbas – há uma abordagem econômica para praticamente todas as áreas de governo, e para a da produção e fomento à Cultura e à memória a única coisa que temos é o apertar dos cintos?

Como já escrevemos aqui na quinta-feira, hoje estamos entrando com vigor nesse debate, apresentando neste espaço opiniões e textos sobre os casos mais recentes envolvendo a gestão estadual da Cultura – hoje, como prometemos nas páginas da matéria que já aborda o assunto no Caderno Cultura, vamos publicar duas entrevistas sobre os rumos da Cultura e a íntegra da avaliação feita pela própria secretária sobre sua gestão. Continuaremos ao longo do fim de semana incluindo opiniões e depoimentos de figuras de relevo na cultura do Estado e que já atuaram à frente de instituições fundamentais do setor. A primeira, já que abrimos falando da cultura como economia, será com o economista e professor de Economia da Cultura Leandro Valiati, que fala sobre a Cultura como área de gestão do Estado:

Zero Hora – Grandes eventos da área cultural do Estado, como o Fronteiras do Pensamento e mesmo a Feira do Livro são resultado da iniciativa privada, mesmo que financiados por leis de incentivo. O Estado abandonou seu papel de fomentador direto em benefício da isenção fiscal?
Leandro Valiati —
Em parte sim. O conceito de financiamento à cultura a partir de renúncia fiscal assume que existem menores custos de transação no fato dos recursos partirem da iniciativa privada diretamente ao realizador cultural, com posterior desconto do imposto devido pelo financiador. Antecipa-se recursos com uma agilidade muito maior do que um projeto tramitando nas instâncias públicas e ainda nos casos em que há contrapartidas das empresas, se acrescentam recursos privados. Contudo, o problema principal da forma como esse tipo de mecanismo é utilizado em escala nacional e aqui no estado é que os governos têm confundido um instrumento de política cultural (LIC, Rouanet) com apolítica cultural.
A política cultural tem que responder a um programa, um pacto da socidedade em formar seus valores e objetivos com relação aos bens culturais que deseja e para a execução disso é preciso que o Estado possua poder instrumental sobre esse produto. No formato atual das leis, que assumem importância majoritária no orçamento do segmento, o Estado perde poder de atuação que é tranferido às empresas que decidem para quem, quando e onde serão produzidos os referidos bens culturais. Reforço que as leis de incentivo são um instrumento importante, mas jamais podem substituir investimentos diretos do Estado, que devem amparar particularmente aquelas atividades culturais que não tem um poder de atração aos investimentos de impresas privada, seja pelo baixo poder de marketing ou mesmo pela dificuldade em se aproximar de investidores. Lembramos sempre que o recurso privado investido nos sistemas de leis de incentivo, descontando as contrapartidas quando existem, é recurso público muitas vezes utilizado em total consonância com os objetivos das empresas privadas. Mas isso é permitido pelo sistema, pelo que as empresas apenas fazem seu papel dentro do que é legal e permitido. Logo, o ajuste deve ser dar a partir de uma reavalização do sistema como um todo.

ZH – Em sua opinião, como o Estado chegou na atual situação na área da Cultura, sem dinheiro para investimentos, sem programa definido e com seus aparelhos culturais estagnados?
Valiati –
Bem, é sabido que nos últimos anos a situação financeira do estado era muito difícil, pelo que passamos por um inevitável ajuste recente. Naturalmente, setores com menor apelo (e não menos importância) em termos de gerações de multiplicadores de emprego e renda, sofreram mais com o ajuste de contas. A questão passa por uma lógica maior: se é sabido que a cultura gera emprego e renda qualificados, inserção social e uma sociedade mais madura, crítica e com poder de reação, por que é deixada de lado em momentos de crise, tal qual a “era das trevas” do governo Collor? Para mim, a explicação passa por três pontos: a) falta de estudos e estatísticas que explicitem os retornos quantitativos do investimento à cultura que concedam poder de barganha à pasta diante de outras (agricultura, indústria, etc); b) um desequilíbrio no sistema de financiamento, que legou a decisão às empresas financiadoras que orientam suas ações a partir de seu plano de marketing; c) por fim, uma certa passividade da secretaria de estado ao propor ações inovadores (parcerias públicos privadas, OSCIPS, pactos sociais pela diversidade e fortalecimento de ações culturais no estado).

ZH – Houve críticas dos produtores e agentes culturais nos últimos governos a uma ausência de política na área cultural – não há sequer uma reunião com o setor em período eleitoral, ao contrário de outras áreas. Por que parece tão difícil para os governos recentes elaborar essa política? A cultura perdeu mesmo importância no planejamento de governo?
Valiati –
Sim, em boa parte pelas questões que coloco acima e soma-se a isso mais um elemento: cultura não é assistência social. É uma área que pode ter retornos econômicos diretos se bem conduzida pelo poder público, explorando as vantagens comparativas culturais do Rio Grande de Sul que são muitas. E o saldo disso é, para além do emprego, renda e tributos gerados, saldos de valor cultural que são ainda que de mais difícil mensuração são facilmente perceptíveis, tais como autoestima e formação de capital humano.

ZH – O que, em sua opinião, deveria ser feito para que o estado recupere seu papel de fomentador? Ou esse papel não será assumido tão cedo?
Valiati –
Deve-se repensar a política cultural como um todo. Ou seja, considerar cada instrumento a partir de seu objeto. Leis de incentivo para mercados incompletos e iniciativa privada sem recursos públicos para os mercados completos. Quando os governos entenderem que cultura tem um lado de mercado completo (shows populares, filmes”blockbusters” ou “globobusters”, atividades que se autofinanciam com a venda de ingressos) e outro lado de mercado não completo (ópera, artes visuais, etc) trará mais eficiência ao uso de recursos públicos escassos. E não é questão de gosto, mas sim de maximizar a eficiência do recurso público a partir do que a sociedade demanda como bem cultural e a partir de bens de mérito ( que a sociedade muitas vezes não demanda, mas são relevantes). Tenho todos os discos do Caetano Veloso, mas enquanto o sistema permitir que recursos públicos sejam aportados a shows desse quilate, o que sobra para a Banda de Pífanos de Caruaru? O atual sistema trata como iguais os desiguais, gerando graves distorções. Assim, para que o Estado recupere seu papel de fomentador é preciso inovações que tratem do sistema como um todo e não um acúmulo de instrumentos sobre uma estrutura já corroída (vales-cultura, novos aportes à LIC, etc). E isso passa por dois elementos cruciais: maximizar a eficiência dos recursos públicos existentes (através de estudos de impacto e de efetividade que fornecem instrumentos aos gestores, reestruturação de leis de incentivo) e de uma nova relação com o setor privado (OSCIPS, parcerias públicos privadas).

Vamos trocar umas ideias?

04 de março de 2010 2

Não deixem de visitar o seu blog literário favorito neste fim de semana. Vamos transformar o Mundo Livro em um grande fórum para discutir as políticas da Secretaria Estadual da Cultura e a estagnação do atual cenário cultural – cujos sinais mais recentes foram a demissão de Voltaire Schilling da direção do Memorial do Rio Grande do Sul e o fechamento da Sala Norberto Lubisco, espaço cinematográfico na Casa de Cultura Mario Quintana que levava o nome de um dos principais fotógrafos do cinema gaúcho. A Norberto Lubisco foi fechada no início do ano. Dos funcionários do cinema da CCMQ, antes em número de 10, três foram demitidos, reduzindo o número para sete. Mesmo o perfil peculiar da sala, que abriu com a proposta de se tornar um espaço para filmes de arte em Porto Alegre, já havia sido desvirtuado há tempos, como provam os  últimos filmes exibidos na Norberto Lubisco: Código de Conduta e Um Namorado para Minha Esposa, na semana que se encerrou em 20 de dezembro.

O fechamento rendeu diversas manifestações na internet – um e-mail assinado pelo poeta e radialista Marcelo Noah foi amplamente retransmitido na última semana de fevereiro (você pode ler o texto completo neste post do blog O Dilúvio) e o próprio filho de Lubisco, Ricardo, criou, em seu blog Uma Dose de Cinema, um espaço para protestar contra o fechamento – que, indiretamente, extingue uma bela homenagem da comunidade cultural a um nome fundamental de sua história.

Os dois episódios geraram uma ampla discussão sobre qual deve ser o papel de uma secretaria de cultura no nosso cenário cultural – e muitos protestos contra a atuação da atual administração. Para refletir um tanto sobre isso, teremos, a partir deste sábado e avançando ao longo da próxima semana, uma série de postagens especiais sobre os rumos da Cultura no Estado, entrevistas, textos opinativos e depoimentos de figuras relevantes de nossa cultura sobre a atual situação da Cultura. Acompanhem e contribuam para o debate – na caixa de comentários ou pelo e-mail do editor deste blog: carlos.moreira@zerohora.com.br.

Uruguai em perspectiva

27 de fevereiro de 2010 0

DO CADERNO CULTURA DESTE SÁBADO

No dia 1º de março, José Pepe Mujica toma posse na presidência do Uruguai. Nos anos 70, a transição uruguaia da democracia à ditadura foi acompanhada de perto pela imprensa brasileira, como mostram imagens feitas pelo editor de Fotografia de Zero Hora, Ricardo Chaves.

Décio e Brasília

21 de fevereiro de 2010 0

Tive um pequeno problema ao programar os posts do blog para entrar no ar e este texto, que deveria ter ido ao ar ontem, acabou por só entrar agora, bem como os outros dois. Lamento o atraso e desejo boa leitura. O texto abaixo, do historiador Décio Freitas, analisava a criação de Brasília, e serve como complemento ao que vocês leram no Cultura sobre os 50 anos da cidade:

A alma de uma desalmada cidade

Os belos edifícios de Brasília não compensam o erro da mudança da Capital para o Planalto

DÉCIO FREITAS *

Numa das suas viagens a Porto Alegre, no final da década de 50, o presidente Juscelino Kubitschek concedeu, no Palácio Piratini, uma entrevista coletiva, à qual estive presente na condição de repórter político do órgão local dos Diários Associados. Finda a entrevista, acenou-me para que ficasse e perguntou-me se estaria livre no seguinte final de semana. Quando respondi afirmativamente, convidou-me para visitar as obras de construção de Brasília. O presidente havia sido informado dos meus artigos contra a nova Capital e tentava assim persuadir-me da validade do projeto.

Passei um final de semana no rústico Catetinho, acompanhando o presidente nas suas entusiasmadas e incansáveis andanças por aquele imenso canteiro de obras, onde o vento fazia gigantescos redemoinhos de poeira vermelha.

Todos que conheceram Juscelino sabem que era impossível não simpatizar com ele. Ao me despedir, tratei de ser gentil, dizendo que achava tudo aquilo muito “interessante”. Mas continuei a achar um erro a transferência da Capital. Passadas quatro décadas, não mudei de opinião.

Porque construir uma nova Capital, justamente no Planalto Central? Publicamente, dizia-se que era para “interiorizar” o país. À boca pequena, argumentava-se que no Rio, cidade de praias e indolências tropicais, a burocracia não trabalhava e jamais trabalharia. Isolada no Planalto Central, ela se dedicaria ao serviço público. Igualmente à boca pequena, propalava-se que a mudança fora decidida pelas Forças Armadas, em nível de Estado Maior, porque o poder central não podia continuar à mercê das acomodações e pressões populares do Rio, que haviam atingido seu ponto culminante no momento do suicídio de Getúlio Vargas. Para Juscelino, pessoalmente, seria um auto-monumento.

As colossais despesas da construção de Brasília constituíram o germe das futuras hiperinflações brasileiras. Inaugurou-se a era da corrupção em grande escala. A previdência, a saúde e o ensino foram brutalmente sacrificados. Desestabilizou-se a cidade do Rio de Janeiro, em conseqüência da perda de uma gigantesca massa de salários e empregos, afora a perda dos aparelhos de segurança pública que possuía como Capital.
Uma das funções da capital consiste em unificar política e culturalmente uma nação. Ao passo que o Rio cumpria esta função, Brasília sofre de congênita impotência para exercê-la. Não apenas porque é uma cidade sem passado, sem tradição e sem história, habitada por desenraizados, mas sobretudo porque, compondo-se uma população, esmagadoramente, de agentes do Estado, não possui uma sociedade civil. Não tem identidade ou produção culturais. Quer dizer, é uma cidade sem alma urbana. Em nada – na estrutura urbana, nos costumes, na mentalidade – reflete o país. Em lugar de articular, desarticula a vontade e a coesão nacionais. Seu centripetismo governamental e administrativo gera centrifugismo político e cultural.

Vista do alto, Brasília se afigura um autorama. Caso único no mundo: uma cidade sem vida urbana. Não tendo passeios públicos, desconhece a massa urbana. Sem sociedade civil e sem vida urbana, não pode ter uma opinião crítica e fiscalizadora dos negócios públicos. A burocracia não só inchou mastodonticamente, como se tornou ainda mais parasitária. Não por acaso, o Plano Piloto está organizado corporativamente em suas superquadras.

O Rio, como segundo pólo industrial do país, podia quando Capital se auto-sustentar. Brasília, não tendo produção econômica (para evitar o perigo operário, decidiu-se que não teria indústria), precisa ser totalmente mantida pelo país – e não custa barato. Mergulhada na solidão, não repercutem nela as pulsações econômicas, sociais e culturais do país.

O erro tornou-se irreparável. Nem vale a pena pensar no custo de um retorno da Capital ao Rio. E como nunca a sociedade poderá controlar democraticamente semelhante Capital – na verdade uma feitoria administrativa -, só resta reclamar uma desconcentração federativa de poderes.

A única compensação que, em rigor, nos oferece Brasília, é representada pelas obras-primas arquitetônicas de Oscar Niemeyer: o Palácio da Alvorada, a Catedral, o Palácio dos Arcos e outras mais.

Trata-se de uma compensação parecida à das criações geniais do Aleijadinho. O Brasil produziu metade do ouro que saiu das Américas no período colonial. Fundamentalmente, produzia-se ouro para comprar escravos e compravam-se escravos para produzir ouro, o que prova que a escravidão, mais do que uma desumanidade, era uma imbecilidade. A herança imperecível foi a obra de Antônio Francisco Lisboa. O que não quer dizer que o Aleijadinho legitimasse a escravidão. A esfera da arte é autônoma. A genialidade arquitetônica de Niemeyer é a solitária alma da desalmada cidade, mas não pode ser invocada para legitimar o erro político da instalação da Capital no Planalto Central.

* Historiador

Pedaços de pedras

23 de dezembro de 2008 1

Então, como se sente? Você realmente esperava queGuerra nas Estrelas fosse decolar assim?
De jeito nenhum. Eu esperava que Loucuras de Verão fosse esse filme de sucesso moderado e fizesse mais ou menos US$ 10 milhões — que pode ser considerado, em Hollywood, um sucesso —, e então fiquei pasmo quando se tornou esse enorme sucesso. esse arrasa-quarteirão. E aí eles disseram: “Bem, puxa vida, como você vai superar esse aí?”. E eu disse: “Sim, eu acertei no alvo, foi um golpe de sorte”, Nunca achei que fosse acontecer de novo. Depois de Loucuras, na verdade, eu estava quebrado. Eu estava com centenas de dívidas com tantas pessoas que ganhei muito menos dinheiro no loucuras do que no THX 1138 (primeiro filme dele). Entre estes dois filmes, mais ou menos quatro ou cinco anos da minha vida, e após os impostos e tudo o mais, eu vivia com cerca de US$ 9 mil por ano. Foi realmente muita sorte minha mulher estar trabalhando como assistente de montagem. Isso foi a única coisa que nos manteve. Então, finalmente, eu consegui um acordo por uma soma insignificante de dinheiro para desenvolver Guerra nas Estrelas.

Um bom material jornalístico depende de uma história interessante, de um texto de qualidade, de informações relevantes e/ou saborosas e de um trabalho consistente de edição. Muitas vezes, falta alguma coisa nessa mistura, e sabemos que um material informativo era muito bom quando ele sobrevive à mais porca das edições. É o caso da coletânea As Melhores Entrevistas da Rolling Stone, organizada por Jann S. Wenner e Joe Levy (Larousse). É a reunião em livro de 40 grandes entrevistas publicadas entre 1968 e 2005 pela revista que se tornou bíblia do rock e do comportamento americano. Estão lá Pete Townshend, Ray Charles, Kurt Cobain, Jack Nicholson, Patti Smith, Keith Richards, John Lennon, Bob Dylan, Bono Vox, Johnny Cash, George Lucas (no trecho acima, publicado em 1977, analisando ainda meio estupefato o que havia acontecido após o estouro de Guerra nas Estrelas e as dificuldades até ali), Phil Spector, Brian Wilson, Mick Jagger, entre outros.

Um repertório inegavelmente consistente de entrevistas feitas pela publicação ao longo dos anos, mas jogadas no livro de qualquer jeito. A única informação adicional sobre as entrevistas, além das perguntas e respostas, é a data de publicação. Ou seja: não há menções ao contexto da entrevista, não há o “olho”, que em jargão jornalístico é como se chama aquele texto de apresentação no qual o repórter dá alguns detalhes saborosos de como o papo se desenrolou, não há sequer uma contextualização da vida do artista na época, em que ponto sua carreira estava, o que já havia feito até então, tudo sai direto das perguntas e respostas, que nem sempre repassam a vida inteira do cara (principalmente nas mais recentes).

À parte isso, a tradução de Emanuel Mendes Rodrigues tem toda a pinta de um trabalho apressado, no qual se perde qualquer noção de elegância textual (o trecho mesmo de Lucas que vocês lêem na abertura do post padece de um excesso de pronomes pessoais desnecessários em português e da abundância da construção “esse filme” para um filme que ainda não havia aparecido na conversa. É uma fórmula comum em inglês mas deselegante e um tanto truncada em nossa língua). Mais adiante, na entrevista com Spike Lee, o primeiro filme de sucesso do cineasta ganha o nome de Lute pela Coisa Certa, quando o nome comercial do filme no Brasil era, como muitos aí devem saber, Faça a Coisa Certa. E o tradutor ainda sapeca na continuidade da mesma frase que o filme foi uma “examinação” de diferenças superficiais que mantêm os negros à margem da sociedade americana.

E ainda assim, com esse trabalho editorial pobre e leniente, com essa tradução desleixada, as entrevistas reunidas no livro são um assombro. Estão lá Pete Townshend, o líder do The Who, exorcizando a infância difícil e o trauma do seu proeminente narigão; Jim Morrison analisando a repercussão de algumas de suas declarações bombásticas e mostrando-se, em vez do malucaço que todo mundo acha, um artista com uma esperta percepção de mídia e um talento para manipular seus entrevistadores; John Lennon dizendo que George Harrison era um ótimo guitarrista, mas que ele, Lennon, preferia seu próprio estilo, que não era tão bom mas fazia a guitarra “falar”. David Letterman assumindo que seus relacionamentos são prejudicados porque ele é “bêbado e chato”. Entrevistas nas quais o entrevistado se obriga a se desnudar diante do entrevistador, seja pela cumplicidade (no caso da maioria), seja no caso do confronto eventual (como a já citada entrevista de Spike Lee).