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Posts na categoria "Dez Livros"

Dez vezes Scliar

03 de março de 2012 0

Como uma das séries que este blog começou e nunca leva adiante é a apresentação de uma lista de 10 livros garimpados por qualquer critério que os unifique, me dei conta que poderia fazer uma última homenagem a Moacyr Scliar publicando aqui uma versão ampliada da relação do que havia de essencial no trabalho de Scliar. Preparei a lista para a edição do dia seguinte ao da morte do autor.  Não enfoquei a literatura infantil e infanto-juvenil, nem suas coletâneas de crônicas.

São DEZ LIVROS de ficção de Scliar que eu considero os fundamentais para um primeiro contato com a obra do autor – não esquecer que Scliar escreveu quase 80 livros ao longo de sua proveitosa trajetória, e o exercício de peneirar 10 é também um exercício de leitura possível de um conjunto tão vasto.

A Guerra no Bom-Fim (L&PM, 1972)
Em seu primeiro romance, Moacyr Scliar, já na época aclamado contista, narra uma evocativa história de formação. O menino Joel recorda-se de sua infância nos anos 1940 no bairro judaico do Bom-Fim, em Porto Alegre. Scliar casa com o humor agridoce que ele emprestou da tradição judaica para tornar marca de sua ficção as recordações de um garoto de um Bom-Fim quase aldeia, reduto de imigrantes, e sua descoberta da maturidade em meio aos ecos da guerra na Europa. Uma atmosfera mágica que mistura as experiências de infância do garoto com a guerra imaginada pelas notícias que chegam da Europa. “As balas zuniam no ar, os Stukas e Messerchimitts roncavam sobre Capão da Canoa“, escreve em certa passagem Scliar, lançando as bases que seguiria dali em diante em sua carreira de romancista.

O Exército de um Homem Só (L&PM, 1973)
Comunista durante a juventude, Scliar faz do protagonista do romance, Mayer Guinzburg, o “Capitão Birobdjan”, sua versão desencantada do Quixote – bem como um símbolo da presença judaica na sociedade brasileira. Imigrante russo, Birobidjan chega a Porto Alegre como um utópico idealista, pregando a ideia de um mundo melhor por meio do socialismo. À medida que o livro avança, os sonhos de Mayer vão sendo deixados de lado por imperceptíveis concessões do protagonista, ao “sistema”, à vida que se espera de um judeu bem estabelecido na comunidade, à imagem caricata de estabilidade burguesa. Birobidjan primeiro se torna um fazendeiro socialista que vive existência comunal com os animais (a utópica Nova Birobidjan), vai trabalhar atrás de um balcão, torna-se empreiteiro de construção civil, empresário arruinado e uma ruín abandonada em uma pensão.

O Centauro no Jardim (Companhia das Letras, 1980)
Uma das obras-primas de Scliar, que aqui exacerba ao limite da fábula o uso do fantástico já recorrente em seus livros anteriores. Em uma localidade do interior gaúcho, o quatro filho de uma família de imigrantes judaicos nasce centauro. Metáfora a um só tempo da condição judaica, do imigrante e da individualidade atropelada pelo coletivo. Aqui o autor encontrou aquilo pelo que um escritor procura a vida toda: uma criação simbólica original que passa a ser adotada até mesmo fora da obra como referência para aquilo que a imagem queria retratar. Mais de um amigo judeu com quem conversei ao longo desta última semana enfatizava o quanto esta metáfora do Centauro como ser híbrido de duas espécies era também um retrato da condição íntima do judeu imigrante ou descendente.

Contos Reunidos (Companhia das Letras, 1995)
Nesta abrangente coletânea Scliar reúne quase toda sua produção contística até então _ o que inclui seus melhores trabalhos no gênero, que lhe valeram papel de destaque no cenário nacional, como A Balada do Falso Messias, Pausa, Uma Casa, Lavínia, Cego e Amigo Gedeão à Beira da Estrada e outros. O trabalho do Scliar contista tinha algumas especificidades que diferenciavam suas narrativas breves de seus romances. Se nos textos mais longos Scliar transformava repetições de estruturas e de motes elementos de humor, nos contos, Scliar tinha como influência declarada Kafka e suas histórias cheias de significado, que transformam narrativas curtas – algumas curtíssimas – em parábolas da condição humana. Ao reunir as narrativas para a antologia, Scliar não apenas agrupou seus livros em ordem cronológica, preferiu reordenar o conjunto juntando na mesma seção contos que mostram certa afinidade conceitual ou temática.

A Mulher que Escreveu a Bíblia (Companhia das Letras, 1999)
Primeiro livro do que Scliar chamou de sua “trilogia de temática bíblica”. Inspirado pelo ensaio O Livro de J.,  obra de 1992 na qual o crítico Harold Bloom postulava que os escritos mais antigos da Bíblia teriam sido escritos por uma mulher, a “Javista” (a criadora do “personagem” literário Javé), Scliar imagina que mulher seria essa. Culta e ilustrada, a desafortunada concubina mais feia do harém do rei Salomão, evitada ao máximo pelo rei, que demora a visitá-la, dedica-se a escrever, a pedido do próprio Salomão, os livros que formarão a base da Torá, o coração do Velho Testamento. Dotada de inteligência tão notável quanto sua feiúra, a mulher, concubina de relações não consumadas com o terceiro rei de Israel, é consumida por pensamentos lascivos e não consegue refrear uma linguagem sem meias medidas. Foi um livro no qual Scliar lançou mão pela primeira vez com mais afinco de um procedimento que repetiria em outras reinvenções bíblicas: o transplante de uma linguagem e uma mentalidade contemporâneas para os tempos bíblicos.

Saturno nos Trópicos (Companhia das Letras, 2003)
Ensaio no qual Scliar constrói, em duas partes, uma ampla e rigorosa história da melancolia como um sentimento que oscila entre a apatia e agitação. Na primeira seção do livro, Scliar analisa minuciosamente a evolução do conceito de melancolia através da história _ o livro aborda, é claro, mais o estado de espírito do que a depressão enquanto enfermidade diagnosticável. Na segunda parte, Scliar discute como essa noção foi transplantada para o Brasil na colonização portuguesa, povo que se entregou à descoberta de terras distantes como parte do anseio de superar a própria melancólica inação. Uma espécie de síntese da obra não-ficcional de Scliar. Sua abordagem busca casar a leveza da crônica, a erudição de um autor que tinha um enorme cabedal de informações com o rigor de uma visão intelectual original.

Os Vendilhões do Templo (Companhia das Letras, 2006)
Mais uma volta de Scliar ao mundo bíblico, desta vez em um texto estruturado em três partes: na primeira, o autor reconta o episódio em que Jesus expulsa os vendilhões do templo pela ótica de um deles, uma espécie de protocapitalista com projetos grandiosos para revolucionar o comércio de pombos na entrada do Templo de Jerusalém. A história ecoa nas duas partes seguintes, uma passada no período missioneiro do Estado e outra na contemporaneidade, numa cidade do interior pela primeira vez governada por uma administração de esquerda. O protagonista desta terceira seção lida com um episódio dramático no passado relacionado a uma apresentação de teatro de escola, uma versão justamente da história dos “vendilhões do Templo” expulsos por Jesus.

Enigmas da Culpa (Objetiva, 2007)
Ensaio no qual Scliar faz uma espécie de acerto de contas com duas instâncias fundamentais de sua formação: a herança judaica e a utopia socialista. Partindo de sua própria experiência de filho socialista de um casal de imigrantes judeus _ e que, depois de muitas privações buscavam, como muitos dos de sua geração, a estabilidade burguesa que incluía bens materiais  e o investimento em uma educação de qualidade para os filhos_ Scliar perscruta o papel da culpa na civilização judaico-cristã.

Manual da Paixão Solitária (Companhia das Letras, 2008)
A primeira vez que ouvi Scliar comentar sobre esse livro foi no início de 2003. Naquela época, a obra chegou a ser anunciada para outubro daquele ano, com o título de O Irmão de Onã, na coleção erótica que a Companhia das Letras estava pondo em circulação, abrindo a série com Diário de um Fescenino, de Rubem Fonseca. Quando Scliar voltou a comentar que o livro estava para sair, numa conversa no bar da redação, eu já havia até me esquecido dele. De acordo com o autor, uma primeira versão do livro praticamente já escrita foi jogada no lixo porque ele percebeu, em certo momento, que estava contando a história por um ponto de vista errado. Trocou de narrador e concluiu este livro com o qual foi agraciado com os Jabutis de Livro do Ano 2009 na categoria ficção e Melhor Romance. Encerrando sua trilogia bíblica, Scliar reconta a história do irmão caçula da família de Onã – aquele mesmo, que deu origem à palavra “onanismo” para não engravidar a mulher de seu irmão mais velho. Com humor, Scliar estabelece que o verdadeiro “onanista” da família era o caçula, o “irmão de Onã” – embora seja um dos livros de Scliar com o qual menos consegui me acostumar devido ao engenho formal de apresentar a história pelo ponto de vista de dois palestrantes de um congresso de estudos bíblicos..

Eu Vos Abraço, Milhões (Companhia das Letras, 2010)
Scliar volta ao passado do Brasil neste romance sobre a Revolução de 1930 no qual reconstrói a utopia comunista no Brasil. Um jovem filho de um capataz em uma estância missioneira, inflamado pelo sonho socialista incutido nele por um amigo, muda-se para o Rio em 1929 tentando encontrar um dos líderes do Partido Comunista para oferecer seus serviços à causa da luta revolucionária. Odirigente, entretanto, é um homem inconstante e difícil de ser encontrado, e enquanto isso o rapaz vai se deixando ficar. Nesse processo, testemunha os efeitos do Crash da bolsa de Nova York, emprega-se como operário na construção do Cristo Redentor e vê a a revolução liderada por Getúlio Vargas tomar as ruas de então Capital Federal. Como inadvertida última obra de ficção, representa uma síntese do Scliar romancista da segunda fase e seu modo peculiar de incorporar a história em seus livros.

Autores protagonistas

07 de janeiro de 2009 13

Comecei esta rubrica com a idéia de fazer uma série de periodicidade mais constante, mas esta é só a segunda em seis meses, devido às atribulações do tempo que parece cada vez mais escasso. Assim como há uns seis meses vocês conheceram uma dezena de livros sobre a China escritos por chineses, minha idéia aqui foi catar uma amostra de um certo tipo de romance muito comum nesta nossa pós-modernindade: uma obra na qual um autor usa outro autor, mais antigo e já falecido, como protagonista de um outro romance, um jogo de espelhos muito em voga na contemporaneidade. Não confundir com aqueles romances históricos nos quais o autor faz só uma ponta como elemento de pano de fundo. Aqui,o que temos são

DEZ LIVROS com escritores que viveram no mundo real como protagonistas.

O Mestre — Colm Tóibin
Em mais de um texto sobre Henry James já se disse que ele foi o mais europeu dos escritores americanos, tanto nos temas quanto no cuidado esmerado com a forma em livros como A Outra Volta do Parafuso e Retrato de uma Senhora. O próprio James achava isso, já que tentou garantir uma certa estabilidade financeira mudando-se para Londres e tentando emplacar como dramaturgo nos palcos ingleses (o equivalente ao cinema americano do período: a grande referência, e um lugar em que atuavam nomes como James M. Barry e Oscar Wilde). É, desta lista, o exemplo mais bem acabado de uma verdadeira “biografia romanceada”, e aborda justamente os anos em que James, já consagrado por Retrato de Uma Senhora, tenta o sucesso nos palcos londrinos com a peça Guy Domville _ e ficamos sabendo no romance também que a peça foi um fiasco, vaiada na estreia. Tóibin recorre a cartas e documentos do próprio James para esta reconstituição escrita com o esmero que James colocava em suas próprias obras. Tóibin tambémé hábil para abordar aquilo sobre o que não há certeza histórica, como a reservadíssima vida privada do autor e sua sexualidade até hoje mergulhada em incerteza. Tradução de José Geraldo Couto. Companhia das Letras, 440 páginas.

Arthur & George, de Julian Barnes
Mestre elegante da prosa britânica atual, Julian Barnes reconstrói um episódio real em um romance que dialoga com as questões modernas da complicada relação entre Europa e suas ex-colônias ocidentais. Troca-se, obviamente, o árabe dos dias de hoje pelo hindu do início do século 20, mas permanece a questão da identidade questionada dos descendentes dos países colonizados — bem como sua difícil aceitação como cidadão na metrópole. O romance acompanha as vidas paralelas do escritor Arthur Conan Doyle, aquele mesmo que você conhece, o criador de Sherlock Holmes, e do descendente de indianos George Eidalji. Desde o início, fica claro que se tratam de vidas desiguais. Conan Doyle e Eldalji não são de origem aristocrática, pelo contrário, e ambos ascendem por meio do estudo e do trabalho duro, mas enquanto Doyle vai, com seu temperamento exuberante, tornando-se logo uma estrela na sociedade e na literatura, Eldalji, que trabalha na companhia de trens de Londres, é, desde a infância, vítima de preconceito e, por fim, se vê acusado mutilar de vacas na região rural em que vivem seus pais. É condenado em um julgamento relapso e aprisionado. Quando, abalado pela morte da esposa e à procura de um desafio que lhe tire de sua apatia (Doyle é retratado como um homem com um pendor pela ação imediata), o romancista lê sobre o caso nos jornais, as vidas de ambos se cruzam, e o escritor se engaja em uma campanha para que um tribunal reconheça a inocência de Eldalji. Quando se fala que as vidas de ambos “se cruzam”, a afirmação pode ser usada em sentido literal. Até se encontrarem no julgamento, Arthur e George têm suas trajetórias apresentadas alternadamente, ressaltando o efeito de suas vidas paralelas no desigual sistema social inglês. Tradução de Jorge Viveiros de Castro. Rocco, 442 páginas.

Stevenson sob as Palmeiras, de Alberto Manguel
Sim, a Companhia no início da década lançou uma coleção, sete livros, que pretendiam unir uma trama policial com a figura de um grande escritor. Só eles já serviriam para quase completar esta lista, mas nem todos se ajustam à proposta que adotei, de termos um escritor que existiu de verdade como protagonista. Alguns deles usam o autor escolhido como coadjuvante, um pretexto colateral. Crítico, professor e um grande historiador da leitura e da literatura, Manguel cria não só uma história policial com toques do horror do próprio Robert Louis-Stevenson, autor de O Médico e o Monstro, mas uma reflexão sobre a natureza da ficção. Doente de tuberculose, Stevenson muda-se para a ilha de Samoa, em meio a nativos que não conhecem o conceito de ficção, já que para eles toda história é uma verdade. Uma circunstância que passe de pitoresca a periroga quando ele é envolvido por uma trama de crime que será atribuído pelos locais ao “contador de histórias”. Suspense e erotismo se combinam nesta obra que é uma das mais bem realizadas da série toda. Tradução de Paulo Henriques Britto. Companhia das Letras, 88 páginas.

Nosso GG em Havana, de Pedro Juán Gutiérrez
Há um tempo atrás, um amigo que entrevistou Pedro Juan Gutiérrez sobre este livro comentou que ouviu do escritor que ele foi produzido para figurar na coleção essa da Companhia protagonizada por autores, mas desacordos entre o cubano e a editora fizeram com que a casa declinasse da publicação. O livro sai agora no Brasil por outra casa publicadora. Na Cuba pré-revolução castrista, um homem que se identifica como Graham Greene é preso num bordel homossexual da Havana de então, um paraíso para os pecados da carne. O verdadeiro Graham Greene, que na verdade estava em sua casa na Itália, é informado do episódio e parte para Cuba para esclarecer quem é o sujeito preso em seu lugar. Ao chegar à quente e pastosa Havana, Greene, inglês católico, é envolvido ao mesmo tempo pelo clima de pecado da ilha e por uma rocambolesca trama de espionagem que inclui russos, americanos, refugiados nazistas, uma organização judaica responsável por caçar esses mesmos refugiados e mafiosos. A idéia, já expressa no título, é que a experiência de alguma forma vai dar origem a um dos clássicos de Greene, Nosso Homem em Havana. Tradução de Magda Bigotte de Figueiredo. Alfaguara, 128 páginas.

Os Crimes do Mosaico, de Giulio Leoni
Embora tenha uma vida com uma sequência de eventos documentada, há muito sobre a personalidade de Dante Alighieri que escapa ao leitor moderno de sua Divina Comédia. Nesse terreno amplo e inexplorado, Giulio Leoni não encontra obstáculo para desenhar a personalidade de Dante neste livro e nos outros que compõem uma trilogia policial protagonizada pelo poeta. Prior de Florença no ano 1300, Dante é um sujeito irascível, arrogante, temperamental e autoritário, e passa os três livros mais arranjando os problemas políticos que o levariam ao exílio do que propriamente desvendando os crimes brutais que cruzam seu caminho. Ou seja, é flagrante a inspiração dos detetives “durões” do noir clássico americano, o que pode incomodar um leitor mais sensível a anacronismos. Neste em particular, um operário de um mosaico grandioso que estava sendo assentado na parede de uma igreja em construção é encontrado morto, com todos os indícios de uma morte praticada por magia negra. Autoridade de Florença, cabe a Dante a resolução do mistério e a manutenção da ordem. Esse livro foi precedido por Os Crimes da Medusa, sem edição no Brasil, e seguido por Os Crimes da Luz, já lançado pela mesma editora. Tradução de Gian Bruno Grosso. Planeta, 384 páginas.

Boca do Inferno, de Ana Miranda
A escritora Ana Miranda já surgiu dividindo opiniões entre os que a consideraram uma grande artista e outros críticos que depreciaram um certo rebuscamento deslocado que parecia disfarçar defeitos de fabulação. Considerações que foram feitas já sobre este romance, de 1989, sua estreia literária. O protagonista é um dos mais interessantes personagens dos primeiros tempos do Brasil, o poeta barroco e grande provocador Gregório de Mattos Guerra, autor de sátiras e de poemas fesceninos e debochados que se incluem entre os melhores da tradição subterrânea do sarcasmo em língua portuguesa. Passado em 1863, o romance recupera em forma de ficção as lutas políticas que agitavam a Bahia, então fulgurante capital comercial, e como essas disputas entre facções se refletem na cidade e na vida do protagonista. A linguagem vai do suntuoso ao vulgar, emulando o próprio espírito de contradições e oposições que animava o barroco do período. Gregório, oposicionista, envolve-se com uma mulher que, ele saberá, tem ligações com uma emboscada ao alcaide-mor, pretexto para que o mandatário da Bahia inicie uma perseguição política violenta aos adversários _ Gregório entre eles. Não foi o único livro de Ana Miranda com um escritor como protagonista. Ela mais tarde lançaria Dias e Dias, com o poeta Gonçalves Dias como personagem. Companhia das Letras, 312 páginas (edição de bolso).

A Ilha dos cães, de Rodrigo Schwarcz
Romance de estreia deste jornalista gaúcho, investe em um tipo de literatura ainda pouco praticada por aqui, uma certa mistura entre fantasia e a criação de mundos alternativos. Schwarcz imagina um mundo em que os europeus desistiram das grandes navegações depois de dois ou três encontros com alguma coisa sombria e mostruosa em alto mar. Sem as grandes navegações europeias, as Américas se desenvolvem de uma maneira completamente diferente, os grandes impérios indígenas americanas sobrevivem à dizimação perpetrada pelo homem branco e os impérios Incaico e Azteco estão em guerra por território séculos após o que deveria ter sido o descobrimento. O detalhe é que toda essa narrativa é na verdade imaginada pelo explorador e escritor inglês Richard Burton, preso em uma ilha desconhecida após um naufrágio quando voltava de… Santos, onde foi adido (dado que realmente consta da biografia de Burton). Em uma época em que muitos escritores brasileiros lançam livros de estreia emulando Rubem Fonseca, Schwarcz aposta alto numa história que mescla alta literatura e fantasia. Bertrand Brasil, 200 páginas.

As Horas, de Michael Cunningham
Relutei sobre colocar ou não este aqui na lista justamente devido à projeção obtida pelo romance após a adaptação cinematográfica com Nicole Kidman interpretando Virginia Woolf com um nariz postiço de dar medo (e que não lembra lá muito bem o rosto real da escritoras nas poucas fotos disponíveis). Calcado assumidamente em Miss Dalloway, de Virginia (livro que também ecoa no recente romance de Adriana Lunardi Corpo Presente), As Horas é a descrição minuciosa de algumas horas na vida de três mulheres separadas no tempo e no espaço: Virginia, que, em 1923, escreve Miss Dalloway na casa de campo em que vive com o marido, nos arredores de Londres, ao mesmo tempo em que lida com tenta manter sob controle os sintomas de demência que começam a se manifestar; Laura, uma dona de casa problemática e oprimida pela vida familiar em 1949, que está justamente lendo uma edição de Miss Dalloway; e Clarissa, a atualização em carne e osso da miss Dalloway do livro. Cinquentona e ex-hippie, Clarissa ecoa no seu próprio comportamento o da senhora Dalloway do romance, que começa o dia escolhendo flores para uma festa. A prosa de Cunningham é difícil, lenta, minuciosa na descrição de cada sensação, no mapeamento obsessivo da paisagem emocional de cada personagem. Tradução de Beth Vieira. Companhia das Letras, 184 páginas.

Dias de Faulkner, de Antônio Dutra
Visitas de grandes autores ao Brasil invariavelmente dão na mesma: o cara é levado para cima e para baixo para apreciar o cenário botocudo local, e, se é gentil, trata todo mundo bem e depois suspira de alívio ao voltar para casa. Ou se é uma mala já faz questão de deixar claro o desagrado, mas não se iludam, a maioria acha a experiência uma droga, seja mala ou educado. O mais engraçado é ver depois de uns 50 anos aqueles artigos alentados tentando recuperar a passagem do sujeito por aqui naqueles dias de tédio e inferno como se fosse uma grande coisa. Não é o caso deste livro (a capa é essa mesma, não é erro meu. É uma proposta meio “artê”) de Antônio Dutra, que usa do recurso da ficção para reconstituir a visita de William Faulkner ao Brasil em 1954, disperso, mal-humorado, angustiado para ficar sozinho em seu hotel e se virando como pode enquanto é apresentado a figuras relevantes do cenário intelectual brasileiro, como Lúcio Cardoso e Cecília Meirelles. Faulkner não é uma presença sólida, pelo contrário, é claramente alguém que não quer estar aqui, e é nesse desagrado que Dutra vai construir o vínculo de sua novela com a obra do autor de Luz em Agosto. Imprensa Oficial, 136 páginas.

O Pálido Olho Azul, de Louis Bayard
Edgar Allan Poe
foi personagem não de um, mas de três romances lançados recentemente, todos misturando elementos da vida do escritos norte-americano com tintas do romance policial que ele ajudou a criar. Achei mais prático escolher um apenas para variar o escopo. Este O Pálido Olho Azul toma como mote e cenário um ponto da obscura biografia do escritor: sua passagem fugaz como cadete pela Academia Militar de West Point – da qual foi dispensado por “problemas disciplinares” com pouco mais de um ano de estudos. Hoje, a Academia Militar é a escola na qual se forma a elite americana, mas, nos 1830 em que se passa a história, West Point é uma iniciativa contestada, alvo de muitas críticas quanto à sua própria necessidade. Para piorar, no romance de Bayard a instituição é aterrorizada por crimes macabros envolvendo estudantes do local. Um detetive aposentado chamado Augustus Landor é chamado pela direção da academia para investigar discretamente o caso, fazendo o possível para que o estrago à imagem do estabelecimento seja mínimo. Landor escolhe como seu assistente e espião na comunidade fechada dos cadetes o jovem estudante Poe. Um Poe atormentado, romântico, dramático, obcecado pelo sobrenatural e pela mãe, morta quando o garoto ainda era criança. A relação de Poe com o padrasto no livro também não é das melhores, já que o garoto está sendo enviado para a escola como uma última tentativa de ser “endireitado”. Embora seja um romance bem urdido, não deixa de ser um defeito da narrativa que as aparições de Poe roubem o interesse da trama, que começa bem e termina com um certo artificialismo histérico que também tenta emular temas recorrentes a Poe: criptas, cavernas subterrâneas e experiências macabras com o sobrenatural. Tradução de Lea P. Zylbercht (Planeta, 432 páginas,R$ 39,90)

>>> Confira aqui os demais posts da série Dez Livros

Na onda das Olimpíadas

21 de julho de 2008 3

Começo aqui uma série que deveria ter iniciado há três semanas com outra lista de livros, não esta. E pondo em marcha uma seção temática que eu espero ter tempo e condições de levar adiante. Com vocês:

DEZ LIVROS de autores chineses contemporâneos

A Serviço do Povo, — Yan Lianke
Sob muitos aspectos, o comunismo foi a última religião monoteísta de proporções planetárias, com direito a fé contrária a fatos, cismas, íconografia própria e uma noção arraigada de pecado — no caso do socialismo, “vícios” como “individualismo” ou “decadentismo burguês”. É com base nesse sutil conceito de fundo que Yan Lianke compõe esta sarcástica sátira ao regime maoísta — o livro foi banido na China mas ganhou o mundo por meio da internet. Um soldado revolucionário é alocado como cozinheiro particular de um importante oficial do exército chinês. Logo, começa um caso com a jovem mulher de seu superior, uma relação que ambos apimentam com a excitação que vêm do pecado – ambos descobrem que sentem mais tesão se a cada encontro clandestino praticam transgressões como rasgar páginas do Livro Vermelho ou destruir imagens do Camarada Mao. Tradução de André Telles. Record, 176 páginas, R$ 29.

A Montanha da Alma — Gao Xingjian
Este livro não chega a ser uma novidade, já que havia tido uma primeira edição no Brasil em 2001, pela Objetiva, com repercussão modesta. Com a recente maré montante de interesse pela China, este romance do escritor e dramaturgo Gao Xingjian, primeiro e até agora único escritor chinês a vencer o Nobel, em 2000, ganhou em 2007 uma segunda chance de comover o público. O irônico é que Xingjian, hoje exilado em Paris, publicou este livro primeiro em francês. Na época da premiação, o governo chinês acusou a Academia Sueca de provocação política, dada a condição de exilado do escritor. As razões do prêmio, contudo, não são apenas extraliterárias. Seu romance é caudaloso, alegórico e pleno de uma poesia melancólica. Basicamente, é a história de uma viagem pelo sul e pelo sudoeste da China, em episódios que formam um mosaico da China atual. O autor, que viveu parte da juventude sob o peso da Revolução Cultural e se diz influenciado pela literatura ocidental, mistura técnicas e vozes narrativas. Tradução de Marcos de Castro. Alfaguara, 436 páginas, R$ 47,90.

A Montanha e o Rio — Da Chen
Não é apenas a palavra “Montanha” no título o que une o autor deste livro, Da Chen, ao Nobel Gao Xingjian, citado anteriormente Outro fator é que Chen também é francamente influenciado pela literatura do Ocidente. A diferença é que se Gao faz a ponte entre a China, Joyce, Beckett e Dostoiévski, Da Chen é um desconcertante discípulo do que há de mais dramático na obra de Charles Dickens. Este A Montanha e o Rio é a saga de dois garotos unidos por até então desconhecidos laços de sangue. Tan é o filho de um aplicado assessor direto de Mao. De privilegiado filho da elite do revolucionária logo conhece a pobreza quando o pai cai em desgraça e se torna dissidente. Já Shento é um menino pobre, filho de uma camponesa com um homem que não assume a criança filha de uma relação não-oficial _ o pai de Tan. Shento enfrenta tragédias infantis, orfanatos de pesadelo até galgar posições no Exército chinês. Tradução de Paulo Andrade Lemos. Nova Fronteira, 500 páginas, R$ 49,90.

Balzac e a Costureirinha Chinesa — Dai Sijie
Provavelmente o livro mais conhecido desta leva recente das letras chinesas, ainda que não exatamente por motivos literários, e sim por haver sido transformado em um filme bastante elogiado, dirigido pelo próprio Dai Sijie adaptando sua obra. Também aqui o foco da história é o passado recente da China, focalizado no pano de fundo da Revolução Cultural. Baseado em experiências pessoais do escritor, enviado nos anos 1960 para um campo de “reeducação” no Interior, o romance conta a história de dois amigos enviados para trabalhar no campo para serem “curados” de sua mentalidade burguesa decadente pelo contato com os camponeses pobres. Lá, ambos envolvem-se com uma bela costureira da região, uma relação que mescla desejo e perigo depois que o trio acha, em um recanto oculto, uma mala cheia de livros clássicos da literatura européia, como Balzac e Flaubert. Tradução de Vera Lúcia dos Reis. Alfaguara, 168 páginas, R$ 29,90.

O que os Chineses não Comem — Xinran
Se existe mesmo um abismo a separar os povos orientais da cultura ocidental, ao menos na literatura pode-se dizer que as mulheres o estão cruzando primeiro. Foi assim que tivemos acesso a depoimentos de mulheres oprimidas por tradições machistas na Índia, em países muçulmanos como Afeganistão e Somália, e na China, com a precursora Jung Chang, de Cisnes Selvagens e com a radialista Xinran Hue. Tornada célebre no início da década com As Boas Mulheres da China, resultado de entrevistas e cartas recebidas de mulheres chinesas em um programa de rádio, Xinran, neste O que os Chineses não Comem, reúne artigos publicados no periódico inglês The Guardian apresentando aspectos da vida chinesa para os ocidentais. São crônicas nas quais a autora, que hoje vive exilada em Londres, usa de um tom pessoal, por vezes bastante emotivo, para narrar a experiência de viver em um país ocidental de costumes diversos dos seus. Tradução de Ricardo Gouveia. Companhia das Letras, 192 páginas, R$ 37,50.

O Olho de Jade — Diane Wei Liang
Embora escrito por uma dissidente exilada nos Estados Unidos, este livro se filia a um tipo diferente de contestação ao regime maoísta. Nascida em Pequim e distante de seu país por ter participado das manifestações de protesto na Praça da Paz Celestial, em 1989, Diane Wei Ling pensa as contradições da moderna sociedade chinesa por meio de um romance policial, gênero característico da literatura de consumo do Ocidente. A protagonista é a inusitada Mei Wang, primeira mulher a obter, na esteira da recente abertura econômica, licença de detetive particular. A pedido de um velho amigo da família, ela aceita a incumbência de rastrear o paredeiro de uma jóia de Jade da Dinastia Han, desaparecida durante os anos de destruição do passado da Revolução Cultural. Ao mergulhar na investigação, Mei Wang se vê imersa em uma trama que envolve o passado de sua família e da própria China. Os clichês do policial ganham imprevisto frescor quando aplicados à realidade chinesa contemporânea. Tradução de Marcelo Mendes. Record, 304 páginas.

Refugo de Guerra — Ha Jin
Ha Jin é outro escritor chinês forçado a emigrar de seu país após o massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, e hoje, como Diane Wei Liang, mora nos Estados Unidos. Ele já havia tido seus romances O Ensandecido e A Espera lançados por aqui pela mesma editora, mas teve publicado este ano no Brasil este romance vigoroso, narrado pelos olhos de Yu Yuan, um militar chinês que combate na Guerra da Coréia para defender e apoiar a revolução comunista que daria mais tarde origem à Coréia do Norte. Disperso com seu pelotão e ferido por um estilhaço de granada, Yuan vai parar em um campo de prisioneiros na Coréia do Sul, e é pressionado a emigrar para Taiwan. Sua vontade, entretanto, é voltar para a China comunista, por razões familiares, o que lhe garante represálias de ambos os lados. Tradução de Luiz Antônio de Araújo, Companhia das Letras, 464 páginas, R$ 62.

A Longa Marcha — Sun Shuyun
Ao escrever este livro, a jornalista chinesa Sun Shuyun decidiu fazer uma grande reportagem para reconstituir um mito. No ano de 2004, Sun Shuyun refez o trajeto percorrido no início dos anos 1930 por Mao e seu exército desalojado de suas bases no Sul, no episódio conhecido como A Longa Marcha, até hoje relato nacional fundador da China comunista. Shuyun enfrenta o peso épico de uma retirada que durou dois anos e atravessou 10 mil quilômetros de um dos países mais extensos do planeta, acossada pela perseguição do exército oficial e buscando refúgio numa planície inóspita, onde chegaram apenas 40 mil dos 200 mil que começaram a fuga. Contrapôs ao mito cristalizado os depoimentos de sobreviventes da marcha. Tradução de Caroline Chang. Arquipélago Editorial, 336 páginas, R$ 44.

Viver — Yu Hua
Um romance que celebra a vida de maneira otimista e busca suas fontes na rica e milenar tradição oral da China, por meio de uma estrutura que lembra um pouco o encadeamento orgânico das histórias contadas de pessoa a pessoa. Um andarilho que percorre o interior da China em busca de histórias e relatos folclóricos depara com a exótica figura de um velho que se dispõe a contar a saga de sua família. O narrador, Fugui Xu, passa então a contar a acidentada história de sua vida: de homem de posses nos anos 1940 a sujeito falido pelo vício em jogo. De biscateiro miserável a outra vez camponês, com espaço para uma convocação para lutar na Guerra Civil que o mantém anos afastado de sua casa e de sua família. Uma história que tempera as tragédias vividas por Xu com o bom humor otimista e inabalável de seu protagonista. Tradução de Márcia Schmaltz. Companhia das Letras, 216 páginas, R$ 38.

Meu nome é número 4, de Ting-Xing Ye
Nascida em Xangai, ainda nos anos 1950, Ting-Xing Ye ficou órfã cedo, responsável por quatro irmãs mais novas e insistindo em continuar estudando. Com a eclosão da Revolução Cultural, foi enviada pra um campo de trabalhos forçados para ser “reeducada” numa fazenda-modelo. Casou-se, teve uma filha e anos mais tarde, visitando o Canadá como estudante de intercâmbio, decidiu pedir asilo no país _ o que a fez perder contato com a filha por quase 10 anos. É essa história o centro do relato autobiográfico de tintas fortes que ela relata neste número, cujo título faz referência a uma tradição da numerologia chinesa segundo a qual crianças de número 4 nascem para sofrer. Tradução de Alexandre Martins. Casa da Palavra, 224 páginas, R$ 35.