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Posts na categoria "Debate"

Sobre as vidas dos outros

03 de novembro de 2013 0
Biografias tem atraído interesse do público na Feira. Foto: Carlos André Moreira

Biografias tem atraído interesse do público na Feira. Foto: Carlos André Moreira

Quando parece que ninguém mais aguenta falar sobre a polêmica das biografias, um fato novo reacende o debate, como foi o caso do artigo de Caetano Veloso no Globo deste domingo criticando a aparente mudança de postura de Roberto Carlos. Ambos integram o Procure Saber, que tem se posicionado a favor da manutenção dos artigos do Código Civil que exigem autorização do biografado para publicar biografias.

Na Praça, um dos efeitos insuspeitados da polêmica parece ter sido uma procura maior do público justamente por… biografias. Embora o ramo do gênero dedicado a artistas pop sempre tenha atraído o interesse, a procura parece agora ser mais ampla.

– Sempre vendo bem biografias de músicos de rock. Há anos que a do Michael Jackson é muito procurada. Figuras da realeza também costumam despertar interesse. Mas este ano tem muita gente vindo atrás do Getúlio ou de qualquer biografia, independente de gênero – diz o livreiro Vitor Zandomeneghi, da livraria Terceiro Mundo.

Na Praça, é fácil encontrar um bom punhado de biografias não autorizadas publicadas no estrangeiro, principalmente nos EUA, onde a biografia não oficial é praticamente um gênero editorial próprio. Há desde a história do Led Zeppelin,
Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra, que praticamente encerrou a amizade entre Mick Wall e o guitarrista Jimmy Page depois de publicada, até mais de uma dedicada a Justin Bieber (o tempora…) e a algo chamado The Wanted, que julgo ser um grupo musical, mas não tenho certeza.

Justamente pela natureza candente da discussão no Brasil, é mais difícil encontrar biografias não autorizadas nacionais. Há, é claro, a de José Dirceu escrita por Otávio Cabral, e não muito mais. Gilberto Gil, uma das vozes do grupo Procure Saber, pode ser encontrado em Gilberto Bem Perto – biografia autorizada pelo músico e escrita em colaboração com Regina Zappa. Há a biografia de Tim Maia  escrita por Nelson Motta e autorizada pela família do “síndico”. É impossível, em um rápido passeio pela Praça, não lembrar de uma declaração de Paulo César Araújo, autor da recolhida Roberto Carlos em Detalhes: do jeito que o Procure Saber apresenta a coisa, parece que há uma indústria inteira de biografias não autorizadas a acossá-lo de todos os lados. Pelo que se vê nas bancas da Feira, a impressão não se confirma.

Feliciano e Castro Alves

05 de abril de 2013 0

Castro Alves quando jovem. Fonte: Wikicommons

Cada vez mais enrolado nas confusões provocadas a cada vez que expõe o pântano intelectual que é sua “teologia”, o pastor Marco Feliciano, inacreditável presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, ganhou esta semana uma daquelas defesas que parecem ter sido escritas pelos adversários só para sacanear. Marisa Lobo, entre outras coisas autointitulada “psicóloga cristã” e proclamada responsável por “curas de homossexuais”, resolveu sair em defesa da tosquice institucional do pastor Feliciano. Em um blog gospel, ela publicou um texto que vem sendo bastante compartihado pelos defensores do deputado do PSC nas redes sociais – em número quase igual, os críticos ficaram um pouco perplexos, eu incluído.

No artigo, aqui, para quem quiser ler, Marisa Lobo vai buscar a mais improvável das defesas para Feliciano: os poemas abolicionistas de Castro Alves. Recapitulando o caso em um miniflashback: Marco Feliciano aventou no twitter, em 2011, que a população negra se tornou cativa da população branca porque os africanos descendem de um “ancestral amaldiçoado por Noé” – Canaã, para ser mais preciso. “Sobre o continente africano repousa a maldição do paganismo, ocultismo, misérias, doenças oriundas de lá: ebola, aids. Fome… Etc“, escreveu também o deputado. Que, de lá para cá, não mudou nada de ideia, tanto que já apresentou a mesma tese ao STF.

Marisa Lobo agora desencava Castro Alves, o “poeta dos escravos”, para defender as declarações de Feliciano, fazendo uma maçaroca descontextualizada de uma série de estudos críticos literários para sustentar seu ponto de vista. O que não deixa de ser ao mesmo tempo muito irônico – e muito errado.

Feliciano é um avatar das trevas que assolam o Brasil, e Marisa Lobo é alguém que contraria as próprias normas de sua profissão (não foram poucas as advertências que ela já recebeu, emitidas pelo conselho de seus pares), mas, tirando minha antipatia pessoal e minha manifestação de veemente crítica a tudo o que representam, não tenho muito o que fazer. Agora, dado o uso abastardado que ela faz da literatura em causa própria, acho que tenho uma ou duas coisas a dizer sobre isso.

Para começar: a poesia de combate ao escravismo escrita por Castro Alves era uma poesia militante e panfletária – e aqui estes termos não carregam o tom pejorativo que a palavra ganharia ao longo dos mais de cem anos que separam a morte do poeta dos dias atuais. Voltaremos a esse ponto. Como lembra Alberto da Costa e Silva, um dos maiores especialistas brasileiros em África e biógrafo do poeta para a coleção “perfis biográficos” da Companhia das Letras: “era como poeta político que ele gostava de falar às grandes plateias. E que ninguém censure esta expressão, poeta político. Castro Alves via-se como tal, desejoso de, com seus versos, mudar o país e a vida” (2006, p. 98). Castro Alves, era panfletário porque seus poemas eram assumidamente “peças de campanha”, fazendo com essa qualificação um desvio anacrônico de mais de século para usar este termo da linguagem político-publicitária contemporânea. Para mobilizar seus ouvintes, a poesia de Castro Alves era escrita com recursos formais da poesia épica e da mais refinada oratória – com o objetivo declarado de que cada verso vibrasse uma corda emotiva no ouvinte, provocando a compaixão quando ao destino dos escravos. Logo, acreditar que a poesia de Castro Alves, composta em situação de apoio a uma causa há mais de um século sirva para justificar tosquice intelectual em pleno século 21 (é Marisa Lobo quem diz que a poesia de Castro Alves “prova” que não há racismo nas manifestações do deputado) é levar a exegese um pouco longe demais.

Outro ponto a salientar é que, apesar da qualidade dos recursos retóricos e musicais de sua poesia, Castro Alves não manjava um ovo sobre a África e o negro que pretendia escrever – um argumento expresso pelo mesmo Costa e Silva na biografia citada há pouco. De acordo com Costa e Silva, embora animado por genuíno ímpeto solidário e ardendo de um fogo revolucionário legítimo que via no drama da escravidão uma das chagas da sociedade, Castro Alves não era o poeta dos escravos, mas o poeta da libertação dos escravos. A diferença é sutil, mas significativa, dado que a leitura atenta dos poemas compilados após a morte do autor no volume Os Escravos (e não Navio Negreiro, como Marisa Lobo o nomeia), mostra que o próprio ‘Homero da abolição” fazia uma ideia bastante equivocada daqueles em nome de quem falava, ou pretendia falar, e que sua visão do continente africano era ditada por um imaginário que via na imensidão heterogênea da África uma desconcertante homogeneidade em nada correspondente à realidade.

Castro Alves via, em seus versos, o africano, negro, escravizado no Brasil, como um produto de uma cultura que na verdade era a do norte da África, e não das nações de onde os escravos haviam sido trazidos. Os Escravos reúne 36 poemas, 24 deles de cunho abolicionista e, portanto, constitui um testamento da vocação política panfletária que o levara à tribuna em defesa da abolição. Porém, embora prorrompa em brados urgentes sobre a questão do negro, o que se tem em suas páginas é a visão com que o branco representa o sofrimento do negro. Castro Alves não fala do negro escravo brasileiro, algo que fica muito claro ao se tomar como exemplo o poema de título A Canção do Africano. Logo nas primeiras estrofes, Castro Alves faz um negro cativo lamentar de saudades de sua terra:

“Minha terra é lá bem longe
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!
O sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!
Aquelas terras tão grandes,
tão compridas como o mar,
com suas poucas palmeiras
dão vontade de pensar.”

A terra de origem do africano do poema é descrita como uma imensidão arenosa castigada pelo sol árido. Um cenário, dizem os versos, de “poucas palmeiras”. O fato de ele qualificar a terra brasileira em que se encontra como “mais bonita” que a de origem é justificável pela licença poética, contudo, os demais pontos da descrição entregam o equívoco: sim, é a África, mas não necessariamente a África do negro trazido para o Brasil. Com tais detalhes, a paisagem descrita evoca outra região, não, por exemplo, Angola que também convive com clima semi-árido, porém, as amplidões do Saara. Castro Alves está, de fato, descrevendo o norte da África, sua paisagem desértica e mesmo seus habitantes, retratados antes como beduínos do que como os núbios escravizados no Brasil.

Também o entendimento a respeito de elementos da cultura e da identidade do africano sobre quem Castro Alves escreve é misturado com os próprios valores do poeta e da sociedade de seu tempo. O poema Mater Dolorosa, do mesmo livro, revisita um mote recorrente da poesia abolicionista do período: a mãe que, obrigada a ver o filho cair nas mãos do senhor para ser vendido, preferiria, em vez disso, matá-lo. É um poema em que Castro Alves faz uma mãe africana imaginar seu filho no céu, e pede perdão direto ao Deus cristão pelo seu ato, Esse céu é a ideia cristã e com evocações virgilianas do jardim celeste, bastante diversa do vários conceitos para a morte formulados no continente africano.Encontraremos situação semelhante no mesmo poema, quando Castro Alves volta a incorrer em uma representação aparentada com a religiosidade cristã e católica predominante em seu tempo:

Perdão, meu filho… se matar-te é crime…
Deus me perdoa… me perdoa já.
A fera enchente quebraria o vime.
Velem-te os anjos e te cuidem lá.

Outra vez encontramos elementos da iconografia e do imaginário simbólico cristão, como anjos velando as almas dos “inocentes” (o termo havia sido usado para definir o bebê morto já na estrofe anterior) e um Deus que perdoa atendendo a um pedido direto do suplicante – e não pelos complexos rituais de equilíbrio e compensação da África real. Em parte, isso pode ser atribuído ao papel panfletário dos versos de Castro Alves, uma vez que seus poemas eram peças de divulgação do ideário abolicionista que deveriam se comunicar com o público, e, portanto, deveriam apelar para o mundo como seus ouvintes o conheciam. Mas não se pode afastar também o imaginário do próprio poeta, um jovem entusiasmado e fruto de seu tempo.

Marco Feliciano, não tão jovem, também é fruto de seu tempo: é a ascensão de um pensamento conservador e  manipulador, que não titubeia em se apropriar do que parece conhecimento para justificar o que, no fundo, é apenas ignorância.

Os termos do debate

12 de março de 2013 0

Gravura O Poeta Angustiado, de William Hogarth

Primeiramente, vamos a um texto publicado por Richard Steele no jornal inglês Guardian, condenando o hábito da leitura como puro e simples entretenimento:

“É um jeito duvidoso de ler (…) que naturalmente nos induz a um modo indeterminado de pensar (…) Aquele conjunto de palavras que se chama estilo fica totalmente aniquilado (…) A defesa comum dessas pessoas é que não têm na leitura outro propósito além do prazer, o qual, creio eu, devia brotar mais da reflexão e da lembrança do que se leu do que da transitória satisfação do que se faz, e nosso prazer devia ser proporcional a nosso proveito”.

Outro articulista, Samuel Croxall, externou no prefácio de uma coletânea sua preocupação pelo que considerava a corrosão da memória provocada pelo modo predominante de leitura contemporânea e pelo alto número de concessões que os escritores estariam dispostos a fazer em busca de maior público:

“aquelas descobertas que envolvem e possuem (a mente) da maneira mais eficaz são obtidas sem o menor esforço, a imaginação tem a maior parte e o assunto é evidente a nossos sentidos (…) E assim são as narrativas de ficção, que devem ser compreendidas sem grande esforço da mente  ou o exercício de nossa faculdade racional e onde será suficiente uma forte fantasia, com pouco ou nenhum ônus para a memória”

Outro escritor, este bem mais conhecido (digo quem é daqui a pouco), assim se expressa ao reclamar das imposições do mercado sobre os autores:

“Escrever (…) tornou-se um ramo considerável do comércio inglês. Os livreiros são os patrões fabricantes ou empregadores. Os diversos escritores, autores, copiadores, subescritores e todos os outros que operam com pena e tinta são os trabalhadores empregados pelos ditos patrões fabricantes.”

Essa corrida pelas graças do público, como não poderia deixar de ser, tem como resultado ondas mercadológicas que tentam reproduzir nas estantes os fenômenos de venda, postura criticada em outro texto, do também inglês James Ralph:

A produção de livros é o negócio que faz o livreiro prosperar: as normas do comércio obrigam-no a comprar o mais barato possível e vender o mais caro possível (…) sabendo bem que tipo de mercadoria mais se presta ao mercado, ele faz suas encomendas de acordo com isso; e é tão inflexível ao determinar o prazo da publicação quanto ao calcular o pagamento.
Isso esclarecerá bastante os paroxismos da imprensa: o livreiro sagaz sente o pulso dos tempos e, de acordo com o ritmo, decide não curar, mas estimular a doença: enquanto o paciente continua a engolir, ele continua a ministrar; e ao primeiro sintoma de náuseas, muda a dose. Daí a cessação de todos os carminativos políticos e a introdução das cantáridas sob a forma de contos, novelas, romances, etc….”

O grande número de autores dedicados a escrever, não somente aqueles com pendor profissional para tanto, também já foi avo de crítica ácida de outro autor inglês:

“A época atual bem pode ser denominada, com grande propriedade, a era dos autores: pois talvez nunca tenha havido uma época em que homens de todos os níveis de capacidade, todo tipo de instrução, toda profissão e emprego se dedicaram com tamanho ardor à palavra impressa

O que chama a atenção em todos os fragmentos acima,  sobre cuja autoria fui deliberadamente lacônico ou impreciso, é que são todos textos publicados no século 18.  O primeiro foi publicado sim no Guardian, mas não no que conhecemos hoje, e sim em um periódico de mesmo nome que circulou apenas durante alguns meses de 1713. O segundo é de Croxall no prefácio do volume Select Collection of Novels and Histories, organizado por ele em 1720. O terceiro é de Daniel Defoe, autor de Robinson Crusoe e Moll Flanders, e foi publicado em 1725. O quarto é um excerto de The Case of the Authors, de 1758. E o último foi publicado em 1753 no periódico The Adventurer pela maior autoridade de seu tempo nos trabalhos de Shakespeare, Samuel Johnson.

Todos esses trechos estão no clássico estudo A Ascensão do Romance, de Ian Watt (e por isso escolhi a gravura que ilustra este texto, a original que baseia a capa da edição brasileira da obra). O que não deixa de ser engraçado. Para uma obra que mapeia com tanto critério e minúcia as circunstâncias específicas no século 18 em que os autores Daniel Defoe (1660 – 1731), Samuel Richardson (1669 – 1761) e Henry Fielding (1707 –  1754) deram, na visão de Watt, origem ao romance realista que seria desenvolvido no século seguinte, não deixa de ser curioso que algumas declarações ali transcritas, com outros termos e talvez uma forma um pouco menos rebuscada, também são usadas até hoje para outros tópicos do debate literário: o modo contemporâneo de leitura como a origem de uma geração sem  concentração e sem memória, a pressão do mercado sobre os escritores para adequar-se ao gosto do público, as “ondas” nocivas de livros medíocres que tentam “administrar nova dose” de algo em que o leitor está viciado.


Ficção policial na Sala dos Jacarandás

30 de outubro de 2011 0
Foto: Fernanda Grabauska

Samir Machado de Machado, Lu Thomé, Carlos André Moreira e Carlos Orsi. Foto: Fernanda Grabauska

Por Fernanda Grabauska

O gênero policial é influência inesgotável para a cultura pop. Por exemplo: o Dr. House, da série hit que leva o sobrenome da personagem, é uma releitura médica de Sherlock Holmes – que, por sua vez, foi inspirado em um médico escocês. E foi o romance policial, com suas escolas particulares, seus grandes autores e sua prestidigitação psicológica o alvo da discussão da mesa Crime e Mistério no Século 21, na Sala dos Jacarandás do Memorial do Rio Grande do Sul.

Os headliners, já mencionados pelo Carlos André aqui, debateram a cronologia do gênero policial, que começa a tomar forma com Edgar Allan Poe e Wilkie Collins e explode com as sagas de M0nsieur Poirot e Miss Marple, de Agatha Christie, e, principalmente, com os detetives Sherlock Holmes e  John Watson, criados por Arthur Conan Doyle em um misto de inspiração ficcional e real. Os nomes dos personagens vêm do conto A Aparição da Senhora Veal, de Daniel Defoe, e a personagem do detetive Sherlock é inspirada pelo médico escocês Joseph Bell, do qual o próprio Conan Doyle foi aluno e estagiário.

Um escritor que fez a própria escola foi o belga Georges Simenon, pai do Comissário Maigret, investigador cujo método particular marca também uma igualmente particular narrativa: algo similar a um quebra-cabeças. Maigret chega à cena do crime, que pode ser a locação mais variada, irrita-se com as versões que não batem, com as peças que não se encaixam, espairece – e aí é como se algo clicasse em direção à solução do crime.

Mas não é só a partir da visão do detetive que se faz o gênero policial. Ao final do debate, a audiência trouxe à tona o ladrão Arsène Lupin, o gentleman-cambrioleur, do francês Maurice Leblanc, personagem com infinitas incursões pelo cinema e pela televisão. Pela televisão há outro clássico da investigação: Columbo, um “detetive muito esperto, que se fazia de idiota”, conforme apontou a mesa, interpretado por Peter Faulk.

Com toda esta conversa sobre nomes estrangeiros, faltou apontar o que temos aqui no Brasil em termos de livros de suspense. Os debatedores apontaram a personagem do Delegado Espinosa, dos livros de Luiz Alfredo Garcia-Roza, e o romance Todos Morrem no Fim, de Carlos Gerbase. Além de Bufo & Spallanzani, clássico de Rubem Fonseca. No domingo dedicado ao suspense na Feira do Livro, eis um tanto de dicas para ler mais obras no gênero.

O bate-boca da Jornada

03 de setembro de 2011 0

Affonso Romano de Sant'Anna e Manguel no traço de Paulo Caruso

Há muitos eventos e instituições que promovem o livro, em geral com o interesse de fomentar o que se chama de economia do livro, ou seja, de vender mais livros. São feiras, salões, bienais, todos muito badalados. A Jornada de Passo Fundo é outra coisa, o grande objetivo é fomentar não necessariamente o livro, mas a leitura, a literatura, independente de suporte. E parece que essa natural e progressiva institucionalização de novos suportes para leitura tem irritado muita gente.

Não por acaso, na própria Jornada houve um acalorado bate-boca sobre o tema. O escritor e ensaísta argentino Alberto Manguel discutiu asperamente com a editora escocesa Kate Wilson depois que ela apresentou um aplicativo interativo da Cinderela para crianças, durante o debate “Formação do Leitor Contemporâneo”. Manguel pediu a palavra e disse: “Eu não sabia que faria parte dessa discussão a deformação do leitor defendida com argumentos comerciais, de vender este ou aquele produto. O livro não é um produto comercial. É nocivo que uma crianças de 3 ou 4 anos seja introduzida à leitura dessa forma, aprendendo a ler na tela.

Essa afirmação de Manguel, embora reflita muito do pensamento de uma geração assustada com as rápidas mudanças tecnológicas (o termo evolução não é o mais adequado), traz primeiro uma inverdade, depois um preconceito. Primeiro, é evidente que o livro é um produto comercial, sim, e um produto com uma cadeia articulada e lucrativa, até porque o setor, infelizmente, prescinde da alta literatura, ele sobrevive vendendo best-sellers, enlatados vindos do exterior, paradidáticos e séries de auto-ajuda. Segundo, não há nada de errado em uma criança aprender a ler em telas, assim como um dia se leu em pedras, pergaminhos, papiros, com livros em formato de rolo, de códice, manuais ou impressos.

A leitura e a literatura, senhor Manguel, nasceram antes do livro impresso e a ele sobrevierão. Claro que nossa geração guarda um carinho tão grande pelo livro que não será assim, em anos ou décadas, que deixaremos de ter bibliotecas, livrarias, estantes. Mas não podemos, por outro lado, cegar para o surgimento de tecnologias como os tabletes que mudam sobremaneira a forma de se produzir, comercializar, distribuir e ler literatura. Em minha pesquisa de doutorado sobre o tema, descobri mais de uma dezena de títulos já produzidos apenas para o aplicativo da Apple, como Alice, ToyStory e o excelente e brasileiro Narizinho Arrebitado.

Se quisermos avançar, podemos até discutir se esse tipo de livro digital, animado e interativo é melhor ou pior do que os impressos que conhecemos. Assim como um dia houve a discussão sobre se livros fartamente ilustrados são melhor ou pior do que livros em que o texto ainda era protagonista. Essa discussão, entretanto, é inócua: nem melhor nem pior, são apenas diferentes. Mas são, ainda, e isso é o importante, literatura.

Texto de Marcelo Spalding, jornalista, escritor, vice-presidente da Associação Gaúcha de Escritores e um dos conferencistas da 14ª Jornada de Passo Fundo

Os que estão acima do bem e do mal

03 de setembro de 2011 0

Manguel no traço de Paulo Caruso

O velhíssimo ditado “Faz a fama, deita na cama” veio a propósito da recente Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo. Há nomes celebrados, que não justificam, estão aqui para enganar. Um deles foi o tão elogiado (por acadêmicos) Luiz Costa Lima, que teve uma atitude de absoluto menosprezo por seus colegas e pela Jornada, talvez pensando: estou aqui entre provincianos, que não merecem o meu ilustre saber. Ora, o senhor Costa Lima é célebre em todos os meios por escrever numa linguagem hermética, que somente ele e alguns de seus pares compreendem. Fora disso, uma vaidade imensa o impede de chegar ao leitor comum, que não o interessa, porque ele está em um pedestal inacessível. Tanto que, no palco da Jornada de Passo Fundo, dormiu durante os debates, quem sabe porque aquela plateia não fosse digna de sua sabedoria e altura. Na hora em que deveria falar, disse meia dúzia de frases, mostrando que nada tinha preparado. Depois, achou tudo uma confusão, como declarou depois. Chegou a hora de rifarmos esse tipo de gente que pertence a um meio acadêmico que gira em torno de seus umbigos, indiferentes ao mundo que caminha.

Outro foi Alberto Manguel, tido como o “especialista” em bibliotecas e leitura etc. Ele, que vem reescrevendo os mesmos livros nos últimos anos, teve uma participação decepcionante. Mas, alçado ao trono de “especialista”, ali flutua, segurando o cetro. Na mesa em que participou, destratou, foi grosseiro com a escocesa Kate Wilson, que procurava mostrar um projeto ainda em execução, o de histórias infantis em tablets. Manguel veio com dois pés para cima da mulher, dizendo que aquilo era “deformação” do leitor, não formação. Tremenda injustiça, frase de efeito, provocativa (tanto que ele foi recuando depois, quando desceram o pau nele). Ora, Manguel continua no século 19, ainda não chegou ao 21, quando a informática está aí, irreversível. Para Manguel, nada que envolva a experimentação, a busca, a pesquisa, as formas de conquistar novos leitores, que usam celulares, Twitters, iPhones, iPads, iPods, tablets, e-books, GPS, em constante comunicação.

Nada disso existe para esse ensaísta. Um amigo comentava na saída da sessão em que o argentino, hoje canadense, se pegou com Kate Wilson: “Ele se celebrizou por ser leitor de Borges. Borges, cego, tinha pessoas que liam livros para ele. Mas, o que não se sabe é que Borges o mandava ler, mas o proibia de dar opinião“. Uma boutade, claro, mas estou enviando um GPS de presente ao Manguel para que ele ache o caminho deste milênio.

* Texto de Ignacio de Loyola Brandão, autor, entre outros, de O Menino que Perguntava (Objetiva, 2011)

O Analógico e o Digital na terra das letras

03 de setembro de 2011 0

Alberto Manguel e Kate Wilson no traço de Paulo Caruso

A Jornada de Passo Fundo encerrou, na semana passada, com uma altercação das boas entre Alberto Manguel, crítico argentino autor, entre outros, de Uma História da Leitura e A Biblioteca à Noite, e a editora escocesa Kate Wilson, à frente de sua própria casa publicadora, a Nosy Crow, que produz livros infantis e aplicativos para dispositivos digitais de leitura. Foi justamente um desses aplicativos que provocou a grande discussão.

Foi no último debate da Jornada, que contou ainda com os brasileiros Fabiano dos Santos e Affonso Romano de Sant’Anna. Sant’Anna abriu a conversa com um relato de como o Brasil abraçou um projeto de desenvolvimento que separou leitura e educação e que não previu o incentivo à leitura. Manguel e Sarlo compararam a leitura à sexualidade, duas atividades pessoais e subversivas de ensino “muito mais complexas do que se pensa”.

Wilson, uma mulher alta e de olhar intenso, apresentou números para dar uma panorâmica de o quanto as crianças hoje estão expostas a telas e dispositivos eletrônicos. É esse o ambiente que as editoras devem abordar para interessar os pequenos na leitura. O que talvez tenha detonado todo o mal estar foi que o exemplo apresentado por ela foi um aplicativo de sua própria editora, um Cinderela com animações, recursos de interação, possibilidade de umm leitor ver a si próprio em um dos espelhos do castelo, possibilidade de trocar a música que o príncipe e a gata borralheira dançam na festa no palácio, etc.

Manguel, um senhor barbudo de ares entre bonachões e formais, tomou o microfone quando Kate encerrou, sem sequer dar tempo para o mediador Fabiano dos Santos abrir oficialmente o debate, e em espanhol, promoveu um ataque frontal surpreendente ao que havia visto e ouvido:

– Achei que esta mesa falaria de formação de leitores, e não de deformação. Leitura não é comércio. – disse, em uma crítica ao que considerou pura propaganda de um produto de segunda categoria. Manguel sequer disse o nome de Kate Wilson durante todo o arranca-rabo (que era transformado em charge por Paulo Caruso, que vinha acompanhando as mesas e desenhando de improviso a cada debate, assim como faz no programa Roda Viva. Suas charges, mostradas no telão ao auditório, despertaram gargalhadas de uma palteita que aplaudia cada intervenção, de Kate, de Manguel, de Beatriz Sarlo, que também criticou muito a ideia de confundir leitura com mercado editorial, e de Affonso Romano de Sant’Anna, que tentava apresentar uma posição mais moderada). Você ler mais sobre o caso em si aqui.

Para mim, em particular, parece uma daquelas discussões que, vistas no futuro, intrigarão muitos desavisados: por que tinha de ser uma coisa ou outra, por que não a síntese?

* É fato que está cada vez mais difícil convencer alguém que não gosta de ler a ler

* Mas ao mesmo tempo nunca se publicou tanto livro

* Ao mesmo tempo, exponencialmente, não se publicou tanto livro ruim

* Se a vida das crianças é hoje ocupada em boa parte pelo ambiente digital, não há mal em o mercado livreiro se dirigir a ele, é um argumento totalmente válido.

* Ao mesmo tempo, a tecnologia, se não mata suas predecessoras (Beatriz Sarlo falou muito do fato de a bicicleta ainda estar em uso), as transforma de alguma maneira. A disseminação do 3D parece estar transformando o cinema para ser visto em salas em espetáculos descerebrados em que o grande barato é alguém na tela jogar alguma coisa em ti, enquanto os filmes menos cheios de piruetas e pirotecnias estão relegados ao computador ou ao DVD em casa. Um livro eletrônico cheio de recursos não poderia fazer o mesmo com suas menos espetaculosas contrapartes em papel?

Como a discussão ainda continua rendendo (como vocês puderam ver na edição de hoje do Caderno Cultura, com um texto com a doutora em Letras Ana Cláudia Munari), publicamos nos próximos dois posts artigos de Ignácio de Loyola Brandão e de Marcelo Spalding, ambos presentes em Passo Fundo e testemunhas oculares da ronha (adoro essa palavra).

A discussão é antiga

17 de junho de 2011 1

Ao revelar a data em que foi originalmente publicado o texto que havíamos colocado no ar no último post, terminamos nossa verificação empírica e bem pouco científica com a impressão de que sim, os temas do debate literário se repetem há décadas, inclusive no tom cético e por vezes alarmista que enxerga a cada geração o fim do período áureo anterior.

Como havia comentado, o post havia sido originado pelo que vinha pensando a respeito da polêmica recente dos novos autores vs. Alcir Pécora, que acusou a mediocridade da atual produção literária, de acordo com ele sem nenhuma originalidade e muito voltada para o “antiquado romanesco do século 19″. Como era de se esperar de uma declaração tão genérica, a carapuça serviu em muita gente que se apresentou para rebater as declarações de Pécora mas não com o vigor argumentativo necessário, a meu ver.

Aí estava lendo Como Morrem os Pobres e Outros Ensaios, a mais recente coletânea de textos de imprensa de George Orwell publicada pela Companhia das Letras, e topei com o artigo intitulado Em Defesa do Romance, publicado na New English Weekly em duas partes, em 12 e 19 de novembro de 1936. Foi muito interessante ver muitos dos mesmos argumentos brandidos por Pécora (e por outros) enumerados por Orwell para lamentar a literatura de seu tempo.  Incluindo aí o grande número de resenhas sobre todo tipo de livro, e a publicação cada vez mais numerosa de títulos por mês (fico imaginando o que ele diria agora):

Tendo iniciado com o pressuposto de que todos os romances são bons, o resenhista é empurrado sempre para cima, numa escada sim fim de adjetivos [...]. É possível ver resenhista após resenhista seguindo o mesmo caminho. Após dois anos de um início com algum grau de intenções moderadamente honestas, ele proclama com gritos maníacos que Crimson Night, da srta. Barbara Bedworthy, é a obra-prima mais estupenda, incisiva, pungente, inesquecível do mundo, e assim por diante que jamais etc. etc. etc. Não como escapar disso depois que se cometeu o pecado inicial de fingir que um livro ruim é bom.  Mas não se pode resenhar romances para ganhar a vida sem cometer esse pecado. E, enquanto isso, os leitores inteligentes dão as costas, enfastiados, e desprezar romances se torna uma espécie de dever esnobe. Daí o fato esquisito de ser possível que um romance de verdadeiro valor passe despercebido, simplesmente porque foi elogiado nos mesmos termos que uma besteira.

O que prova duas coisas: A primeira é que tendemos a encarar as dificuldades do presente como únicas, dificuldades que os antigos, vivendo em um mundo idealizado, não tinham. A segunda é que um dos atributos do gênio é do homem arguto é, de fato, prever o futuro. Não tanto pelas capacidades místicas de um homem como esse, mas pelo conhecimento essencial que ele tem da sociedade de seu tempo, formada pelos homens de seu tempo – uma essência capaz de se manter por décadas.

Como imaginei, o número de acertos não foi unânime.

Quatro leitores responderam que o texto era de 1986.

Dois, que ele havia sido escrito em 2010.

Três comentaristas acertaram: Marcelo Xavier, Gabriela Nascimento e um Gabriel sem sobrenome mas que já é frequentador deste espaço há um bom tempo. Menção honrosa aos dois xarás porque mataram também o autor do texto.

Merval e o Poder

03 de junho de 2011 1

Como todos vocês já viram ontem, o jornalista Merval Pereira, de O Globo, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras na cadeira de nº 31, antes ocupada por Moacyr Scliar. Merval recebeu 25 votos contra 14 de um escritor “de ofício” com uma vasta obra pregressa, Antônio Torres (o que provocou muitas manifestações de protesto na internet e evidencia que a eleição se pautou por outros critérios que não o eminementemente literário)

Não tenho como me aprofundar mais porque afora textos acompanhados um que outro no espaço de opinião de O Globo, não li muito mais, nem o único livro individual publicado por Merval, um calhamaço de 700 páginas compilando todas as crônicas políticas escritas pelo jornalista ao longo dos oito anos do governo Lula. Por isso, pedimos uma análise para alguém que já houvesse lido o livro e conhecesse mais a fundo o trabalho jornalístico de Merval Pereira: a colunista e editora de política Rosane de Oliveira. Vai abaixo a opinião dela, gentilmente cedida ao nosso blog:

Intimidade com o Poder
Rosane de Oliveira

Não foi por seu texto literário que o jornalista Merval Pereira venceu a eleição para ocupar a cadeira do gaúcho Moacyr Scliar na Academia Brasileira de Letras.  Pesou mesmo o prestígio de colunista de política e ex-diretor de Redação do jornal O Globo, comentarista da GloboNews e da CBN, e as relações cultivadas ao longo dos últimos anos. Livro de sua exclusiva autoria Merval só tem um _ uma coletânea de artigos reunidos sob o título O Lulismo no Poder (Editora Record, 2010). A outra obra — A Segunda Guerra, a Sucessão de Geisel — editada em 1979 pela Brasiliense, foi escrita em parceria com André Gustavo Stumpf.

Para os gaúchos que sonharam ver na cadeira de Scliar um escritor da terra, a eleição de Merval só não é uma frustração maior porque o candidato principal, Luiz Antonio Assis Brasil, havia desistido de pleitear a indicação alegando que ainda não processara a morte do amigo. O poeta Luiz de Miranda, que se lançou candidato e depois recuou, tem uma vasta obra literária, mas, assim como Assis Brasil,  não teria como enfrentar o poder de Merval entre os acadêmicos.

É impossível comparar o estilo de Merval ao de Scliar. O novo dono da cadeira número 31 é um jornalista por excelência, sagaz e bem-informado, capaz de produzir longas análises sobre a conjuntura política, mas seu texto em nada lembra a elegância da literatura de Scliar. É mais duro e menos elaborado, porque produzido com a urgência que se exige do analista político hoje, de opinar em tempo real. Em O Lulismo no Poder, Merval traça um retrato crítico dos dois mandatos do ex-presidente Lula e do papel do PT.

Em comum com Scliar o sucessor tem a característica de homem de vastos conhecimentos e milhares de amigos. Pode discorrer sobre qualquer assunto, mas a política é seu porto. Scliar vinha da área médica, mas também transitava com facilidade em diferentes terrenos.

Os trechos do caderno

05 de maio de 2011 1

Como a maioria dos leitores que eu conheço, a partir de uma idade indefinida passei a sublinhar trechos de livros dos quais gosto particularmente. É uma atividade sutilmente diversa daquela que se faz no colégio e na faculdade, a de sublinhar as partes que você gostaria de citar em um trabalho ou que de algum modo encerram um dos temas centrais do que se está lendo. Não, sublinhar trechos é um modo, talvez, de preservar consigo a experiência de leitura daquele trecho determinado, seja porque ele é magistralmente bem escrito e você foi capturado inapelavelmente pela música do que leu, seja porque a frase apresenta alguma imagem desconcertante, seja porque o conteúdo daquele trecho é consonante com o que você pensa ou você se comoveu o bastante para ficar pensando nele mesmo que não concordasse de início.

Já passei eu próprio por várias fases de “sublinhado”. Quando era mais novo e havia comprado livros dos quais pretendia não me desfazer jamais cheguei a sublinhar alguns deles com caneta. Outros, que havia comprado mais por curiosidade, sublinhava a lápis, para poder apagar e vender em um sebo se precisasse desesperadamente de grana – algo que eu de fato fiz com alguns deles. Daí que o fato de ter livros sublinhados a caneta e a lápis me fez comparar ambos, e marcar o livro a caneta me pareceu um tanto brutal diante da elegância discreta dos riscos a lápis, que acabei adotando como único instrumento.

Com os livros de biblioteca, é claro que o sublinhado dava lugar à mania de copiar trechos a mão em cadernos, agendas, e mais tarde em arquivos de computador – embora eu não tenha lá muita sorte com isso. Uma das mais completas agendas com trechos, montada ao longo de amorosas leituras de juventude, foi perdida em 1993 quando eu morava numa pensão na Independência dividindo um quarto grande com outros três caras e alguém que eu nunca descobri quem foi (e que podia nem ser um dos meus vizinhos imediatos) arrombou meu armário levando minha mochila – que só continha roupas e esse caderno de citações, uma agenda estreita de capa verde do ano de 1988 ganha pelo meu pai como brinde de fim de ano. Anos mais tarde, depois de eu haver morado alguns anos com minha namorada de então, me separei em 2000. Minha ex ficou com o computador que dividíamos e no qual havia um arquivo com um grande número de citações. Depois de alguns meses ela vendeu o computador e o trocou por outro melhor e mais atualizado sem se preocupar em salvar meus arquivos que estavam lá dentro (sim, eu sei, também achei legal da parte dela). Eu tinha uma cópia num disquete, mas aí quem ficou anos sem computador fui eu, e quando finalmente eu arranjei um, o disquete havia sido comprometido e não rodava mais.  Tanto faz, depois de haver copiado, minha memória retém os dados essenciais de autor, título e até uma que outra palavra para que eu possa encontrar o livro para consultar a citação ipsis literis se precisar dela. Ainda mais em tempos de internet.

O hábito do sublinhado e do copiar trechos é não apenas disseminado como antigo – mas eu precisei do saudoso Moacyr Scliar para saber que tinha até nome. Em uma das notas de rodapé de seu ensaio de 2003 Saturno nos Trópicos, ao falar sobre o conhecimento enciclopédico que o explorador Richard Burton havia acumulado, Scliar explica:

Nisso Burton não era exceção. O mesmo conhecimento enciclopédico vamos encontrar nos Ensaios de Montaigne. Era um traço que vinha do Renascimento: o intelectual renascentista fora educado para assinalar e copiar sentenças ou passagens memoráveis — o que era frequentemente feito em um caderno especial, o Enchiridion. Com a invenção da imprensa, muitas dessas coletâneas foram publicadas, como foi o caso do Pandectus locorum communium [Abrangente coleção de lugares comuns], de John Foxe.

E com a invenção da internet, a coleção pessoal de citações ganha um novo veículo para publicação. Só para dar dois exemplos, dois escritores da nova geração mantêm na rede tumblrs nos quais partilham trechos que retiraram de suas leituras: Daniel Galera e Antônio Xerxenesky.

Esse papo todo foi também um preâmbulo para explicar a mudança do nome da antiga categoria Trechos a Esmo para Enchiridion, e partilhar com vocês alguns trechos que me pareceram memoráveis no livro Conversa sobre a Fé e a Ciência (Agir, 334 páginas, R$ 44,90), diálogo entre Frei Betto e Marcelo Gleiser, lido recentemente para a matéria publicada ontem na edição especial de aniversário da Zero Hora, com o Segundo Caderno editado por Luis Fernando Verissimo. Confiram as aquisições mais recentes de meu Enchiridion particular (em tempo: cada fragmento é um enunciado, coloquei ambos em alternância por questões de ordem, mas eles não seguem a sequência do diálogo no livro):

O livro é a transcrição de um debate entre ambos, um homem de ciência e outro de fé, reunidos em um hotel no Rio de Janeiro, no qual repassam seus anos de formação, suas concepções metafísicas e, principalmente,  o debate nunca interrompido entre fé e ciência. Vão abaixo alguns trechos bacanas:

Frei Betto: Sou religioso. Na história da Igreja, primitivamente, havia padres, ligados ao bispo da cidade, e havia os monges, que não eram padres. Devido à falta de sacerdotes para celebrar missa e administrar sacramentos, religiosos foram feito padres. Aos poucos, os religiosos assumiram a hegemonia na Igreja, sobretudo porque o clero era, em geral, quase analfabeto, por vezes devasso, etc., enquanto os religiosos — monges e frades — eram mais disciplinados, tinham mais estudo. Portanto, passaram a ocupar as funções mais importantes na hierarquia da Igreja, como o  papado. Assim, a vida religiosa se “clericalizou”.

Marcelo Gleiser: Não existe uma incompatibilidade entre a espiritualidade e a ciência. Muito pelo contrário, o cientista é uma pessoa que dedica toda uma vida ao estudo da natureza justamente porque é apaixonado por ela. Senão, qual é a graça? Essa relação é espiritual, mesmo que muitos cientistas não a reconhecçam como tal. Então o ponto é esse: essa ideia de que o cientista é uma pessoa racional, que só fica falando de números e de dados concretos e que, portanto, é uma pessoa destituída de paixão, sensibilidade.

Frei Betto: Uma grande confusão que se faz é achar que a religião é necessariamente portadora da espiritualidade, e não perceber que a religião está para a espiritualidade como a família está para o amor; a família é sociologicamente equacionável, o amor, não. Descobri uma vivência de espiritualidade muito pessoal, para a qual não tenho a menor preocupação em buscar explicações racionais. Posso até equacionar elaborações teológicas etc., mas, como experiência de vida, é o mesmo que perguntar a você por que Waldemar ama Mônica e não ama Suzana… Hoje, tenho a sensação de, mais do que ter fé, é saber que Deus tem fé em mim, como acredito que Ele tem fé em todo mundo.

Marcelo Gleiser: Bem, a diferença entre ateísmo e agnosticismo é importante. O ateísmo nega a existência de Deus a priori, e o agnosticismo não. O agnóstico diz: “Olha, eu não acredito em Deus, mas não posso negar a Sua existência, porque não tenho provas. [...] Como cientista, baseio-me em provas empíricas. Quando você fala para mim que um fenômeno aconteceu, e eu faço uma observação confirmando, então, ok, aconteceu. Por outro lado, não posso negar algo que não posso medir. Ou seja, a ciência não pode provar a inexistência de Deus. Então eu acho que, cientificamente falando, a única posição saudável que posso ter para ser coerente com o método científico é o agnosticismo.

Frei Betto: Há uma briga explícita na Carta aos Gálatas, uma das 13 cartas contidas no Novo Testamento e que são consideradas sagradas pela Igreja Cristã, que Paulo escreveu, nas quais critica duramente Pedro. E Pedro era o papa! Pedro achava que para ser cristão o pagão deveria, primeiro, passar pelos ritos judaicos: circuncisão, observação dos ritos de pureza, etc. Paulo chega a dizer que Pedro é um homem de duas caras. Não conhecemos a resposta de Pedro, mas sabemos que Paulo viveu um momento da Igreja em que, pelo amor à Igreja, se podiam expressar críticas até ao papa, não tinha essa coisa de “amém” para toda forma de autoridade, achando que a autoridade é portadora da verdade. Muitas vezes ela falseia a verdade.

Marcelo Gleiser: Como é que o Sol exerce uma influência sobre os planetas, de forma que eles se movem e continuam estáveis em suas órbitas? Newton explicou de uma forma em 1686, dizendo que a gravidade é uma força que cai com o inverso do quadrado da distância. De fato, você faz os cálculos usando essa força e vê que as órbitas são mesmo elípticas, como os astrônomos já sabiam desde a época de Kepler, no início do século XVII. Essa é a típica explicação do “como”. Mas se você perguntar “por que o Sol gera essa força?” (e os planetas também, como tudo que tem massa) a ciência não tem nada a dizer. O que temos é uma descrição operacional de como o mundo fundiona. Esse é o tipo de pergunta operacional que não tem embutido nela o senso de — tem aquela palavra em inglês — purpose.

Frei Betto: Vou retomar por outro viés. Paulo diz, na Primeira Carta aos Coríntios, que a fé cristã é “escândalo para os judeus”, por razões óbvias: está baseada num homem que ficou dependurado na cruz; e “loucura para os pagãos”, porque tinham uma visão grega de que um verdadeiro Deus é onipotente, tanto que o conceito de onipotência tem origem na filosofia grega. Ora, quando se abre a Bíblia o primeiro livro que se encontra é do Gênesis, no qual se descreve um Deus tão “incompetente” que leva seis dias para criar o mundo e ainda vai descansar no sétimo. Foi à praia no sétimo, porque ninguém é de ferro, nem Deus. [...] É evidente que os gregos olhavam aquele relato da Criação e diziam: “Os hebreus estão malucos, porque um verdadeiro Deus é que nem Nescafé, cria instantaneamente.” O interessante nessa história é que os gregos, na sua visão cínica do mundo, não perceberam que os hebreus haviam herdado dos persas algo que considero, hoje, a questão filosófica número um: o conceito do tempo como história. Marx coloca o conceito de historicidade a partir do aparecimento do ser humano. Quer dizer, há uma historicidade da natureza, que precede o aparecimento do ser humano. Três grandes personagens da nossa cultura ocidental – os três são judeus — herdaram esse sentido de tempo como história: Jesus — o Deus de Jesus é o mesmo Deus dos hebreus, é um Deus que, num mundo politeísta, quando apresentado, tem que mostrar curriculum vitae. “Não sou qualquer Deus, sou o Deus de Abraão, de Isaac e Jacó, tenho história.” Marx, quando analisa a sociedade capitalista, vai lá na comunidade primitiva, vem vindo pela tributária, feudal, mercantilista, capitalista, para depois projetar o socialismo e o comunismo. E Freud, quando manda deitar no divã, se puder vai até sua vida intrauterina. A meu ver, o mais grave crime do atual neoliberalismo — senhor Fukuyama, “a história acabou” — é a desistorização do tempo. Essa é, a meu ver, a questão filosófica central.

Marcelo Gleiser: Para mim, existem duas maneiras de você encarar o desconhecido: ou você vê o mundo por meio do que chamo de naturalismo, ou o vê por meio do sobrenaturalismo. E essas duas posições para mim são incompatíveis. Só para definir os termos, para não ficar nebuloso o tema. Para mim, o naturalismo é quando você tenta entender o que está acontecendo no mundo, seja lá o que for, pelas relações de causa e efeito que tenham uma explicação dentro do real, ou seja, dentro do que pode ser pensado, do que pode ser emitido, do que pode ser discutido entre as pessoas de uma forma universal, dentro dos valores da ciência. Isso não significa que a gente já saiba tudo, muito pelo contrário, pode ser que surja um fenômeno novo, surpreendente. Mas mesmo que não saibamos a resposta, eventualmente podemos chegar a uma explicação por meio dessa postura naturalista. E talvez existam até questões que simplesmente não sejam compreensíveis pela razão humana. O que mais uma vez não significa que exista uma dimensão sobrenatural. [...] O sobrenaturalismo, dentro dessa dicotomia, seria o que não pode ser explicado por meio de relações causais — de causa e efeito — entre entidades materiais. Então, por exemplo, o espiritismo. A questão do espiritismo, dentro de uma postura naturalista. Existe um corpo; o corpo é feito de matéria; a matéria… Vamos falar do cérebro. O cérebro tem cerca de cem bilhões de neurônios; usamos uma fração deles, mas nossa concepção de quem somos, do individualismo pessoal, vem dessas várias relações não lineares e extremamente complexas de blocos de neurônios em contato entre si, que as ciências neurocognitivas estão desenvolvendo agora. Para um naturalista, uma vez que o corpo vai embora, vai embora tudo. Não existe uma entidade material que possa interagir com essa entidade material que se chama cérebro — que chamamos de espírito — que permaneça depois da morte do corpo.  Um sobrenaturalista diria que não. Existe, de alguma forma inexplicável, essa entidade imaterial chamada espírito, que permanece após a morte do corpo. Como se explica que uma coisa imaterial possa interagir com uma coisa material sem que a gente se dê conta disso de uma maneira causal (que você possa medir)? Isso é inexplicável, mas não interessa. A postura sobrenatural assume que isso seja possível. Acho importante comparar essas duas posturas. No meu caso, obviamente, sou um naturalista. E a ideia significa simplesmente o seguinte: não vamos saber tudo sobre o mundo.