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Posts na categoria "Encarando a Granta"

Encarando a Granta - parte final

14 de agosto de 2012 0

Chegamos ao fim da empreitada – ao menos EU cheguei – sem ter a menor ideia do critério utlizado para dispor os escritores nas páginas do volume da Granta dedicado aos 20 jovens autores brasileiros. Via mensagem privada no Facebook, um leitor deste blog (que terá sua identidade preservada justamente por ter declarado que não queria ser exposto), arriscou uma hipótese: “Arrisco um palpite: como o do Michel Laub tem sido considerado o melhor por muita gente (eu prefiro o da Laura Erber, que é justamente o segundo, e isso só confirma a minha tese) e o da Tatiana Salem Levy é unanimemente considerado o pior, me parece que foi a ordem classificatória mesmo“.

Pois é, é uma hipótese a se considerar, mas creio que é inválida por dois motivos: pelo alto grau de subjetividade de uma seleção como essa. Se a classificação fosse elaborada por mim, por exemplo, o conto de Luisa Geisler estaria mais para trás, o do Leandro Sarmatz viria mais para frente, e o do Vinícius Jatobá, como veremos neste último episódio da série, teria de ser um dos primeiros. Acho que a coisa foi mais na base do sorteio, mesmo, e não se pode dizer que não houve precedentes. fui consultar o número 7 da revista (a do Inverno de 2011, dedicado aos Melhores Jovens Escritores em Espanhol), e vi que a ordem era tão aleatória quanto – o que por si só já estabeleceria um padrão e tranquilizaria minha porção aristotélica obsessivo-compulsiva se o primeiro número da revista no Brasil (a da Primavera de 2007, com Os Melhores Jovens Escritores Norte-Americanos) não tivesse distribuido os escolhidos por ordem alfabética de sobrenome. Vou, então, tomar a decisão mais sábia: desistir de entender a ordem dos contos e voltar à leitura deles.

Agradeço a quem leu até aqui tanto este post quanto os demais, provando que o assunto poderia ser discutido para além das pressões do noticiário diário e sua presa ávida de fatos do dia – a coletânea já saiu faz um mês, a Flip já acabou faz tempo, etc… Este último post também demorou porque confesso que este último bloco, justamente por ser o último, foi aquele no qual tive mais dificuldades para dizer qualquer coisa sobre os textos – dos quatro, três não me impressionaram em quase nada, e não diferiam tanto assim dos demais sobre os quais já havia apontado outras ressalvas. Mas, por questão de justiça não podia encurtar demais as resenhas. Vamos, então, sem mais delongas, aos últimos textos desta Granta:

Fragmento de um Romance, de Carola Saavedra
O título deste texto pode ser lido de duas formas: a história é um pedaço de um romance, uma narrativa romanesca que a autora de Toda Terça e Flores Azuis está escrevendo, e é também um fragmento de um romance, um entrecho de uma aproximação romântica entre os dois personagens principais.  Uma jovem de nome Lena atende um pedido de sua irmã, Maike, para que recepcione um escritor estrangeiro que vai ficar alguns dias hospedado no apartamento dela (dela Maike). A moça vai, contrariada, entregar a chave para o visitante e lá encontra um rapaz bonito que em nada se parece com a imagem que ela faz de um escritor: “Por algum motivo, na minha cabeça um escritor era um homem de meia-idade, muito magro e com fundas olheiras contornando o olhos. E óculos. Escritores usavam óculos. Nisso ele se adequava ao escritor da minha imaginação, mas era só.
Quando ambos se conhecem parece haver uma atração mútua. Ela entrega as chaves, apresenta o apartamento e, quando está para sair, ele a convida para tomar alguma coisa em algum lugar próximo. Já que ela apresentou o apartamento, poderia apresentar parte da cidade. Ela aceita. Ambos começam uma longa conversa pontuada de subentendidos e despontuada gramaticalmente: Saavedra não marca com sinais gráficos as separações entre quem está falando o quê, mas como o diálogo é o de duas pessoas que acabaram de se conhecer, e, portanto, breve e entrecortado, a autora consegue manejar a conversa tecnicamente sem que o leitor se perca.  Lena é hostess em um restaurante, profissão que a irmã deplora. Também parece alguém sem muita certeza do que quer da vida. O escritor ainda não teve livros traduzidos no país da protagonista (em momento algum é dito em que país ambos estão, mas os nomes das duas irmãs e o frio que faz na rua quando ambos saem sugere um lugar qualquer da Europa), e por aí vai. No final, instala-se uma dúvida quanto ao que a protagonista narrou até ali ao homem que acabou de conhecer – algo que provavelmente será desenvolvido quando a narrativa ganhar corpo, mas me deixou curioso pelo resto, se é que haverá resto e este não é um conto que se encerra assim mesmo.
Talvez meu maior problema com o texto seja sua indeterminação, não apenas geográfica, mas narrativa. Tudo é neutro e bem escrito, mas por demais artificial, um registro que, embora ágil e até leve em alguns momentos, não parece levar a lugar algum nem permite que os personagens elevem-se acima de um retrato caricatural.

Violeta, de Miguel del Castillo
Há pontos de contato flagrantes entre este conto e o de Julián Fuks – são ambos visões dos anos de chumbo na América Latina recuperadas pelo ponto de vista de descendentes dos perseguidos políticos, como parecem ser os próprios autores. Na tradição com conto que dribla seu leitor começando a falar de uma coisa para que depois se perceba que o centro da narrativa é outro, o narrador em primeira pessoa começa a recordar um primo de seu pai chamado Miguel Angel, desaparecido durante o período das ditaduras militares do continente, nos anos 1970. “Meu nome de batismo, portanto, é uma homenagem“, diz o texto a certo momento, borrando deliberadamente as fronteiras entre o autor e o narrador. À medida que a narrativa avança, percebe-se que o centro não é o desaparecido Miguel, e sim sua mãe, Violeta, que primeiramente se lança a uma busca desesperada pelo filho e mais tarde vai morar com a irmã, avó do narrador, até sumir-se em um asilo, vitimada pelo Alzheimer. Permeando esse fio condutor, há as relações do narrador com essa história familiar, a noção de que o pai do narrador, primo do desaparecido, sentia vergonha por estudar em um colégio militar enquanto o irmão sonhava uma revolução. Talvez por lidar com questões de memória seja intencional que o narrador se perca com relação ao fato principal, o desaparecimento de Miguel. Diz ele no primeiro parágrafo:
Miguel Angel foi um dos primos do meu pai, tupamaro, que desapareceu na ditadura uruguaia
Depois, ao esmiuçar esse desaparecimento, o narrador conta que Miguel…:
No Chile, tornou-se chofer da embaixada da Finlândia e extraditava uruguaios com a ajuda da namorada finlandesa, a ditadura também por lá, imagino que foi por isso que se refugiou na Argentina, o Partido por la Victoria del Pueblo, a prisão. Dias depois, seria colocado no segundo voo da morte: todos os presos políticos dentro do avião, a rampa de lançamento abrindo e logo todos no ar girando…
Pra mim, pelo menos, ficou no ar em qual das ditaduras afinal o rapaz desapareceu, se no Uruguai ou na Argentina. Pode ser que o autor tenha se passado, ou pode ser um erro do narrador imaginado intencionalmente pelo escritor, uma vez que pare da narrativa é estruturada em um pastiche de António Lobo Antunes: frases e diálogos fora do tempo da narrativa que irrompem no meio do narrado, fazendo a memória invadir o conto. É um procedimento que Antunes transformou em estilo de mestre em livros como Ontem Não Te Vi em Babilónia ou Eu Hei de Amar uma Pedra, mas que me parece deslocado neste texto de Miguel del Castillo, uma vez que a narrativa não se sustenta com esse artifício em toda a sua extensão, e sim apenas em seus capítulos centrais, tornando o conjunto algo desconjuntado, apesar de bem escrito.

Natureza-Morta, de Vinícius Jatobá
Antes mesmo de chegar a este conto, já havia lido manifestações quase unânimes de que este texto de Jatobá, de quem não havia lido nada ainda na seara da ficção, era uma das grandes surpresas do volume. Ao lê-l0, entendi por quê. Natureza-morta começa, como entrega o título, com sua referência a um gênero de representação pictórica de coisas inanimadas, com uma descrição de uma casa abandonada e já em ruínas:
“Vês a casa e seu tempo, a casa, e apenas ela, embora ainda existam teus segredos e teus medos e silêncios trancados na opacidade mineral das portas fechadas e das janelas travadas, teus medos e silêncios implorando por uma fresta para que escapem de seu inverno que se promete eterno e abandonem o rumor grave da acumulação cerrada a que estão cativos sem seus donos e vês, vês a casa, não fujas nem ignores…”
Interrompo a transcrição aqui, porque a descrição prossegue, sem pontos finais, por mais meia página, quando então começa o outro eixo que estrutura este conto: uma narrativa em primeira pessoa – que também não fará uso de ponto final. Jatobá alterna as descrições da casa, estática, morta, inanimada, pronta para ser demolida, com as vozes em primeira pessoa de seus antigos habitantes: uma mãe, Vera; um pai, Paulo; e um filho, Pedro. Vera, costureira, economiza com seu trabalho até o casal comprar um terreno onde será construída a casa. Paulo é um guarda civil que mais tarde passa a policial e quase põe a unidade familiar a perder com infidelidade conjugal. Pedro cresce e toma como esposa uma mulher que a mãe desaprova. A cada alternância de pontos de vista entre os personagens, mais um detalhe da casa abandonada vai sendo adicionado para marcar a transição da narrativa – uma estrutura que a partir de determinado  ponto parece mais atrapalhar do que ajudar, uma vez que as vozes crescem em complexidade e qualidade à medida que o conto avança, e as descrições parecem mais truncar o leitura do que contribuir para ela. Ainda assim, em termos formais, o conto de Jatobá é um dos que mais ousam no volume (embora uma ousadia derivativa, uma vez que Faulkner é uma presença perceptível).  A construção textual é marcante e precisa – com exceção do início, quando ele usa duas vezes em contextos muito próximos, na mesma página, o adjetivo “mineral” – a primeira foi no trecho que vocês leram ali em cima. Depois, logo no início da fala de Vera, a primeira personagem com voz no conto, que declara: “Paulo apenas me observava, calado, altivo, mineral, orgulhoso”. Repetição de termos tão exóticos tão próximos sempre é uma quebra na fluência da leitura, e neste caso a fluência é importante. Ainda assim, é um conto muito bem construído e tem a vertigem que é marca dos bons exemplares do gênero.

O Rio Sua, de Tatiana Salem Levy
Admiro a obra de Tatiana Salem Levy – como já escrevi em uma resenha para A Chave de Casa, aqui. Não sei, contudo, o que pensar deste conto que parece mais um exercício para coisas que ela queria tratar em seu romance anterior, Dois Rios, do que uma obra autônoma e relevante. Uma jovem brasileira abandona o homem com quem mantinha uma relação, na Europa, e regressa ao Rio de Janeiro alguns dias antes do Ano Novo. Não parece haver um propósito definido, apenas uma “sede de redescoberta”. O fato é que ao trocar o cinza europeu pelo calor do Rio, a protagonista toma uma decisão que poderia ser temporária mas se revela definitiva. É um conto fragmentário: a protagonista narar sua volta ao Brasil, depois pula para o momento em que decidiu voltar, fala dos telefonemas difíceis e cada vez mais constrangedores trocados entre ela e o homem que ainda pensa ser seu namorado na  Europa, relata o reencontro com a cidade e intercala aforismos que tentam explicar a “natureza do carioca”. O problema é que, se pode-se acompanhar a história da jovem, seu reencontro com o Rio e seu desencontro com o amante europeu com algum interesse, o material paralelo é repleto dos chavões mais disseminados até para mim, que não sou carioca e nem conheço o Rio tão bem assim:
“Antes do despencar das águas, o Rio pulula, as pessoas fogem em desespero, os pássaros debandam em alvoroço, as baratas deslizam, frenéticas, os micos saltam de galho em galho, todos em busca de um abrigo, um teto qualquer. A cidade palpita de uma hora para outra quando a umidade alcança um nível insustentável, quando se saber que o clima quente, pesado e pegajoso vai desmanchar num temporal. E se, por sorte, você estiver num ambiente seguro, logo verá a força da natureza se impondo, soberana, lembrando-nos o quanto somos frágeis e passageiros“.
Ou ainda:
Teoria para a alegria carioca I: o suor lubrifica os músculos, faz-nos mover” – sobre isso em particular: se o suor fosse o segredo da alegria, você veria as pessoas mais alegres do universo no verão de Porto Alegre, quando o que ocorre é exatamente o contrário.
A jovem esteve uma vez no Rio com o homem que havia deixado na Europa. Ele se entusiasmara pelo lugar, enquanto ela, conhecedora do cenário, mirava tudo com certa má vontade. Até aceitando a paixão aventureira dele mas impondo o limite de jamais gostar do Carnaval. Pois é no Carnaval que ela se dá conta que sua relação com o antigo amante acabou, quando se vê diluída na massa amorfa da multidão:
O pânico começa a se instaurar e penso nos corpos organizados do outro lado do Atlântico, até que o ar falta ao cérebro, amolecendo os membros, e dou permissão ao meu corpo para fazer parte de uma massa anônima e se misturar a outros corpos até achar um que de fato lhe apeteça.”
Talvez esteja aí o grande problema do conto: a forma ingênua como revisita a batida dicotomia entre razão e paixão, entre consciência e corpo, relacionando-a respectivamente ao modo de ser europeu e carioca:
“Hoje, comparando um lugar ao outro, eu diria: a verdade nem sempre está nas palavras, mas o corpo nunca mente”.
Mesmo que o conto de João Paulo Cuenca incluído neste volume seja flagrantemente inferior no quesito da ourivesaria de linguagem, sua visão raivosa do Rio parece apresentar aqui e ali vislumbres de maior originalidade em comparação com este texto que tenta fazer o elogio da cidade mas não se afasta dos clichês.

Leia também:

>>> Encarando a Granta – parte 1

>>> Encarando a Granta – parte 2

>>> Encarando a Granta – parte 3

>>> Encarando a Granta – parte 4

Encarando a Granta - parte 4

06 de agosto de 2012 1

A própria natureza deste projeto provoca seu atraso. A Granta, é óbvio, já está lida, mas faltou-me ao longo da última semana tempo para redigir os textos dos dois blocos faltantes, e por isso este está entrando no ar só agora. Se eu tivesse me restringido a escrever uma breve impressão de cada conto, seria mais fácil, mas tenho tentado me deter em cada história para fazer uma leitura que vá além do conjunto clássico “resumo/opinião/ressalva” que costuma ser a tônica da maioria das resenhas. Se tenho conseguido, não cabe a mim julgar. Apesar da demora, contudo, vamos ao quarto e penúltimo bloco de textos sobre os contos selecionados para a polêmica Granta:

A Febre do Rato, de Javier Arancibia Contreras
Recentemente o cineasta Cláudio Assis lançou seu terceiro longa-metragem, que tem o mesmo nome deste conto – o que achei peculiar. Fui consultar meu colega Daniel Feix, crítico de cinema e um dos blogueiros do blog amigo Cineclube ZH, e ele comentou que, ao conversar com Assis em um festival, ouviu a explicação de que “febre do rato” é uma expressão comum em Pernambuco para se referir a alguém fora do seu estado normal, descontrolado. O equivalente a “surtado”, por exemplo. Como Contreras nasceu na Bahia, provavelmente uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas curiosamente o título pode ser lido nessa acepção quando aplicado ao conto. E em outra, bem mais literal, também. O protagonista é um tradutor:
Mas não um desses triviais, de idiomas monótonos e insípidos como o inglês. Traduzo obras diretamente de idiomas incomuns, gramaticalmente complexos e pouco eufônicos como os escandinavos. No entanto, intimimante, meu maior orgulho, e tenho mesmo o ego inflamado por isso, é ser considerado o único profissional  competente e gabaritado do país a traduzir qualquer obra diretamente do mais misterioso, dialetal e literário idioma eslavo, o russo.“, ele declara, com pedantismo risível – imagino, por ser um leitor otimista, que essa afetação ridícula seja uma construção intencional do autor para contrabalançar a atmosfera opressiva e misantrópica do conjunto, claramente uma dilução dos momentos mais abissais de Dostoiéwski (a menção ao russo não é gratuita). O tradutor volta para uma casa em uma localidade afastada. Está com “uma perna quebrada e a outra com hematomas por quase toda a sua extensão” e só consegue se locomover de muletas. A casa está mal cuidada e deserta, porque a mãe do personagem, a única habitante do lugar, morreu recentemente – isso e um fiasco que o misantropo protagonista aprontou no velório têm relação como  atual estado alquebrado do sujeito. E, o mais importante, o tradutor não está sozinho, algo que descobriremos junto com ele.
Há dois pontos bastante positivos a apontar no conto, ambos resultados de uma elogiável habilidade técnica: Javier Contreras narrar de modo o mal estar físico, quase de modo a contaminar o leitor com a dor ou o incômodo do personagem. Outro mérito é o uso sábio e consistente do suspense. Infelizmente, contudo, o final acena com a mais batida das resoluções: o apelo ao onírico.

Faíscas, de Carol Bensimon
O texto é um fragmento da narrativa de estrada que a autora está escrevendo e, diferentemente de outros textos desta coletânea, não tem grande autonomia se lido sozinho – o que é sempre uma pista de como uma narrativa longa se desenhará quando pronta: um fluxo do qual é difícil destacar um fragmento ou uma sucessão de episódios que mantêm relativa autonomia. Mesmo com tal caráter, o fragmento é interessante e consegue despertar a curiosidade pelo que deve vir depois mesmo sem o apelo a um “gancho” no final, como o conto de Antônio Xerxenesky. Uma jovem embarca em uma viagem de carro pela BR-116 com uma amiga, outrora inseparável, mas com quem a relação anda meio estremecida devido a uma não muito explicitada briga “que continua pairando sobre nós”, nas palavras da protagonista – o conto é narrado em primeira pessoa. Ambas se reencontram após terem passado temporadas nos Exterior – a protagonista, em Paris; a amiga, Júlia, em Montreal – e se lançam ao que há anos imaginam como uma “viagem sem planejamento”: um rodar errático pelo interior do Rio Grande do Sul até cidades escolhidas a esmo desdobrando-se o mapa.
É uma viagem fruto de um momento claramente posterior ao impulso beatnik e seus ecos brazucas: o de “lançar-se na descoberta da real identidade de seu chão natal“. Para ambas, ao menos até este ponto, o que parece valer é a noção de movimento e o ineditismo do destino, mais do que qualquer contato humano. Um sinal disso é que, embora engajadas no que chamam de jornada sem planos, portanto supostamente aberta ao acaso, ambas se sentem agredidas e incomodadas quando, ainda no início da viagem, são abordadas por um homem que vê a protagonista apanhar Júlia em frente a seu hotel. Trajando bombachas (o traje típico do gaúcho no imaginário cristalizado pelo tradicionalismo), o sujeito bate no vidro pelo lado do motorista e aponta, em tom acusatório: “Essas tuas botas são de homem”. As “botas” são coturnos Doc Martens, signo de “atitude” cosmopolita na atual sociedade de consumo, o que se choca com a visão de mundo daquele homem que ainda mantém no corpo, em Porto Alegre, calças para o trabalho rural. Um encontro nada sutil entre o moderno e o tradicional que marca o tom do romance, ou melhor, do fragmento: duas garotas de mentalidade urbana e contemporânea se lançam a uma viagem pelo “interior profundo”, onde provavelmente serão, na maior parte do tempo, criaturas deslocadas emitindo códigos que serão lidos pelo avesso. Torço para que o que vem depois aborde isso em algum momento.
Na questão formal, embora dona de uma prosa que avança elegante, Carol às vezes se excede nas imagens. O uso de metáforas é sempre uma arte complexa, porque se busca a tradução de uma situação ou imagem em termos de outra, supostamente mais familiar ao leitor, ou completamente oposta, para fins de comédia ou ironia. O problema que vejo é quando tais imagens vêm aos pares, às vezes cumprindo, cada uma, uma dessas funções. Em um contexto realista (é o registro de Carol no texto, e por “realista” me refiro a um texto que ambienta sua história no mundo concreto sem se valer de elementos suprarreais ou sobrenaturais), isso alonga a frase desnecessariamente e, ao contrário de somar, potencializando os efeitos, ameniza-os, por divisão, por passar a impressão de que o narrador, que em tese deveria saber ao menos de suas próprias impressões, é um indeciso – falo do narrador, não da autora. Como no fim do parágrafo abaixo:
“Não era mais a mesma rua, quer dizer, era a mesma rua, mas no lugar das casas de meus amigos de infância – onde eles estavam agora? – tinham erguido um prédio. Assustava-me pensar que as preferências estéticas de alguém podiam estar resumidas naquele mastodonte branco de dezessete andares, que se destacava na quadra como uma mulher nua em uma congregação de freiras ou como uma freira no I Encontro Brasileiro dos Praticantes do Poliamor”
.
Ou na flagrante indecisão também deste trecho, que claramente se expande em um detalhe colateral como forma de ralentar a ação mas parece se alastrar demais em sua indeterminação que se esforça para ser específica:
“Ele era a única pessoa que havia sobrado de todo aquele burburinho do início, além de dois funcionários usando quepes típicos de quem manobra carros, mas que sem dúvida pareciam remeter a outra coisa, talvez a dois garotos fantasiados para um baile de carnaval da Sociedade Amigos de Tramandaí”

Teresa, de Christiano Aguiar
Um conto breve e fragmentado no qual Christiano Aguiar ganha alguns pontos já de saída por ser um dos poucos textos cujos personagens e trama se afastam do “protagonista burguês” (ou seja: classe média, com boa formação intelectual ou emprego bem-remunerado, muitas vezes ligado ao ofício da escrita) que povoa toda esta antologia, como vocês mesmo puderam ler. A Teresa do título é uma nordestina pobre que casa-se com um homem que depois vai tentar a vida em São Paulo enquanto ela espera. Teresa é desdobrada, em uma narrativa algo cubista, em quatro planos: o casamento na juventude, a velhice em companhia do filho, uma tragédia que vai sendo gradativamente revelada à medida que se sucedem parágrafos repetitivos nos quais a cada vez um novo elemento de uma cena vai sendo descortinado. O quarto plano é a narrativa bíblica de Elias, contada pela própria Teresa.
Cada fragmento se vale de uma técnica: a vida de Teresa e de seu marido Petrúcio em algum ponto não determinado no Nordeste descrita com sobriedade lírica; a vida de Teresa mais velha na casa do filho narrada em tons de realismo mágico; a cena trágica repleta de redundâncias que se somam como refrões e a narrativa de Elias em tom solene e hierático, como compete aos textos sagrados. A história de Elias, embora aparentemente deslocada e gratuita no início, se encerra em tom de parábola que ecoa a situação de Teresa na velhice – ainda que bem bolado, esse recurso não é indispensável para a arquitetura do conto, o que me parece perigosamente com excesso.
Curiosamente, a forma como Teresa é mostrada em sua vida com o filho me lembrou três outros textos mais antigos que talvez seu autor sequer tenha lido: Uma História de Borboletas, de Caio Fernando Abreu, Os Tambores Silenciosos, de Josué Guimarães, e Carta a Senhora em Paris, de Cortázar. Não na prosa, especificamente, mas na forma como um elemento sobrenatural ordena e dá sentido à narrativa, em tons diversos para cada autor.
É uma peça ousada – e por isso mesmo elogiável. Ainda que o resultado final na montagem de tantos fragmentos diferentes seja algo desconjuntado, vale a ambição que moveu o autor ao mesclar registros e facetas.

Você Tem Dado Notícias?, de Leandro Sarmatz
Philip Roth é uma influência, até mesmo uma sombra para Leandro Sarmatz, como já ficou claro na primeira parte de seu livro de estreia, a coletânea de contos Uma Fome. Esta peça em primeira pessoa não é diferente, tanto no olhar que lança para a vida como um processo que chega ao fim quanto na raiva que transborda dessa constatação, como no primeiro parágrafo, em que é impossível não ouvir ao fundo ressonâncias de Homem Comum, Animal Agonizante ou Fantasma Sai de Cena:
“Não interprete uma vírgula do que estou dizendo. Não é o caso de bancar o talmudista. Só tenho a dizer que estou morrendo, tenho câncer, briguei com todo mundo lá fora. Estou cansado. O tique-taque do relógio indica: é o fim.”

Estabelecido já desde o início que Roth é uma presença neste texto, nosso próximo movimento, naturalmente, não é ficar apontando minuciosamente suas aparições, e sim buscar os pontos de seus exorcismos. Em palavras mais simples: ver que uso Sarmatz faz desse modelo e até que ponto ele é uma armadura engessante ou um trampolim.
Você Tem Dado Notícias? é narrado por um pai irresponsável em um duro acerto de contas com um filho, um interlocutor silencioso percebido apenas pelas furiosas invectivas do narrador. Na situação de “fim de vida” narrada no primeiro parágrafo, o pai egoísta não tem mais freios morais ou sociais para levar em consideração e consegue ser abertamente brutal em sua exposição de motivos para os caminhos que tomou na vida. Em conflito permanente com a família da mulher com quem se casara ainda muito jovem, o narrador abandona a família, parte em uma jornada que considera de libertação mas que a narrativa claramente identifica como de isolamento. Em suas memórias de raivoso delírio, também revisita sua infância, a tumultuada relação com a cultura e a religião judaica, com o sogro, um empresário judeu, com a mulher com quem casou, aparentemente plena de ideia libertários mas que se acomoda fácil em um casamento tradicional, e o tardio “desbunde” regado e sexo e drogas depois do fim de seu casamento.
Como eu disse, Roth está presente desde o começo, embora esta narrativa em particular pegue bem mais leve no sexo e em suas decrições do que seu modelo. O mergulho aprofundado na consciência do personagem também deve muito ao seu mestre de Newark. Mas a narrativa não deixa de, a seu modo, seguir o progresso do protagonista. Assim como ele pula fora da cultura institucional judaica para se lançar em uma viagem tardia de imersão no “espírito do tempo”, o conto vai se decalcando de Roth à medida que história segue o personagem para fora do ambiente judaico que o formou e se lança sobre a realidade brasileira algo tumultuada dos anos 1970, acrescentando algo pessoal e até certo ponto original na mistura. O ápice dessa evolução se dá em um melancólico episódio no qual o protagonista, entusiasmado pela descrição que uma de suas namoradas faz de um refúgio comunal no interior, viaja até o lugar para encontrar um sítio decadente, mal cuidado e repleto de drogados caídos pelos cantos. Esta cena em particular ecoou em mim como um pastiche à brasileira da viagem a um kibutz empreendida pelo protagonista de Caixa Preta, de Amoz Oz, outro texto repleto de matrimônios infelizes, paternidade ausente e identidade judaica.

Leia também:

>>> Encarando a Granta – parte 1

>>> Encarando a Granta – parte 2

>>> Encarando a Granta – parte 3

Encarando a Granta - parte 3

30 de julho de 2012 2

Até o momento o que me deixou mais desconcertado com a edição número 9 da Granta não foi a lista de seus participantes, e sim a ordem em que foram dispostos no decorrer do livro. Já elaborei várias teorias e, quando acho que consegui decifrar a intenção dos editores, quebro a cara. Em determinado momento pensei que talvez a ordem fosse menino-menina, como já observei, mas estava errado – o segundo bloco de resenhas foi majoritariamente masculino.

Entre o último post e este, pensei ter chegado ao fim do mistério: os autores estariam dispostos em ordem cronológica, com Laub, o mais velho, no início, mas depois me lembrei que Luísa Geisler, a mais nova dos selecionados, estava lá no primeiro bloco de quatro textos que resenhei, então não, também não foi assim que os autores foram dispostos. Por temas é que não foi, também, senão Laub, Galera e Leandro Sarmatz, por exemplo, deveriam ter sido agrupados mais próximos uns dos outros. Continua o mistério. Vamos então a mais um bloco de quatro contos da coletânea:

Noites de Alface, de Vanessa Bárbara
Vanessa Bárbara apresenta um fragmento de romance – e portanto, a análise dos propósitos do texto, como já comentamos, fica comprometida. A não ser em casos flagrantes como o trecho do Cuenca, sob o qual já escrevemos aqui na primeira resenha, não há como imaginar o que pode ser aquele fragmento no conjunto geral. Mas há textos nesta coletânea que encerram episódios íntegros, muitas vezes com um gancho de suspense para o próximo capítulo que desperta a curiosidade pelo restante ou que possibilitam o entendimento autônomo da narrativa (o conto de Galera é um deles). O de Vanessa não é assim. Ela narra o cotidiano incolor e algo melancólico de Otto, homem que, ao ficar viúvo, perde com a morte da companheira também a âncora social com o mundo (“Otto não havia convivido com os vizinhos senão por intermédio de Ada e agora estava ilhado naquele mar de insânia coletiva.”). A grande força deste conto está na maneira delicada como faz dos ambientes e cenários elementos importantes na própria condução da narrativa, mas como esse procedimento é conseguido por acumulação – no caso, de descrições e flashes de detalhes – às veze fica-se com a impressão de que um “drible a menos” teria beneficiado o conjunto. É exemplar disso o parágrafo de abertura:
“Quando Ada morreu, as roupas ainda não tinham secado. O elástico das calças continuava úmido, as meias grossas, as camisetas e as toalhas de rosto penduradas do avesso, nada estava pronto. Havia um lenço de molho dentro do balde. Os potes de recicláveis lavados na pia, a cama desfeita, os pacotes de biscoitos abertos em cima do sofá – Ada tinha ido embora sem regar as plantas. As coisas da casa prendiam a respiração e esperavam. Desde então, a casa sem Ada é de gavetas vazias.” (p.127)
Depois de uma competente descrição do ambiente, Vanessa parece achar que precisa de uma última frase para deixar claro ao leitor – caso ele não tenha entendido, é a impressão que me passa – quanta solidão aquelas paredes encerram. E, talvez apegada aos próprios achados, ela se vale não de uma, mas de duas frases: /”As coisas da casa prendiam a respiração e esperavam./ /”Desde então, a casa sem Ada é de gavetas vazias.”/ São ambas frases bonitas e bem sacadas, mas juntas, na sequência da descrição que Vanessa havia apresentado, têm seu efeito potencializado até derramar no fosso do piegas. Ao mesmo tempo, a narrativa vai e vem, conta como Otto era, como Ada era, como se conheceram, e essas idas e vindas parecem não ir a lugar algum – justamente por estarmos falando de um fragmento, e provavelmente um fragmento inicial. É um texto bem escrito, mas que teima em fugir da memória depois que se termina – aguardemos pelo romance completo.

A Mãe, de Chico Mattoso
Em Nunca Vai Embora, seu romance ambientado em Havana e publicado como parte da Coleção Amores Expressos, Chico Mattoso já havia provado que tinha a pegada ágil do bom narrador – aqui confesso meu juízo incompleto, eu não li Longe de Ramiro, seu livro de estreia. Mas, ao menos para mim, faltava ao autor a carpintaria do que narrar, de como fazer os episódios se conectarem de modo orgânico – o que é necessário mesmo para finais abertos como o que ele escolheu para o romance. A impressão se repete na leitura deste conto estruturado em três camadas, cada uma correspondente a uma seção numerada do texto. Na primeira, um narrador em terceira pessoa apresenta a história de um rapaz, Rodrigo, que vive imaginando a morte da mãe, o momento em que acontecerá, o modo, etc. Na segunda parte da narrativa, Rodrigo é mostrado em seu apartamento, em um momento de intimidade com a namorada – empolgado, ele mostra a ela um texto que escreveu (a primeira parte do conto, que recém havíamos lido) e ambos discutem a verossimilhança e a propriedade daquela ficção, entre goles de cerveja e vinho. Rodrigo sente o conflito de muitos autores, o de não conseguir transmitir para ela, sua leitora, o motivo para as escolhas que fez na construção daquele texto. Insinua-se também pela cabeça de Rodrigo a mesma dúvida que assombrava o personagem do texto: a antecipação da morte da mãe, posta desta vez em ficção e apresentada a outrem:
As coisas não funcionavam assim. Havia milhões de alternativas à sua disposição. guardar o texto, por exemplo. Esquecê-lo. Voltar a ele muito tempo depois, quem sabe quando a mãe tivesse efetivamente deixado este mundo. Mas não havia algo de cruel nesse cálculo? No fundo, qualquer tentativa de antecipação do evento lhe parecia ofensiva, e agora a própria ideia de ter escrito algo a respeito – e, pior, mostrado a outra pessoa – o enojava. ” (p. 138)
Na terceira seção do conto, encontramos Rodrigo no há muito antecipado funeral da mãe, anos mais tarde, onde ele vem a reencontrar Marina, a namorada da cena anterior – separados, cada um foi para um lado.  Ao se ver na situação antes imensamente antecipada, Rodrigo aparentemente não reage como achou que reagiria – ele reage pouco, na verdade, ainda amortecido pelo choque. É o que dá a entender o final.
Recontando-se a história, percebe-se a intenção do autor, mas a estruturação dos blocos não é eficiente em transmitir essa dissociação entre o real e o imaginado que está no centro da peça. Talvez a questão aqui seja de linguagem. Este já é o décimo texto da coletânea, metade do conjunto, e tirando até aqui três exemplos bem demarcados de autores com uma prosa que se distancia do meramente “bem escrito” - Laub, Galera e Cuenca – , todos são elegantes e de certo modo corretos, mas de tal modo semelhantes no modo como tratam seu objeto que começam a se confundir. Mattoso escava a psique de seu personagem com afinco, como Fúks já fizera, mas ambos mantém o registro da linguagem em uma neutralidade quase transparente – no que deveria sobressair a história, mas ambas as histórias apelam para a indefinição – que pode se tornar uma fórmula como qualquer outra se usada em demasia.

Temporada, de Emílio Fraia
Cheguei ao fim de Temporada, de Emílio Fraia, e voltei à página de apresentação para verificar se havia ali alguma informação que estabelecesse o texto como um fragmento de uma narrativa maior. Numa narrativa estruturada em  quatro partes numeradas, o mesmo personagem é mostrado em dois momentos cruciais: como jovem e promissor tenista amador, residindo em Londres, e mais tarde, como uma sombra lesionada, proprietário de uma espécie de pousada de segunda linha que recebe a improvável e mesmo inconveniente visita de um desembargador em férias. É um texto disperso, que desperdiça no vazio bons momentos de tensão sem chegar a resolução alguma. Mesmo para um conto que trabalhe com o subentendido, há diferenças entre o escritor que não amarra tudo de modo preciso, deixando frinchas e espaços a serem preenchidos pelo leitor, e o escritor que parece não ter amarrado nada, só deixado tudo espalhado pela garagem. Fraia escreve bem, e o leitor é levado pela narrativa sem protestar – a não ser no ocasional e reiterado uso de dois pontos, não apenas antes de longas enumerações (um dos artifícios bem sacados de estilo do conto) mas de adjetivos banais como em “A Goldsmiths fica em New Cross e ir a Hampstead todos os dias não é o que se pode chamar de: empolgante.” Entretanto, é sincera e tocante a cena em que o personagem, em um apartamento vazio, desaba diante da vida aparentemente estruturada que leva, mas isso não parece coordenado com o resto, e assim é com todos os microfragmentos desse conto já fragmentado: o desembargador hóspede quer comer no jantar um porco que viu na estrada, e os empregados saem a procurá-lo. A caçada ao porco lembra o protagonista de sua temporada em Londres, quando ele e um colega planejavam capturar uma raposa que rondava o alojamento. Depois, ele é mostrado procurando um novo lugar para morar, já que a noiva está de passagem marcada para vir encontrá-lo. Depois ainda, ele trava conversa, em um pub, com uma jovem que vira jogando numa quadra adjacente à que treinava, e segue-se uma clara aproximação. Nenhum desses plots se resolve, e o texto é curto demais para que tal forma se justifique. Se for um fragmento de uma narrativa maior, conseguir me deixar curioso pelo resto, mas acho que tal menção deveria estar expressa no livro, como aliás está em todos os demais casos. Como não está, tratei o texto como um conto – e como conto ele é desconexo e desperdiça bons momentos em uma narrativa frouxa.

F para Welles, de Antônio Xerxenesky
Em 1985, uma assassina profissional recebe uma incumbência que a leva a adquirir familiaridade com a obra cinematográfica de Orson Welles para poder cumprí-la. Já no título, percebe-se a volta de Xerxenesky à narrativa pós-moderna a que vem se dedicando desde Areia nos Dentes. F para Welles é uma referência ao título original do filme de Welles Verdades e Mentiras, de 1973 (F for Fake, ou “F de Falso”, em tradução livre). No filme, Welles discute a natureza das mentiras na arte ao abordar a história de um falsificador de quadros húngaro. No conto, Xerxenesky também se vale de um personagem à margem da lei, embora, como este é um fragmento de romance, eu não tenha tido uma noção muito cristalina do que ele está discutindo, mas me parece a natureza redutora, arbitrária e inevitavelmente mentirosa das narrativas. Como diz a personagem Ana X., uma assassina brasileira e com um sobrenome “esquisito e incomum” começado com X (a letra da indeterminação, e também a inicial do sobrenome “esquisito e incomum” do próprio escritor):
Reluto a falar de meu pai, pois tenho medo de que isso seja visto como o meu Rosebud: a chave de entendimento para a história de minha vida.
O registro da prosa é paródico: Ana X. fala de modo tão douto e professoral, discorrendo sobre a filmografia de Welles, as sensações provocadas pelo LP Rio, do Duran Duran, A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, que não parece um personagem de verdade – e como personagem de caricatura exacerbada, não parece uma mulher, o que pode ser intencional, uma vez que o retrato farsesco pode se tornar legítimo quando dissociado do clichê mais associado à farsa. A dissociação entre discurso e intenção também é bem tramada: embora se justifique o tempo todo (talvez um tantinho mais do que devia) tentando não apresentar uma imagem demasiado simples de si mesma, a personagem não interrompe em momento algum sua narrativa – a não ser quando precisa dar conta de um episódio definidor de sua relação com o pai. Nesse momento, a personagem altamente articulada e direta em suas colocações prefere rodear certos atos inomináveis por meio de elipses – uma delas, em tom e intenção, é bastante similar, curiosamente, ao episódio fundamental da narrativa de Michel Laub nesta mesma Granta. Essas fissuras no tom caricato do discurso não deixam de ser interessantes: pelo que a própria pr0tagonista conta, ela é uma profissional da morte, e no entanto a morte é apresentada como além do discurso, que por sua vez se espraia sem fronteiras sobre temas amplos.  Isso se o próximo capítulo não revelar que este trecho em particular é uma história escrita por alguém, como em Areia nos Dentes. O que vale é que o final, suspendendo a narrativa em um gancho com ares de thriller – outro gênero presente na colagem paródica que forma a narrativa –me deixou curioso pelo resto.

Leia também:

>>> Encarando a Granta – parte 1

>>> Encarando a Granta – parte 2

Encarando a Granta - parte 2

25 de julho de 2012 2

Ao digitar o post anterior destas críticas da Granta, cheguei a pensar que havia uma ordem na maneira como os editores resolveram distribuir os autores e que era óbvia o tempo todo: alternância entre homens e mulheres. Bom, também não é essa a intenção, como os quatro contos analisados neste bloco deixam claro – continuamos a apresentar as resenhas na ordem em que os contos aparecem no livro. Continua, ao menos para mim, o mistério da ordem dos autores: foi no sorteio, foi pela ordem da terceira vogal de cada nome, foi por cor clubística? Cartas para a redação. Vamos a mais quatro contos da Granta:

Tólia, de Ricardo Lísias
Em mais um texto da coletânea com um pé na metaficção, Lísias narra a história de um homem que, após uma década dedicado à literatura como profissão, desiste da escrita (mais uma forma de autoanálise do que vocação, ele reitera) e volta ao xadrez profissional, que praticou na adolescência, como uma tentativa de entender a si mesmo e diminuir a inadequação de seu ser ao mundo (ele não dorme direito e se irrita com qualquer barulho, até mesmo os produzidos pelo próprio corpo).  Numa viagem à Rússia para estudar xadrez diretamente na pátria oficial do jogo, o personagem se mete em uma confusão e termina fazendo contato com uma seita mística que postula o silêncio e a comunhão espiritual para a comunicação entre si e entre a própria natureza.  A metaficção, aí, não reside só no fato de o personagem ser um escritor, e sim de o personagem – que não tem nome – ter parte de sua biografia decalcada da vida do autor. Dois títulos de livros escritos pelo personagem citados na história, Cobertor de Estrelas e O Livro dos Mandarins, são os de livros do próprio Lísias.
Há um humor tortuoso na narrativa que por vezes se aproxima da gurizice, como se diz na minha terra: os integrantes da seita só comunicam entrando em transe meditativo para despertar o “olho interno” – vai ser o maldoso sou eu, também. Assim como em O Livro dos Mandarins e O Céu dos Suicidas, Lísias faz de uma viagem (ou de seu anseio) um pretexto para uma sátira: a obsessão do personagem e da seita por conseguir uma forma de comunicação que prescinda da palavra, se lida a sério, soa com a afetação que já apontei na primeira resenha: a de reclamar da inutilidade da literatura escrevendo literatura – literatura é a técnica a serviço de uma visão de mundo, e se a sua visão de mundo desdenha a técnica e a expressão, o mais honesto seria abolir completamente a expressão. Mas Lísias é um escritor que já antes se valeu da ironia como elemento de humor, e por isso prefiro ler o conto como uma bem urdida sátira justamente a essa visão. Em termos formais, não há tanta ousadia como nos fragmentários ou reiterativos romances anteriores, mas isso pode ser tributado à brevidade exigida do conto. Como uma obra extremamente cerebral, contudo, ela se não tenta seduzir leitor algum.

Apneia, de Daniel Galera
O texto de Galera na Granta é um trecho de seu romance a ser lançado em breve, Barba Ensopada de Sangue, mas mantém unidade quando lido sozinho – se fosse um conto resumido apenas naquilo que está no livro, não seria mal compreendido. É também um dos textos mais longos da coletânea. São vinte páginas, estruturadas durante a maior parte de sua extensão em diálogo e na narração de um personagem diretamente para o outro – há intervenções apenas pontuais de um narrador em terceira pessoa. Um pai e um filho, durante um dia escaldante em Porto Alegre, conversam longamente, todo o diálogo circundando a pergunta fundamental feita pelo filho ao chegar para visitar o pai: por que ele está com um revólver na mesinha que tem ao seu lado. Antes de finalmente responder essa pergunta, o pai desvia o assunto para a vida de outra pessoa, seu próprio pai, avô do outro personagem, assassinado em circunstâncias não bem explicadas em uma vila de pescadores em Garopaba. A relação do homem do revólver com seu pai e com seu filho é o eixo que estrutura o conto (outro olhar nesta coletânea sobre as relações familiares diretas).
Construir um texto composto em sua maior parte por diálogos é um desafio por mais de um motivo. Se um diálogo se estende além da conta, o leitor pode perder o fio da meada de quem está falando o quê, com prejuízos do entendimento ao final. Se o conto é um longo diálogo com poucas intervenções, pode dar a impressão de ser um roteiro audiovisual, não prosa. Escrever um longo diálogo significa que o escritor terá que dotar os dois personagens que estão falando de vozes autônomas, sob pena de a linguagem pasteurizar a única forma que um texto dialógico tem para dar individualidade aos falantes sem recorrer à narração em terceira pessoa: síntaxe e vocabulário. Galera se esmera mais no segundo: o vocabulário do homem do revólver é idiossincrático, coloquial mas não caricato, usa a conjugação do pronome na segunda pessoa com verbo na terceira (“Tu vai fazer”) sem que isso soe nem artificial nem afetado (ao menos para mim – quem não é do Rio Grande do Sul talvez ache esquisito. Aceito comentários). E o pai enrolador é também um grande contador de histórias, razão pela qual, mesmo quando a prosa desvia para longe do que parecia ser o assunto principal acompanhamos a narrativa voando, quase sem tropeços ou tédio (esse é outro problema de contos com diálogos: se o personagem for chato, tem-se a mesma dificuldade de prestar atenção no que ele está falando que se teria numa conversa real). Não é um texto irretocável, contudo. Depois de tanto falar sobre os perigos do diálogo na construção de uma história, constato surpreso que alguns tropeços de linguagem cometidos por Galera não estão na voz dos protagonistas, mas sim na parte em que o narrador em terceira pessoa assume o comando e dispara lugares-comuns e frases feitas como “tornou-se um sedentário convicto (p. 82) ou “Um cansaço imenso cai sobre seus ombros de repente” (p. 94).
Para além de qualquer questão formal, contudo, está-se diante de um texto comovente – o final, que atinge o leitor com emoção mas sem sentimentalismo, não deixa de reiterar aquele que vem sendo o “grande tema” da literatura de Galera: a vida e a identidade como uma construção do ser humano, resultado de escolhas cujas responsabilidades devem ser assumidas com estoicismo.

Valdir Peres, Juanito e Poloskei, de Antonio Prata
À semelhança de Lísias, Prata é conhecido por textos de humor – embora o tipo de humor praticado por ambos não possa ser mais diverso. Lísias é um satirista sarcástico, enquanto Prata opera no humor mais “convencional” de costumes e imprensa. Neste conto, entretanto, Prata não é o humorista de suas crônicas de jornal, e sim um contista no qual o humor ainda está presente, mas mesclado a uma certa melancolia que subjaz a uma peculiar história de amadurecimento. Em uma vizinhança suburbana no início dos anos 1980, um grupo de garotos da vizinhança testemunha a escalada de uma “disputa por status” entre dois garotos, Henrique e Rodrigo. Em uma comunidade na qual, como narra o autor no início do conto, “de início, todos na rua tinham o mesmo poder aquisitivo e os bens per capita resumiam-se a uma bicicleta, uma bola de futebol, uma caixa de Playmobils, peças para montar e outras quinquilharias”, o fato de  Rodrigo ganhar um carrinho de controle remoto perturba o equilíbrio. A cada presente de Rodrigo, Henrique ganha outro, algo melhor, até um deles enfrentar a inapelável derrota.
A prosa é segura, seu tom, se não se eleva, também não se compromete. Para além de qualquer ímpeto de saudosismo (o título faz referência a figurinhas fáceis do álbum da Copa de 1982, que em São Gabriel chamávamos de “buchas”, mas não sei se essa gíria é compreendida por todo mundo), um dos grandes destaques do texto é sua bem sacada relação entre o amadurecimento contemporâneo e a sociedade de consumo: nesta crônica de fim da infância suburbana, o que marca o ingresso no mundo adulto não é a construção de uma identidade primária, mas a descoberta, bem menos inocente, das diferenças de poder aquisitivo dos pais de cada um. E poderia ser diferente numa infância imersa na sociedade de consumo? Talvez fosse necessário apenas um olhar mais crítico a esse fenômeno, dado que o tom é memorialístico, e o narrador hoje teria condições de elaborar melhor questões que seu “eu” infantil não teria percebido, mas talvez aí o conto fosse outro, sem garantia de ser melhor do que já está.

O Jantar, de Julián Fuks
Mais uma história na qual o autor deliberadamente acena ao leitor com pontos de contato metaficcionais entre sua própria trajetória e o que está contando. Um brasileiro de nome Sebastián, filho de argentinos exilados (até aqui um personagem semelhante ao autor, até na rima na última sílaba do nome) visita em Buenos Aires uma tia de fumos aristocráticos e opiniões reacionárias, para o “jantar” que dá título ao livro. Terá que decidir se cede aos ditames da boa educação ou a suas convicções ideológicas no decorrer do diálogo com a tia, numa atmosfera de perigo incerto. É um mote interessante de condução irregular. Os primeiros parágrafos, que dão o tom do livro, são particularmente trucados por torções exóticas de sintaxe e lugares-comuns, como nos trechos abaixo:
Que aquilo a que chamamos terror também se irradia em tantas formas menores, pensa, tantos atos indistintos de aparência inócua, tantas circunstâncias sutis provocando discretos pavores
As pernas não fraquejam, ele tem os pés sólidos, as roupas sóbrias, apenas ressaltam sua corpulência, seu porte avantajado”. (p. 113 ambos os trechos).
A primeira frase já deixa claro que, no meio de uma cena de tensa domesticidade, Fuks pretende criar uma narrativa de horror – e em certas passagens, vencidas as dificuldades dos parágrafos iniciais, ele tem pleno sucesso. É crescente a tensão provocada pelo desconforto de Sebastián na imensa e antiquada casa da tia, durante o frugal ainda que requintado jantar. Uma atmosfera primeiro de incerteza e depois de pesadelo vai se alastrando paulatinamente, mas sua extensão talvez demasiada enfraquece o conjunto, que resulta muitas vezes disperso e truncado. Um detalhe final, contudo, escolhido para amplificar o horror, soa gratuito e  artificial, mais efeito do que resultado, porque não destoa da atmosfera construída para a narrativa – não há indícios pregressos que justifiquem o que ocorre, apenas a transferência, talvez, do pesadelo metafórico para o plano da realidade ficcional.

Leia também:

>>> Encarando a Granta, primeira parte


Enfim, encarando a Granta - parte 1

23 de julho de 2012 1

Pois bem, a maioria dos votos computados nos dois dias de nossa enquete informal defendeu a fragmentação do texto crítico sobre a Granta em mais de um post – alguns foram bastante específicos, como o Samir Machado de Machado, que sugeriu um conto por post. Mas acho que aí seriam 20 textos que, com minha facilidade de ser prolixo, encheriam o saco de todo mundo, até o meu. O único voto em favor de um texto único foi de peso, o da tradutora Denise Bottmann, mas vamos seguir os ditames democráticos e dividir nossa resenha da Granta em cinco textos abordando cada qual um bloco de quatro contos. No final, considerações sobre o conjunto.

Antes de prosseguirmos, um punhado de esclarecimentos que são redundantes mas, como eu conheço a internet bem o bastante, necessários:

1) Muito se tem falado, com a Granta como pretexto, na questão da legitimidade e na autoridade de quem escolhe e seleciona. Para estes textos, que fique bastante claro: as opiniões expressas na resenha são minhas (de quem seriam?), e a legitimidade que eu tenho para emití-las é a de alguém que efetivamente leu os textos (e que vem trabalhando com o texto literário como matéria-prima há um bom tempo). Não gostou? É seu direito. Não concorda? Mais direito ainda. Mas qualquer pergunta sobre “quem é você para falar tal coisa” será respondida ao estilo Mario Quintana: Sou eu, ué. Vale até para eventuais autores da lista.

2) Considerações extraliterárias sobre a relevância dos autores ou não só aparecerão, se aparecerão, no último texto. Estou lendo o livro como ele chegou até mim, com esses autores que estão ali. Vou ler o livro que tenho em mãos em vez de o livro que eu supostamente acho que deveria ter sido feito.

3) Full disclosure, dado que a Granta despertou uma certa “paranoia do compadrio”: embora mantenha, até como parte de meu ofício de jornalista, relações e diálogos cordiais eventualmente com mais de um autor incluso na coletânea (Daniel Galera, Michel Laub, Carol Bensimon e Antonio Xerxenesky, por exemplo), não sou, felizmente neste caso, o que se possa chamar de “amigo” de nenhum deles – a não ser na acepção que o facebook dá para a palavra. Os demais, conheço por texto, falei uma ou duas vezes na vida ou sequer sabia que existiam antes dos livros. Em determinada época, Leandro Sarmatz e eu trabalhamos na redação de Zero Hora no mesmo período, mas não tivemos o menor contato naquele tempo. Chegamos a conversar posteriormente, por questão profissional, mas só depois que ele deixou o jornal. Logo, não me sinto impedido ou desconfortável para analisar honestamente a obra de nenhum deles.

Vamos aos primeiros textos da coletânea, que, já na ordem, oferece um enigma ao leitor. Havia começado a ler o livro aleatoriamente, mas uma pessoa com quem conversei me alertou para algo que no princípio não me chamara particularmente a atenção: a própria ordem da coletãnea é uma idiossincrasia dos organizadores, uma vez que os autores não estão dispostos em sequência alfabética de nome, de sobrenome ou mesmo de título do conto. Resolvi ir então para o início do livro e percorrê-lo do início ao fim para ver se essa ordem descortina algo para mim.

Animais, de Michel Laub
A antologia abre com um texto que comprova que Laub, um dos autores mais experientes do grupo, encontrou não apenas uma voz literária, mas quem sabe uma forma para expressá-la. Nesta história, os animais de estimação que o narrador em primeira pessoa teve na infância servem de pretexto para o desdobramento de uma série de relações familiares e de convívio que expõem uma natureza perturbadora sob uma superfície aparentemente pacata. Essa tensão de uma brutalidade que irrompe em um cenário de domesticidade banal está expresso já na primeira frase: “Quando eu tinha onze anos, em Porto Alegre, meu cachorro Champion foi morto pelo dobermann do vizinho”.
A estrutura parece decalcada diretamente do romance anterior de Laub, Diário da Queda: capítulos breves e numerados que percorrem em espiral o eixo do episódio central narrado na primeira frase, ora acrescentando um detalhe a mais nos antecedentes e nas consequências da morte do cão, ora espraiando-se em digressões que revelam uma relação complexa mas afetuosa entre pai e filho (e relações entre país e filhos vem sendo um mote recorrente na ficção do autor). A presença de um segredo ligado aos elementos mais sombrios da psique do narrador, que era uma das pedras de toque de O Diário da Queda, está presente também neste texto, bem como o fato de a história se construir como uma recordação de um momento definidor no passado, o que o autor também fez em Longe da Água e O Segundo Tempo.
Estilisticamente, Laub vem se tornando, livro a livro, um craque na arte da negaça, o que parece atingir um “ponto ótimo” neste conto: suas frases longas vão se sucedendo como peças periféricas em um quebra-cabeça cuja imagem crucial (e desconcertante, ainda que sutil) só será expressa nos últimos segmentos. O autor domina a frase de modo elegante, alternando sentenças secas e sincopadas com orações que se encadeiam com habilidade e nas quais o leitor não se perde mesmo naquelas mais tortuosas que avançam por mais de um plano narrativo:
“O retrato no túmulo do meu pai é de quando ele tinha uns sessenta, e o sorriso é bastante típico dele, mas quando estou sozinho e tento lembrar não é uma pose específica que me vem à cabeça, nem a voz dele, porque as pessoas mudam de voz com a idade e nos últimos doze anos da vida dele tivemosmais conversas por telefone do que ao vivo.”
Por trabalhar na concisão do conto com a reiteração de temas e formas com que Laub já havia lidado em obras anteriores, Animais aparece como uma espécie de síntese do trabalho do escritor até aqui. E por ser o primeiro da coletânea, o uso que o autor faz da metaficção acaba se revelando um cartão de visitas para boa parte dos textos. O narrador é um escritor, e se refere a episódios e personagens de seus livros – e essas referências são retiradas diretamente de livros anteriores do próprio Laub, ajudando a borrar as fronteiras entre personagem e autor. Não é a primeira vez que Laub usa tal recurso, embora em outros livros ele não tenha sido tão explícito. É a primeira vez que esse recurso aparece em um conto da coletânea, mas acreditem em mim quando digo que não será a última.

Aquele Vento na Praça, de Laura Erber
Como eu havia comentado no post sobre os autores, eu já havia ouvido falar de Laura Erber de nome, mas não conhecia sua produção literária – até este momento dedicada à poesia. Sabia que era artista plástica, e essa origem fica clara neste conto, um relato no qual um artista plástico é contratado para visitar Bucareste, na Romênia, para recolher algumas obras não catalogadas de um artista anglo-romeno chamado Paul Neagu (que eu não sabia que existira de fato, confesso, fui ajudado nisso pelo Google) e lá encontra uma jovem pela qual se encanta – ela é filha do homem que ele foi encontrar, um antigo amigo de Neagu que mantém sob guarda trabalhos do artista censurados pelo regime de Ceausescu. A sinopse pode dar a entender uma história romântica banal, mas o conto não é isso, Laura constrói uma atmosfera elusiva e estranha por onde o artista se movimenta um tanto confuso e muitas vezes a contragosto.
Gosto de obras que dialogam com o universo das artes plásticas, coisas fantásticas já foram feitas com esse mote e esse contato. A epifania de Bergotte diante do detalhe de um muro amarelo em um quadro de Vermeer em A Prisioneira, de Marcel Proust; o pintor enlouquecido que expõe a própria mão amputada em uma passagem de 2066, de Roberto Bolaño; as plásticas descrições das obras fictícias de William Wechsler em O Que eu Amava, de Siri Hustvedt; a maneira como John Updike pula do romance à crítica de arte e de volta ao romance em Busca o Meu Rosto, etc, etc.
Talvez essa enumeração comparativa seja injusta com Laura Erber e seu texto de extensão bem mais curta, mas percebe-se na autora a motivação consciente de mergulhar o leitor no universo artístico, referência primordial da história, e em sua relação com a literatura usando metáforas e imagens que a todo momento remetem a outras formas de expressão artística. Incluem-se aí comparações visuais ou alusivas ao universo da pintura (“os cabelos mais perfumados do leste, os caravaggiescos cabelos de Martina Ptyx“), referências literárias (o velho Ptyx com quem o protagonista foi falar na Romênia dedica-se a copiar, à mão, palavra por palavra, à Pierre Menard, os romances de Balzac) e ao universo pop e à mídia (“A única coisa que eu sabia sobre o Cáucaso, além dos genocídios, vinha de uma canção de Loreena MacKennitt que falava de uma cavalgada noturna entre relâmpagos, árvores silenciosas e lua”). Claro que a fronteira entre esse tipo de construção imagética e o puro e simples namedropping que busca justificar-se com recorrências externas é tênue, e às vezes ela a ultrapassa com resultados desastrosos:
Havia um estranho magnetismo naquela moça, e não era a beleza, ou não era só a beleza, ela parecia ter saído diretamente de uma novela de Franz Hellens. Como se a qualquer momento fosse começar a dançar no meio das beterrabas, os agriultores formariam um coro em círculo e a realidade se converteria na realidade de um show de Diamanta Galás dirigido por Lars Von Trier.”
Esse registro da prosa, algo afetado, tende a cansar. Também acho estranho que um conto, logo um ordenamento literário de situações e efeitos, bata tanto, como este faz, na tecla da falta de significação – a inexistência a priori de uma “rede de significação” na realidade é um clichê contra o qual rebelar-se literariamente é difícil, pois como acusar a falta de uma rede de significação com uma peça artística, construção ela própria de uma rede de significados?

Antes da Queda, de J.P. Cuenca
O texto apresentado por Cuenca para a antologia é o fragmento de um romance (outros autores fizeram o mesmo), e portanto, embora aqui se apresente como uma peça a ser analisada por si só, provavelmente será alterada e, em muitos casos, terá até mesmo sua qualidade reavaliada quando fizer parte de um conjunto maior no romance. Não vou apontar, portanto, como um defeito que tais textos por vezes não pareçam íntegros, não tenham autonomia ou não ofereçam a vertigem ou a unidade de efeito de um conto. Isso já está claro desde o início. Mas neste fragmento em particular, terminei com a sensação amarga de ver uma ideia muito boa e original sucumbir à deficiência dos recursos em que é expressa. Cuenca narra, em uma terceira pessoa que se mistura epidermicamente com a psique e com as opiniões do personagem, a trajetória de um homem que decide deixar o Rio de Janeiro depois de tê-lo visto passar por um renascimento urbano que, como sempre ocorreu no Brasil, privilegia uma classe de favorecidos em detrimento de uma massa de desvalidos. Há um tom de ficção científica distópica: por meio desse personagem Cuenca leva às últimas e desastrosas consequências o surto de desenvolvimentismo que o Brasil vive hoje, imaginando como seria reavaliar no futuro o atual momento se tudo descer outra vez ralo abaixo. Para isso, parte de eventos reais recentes e reimagina suas consequências até um ponto não especificamente mapeado no futuro. Para dar só um exemplo: a pacificação das favelas com o exército torna os espaços nos morros ambientes atraentes para uma classe artística e boêmia que começa a ocupar a região, revitalizando-a. Isso, ao mesmo tempo, encarece os aluguéis obrigando os moradores originais a se mudarem para subúrbios distantes.
Uma ideia fantástica (em mais de um sentido) e pouco usual em nossa literatura voltada mais para o presente e para a subjetividade de protagonistas urbanos. Mas tem um problema aí: Cuenca estrutura o texto em frases imensamente longas que perdem ritmo ou recorrem a uma profusão de preposições, conjunções e pronomes, nem sempre apropriados, verdadeiras pedras jogadas no caminho do leitor. Contemos, por exemplo, o número de “quês” apenas no primeiro parágrafo do conto:
“Jamais cometeu a indiscrição de admitir, principalmente a si mesmo, o medo que seu desejo de abandonar a cidade fosse recíproco – que ela desejasse abandoná-lo também. Ir embora por vontade própria seria bastante diferente do que ser expulso, do que capitular cabisbaixo frente a um adversário medíocre, ou, pior, do que ser visto como alguém em fuga. Até que ponto renunciar à terra natal não seria fruto de uma rejeição dos seus? É possível fugir sem ser covarde? Quaisquer que fossem as respostas, as próprias interrogações eram derrotas que não estava pronto para assumir.
Na diagramação do livro, esse parágrafo tem nove linhas – e oito “quês”.
Esse é apenas um detalhe dentro do quadro maior, em que a linguagem utilizada pelo autor não difere muito do tom irado e por vezes caótico dos articulistas de opinião ou dos leitores que escrevem cartas para jornais. Talvez ao analisar-se o romance como um todo, quando ele aparecer, essa opção se torne defensável, mas aqui se mostra equivocada, uma vez que o narrador se lança em diatribes tão intensas de suposta crítica social que parece esquecer do que está contando. Parece um panfleto sindical – e sem o uso irônico que Ricardo Lísias, por exemplo, para usar outro autor do livro, faz da prosa de manuais de gerenciamento em O Livro dos Mandarins.

O Que Você Está Fazendo Aqui, de Luisa Geisler
Talvez a exigência da Granta de ineditismo nos textos enviados para seleção tenha vitimado Luisa Geisler, uma vez que esta história me soou exatamente como o reflexo distorcido (e bem menos interessante) de outra história já publicada pela autora: Apenas este Réquiem para Tantas Memórias, conto que abre seu livro de estreia, Contos de Mentira. Em ambos, personagens viajantes vão perdendo controle da própria vida e talvez de sua própria sanidade à medida que se sucedem vertiginosamente dois signos específicos do personagem em trânsito: salas de embarque de aeroportos e escadas rolantes. Especificamente no conto O Que Você Está Fazendo Aqui, Luisa cria um personagem que é executivo ou contato de uma agência que, por força de seu trabalho, precisa viajar constantemente, pulando de Hong Kong numa semana para Camberra na outra e Hamburgo na seguinte, e assim por diante. Não fica claro exatamente o que esse personagem faz ou de que é a agência em que trabalha (imagino que seja essa mesma a intenção da autora), apenas que ele está sempre viajando, e transformou o deslocamento constante em um meio de fuga (foge da casa da mãe, onde as coisas são difíceis, foge de relações amorosas, foge de seu chefe, usando as viagens como desculpa para não atender o telefone).
A história do personagem é contada aos saltos, intercalados por frases interrogativas como “O que você deveria fazer?” ou “Para onde você está indo?“. A transição entre essas perguntas e a história do homem em trânsito (o nome dele é Lucas, mas sua construção é tão incolor que eu tive de voltar ao livro para confirmar – e talvez isso estivesse dentro da proposta, também) é feita pela apresentação do conceito (em alemão mesmo) Weltanschauung. Há várias formas de explicar o que isso quer dizer, a maioria delas longuíssima, mas fiquemos com a mais canhestra e breve: Weltanschauung é “visão de mundo”, um conceito cunhado por Immanuel Kant (1724-1804) em Crítica do Juízo para a definir a forma como os sentidos sintetizam nossa percepção do mundo e da natureza. Foi reutilizado por uma ampla gama de pensadores, de Fichte a Sartre. E o que está fazendo aqui? Imagino que pontuando, como refrão, os blocos de texto nos quais Lucas é apresentado “correndo pelos corredores” ou subindo e descendo escadas rolantes até perder gradativamente contato com sua própria “visão de mundo”. Cada frase, portanto, é como uma vinheta para o episódio na vida de Lucas que vem a seguir, mas aqui Luísa não consegue passar o recado tão bem quanto no conto anteriormente citado, Apenas este Réquiem para Tantas Memórias, no qual a progressiva desagregação da psique do personagem, um fotógrafo, diante da sucessão de aeroportos nos quais espera aviões como se preso em um limbo, era expressa também na inadequação da linguagem: o sujeito trocava até de idioma por se ver perdido no vácuo gelatinoso desses espaços sem tempo que são as salas de espera. Já Lucas parece não evoluir ou se transformar ao longo de toda a narrativa. Em tempo: a certa altura do conto da Granta, em um diálogo ríspido entre o chefe e Lucas, o patrão cita os problemas que a demora do protagonista em realizar uma tarefa vai acarretar ao prazo de um terceiro envolvido, um fotógrafo – pode até ser o mesmo personagem do conto anterior.
Por incrível que pareça, este conto da Granta se vale bem menos da repetição de estruturas que o anterior da autora, mas ainda assim soa mais repetitivo.


O cerne e a superfície

19 de julho de 2012 0

Ou: como leremos a seleção da Granta

Embora jornalistas e escritores trabalhem com o texto e a maioria, em ambos os casos, diga que escreve para ser lido, há uma circunstância que os distingue acima de qualquer outra: o quanto a ideia de um leitor interfere na forma final do texto. O texto de jornal é eminentemente informativo, seu valor intrínseco está não no arranjo das palavras (embora essa devesse também ser uma preocupação mais frequente da maioria dos jornalistas) e sim no significado, no teor da mensagem. O autor de um texto literário pode imaginar um leitor ideal multifacetado a quem seus textos seriam endereçados, e esse autor no fim pode ser ele mesmo, ou uma confraria de amigos com valores estéticos e pessoais semelhantes, ou o que ele imagina serão os melhores leitores do futuro, ou os mais parecidos com ele próprio. A existência dessa ideia de leitor, contudo, não determina necessariamente o texto final a não ser no caso de escritores declaradamente comerciais.

Em um jornal, a norma prevê o texto como um signo o mais possível transparente – é o que se está contando que vale, e para dar forma ao que se quer escrever, toma-se como parâmetro um vocabulário comum a uma ideia preconcebida de leitor “médio”. Se a palavra ou o conceito parecer complexo demais para esse “leitor comum”, deve ser trocado por outro que seja tão preciso quanto possível mas ao alcance desse vocabulário médio. Torneios de sintaxe e quaisquer outros elementos que possam a vir prejudicar a clareza da mensagem também são evitados – enquanto o escritor pode, mesmo tendo em mente seu “leitor/interlocutor”, deixar isso de lado em nome do que considera a justa forma. Acho que uma das melhores representações ficcionais que já li dessa dicotomia é um conto engraçadíssimo escrito por Reginaldo Pujol Filho e incluído em seu livro Quero Ser Reginaldo Pujol Filho. Em um texto que é ao mesmo tempo sátira e homenagem a Mia Couto, um repórter brasileiro é enviado a Moçambique, recebendo sua primeira grande chance como correspondente internacional. Ao chegar lá, se vê às voltas com o pesadelo do jornalista em viagem: o laptop que o jornal forneceu dá pau. Por intermediação do guia, consegue comprar um notebook de segunda mão que antes havia pertencido a um escritor famoso do país. A partir daí, os despachos e reportagens redigidos no computador e enviados para o Brasil são recebidos na exata forma caricatural da prosa de Mia Couto, deixando o editor do jornal insano de confusão e raiva:

“Não sei o que dá no meu idioma, parece que minha gramática está ficando toda suja, da cor dessa terra. Parece-me assim, pois escrevo-lhe como desde sempre, mas recebes desde nunca o imagissonhado por mim. Pergunto-me se a África rouba-me o ser, se há uma almândega, donde os espíritos daqui carimbam minhas palavras – ou seriam palaves? Na falta d’um telefone, gravei uma testemunhação no computador, a qual envio-te para escutares e perceberes o trespassado comigo.”

Cada coisa em seu lugar, portanto. Um texto do Mia Couto, por mais valor literário que tenha, não poderia ser usado para passar uma notícia pontual sobre uma guerra civil. Pode sim mergulhar no cerne das consequências e dos fantasmas da guerra, como em Terra Sonâmbula, mas não seria uma reportagem para informar ao leitor quando o conflito começou, quantos mortos, o que dizem as agências humanitárias internacionais, etc. Logo, é uma noção arraigada do leitor que pauta o que é escrito em um jornal – e por tabela em seus espaços correlatos, como este blogue. Alguns dirão que por vezes alguns dos textos aqui publicados se puxam em contrariar o que acabei de escrever, mas ainda é uma certa ideia de leitor que determina o perfil um pouco diverso desta página para o restante do jornal impresso. Este é um espaço de leituras e leitores, e portanto os textos podem se dar ao luxo de ser mais longos – se não parecem muitas vezes tão mais cuidados, isso advém de outra peculiaridade do jornalismo diário: a pressa, mas isso é outra história.

Pensei nisso ao começar e leitura, esta semana, da revista Granta que tantas polêmicas suscitou desde o anúncio de seus participantes, durante a Flip, no início deste mês. Minha ideia era fazer uma resenha conto a conto mais ou menos nos moldes em que venho fazendo a atrasada seção Bairrismo? conta outra. O problema é que, devido à polêmica provocada pela escalação dos escritores, fiquei pensando se não deveria publicar textos em etapas, a cada leitura de duas ou três histórias da coletânea, abrindo espaço para uma crítica mais detalhada ao que menos foi falado até agora na controvérsia sobre quem são os escolhidos: os textos. Seria possível fazer isso – criticar três histórias já lidas do volume, por exemplo. Até porque cada uma delas despertou associações e questões que talvez merecessem um texto próprio cada um. Jonathan Franzen já escreveu, em um texto sobre a ficção de Alice Munro incluído no seu mais recente livro, Como Ficar Sozinho, que há um problema inerente à crítica de um livro composto por histórias curtas:

Com histórias curtas o desafio aos resenhistas é ainda mais extremo. Há alguma história em toda a literatura mundial cujo apelo possa sobreviver à típica sinopse? (Um encontro casual em um calçadão em Yalta une um marido entediado e uma dama com um cachorrinho… A loteria anual de uma cidadezinha revela-se a serviço de um propósito surpreendente… Um dublinense de meia-idade reflete sobre a vida e o amor ao deixar uma festa)

Em tempo: essa tradução aí de cima é minha porque escrevo sem o exemplar recente da Companhia nas mãos. Para quem sabe inglês, o texto original, uma resenha escrita para o New York Times, pode ser lido aqui.

Logo, talvez o mais justo com uma coletânea de contos e fragmentos que se propõe a mapear os “melhores jovens escritores do Brasil” fosse analisar mais detidamente cada conto, em uma série de posts dedicados a três ou quatro deles de cada vez. Mas aí esbarro naquela indefinição quanto ao que um eventual leitor desta página estaria esperando. Com tudo o que já se falou sobre a Granta em toda parte, estariam meus cinco leitores dispostos a mais seis ou sete posts sobre os contos do livro? Manifestem-se, por favor, na caixa de comentários. Vocês vão me ajudar a decidir: escrevo um post só ou amplio a análise em mais de um? Agora é com você