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Deve ter no sebo...

04 de maio de 2012 5
Interior da Livraria Traça, na Osvaldo. Foto: Bruno Alencastro

Interior da Livraria Traça, na Osvaldo. Foto: Bruno Alencastro

Desde muito cedo Porto Alegre formou a cultura de uma cidade ligada a seus sebos. Um dos maiores intelectuais do Estado, Sérgio da Costa Franco, recorda que desde sua juventude nos anos 1940 a cidade tinha sebos notáveis bastante frequentados:

– Desde aquela época havia sebos de destaque na cidade. Na duque com Marechal Floriano tinha a Livraria Liceu. Tinha outro também mais abaixo, descendo a marechal Floriano, entre a hoje Salgado e a Riachuelo. O Pedro Garcia, escritor, tinha uma livraria ali – relembra.

Franco argumenta que um dos motivos para a proliferação de sebos na cidade é seu caráter de centro universitário.

– O Sebo existe principalmente nas cidades em que há universidade. É a loja de livro velho que fazia as obras circularem. O estudante comprava barato o livro que outro estudante que já havia usado havia vendido. – comenta Franco, ele próprio um antigo frequentador de sebos, hábito que foi abandonando pela falta de espaço em suas estantes para mais livros.

Porto Alegre é uma cidade de sebos – ou seja, com alternativas para o leitor recuperar as obras que o mercado deixou cair no esquecimento pela ausência de reedições. Nem a Câmara Rio-Grandense do Livro tem um número oficial de quantas lojas de livros usados existem, mas os próprios livreiros arriscam umas 25. Também não há uma associação específica, não por falta de tentativas:

– Já se tentou fundar uma, mas a ideia nunca vingou. Acho que livreiro é meio desunido – comenta Ivo Alberto Almansa, proprietário desde 1980 da Martins Livreiro da Rua da Praia.

Vitrine da Ábaco Livros. Bruno Alencastro: ZH

Uma característica dos sebos é que, diferentemente das pequenas livrarias, a internet serve hoje mais como aliada do que ameça. Enquanto as pequenas livrarias lutam e se diversificam para resistir à grande concorrência exercida pelas redes gigantescas de megalivrarias e seus sites com descontos muitas vezes difíceis de igualar, os sebos se congregaram em redes virtuais que abriram novas possibilidades aos comerciantes e aos leitores. A principal delas é a Estante Virtual (www.estantevirtual.com.br), seguida pela mais recente Livronauta (www.livronauta.com.br). Embora tais redes não incluam o acervo integral de seus associados, elas facilitaram e ampliaram o contato entre quem vende e quem quer comprar. Isso mudou inevitavelmente o perfil do consumidor em sebos.

– Nós perdemos aquele “cliente” regular que vinha ao sebo pesquisar uma compra ou encomendar. Mas ao mesmo tempo, vendemos cada vez mais para fora de Porto Alegre: tanto para o interior do Estado quanto para alguém lá no Nordeste que está procurando um livro e achou na rede virtual – comenta o dono da Mosaico, Guilherme Matzenbacher, que continua: – imagino que no futuro será engraçado pesquisar acervos e bibliotecas ou mesmo os próprios sebos. Se antes em sebos se achavam muitos exemplares com carimbo de livrarias daqui, do Interior, de Santa Maria, de Novo Hamburgo, vai se encontrar lá em Fortaleza bibliotecas com bom número de livros comprados no Rio Grande do Sul.

A nova realidade virtual não deixa de representar um desafio e um enigma. Como muito do contato com o leitor não se dá mais na loja, as próprias livrarias têm de descobrir meios de cativar o leitor além do preço.

– Meus conhecimentos de 35 anos de balcão de livraria não valem muito nesse universo novo – reconhece Almansa.
Às vezes cabe ao livreiro ser mais do que um atendente, ser o próprio pesquisador do cliente.

– Várias vezes faço isso: o cliente me liga e diz: me procura um livro tal, por favor – comenta Letícia Cartell, da Sapere Aude.

Interior da Sapere Aude. Foto de Bruno Alencastro

Sabendo que os sebos de Porto Alegre ganham pontos pelo caráter afetivo, fizemos para a edição especial de aniversário da Zero Hora um Segundo Caderno editado por Jorge Furtado. Pedimos a quatro intelectuais que sugerissem livros que vinham procurando há algum tempo, sem sucesso. Munidos da lista, percorremos 15 sebos da cidade – os maiores ou mais tradicionais. O resultado de nossos dois dias percorrendo sebo no método tradicional do pé no chão (deixamos as pesquisas virtuais para depois de uma recorrida aos sebos tradicionais) foi o seguinte:

* As Confissões de Nat Turner, de William Styron – sugestão de Tabajara Ruas.
Romance sobre uma rebelião de escravos, escrito pelo mesmo autor de A Escolha de Sofia. Foi o de percurso mais fácil. Fazendo o circuito dos sebos a pé, encontramos exemplares em cinco sebos:
– Traça (Osvaldo Aranha, 966, Bom Fim): dois exemplares, um da edição da Expressão e Cultura, de 1968, com tradução de Vera Neves Pedroso, a R$ 15, e uma reedição da mesma tradução pela Rocco, de 1985, a R$ 12.
– Sapere Aude (Lopo Gonçalves, 33): um exemplar da edição de 1985, da Rocco, a R$ 8.
– Rino/Nova Roma (General Câmara, 428): um exemplar da edição de 1968 da Expressão e Cultura a R$ 10.
– Beco dos Livros da Rua da Praia (Andradas) – três exemplares: um da edição de 1968 da Expressão e Cultura a R$ 17,20; um da edição de Rocco, de 1985, a R$ 9 e um exemplar de uma terceira edição, pela portuguesa Distri Editora, também de 1985, traduzida por Inês Bussi, a R$ 5.
– Beco dos Livros da Riachuelo (Riachuelo, 1496) – Um exemplar da edição de 1968, a R$ 10.

* Guerra em Surdina, de Boris Schnaiderman – sugestão de Tabajara Ruas.

Um texto sobre a experiência do autor como combatente da FEB na II Guerra Mundial, mas a batalha para encontrá-lo também não chegou a ser extremamente árdua. Havia exemplares em quatro sebos:
– Ladeira Livros (General Câmara, 385): um exemplar da edição mais recente, de 2004, da Cosac Naify, a R$ 30.
Ábaco Livros (Osvaldo Aranha, 426): dois exemplares da 3ª edição pela Brasiliense, de 1995, a R$ 10 cada um.
– Ventura Livros (Fernandes Vieira, 627, loja 2): um exemplar da mesma edição da Brasiliense a R$ 10.
– Livraria Erico Verissimo (Jerônimo Coelho, 377): um exemplar de uma edição da Brasiliense de 1985, a R$ 15.

* Trainspotting, de Irvine Welsh – sugestão de Daniel Galera
A tradução de um livro cult feita pelo próprio Galera e por Daniel Pellizzari esgotou sem que houvesse reedição. É um livro difícil, de acordo com os próprios livreiros. na nossa peregrinação, só achamos um:
– Ponto dos Livros (Venâncio Aires, 449, loja 6): um exemplar a R$ 30, já reservado.
– Havia também um exemplar em alemão na Ladeira Livros, a R$ 18.

Interior da Ponto dos Livros. Foto de Bruno Alencastro

Os demais livros, A Queda do Anjo, de Yukio Mishima, sugestão de Galera; Hospício é Deus e O Sofredor do Ver, ambos de Maura Lopes Cançado, sugestão de Manoela Sawitzki; e História da Música Ocidental, de Jean & Brigitte Massin, e Beethoven: um compêndio, sugestão de Celso Loureiro Chaves, não foram encontrados. A pesquisa de Zero Hora se estendeu aos seguintes sebos, que você já pode anotar para pôr na agenda:

– Ábaco Livros (Osvaldo Aranha, 426)
– Beco dos Livros da Rua da Praia (Andradas)
– Beco dos Livros da Riachuelo (Riachuelo, 1496)
– Beco dos Livros da Rua da Ladeira (General Câmara, 409)
– Erico Verissimo (Jerônimo Coelho, 377)
– Espaço Cultural Qorpo Santo (Viaduto Otávio Rocha, loja 1)
– Martins Livreiro (Riachuelo, 1279)
– Mosaico (Riachuelo, 1264)
– Ponto dos Livros (Venâncio Aires, 449, loja 6):
– Rino/Nova Roma (General Câmara, 428).
– Sapere Aude (Lopo Gonçalves, 33).
– Só Ler da Senhor dos Passos (Senhor dos Passos 266)
– Só Ler da Andradas (Andradas, 870)
– Traça (Osvaldo Aranha, 966, Bom Fim)
– Ventura Livros (Fernandes Vieira, 627, loja 2)

Uma festa para a literatura da cidade

30 de março de 2012 1

Ilustração de Fabriano Rocha para o material de divulgação da FestiPoa Literária

Será lançada neste sábado a programação oficial da 5ª edição da FestiPoa Literária, um dos eventos marco da programação cultural da Capital no primeiro semestre. Dois debates marcam o lançamento oficial da programação da FestiPoa, no Jardim Lutzenberger, no 5º andar da Casa de Cultura. Às 16h, um debate entre três grandes agitadores das letras, Tânia Rösing, Marcelino Freire e Sérgio Vaz. Às 18h, um debate sobre o fazer poético reúne Martha Medeiros e Marina Colasanti, com mediação de Maria Rezende. Marcelino Freite também aproveita para autografar seu novo volume de contos, Amar é Crime, pelo selo editorial do qual é um dos fundadores, Edith.

A 5ª edição da FestiPoa, que vai de 18 a 28 de abril e tem como homenageado Ivo Bender. Veja a programação dos 10 dias de festa literária, com links, quando possível, para matérias anteriores do Mundo Livro sobre convidados e obras desta edição:

DIA 18 DE ABRIL, QUARTA-FEIRA
No Bar Ocidente (João Telles, esquina com Osvaldo Aranha)
* 18h30min – O homenageado da programação, o dramaturgo Ivo Bender, conversa com Diones Camargo, Tatata Pimentel e Regina Zilberman
* 20h30min – Uma leitura dramática de obras do homenageado.

DIA 19 DE ABRIL, QUINTA-FEIRA
No Auditório Luís Cosme, 4º andar da Casa de Cultura Mario Quintana (Andradas, 736)

* 18h30min – A crítica literária Beatriz Resende e o professor e organizador de antologias Ítalo Moriconi debatem A Produção Literária Brasileira Contemporânea, com mediação do escritor Paulo Scott, autor de Habitante Irreal.
* 20h – O escritor Joca Reiners Terron, autor de Do Fundo do Poço se Vê a Lua, conversa com o brasileiro Sérgio Sant’Anna, autor de O Livro de Praga, e o argentino César Aira.

DIA 20 DE ABRIL, SEXTA-FEIRA
No Auditório Luís Cosme, 4º andar da Casa de Cultura Mario Quintana (Andradas, 736)
* 18h30min – Ramon Mello entrevista Heloísa Buarque de Hollanda, crítica literária, professora, editora e curadora do Portal Literal.
* 20h – Cíntia Moscovich, autora de Por Que Sou Gorda, Mamãe, revê a literatura politicamente incorreta em debate com a musa do udigrudi nacional Márcia Denser.

No Espaço Cultural Sintrajufe-RS (Marcílio Dias, 660)
* 22h Sexta Básica, noite de leituras, performances, shows e apresentações poéticas e musicais. Com Iracema Macedo, Ramon Mello, Gabriel Pardal e o show Escrete Chico Buarque, com Antônio Carlos Falcão, Alexandre Missel e Jorge Furtado.

DIA 21 DE ABRIL, SÁBADO
Na Palavraria (Vasco da Gama, 165, bairro Bom Fim)
* 11h – O crítico argentino Cristian de Nápoli e Karina Lucena debatem A Produção Literária Latino-Americana Contemporânea, com mediação do professor Rubén Daniel.
* 14h24 – Sessão de leitura A Melhor Maneira de Dizer Tudo em 6 minutos, com Leila Teixeira.
* 14h30 _ O poeta Fabrício Corsaletti e o escritor Ismael Canepelle realizam o debate Estudos Para o Corpo da Linguagem, com mediação de Guto Leite.

Na Casa de Teatro (Rua Garibaldi, 853, bairro Independência)
* 17h – Os poetas Diego Grando e Gabriel Pardal debatem Poesia: Humor: Liberdade:, com mediação de Diego Petrarca. O bate-papo será seguido dos autógrafos dos livros Carnavália, de Gabriel Pardal; Sétima do Singular, de Diego Grando, e Correnteza e Escombros, de Olavo Amaral.
* 20h – Um sarau com leituras de Fabrício Corsaletti, Cristian de Nápoli e da poeta Angélica Freitas.

DIA 22 DE ABRIL, DOMINGO
Na Palavraria (Vasco da Gama, 165, bairro Bom Fim)
* 14h30 – Os escritores Henrique Schneider e Olavo Amaral falam sobre Narrativas Breves, Fantásticas e Reais, com mediação de Leila Teixeira.
* 16h24 – Sessão de leitura A Melhor Maneira de Dizer Tudo em 6 minutos, com Ramon Mello.
* 16h30 – Os escritores Pedro Maciel e Altair Martins debatem Identidade: Ficção, Esquecimento e Memória?, com mediação da jornalista Luciana Thomé. Seguido do lançamento de Previsões de um Cego, de Pedro Maciel.
* 18h30 – Luís Roberto Amabile e Carol Bensimon, autora de Sinuca Embaixo D’Água, debatem Literatura se Faz na Universidade? com mediação de Augusto Paim.
* 20h30 – Recital de poesia, com alunos da oficina Bem Dita Palavra, ministrada pela poeta carioca Maria Rezende.


DIA 23 DE ABRIL, SEGUNDA-FEIRA
No mezanino da Casa de Cultura Mario Quintana (Andradas, 736)
* Das 17h às 22h – Noite do Livro e da Literatura, com leituras, por convidados e pelo público, de O Tempo e o Vento, e gravação de um vídeo celebrando 50 anos da conclusão da trilogia.
* 18h30 _ O quadrinista Rafael Coutinho e o cartunista Santiago debatem a produção de quadrinhos e humor, com mediação de Moa. Com lançamento do projeto e da exposição Gazzara.
No Teatro Carlos Carvalho da Casa de Cultura Mario Quintana (Andradas, 736)
* 20h – Leitura Dramática da peça O Tempo sem Ponteiros, de Diones Camargo. Direção de Diones Camargo. No elenco, Fernanda Petit, Fabrizio Gorziza, Renata Stein e Francine Kliemann.
No mezanino da Casa de Cultura Mario Quintana (Andradas, 736)
* 21h30 – Performance Tanka!?, do grupo Hoburaco
* 21h44 – Sessão de leitura A Melhor Maneira de Dizer Tudo em 6 minutos, com Rosane Pereira.
* 21h30 – Performance Ontolombrologia Sertaneja: Ode aos Vates, com Gabrielle Vitória.

DIA 24  DE ABRIL, TERÇA-FEIRA
No auditório do Goethe Institut (24 de outubro):

* 20h – Leitura dramática de Quem Roubou meu Anabela?, de Ivo Bender, com direção de Marcelo Adams. No elenco, Gisela Habeyche, Margarida Leoni Peixoto, Marcelo Adams e Pedro Antunes.
* 21h _ O encenador Marcelo Adams e a professora de literatura Léa Masina debatem A Dramaturgia e a Ficção de Ivo  Bender

DIA 25  DE ABRIL, QUARTA-FEIRA
No Ocidente (Avenida Osvaldo Aranha, 960, entrada pela Rua João Teles, Bom Fim)

* 18h30 _ O neurocientista Ivan Izquierdo e o poeta Armindo Trevisan debatem Memória e Literatura, com mediação do escritor Altair Martins, autor de A Parede no Escuro.
* 20h _ O organizador do Bloomsday de Santa Maria, Aguinaldo Severino, e o tradutor e professor Caetano Galindo debatem Ulisses, de James Joyce
22h _ Show Ronald Augusto Trio

DIA 26  DE ABRIL, QUINTA-FEIRA

Na Sala II do Salão de Atos da Ufrgs (Campus Central, Avenida Paulo Gama)
* 19h –
Luiz Tatit e Luis Augusto Fischer debatem o Núcleo da Canção.
* 21h – Ademir Assunção entrevista Nei Lisboa.

DIA 27 DE ABRIL, SEXTA-FEIRA
No Auditório Luís Cosme, 4º andar da Casa de Cultura Mario Quintana (Andradas, 736)

* 18h30 _ O crítico Antonio Carlos Secchin e o poeta e diretor do IEL Ricardo Silvestrin conversam sobre produção poética e leitura de poesia. Seguido de lançamento de Memórias de um Leitor de Poesia, de Antônio Carlos Secchin
* 20h _ Homenagem ao Centenário de Publicação de Eu, de Augusto dos Anjos, com Jaime Medeiros Jr. Paulo Seben, Sidnei Schneider e Ana Tettamanzy.
* 21h30 – Lançamento da coletânea Moradas de Orfeu, reunindo poetas do RS, SC e PR, organizada por Marco Vasques.

No auditório do Goethe Institut (24 de outubro):

* 19h _ Sarau literário com temática Erotismo.

DIA 28 DE ABRIL, SÁBADO
No Auditório Luís Cosme, 4º andar da Casa de Cultura Mario Quintana (Andradas, 736)

* 10h30 _ Os críticos Miguel Sanches Neto e João Cezar de Castro Rocha debatem A Consciência da Crítica Literária Brasileira, com mediação do jornalista Carlos André Moreira

No mezanino da Casa de Cultura Mario Quintana (Andradas, 736)
* 15h – A professora Lívia Lopes Barbosa apresenta a conferência Drummond: Três retratos, um poeta.
* 16h – Lançamento de A Voz do Ventríloquo, de Ademir Assunção
* 18h – Livro ao Vivo, sarau de leitura de poesia, com Andréia Laimer, Diego Petrarca, Lorenzo Ribas e Rodolfo Ribas.
* 18h24 – Sessão de leitura A Melhor Maneira de Dizer Tudo em 6 minutos, com Everton Behenck
* 18h30min – Paulo Lins, autor de Cidade de Deus, e Fabiana Cozza, participam do debate Desde que o Samba é Samba, com mediação de Marcelino Freire
* 20h30min – Show de Henry Lentino Quarteto

* 21h – Festa de Encerramento da programação

Polêmica nos bastidores do Prêmio Moacyr Scliar

21 de março de 2012 10

Eduardo Sterzi na Flip 2011. Foto: Walter Craveiro, divulgação

Na central de hoje do Segundo Caderno, encontra-se um texto que resume em parte uma polêmica recente envolvendo a 1ª edição do Prêmio Moacyr Scliar. Na última sexta-feira, dia 16 de março, o poeta, jornalista, crítico literário e professor Eduardo Sterzi, que havia sido laureado com uma menção honrosa no resultado pelo júri do prêmio, enviou um e-mail ao diretor do Instituto Estadual do Livro renunciando à premiação.

De acordo com ele, o prêmio havia se tornado um festival de “promiscuidades” e apequenava-se ao mudar a premiação do Palácio Piratini, onde estava inicialmente prevista a entrega oficial, para a Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, devido à bem conhecida aversão de Ferreira Gullar, o vencedor, em pegar aviões. Também mencionava de passagem que era outro “absurdo” o fato de Antônio Carlos Secchin, integrante da Academia Brasileira de Letras, fazer parte do júri. Ele, ao lado de Alfredo Bosi, é um dos prefaciadores da obra que venceu o prêmio, Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar.

Para saber mais detalhes dos motivos que levaram o poeta autor de Aleijão (o livro que recebeu a menção honrosa no concurso) a renunciar à menção honrosa que recebeu, procuramos Sterzi, gaúcho que há anos reside em São Paulo, e ele nos respondeu a seguinte entrevista, por e-mail (nos posts seguintes, publicaremos também o contraditório das entrevistas com Ricardo Silvestrin, diretor do IEL, e com o próprio Antônio Carlos Secchin:

Zero Hora – Você divulgou uma carta aberta rejeitando a menção honrosa concedida a Aleijão pelo júri do Prêmio Moacyr Scliar – na qual aponta como motivo a transferência da cerimônia oficial para o Rio. Poderia detalhar um pouco mais seus motivos?
Eduardo Sterzi –
Minha decisão de renunciar à menção honrosa se deu na última sexta-feira, quando recebi um email do Instituto Estadual do Livro com o convite para a cerimônia de entrega do Prêmio Moacyr Scliar. Não posso dizer que fiquei surpreso com a decisão de transferir a cerimônia para o Rio de Janeiro, porque já imaginava que algo assim poderia acontecer. Mas a falta de surpresa não diminuiu minha indignação ao enfim confirmar o que, em alguma medida, já se desenhava desde que o nome do vencedor do prêmio foi anunciado. Para quem conhece um pouco do comportamento pregresso de Ferreira Gullar, era óbvio que ele não se deslocaria a Porto Alegre para receber o prêmio. Já se tornou parte da mitologia pessoal do poeta, amplamente divulgada e freqüentemente reiterada pelo próprio, seu medo de avião, que funciona como um ótimo álibi para fugir de compromissos indesejáveis.
Ferreira Gullar está em seu direito, claro, em se recusar a voar seja para onde for; o que não compreendo é que, dada a recusa do autor, o Instituto Estadual do Livro ou o governador (que, segundo o convite, confirmou sua presença) tenham decidido transferir para outro estado uma festa que, evidentemente, deveria ocorrer em solo gaúcho. Não consigo me lembrar de outro prêmio que tenha feito isto, ainda mais se tratando de uma premiação promovida pela administração pública. Consegues imaginar, por exemplo, o Prêmio São Paulo de Literatura deslocando sua cerimônia de entrega para outro estado? Isto é falta de dignidade, falta de altivez. O que se quer? Conferir prestígio ao novo prêmio com uma meia dúzia de fotos de autoridades sul-riograndenses ao lado do “grande poeta”? Pois o resultado, a meu ver (e não só meu), foi precisamente o contrário. O prêmio se desvaloriza, o nome do seu patrono é desrespeitado e a imagem do Rio Grande do Sul, que é o meu estado, sai diminuída. Mas o que realmente me escandalizou foi verificar que, entre os apoiadores do evento, se encontra a editora agraciada junto ao seu autor (não esqueçamos que não só Ferreira Gullar ganhou R$ 150 mil, mas que também a José Olympio arrebatou R$ 30 mil). Também não consigo me lembrar de prêmio algum que acabe incluindo entre os patrocinadores de sua festa de entrega (no caso, o coquetel) um dos próprios ganhadores. Isto é promiscuidade – não há outra palavra.

ZH –  Você menciona que Antônio Carlos Secchin, um dos integrantes do júri, é um dos prefaciadores do livro vencedor, Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar. Crê que isso tenha influenciado a decisão final do júri?
Sterzi –
É impossível afirmar que o fato de Secchin ser um dos prefaciadores do livro premiado influenciou na decisão do júri. Mas acredito que, seja ele mesmo, sejam os organizadores do prêmio, alguém deveria ter percebido que havia aí um impedimento ético. O que se pode supor, com alguma segurança, é que pelo menos um dos votos dos jurados já tinha uma clara tendência, uma vez que o comprometimento de Secchin com a obra de Gullar não se limita à redação do prefácio do seu último livro, mas é antigo, constante e intenso, a ponto de, em janeiro de 2002, o crítico ter viajado até Estocolmo para apresentar à Academia Sueca a candidatura do poeta ao Nobel (cf. p. ex. http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u21150.shtml). Lembro ainda que não se trata do primeiro júri de que Secchin participa e do qual Gullar sai como vencedor. Isto já aconteceu no Prêmio Camões de 2010. “Naturalmente”, naquela ocasião, foi o mesmo crítico a telefonar para Gullar para lhe dar a notícia… (cf. p. ex.
http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,ferreira-gullar-ganha-o-premio-camoes,559893,0.htm).
Friso que não vejo nenhum problema no comprometimento de um crítico com determinado autor que ele admire especialmente. O que acho complicado é que este comprometimento passe a envolver dinheiro público e instituições que deveriam agir com a máxima transparência possível. Fico extremamente incomodado com o fato de que isto se dê justo com o Instituto Estadual do Livro, órgão pelo qual tenho o orgulho de ter publicado o meu primeiro livro, Prosa, em 2001.

ZH – Você anunciou a sua renúncia no dia 16 de março. Por que não na época do anúncio da premiação?
Sterzi
– Porque, como disse na primeira resposta, só recebi o convite para a cerimônia no dia 16.

ZH – Em uma comunidade literária, as relações entre jurados e concorrentes não acabam sendo de algum modo inevitáveis, uma vez que os jurados são, em sua maioria, também profissionais do meio, críticos ou criadores? E em algum certame no qual você participou como jurado, em algum momento houve, devido ao grande número de inscritos, alguma relação (prefácio, homenagem ou mesmo menção nos agradecimentos) com obras concorrentes?
Sterzi –
É certo que, no âmbito literário, cuja amplitude é relativa, inevitavelmente chegará um momento em que haverá relações entre jurados e concorrentes. Não só relações positivas, frise-se, mas também relações negativas – umas ou outras, nos mais diversos graus de comprometimento. Foi por estar consciente dessa quase inevitabilidade que, ao confirmar que o resultado da premiação era o que eu já previa, preferi não me manifestar a respeito e acabei aceitando a menção honrosa que me foi oferecida. Friso que, embora acredite que, pelas razões já expostas na minha segunda resposta (sobretudo o grau de comprometimento entre crítico e autor neste caso específico), havia um impedimento ético para a participação de Secchin no júri, não foi este o motivo de minha renúncia à menção honrosa. Questões éticas são sempre passíveis de discussão, dependem de escalas de valores compartilhadas ou não por uma comunidade, dependem até mesmo – como tu bem observas – das particularidades da constituição de uma determinada comunidade (aqui, por exemplo, o fato de ser relativamente restrita). Renunciei à menção honrosa por um fato muito objetivo, que foi a transferência da cerimônia de entrega do prêmio para outro estado que não aquele que promoveu o prêmio. Isto me pareceu uma falta de altivez e de dignidade indiscutíveis. Algo realmente inédito, diria até mesmo impensável no caso de outros prêmios promovidos por instituições ligadas a governos estaduais. Não vejo nisto senão um casuísmo deplorável. Pergunto-me: digamos que o agraciado tivesse sido qualquer outro autor que também alegasse medo de avião ou outro motivo para não ir a Porto Alegre receber o prêmio; o IEL também transferiria a cerimônia para a cidade em que este hipotético autor mora? O governador do Estado também se deslocaria para esta cidade? Não vamos longe: se o agraciado tivesse sido qualquer um dos ganhadores de menção honrosa, isto aconteceria? É evidente que não. Seria absurdo. E é absurdo. A isto se soma o fato de, no convite oficial para o evento, a editora premiada aparecer também como apoiadora, isto é, em bom português, como patrocinadora (e, portanto, dona) de parte da festa. É claro que a José Olympio tem todo o direito de promover um coquetel em homenagem ao seu autor. O que acho promíscuo é este coquetel tornar-se parte da própria cerimônia de premiação. Vejo aí uma promiscuidade lamentável, que também não comporta, a meu ver, muita discussão. Que a editora proponha tal coisa, tudo bem; que o IEL aceite, é um absurdo. Que eu me lembre, nos júris de que participei, nunca um houve uma situação como esta ocorrida no Prêmio Moacyr Scliar (até porque, que eu saiba, nenhum outro crítico brasileiro viajou a Estocolmo para apresentar a candidatura de outro escritor ao Nobel…), tampouco como as que mencionas (prefácio, homenagem ou menção nos agradecimentos). A maioria dos júris de que participei foi de concursos literários destinados a obras inéditas, em que não tínhamos acesso aos nomes dos autores. E, no único caso diverso, o Açorianos de 1997, não me lembro de haver nenhum problema dessa ordem.

Em uma comunidade literária, as relações entre jurados e concorrentes não acabam sendo de algum modo inevitáveis, uma vez que os jurados são, em sua maioria, também profissionais do meio, críticos ou criadores? E em algum certame no qual você participou como jurado, em algum momento houve, devido ao grande número de inscritos, alguma relação (prefácio, homenagem ou mesmo menção nos agradecimentos) com obras concorrentes?

A Anna deles e a minha...

18 de março de 2012 2

Tolstoi assim descreve Anna Karênina a certa altura de seu monumental romance de mesmo nome, em uma cena ocorrida em um baile. Em tempo, para quem não leu o romance: Anna Arkadiévna é a Anna do título mesmo, nomeada com o prenome de batismo e o patronímico (compreensivelmente, o mesmo de seu irmão Stiépan Arkadiévitch). No contexto da cena a seguir, a jovem Kitty citada no texto, que vê em Anna, grande dama chegada de Petersburgo, um modelo de elegância e cosmopolitismo, é a futura noiva do infausto Conde Vronsky, um belo e arrojado jovem que terminará se apaixonando pela protagonista. O amor de ambos precipitará uma tragédia (quem reclamar de spoiler com este comentário a respeito de um livro que está por aí há “só” 139 anos será desconsiderado, desculpe). Mas eu falava de Anna. Eis como ela é descrita na cena do baile:

Korsunski fez uma reverência, empertigou-se e ofereceu-lhe o braço para conduzi-la até junto de Anna Arkadievna. Kitty, corando, um pouco aturdida, afastou a cauda do vestido dos joelhos de Krivine e voltou os olhos em busca de Ana. Esta não estava vestida de lilás, como tanto teria desejado Kitty. Uma toilette de veludo preto, muito decotada, desnudava-lhe os ombros esculturais, como esculpidos em velho marfim, assim como o colo e os braços roliços, de pulsos finos. Rendas de Veneza guarneciam-lhe o vestido. Nos cabelos negros, sem postiços, ostentava uma grinalda de amores-perfeitos, combinando com outra que lhe adornava a fita preta do cinto, rematada por rendas brancas Estava penteada com muita simplicidade. Apenas alguns caracóis de cabelo frisado na nuca e nas fontes se lhe eriçavam rebeldes. Em volta do pescoço bem torneado brilhava um fio de pérolas.

Leitores de Anna Karênina - falo por mim mesmo, mas já tive corroborada a impressão por um ou outro dos leitores devotos da obra – tendem a se apaixonar pela personagem, o que talvez seja o motivo pelo qual os mesmos leitores tendem a torpedear sem piedade as transposições da história para o cinema – muitas vezes com a maior das razões, como no filme de 1997, uma das adaptações literárias mais equivocadas de todos os tempos. Ao saber, portanto, que Joe Wright se preparava para filmar mais uma versão, em pós-produção neste momento em que escrevo, fiquei desconfiado. Wright já provou ser bom em reconstituição de época e adaptação literária, mas tem o péssimo hábito (compartilhado por vários diretores de elenco, sei lá por quê) de escalar Keira em papéis de época na primeira oportunidade que aparece. Keira Knightley, com seus braços de espaguete, se houvesse um mínimo de acurácia histórica, seria mais apropriada para viver uma tuberculosa terminal em algum sanatório saído de Os Miseráveis, mas eles insistem. Daí por que, mesmo sabendo que a moça tem um rosto bonito e muito clássico, não consegui me convencer a abrir espaço na Anna da minha imaginação para a que ela representa nas primeiras imagens do filme, como a divulgada abaixo:


Keira Kightley como Anna. Foto: Laurie Sparham, Focus Features, Divulgação


Poesia num blog desses? - Carlos Drummond de Andrade e Stalingrado

14 de março de 2012 0

Foto de Stalingrado durante o cerco, em 1943.

Ando para cima e para baixo nos últimos dias com A Rosa do Povo, na nova edição que a Companhia das Letras está lançando para marcar a reedição da obra integral de Carlos Drummond de Andrade. É um livro – bem como os outros de Drummond de sua melhor fase – em que se mergulha e fica por lá. Lemos, relemos, voltamos algumas linhas, porque há uma certa qualidade esquiva que não se abre à primeira leitura, mesmo neste que é o livro por assim dizer mais “engajado” de Drummond, com poemas mais declaradamente ligados à questão social e mostrando um certo namoro do poeta com o Comunismo – o que não deixa de ser compreensível, dado que os poemas foram escritos entre 1943 e 1945, ou seja, Drummond contrapunha a resistência da União Soviética ao avanço do horror nazista.

Um dos principais símbolos desta resistência está completando 70 anos neste 2012: o cerco de Stalingrado, que durou de julho de 1942 a fevereiro de 1943. Impressionado com a férrea resistência soviética em uma batalha que teve aproxidamente dois milhões de baixas como resultado, Drummond escreveu uma ode à cidade cercada. É ela que transcrevemos abaixo no nosso Dia Nacional da Poesia:

Carta a Stalingrado

Stalingrado…
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.

Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.

Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!

A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.

As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.

Carlos Drummond de Andrade. 1943