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Posts na categoria "Destaquinho"

Reencontros de leitura

01 de maio de 2012 1

Quanto eu tinha 15 anos, já era um adolescente que gostava de ler, mas não havia ainda dedicado praticamente nada de meu tempo à leitura de autores rio-grandenses (a própria categoria “autores rio-grandenses” não passava muito pela minha cabeça na época, meu colégio ao menos não chegou a abordar isso), com exceção do Tempo e o Vento – que eu havia lido mais por causa da série de TV que passara uns anos antes do que por indicação do colégio – e de A Balada do Falso Messias, de Moacyr Scliar.  Até que um dia uma professora distribuiu na aula algumas provas de vestibular da UFRGS e da UFSM para vermos como era. E a parte de literatura vinha cheia de perguntas sobre uma gente que eu nunca tinha ouvido falar: José Clemente Pozzenato, Tabajara Ruas, Pedro Geraldo Escosteguy e Josué Guimarães. Se eu tivesse que responder aquela prova valendo, estaria ralado.

Cabreiro com o que identifiquei como uma lacuna, resolvi, na saída do colégio, passar na Biblioteca Pública de São Gabriel (desde sempre um dos meus ambientes favoritos: ficava no andar de cima de um casarão antigo na praça central da cidade, com uma sala cheia de estantes em janelas que davam para a rua) e pegar o primeiro livro que eu achasse de algum daqueles nomes. Topei então com O Cavalo Cego, de Josué Guimarães – na verdade, eu topei com um monte de livros de Josué Guimarães, todos bem longos: Dona Anja, Camilo Mortágua, os dois de A Ferro e Fogo. Peguei O Cavalo Cego porque era o mais curto.

A leitura de O Cavalo Cego me faria voltar reiteradas vezes à biblioteca para apanhar os outros livros maiores que eu havia deixado para trás. Embora não tenha sido uma leitura de estreia, aquele magrinho livro de contos com pouco mais de 150 páginas havia sido uma espécie de iniciação.

O Cavalo Cego reúne seis contos unidos pela temática do fantástico e do sobrenatural, mas nada a ver com a atual profusão de zumbis e vampiros planejados para adolescentes. Era um horror adulto, no qual a morte, embora muitas vezes vista como não sendo um fim definitivo, era motivo de melancolia e sofrimento, físico ou emocional. Li os seis relatos numa rapidez assombrosa, e durante muito tempo conservei as histórias e os episódios comigo.  O conto que dá título ao livro era uma narrativa contata por um velho combatente das revoluções gaúchas a um homem mais jovem, um pesquisador ou repórter; A Visita, que abre o livro, era a lírica despedida entre um idoso e sua mulher já falecida. Uma Noite de Chuva tinha ares de Além da Imaginação ao narrar o horror de um homem que teme ter perdido a esposa em um acidente de carro. A Travessia focava uma chacina sobrenatural em outra das revoluções pampeanas. Renato, Meu Amor, era uma narrativa que explorava a perversidade infantil – na época soou bastante perturbadora.

Dia desses, um sábado em que passeava no centro da cidade, encontrei o livro em um sebo da Rua dos Andradas, a R$ 6 reais. A mesmíssima edição, com uma capa perturbadora de uma janela aberta em fundo preto com uma fantasmagórica figura entrevista através dela (essa que ilustra o post lá em cima). Tomado de carinho por aquela lembrança afetiva e incentivado pelo preço, comprei o exemplar e levei para casa.

De cara, uma surpresa: havia outro conto do qual eu havia me esquecido. Chamava-se O Elevador, e ao ver o título me lembrei de que fora a história que mais demorei a vencer naquela época. A releitura do livro foi ainda mais rapidamente assombrosa do que a daqueles meus juvenis anos. E embora desta vez eu visse muitos problemas nas histórias que haviam arrebatado o leitor ainda inexperiente que eu era na adolescência (a linguagem talvez o maior deles. Josué escrevia bem, com uma linguagem tomada de empréstimo de sua atividade jornalística, mas às vezes sua prosa perdia o brilho justamente por isso), conseguia também entender de cara o que havia me atraído tanto naquele primeiro contato.

Josué era um fabulista imaginativo, e conseguia colorir as descrições do que seus personagens viam e faziam de modo dinâmico, deixando na mente de seu leitor imagens vívidas. A Travessia narrava a dramática tentativa de uma tropa perseguida de atravessar o vau de um rio em busca de refúgio dos inimigos que os perseguiam. A descrição da fome, do cansaço e das condições desumanas da marcha forçada eram mesmo das que marcam:

– Vi matarem três bois. Jorrava tanto pus das feridas causadas pelas cangas durante a marcha que prefiro morrer de fome a enfiar na boca essa porcaria.

A Travessia e O Cavalo Cego me pareceram as narrativas mais bem realizadas nesta segunda leitura. A Visita revelou-se mais sentimental do que eu me lembrava. Calcado em diálogos, era um conto que parecia ter envelhecido muito mal, embora ainda preservasse certa ternura. Eu não me lembrava mais da história detalhada de Uma Noite de Chuva, mas ela me foi voltando à medida que eu lia e me dei conta de que a tentativa de estender o suspense para a revelação final se alongava em demasia. Renato, Meu Amor, ao contrário, parecia ainda muito bem estruturado. O Elevador era um conto que buscava estranhamento com um episódio que foge à lógica cotidiana, mas que parecia mais um exercício do que uma realização.

O livro era ruim? Não, nada disso, ainda é um belo livro. Talvez a segunda leitura não dissesse tanto sobre o que o livro era, mas sobre o leitor que me tornei – até porque O Cavalo Cego de fato não me parece figurar com destaque no próprio conjunto da obra de Josué. A Ferro e Fogo, Camilo Mortágua e Os Tambores Silenciosos talvez ocupassem os meus primeiros lugares, se me pedissem para fazer uma lista. Mas a coletânea ainda tinha as virtudes evidentes que me fizeram gostar dela da primeira vez, ainda que eu guardasse um retrato mais colorido dela na memória devido ao papel que teve na minha formação como leitor. Imagino que seja assim que nos afeiçoamos todos – a pessoas e livros.

P.S.: O dia começou com uma nota curiosa. Comprei o livro já faz algum tempo, e vinha protelando a escrita deste texto – tanto que nesse meio tempo a L&PM lançou uma nova edição, cuja capa vocês podem ver abaixo. Hoje, ao me preparar para vir para a Zero Hora, decidi, por um impulso, que seria um bom modo de aproveitar o feriado: finalmente falar do que havia pensado durante a releitura. Procurei o exemplar na estante na estante e trouxe para a redação. Ao chegar aqui, fui informado de que a viúva do escritor, Nydia Guimarães, faleceu nesta madrugada. Um toque quase tão sobrenatural quanto os do livro.

Crimes revisados

20 de abril de 2012 0

Antes que a escola americana de policiais acostumasse os leitores – e mais adiante os cinéfilos e telespectadores – a detetives durões que mergulham no uísque e desbaratam os crimes com os punhos, o romance policial mais “tradicional” era protagonizado por tipos excêntricos, observadores geniais que resolvem o caso na base do raciocínio, mas que seriam triturados em um simples passeio na rua. É a essa linhagem que pertence o peculiar Daniel Hernández, revisor editorial que por vezes colabora com a polícia em casos desconcertantes, como os reunidos em Variações em Vermelho, do escritor argentino Rodolfo Walsh (Tradução de Sergio Molina e Rúbia Prates Goldoni, Editora 34, 240 páginas).

Repórter iluminado e escritor de precisão clínica, Walsh (1927 – 1977) é um nome de ponta das letras latinoamericanas, embora sua produção ficcional tenha sido abreviada pelos esforços dedicados à militância política contra duas ditaduras argentinas e pelo seu assassinato pelas forças de repressão. Militante da esquerda peronista, Walsh é também autor de um clássico do jornalismo investigativo: Operação Massacre, que reconta uma chacina ordenada pela ditadura do general Aramburu em 1955. O livro ganhou edição recente no Brasil pela Companhia das Letras. Emboscado em 1977, já na ditadura dos militares que ele próprio denunciou veementemente, Walsh foi assassinado e seu corpo nunca foi encontrado.

À parte sua atividade jornalística como autor de contundentes romances-reportagens, Walsh construiu uma carreira como contista – no ano passado a mesma 34 editou Essa Mulher e Outros Contos” Fascinado pelo gênero policial, editou antologias e criou seus próprios contos de mistério e crime – os cinco protagonizados pelo revisor Daniel Hernández, um tipo pacato, tímido e extremamente míope (um alter ego bem pouco disfarçado do próprio autor), foram reunidos em Variações em Vermelho, publicado em 1953, quando Walsh contava apenas 26 anos.

As debilidades físicas de Hernández não o tornam um investigador menos eficaz. Já no título Variações em Vermelho remete, não por acidente, ao Estudo em Vermelho de Sherlock Holmes, marcando sua filiação a um tipo de literatura protagonizada mais pelo cérebro do detetive do que por suas armas ou seus músculos. As histórias protagonizadas por Daniel Hernández são exemplos inventivos do policial de feição mais “clássica” – do tipo que o lingüista Tzvetan Todorov, que vem este ano a Porto Alegre para o  Fronteiras do Pensamento, classifica como “romance-jogo”. Mais do que narrativas, são desafios intelectuais que o autor lança ao leitor, criando tramas de crime que flertam com o quebra-cabeça, exigindo do detetive não apenas o esclarecimento de quem cometeu o assassinato, mas também de como ele pôde ser cometido.

A primeira e mais longa das cinco novelas, A Aventura das Provas de Prelo, apresenta Hernández e o que um revisor editorial teria a dizer à polícia em uma investigação de homicídio. Um revisor é encontrado morto debruçado sobre a escrivaninha de trabalho em sua casa. Uma garrafa de uísque sobre a mesa e a arma usada para esfacelar a cabeça da vítima, oculta sob o braço do cadáver, parecem reforçar a hipótese de suicídio – praticamente confirmada com a descoberta de um caso conjugal da mulher da vítima. A chave para a solução do crime será descoberta por Daniel, colega de trabalho do defunto, ao examinar as provas impressas de um livro que o morto se dedicava a revisar.

Daniel é o típico investigador diletante, disposto a colaborar com o policial de carreira encarregado dos casos – o delegado Jiménez, também recorrente nas cinco histórias. Como diz o próprio Walsh no prefácio: “…de todas as faculdades de que D.H. se valeu na investigação de casos criminais eram faculdades desenvolvidas ao máximo no exercício diário de sua profissão: a observação, a minuciosidade, a fantasia (tão necessária, v.g., para interpretar certas traduções ou obras originais e sobretudo essa estranha capacidade de colocar-se simultaneamente em diversos planos que o revisor tarimbado exerce quando vai atentando, em sua leitura, para a limpeza tipográfica, o sentido, a boa sintaxe e a fidelidade da versão.”

Walsh também acena com uma piscadela ao construir o mistério de modo a que os mais atentos dentre seus leitores teriam condições de solucioná-los antes do fim se sua imaginação corresse na mesma direção que a do autor.  O argentino cria exercícios clássicos da literatura de crime. No conto que dá nome ao livro, um assassinato parece ter sido cometido sem que o autor do crime tivesse entrado ou saído do atelier trancado de um artista. Assassinato à Distância encontra Hernández  imerso em uma tarefa aparentemente impossível: provar que um suicídio ocorrido muito tempo antes foi na verdade um homicídio. Em A Sombra de Um Pássaro, a chave para a morte de uma esposa infiel, um crime sem testemunhas, pode estar no pátio da casa vizinha. O quinto conto é também uma ousadia formal: cinco páginas, breves, com a história narrada em frases curtas e repetitivas que lembram um poema ou uma canção.

Não apenas na primeira narrativa, estreitamente ligada ao ofício do personagem Hernández, mas nas demais, Walsh faz de seu investigador um leitor atento dedicado a ler as pistas de crimes cometidos na realidade. E provoca o leitor do livro a ser tão ágil e atilado quanto o investigador.

Adeus ao gênio

28 de março de 2012 3

Millôr, José Antônio Pinheiro Machado e Jorge Polydoro durante a entrevista, em 1981. L&PM: Arquivo pessoal

O Estado está fracassado definitivamente. O Estado não existe, o Estado já fodeu com 70% da humanidade. Nós temos hoje, em números absolutos e relativos, você sabe disso, mais miseráveis do que em todos os tempos. Claro, se fosse só em números absolutos você diria: ‘Claro, em Roma tinha 10 mil miseráveis, hoje tem 100 mil’”. Mas em números relativos também, se o mundo tinha 50% de miseráveis, hoje tem 90%. Então vamos esquecer o Estado e vamos entrar na metafísica, a possibilidade de um indivíduo atravessar a vida, o span of lif, o período que lhe foi dado a viver, que hoje no Brasil é 61 anos, em Roma é 82. Entrando nos fatores ocasionais considero que eu devo já ter terminado, como brasileiro, a minha média de vida; posso viver mais cinco anos, ou mais 10, ou mais 20, mas já estou no lucro. Enquanto eu vivo eu tenho também uma glândula que me faz feliz, uma glândula otimista! Não foi a sociedade que me deu isso! Quando eu acordo e vejo aquele puta céu de Ipanema e eu corro na praia, isto me faz extremamente feliz. Por exemplo, o meu trabalho: agora eu estou traduzindo o Rei Lear. De repente eu comecei a me chatear com o negócio e tal, mas também descobri a Aventura, que não tem nada a ver com o negócio; eu mergulhei no século XVI e concluí que só eu no mundo, ou pelo menos no Brasil, estou fazendo isso. A gente começa a entrar naquele negócio de descobrir as palavras, o significado, o que é que elas queriam dizer há 400 anos, aquelas coisas todas. Então a pessoa que tem este temperamento, que é capaz de correr na praia, de gostar, de gostar intensamente, veja bem, não é só sexual, não, de gosta intensamente da sua relação com mulher, bom essa pessoas está noutra. (Se as feministas soubesse como eu gosto de mulher totalmente, elas viriam aprender comigo.) De gostar da minha relação puramente dinâmica. Olha eu aqui, eu estava dizendo aqui no começo da noite, quando alguém perguntou onde nós íamos, eu falei, ‘olha, não vamos sair daqui, não. Vamos ficar conversando aqui, e se de repente não tiver mais ninguém pra conversar, eu fico conversando com a cozinheira até as 4 horas da manhã, para mim está sempre tudo muito bem’. E, se você tem esta possibilidade de vida, você não pode ser senão otimista em relação à vida. Mas esta posição, este sentimento, tem muito menos a ver com a sociedade em que eu vivo do que com a metafísica que me dirige.

O depoimento acima, que resume a postura ávida de Millôr pela vida que ele teve de deixar provavelmente a contragosto hoje, está em um dos últimos livros sobre o autor lançados recentemente. No primeiro trimestre de 2011, a L&PM lançou Millôr Fernandes: A Entrevista (L&PM 104 páginas, R$ 22.), reedição em livro de uma extensa conversa entre o gênio Millôr e os então jovens homens de imprensa Ivan e José Antônio Pinheiro Machado, Paulo Lima, José Onofre e Jorge Polydoro. Os três primeiros seriam fundamentais para a criação da L&PM. José Onofre e Polydoro tornaram-se nomes referenciais do jornalismo do Estado.

Na entrevista,  Millôr fala sobre sua trajetória, sobre a política e o cenário de um Brasil numa era pré- internet e até pré- democracia, uma vez que ainda vigorava a ditadura militar no país. A conversa de Millôr com o quinteto foi realizada em uma noite de 1981, durou sete horas e foi publicada na revista Oitenta, publicação cultural da própria L&PM que marcou época em Porto Alegre lançando ficção inédita, resenhas, entrevistas de grandes autores. Lembro que era uma das coisas que representava um oásis na bibllioteca da Fabico, em 1992, entre as milhares de obras sobre Teoria da Comunicação que encontrei por lá quando mudeu para Porto Alegre para estudar jornalismo. Na mesma época, fui a uma palestra de Millôr no centro municipal de cultura e muito do que vi e ouvi aquela noite me marcou para sempre. Tanto que estou até agora tentando organizar o que representa, para mim, a morte desse homem que li e admirei por boa parte da vida. É mais fácil especular o que a morte dele representa para o Brasil: um desastre e uma falta, imensa.

Os causos e a ironia de Chico Anysio

23 de março de 2012 2


Pantaleão Pereira Peixoto, menor na idade, fez muito carinho em dona casada, em moça donzela — e — contam — até uma meninota de quinze anos, filha-de-maria e neta de doutor, sentiu nas trancas a mão ensinada de Pantaleão Pereira Peixoto a lhe ensinar o que era bom.
— Terta, espia. . . Amanhã é dia de ter noite de lua.
— Será?
— Ora será. Não tou dizendo que é? Se eu digo que é, é porque é, ô xente.
E quem é a lua pra ter coragem de não vir na noite seguinte? Ela era necessária. Nas noites em que ela vem é que Pantaleão, desde as galinhas dormirem até os pintos piarem, com o pé calçado na alpercata de rabicho comprada em Campina Grande, vestido no pijama folgado, do tempo em que era mais gordo, tem, pra quem dê a honra de aparecer, uma estória a contar.
— Seu Pantaleão, conte a estória da vaca que usava óculos. . . — insinua Pedro Bó, conhecedor do repertório do padrinho, olho brilhando pela alegria de saber que vai escutar outra vez a estória já ouvida muitas tantas.
— Isso é estória besta, Pedro Bó. Nem é estória. Isso é um causo que nem vale a pena tomar o tempo de ninguém — rebate Pantaleão, já se preparando para contar, que ele não resiste.
Dona Terta pega o bastidor para cuidar do bordado que nunca termina. A espingarda reluz, chega a encandear pelo brilho terrível produzido graças ao alisar constante da flanela de Pedro Bó. O pé de Pantaleão sobe, pousa no assento da cadeira de balanço. O visitante se ajeita para melhor escutar. E tome conversa. Tudo coisa vivida. Tudo verdade verdadeira que quem tiver coragem que caia na besteira de duvidar.
— É mentira, Terta? — a pergunta é feroz, exigindo afirmação na resposta.
— Verdaaade — a resposta é mansa como Terta, humilde como Terta, submissa como Terta, mulher como agora já não existe mais.
— Pois bom.
E começa a estória. Da vaca de óculos, do veado capenga, do bode que voa, do ganso que fala.
A de hoje não sei qual é. Nem sei, também, qual será a de amanhã. Mesmo a de ontem eu já esqueci. Só sei que, diariamente, quando a noite se apresenta, desde o deitar das galinhas até o piar dos pintos, a voz de Pantaleão Pereira Peixoto troveja pelo sertão, no causo pedido.
— Pois bom.

Chico Anysio (1931– 2012) era um homem de TV, é certo. Sua carreira está ligada ao veículo que viu nascer e que ajudou inclusive a desenvolver no Brasil – alguns dos mais “espertos” efeitos especiais dos primórdios da TV brasileira estavam no programa Chico City, na década de 1970, ainda em preto e branco, e no qual Chico por vezes, caracterizado ora como um ora como outro de seus personagens,  contracenava consigo próprio.

Mas Chico também foi popular em livro nos anos 1970 – hoje sumidos, talvez até desconhecidos.  Editoras como Sabiá e José Olympio lançaram várias coletâneas de textos de humor escritos por Chico, alguns deles baseados em esquetes que o próprio escrevia para seu programa de TV ou para suas apresentações de teatro – se hoje o stand up é mania, não se pode esquecer que comediantes de gerações anteriores, como Chico, Jô Soares, Ary Toledo, Costinha e Juca Chaves foram pioneiros populares do humor de palco. Coletâneas de textos e contos humorísticos que saíam em livros como O Batizado da Vaca ou O Enterro do Anão – que eu, na época com 13 anos, confundia com O Anão no Televisor, do Moacyr Scliar, sei lá por quê.

Como a maioria dos brasileiros de uma determinada faixa social, muito vi Chico Anysio na TV durante a infância – não Chico City, claro, Chico City é anterior a meu nascimento, mas seu sucessor, Chico Total, o programa dos anos 1980, em que os quadros eram mais independentes. E talvez  por eu ser guri na época, Chico me parecia, aos meus olhos de espectador infantil, um tanto irregular. Algumas coisas achava muito engraçadas, outras não. Achava mais graça, e provavelmente entendia mais, os programas de humor mais popularesco como Balança mas Não Cai e o próprio Viva o Gordo.

Um dos quadros do Chico que não me diziam nada era justamente o de Pantaleão – um velho de pijama com um tapa-olho contando causos – era, claro, uma referência à cultura popular de narrativa oral ainda muito presente nas comunidades do interior, como as do Nordeste de onde Chico vinha ou as do interior do Estado, onde eu morava. Talvez por conhecer muita gente na cidade que ficava sentado na varanda ou no pátio da frente, de pijama, contando história, não achava exatamente engraçado aquilo tudo quando via na TV, não sei, é uma elaboração que estou fazendo agora.

Mas houve um momento em que Pantaleão fez sentido: quando seu personagem ganhou seu próprio livro: quando encontrei na biblioteca municipal um volume de É Mentira, Terta?, publicado pela José Olympio em 1973. O livro, aproveitando carona na popularidade do personagem, o dotava de uma biografia mais detalhada. Nome completo (Pantaleão Pereira Peixoto), a razão do Tapa-Olho (furou a vista no galho de um espinheiro desbravando o mato)  e por que não saía de casa (uma enfermidade na perna que dificultava a locomoção), entre eles.  E por escrito, o livro pareceu fazer muito mais sentido do que o quadro na TV jamais fez. Chico escrevia bem. Tinha uma maneira de criar o colorido do cenário com pinceladas ao mesmo tempo graciosas e elegantes, enquanto dotava Pantaleão da voz dos grandes contadores de histórias. Claro que para quem comprou o livro nos anos 1970 o sabor deve ter sido de coisa requentada, uma vez hoje sei que muitos daqueles textos haviam sido escritos a partir dos roteiros de episódios do programa.

Mas eu, naquela época, só ouvira falar de Chico City, sem ter visto. E embora o xingamento “Pedro Bó” fosse corrente, por algum motivo, ali por meados dos anos 1980, o personagem já não aparecia mais no quadro. Talvez esta fosse a chave: os textos de Chico lidavam, principalmente nas réplicas tumultuadas entre Pantaleão e Pedro Bó, com um recurso que talvez fosse tão sofisticado que eu só fui entender por escrito: a ironia.

Pedro Bó interrompia seu padrinho com perguntas estúpidas que eram respondidas com uma brutal ironia. Não chegava a ser Machado de Assis, nunca chegou, mas eu não conhecia Machado de Assis aos  13 anos. Para um guri, a ironia de Chico era uma bela apresentação, e por escrito o espírito do “causo” finalmente ganhava uma razão de ser. Não eram textos exatamente engraçados, mas eram textos com bastante graça. Leiam uma das histórias do livro e tirem suas próprias conclusões:

EIS O MODO DE PANTALEÃO CONTAR UM FATO ACONTECIDO COM A RAPOSA E NO FIM DO QUAL A RAPOSA É FIGURA DE MENOR EXPRESSÃO

– ATÉ QUE ENFIM APARECEU! – gritou Pantaleão, feliz, ao perceber que o compadre Roberval despontava. O zaino riscou junto ao batente do alpendre, Roberval desmontou e entregou a rédea do animal a Pedro Bó, que o conduziu ao quintal, onde lhe daria água e descanso.
– É Deus quem lhe traz, meu compadre. Entre, se acomode, a casa é sua. Dona Terta chegou com os braços afastados para o abraço no compadre.
Conversaram o inevitável trivial, perguntando e sabendo das coisas e das gentes. A melhora da comadre Inocência, esposa de Roberval, foi motivo de alegria para Dona Terta, que andava muito preocupada com o estado de saúde da amiga.
– Só não veio comigo porque a gente não queria deixar a casa só – explicou Roberval. – Tem uma raposa que anda cercando o galinheiro, e Inocência tem muito jeito pra fazer armadilha de pegar raposa.
Pantaleão suspirou fundo, tirou os óculos, com o indicador dobrado coçou o lugar onde antes tivera um olho, recolocou os óculos. Terta percebeu.
– Meu velho se lembrou daquela raposa, não foi?
Era isso. A estória da raposa não podia ser esquecida numa hora em que o nome do animal fora falado.
– Conte esse causo, compadre – pediu Roberval, já bebendo a caneca, água fresquinha recém-tirada da quartinha.
Dona Terta tomou a frente.
– Agora, não. Deixe Pedro Bó voltar que se ele não escutar essa estória ele morre. Pedro Bó é doidinho por esse causo da raposa.
Não foi preciso esperar muito. Mais uns minutinhos e já vinha Pedro Bó maquitolando, mordendo um pedaço de capim, enxugando a testa com a manga da camisa.
– O cavalo tá bebido e comido, Seu Roberval – anunciou ao entrar. – Oh, cavalo mais lindo. Botei ele na sombra. Ele tá que parece um bispo, de tão quietinho. Dona Terta, então, pôde anunciar:
– Pedro Bó, vem pra cá que Pantaleão vai contar pro compadre Roberval a estória da raposa.
– Eita! – Pedro Bó deu um pulo de alegria. Os olhos se encheram de lágrimas. – O senhor pra contar estava esperando por mim?
– Não, Pedro Bó. Tava esperando pelo Dr. Getúlio Vargas. Tá vendo, Terta? Foi pra escutar essa besteira que eu esperei. Pedro Bó, vá lá pra dentro e escreva cem vezes “preciso aprender a deixar de ser besta”.
Dona Terta controlou o marido, evitou o castigo, consolou Pedro Bó, serviu um cafezinho e Pantaleão velho de guerra tomou a palavra.
– O causo se deu em Penedo, em 1927. Como voimicê sabe, compadre Roberval, bicho que raposa aprecia é galinha. Bote uma paca, bote um jumento, bote uma capivara, a raposa se vê, nem faz conta. Mas por galinha o diacho da raposa é doidinha. É feito Terta por missa: não enjeita. Pois bom. Um dia, era já de meio-dia pra tarde, se não fosse duas horas, era por aí. Eu tava mastigando uma tora de rapadura, deitado em minha rede armada na varanda, quando comecei a escutar um barulho que vinha do terreiro. Era um tal de có-có-có, có-có-có.
– Era uma galinha?
– Não, Pedro Bó, era um jegue. Tinha acabado de botar um ovo e tava festejando. Terta, traga aquela chibata que coronel Heliodoro me deu no dia dos meus anos.
Ora, que mania. Pedro Bó não tinha mesmo jeito. Só se alguém lhe passasse um esparadrapo na boca. Dona Terta, mulher santa, mais uma vez acomodou as coisas.
– Siga adiante, compadre – pediu Roberval, pernas cruzadas, mostrando ostensivo a espora de prata.
– Pois bom. Aquele cacarejo aperreado não parava. Era có-có-có e mais có-có-có. . . e tome có-có-có. Eu pensei comigo: “homem, as galinhas tão afuleimadas”. Saltei da rede e entrei em casa. Mal eu entrei, escutei o latido do lado de fora. Ora, mas será possível? Eu tou lá, tem coisa aqui, venho pra aqui, tem coisa lá? Mas o latido de cachorro era diferente do latido normal, compadre. Era um latido triste, lamentoso, não sabe? Corri pra ver, era meu cachorro Rompe-Ferro. Sozinho. Eu me azucrinei: “Rompe-Ferro, cadê os teus irmão?” – o cachorro não respondeu, compadre, que cachorro não fala. Mas entende, que parece gente. Rompe-Ferro sacudiu o rabinho, espiou triste, como quem diz “desapareceram”. Não era um dia bom, compadre. Aqueles três cachorros – Rompe-Ferro Fura-Nuve e Corta-Vento – eram a alegria da minha vida, sem botar nisso Terta, que Terta é coisa de outro valor. Mas entre os cachorros e Pedro Bó eu nem sei quem preferia. Pulei o muro do alpendre, atravessei o terreiro da frente, corri pro mato gritando: “Fura-Nuve! Corta-Vento!”. Foi quando eu ouvi uma voz dentro do mato gritar: “Pantaleão, corre aqui!” Correndo como eu vinha, correndo eu segui no rumo do grito. Era Inacinho, um menino que trabalhava comigo na ocasião. O que foi, Inacinho? Espie aqui, Seu Pantaleão. Compadre, Inacinho tinha nas mãos as penas de quatro galinhas que a raposa tinha comido.
– Cruas?
– Não, Pedro Bó. Na cabidela. A raposa botou um avental, foi pra beira do fogão e preparou as galinha de cabidela pra tu comer mais tua mãe. Hoje você dorme no sereno, que é pra ver se pega um difluxo.
– Continue, compadre – pediu Roberval, menos interessado do que aparentava. Ninguém lhe notara as esporas de prata.
– Pois bom!
A perda das galinhas irritou o homem. Tinham sido quatro e isto significava que a terça parte do galinheiro havia sido devorada pela raposa. Era preciso tomar uma providência e o homem capaz de uma atitude no caso era ele mesmo, Pantaleão Pereira Peixoto, criado, desde menino, de modo a nutrir um ódio enorme pela covardia daquele bicho miserável que come o almoço dos domingos. Inacinho afirmara que vira a raposa ganhar o mato na direção do engenho. Pantaleão, com o ódio nas veias, pegou sua espingarda coió, chumbeiro de chumbo grosso, tabaqueiro de chifre de bode e saiu na cata da raposa. Andou mais de duas léguas farejando o rastro. Nenhum perdigueiro tinha faro melhor. Ele sabia, numa simples olhada, o trilho da raposa. Na volta do bananal, avistou a loca de pedra. Ali acabava o rastro. Por onde sair, a raposa não tinha. Mas não era uma raposa que havia na loca, eram muitas. Sem que ele esperasse, as raposas começaram a sair.
– E sai uma e sai outra e sai outra. Compadre, era um tal de sair raposa que não tinha cristão que desse jeito. Quando chegou em oitenta, eu parei de contar porque já tava saindo era de três em três, de quatro em quatro. Eu nem imaginava que naquela loca coubesse tanta raposa. E sai mais uma e sai mais cinco, eu me embaralhei na conta. Só sei, compadre, que uma delas me viu, avisou pras outras, quando eu dei fé, em vez de eu caçar as danada, elas é que iam me caçar. Pensei comigo: vou subir num pé de pau.
– Pra escapar delas?
– Não, Pedro Bó. Ia subir num pé de pau pra fazer um discurso: meus senhores, se vós conhece gente mais besta do que Pedro Bó, me amostreis. . . Hoje você dorme de botina, pra sonhar com o cão.
– Continue, homem de Deus – pediu o compadre. – Acabe essa estória enquanto eu tiro minhas esporas de prata.
– Pois bom – seguiu Pantaleão, sem prestar atenção nas esporas já citadas. – Eu botei reparo numa coisa: eu tava debaixo de um pé de imburana. O galho mais baixo não estava a menos do que quinze metros.
As raposas se formavam em grupos de cinco, de oito. Eram muitas. Não importava, agora, saber qual delas tinha comido as quatro galinhas. A vida de Pantaleão estava em perigo. Se as raposas se enfurecessem e resolvessem atacar, tudo podia acontecer. Ele mediu a altura do galho mais próximo e preparou o salto.
– Eu me encolhi, compadre, e me preparei mode pular pra cima. Pedi a proteção de São Francisco de Assis – santo de palavra, que nunca me deixou em necessidade – e vupt, subi.
– Compadre, você estará querendo me dizer que num pulo subiu quinze metros e pegou o galho?
Pantaleão exasperou-se. Não gostava que duvidassem do que dizia e, muito menos, que o julgassem homem de menor competência. E o modo como o compadre falara, insinuava mais coisas.
– Não apreciei o jeito de você fazer essa pergunta, compadre Roberval. Estou lhe recebendo na minha casa com muito amor, pra você pagar essa gentileza com uma pergunta safada como essa.
– É que eu acho que quinze metros – desculpava-se o compadre – é muita altura. Você, num salto, subir quinze metros…
– Eu vou ser sincero, Roberval. Eu não peguei o galho no pulo que dei, não.
– Ah, bem.
– Quando eu pulei, eu passei pelo galho, mas na descida do pulo, caí escanchado nele, que foi uma beleza.
– Bem, a prosa está boa, mas as esporas de prata estão me apertando – disse o compadre, levantando-se e saindo à busca do seu zaino. O que ouvira já era o bastante. E havia a raiva das esporas não terem sido elogiadas. Nem notadas, sequer. Despediu-se com um aceno, já galopando pela estrada.
– Foi-se embora e nem ouviu a estória da raposa … – lastimava-se Pantaleão. – E me diga uma coisa, Terta: ele estava de espora?

O que diz Antônio Carlos Secchin sobre o Prêmio Moacyr Scliar

21 de março de 2012 1

Antônio Carlos Secchin na Jornada de Passo Fundo de 2009. Foto: Jean Pimentel

A comissão julgadora da 1ª edição do Prêmio Moacyr Scliar foi composta por Heloisa Buarque de Hollanda, Ricardo Vieira Lima, Antônio Carlos Secchin, Armindo Trevisan  e Carlos Felipe Moisés. Um dos pontos que o poeta Eduardo Sterzi elenca como “absurdo” em sua carta de renúncia à Menção Honrosa recebida por sua obra Aleijão é que Secchin, integrante da Academia Brasileira de Letras e crítico com longa relação de leitura e diálogo com Ferreira Gullar, fazia parte do júri – e Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar (José Olympio), foi o vencedor entre os 152 inscritos. Entrevistamos também, desta vez por telefone, Antônio Carlos Secchin.

Zero Hora – O poeta Eduardo Sterzi renunciou a uma menção honrosa concedida pelo júri do Prêmio Moacyr Scliar e qualificou como absurdo o fato de o senhor integrar o júri e ao mesmo tempo ser um dos prefaciadores do livro vencedor. Como o senhor responde a isso?
Antônio Carlos Secchin –
Fico muito espantado com essa reação de Eduardo Sterzi. Esse é um concurso para o qual se convidam pessoas que tenham certa experiência com o objeto literário. Eu já integrei praticamente todos os júris de poesia no Brasil, e com mais de 30 anos de carreira universitária e literária é impossível não conhecer os poetas que estão em atividade.  Quando recebi o convite, não sabíamos quem havia se inscrito. Dentre os 152 concorrentes, aliás, talvez eu tenha escrito prefácios para mais de 20 deles. Seguindo essa lógica só podem participar de júris de concursos literários eremitas que jamais escreveram sobre qualquer livro em sua vida.

ZH – O senhor é de fato um dos prefaciadores do livro, ao lado de Alfredo Bosi. De algum modo essa circunstância não poderia ser apontada como um impedimento à sua objetividade de jugalmento?
Secchin –
Não. Não é segredo que sou um leitor da obra de Ferreira Gullar, já escrevi sobre ele, assim como já escrevi sobre Cecília Meirelles, preparei a edição da obra de João Cabral, sou um dos curadores da reedição da obra de Carlos Drummond de Andrade. Como crítico, eu tenho uma relação com os grandes poetas da língua. Ressalto ainda que quando as pessoas são convidadas para júri, não sabem quem são os inscritos. Escrever uma apresentação é uma coisa. Ter a consciência ética de julgar é outra. Posso ter escrito sobre mais de uma dezena de livros e nem todos entraram na minha relação final das obras que mereciam ganhar. Não é como se eu estivesse protegendo o Gullar dentro do júri. Circunstancialmente, o Gullar ganhou, o que protege o livro dele é a alta qualidade desse livro, que já vinha credenciado pelo Prêmio Jabuti. Tanto que éramos cinco jurados e a vitória foi por unanimidade. Ainda que eu tivesse tido alguma intenção ou ação para favorecer o livro do Gullar, o meu voto não teria sido determinante. Se eu não quisesse que ele ganhasse o prêmio, também teria sido vencido, porque os outros quatro votos foram nele. Duvidar disso é querer apequenar a dimensão do livro.

ZH – Qual foi o método de trabalho do júri? Os senhores chegaram a se reunir pessoalmente, uma vez que são radicados em Estados diferentes?
Secchin –
Não houve uma reunião específica em Porto Alegre. Poderíamos ter enviado cada um nossos votos e depois o Instituto Estadual do Livro que tabulasse tudo e anunciasse o vencedor, mas eu propus, e todos concordaram, que em vez de apenas mandarmos uma lista, trocássemos mensagens sobre os principais livros em um fórum de discussão. O processo não foi voluntarista, mas nasceu de um longo amadurecimento de propostas, contrapropostas, listas que os jurados trocaram entre si via mensagens.

ZH – O motivo principal da desistência de Sterzi é a transferência da cerimônia de premiação para o Rio de Janeiro, algo que se dá apenas pela projeção do vencedor. O que o senhor pensa disso?
Secchin –
Aí já é outra questão. Isso não tem nada a ver com o prêmio em si. É uma questão de logística de operacionalidade do prêmio. Um concurso como o Moacyr Scliar é de dimensão nacional. Os organizadores do Prêmio acharam que esse concurso de caráter nacional sendo oferecido na Bibloteca Nacional daria mais visibilidade ao prêmio, mas isso é uma questão interna. Até o local da entrega já ser alvo da polêmica me parece desviar o foco da questão de que possa ter havido um livro que foi o melhor dentre os inscritos.

ZH – Mas a transferência obedeceria a uma idiossincrasia do premiado, o fato de que Gullar não viaja de avião?
Secchi –
De fato, Ferreira Gulllar é um poeta que há alguns anos optou por não fazer viagens de avião, é um homem de idade, não vejo problema nisso. Mas se o prêmio fosse entregue em Porto Alegre, para esses casos há uma fórmula muio simples, que seria enviar um representante. Quando se optou pelo Rio de Janeiro, não foi só para atender a um pedido do Gullar. Quem sabe na biblioteca Nacional o Prêmio vá ter uma divulgação maior ainda. Quando ele ganhou o Prêmio Camões também o prêmio foi entregue no Rio de Janeiro.

ZH – E o fato de a editora do livro também oferecer o coquetel de entrega não lhe parece estranho?
Secchin –
Como se sabe, o prêmio não é apenas para o autor, esse prêmio é para a editora também. Qual é o absurdo de uma editora premiada com um dinheiro em concurso nacional, querer fazer uma festa para o autor que ganhou esse prêmio? A Biblioteca nacional não está gastando um tostão da festa, o que talvez fosse mais problemático. Acredito que é muito mais decoroso que a editora, como retribuição desse prêmio, use um pouco do valor para organizar uma festa para seu autor.

O Instituto Estadual do Livro responde

21 de março de 2012 3

Ricardo Silvestrin, diretor do IEL. Foto: Mariana Muller

O Prêmio Moacyr Scliar foi anunciado oficialmente em agosto do ano passado.  Patrocinado pela Petrobrás e pelo Banrisul, ele oferece R$ 150 mil para o escritor e R$ 30 mil para a editora da obra vencedora, para custear uma nova edição a ser distribuída em bibliotecas. A primeira edição do prêmio foi aberta a livros de poesia publicados nos dois anos anteriores. A segunda edição, prevista para o ano que vem, vai contemplar contos também lançados até dois anos antes, e assim sucessivamente, alternando os dois gêneros. Foram 152 livros inscritos no certame, entre eles Aleijão, de Eduardo Sterzi.

O livro vencedor foi Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar (José Olympio, 2009). Sterzi recebeu Menção Honrosa, bem como os livros Em Trânsito, de Alberto Martins (Companhia das Letras); A Vida Submarina, de Ana Martins Marques (Scriptum) e Lar,, de Armando Freitas Filho (Companhia das Letras).

Na última sexta-feira, Sterzi renunciou à menção em uma mensagem dirigida ao diretor do Instituto Estadual do Livro, Ricardo Silvestrin. Para ouvir a posição do Instituto sobre os Motivos que levaram à renúncia de Sterzi e sobre os comentários feitos por ele em sua carta de renúncia, entrevistamos Silvestrin, também por e-mail:

Zero Hora – O poeta Eduardo Sterzi renunciou, em uma carta aberta endereçada ao senhor, à menção honrosa que havia sido conferida a ele pelo Prêmio Moacyr Scliar. Ele cita como razões a mudança para o Rio da solenidade oficial de entrega e o fato de a própria editora da obra vencedora oferecer o coquetel de premiação – como de fato está expresso no convite que foi divulgado pelo IEL. O senhor já leu o comunicado? Qual sua posição oficial sobre ele e sobre os pontos apontados por Sterzi?
Ricardo Silvestrin
– Sim. O autor enviou e-mail para o IEL na sexta feira (dia 16), às 21h31min, solicitando que seu nome e seu livro fossem retirados da lista dos ganhadores de menção honrosa. Foi respondido a ele, com base no item 6.4 do regulamento, que diz os casos omissos serão resolvidos pela Secretaria de Estado da Cultura e pelo Instituto Estadual do Livro, que sua solicitação, embora não concordando com seus argumentos, foi aceita. Os outros pontos estão respondidos abaixo das tuas perguntas.

ZH – Por que um prêmio realizado no Rio Grande do Sul, homenageando um dos maiores escritores do Rio Grande do Sul e conferido por uma secretaria de governo do Rio Grande do Sul terá solenidade de entrega oficial no Rio de Janeiro? A escolha do agraciado determinou a mudança do local de entrega? Por quê?
Silvestrin –
O agraciado, Ferreira Gullar, comunicou à Secretaria de Cultura e ao IEL que não viaja de avião. Não viajou, por exemplo, para Lisboa quando foi o escolhido para receber o prêmio Camões, que foi entregue a ele também na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Como o Governador Tarso Genro estaria no Rio em função de atos do governo, no dia 29, data prevista pelo edital, o Governo, a Secretaria de Cultura e o IEL decidiram aproveitar a oportunidade para fazer a entrega. Embora realizado por uma Secretaria de Estado do Rio Grande do Sul, embora leve o nome de um dos maiores escritores nossos, trata-se, também, de um prêmio nacional que leva o nome de um dos maiores escritores nacionais. A vontade, é claro, era realizar a entrega aqui, no Palácio do Governo. Mas, em virtude da inviabilidade de deslocamento do vencedor, não foi possível.  Outro ponto levantado pelo autor que pediu sua exclusão da lista dos ganhadores de menção honrosa – menções que foram propostas pelos jurados e aceitas pela Secretaria e pelo IEL – seria o fato do coquetel de confraternização ser pago, no Rio de Janeiro, no próximo dia 29, pela editora premiada.  Como está no edital, a editora do livro premiado (e poderia ser mesmo um livro independente; sendo nesse caso o autor também o editor), recebe a quantia de trinta mil reais como pagamento pela compra dos direitos de edição para uma nova tiragem de cinco mil exemplares impressa pela Corag (apoiadora do Prêmio). Essa edição será distribuída nas bibliotecas públicas e pontos de cultura do estado. Nada, a nosso ver, impede a editora de oferecer um coquetel, por sua iniciativa, para receber os convidados do evento, o autor, as autoridades e confraternizar com todos. Aliás, essa é a praxe em lançamentos.

ZH – O edital do prêmio, como é padrão em certames do gênero, proíbe a inscrição de membros da comissão julgadora e de parentes e “afins”. Sterzi argumenta que, dada a reconhecida amizade de Antônio Carlos Secchin com Ferreira Gullar, soa estranha a premiação. O “afins” neste caso não englobaria também críticos que tenham prefaciado, apresentado ou recebido agradecimentos nos livros inscritos?
Silvestrin –
Não. O “afins”, segundo o Direito de Família, define o que segue:
“O parentesco pode ser, portanto: a) consangüíneo ou natural, quando se funda na igualdade de sangue; b) afim, quando se forma entre um indivíduo e a família de outro, por intermédio da união sexual.”
Ou seja, não se trata de parente afim (sogro, cunhado, genro, concunhado…) Além disso,  as decisões da comissão julgadora são soberanas – o IEL não tem qualquer interferência no resultado do concurso.  Se, por hipótese, o IEL tivesse a possibilidade de qualquer ingerência – o que seria um absurdo legal, veja-se: a comissão julgadora é composta por 5 membros. A decisão foi por unanimidade – e dessa comissão fazem parte, por exemplo, pessoas com a idoneidade moral e intelectual de um Armindo Trevisan, pra citar um nosso conterrâneo. Essa comissão não considerou que o fato de um dos membros ter feito o prefácio da obra de um autor de longa trajetória na cultura brasileira fosse um impedimento a ponto de propor a sua abstenção na votação. Matematicamente, um voto nada poderia fazer contra os outros.  E a votação foi individual.  Houve prazo de recurso contra a decisão, o qual se esgotou, e ninguém interpôs recurso algum, isto é: a comunidade literária reconheceu como idônea a atribuição do prêmio.

ZH – A formação da comissão julgadora foi efetuada pelo IEL e pelo Secretário de Cultura do Estado, de acordo com o que está no edital. Qual foi o critério de escolha dos nomes que formaram o júri?
Silvestrin –
O critério está explicitado no item 3.1. Todos os nomes escolhidos se enquadram nesse critério. São poetas, ensaístas, antologistas, professores com destacada atuação no meio literário do país. Procurou-se compor um grupo que tivesse uma visão tanto da produção contemporânea, como o caso do crítico e antologista Ricardo Vieira Lima, da produção dos últimos quarenta anos, como a professora, antologista e editora Heloísa Buarque de Holanda, ensaístas e poetas destacados, como Trevisan, Secchin e Carlos Felipe Moisés.  Todos foram convidados quando do lançamento do edital. Os livros inscritos foram divulgados e enviados para a Comissão Julgadora só após o IEL tê-los recebidos dento do prazo de inscrição. Não havia como barrar qualquer jurado antes da inscrição dos exemplares. Depois disso, a decisão se haveria algum impedimento para o julgamento ficaria a cargo da Comissão Julgadora.

Desconstruindo o Chefão

15 de março de 2012 4

Conselho de guerra na família Corleone. Paramount: Divulgação

O Poderoso Chefão mudou não apenas o cinema. Quarenta anos depois do lançamento, o filme já rendeu homenagens, paródias, releituras, duas continuações e citações em produções de propósitos e qualidades tão diversas quanto o desenho animado Rugrats e a comédia romântica Mensagem para Você, passando por Simpsons e até produções brasileiras como um recente episódio de A Mulher Invisível. Mas a influência se expandiu para além da tela e se tornou um fenômeno social ao influenciar a própria Mafia que retratava. Diversos livros como The Godfather Effect, de Tom Santopietro, e Gomorra, de Roberto Saviano, narram o quanto a influência de O Poderoso Chefão se alastrou para os próprios mafiosos, que se comprazem em imitar os gestos, o vestuário e até os supostos códigos da “família”.

De acordo com a escritora alemã Petra Reski, essa não deixa de ser uma questão problemática: no momento em que o retrato dos mafiosos plantado no imaginário popular é tão glamouroso que os próprios gângsters querem imitá-lo, perde-se a referência da Máfia como a organização criminosa e cruel que de fato é. Esse é um dos tópicos abordados por Reski em seu estudo sobre os tentáculos do crime organizado Máfia: Padrinhos, Pizzaria e Falsos Padres (Tinta Negra, 2010, tradução de André Delmonte). Reski, alemã, defende em seu livro que a imagem folclórica da Máfia – incluindo aquela segundo a qual a organização é um problema exclusivamente italiano, e não do continente europeu – tem ajudado a Máfia a se expandir e a sobreviver. Devido justamente aos 40 anos de O Poderoso Chefão e o quanto o retrato elaborado por Coppola se entranhou no imaginário popular, entrevistamos Petra Reski. A entrevista foi realizada por e-mail e o titular deste blog aproveita para agradecer a inestimável intermediação com a agência literária da autora feita pela nossa jovem musa nerd Bruna Amaral, viajada blogueira do Intercambiando, atualmente residindo na Alemanha, em Berlim, onde participa do programa International Journalisten-Programme e trabalha no jornal Tagesspiegel. Abaixo, a entrevista:

Mundo Livro – A senhora é uma pesquisadora especialista na Máfia. É verdade que o seu interesse no tema começou com O Poderoso Chefão?
Petra Reski –
Quando eu  tinha vinte anos – uma estudante que havia lido O Poderoso Chefão – decidi viajar de carro de Kamen, pequena cidade na região alemã do Ruhr, na qual cresci, direto para Corleone, na Sicília  No início, muito tempo antes de começar a trabalhar como jornalista, meu interesse pelas coisas da máfia foi despertado pela história familiar de O Poderoso Chefão. A imoralidade nas famílias me interessa, e, no final, todas as histórias de máfia sempre foram histórias familiares. Assim, minha primeira aproximação correspondia ao tipo de ideia “romântica” da máfia – que ainda é bastante difundida em todo o mundo.  Devido à propaganda feita pela própria máfia. A máfia tem muito interesse em controlar sua imagem – para fazer as pessoas acreditarem que a organização é uma espécie de idéia romântica.

Mundo Livro – Quarenta anos  passados de seu lançamento, O Poderoso Chefão é, mais do que  um grande filme, um fenômeno  cultural e popular. Na sua opinião, o que tornou o filme tão grande e influente no imaginário pop?
Petra – As pessoas adoram heróis imorais. Aquele que pode fazer tudo, sem ser punido. A máfia sabe dessa inclinação e tenta definir a sua imagem no mundo: ela faz com que as pessoas acreditem que a máfia é uma espécie de idéia romântica, uma espécie de associação popular ao estilo Robin Hood, roubando dos ricos para dar aos pobres. A literatura, os filmes estão cheios dessa ideia da máfia – que nunca correspondeu à realidade. Infelizmente, há um monte de jornalistas que ainda contribuem  para divulgar esta ideia romântica da máfia – ou porque esses jornalistas são pagos pela própria máfia ou porque são ignorantes.

Mundo Livro – Peter  Biskind, um escritor americano, diz em seu livro Easy Riders,  Raging Bulls que Copolla e sua equipe tiveram problemas com a máfia durante a produção do primeiro Poderoso Chefão.  A equipe de filmagem estava sob a pressão de Joe Colombo, um líder mafioso de uma associação ítalo-americana.  Depois de uma década,  como você menciona em  seu livro, O Poderoso Chefão já havia se tornado uma referência até para os próprios bandidos.  O que mudou?
Petra –
Na verdade, nada mudou, pelo menos não para melhor. Não há valores na máfia, toda a história sobre honra e respeito a leis é apenas uma invenção, um mito útil para os membros da máfia, que lhes dá algo em que acreditar. E um mito útil também para as pessoas na Sicília, na Calabria, na Campania: todos devem acreditar no caráter altruísta dos chefões da máfia. Hoje, a máfia influencia a política de países inteiros, como a Itália. E influencia economias inteiras, como a europeia. Isso foi possível pelo seu enorme poder econômico, resultado do tráfico de drogas, que foi lavado e investido na economia legal. A Máfia hoje é um problema a ser enfrentado. Mas, infelizmente, ainda é considerada como algo folcórico, como O Poderoso Chefão.

Mundo Livro – O enorme sucesso de O Poderoso Chefão gerou uma uma imagem que até mesmo a máfia decidiu imitar?
Petra –
Para a máfia é muito importante ser considerada como uma instituição com valores a preservar, caso contrário, não iria encontrar mais apoio na população local. É por isso que a máfia adorou filmes como O Poderoso Chefão, que a ajudou a espalhar sua imagem generalizada como um tipo de organização arcaica, baseada em valores arcaicos. A máfia sabia que precisava de uma imagem baseada em valores desde o início, quando ela decidiu copiar (e perverter) as regras da Igreja Católica: o homem precisa de algo para se acreditar Mas o único valor real no qual a máfia realmente acredita é a sobrevivência da própria máfia, a qualquer custo. Eles sempre mataram crianças e mulheres. E mães mataram até mesmo seus filhos por causa da máfia.

Mundo Livro – No mesmo Easy Riders, Raging Bull, Peter Biskind conta que ninguém queria investir em filmes de  máfia no período imediatamente antes de O Poderoso Chefão, porque The Brotherhood, uma produção com Kirk Douglas filmada em 1968, havia sido um imenso fracasso. Por que a Máfia desde então tem sido um assunto  tão fascinante?
Petra –
Porque O Poderoso Chefão não é contado como uma crua história policial, mas como uma história de família. Isso é o mais importante: todos temos famílias. E muitas vezes as famílias são mostradas com uma aura de imoralidade. Essa é a razão do sucesso. O Poderoso Chefão apresentou a máfia como uma saga familiar na qual um monte de gente poderia identificar semelhanças com sua própria família. Isso foi muito inteligente. Não só para o filme. Mas para a máfia, também. Até hoje, a grande maioria das pessoas considera a máfia como algo bom, talvez às vezes cruel, mas fascinante – como no filme. O Poderoso Chefão foi a melhor estratégia de relações públicas para a máfia em toda sua história. Ele influenciou a nossa maneira de entender a organização. Infelizmente.


Construindo o Chefão

15 de março de 2012 7

James Caan como Sonny e Marlon Brando como Don Vito. Divulgação: Paramount

Como vocês podem ler hoje na central do Segundo Caderno de Zero Hora, fizemos uma matéria especial para marcar os 40 anos da primeira exibição pública de O Poderoso Chefão, o primeiro título da famosa trilogia mafiosa do diretor Francis Ford Coppola. Nossa matéria não apenas registra a passagem das quatro décadas desde o lançamento do filme, hoje considerado um clássico, como também discute a influência do livro nestes últimos 40 anos, não apenas sobre a cultura pop e o cinema, mas sobre a própria Máfia retratada no livro.

Mais até do que o best-seller de Mario Puzo que lhe deu origem, O Poderoso Chefão, com seu apelo épico, seu lirismo e sua violência extremamente estilizada, forneceram um código visual e simbólico para a própria Mafia. Para discutir o que faz ainda hoje o sucesso de O Poderoso Chefão, entrevistamos dois escritores estrangeiros que já escreveram direta ou tangencialmente sobre a produção e/ou sobre a Máfia como organização.

O primeiro deles é Peter Biskind, autor de Easy Riders, Raging Bulls: Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’n’Roll Salvou Hollywood (Intrínseca, 2009, tradução de Ana Maria Bahiana). O livro é um alentado e minucioso relato de como , a partir dos 1960 e indo até os anos 1980, uma geração de jovens e irrequietos cineastas alimentados pelo cinema de autor europeu e pelo espírito urgente da contracultura começou a fazer filmes que atingiram novamente o grande público, pondo em questão valores e assuntos que interessavam ao espectador jovem, que Hollywood vinha perdendo ano a ano com filmes artificiais, engessados pelo esquema dinossáurico dos grandes estúdios.

Biskind relata a formação e as primeiras experiências em Hollywood da geração de Coppola, que incluía ainda, entre outros, Peter Bogdanovich, Martin Scorsese, Paul Schrader, Brian De Palma, William Friedkin, Steven Spielberg e George Lucas – sem falar de outros personagens importantes, como o produtor Bob Evans, da Paramount. Biskind passeia com segurança e com um texto impecável por um elenco de dezenas de personagens – além de se concentrar nos diretores, também aborda os jovens atores que também surgiram na época, em sintonia com as propostas de realismo cru e autêntico dos cineastas: Robert De Niro, Al Pacino, Margot Kidder. Com tanta gente e tanta coisa acontecendo, Biskind não perde o fio de sua história e ainda entrega um dos mais vigorosos relatos sobre os bastidores do cinema.

Um dos capítulos mais extensos do livro é justamente dedicado ao Poderoso Chefão – um filme que, segundo o autor, foi concebido no acaso e gestado em meio ao completo caos. Evans comprou os direitos diretamente de Mario Puzo, que ainda não havia escrito o romance completo, e precisava de um dinheiro adiantado para pagar algumas dívidas a um pessoal perigoso (Puzo sempre negou essa versão da história, Biskind ressalta). Só depois que o livro foi publicado e decolou na lista de best-sellers foi que a Paramount percebeu que precisava usar os direitos que comprara – filmes de Máfia não andavam muito populares depois que uma produção com Kirk Douglas filmada em 1968 foi um fracasso completo. Coppola aceitou dirigir o filme, uma adaptação literária, porque estava esgoelado por dívidas – mas nem o estúdio confiava muito nele. A formação de Coppola, de um cinema de improviso e energia, colidiu com a visão do iluminador mais conservador Gordon Willis

Um caos que se mostrou capaz de gerar um dos mais influentes filmes do cinema. E é sobre isso que conversamos com Peter Biskind na entrevista abaixo:

Mundo Livro – Quarenta anos  passados de seu lançamento, O Poderoso Chefão é, mais do que  um grande filme, um fenômeno  cultural e popular. Na sua opinião, o que tornou o filme tão grande e influente no imaginário pop?
Peter Biskind –
Às vezes  não há resposta para essa pergunta. É apenas uma confluência feliz de circunstâncias, uma “tempestade perfeita”, que reúne um ótimo roteiro, um grande elenco, composto em grande parte por atores ávidos e inexperientes, um diretor de fotografia brilhante –  Gordon Willis – e um diretor com grandes instintos que ainda assim teve de ser arrastado gritando e se debatendo para um projeto que não queria fazer. Politicamente, o filme veio na hora certa, bem no fim da Guerra do Vietnã, pouco antes de Watergate, quando grande parte do país estava desiludida com o governo americano. A Máfia, de certa forma, ecoava esse sentimento. Para eles, o governo ou era irrelevante ou era o inimigo. Os políticos que apareciam no filme eram venais e facilmente corrompidos. O mesmo vale para a polícia. Assim,  O Poderoso Chefão se adequou ao estado de espírito do país como uma luva.

Mundo Livro – Em certos aspectos, O Poderoso Chefão mudou tudo o que havia sido feito no cinema:  a iluminação, o sistema de distribuição, até mesmo os extras,  contratados entre os moradores ítalo-americanos nas locações. Olhando agora, é uma grande surpresa ler em seu livro que a produção foi um caos completo, com discussões violentas entre  Coppola e Gordon Willis ou entre Coppola e Bob Evans. Mesmo o elenco era uma razão para divergências acaloradas. E no final, funcionou. Isso também o surpreende?
Biskind
– Na época,  os jovens diretores de Hollywood estavam se rebelando contra o sistema dos grandes estúdios e a artificialidade dos seus filmes – todos feitos em estúdio com  atores que pareciam todos iguais. Coppola fez parte desse movimento, e inteligentemente insistia em usar  locações reais e atores italianos. Mesmo que as imagens sejam estilizadas e líricas, essa decisão emprestou um contrapeso de autenticidade ao filme. Quanto ao caos, há um ditado em Hollywood que diz que filmagens felizes resultam em filmes ruins, e isso era certamente verdadeiro no caso de O Poderoso Chefão. Coppola  estava à beira de um colapso, a Paramount queria demiti-lo, metade dos atores  queria sair, o diretor de fotografia ameaçou sair, e Coppola teve até de se esconder no banheiro. Mas os conflitos muitas vezes geram criatividade, que certamente foi o caso aqui.

Mundo Livro – O senhor relata em seu livro a áspera rivalidade entre  Francis Ford Coppola e Bob  Evans, cada um dizendo ser o responsável real pelo sucesso artístico e comercial do filme. Na sua opinião, quanto credito merece cada um deles?
Biskind –
Isso é realmente impossível de determinar. É uma situação “Ele disse, ela disse”. Já diz o ditado que “O sucesso tem muitos pais, o fracasso é órfão.” Ambos os homens tinham egos gigantes, e cada um deles reivindicava crédito por tudo. Dito isto, acho que eu daria meu voto a Coppola.

Mundo Livro – Coppola disse uma vez em uma entrevista que o grande diferencial de O Poderoso Chefão sobre outros filmes da Máfia antes dele era retratar os mafiosos como pessoas reais, falando, comendo, celebrando, e não como malucos sempre disparando uma metralhadora _ mesmo com toda a violência que há no filme. O senhor concorda?
Biskind –
Bem, em algum grau ele de fato os retratou da maneira que disse, embora houvesse certamente tiroteios e violência o suficiente na tela. Mas eu acho que a realidade é que a Mafia não era realmente muito parecida com o que foi mostrado no filme. Na verdade, muitas vezes os mafiosos voltaram-se para Hollywood, para os filmes que os romantizavam, em busca de suas sugestões do que vestir e de como se comportar.

Mundo Livro – O senhor conta em Easy Riders, Raging Bull como O Poderoso Chefão mudou o sistema de distribuição da indústria, criando os blockbusters contemporâneos.  O estúdio impôs seus termos para lançar o filme. O sucesso do livro foi o responsável por toda a agitação que cercava a  adaptação para o cinema?
Biskind
Frank Yablans, que era o diretor de marketing da Paramount, foi o responsável por quebrar o chamado sistema “gradual”, pelo qual as cadeias de exibidores insistiam que apenas um cinema em uma determinada área geográfica poderia receber um filme na primeira rodada de exibições. Os cinemas estavam tão desesperados para obter O Chefão que abriram mão de algum poder para os estúdios – e nunca conseguiram tomá-lo de volta. O Poderoso Chefão estreou em cinco cinemas em Manhattan, em vez de apenas em um ou dois.

Mundo Livro –  E por último: O senhor tem um filme favorito dentre os da trilogia? Qual?
Biskind –
Bem, O Poderoso Chefão 3 foi uma grande decepção, por isso, fica entre o 1 e o 2, uma escolha difícil, porque ambos são filmes fantásticos. Chefão 1 tem Brando; Chefão 2 tem De Niro e Lee Strasberg, e assim por diante. Acho que, embora eu ame o segundo filme, tenho que escolher o primeiro, porque é um filme quase perfeito e preparou o terreno para o segundo.

O nonagenário Kerouac

12 de março de 2012 1

O escritor Jack Kerouac. Foto: L&PM, Divulgação

Apresentação do Autor

NOME: Jack Kerouac
NACIONALIDADE: Franco-americana
LOCAL DE NASCIMENTO: Lowell, Massachussetts
DATA DE NASCIMENTO: 12 de março de 1922
INSTRUÇÃO (escolas frequentadas, cursos especiais, diplomas e anos):
Escola de Lowell (Mass.); Escola Masculina Horace Mann; Universidade de Columbia (1940-1942); New School for Social Research (194-1949). Ciências Humanas, nenhum diploma (1936-1949) Ganhei um A de Mark van Doren em Inglês na Columbia (curso sobre Shakespeare). – Levei pau em Química na Colúmbia. – Tirei média 92 na Horace Mann (1939-1940). Joguei futebol americano no time principal da universidade. Também pratiquei atletismo, beisebol e xadrez.
CASADO: Não
FILHOS: Não
RESUMO DAS PRINCIPAIS OCUPAÇÕES E/OU EMPREGOS
Tudo. Especificando: auxiliar de cozinha e lavador de pratos em navios, empregado de posto de gasolina, limpador de convés, jornalista esportivo (Lowell Sun), guarda-freios ferroviário, condensador de roteiros da 20th Century Fox em Nova York,  balconista de lanchonete, funcionário nos pátios de manobras de estradas de ferro, também carregador de mala na estação ferroviária, apanhador de algodão, ajudante de empresa de mudanças, aprendiz de laminação de metal no Pentágono em 1942, vigia de incêndios florestais em 1956, operário da construção civil (1941).
FAÇA UM BREVE RESUMO DE SUA VIDA, POR FAVOR
(…) Meu primeiro romance formal foi
The Town and the City, escrito na tradição de trabalho longo e revisão, de 1946 a 1948, três anos, publicado pela Harcourt Brace em 1950. – Então descobri a prosa “espontânea” e escrevi, digamos, The Subterraneans em três noites – escrevi On The Road em três semanas –
Li e estudei sozinho a vida inteira. – Estabeleci o recorde de falta às aulas da faculdade de Columbia para ficar no meu quarto escrevendo uma peça diária e leondo, digamos, Louis Ferdinand Céline, em vez dos “clássicos” do curso.
Sempre tive minhas próprias ideias. — Sou conhecido como “vagabundo maluco e anjo” com uma “cabeça desnuda e inesgotável” de “prosa”. Também poeta, Mexico City Blues (Grove, 1959). — Sempre considerei escrever meu dever na Terra. E também pregar a bondade universal, que críticos histéricos não foram capazes de descobrir sob a frenética atividade de minhas histórias verídicas sobre a geração beat. — Na verdade, não sou um beat, mas sim um estranho e solitário católico, louco e místico…

A apresentação acima, parcialmente condensada, está inclusa no volume Cenas de Nova York e Outras Viagens, que a L&PM está publicando agora como parte de uma nova série da editora, a Coleção 64 páginas, livros de… bem, 64 páginas, nos quais são reunidos textos e contos de autores consagrados em um volume de bolso finito que custa cinco pilas. Os primeiros exemplares da coleção incluem seletas de contos de Edgar Allan Poe, Bukowski e Machado de Assis, as novelas O Diabo, de Leon Tolstói, e O Retrato, de Gógol, e até uma antologia de tirinhas da turma da Mônica. O centro do projeto é fazer livros curtos cujo preço possa ficar em cinco reais.

O volume de Jack Kerouac especificamente traz essa apresentação bastante pessoal, três narrativas de viagen retiradas do livro Viajante Solitário (que a L&PM também têm em catálogo na coleção Pocket) e o poema Rimbaud, que havia sido publicado originalmente na Revista 80, uma revista de cultura e ensaios que a L&PM pôs em circulação… bem, nos anos 80.

Hoje completam-se 90 anos, como vocês veem na data de nascimento do currículo acima, 90 anos do nascimento de Keroauc, um escritor cuja influência avassaladora gerou imitadores e seguidores passionais no último meio século – para o bem e para o mal, uma vez que a postura místico-beatnik-libertária se vale a pena como estilo de vida nem sempre resulta na melhor das literaturas. Kerouac, entretanto, mesmo em seus momentos mais vagabundos e menos iluminados, continua transbordando uma força e um vigor agressivo – melhores características de uma literatura que fazia da linguagem um processo ao mesmo tempo xamânico e musical. Literatura libertária que amava as amplidões e as máquinas velozes como atalhos entre os infinitos caminhos. Mesmo que tenha morrido como uma caricatura do avesso de sua brilhante juventude, Kerouac e seus livros dos anos mais férteis permanecem um chamado à paixão, à boemia e ao sentimento numa era em que as máquinas parecem ter virado o fio e limitado o horizonte.

Infância em meio ao sangue

12 de março de 2012 0

Juan Pablo Villalobos. Foto: Renato Parada/ Divulgação

Neste post eu já havia comentado com vocês a leitura de Festa no Covil (Tradução de Andreia Moroni. Companhia das Letras, 96 páginas, R$ 29,50), romance de estreia do mexicano Juan Pablo Villalobos. No segundo caderno de hoje, vocês podem ler uma entrevista que fiz com o autor sobre olhar sarcástico e estranho que ele lança sobre a realidade do México dominado pela violência do narcotráfico. O livro é protagonizado pelo menino Tochtli, de 10 anos, um menino precoce que quase nunca sai de casa e é sempre mantido sob vigilância de um dos brutamontes responsáveis pela segurança do pai. Seu conhecimento do mundo se dá filtrado pela televisão ou pelo contato com as poucas pessoas que conhece. É no entanto essa visão limitada de Tochtli que se torna nossa janela para o universo não apenas do menino, mas do México sob o narcotráfico. Leia abaixo a íntegra da conversa, feita por telefone, de Campinas, onde Villalobos reside (ele é casado com uma brasileira e mora no Brasil desde o ano passado):

ZH –  Uma das características mais marcantes de Festa no Covil é a voz de Tochtli, o protagonista, com um olhar infantil sobre um universo em cujas brechas e frestas se percebe algo brutal. Como o senhor chegou a essa voz narrativa?
Villalobos –
Quando comecei a escrever, tinha bastante claro o que queria contar, a trama da história, mas não estava seguro justamente quanto à voz. Uma das dúvidas que tive quando comecei a escrever a história foi de que perspectiva deveria narrá-la. Estive tentando narrar pela perspectiva do pai, Yolcault, o chefão do tráfico, ou pela de Mazatzin, o professor do menino, dois olhares adultos, mas essas tentativas não me convenceram. Não me convenceram do ponto de vista estilístico, inclusive do tom que essas vozes teriam, e nem do resultado que estava obtendo com a visão de mundo dessa casa, esse palácio que é uma espécie de metáfora do narcotráfico no México. E de repente quando ainda buscava uma voz para me ajudar a narrar a história, surgiu a primeira frase do livro, que se manteve igual a partir dali. Gostei muito de como essa frase soava, e me parecia que havia ali a possibilidade de explorar a visão infantil. Por um lado me interessava um mundo narrado por um menino que carece de moral, porque as crianças ainda não têm uma visão de mundo completa, e por isso tampouco emitem juízos morais, o que era muito importante para o romance. E depois também havia a possibilidade de recorrer ao humor, inclusive o politicamente incorreto, porque um menino pode dizer e achar engraçadas coisas brutais, que para um adulto constituiriam um problema.

ZH – Com essa voz o senhor também queria trabalhar a ambivalência entre o que um adulto mostra e o que ele se ilude que uma criança ainda não sabe?
Villalobos –
Sim, claro. No fim das contas, Festa no Covil é um romance de iniciação. É uma história na qual Tochtli vai desvendar os mistérios de sua casa descobrindo de alguma maneira as últimas informações que seu pai lhe oculta. Porque Tochtli, no começo do romance, sabe de algumas coisa ques acontecem em sua casa. Não todas, mas ele não é totalmente inocente. Digamos que no transcurso do romance, ele vai acabar de descobrir o que o seu pai é. Então há estre jogo entre o personagem vai descobrindo os segredos do que se passa na casa, particularmente nos quartos supostamente vazios da mansão, que Tochtli vai abrindo para descobrir o que há por trás delas.

ZH – A leitura de seu livro lembrou, guardadas as devidas proporções, uma exposição de Fernando Botero que está em cartaz em Porto Alegre: Dores da Colômbia. Em seu livro, um garoto conta episódios que vão se tornando mais brutais. Na exposição, Botero, com suas figuras lúdicas, gordinhas, retrata horrores e massacres com uma atmosfera infantil. O senhor conhece esses trabalhos? Concorda com essa comparação?
Villalobos –
Não tive a oportunidade de ver os quadros dessa exposição ao vivo, só em fotografias, em internet, mas conheço a obra de Botero. Creio que o fenômeno do narcotráfico é um fenômeno latino-americano. Bom, é um fenômeno mundial, claro, mas as grandes zonas produtoras de coca estão na América Latina: no Peru, na Colômbia, na Bolívia, também na América Central e no México por serem via de passagem até o principal mercado, os Estados Unidos. Sendo o narcotráfico um problema panamericano, surgiram várias manifestações culturais ou artísticas como tentativa de refletir sobretudo a violência associada ao narcotráfico, o efeito do narcotráfico. Temos toda uma literatura que trata do tema, que começou primeiro na Colômbia, nos anos mais duros do narcotráfico por lá. A Colômbia ainda enfrenta o narcotráfico, mas nada que se compare ao que acontecia há 15 ou 20 anos. Hoje o foco da violência do tráfico se transplantou para o México e para lá também se transplantou essa literatura sobre o narcotráfico. Mas não apenas na literatura, há pintores, artistas conceituais que estão trabalhando também com esse tema da violência. Em geral, creio que é uma reação natural dos artistas dessas sociedades para contribuir com a reflexão sobre o fenômeno.

ZH – Em 2006 o presidente Felipe Calderón declarou guerra aos narcotraficantes no México, e as estatísticas divulgadas desde então mostram que a violência no país teve um salto estratosférico. Como o senhor vê a situação de seu país atualmente, um quadro que é o tema central de seu romance?
Villalobos –
Comecei a escrever o romance em 2006, justo no ano que começou essa nova escalada de violência. A violência do narcotráfico no México já se estende por mais de um século. Há registros datando a eclosão dos primeiros episódios no final do século 19. Mas nunca havia ocorrido violência em níveis tais como os que vemos hoje em dia. Nos seis anos de mandato de Calderón, que terminam no final deste ano, houve 47 mil mortes associadas ao narcotráfico, de acordo com as estatísticas oficiais. Além disso, houve uma expansão da violência. Antes o narcotráfico estava associado a certas zonas do país, estados tradicionalmente ligados ao tráfico, principalmente na região de fronteira dos Estados Unidos. Agora houve uma disseminação da violência, no norte, no sul, no centro do país. Mesmo que seja cedo para avaliar o resultado a longo prazo dessa iniciativa do presidente Calderón de declarar guerra ao narcotráfico, o certo é que a curto prazo foi um desastre. E é certo também que estão cada vez mais claras, ao menos para os mexicanos bem-informados, as razões que o presidente teve para empreender essa guerra. Calderón assumiu o poder com um gravíssimo problema de legitimidade porque havia ganhado as eleições por uma margem muito estreita, meio ponto percentual – tão estreita que muitos dizem que ele na verdade não ganhou. Então, uma parte importante do país não acreditava em sua vitória. E ele tomou a decisão de apoiar-se no exército, levar o exército às ruas e declarar essa guerra para legitimar seu poder. O que é muito grave e teve uma eficácia muito duvidosa.

ZH –  Tochtli só chama o chefão Yolcault de “pai” no fim do romance, após uma série de episódios traumáticos que vive e que destroem o que restava das fantasias que ele acalentava sobre sua vida. Seu romance é também uma leitura da perda de inocência do México com a guerra, a violência e com essa própria crise de legitimidade do poder que o senhor citou?
Villalobos –
Para mim, e creio que para qualquer autor, é difícil assumir as possíveis metáforas ou interpretações a partir da própria obra. É verdade que há críticos que falaram desse palácio em que vivem Tochtli e Yolcault como uma metáfora do que está passando no México, ou leem a história como o processo que o México seguiu na guerra ao narcotráfico. Quando escrevi a história não pensei nisso, mas também aceito que é uma leitura válida. Para mim o importante enquanto escrevia a história era justamente o processo de aprendizagem de Tochtli, que ao final é um processo de aprender a sobreviver no ambiente em que esse menino teve que crescer. Um ambiente particularmente violento e especial, não tem nada que ver com o modo que crescem com outros meninos. Para começar, porque Tochtli nem sequer tem contato com outras crianças, apenas com adultos. E, salvo o professor, os adultos com quem ele tem contato são capangas, assassinos, prostitutas. O que vemos no livro é uma espécie de educação sentimental que Tochtli tem para aprender a aceitar quem é seu pai e para entender esse mundo em que ele se move. Mas evitei cair em moralismos, porque Youcault, apesar de ser quem é, o romance o retrata como um pai que se preocupa com seu filho, que o protege e o ama, mesmo sendo um criminoso.

ZH – Ao mesmo tempo, a relação de proteção de Yolcault com seu filho é ambivalente. Ao mesmo tempo que lhe oculta algumas coisas, pode chamar o filho a testemunha o espancamento de um membro do bando considerado traidor.
Villalobos –
Digamos que Yolcault está tentando administrar esse processo de aprendizagem do filho. As coisas que ele esconde, esconde por segurança. Não mostra o quarto em que estão guardadas as armas do covil, as pistolas e rifles, porque crê que não seria seguro para o menino saber. Ao mesmo tempo, permite que o filho esteja presente numa conversa que tem com um político para tratar de negócios escusos. Ou também, como você disse, um dia chama o filho para que veja como se castiga um traidor. O pai está mostrando algumas coisas e ocultando outras seguindo uma ideia do que é melhor para o filho. Está cumprindo um projeto de ensino profundamente machista – e evidentemente essa é uma crítica à educação masculina que recebemos no México, que, apesar de ter mudado nos últimos anos, segue sendo muito machista. Uma educação que é a de todos os países latinos. O que é curioso, porque as sociedades latinas são sociedades matriarcais, mas os homens recebem uma educação machista que reserva para a mulher apenas funções de apoio.