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Posts na categoria "Descongelando a Geração Subzero"

Descongelando os subzeros - parte 3

13 de dezembro de 2012 0

Mesmo com todo o calor que andou fazendo nos últimos meses, ainda não havíamos concluído nossos planos de completar o “descongelamento” da Geração Subzero.

Ok, esta foi uma piada fraquinha para justificar nosso atraso em concluir esse projeto e continuar a vida normal do blog, como retomar a regularidade das seções O Que Você Está Lendo ou Bairrismo? Conta Outra. Peço paciência aos leitores e apresento apenas minhas humildes desculpas: estivemos numa desabalada carreira nos últimos tempos para fechar o Especial Erico Verissimo (você leu?) e aí, na sequência, foi divulgada a programação da Feira do Livro, depois veio a própria Feira, em si,  aí entrei em férias e então faltou tempo para completar a redação do terceiro e do quarto posts encerrando a série de resenhas conto a conto do livro Geração Subzero. Mas voltamos ao trabalho para garantir o fim do projeto. Vamos diretamente, então, ao livro:

O Preço de uma Escolha, de Ana Cristina Rodrigues
Este texto de Ana Cristina Rodrigues faz um bem bolado cruzamento entre dois gêneros bem demarcados: a ficção científica e o policial. Em um futuro não muito bem estabelecido, no qual “o Brasil havia deixado para trás a sua histórica corrupção e a transparência da vida pública era protegida a qualquer custo” (não é FC, é utopia, pensei ao chegar neste trecho), a população convive com mutantes, batizados de Neo-Humanos, que desenvolveram habilidades extraordinárias e superpoderes. Os NHs, como também são conhecidos, devem se registrar junto a um departamento específico do governo – levando ao próximo passo lógico da questão: os que não cumprem essa norma estão cometendo um crime, mas  perseguir criminosos com esse perfil e um elenco de habilidades super-humanas exige um novo tipo de polícia, e é esse o cenário da trama, protagonizada por um delegado chamado Marcos Batista, responsável pela caçada humana a um Neo-Humano extremamente poderoso, um fugitivo que outrora fora um respeitado policial, e com quem Batista já trabalhou. O conceito e o entorno desenvolvidos por Ana Cristina são muito interessantes – eu poderia ler um romance inteiro ambientado no universo fictício da autora, mas o desenvolvimento deste conto em particular me pareceu apressado. Ana Cristina cria um caso policial que, para um desdobramento mais natural, necessitaria de mais páginas e de uma investigação policial por parte do protagonista um pouco mais elaborada antes do confronto final. Há uma grande revelação no fim da história, mas ela também não comove porque a narrativa tem de dar conta de muita coisa no intervalo exíguo de um conto: apresentar o mundo futurístico criado pela autora, explicar o que mudou no mundo com o surgimento de mutantes, criar um passado coerente para o universo retratado e ainda estruturar a investigação policial e trabalhar a relação entre os personagens principais. Esse último elemento é falho no livro, o que impede que o leitor seja impactado pelo destino das criaturas ficcionais criadas por Ana Cristina.

Polaco, de Júlio Rocha
Não havia ainda lido nada de Júlio Rocha, mas, no tocante à simples forma, ao estilo, à maneira como uma palavra se segue à outra, ele é uma das boas descobertas deste volume. Um jovem empregado de uma loja em Cordeiro, no interior do Rio, é enviado para a capital do Estado para substituir um lojista de outra filial da empresa. Vai com a cabeça cheia de expectativas por um Rio que, para ele, significa “praias, garotas de topless, bailes funk e outras cenas vistas nas novelas desde menino“. Entusiasmado, chega ao Rio querendo descobrir “onde as coisas acontecem”. Ao se apresentar na filial da loja, no Cordovil, recebe de seu gerente a informação de que a empresa não precisará dele antes do dia seguinte, e portanto ele tem a tarde de folga. Ainda curioso pelo que pretende encontrar do seu Rio imaginado, ele resolve aproveitar a noite para tentar conhecer um baile funk. Pega o endereço com uma colega e, enquanto mofa numa parada em uma rua deserta à espera de um ônibus, é apresentado a outro clichê recorrente sobre o Rio contemporâneo: sua bandidagem. Homens em um Chevette passam pelo ponto de ônibus, confundem-no com um criminoso chamado Polaco e o raptam.
O ritmo da prosa é ágil, o que colabora para a boa estruturação do suspense engendrado pela narrativa a respeito do destino que terá o protagonista confrontado com homens que estão decididos a matá-lo tomando-o por um traficante em desacerto com outros criminosos:
Quando caiu no banco de trás do Chevette, Matias chorava. O careca pegou sua camisa e levantou até a cabeça, deixando seu rosto coberto. Alguns minutos depois, estava dentro de um barraco. Frente a frente como Balanagulha, o chefe da área segundo o careca.
Tal agilidade estilística torna o conto enxuto: é um dos mais curtos da antologia, e seus eventos se sucedem vertiginosamente, os acontecimentos se avolumando não página a página, mas quase parágrafo a parágrafo. A sacada de fazer um homem sedento pelo Rio de Janeiro estereotipado da televisão encontrar não o que foi buscar, mas o outro extremo desse estereótipo também é bem pensada. O senão fica por conta da resolução para uma história que soube prender o interesse: a conclusão decepciona ao lançar mão de um pouco crível deus ex-machina.

Para Sempre em um Dia, de Helena Gomes
Uma fantasia medieval na qual Urraca, uma adolescente portuguesa, é brutalizada e assassinada por um grupo de soldados cristãos provavelmente lutando para retomar parte da península Ibérica nas mãos do invasor mouro.  Só que Urraca não perece junto com os demais habitantes de sua aldeia destruída. Sem explicação, tanto para ela quanto para o leitor (o que é um ponto positivo do conto, uma vez que uma explicação diminuiria o impacto da narrativa), Urraca permanece consciente. Não sente fome, frio, e, depois de costurar o talho na garganta deixado pela lâmina de seus degoladores, também não sente cansaço, podendo caminhar longas distâncias. Um dia, ela encontra um nobre cavaleiro que se dedica a “caçar monstros”, ferido e com os olhos arrancados por uma versão medieval de uma vampira. Urraca ajuda o rapaz que, mordido pela sanguessuga que caçava, torna-se um vampiro. Como um caçador cego não pode se virar sozinho, ambos se tornam um casal de predadores, com a desmorta ajudando o vampiro cego a caçar vítimas de quem se alimentar. 
Não é, como já apontamos, o primeiro conto desta coletânea a transplantar o gênero do horror para um contexto narrativo antigo – o próprio Vianco, um dos autores mais conhecidos e populares dentre os selecionados, tentou fazer isso neste livro, sem muito sucesso. Helena Gomes cumpre bem o desafio ao ambientar na Idade Média o que é basicamente a história de amor de um vampiro com uma zumbi. Mesmo o andamento da prosa emula com dignidade o conto medieval, uma narrativa marcada, como Calvino já havia comentado e posto em prática, pelo olhar para a ação que sucede a outra ação, fazendo a trama avançar em ritmo musical:
“Eles vieram. Cercaram a floresta pelas bordas e, em investidas certeiras, começaram a caçar um a um os membros da família de Urraca. Ela desesperou-se com cada perda, traçou estratégias de ataque e defesa, ajudou a matar um e ouro caçador. Para sua surpresa, o rapaz não reagiu como deveria.”
A prosa, a propósito, apesar de repisar gêneros e ideias, demonstra um cuidado, uma atenção ao detalhe e à precisão da palavra que tem sido pouco vistos nesta coletânea até aqui.

Outra Vez na Escuridão, de Carolina Munhóz
Este é um conto particularmente longo no conjunto da coletânea. O problema é que a prosa é tão truncada que suas 24 páginas parecem dobrar de tamanho. A história parte de um amálgama promissor entre o conceito de musa – grego na origem, como sabemos todos – e o  da “fada-amante” do folclore gaélico, a Leanan Sídhe. Basicamente, a história é uma biografia disfarçada da cantora Amy Winehouse casada a um conto de fadas sombrio. A protagonista é uma cantora chamada Jade que, nascida com um peculiar e luminoso talento musical, passa a ser alvo da atenção de uma fada chamada Sophia, que a seduz sexual e afetivamente, inspira suas canções e seu trabalho e suga a alma da artista quanto mais famosa a jovem se torna. O fim é, como foi o fim de Amy, trágico. 
A história de Carolina carrega no DNA um mote que está na origem da própria literatura ocidental, está lá na Poética de Aristóteles: a queda, no ponto mais alto de sua trajetória, de um personagem coberto das mais gloriosas benesses da vida humana. A Virtude e o Poder, na tragédia grega antiga, transformadas em Juventude, Talento e Fama no mundo das celebridades e da indústria cultural contemporânea. Há também um toque faustiano bastante promissor, uma vez que a fada fornece aquilo que a jovem acha que quer, a chance de ter suas canções ouvidas, sem informar o preço que ela terá que pagar por isso – um agravamento da melancolia que sempre esteve latente na garota.
O problema está justamente na condução dessa ideia. Para começo de conversa, a mistura de conto de fada com o universo do rock consegue gerar apenas uma fábula complacente como muitas outras histórias já publicadas sobre rock’n’roll (a que me vem mais imediatamente à cabeça é a novela 27, do alemão Kim Frank). Quando retratada por escrito, a ambição e a queda de um artista de rock parece apenas o movimento de um espírito mimado que não consegue articular de modo satisfatório seu vazio essencial, o mesmo que o impulsiona a buscar o amor das multidões de fãs, quebrando a cara no processo. É o que acontece com a Jade do conto. Talvez por ficar demasiadamente atrelada ao modelo da vida real, a psicologia atormentada da garota, como descrita no conto, parece sempre aquém, pouco crível, perdida em meio a uma prosa ao mesmo tempo pomposa e insuficiente, que tropeça em juízos sentenciosos, redundâncias e metáforas de um sentimentalismo derramado. Vamos dar uma olhada apenas no primeiro parágrafo para ilustrar:
Muito antes de os humanos conviverem com internet, celulares e televisões, sábios pressentiam quando uma estrela nascia. Uma força diferente reinava sobre a Terra, indicando que alguém especial iniciava sua jornada. Não se importavam se os chamassem de bruxos, malfeitores ou criaturas negras. Para os sábios, a bênção de sentir o poder de uma nova estrela já parecia ser o suficiente. Mal sabiam que outras criaturas mágicas também sentiam a força pulsando no mundo, feito um coração selvagem no peito de uma mulher apaixonada. Seres poderosos, mas que usavam essas estrelas para brilhar em seu céu particular. Apenas em um céu. Ato egoísta para criaturas assim…”
Há mais casos em que a prosa não cumpre o objetivo de carregar adiante as ideias que deveria veicular:
“Afinal, se todos os humanos que tocassem algum instrumento fossem inspirados uma musa, não haveria metade da população viva. Todos teriam morrido sugados pelas Leanans. O irônico era que ninguém perceberia. Afinal, quem conseguiria notar um padrão em mortes como aquelas? Algumas das vítimas não aguentavam a pressão de perder a fada e se atiravam de enormes edifícios ou davam tiros certeiros na cabeça”.
Tiros “certeiros” na cabeça? Embora nem todo tiro na cabeça seja “fatal”, quão difícil é acertar um tiro na própria cabeça para que ele precise ser qualificado de “certeiro”?

A Sabedoria de Clementina, de Vera Carvalho Assumpção
Um texto enxuto no qual a autora conta uma história ambientada na São Paulo dos tempos da Marquesa de Santos, “ex-amante do Imperador” – ou seja, em algum momento do século XIX entre 1829, quando a marquesa e Dom Pedro I romperam, e 1867, quando a dama morreu. Faço essa conta apenas para fins de datação, porque a história em si não tem nada a ver com a marquesa. Aliás, essa seria uma falha a apontar no conto: mesmo tão enxuto que parece ter quase o tamanho exato e ponderado, seu primeiro parágrafo ainda é excessivamente didático, valendo-se da enumeração de fatos de época como em um artigo enciclopédico para construir o entorno da narrativa:
“Desde que se instalara a Academia de Ciências Sociais e Jurídicas do Largo de São Francisco, eram os resquícios das estripulias dos estudantes o que mais alvoroçava a conversa. Na pacata e garoenta São Paulo, os moços revolucionavam os costumes e renovavam as fantasias, entregando-se a orgias e excessos físicos de toda espécie. Da Europa vinham ecos da era vitoriana, em São Paulo reinava a Marquesa de Santos, ex-amante do Imperador, mantenedora da maior fortuna da cidade e senhora do melhor salão. Era ela a promover saraus onde autoridades e estudantes exibiam seus dons declamatórios”.
Descontado esse senão, contudo, a história funciona muito bem. Clementina, a lavadeira negra alforriada que dá título ao conto, testemunha em suspense, como toda a população da cidade, uma série de “milagres noturnos inexplicáveis” envolvendo uma grande cruz preta posicionada na Sé. Todas as noites, algum habitante da cidade vê a cruz se deslocando pelas ruas, como se animada de vida, até as casas de determinados nobres senhores. A suspeita é que a cruz indique locais em que morem donzelas virtuosas e exemplos de fé, filhas dos proprietários. Obcecada com a ideia de ser abençoada pela visita da cruz, Clementina certo dia monta guarda até testemunhar o milagre com seus próprios olhos e compreender sua noção mais profunda. 
É um bom conto, com uma história de razoável simplicidade mas que é conduzida de modo a cativar o leitor e empurrá-lo até o fim, porque, como eu disse ali em cima, o texto é conciso, do tamanho certo para provocar aquele impacto e aquela unidade de efeito essenciais dos bons contos. É, definitivamente, um dos textos que cumpre o que, em tese, a coletânea promete desde sua concepção: a de apresentar uma história interessante que faça o leitor querer saber seu final e não se decepcione com sua conclusão.

Ufa, ficou comprido. Em breve, vamos para o último bloco de resenhas da coletânea.

Veja aqui os demais blocos de resenhas sobre a coletânea Geração Subzero:

>>> Descongelando os Subzeros, parte 2

>>> Descongelando os Subzeros, parte 1

Descongelando os subzeros - parte 2

06 de setembro de 2012 1

Uma coisa interessante que eu devia ter mencionado no primeiro bloco de resenhas: assim como a misteriosa ordem em que foram dispostos na coletâna os autores da Granta, também nesta Geração Subzero a forma como os contos foram organizados é idiossincrática. Eles não vêm em ordem de título, de nome ou de sobrenome de autor, por idades ou anos de nascimento. Sequer estabelecem eixos ou proximidades temáticas. O que isso importa? Felipe Pena, o autor da compilação, não esclarece que critério adotou para dispor os autores no livro, vai ver o critério é a ordem em que recebeu os contos. E isso não importa muito, também, apenas fico imaginando que tipo de classificação o autor pretendeu estabelecer naquele recorte quando claramente ele não parece ter seguido os parâmetros mais comuns de catalogação.

Como o post anterior ficou bastante longo, vamos tentar enxugar este um pouco mais, começando por cortar os preâmbulos. Vamos, diretamente, a mais cinco contos da coletânea Geração Subzero:

O Índio no Abismo sou Eu, de Luiz Bras
Sem enrolar: é o melhor texto da coletânea até aqui, casando com propriedade imaginação, limpidez da prosa, encadeamento narrativo. Escrito dentro de estritos padrões de gênero, o texto de Bras também consegue acenar com um olhar mais amplo sobre questões que vão além de sua narrativa e que têm algo a dizer sobre o mundo contemporâneo – na escola da boa ficção científica. Todos os demais contos até aqui apresentam algumas dessas características, mas não todas, e, principalmente, não todas em grau elevado: há, como frisamos, textos imaginativos com linguagem  descuidada, há um conto bem escrito que se perde ao contar uma história que circula como anedota, há pura fantasia desconectada de qualquer sentido do mundo e da realidade. O texto de Bras (que nasceu, civil e literariamente, como Nelson de Oliveira) é, a bem dizer, o primeiro deste livro que se sustenta sozinho dentro dos parâmetros estabelecidos pela própria coletânea.
A história é narrada pelo ponto de vista de um personagem que desperta. Concordo com o que o crítico Sérgio Rodrigues argumenta neste post sobre o perigo das histórias que começam com um “despertar”, mas neste caso o despertar é subvertido pela narrativa: o personagem não entende onde está e parece não ter uma percepção clara nem de si nem do que o cerca:
Sinto a eletricidade correr nos fios entrelaçados de minha consciência. Sem alvoroço. Antes não sentia, agora sinto. Antes eu não era nada, agora sou qualquer coisa que não sei bem o que é. Talvez eu seja só a própria eletricidade atravessando uns poucos neurônios. Talvez eu seja só uma folha que acaba de se desprender de um galho. Mas aqui não há galhos, árvores, paisagem. Aqui não há nada, apenas a serena eletricidade. Não há céu nem terra, direito e avesso. Nada. Somente eu. Se ao menos ventasse isso já seria reconfortante. E se estiver ventando? E se estiver ventando muito, sem que eu possa perceber? Sou uma folha e nada mais. Sem certezas nem equilíbrio. Uma folha elétrica.”
Não é um despertar corriqueiro: a personagem (é uma mulher) foi congelada por um longo período, quase nos estertores de uma longa doença terminal. Preservada, hibernou por duzentos anos até a medicina do futuro ter condições de tratá-la. É o que explica à paciente um médico que a atende em um cenário virtual no qual ambos se comunicam por telepatia – não sei se Bras já leu ou tinha em mente Lanark, de Alasdair Gray, mas as sequências dos diálogos entre o médico e a paciente no hospital me lembraram algumas cenas de Lanark, o personagem título, no Instituto no qual ele é tratado e mais tarde ajuda a tratar uma estranha doença. Voltando ao conto de Bras: por trás da maravilha daquela “ressurreição”, a personagem logo começa a perceber fissuras no mundo em que vive, expressas em uma dedução à qual chega após uma situação de crise se instalar no hospital: “O futuro jamais é para todos. O futuro é apenas para quem pode pagar.”
Mesmo os aparentes problemas da narrativa encontram solução em sua arquitetura interna. No início, para alguém que desconhece o mundo à sua volta, a personagem parece saber demais e usar termos e conceitos que não teria como compreender para uma consciência aparentemente surgida do nada, mas tudo se explica no momento em que se descobre que aquela mulher é alguém despertando de um sono longo, com os dados mantidos a salvo em seu cérebro emergindo desordenadamente. O final, elusivo como a boa ficção científica, mantém o tom melancólico e crítico ao tipo de  futuro que uma sociedade como a atual pode vir a engendrar.

A Filha do Diabo, de Luis Eduardo Matta
Para meu gosto de leitor, Matta é um dos primeiros desta seleção a encarar um desafio que eu talvez esperasse ver mais: o exercício de uma história de gênero transplantada para a realidade brasileira tentando dar conta tanto dos parâmetros mais restritos da literatura de entretenimento quanto das especificidades da nossa cultura. Em outras palavras: não faltam autores no mundo para escrever fantasias de cavalaria em cenários que lembram a Idade Média europeia, mas talvez fosse interessante ver uma história de horror usando elementos de que só um autor daqui ou mergulhado na cultura local poderia lançar mão.
Na pequena comunidade interiorana de Iguaúna, a chegada de “uma bela forasteira de procedência desconhecida e sem antepassados na região” não demora a despertar os receios e rancores supersticiosos dos habitantes da cidade, onde “os rumores mais sombrios sobre sua procedência e reais intenções na cidade começaram a circular...” Apenas duas pessoas do vilarejo mantêm contato frequente com a mulher: um adolescente que passa bastante tempo na casa alugada pela forasteira, fazendo serviços gerais, e a mãe dele, que presta ocasionais serviços de lavadeira e empregada. Um dia, a lavadeira aparece morta e a comunidade se mobiliza para resgatar o menino daquela casa isolada e sinistra, contando para isso com a ajuda de um padre especializado em exorcismos chamado pelo pai do garoto.
O conto de Matta é eficiente em sustentar a atmosfera de horror e suspense que pretende construir, com exceção do final, que estende  além da medida a antecipação de uma reviravolta previsível. 
No aspecto formal, Matta é uma grata e, aí sim, genuína surpresa (não conhecia nada de sua obra anterior, dedicada ao thriller). Seu conto é um dos que se ajustam com mérito ao que a coletânea apresenta como sua profissão de fé: uma história intrigante conduzida por uma narrativa sem firulas mas dedicada a cativar. Não há grandes voos formais na prosa de Matta, mas ela é correta e segura do início ao fim – não esqueçamos que os primeiros textos da série apresentavam grandes problemas nesse quesito.  Um bom conto.

Dê-me Abrigo, de Sérgio Pereira Couto
Esta história parte de um mote muito interessante: o uso, pelo exército dos Estados Unidos, do condicionamento musical como forma de despertar reações automáticas em seus combatentes.  A condução da narrativa, contudo, não é tão preciosa quanto o achado temático, uma vez que os blocos que constituem a trama não parecem apropriadamente concatenados.
O “condicionamento” é inserido como elemento de ameaça em uma história de aproximação amorosa. Certo dia, Cristina, uma mulher que se encaixa no padrão recorrente das protagonistas de comédias românticas (a certa altura, uma amiga a descreve como “executiva bem-sucedida de uma das maiores agências de publicidade do país”, que “nunca tem tempo para sair“) vê se mudar para a casa em frente à sua um homem que desperta seu interesse. O vizinho, Paulo, é, de acordo com o narrador onisciente em terceira pessoa da história, “alto, encorpado, com um ar militar e expressão séria no rosto.” Ele bate à casa dela pedindo um copo d’água e da atração mútua nasce um convite para sair. Enquanto Cristina some para se trocar, somos apresentados ao problema sombrio do homem. Cristina ouvia música em um IPod colocado numa estante. Quando Paulo está sozinho na sala, o aparelho começa a tocar a música Gimme Shelter, dos Rolling Stones, e o efeito é imediato: 
“Paulo percebeu que tudo sumira: os móveis, os tapetes, até mesmo a sala em si. Ele se via no meio de uma paisagem inóspita, sentindo o vento árido do deserto esparramar em seu rosto e o sol queimando as costas. Ao longe soavam explosões e tiros, cada vez mais altos, e uma língua que não entendia gritando ao longe”.
Para encurtar o caso: Paulo, um ex-soldado norte-americano (filho de brasileiro nascido nos Estados Unidos, o que explica sua presença no nosso país para o conto), foi submetido a experiências de “condicionamento musical” em seu regimento e surta toda vez que ouve essa canção específica dos Stones, recuperando um episódio traumático vivido em combate no Oriente Médio. Não vou estender muito a trama, por dois motivos: para não entregar demais a história e porque a própria trama pregressa ao encontro de Paulo e Cristina se enrola mais do que se entrega. Paulo, no passado, foi vítima de uma emboscada armada por uma companheira de exército que desertou usando como desculpa um estupro que o próprio Paulo foi convencido POR ELA, a desertora, a cometer (como é que é?). É sério:
Ela o seduziu e o convenceu a estuprá-la. Usou isso para ter uma desculpa para debandar para o lado da Al-Qaeda.” (p. 132)
Me parece de uma ligeireza atroz que algo assim seja colocado como um fato tão colateral ao centro da história. Afinal, uma mulher que convence o agressor, no fundo boa pessoa segundo os ditames da narrativa, a estuprá-la para ter uma “desculpa” para algo é uma construção de um grotesco tão grave  que não deveria estar tão à parte na narrativa. Há uma implicação ética em levar essa história, depois de esboçada, a um ponto crível. É como se a trama anterior do personagem tivesse sido orquestrada sem muito cuidado apenas para dar um trauma ao personagem masculino com uma certa moldura de historicidade (todo esse enrosco ocorreu na guerra do Afeganistão).
A prosa às vezes escorrega em um artificialismo que não combina com o conjunto, mas o maior senão do livro não é formal: é o pressuposto de que, devido ao condicionamento musical sofrido pelo personagem, qualquer reviravolta na trama depende muito de a música estar tocando em algum lugar ou circunstância, o que produz coincidências difíceis de engolir e ao menos uma decisão de Paulo tão esdrúxula que é praticamente inaceitável, claramente tomada para produzir um episódio dramático na história.

Ao Cortar os Cordões, de Estêvão Ribeiro
Dois homens em um bar partilham um “causo” da região: um psiquiatra chega a sua casa em determinado dia e encontra no lugar uma adolescente a quem tratou e que desenvolveu por uma ele uma obsessão doentia. Ambos conversam, ambos discutem, ela se insinua, ele resiste, ela expõe um insight perturbador sobre o mundo e tenta convencê-lo de que está certa… Até que uma circunstância sobrenatural vitima o desvalido terapeuta custando-lhe mais do que a imagem profissional. É um conto curto e de levada ágil, com uma história interessante. Mas o desfecho, no qual se retorna, com um twist de horror, aos dois homens que contavam a  história lá na primeira cena, me soou algo afetado. 
Como boa parte da narrativa é sustentada pelo diálogo entre o psiquiatra, Fernando, e a jovem paciente, Joana, alguns desvios de curso na estrutura das falas dos personagem podem representar um problema, bem como um que outro tropeço na carpintaria do texto, que não se eleva além de um arranjo por vezes piegas ou excessivo:
“Fernando encarou a garota, tentando ver sentido naquilo. Olhou-a nos olhos e viu nada mais que a verdade. Uma verdade que não podia ser sua ou real, mas a menina acreditava no que acabara de falar, seja lá o que fosse.”
No geral, contudo, é um bom conto, com uma história criativa que não tem medo de levar as suas circunstâncias internas até as últimas consequências.

O Primeiro Dragão, de Raphael Draccon
Não li os livros da série Dragões de Éter, de Draccon, para saber se aqui temos um excerto de um deles (mesma circunstância da narrativa de Eduardo Spohr). Me parece que não, que o texto tem a autonomia de um conto, com um final fechado que dota a peça de unidade sem depender de mais nada. Uma narrativa que, assim como a história escrita por Spohr, retrabalha temas consagrados da fantasia em estilo RPG medieval: o protagonista é um “paladino” a serviço de um deus para funcionar como elemento de equilíbrio nos assuntos dos homens e ajudá-los no combate contra criaturas monstruosas (neste caso, hobgoblins, criaturas do folclore nórdico semelhantes a duendes, lideradas por um “bugbear”, um monstro lendário “goblinoide” apropriado pela narrativa do RPG Dungeons and Dragons). O protagonista começa ferido e semimorto em um campo coalhado de cadáveres, tem suas feridas magicamente curadas pela benemerência de sua divindade, sai a perambular pela cidade destroçada, encontra cadáveres de entes queridos e entra em luta com oito hobgoblins em patrulha. Mata-os e liberta um contingente de três dezenas de humanos que seriam levados como escravos na retaguarda da horda de duendes malignos. O “primeiro dragão” ao que o título faz menção é um episódio do passado do paladino, que matou sua primeira fera justamente naquela cidade, anos antes – e teve um caso amoroso com uma jovem do local. Em companhia dos humanos libertados e inspirado pelo “fogo da justiça” de seu deus, ele persegue a vanguarda dos duendes, que executa um ataque a uma aldeia de elfos nas proximidades.
O conto é provavelmente o mais longo da antologia, tem 36 páginas, mas consegue ser o mais equilibrado dos três grandes “fantásticos” que apareceram até agora. É o que parece ter menos coisa “sobrando” dentro de suas próprias prerrogativas, mas ainda assim poderia se beneficiar de alguma edição, principalmente de algumas das perífrases comuns à literatura de fantasia e que por vezes confundem o épico com o sentimental:
“De fato, para um homem comum, aquilo sempre seria inacreditável. O renascido ergue-se como se o coração estivesse mais leve. Como se a cura fosse humana, como se o mundo fosse bom e propício a heróis”. (p. 151)
A mesma ideia voltará adiante em outra cena:
“Nuvens começaram a tomar o céu de repente, como se o mundo fizesse sentido.” (p.166)
A certo momento, o paladino  volta ao local em que matou seu primeiro dragão:
Ainda sem entender o motivo de seu deus dito justo lhe encaminhar até ali, afinal é o deus quem guia o coração de um paladino, mesmo o dos renascidos, ele iria se retirar para perguntar mais uma vez o porquê a um deus que respondia com trovões.” (pp.155-156)
A “resposta do deus” faz referência a um episódio anterior, quando, confrontado com a morte da aldeia, o paladino gritava sua raiva a “Hedryl. O nome que os aldeãos e paladinos davam a um deus cabeludo e bem-vestido, tachado como seu representante de justiça”
Aí a mesmíssima ideia do trovão volta adiante, mostrando que o autor está enamorado demais de seus achados para usá-los apenas uma vez:
“Dizem que os deuses na chuva respondem a seus fiéis com trovões.” (p. 167)
Ainda assim, é o que conta a história mais interessante dentro do seu campo. Draccon é um escritor que consegue dotar suas cenas de ação de dinamismo, embora ainda precise lidar melhor com a questão do tempo da prosa. Em uma entrevista a Zadie Smith incluída no livro Conversas entre Escritores (resenha aqui), Ian McEwan reconhece que foi um equívoco escrever repetidamente em seu livro A Seta do A Criança no Tempo que o personagem sentiu o tempo desacelerar. “Não é necessário dizer isso. A própria prosa se encarrega de diminuir o ritmo.” – diz McEwan. Draccon também recorre muito às perífrases mencionadas para paralisar o tempo de sua narrativa, como se a cada cena de luta ele se valesse de uma “câmera lenta” – que ressalta didaticamente os momentos de maior tensão e interrompe a dinâmica ágil que ele consegue construir no restante da cena de batalha.

Bom, o post ficou longo igual. Tentaremos fazer mais sintético na próxima – que, espero, não demorará tanto.

>>> Leia aqui a primeira parte da série de resenhas de Geração Subzero

Descongelando os subzeros - parte 1

22 de agosto de 2012 2

Eu bem que gostaria de assumir empreitadas como esta com mais frequência – e de cumpri-las com mais celeridade, também, mas com uma série de compromissos além deste blog, quando invento uma série de posts elas, embora com intenções periódicas, acabam dependendo das conveniências do blogueiro, infelizmente. Mas se conseguirmos concluir aos poucos cada desafio, já terá valido. Digo isso porque demoramos uma semana para publicar a primeira série de resenhas dos contos incluídos em Geração Subzero, mas aqui está ela. Vamos tentar diminuir o intervalo entre esta parte e a segunda. Mas antes de irmos ao que interesse, como conhecemos a internet e não é de ontem, vamos a dois postulados básicos de todas as nossas séries de resenhas aprofundadas conto a conto. A coisa funciona assim:

Sem (muito) spoiler
Nestes textos, tento não entregar muito da trama, mas as histórias, obviamente, serão comentadas para além do mero resumo. Quem achar que até isto afetará seu prazer de leitura, pare agora.

Eu não peço desculpas…
Ninguém precisa entrar no blog retrucando que algo comentado nestas resenhas é só uma opinião minha. Não vou ficar toda hora usando fórmulas que amenizem o fato de que, em uma resenha assinada por mim, é claro que qualquer opinião é minha – salvo no caso de citações de terceiros, que serão identificadas como se deve. Ah, sim, antes que eu me esqueça: como no caso da Granta, coincidentemente também aqui meu contato prévio com alguns dos autores foi puramente profissional – algumas entrevistas, por exemplo, a maioria delas realizada em edições variadas da Feira do Livro de Porto Alegre. Não tenho amigos nem desafetos entre os selecionados.

Vamos aos textos:

O Cão, de Juva Batella
Uma história que cria um curioso paralelo involuntário com a antologia da Granta, por abrir a seleção com um conto sobre a morte de um cachorro. As semelhanças, contudo, entre este relato de Juva Batella e Animais, de Michel Laub, se interrompem aí. A narrativa aqui não é fragmentada, e sim calcada em uma certa oralidade do conto falado – as primeiras duas frases do texto são, justamente: “Contaram-me. // Reconto.”, recuperando um estilo tradicional do conto escrito principalmente no século XIX: a atribuição da história que se quer contar a um personagem narrador que, por sua vez, diz ter ouvido aquela narrativa de alguém outro, identificado ou não. É um recurso que serve para ligar o narrado ao grande emaranhado de teias e histórias que formam a tradição literária, tentando restabelecer aquele fio narrativo da grande experiência humana que Walter Benjamin considerava irremediavelmente perdido.
A história de Juva Batella começa bem. Uma jovem que acaba de se mudar com dois grandes pastores para uma vizinhança de subúrbio percebe, horrorizada, que a vizinha do lado, uma senhora gentil, tem um minúsculo poodle, praticamente feito para se tornar presa fácil para seus animais – ainda mais porque apenas uma cerca-viva separa os dois terrenos. A narrativa acompanha com tensão crescente o medo que a jovem vizinha sente a cada chegada em casa, o quanto parece óbvio que apenas por sorte os dois cachorros vigorosos ainda não massacraram o animalzinho no outro lado da divisão. Até que um dia, a jovem chega em casa para encontrar o cenário de horror que havia imaginado, e tem de decidir o que fazer.
Como eu havia comentado, há uma aparente intenção de oralidade na forma como a história é contada, embora nem sempre cumprida. Como o próprio ensaio introdutório já havia declarado, “escrever fácil é muito difícil“, e em determinados trechos o conto soa redundante e mais enrolado do que o necessário, como no trecho abaixo, em que a última frase praticamente resume toda a argumentação construída pelo que vem antes:
“Era do tipo que não perdia a oportunidade de imaginar, sempre que possível, o pior, acreditando ao mesmo tempo, no fundo da sua alma, que o pior nunca haveria de acontecer, justamente porque as coisas nunca aconteciam do modo como as imaginamos. E era essa a sua fórmula: imaginar o pior justamente para que o pior não acontecesse.
Esse caráter meio fosco da linguagem se torna um problema se comparado ao que, para mim, foi a principal questão encontrada no conto: sua trama. A história que o conto narra é uma versão estendida e tensionada de uma anedota popular que ouvi pela primeira vez aos 13 anos quando morava em São Gabriel, e que já ouvi outras vezes desde então. Dado que a matriz não é original nem surpreendente – aliás, o final me decepcionou como leitor, uma vez que havia um horror crescente na construção da narrativa que não se cumpriu – ao menos a linguagem deveria ser. Mas o conto incorpora as já mencionadas repetições  da oralidade sem uma justificativa interna que as sustente – o conto é um “causo” recontado, fato que o narrador enuncia brevemente e ao qual não volta nem mesmo ao final.

Cristais de Prata, de Pedro Drummond
A história que Drummond tem a contar nesta peça é interessante: uma jornalista de TV narra sua tentativa de produzir um livro recuperando um caso no qual praticamente tropeçou por acaso. Ao alugar uma casa em São Paulo, a moça quebra o espelho de uma penteadeira e descobre colado atrás dele um retrato antigo de um jovem em pé defronte à Estação da Luz. Atrás da foto, um recado anotado: “espero você”. Intrigada com o achado, a jornalista se lança a uma investigação sobre a identidade do estranho na foto e, após algumas idas e vindas por antiquários, bairros distantes e cidades interioranas, recupera uma história de amor malfadado na São Paulo dos anos 1940. Uma mulher casada e seu enamorado haviam combinado uma fuga desesperada dos desmandos do autoritário e poderoso marido dela. E a fuga jamais acontece – por motivos trágicos que a jornalista vai desencavando aos poucos e que têm relação com um  fato histórico real: o incêndio da já mencionada Estação da Luz em 1946.
O final traz uma surpresa indeterminada que cria mais dúvidas do que soluções, mas isso não é um problema. O problema aqui é de linguagem. Ainda que a história possa, a priori, parecer propícia para um novelão, nada impede que, contada com linguagem enérgica e cativante ou com algum olhar renovado, ela se torne uma gema narrativa. Mas a prosa de Drummond não é fluente, embora se perceba o esforço realizado para que seja. Na tentativa de injetar o tal “olhar renovado” na frase, o autor enfileira sentenças cheias de descrições em que a narrativa tenta passear como uma câmera escolhendo um detalhe que revele o resto. Essas frases resultam apenas empoladas, truncadas, criando problemas de compreensão e mesmo incongruências para a mais elementar visualização ou verossimilhança da cena. Senão vejamos:
Quando a protagonista quebra o espelho, ela escreve: “Um pedaço afiado caiu da peça e a rachadura, larga, permitia ver a madeira que a sustentava“. (p. 31) Sustentava o quê, a rachadura ou a peça? E logo na página seguinte, temos a repetição da mesma estrutura na frase: “Olhei para o móvel e o que vi era realmente curioso: havia ali uma fotografia. Não havia caído acidentalmente entre o espelho e o fundo que o sustentava“. (p.32)
Ao encontrar a foto, essencial para o avanço da narrativa, a jornalista a descreve longamente, mas prestem atenção no trecho a seguir: “Não fosse sua pose ali, e o retrato poderia passar por um cartão postal da época. Sua aparência era alegre, sorriso ainda na validade dos primeiros segundos. Cabelo moreno e bastante curto, sugerindo seus vinte e poucos anos”. A imagem, como informa o autor, é em preto e branco. Portanto, como, numa foto com mais de 60 anos de idade, se pode afirmar com tanta certeza que cabelos “bastante curtos” são morenos? E como qualquer corte de cabelo poderia “sugerir” uma idade em período tão remoto em uma foto sem cores e que não é sequer um close?
A estrutura das descrições, longas a maioria delas, também não ajuda na fluência do texto – o que trava o avanço da leitura: “O homem levou-me até a sala escura, onde me apontou uma poltrona puída, e, tossindo, deitou-se no sofá, onde já o aguardava um velho cobertor. Ao lado, uma sacola de plástico translúcido permitia ver que estava repleta de remédios.” Por que esse pulo narrativo do homem para a sacola entregando a ela, a sacola, o comando da ação, já que ela, o objeto inanimado, de súbito “permite” ver alguma coisa? Depois, a prosa volta a se concentrar no homem, mostrando que a sacola foi mero torneio formal. 
Não que o conto se resuma a essas tentativas de frases de efeito, há bons achados (“‘Senhor, diversos móveis do local onde moro foram comprados nesse antiquário’, dirigi-me propositalmente à pessoa mais idosa que encontrei lá. Um jovem em um antiquário não inspira confiança“.) O saldo final, contudo, é que se tentou preencher com estilo deficiências da construção narrativa.

A canção de Maria, de André Vianco
Vianco é o primeiro autor da coletânea a de fato se ajustar a seu anunciado espírito: enfileirar autores “pop” para os quais a crítica torce o nariz. Best-seller nacional com seus livros de vampiros anos antes que Stephenie Meyer tornasse os dentuços moda outra vez com Crepúsculo, ele começa este conto parecendo que vai ousar, afastando-se de seu universo de referência para tentar algo novo. Em um ano indeterminado do que parece ser o Oriente Médio dos tempos bíblicos, mais especificamente os anos em que Jesus teria passado pela região, um lenhador de nome Ezra dá abrigo, em certo dia particularmente chuvoso, Maria, uma jovem menina prestes a parir. A menina dá à luz a filha e o velho, viúvo, acolhe ambas como um sopro de vida e alegria em uma existência incolor. Como a jovem já havia escapado de um apedrejamento, Ezra, para evitar problemas, apresenta-a ao povoado em que vive como uma meia-irmã que não via há muito tempo. Até que um dia, ao voltar para casa do trabalho, Ezra encontra um cenário de tragédia que o enluta e o coloca na desagradável posição de ter de lutar contra uma maldição que pode aprofundar ainda mais sua perda.
Fujo de dar muitos detalhes, o suficiente apenas para que vocês saibam que… sim, tem vampiro no meio. De novo.
Não que um conto de horror nos tempos bíblicos não seja uma bela ideia, e enquanto Vianco vai construindo a atmosfera de seu enredo, a coisa funciona. A delicada construção do sentimento que começa a unir, aos poucos, Ezra, Maria e a bebê desta, Miriam, consegue ser comovente, apesar de alguns tropeços de linguagem, como a insistência em chamar Maria de “jovem mãe” ou em descrições que resvalam no piegas: “Ezra apanhou um facão e suspendeu o corpo leve da menina com seu braço forte“.
O problema verdadeiro reside em o autor abandonar o mundo que vinha construindo, alicerçado na narrativa bíblica ocidental, para inserir nele seu tema de eleição. Vianco não está tentando algo novo, está só viajando pelo tempo carregando a bagagem de sempre. Não que ele precisasse fazer algo novo, mas a própria ambientação da narrativa nos tempos de Jesus – Ezra é identificado mais adiante como primo de João, o Batista, convalidando esta afirmação – pediria uma solução mais orgânica. Incluir um vampiro, identificado assim mesmo, com esta palavra, fere de morte a credibilidade da narrativa. Não pensem que vejo como um problema colocar vampiros em qualquer época (eu até vejo, mas não é o centro do meu argumento aqui). O que seria interessante em ver um vampiro em um período tão remoto é imaginar como aquela visão de mundo supersticiosa e religiosa entenderia tal criatura. E usar a palavra “vampiro” é oferecer uma interpretação a priori que negligencia qualquer tentativa de imaginar esse entendimento. E
mbora algumas narrativas folclóricas hebraicas, como os filhos de Lilith, devoradores de energia sexual, possam ser vistas como lendas ancestrais de vampiros, não seria assim que eles seriam encarados pela Israel do século I, e sim como demônios, íncubos ou súcubos, Dibuk – há até mesmo uma palavra à disposição naquele contexto, alukah, que significa literalmente “sanguessuga”, e que é usada em Provérbios 30:15: “A sanguessuga tem duas filhas: Dá e Dá. Estas três coisas nunca se fartam; e com a quarta, nunca dizem: Basta!”, no que poderia ser uma referência ancestral ao mito “vampiresco”.
Escrever é pesar as palavras, e ao escolher usar o termo “vampiro”, já tão carregado de interpretações extemporâneas ao conto que escreveu, Vianco não deixa de transformar sua narrativa de uma “história bem contada”, como a coletânea se anuncia, em… experimento literário. A chave de leitura passa a ser metaficcional:  desculpa-se o uso do termo vampiro porque isto é uma história “de André Vianco, autor de livros de vampiro”, não “a história de um lenhador judeu enfrentando um horror incompreensível no século I”. Busca-se no escritor e em sua carreira pregressa algo que atenue a impressão de que o autor não dotou a história de coerência interna.

Na Maternidade, de Thalita Rebouças
Uma divertida e bem-humorada narrativa de Thalita Rebouças que não chega a começar exatamente bem, mas se recupera até um final que abraça com sinceridade a emoção. Armando é um homem para quem pelada (o jogo, bem entendido) é “um troço muito importante” – e, por isso, ele está sempre arranjando problemas com sua mulher, Angela Cristina, que “como toda mulher de peladeiro, detesta o meu dia de pelada. Diz que não entende como um bando de marmanjos leva tão a sério ‘um jogo idiota’, como conseguimos deixar mulher de lado em prol de futebol e outras barbaridades do gênero“. Esse foi meu senão inicial com a obra: a insistência em reforçar estereótipos sexistas como o do “peladeiro de alma” e suas atribulações com a incompreensão das mulheres a respeito desse ritual sacrossanto do futebol semanal. Ainda bem que o texto é assinado por Thalita. Fico imaginando o que se poderia dizer dele se fosse escrito pelo David Coimbra, por exemplo. 
Mas voltemos ao conto. Armando e Angela estão esperando um bebê para breve. Ao saber dessa informação, o leitor não tardará a deduzir que a filha terminará por nascer perto de uma pelada marcada pelo pai com os amigos. E é aqui que o conto me surpreendeu, de certo modo, porque parecia se encaminhar para uma comédia em que a graça viria das trapalhadas do pai tentando estar presente nas duas situações, mas não é isso. A esposa de Armando tem o bebê, e ele de fato decide de súbito ir até a pelada já marcada. Imerso na tensão cômica que foi aguardar o parto com a mulher, Armando só percebe a imensidão do que acaba de acontecer com ele, tornar-se pai, depois do jogo, em uma cena que poderia ser piegas mas que tira proveito de uma linguagem leve, aparentada com a crônica, apropriada para a brevidade da história. 
Narrado em primeira pessoa, o conto produz humor por diálogos ágeis, na contraposição entre Armando, deslocado mas presente em um momento em que ele é necessário mas completamente inútil, como o do parto, e Angela, voluntariosa e tensa pelas dores. É uma boa história, como falei, e um entretenimento tecnicamente bem-executado.

Fogo e Trevas, de Eduardo Spohr
Confesso nunca li a série que tornou Spohr um fenômeno de público, A Batalha do Apocalipse, portanto não posso dizer se o texto publicado na coletânea é de algum modo parte dos romances do ciclo – a apresentação do autor, anterior ao conto, não discrimina se o texto é um conto ou parte de um romance inédito ou já publicado (Felipe Pena explica no ensaio introdutório que abriu mão do critério do ineditismo), e essa é uma crítica que pode ser feita à organização do volume. Este texto, contudo, não é um conto, é claramente um fragmento de um romance em progresso ou até mesmo algo que se insere nas brechas de uma narrativa maior, talvez até multimidiática, como uma fanfic de um RPG, algo assim, mas não posso apostar. Basicamente, é a condução de duas cenas em momentos distintos no tempo e no espaço, e o andamento e a coesão situam-se, consequentemente, fora dos parâmetros de análise.
A primeira parte narra a luta de um grupo multifacetado de aventureiros em uma câmara subterrânea contra um demônio de, como diz o título, “fogo e trevas” – algo que claramente se inspira, mesmo que por caminhos indiretos, na batalha contra o Balrog nas minas de Moria descrita por Tolkien em O Senhor dos Anéis. O grupo de aventureiros tem a variegada composição obrigatória em obras literárias de fantasia-mágica-medieval-ao-estilo-RPG-ou-videogame-adventure: Eu poderia enumerar, mas acho que podemos dar voz ao próprio autor:
“Quem vinha primeiro era Artimus, o cavaleiro, segurando sua enorme espada de duas mãos. Trajava uma armadura de placas de metal, com o visor do elmo levantado. Alana, a feiticeira, caminhava logo atrás, seguida pelo bruxo Zamir, com suas vestes negras e cajado de marfim escuro. Na retaguarda apareceu Grammal, um guerreiro bárbaro meio gente e meio orc com a força de três homens, carregando um pesado machado duplo com lâminas-irmãs duas extremidades.”
O trecho não diz, mas o grupo também é composto por um arqueiro e por um “halfling” – raça mágica recorrente em RPG, são humanoides pequenos e ágeis, parecidos com duendes para os não iniciados. A segunda metade da narrativa mostra, seis meses antes, o guerreiro Artimus em uma aprazível varanda em uma localidade nas montanhas, engajado em um diálogo com uma sacerdotisa no qual repassa os antecedentes que vão levar à aventura da primeira parte da história.
Com raras exceções, considero a literatura derivada de RPGs falha em reproduzir literariamente a diversão proporcionada aos participantes efetivos do jogo, mas estou mantendo minha mente aberta aos postulados da coletânea: não há novidade alguma no uso que  Spohr faz desse material, mas vamos analisar como ele é estruturado enquanto entretenimento. A luta na câmara subterrânea é uma cena de aventura narrada em ritmo ágil, embora padeça de alguns problemas, um deles recorrente dos quadrinhos de super-heróis: a descrição de um gesto é simultânea à enunciação de uma fala, e o gesto claramente deveria ser rápido demais para que essa fala pudesse ser proferida, ou o suspense é ralentado até muito além do que seria crível mesmo dentro dos postulados internos de uma obra de fantasia. Há também deslizes técnicos: algumas descrições, embora empolgadas, não são eficientes em fazer o leitor visualizar corretamente a ação:
Percebendo que Alana era uma feiticeira cujos encantamentos poderiam afetá-lo, usou sua mão esquerda para agredir a mulher. Por instinto, Alana pulou para trás e protegeu o rosto. Escapou das garras, mas o punho da fera a acertou no quadril“. Esse gesto me parece fisicamente impossível: ou Alana foi atingida por um punho fechado ou por garras de uma mão aberta. Ainda que o tal demônio fosse o Wolverine, com as garras projetadas do dorso da mão, não consigo imaginar como alguém, com um passo para trás, se esquivaria das garras mas não do punho.
Um pouco antes, um dos aliados vestidos em armadura já havia sido derrubado e pisado pelo demônio. Nessa cena temos outro problema:
A placa que protegia o tórax de Grammal era a única coisa que o mantinha vivo, mas esquentava a cada instante, feito chapa quente. Em pouco tempo, o semiorc seria esturricado.
Bom, até onde eu me lembro, uma placa peitoral é uma chapa metálica, que está ficando quente, no caso do conto. A menos que a metáfora “feito chapa quente” seja uma inserção deslocada de uma gíria carioca, é uma redundância que compromete. Sem falar que é estOrricado, e não estUrricado.
Dado que o objetivo era o entretenimento, esses problemas são, para mim, pedras no caminho que impedem a fruição de uma boa leitura em uma narrativa que já é na origem o reaproveitamento de clichês narrativos de fantasia. Sempre vai ter alguém dizendo que gostou, que o autor tem fãs (não discuto isso, ele tem mesmo, e eu não li o Batalha do Apocalipse). Entendo que provavelmente os textos de Spohr não se dirigem a leitores da minha idade ou com minha bagagem de leitor (no bom e no mau sentido), mas a jovens abertos a ler tudo como novidade porque, para um leitor recém-iniciado na leitura, tudo de fato é novidade. Só que estou analisando este texto da forma como  foi apresentado, em uma coletânea voltada para o leitor não iniciado e sem notas de rodapé.

Por hoje era isso. Espero vocês no próximo post sobre o livro.

Vamos descongelar os subzeros

15 de agosto de 2012 0

Antes mesmo do lançamento oficial da Granta, Geração Subzero, uma coletânea de autores “congelados pela crítica mas adorados pelos leitores” foi impressa (ao menos é essa a definição que o livro traz no subtítulo impresso em sua capa). Em um lance inteligente de marketing, a obra se apresentava desde o ensaio de seu organizador, Felipe Pena, como uma resposta provocadora ao que a Granta e outras tentativas de hierarquização do ambiente literário contemporâneo representavam: os autores também são em número de 20, como na seleção da revista estrangeira, e o título é uma referência direta à Geração Zero Zero organizada no ano passado por Nelson de Oliveira.

O ensaio introdutório do organizador Felipe Pena é um combatente armado disparando generalidades para mais de um lado e enchendo-se de ressalvas a cada linha como autodefesa, senão vejamos: “É fácil perceber que grande parte da nossa ficção é elitista e pretensiosa. Os autores (estou generalizando de propósito novamente) não se preocupam com o principal, que é contar uma história. Alguns livros nem história têm, limitando-se ao já mencionado experimentalismo linguístico”. Mais adiante, Pena até enumera os autores contemporâneos que, segundo ele, buscam “uma história bem-contada, isto é, aquela que constrói um fluxo envolvente e cujas situações transmitem eficientemente os dramas dos personagens, estabelecendo contato emocional com o leitor“. A definição entre aspas é tomada emprestada por Pena de uma entrevista do escritor Rodrigo Lacerda. Quando enumera os autores que seguem essa estratégia, Pena lista o próprio Lacerda, Fernando Molica, Tatiana Salem Levy, Homero Senna, Edney Silvestre, Bernardo Carvalho, Cristóvão Tezza, Livia Garcia-Roza e Sérgio Rodrigues.

Nada a objetar, concordo com ele, e incluiria ainda outros como Michel Laub, Daniel Galera, Carol Bensimon, Max Mallmann. Miguel Sanches Neto, Alexandre Plosk, Paulo Scott, entre outros (falo do Scott narrador, não do poeta). O que me faz desconfiar de sua primeira afirmação, quando com essa lista cobrimos boa parte dos autores de interesse no momento e ainda deixamos muita gente de fora, por esquecimento. Quem são, portanto, esses que formam a “grande parte da nossa ficção”? Pena não diz. Esse é o primeiro ponto problemático de seu ensaio, que diz não pretender “desvalorizar os autores que seguem a verve intelectual da crítica especializada, muito menos desarticular seus grupos de influência que se eternizam em elogios mútuos (e, às vezes, justos) pelos cadernos de cultura do país”. A afirmativa é retórica, como o tom depreciativo da sentença deixa claro, e aí seria melhor e mais apropriado dar nome aos bois de uma vez.

Levando a questão da literatura brasileira ensimesmada como parâmetro a não seguir, ele aponta um preconceito da crítica (que existe, já começamos concordando) com a literatura de entretenimento, para a qual a coletânea organizada por ele é um veículo: “O que desejo é apenas abrir espaço para um outro tipo de literatura, cuja proposta de retorno ao compromisso narrativo inclua mais um conceito demonizado pela crítica: o entretenimento. Mais adiante ele define os termos: “Em literatura, entretenimento é sedução pela palavra escrita. É a capacidade de envolver o leitor, fazê-lo virar a página, emocioná-lo, transformá-lo. // É esse o conceito de entretenimento que defendo para a ficção brasileira. Tenho a impressão de que todas as outras artes já o utilizam desta forma, mas a literatura ainda parece padecer da velha dicotomia entre o erudito e o popular“.

Chegamos ao ponto relativamente válido do ensaio, e que poderia ter sido abordado na origem, nos poupando de umas três páginas de ataque à crítica, à academia, à literatura brasileira, etc, etc. Curiosamente, ao fazer uma defesa tão eloquente do entretenimento, Pena prefere citar nomes estrangeiros como Nick Hornby e David Sedaris sem nunca mencionar, por exemplo, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Tony Bellotto ou Tabajara Ruas, cultores do policial e da ficção de pegada pulp, ou Luis Fernando Verissimo, cronista de leitura em todo Brasil. Ou melhor, a citação a Hornby e a Sedaris é do escritor João Ximenes Braga, mas Pena concorda com ela. Mas o que o organizador do livro pretende é um espaço para o reconhecimento crítico da literatura de entretenimento (é o que está expresso na oposição “crítica-leitores” do subtítulo, apesar dos ataques ao pedantismo acadêmico e à insistência no ponto de que essa literatura é amada pelo público). Bueno, pretendo fazer minha parte nesse processo repetindo aqui com a Geração Subzero a experiência que fizemos com a Granta: uma série de resenhas em bloco, texto a texto, dos 20 contos do livro. E vamos ler o livro de acordo com seus próprios pressupostos. Os contos ali incluídos são obras que têm como prioridade declarada o entretenimento. Então os leremos assim, mas lembrando que mesmo o entretenimento tem regras: uma das principais delas o domínio técnico. Cinema de entretenimento é cinema tecnicamente superior, muitas vezes, a filmes de arte feitos na raça. Um show de Ivete Sangalo ou de Daniel tem produção mais vistosa e mais esmero em luz e movimento do que João Gilberto com um banquinho no meio do palco, para usar como exemplo as “outras artes” que Pena evoca.

Vamos só fazer diferente desta vez: eu não teria paciência para outros cinco blocos de textos com quatro resenhas. Vamos fazer quatro capítulos com cinco contos analisados em cada um. Os autores reunidos na coletânea são Juva Batella, Pedro Drummond, André Vianco, Thalita Rebouças, Eduardo Spohr, Luiz Bras, Luiz Eduardo Matta, Sérgio Pereira Couto, Estêvão Ribeiro, Raphael Draccon, Ana Cristina Rodrigues, Julio Rocha, Helena Gomes, Carolina Munhoz, Vera Carvalho Assumpção, Martha Argel, Janda Montenegro, Delfin, Eric Novello e Cirilo S. Lemos

Stay tuned.